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Inmetro reposiciona a regulação como aliada da competitividade na Amazônia

Confira a Entrevista com presidente Márcio Brito concedida exclusivamente ao Portal Brasil Amazônia Agora

A maior aproximação entre o Inmetro e o Polo Industrial de Manaus sinaliza uma mudança relevante na relação entre regulação e produção. Como o senhor enxerga esse movimento?

Márcio Brito – Essa aproximação é essencial para alinhar a atuação do Inmetro às necessidades da Amazônia e do Polo Industrial de Manaus, transformando a regulação em instrumento de competitividade. Ao simplificar normas, reduzir custos de conformidade e agilizar processos, sem abrir mão da qualidade e da segurança, contribuímos para um ambiente de negócios mais previsível e atrativo a investimentos. A avaliação da conformidade e a acreditação também ampliam o acesso dos produtos do Polo a mercados globais.


A distância dos centros de certificação sempre pesou sobre a indústria da Zona Franca. O que muda com o fortalecimento da infraestrutura metrológica na região?

Márcio Brito – A distância dos centros de certificação impõe custos adicionais e prazos mais longos ao Polo Industrial de Manaus, criando uma assimetria que buscamos corrigir. A estratégia passa pela expansão da infraestrutura metrológica e da avaliação da conformidade na região Norte. Com mais laboratórios e organismos acreditados localmente, aproximamos os serviços de quem produz, reduzimos o custo amazônico e ganhamos agilidade na inovação e no lançamento de produtos.


Márcio Brito – O Programa Regional de Desenvolvimento da Infraestrutura da Qualidade (ProdIQ), instituído pela Portaria nº 390/2023 e ampliado pela Portaria nº 782/2025, já apresenta resultados concretos na Amazônia. Entre eles, a acreditação do Laboratório de Ensaios de Produtos (LabEP), da UEA, para ensaios em isqueiros, além da adesão do GP-QAT e do Centro de Bionegócios da Amazônia, que avançam para acreditação em áreas como meio ambiente, alimentos e bioinsumos.

No curto prazo, o objetivo é ampliar o número de laboratórios acreditados. No médio prazo, reduzir custos, diminuir a dependência de outras regiões e fortalecer a infraestrutura da qualidade como base para a competitividade e o desenvolvimento regional.


Márcio Brito – O novo Regulamento Geral de Certificação de Produtos traz regras mais claras, harmonizadas e previsíveis, o que é decisivo para setores de alta rotatividade tecnológica. A atualização automática dos regulamentos permite a adoção mais ágil de padrões atualizados, encurtando o time-to-market. Instrumentos como o termo de compromisso e as auditorias remotas também contribuem para reduzir a burocracia, sem comprometer a segurança.

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Quem é Márcio André Oliveira Brito?

É o atual presidente do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia). Ele é engenheiro ambiental e especialista em metrologia que assumiu o cargo em março de 2023. Ele tem focado sua gestão no fortalecimento da infraestrutura da qualidade, na modernização e no Programa Nova Indústria Brasil. Foi presidente do Ipem-AM (Instituto de Pesos e Medidas do Amazonas) por 12 anos antes de assumir o cargo federal.


Até onde é possível reduzir custos regulatórios mantendo padrões de qualidade e segurança?

Márcio Brito – A redução de custos regulatórios é uma prioridade, e é possível avançar na desburocratização sem flexibilizar padrões. O foco está na otimização dos regulamentos e na ampliação da transparência, com maior previsibilidade e normas modernizadas.

Desde 2023, o Inmetro aderiu ao plano de desburocratização do MDIC e passou a publicar agendas regulatórias bienais, ambas com metas pactuadas no contrato de desempenho com o Governo Federal.


Como equilibrar as demandas do Polo de Manaus com padrões nacionais e internacionais?

Márcio Brito – Esse equilíbrio se dá por meio de escuta ativa e diálogo permanente com a indústria, sempre com rigor técnico e alinhamento internacional. A proposta é transformar demandas regionais em melhorias que possam beneficiar todo o país, sem criar exceções isoladas.


Qual o papel do Inmetro na certificação de produtos da floresta?

Márcio Brito – O Inmetro atua na estruturação de rastreabilidade, normas técnicas, acreditação de laboratórios e métodos metrológicos, assegurando que os produtos da floresta atendam a padrões internacionais.

Exemplos incluem a quimiotipagem de madeira em tempo real e metodologias para fitoterápicos, que fortalecem a bioindústria local e ampliam sua inserção global.


Como a certificação ajuda a enfrentar a concorrência desleal?

Márcio Brito – A exigência de requisitos mínimos de segurança e o novo selo físico-digital do Inmetro tornam a certificação uma ferramenta importante no combate ao comércio ilegal. A fiscalização tem sido intensificada, inclusive no ambiente digital, com iniciativas como a Delegacia Cibernética e a atualização do arcabouço regulatório para incluir plataformas e sites.


Como o Inmetro apoia a transição tecnológica das empresas do Polo?

Márcio Brito – Com a Portaria nº 171/2026, foi criado o Programa de Classificação da Maturidade da Indústria 4.0, que avalia processos, tecnologia e organização. A iniciativa apoia decisões de investimento e oferece segurança jurídica para enquadrar projetos como PD&I, contribuindo para ganhos de eficiência e competitividade.

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Qual é a visão do Inmetro para o futuro da Amazônia?

Márcio Brito – A Amazônia é estratégica na visão do Inmetro. O objetivo é integrar a região à infraestrutura nacional da qualidade, ampliando laboratórios e serviços e reduzindo desigualdades.

Na bioeconomia, há uma oportunidade concreta de posicionar a região como vitrine global de inovação sustentável, com produtos rastreáveis e de alto valor agregado, tendo o Inmetro como parceiro da indústria nesse processo.

