A transição energética saiu do discurso e inaugurou uma nova corrida tecnológica

Da meta climática à execução, a transição energética avança sobre indústria, tecnologia e cadeias globais, redefinindo poder econômico, impactos ambientais e o papel do Brasil e da Amazônia.

“A implementação acelerada deve tornar-se nosso novo parâmetro de ambição diante da urgência climática.” A frase, presente na Nona Carta da Presidência da COP30, sintetiza a virada no debate global sobre a transição energética. Superada a etapa do consenso climático, o foco agora se desloca para a execução em larga escala.

André Corrêa do Lago, presidente da COP30. André Corrêa do Lago, presidente da COP30, defende a implementação acelerada da transição energética como eixo central da resposta global à crise climática.
André Corrêa do Lago, presidente da COP30. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

A transição entra em sua fase mais decisiva. As perguntas deixaram de ser “se” ou “quando” e passaram a ser “quem lidera, quem fabrica e quem lucra”. A produção de painéis solares, baterias, eletrolisadores e redes elétricas tornou-se questão geopolítica, enquanto o controle das cadeias de suprimento passou a ser tratado como tema de soberania nacional.

Em 2025, os investimentos globais em transição energética atingiram US$ 2,3 trilhões, segundo a BloombergNEF. Foi o segundo ano consecutivo em que os aportes em energia limpa superaram os investimentos em petróleo e gás. Ainda assim, o setor enfrenta gargalos de implementação, saturação de cadeias produtivas e incertezas regulatórias: a taxa de crescimento caiu de 27% em 2021 para 8% em 2025.

A última Carta da Presidência da COP30 reforça o diagnóstico de que a questão climática já é consenso científico; o desafio agora é viabilizar infraestrutura, escala e coordenação política para resolvê-la.

A disputa tecnológica da transição: múltiplas rotas, um jogo de poder

Não existe uma via única para a transição energética. O processo envolve uma disputa aberta por tecnologias de geração, transporte e armazenamento de energia, com implicações econômicas e geopolíticas crescentes. Entre as rotas em disputa estão solar, eólica, hidrelétrica, nuclear e hidrogênio verde, cada uma com diferentes custos, riscos e níveis de maturidade.

O solar fotovoltaico consolidou-se como a tecnologia de expansão mais acelerada. Em 2025, a China se tornou o primeiro país a atingir mais de 1 TW de capacidade de energia solar instalada, enquanto mercados emergentes como Índia e Paquistão registraram crescimentos próximos de 92%, impulsionados pelos baixos preços dos painéis chineses.

Painéis solares em larga escala com a bandeira da China ao fundo, representando o papel do país na transição energética global e na produção de energia limpa.
Foto: Click Petróleo e Gás.

O hidrogênio verde desponta como elo estratégico para a descarbonização de setores industriais pesados e do transporte de longa distância.

Já o mercado de eletrolisadores, equipamentos que produzem hidrogênio a partir da eletricidade, está em expansão acelerada e deve atingir US$ 771,5 milhões até 2035.

Ao mesmo tempo, a transição expõe um desafio estrutural, as cadeias globais de minerais críticos seguem reproduzindo assimetrias históricas. Países do Sul Global concentram a extração de lítio, cobalto, cobre e níquel, mas permanecem na base da cadeia de valor, exportando matéria-prima e importando tecnologias patenteadas.

Mais de 77% das patentes em tecnologias limpas estão registradas no Norte Global, o que limita a capacidade de desenvolvimento autônomo dos países periféricos e aprofunda a dependência tecnológica.

Área de mineração de terras raras a céu aberto, atividade estratégica para a transição energética e para a produção de tecnologias como baterias, turbinas eólicas e veículos elétricos.
Mineração em terras raras. Foto: Bloomberg.

O papel estratégico do armazenamento de energia

Por trás da disputa entre rotas tecnológicas, armazenar energia com eficiência é uma variável decisiva – embora pouco comentada. Os sistemas de armazenamento (BESS – Battery Energy Storage Systems) são essenciais para viabilizar fontes intermitentes como solar e eólica. Sem baterias, o excedente de geração se perde e a estabilidade das redes fica comprometida.

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Imagem aérea da fábrica de baterias da UCB Power em Manaus, integrada à cadeia industrial da transição energética no Brasil.
Vista aérea da unidade da UCB Power em Manaus, polo industrial estratégico para a transição energética e o desenvolvimento de soluções de armazenamento de energia no país. Foto: Divulgação/UCB Power.

Urgência climática e o tempo da indústria

A transição enfrenta um descompasso estrutural: o clima opera em anos, a indústria em décadas. A janela para limitar o aquecimento global a 1,5 °C se estreita, enquanto as emissões globais permanecem elevadas.

A construção de fábricas, redes elétricas, cadeias de suprimento e sistemas de armazenamento exige planejamento, licenciamento e financiamento de longo prazo, etapas bastante demoradas. A Presidência da COP30 alerta que, sem estabilidade política e coordenação contínua, a infraestrutura necessária não será construída no tempo exigido pela ciência.

China, política industrial e soberania energética

A transição energética tornou-se eixo central das estratégias nacionais. De olho em tudo isso, a China consolidou posição dominante e hoje fabrica 80% dos painéis solares, 60% das turbinas eólicas, 70% dos veículos elétricos e 75% das baterias, além de controlar o refino da maioria dos minerais críticos e concentrar 75% das patentes em energia limpa.

Em contraste, o posicionamento atual dos Estados Unidos sob o governo de Donald Trump tem sido abertamente contrário a políticas climáticas ambiciosas e de transição para energias renováveis. Em eventos internacionais como o Fórum Econômico Mundial em Davos, Trump criticou a política energética baseada em renováveis, chegando a caracterizá-la como “inviável”.

O governo Trump também tem executado um desmonte das políticas ambientais e uma ampliação da indústria de combustíveis fósseis