III Fórum ESG Amazônia revela nova consciência da indústria da floresta

Coluna Follow-Up

Trata-se de um momento particular em curso. Ele não se anuncia em narrativas grandiosas, mas se revela naquilo que começa a se organizar com método, protagonismo e direção. Um novo protagonismo em construção.

Sob a liderança de mulheres – com Régia Moreira à frente – o III Fórum ESG Amazônia, promovido por CIEAM e Suframa,  é muito mais que um evento de agenda institucional. É um sinal de mudança. Indica que a indústria da floresta começa há algum tempo a operar não só com novas métricas, mas com uma nova disposição de espírito. Há, ali, uma transição em curso: menos defensiva, mais propositiva; menos reativa, mais consciente do seu papel histórico.

E esse movimento não surge no vazio. Ele dialoga, ainda que indiretamente, com um debate que volta e meia reaparece no Amazonas, sempre carregado de tensão e simplificação: afinal, para onde vai a riqueza gerada pela indústria?

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A pergunta é legítima. Mas a resposta exige cuidado.

Durante anos, consolidou-se uma narrativa conveniente de que a indústria fatura muito e contribui pouco. Uma leitura que, ao ganhar força, parece dispensar análise mais rigorosa. O problema é que, quando os dados entram na conversa, essa percepção perde sustentação.

O Polo Industrial de Manaus não é apenas um enclave produtivo. É um dos principais estruturadores da economia regional. Gera empregos formais, com remuneração acima da média local, sustenta cadeias extensas de serviços e logística, e mantém viva uma dinâmica econômica que alcança centenas de milhares de famílias. Sua presença é capilar, atravessa a cidade e molda a vida urbana. Mas o dado mais relevante, e talvez o menos explorado, está na forma como essa riqueza é distribuída.

Estudos acadêmicos consistentes indicam que mais da metade da riqueza gerada pelo modelo retorna ao Estado sob a forma de tributos. Os trabalhadores ficam com uma parcela significativa, mas ainda distante desse volume. E as empresas, ao contrário do que sugere o senso comum, operam com uma fração menor do que a média nacional.

Isso não encerra o debate

Se o maior beneficiário da riqueza gerada é o poder público, a discussão precisa evoluir. Já não basta perguntar quanto a indústria paga. É indispensável perguntar o que se faz com o que já foi arrecadado. Como essa receita se converte – ou deixa de se converter – em infraestrutura, qualidade de vida, inclusão e futuro. É nesse ponto que o III Fórum ESG Amazônia ganha densidade política e estratégica.

Ao enfatizar o “S” da agenda – o social -, o encontro sugere que a indústria compreende a insuficiência de um modelo que se sustente apenas em indicadores econômicos e ambientais. Há um reconhecimento implícito de que o desenvolvimento precisa chegar com mais clareza às pessoas, aos territórios, às periferias urbanas e ao interior profundo da Amazônia. Mas essa agenda não é responsabilidade exclusiva do setor produtivo.

Se há lacunas na distribuição dos ganhos, elas não serão resolvidas por pressão isolada sobre a indústria. Exigem articulação. Exigem um projeto de Estado. Exigem, sobretudo, capacidade de coordenação entre quem arrecada, quem regula e quem produz.

O Amazonas segue devendo a si mesmo um Plano Estratégico de Desenvolvimento – já em discussão – que vá além da retórica. Um plano com metas claras, prazos verificáveis e compromisso público. Um instrumento capaz de enfrentar questões que permanecem abertas há décadas.

Como transformar arrecadação em política pública efetiva?

Como garantir que fundos existentes cumpram sua finalidade?

Como integrar indústria e bioeconomia de forma consistente?

Como interiorizar oportunidades e reduzir a pressão sobre Manaus?

Como ampliar a participação social nos resultados sem fragilizar a competitividade?

A Zona Franca já demonstrou sua capacidade de gerar riqueza, sustentar empregos, financiar ciência e manter estruturas essenciais como a universidade pública. O que ainda carece de demonstração, na mesma escala, é a capacidade coletiva de converter essa base econômica em um projeto integrado de desenvolvimento.

O que se vê agora, com o protagonismo feminino no Fórum ESG, é um ensaio de resposta. Ainda inicial, ainda em construção, mas relevante. Porque aponta para uma indústria que não apenas reage às críticas, mas começa a incorporar o debate como parte de sua própria agenda.

A questão, portanto, permanece. Não se trata mais de saber apenas quanto a indústria paga. Trata-se de compreender, com responsabilidade e transparência, o que o Amazonas está disposto a fazer com tudo aquilo que já foi gerado.

Mais informações sobre o evento acesse: https://www.sympla.com.br/evento/iii-forum-de-esg-cieam-suframa/3282927


Follow-Up é publicada pelo Jornal do Comércio do Amazonas às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal BrasilAmazôniaAgora. 

Do silêncio à dignidade: dois anos de escuta, compromisso e transformação

Ao completar dois anos, a Ouvidoria da Mulher do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas não pode ser compreendida apenas como uma conquista institucional. Ela é, antes de tudo, uma resposta. Uma resposta a uma realidade que constrange, que fere e que, por tempo demais, foi naturalizada.

Vivemos em um país que ainda registra mais de mil feminicídios por ano. Um país em que a violência contra a mulher se infiltra no cotidiano com uma persistência cruel, muitas vezes invisível, quase sempre silenciada. No Amazonas, esse cenário se agrava pelas distâncias, pelas ausências do poder público em determinadas regiões e por uma cultura que, não raras vezes, impõe às mulheres o peso do medo e da resignação.

dois anos de escuta

A criação da Ouvidoria da Mulher, em abril de 2024, foi uma decisão orientada por um princípio simples, mas inegociável: nenhuma instituição pública pode se considerar completa se não for capaz de escutar, acolher e proteger as mulheres que dela fazem parte e aquelas que a ela recorrem.

Em dois anos, acolhemos histórias que não cabem em relatórios. Histórias de dor, de constrangimento, de violência física e emocional. Mas também histórias de coragem. De mulheres que, ao romper o silêncio, iniciam um processo de reconstrução que exige mais do que amparo jurídico. Exige presença, responsabilidade e humanidade.

Os números que apresentamos — casos solucionados, demandas atendidas, tipologias de violência — são importantes. Mas não são o centro desta reflexão. O que está em jogo é algo mais profundo: a restauração da confiança. A afirmação de que é possível encontrar, no Estado, não apenas uma estrutura burocrática, mas um espaço de escuta qualificada e de ação efetiva.

Esse talvez seja o maior significado desta Ouvidoria. Ela não é apenas um canal. É uma postura institucional. E é precisamente por isso que este segundo ano nos impõe novos desafios.

Não basta acolher. É preciso prevenir. Não basta reagir. É necessário transformar. Não basta oferecer respostas individuais. É urgente influenciar comportamentos coletivos.

A violência contra a mulher não se sustenta apenas em atos isolados. Ela se alimenta de permissividades históricas, de silêncios convenientes, de estruturas que, muitas vezes, falham em reconhecer a gravidade do problema. Enfrentá-la exige mais do que protocolos. Exige coragem institucional e compromisso contínuo.

Expandir a atuação para além dos muros do Tribunal. Fortalecer a articulação com outras instituições. Levar informação, orientação e proteção aonde a vulnerabilidade é maior. E, sobretudo, reafirmar, em cada gesto e em cada decisão, que a dignidade da mulher não está em negociação.

Há um ponto que não pode ser ignorado.

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A presença da mulher na sociedade nunca foi um problema a ser resolvido. Ao contrário, é uma das suas mais consistentes bases de sustentação. Está na origem da vida, na formação dos valores, na condução das famílias, na inteligência que organiza, na sensibilidade que percebe o que muitas vezes passa despercebido.

Reduzir essa presença à condição de vulnerabilidade é uma distorção histórica. Reconhecê-la como potência é uma exigência do nosso tempo.

A Ouvidoria da Mulher nasce e se fortalece nesse entendimento. Como um espaço de acolhimento, sim, mas também como um instrumento de afirmação. De respeito. De valorização. Celebrar dois anos dessa trajetória é, portanto, reafirmar um compromisso.

Compromisso com a escuta que não julga. Com o acolhimento que não expõe. Com a ação que não se omite. E com a construção de uma cultura em que nenhuma mulher precise escolher entre o silêncio e a sua própria dignidade.

Se há algo a celebrar, é isso: a decisão de não aceitar mais o inaceitável. E essa decisão, esta sim, precisa ser renovada todos os dias.

Facções na Amazônia transformam crimes ambientais em negócio lucrativo

Levantamento mostra que facções na Amazônia avançam sobre recursos naturais, conectando tráfico de drogas à economia ilegal e intensificando pressões sobre povos indígenas.

Um estudo recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta uma mudança relevante na atuação do crime organizado, com o avanço das facções na Amazônia e a incorporação de crimes ambientais como parte central das estratégias de expansão e financiamento dessas organizações.

De acordo com o relatório Cartografias da Violência na Amazônia 2025, grupos como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital passaram a investir de forma sistemática na exploração ilegal de recursos naturais, como o garimpo e a extração clandestina de madeira. Essas atividades deixaram de ser periféricas e passaram a integrar a lógica econômica das facções na Amazônia.

A pesquisa indica que essa mudança altera o padrão histórico de atuação desses grupos, antes concentrado principalmente no controle de rotas do tráfico de drogas. Agora, a diversificação inclui a apropriação de territórios estratégicos na floresta, ampliando as fontes de renda ilícita e consolidando a presença das facções na Amazônia.

No Amazonas, municípios como Humaitá, Lábrea e Manicoré já apresentam registros de presença direta dessas organizações associada a crimes ambientais. Nesses locais, a atuação das facções interfere nas dinâmicas sociais e econômicas, criando novos mecanismos de controle territorial.

Segundo a pesquisadora sênior do Fórum, Ariadne Natal, há uma conexão direta entre essas atividades e o tráfico de drogas. “Essas organizações chegam à Amazônia com interesse estratégico em controlar a cadeia do tráfico de drogas direto da produção. Ao se inserirem na economia ilegal local, passam a explorar outras possibilidades, como o garimpo, que permite reinvestir e lavar o dinheiro obtido com o tráfico”, afirma.

Barcos utilizados em operação policial para monitoramento de rios no Amazonas diante do avanço de facções na Amazônia.
Monitoramento fluvial no Amazonas reforça o combate à atuação de facções na Amazônia, que expandem atividades ilegais na região. Foto: Divulgação

O estudo também associa a expansão desse modelo ao enfraquecimento de políticas de fiscalização ambiental e proteção de territórios indígenas, especialmente a partir de 2018. A menor presença do Estado teria facilitado a consolidação dessas atividades ilícitas.

Além da exploração direta, as facções passaram a impor cobranças sobre atividades ilegais realizadas em áreas sob sua influência, estruturando um sistema de arrecadação e controle econômico.

Para os especialistas responsáveis pela pesquisa, o avanço desse modelo representa um desafio crescente para as autoridades. O crime organizado na região torna-se mais complexo, integrado à economia ilegal da floresta e com impactos simultâneos sobre o meio ambiente, a segurança pública e a proteção de comunidades tradicionais e povos indígenas.

Entenda como o futuro do planeta passa pela mineração em terras indígenas

A corrida por minerais críticos para a transição energética intensifica conflitos em torno da mineração em terras indígenas e evidencia tensões entre diferentes modelos de desenvolvimento, direitos dos povos originários e preservação ambiental.

O interesse econômico sobre terras indígenas no Brasil não é recente. Ao longo da história, esses territórios estiveram no centro de ciclos de expansão extrativista, da exploração mineral ao avanço da fronteira agropecuária, orientados por uma lógica desenvolvimentista que os tratou como reservas de recursos a serem incorporadas ao crescimento econômico. 

Durante a ditadura civil-militar, esse processo se intensificou com projetos de ocupação da Amazônia e incentivos à mineração, que impulsionaram também o garimpo ilegal, deixando um legado de conflitos, degradação ambiental e violações de direitos que ainda reverberam em regiões como a Terra Indígena Yanomami.

Décadas depois, essa pressão ressurge sob novas justificativas e em outra escala. A corrida global por minerais estratégicos, essenciais para tecnologias de energia limpa, recoloca o Brasil no centro das cadeias produtivas do século XXI e intensifica o debate sobre a mineração em terras indígenas. 

Impulsionada pela demanda por insumos como lítio, cobre, níquel e terras raras, a transição energética projeta o país como fornecedor-chave, ao mesmo tempo em que amplia disputas políticas e econômicas envolvendo governo, Congresso, empresas do setor mineral e o movimento indígena organizado.

Na Amazônia e em outros territórios indígenas, essa convergência entre interesses globais e agendas nacionais evidencia uma contradição estrutural: para reduzir a dependência de combustíveis fósseis, cresce a necessidade de expandir a mineração, uma atividade que pressiona justamente áreas altamente preservadas. 

Parte significativa dos depósitos minerais ainda não explorados está nas terras indígenas, que desempenham papel central na conservação da biodiversidade e na regulação climática. Nesse contexto, propostas que buscam regulamentar ou ampliar a mineração em terras indígenas reacendem um conflito histórico entre diferentes projetos de país e economia.

Amostras de minerais críticos, como lítio e cobre, utilizados na transição energética e associados à mineração em terras indígenas.
Foto: Adobe Stock

O Brasil no mapa da nova corrida mineral

A transição para uma economia de baixo carbono também tem redefinido o eixo da geopolítica energética global. Minerais críticos tornaram-se insumos centrais para tecnologias como baterias, turbinas eólicas e semicondutores, colocando países com grandes reservas, como o Brasil, no centro da disputa por cadeias produtivas estratégicas.

O país detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, com cerca de 21 milhões de toneladas, além de volumes significativos de outros minerais. As principais reservas estão em Minas Gerais, Goiás, Bahia, Amazonas e Piauí. 

Apesar do potencial, a exploração dos recursos ainda é incipiente. Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), quase 90% dos processos minerários ativos estão em fase inicial, o que evidencia a distância entre potencial geológico e capacidade produtiva, fator que amplia a pressão para acelerar a exploração.

A nova corrida mineral chega às terras indígenas

Esse cenário se reflete diretamente nas terras indígenas. Dados do Observatório da Transição Energética indicam que ao menos 278 dos territórios indígenas, cerca de 44% do total, já são alvo de requerimentos para exploração de minerais críticos. 

Para a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), há o risco de que esses territórios se tornem “zonas de sacrifício” em nome da transição energética. A pressão também se materializa em iniciativas legislativas e decisões institucionais, como a determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), em fevereiro de 2026, para que o Congresso regulamente a mineração em terras indígenas em até dois anos.

A decisão acendeu alertas entre organizações indígenas e especialistas. Entre os principais riscos apontados estão a ausência de consulta ampla aos povos afetados, a falta de clareza sobre os limites da exploração e a possibilidade de transferir às próprias comunidades responsabilidades do Estado por meio da renda minerária. 

Também se critica a priorização da mineração em detrimento de alternativas como a bioeconomia, além da abertura para atuação de empresas privadas em territórios sensíveis. Em um contexto de fragilização do licenciamento ambiental, a ampliação da mineração em terras indígenas pode intensificar a pressão sobre áreas altamente preservadas e tensionar compromissos climáticos e direitos territoriais.

Imagem aérea de área de garimpo ilegal na Amazônia, mostrando desmatamento e impactos da mineração em terras indígenas.
Vista aérea de área degradada por garimpo ilegal na Amazônia. Foto: Vinicius Mendonça/Ibama

As áreas mais preservadas do Brasil

As terras indígenas, por sua vez, desempenham um papel ecológico insubstituível. Entre 1985 e 2023, essas áreas perderam apenas 1% de sua vegetação nativa, frente a 28% nas terras privadas, um dado que evidencia a eficácia do manejo tradicional indígena na conservação ambiental. 

Essas áreas também concentram cerca de 61% do carbono florestal capturado na Amazônia e são fundamentais para a estabilidade climática. A expansão da mineração em terras indígenas, portanto, não representa apenas uma ameaça à biodiversidade, mas também o risco de se liberar grandes volumes de gases de efeito estufa acumulados ao longo de séculos.

Apesar de representarem menos de 0,5% do desmatamento nacional, segundo o MapBiomas, as terras indígenas enfrentam crescente pressão externa. No Cerrado, por exemplo, o desmatamento nessas áreas aumentou 188% em 2023, impulsionado pela expansão agropecuária no entorno. Esse cenário evidencia a vulnerabilidade dessas fronteiras diante da falta de fiscalização e indica que a abertura para a mineração pode atuar como vetor adicional de degradação.

Território Yanomami com floresta preservada destaca o papel das comunidades na captura de carbono na Amazônia.
Terras Indígenas como a Yanomami concentram algumas das áreas mais preservadas do bioma e são essenciais para manter a captura de carbono na Amazônia. Terra Indígena Pirititi, Roraima. Foto: Felipe Werneck/Ibama.

Os custos socioambientais da mineração

Os impactos da mineração são múltiplos e atingem diretamente as comunidades. A atividade pode contaminar rios com mercúrio e outros metais pesados, comprometer o abastecimento de água e a pesca, além de favorecer a disseminação de doenças como a malária. 

A mineração também está associada ao aumento da violência, com invasões e tentativas de coação de lideranças e à destruição de sítios culturais e sagrados. Diante disso, a resistência indígena se apoia no direito ao Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI), previsto na Convenção 169 da OIT. 

No entanto, relatórios indicam que mais da metade dos casos globais de violação de direitos humanos ligados à extração de minerais ocorre sem consulta adequada. No Brasil, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) denuncia que a pressão pela mineração em terras indígenas no país desconsidera a diversidade de posições entre os 391 povos indígenas, tratando esses territórios como áreas disponíveis para exploração econômica.

Dois projetos de território em disputa

A disputa em torno das terras indígenas no Brasil revela a coexistência e o confronto entre dois projetos distintos de desenvolvimento e uso do território. De um lado, a perspectiva desenvolvimentista que passou a tratar a Amazônia e outros territórios indígenas como fronteiras econômicas a serem integradas ao crescimento nacional. 

Nesse modelo, o território é visto como ativo estratégico, voltado à exploração de recursos naturais por meio de atividades como mineração, expansão da fronteira agrícola e grandes obras de infraestrutura. Ao longo das décadas, essa lógica se manteve, ainda que com diferentes discursos, frequentemente associada à promessa de geração de riqueza, aumento da produtividade e inserção do Brasil nas cadeias globais, mas também marcada por impactos socioambientais, conflitos territoriais e pressões contínuas sobre povos indígenas.

Por outro lado, os povos indígenas defendem uma concepção de território que ultrapassa sua dimensão econômica. Nessas comunidades, a terra é entendida como espaço de vida, memória e espiritualidade, base das relações sociais e dos sistemas de conhecimento que orientam o uso sustentável dos recursos naturais. 

Essa perspectiva não se opõe à produção, mas propõe outras formas de produtividade, ancoradas na sociobiodiversidade, na gestão territorial comunitária e em iniciativas de bioeconomia que respeitem os modos de vida indígenas. Ao invés da exploração intensiva, trata-se de uma lógica que busca equilíbrio entre uso e conservação, garantindo a continuidade dos modos de vida e contribuindo para a manutenção de ecossistemas essenciais. 

A tensão entre esses dois projetos evidencia que o debate sobre a mineração em terras indígenas não se resume a uma questão econômica, mas envolve visões distintas sobre desenvolvimento, valor e futuro do território, especialmente no contexto da crise climática. 

Indígenas realizando plantio tradicional em território, prática sustentável que contrasta com a mineração em terras indígenas.
Plantio tradicional em território indígena evidencia formas sustentáveis de uso da terra, baseadas na relação entre cultura, biodiversidade e autonomia. Foto: Leilane Marinho.

Marca oficial da Amazônia usa rios reais para criar identidade inédita

Com tipografia formada por rios reais, a marca oficial da Amazônia aposta em inovação e identidade territorial para impulsionar a bioeconomia e dar visibilidade a produtos da sociobiodiversidade.

A Amazônia brasileira passa a contar com uma identidade visual unificada voltada à promoção internacional do território e ao fortalecimento da bioeconomia. A iniciativa reúne a Embratur e o projeto Rotas Amazônicas Integradas, com desenvolvimento conduzido pela FutureBrand São Paulo.

A proposta busca superar a fragmentação da comunicação da Amazônia Legal, que abrange nove estados, cerca de 60% do território nacional e mais de 28 milhões de habitantes. Nesse contexto, a marca oficial da Amazônia surge como ferramenta para alinhar narrativas, sem apagar identidades locais. Em vez disso, funciona como um sistema visual flexível, capaz de dialogar com diferentes contextos culturais, econômicos e territoriais.

Diferentes aplicações da marca oficial da Amazônia em ilustrações.
Aplicações da marca oficial da Amazônia mostram versatilidade e colaborações com artistas da região. Foto: Divulgação

Um dos diferenciais do projeto está na construção da tipografia. As letras que compõem o nome “Amazônia” foram formadas a partir de curvas reais do Rio Amazonas e de seus afluentes. Com base em imagens de satélite, a equipe selecionou trechos dos rios cujos contornos se assemelham às letras do alfabeto, transformando a paisagem em elemento central da identidade visual.

Imagens de satélite usadas na criação da tipografia da marca oficial da Amazônia com base nos rios amazônicos
Imagens de satélite deram origem à tipografia da marca oficial da Amazônia, com letras formadas a partir das curvas dos rios. Foto: Divulgação.

Além da comunicação institucional, a estratégia inclui o selo “Feito de Amazônia”, que deverá identificar produtos, serviços e experiências com origem comprovada na região. A medida pretende ampliar a visibilidade de cadeias produtivas locais e apoiar pequenos negócios vinculados à sociobiodiversidade, conectando-os a mercados nacionais e internacionais. A marca oficial da Amazônia também atua como um selo de confiança, agregando valor aos produtos regionais.

O turismo aparece como eixo estruturante da iniciativa. A proposta é integrar conservação ambiental, valorização cultural e geração de renda, posicionando a região como destino estratégico no cenário global. Nesse contexto, a marca oficial da Amazônia reforça atributos ligados à diversidade, à sustentabilidade e à autenticidade do território.

A expectativa das instituições envolvidas é que a identidade unificada contribua para ampliar a presença da região no mercado internacional e fortalecer sua imagem como polo de bioeconomia, articulando desenvolvimento econômico e conservação ambiental.

Etiqueta Feito de Amazônia associada à marca oficial da Amazônia para identificação de produtos regionais
Selo “Feito de Amazônia” integra a marca oficial da Amazônia e identifica produtos com origem comprovada no bioma. Foto: Divulgação

Povos indígenas levam proposta de zonas livres de petróleo e gás ao governo

Proposta apresentada no Acampamento Terra Livre defende zonas livres de petróleo e gás como estratégia para enfrentar crise climática e proteger a biodiversidade no Brasil.

A criação de áreas livres de exploração de petróleo, gás e carvão passou a integrar a agenda climática defendida por lideranças indígenas no Brasil. A proposta, apresentada no âmbito do Acampamento Terra Livre, busca estabelecer zonas livres de petróleo e gás em regiões consideradas estratégicas para a biodiversidade e o equilíbrio climático.

Mais do que uma medida ambiental, a iniciativa propõe uma mudança estrutural na forma como o desenvolvimento é pensado. Para as organizações indígenas, enfrentar a crise climática exige rever a relação entre economia, território e direitos, colocando os povos originários como agentes centrais na proteção dos ecossistemas.

A proposta inclui a interrupção da abertura de novos campos de exploração de combustíveis fósseis e a construção de um acordo internacional vinculante para eliminar gradualmente essas fontes de energia. Nesse contexto, as zonas livres de petróleo e gás funcionariam como instrumentos concretos de preservação, priorizando áreas de alta relevância ecológica e cultural.

Lideranças indígenas reunidas em frente ao Congresso Nacional durante o Acampamento Terra Livre defendendo zonas livres de petróleo e gás no Brasil
Mobilização indígena no Acampamento Terra Livre reúne lideranças em Brasília em defesa de zonas livres de petróleo e gás e da proteção dos territórios tradicionais. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

De acordo com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), a demarcação e a proteção de terras indígenas são ações diretas de mitigação das mudanças climáticas. Estudos e dados reunidos pela entidade indicam que esses territórios apresentam taxas significativamente menores de desmatamento, além de desempenharem papel decisivo na manutenção de serviços ambientais essenciais.

A proposta também dialoga com experiências internacionais recentes. Um dos exemplos citados é a decisão do Equador de encerrar a exploração de petróleo no Parque Nacional Yasuní, considerada uma das regiões mais biodiversas do planeta. Medidas semelhantes vêm sendo discutidas em outros países latino-americanos, reforçando a ideia de zonas de exclusão para atividades fósseis.

Outro ponto central da agenda é o reconhecimento do direito à consulta livre, prévia e informada (CLPI), previsto em acordos internacionais, como condição para qualquer decisão que afete territórios indígenas. Para as lideranças, sem esse reconhecimento, não há base para uma transição energética justa.

Ao reunir milhares de participantes, o Acampamento Terra Livre se consolida como espaço de articulação política e formulação de propostas que ultrapassam o contexto nacional. A defesa das zonas livres de petróleo e gás reflete uma visão de longo prazo, na qual a proteção dos territórios indígenas é vista não apenas como uma questão de justiça histórica, mas uma estratégia indispensável para conter o avanço da crise climática global.

BR-319 e o teste da soberania brasileira em tempos de crise climática


A BR-319 deixou de ser apenas uma estrada projetada no território amazônico para se tornar um dos pontos mais sensíveis da agenda nacional. A recorrência de eventos climáticos extremos, especialmente as secas severas que atingem os grandes rios da região, alterou o eixo do debate. Já não se trata apenas de discutir infraestrutura, mas de compreender os limites de um modelo histórico de mobilidade que passa a dar sinais claros de esgotamento.

A seca como ruptura do modelo histórico de mobilidade

Por décadas, os rios sustentaram a lógica de integração amazônica. Foram caminhos naturais de abastecimento, circulação e conexão entre comunidades. No entanto, a frequência e a intensidade das secas recentes introduzem um elemento novo: a imprevisibilidade. Trechos antes navegáveis tornam-se intransponíveis, cadeias de suprimento são interrompidas e o custo logístico se eleva de forma abrupta. O que era uma vantagem geográfica passa a se converter em vulnerabilidade estrutural.

Quando os rios deixam de garantir a integração

A crise hídrica recorrente revela um dado incômodo. A dependência quase exclusiva da navegação fluvial deixa a região exposta a choques climáticos cada vez mais frequentes. Municípios enfrentam dificuldades de abastecimento, serviços essenciais sofrem descontinuidade e o isolamento deixa de ser uma condição pontual para se tornar um risco sistêmico. Nesse contexto, a BR-319 ressurge como alternativa concreta, não por escolha ideológica, mas por necessidade prática.

O isolamento logístico e seus efeitos sobre a cidadania

Não há cidadania plena onde o acesso é intermitente. A precariedade logística impõe custos diretos à população, seja no preço dos alimentos, na oferta de serviços de saúde ou na regularidade do ensino. O isolamento não é apenas geográfico, é social e econômico. A ausência de uma conexão terrestre contínua amplia desigualdades e limita o alcance de políticas públicas, criando uma realidade onde direitos fundamentais tornam-se condicionais.

Infraestrutura como expressão concreta de soberania

Soberania não se sustenta em declarações formais. Ela se manifesta na capacidade de integrar o território, de garantir presença institucional e de oferecer condições mínimas para o desenvolvimento das populações locais. Em regiões onde o Estado é intermitente, a infraestrutura assume papel estratégico. A BR-319, nesse sentido, representa mais do que uma via de transporte. É um instrumento de afirmação nacional em uma área de crescente interesse geopolítico.

A ausência do Estado e a expansão da ilegalidade

A experiência amazônica demonstra que o vazio institucional não permanece neutro. Onde o Estado não está, outras dinâmicas ocupam o espaço. Atividades ilegais prosperam, redes informais se consolidam e o controle territorial se fragiliza. A discussão sobre a BR-319 não pode ignorar esse fator. Sem presença permanente, sem fiscalização e sem governança, qualquer infraestrutura corre o risco de amplificar problemas já conhecidos.

O risco ambiental e a necessidade de um novo paradigma

A história das estradas na Amazônia é também a história de vetores de desmatamento desordenado. Esse legado impõe cautela. A reconstrução da BR-319 não pode repetir padrões do passado. O desafio está em estabelecer um novo paradigma, baseado em monitoramento contínuo, uso intensivo de tecnologia e articulação entre órgãos ambientais, forças de segurança e comunidades locais. Não se trata de negar os riscos, mas de enfrentá-los com inteligência institucional.

A intensificação das secas na Amazônia, com impactos diretos sobre a navegação e o abastecimento, expõe a fragilidade logística da região e recoloca a BR-319 no centro de uma agenda que envolve soberania, cidadania e segurança estratégica.
foto: Michael Dantas

Monitoramento e governança como condições inegociáveis

Qualquer avanço sobre a BR-319 exige um modelo robusto de governança. Sistemas de vigilância em tempo real, controle de ocupação, licenciamento rigoroso e presença efetiva do Estado são pré-condições. A estrada, isoladamente, não resolve o problema. Sem esses elementos, ela se transforma em vetor de pressão adicional sobre a floresta e sobre os próprios territórios vulneráveis.

Segurança estratégica em uma região de interesse global

A Amazônia ocupa posição central no cenário internacional, seja por seus ativos ambientais, seja por seu potencial econômico. A desconexão interna fragiliza a capacidade de resposta do país em situações de emergência, limita a mobilidade de forças de defesa e compromete a eficácia de políticas públicas em áreas sensíveis. A BR-319, nesse contexto, insere-se também na lógica da segurança estratégica.

A BR-319 como instrumento, não como solução isolada

É um equívoco tratar a estrada como resposta única. Ela deve ser compreendida como parte de um arranjo mais amplo, que inclui políticas de desenvolvimento regional, proteção ambiental e fortalecimento institucional. Sem essa integração, qualquer intervenção tende a produzir resultados parciais ou contraditórios.

O custo social e econômico da desconexão amazônica

Temos vivido o adiamento constante da decisão sobre a BR-319 e isso não elimina os riscos. Apenas perpetua um modelo de isolamento que impõe custos elevados à população e limita o potencial econômico da região. Em um cenário de mudanças climáticas, essa escolha torna-se ainda mais onerosa, pois reduz a capacidade de adaptação diante de eventos extremos. Torcemos para que os compromissos recentes de intervenção sejam efetivados. 

Entre a emergência climática e a responsabilidade institucional

O Brasil se encontra diante de uma encruzilhada. A intensificação das secas exige respostas estruturais, ao mesmo tempo em que a preservação da floresta demanda rigor e responsabilidade. Conciliar esses objetivos não é tarefa simples, mas é inevitável e inadiável A omissão, neste caso, não é uma alternativa neutra.

A hora de integrar sem delongas é agora

A BR-319, mais do que uma obra, tornou-se um teste de maturidade institucional. O que está em jogo é a capacidade do país de integrar seu território, proteger seus ativos estratégicos e oferecer condições dignas à sua população, sem abrir mão de seus compromissos ambientais. É nesse equilíbrio que se define o futuro da Amazônia e, em grande medida, o próprio sentido de soberania no século XXI.

ESG na Amazônia: entre a urgência social e a estratégia industrial, a agenda ganha densidade no CIEAM

Coluna Follow-Up

Conversa com Régia Moreira Leite – IMPRAM  e Alfredo Lopes – BrasilAmazoniaAgora

A agenda ESG deixou de ser um conceito importado para se tornar um campo de disputa estratégica na Amazônia. No Amazonas, onde a exuberância ambiental convive com indicadores sociais ainda frágeis, o tema assume contornos próprios. Não se trata apenas de aderir a padrões globais, mas de responder a um território que exige coerência entre discurso e prática.

À frente da coordenação dessa agenda no Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM), Régia Moreira tem insistido em um ponto que, aos poucos, começa a reorganizar o debate: o ESG, na região, precisa ser interpretado a partir do social.

A leitura não é trivial. Durante anos, a dimensão ambiental dominou a narrativa sobre a Amazônia, muitas vezes dissociada das condições concretas de vida da população. O resultado foi um modelo de debate que, embora relevante, deixou lacunas importantes.

Régia desloca esse eixo. Para ela, o “S” não pode ocupar um papel secundário.

Essa visão ganha força em um momento em que a indústria da Zona Franca de Manaus busca reafirmar seu papel no desenvolvimento regional, especialmente diante de críticas recorrentes e de um ambiente internacional cada vez mais exigente.

ESG NA AMAZONIA

No plano empresarial, a abordagem se materializa em decisões concretas. Régia enfatiza que governança não pode ser reduzida a protocolos formais ou relatórios.

Na empresa onde atua, ela liderou a implementação de medidas voltadas à ampliação da participação interna, maior clareza nos processos decisórios e integração entre estratégia e impacto social. A proposta é simples na formulação, mas exigente na execução: alinhar o negócio ao território.

Esse movimento responde a uma exigência crescente. A Amazônia passou a ocupar o centro das atenções globais, e com isso aumentou o nível de escrutínio sobre empresas que operam na região.

No plano institucional, o CIEAM emerge como espaço de convergência. A agenda ESG, dentro da entidade, não se limita a uma pauta temática. Ela organiza um campo de diálogo entre empresas, instituições e sociedade.

É nesse contexto que se insere o III Fórum de ESG do CIEAM, realizado em parceria com a SUFRAMA, marcado para o dia 15 de abril, em Manaus. Mais do que um evento, o encontro simboliza a consolidação de uma agenda que deixa de ser periférica.

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Créditos: Divulgação

A expectativa é que o evento amplie a compreensão sobre como práticas sustentáveis podem se traduzir em vantagem competitiva, especialmente em um cenário em que investidores, mercados e governos demandam padrões mais elevados de responsabilidade.

Outro elemento que ganha relevo na construção dessa agenda é a presença feminina. Régia trata o tema sem retórica, mas com clareza.

A observação dialoga com a própria natureza do ESG, que exige abordagem sistêmica e capacidade de integrar múltiplos interesses. Em um ambiente historicamente marcado por estruturas mais rígidas, essa ampliação de olhar tende a produzir efeitos concretos.

Ao final, a discussão converge para um ponto decisivo: o ESG pode ser custo ou ativo, dependendo de como é incorporado.

Quando você traz o ESG para dentro da estratégia, ele deixa de ser obrigação e passa a gerar valor”.

Na Amazônia, essa equação ganha densidade. A região é, ao mesmo tempo, vitrine global e território de desafios históricos. Empresas que conseguirem traduzir responsabilidade em resultado tendem a ocupar posição privilegiada.

A agenda está posta. O que se observa agora é um movimento de amadurecimento, no qual a indústria começa a assumir, de forma mais estruturada, o papel que lhe cabe na construção de um modelo de desenvolvimento compatível com a complexidade amazônica”.

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PIM acelera produção de bicicletas e consolida transição para modelos elétricos

Avanço das elétricas e recomposição do ritmo produtivo indicam reconfiguração do setor

A produção de bicicletas no Polo Industrial de Manaus (PIM) atingiu 32.107 unidades em março, segundo dados da Abraciclo, estabelecendo o melhor resultado mensal do ano e interrompendo, ao menos parcialmente, o ciclo de retração observado no início de 2024. O crescimento de 10,2% na comparação com março do ano anterior e, sobretudo, a expansão de 33,1% frente a fevereiro revelam mais do que uma recuperação pontual: indicam um esforço de recomposição produtiva em um setor que ainda opera sob ajustes de demanda e reorganização de estoques.

O desempenho ocorre em um ambiente que permanece tensionado por fatores macroeconômicos e por mudanças no comportamento do consumidor. Ainda assim, a indústria instalada no PIM demonstra capacidade de adaptação, mantendo um fluxo produtivo estável e calibrando sua operação à nova realidade de consumo. Há, nesse movimento, um reposicionamento silencioso das fabricantes, que passam a operar menos orientadas por volume e mais pela diversificação e qualificação do portfólio.

produção de bicicletas
Bicicletas elétricas

Essa inflexão se torna mais evidente no avanço das bicicletas elétricas. Em março, foram produzidas 5.447 unidades, o que representa um crescimento expressivo de 142,3% na comparação anual. Trata-se de um segmento que deixa de ocupar uma posição marginal e passa a influenciar diretamente a estratégia industrial. A expansão das elétricas não é apenas um fenômeno de mercado; ela traduz a convergência entre mobilidade urbana, transição energética e novas exigências de eficiência e conveniência por parte do consumidor.

Ao mesmo tempo, o acumulado do primeiro trimestre — 75.265 unidades — ainda registra retração de 9,5% frente ao mesmo período de 2023, o que evidencia que a recuperação não é homogênea nem consolidada. O setor segue em processo de ajuste, convivendo com oscilações que refletem tanto a desaceleração do consumo em períodos recentes quanto a necessidade de reequilibrar a cadeia produtiva após ciclos de expansão anteriores.

No recorte por categorias, a predominância das Mountain Bikes (MTB), com 35,5% da produção em março, reafirma a resiliência de um segmento consolidado, tradicionalmente associado tanto ao lazer quanto ao uso utilitário em diferentes contextos urbanos e regionais. A manutenção do ranking no trimestre — com MTB à frente, seguidas por Urbana/Lazer e Infantojuvenil — sugere estabilidade na estrutura de mercado, ainda que pressionada por transformações em curso.

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A distribuição regional reforça o peso estrutural do Sudeste, destino de 44,8% da produção em março e mais de metade no acumulado trimestral. Esse dado não apenas reflete a concentração econômica do país, mas também evidencia onde a demanda por mobilidade alternativa e consumo de maior valor agregado tem se consolidado com maior intensidade. As demais regiões, embora com participação menor, mantêm relevância estratégica, especialmente em contextos onde a bicicleta cumpre função de transporte essencial.

Nesse cenário, os 50 anos da Abraciclo ganham um significado que ultrapassa a celebração institucional. A trajetória da entidade acompanha a própria consolidação do Brasil como o principal polo de produção de veículos de duas rodas fora da Ásia — um feito que não se sustenta apenas em escala, mas em capacidade tecnológica, integração industrial e adaptação a diferentes ciclos econômicos.

A indústria de bicicletas no PIM, inserida nesse contexto, passa por uma transição que combina desafios conjunturais e oportunidades estruturais. Entre a recomposição do volume e a incorporação de novas tecnologias, o setor começa a desenhar um novo padrão de crescimento, menos dependente de picos de produção e mais ancorado em inovação, eficiência e alinhamento com as transformações da mobilidade contemporânea.

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Acesse a apresentação com os números completos do Segmento de Bicicletas:  

https://abraciclo.com.br/wp-content/uploads/2026/04/Fechamento_do_mes_-_marco_de_2026-Bicicletas.pdf

Fundada em 1976 e contando com 15 associadas, a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares – ABRACICLO representa os fabricantes de veículos de duas rodas no país, tendo como principal missão promover o desenvolvimento sustentável e a competitividade do Setor de Duas Rodas, apoiando e defendendo a indústria nacional estabelecida no Polo Industrial de Manaus – PIM por meio dos pilares Política Industrial, Segurança Viária e Técnico.

A fabricação nacional de motocicletas, quase totalmente concentrada no Polo Industrial de Manaus (PIM), está entre as seis maiores do mundo. No segmento de bicicletas, com as principais fábricas também instaladas no PIM, o Brasil se encontra na quarta posição entre os principais produtores mundiais. No total, as fabricantes do Setor de Duas Rodas geram mais de 21 mil empregos diretos em Manaus/AM e mais de 150 mil em todo o Brasil.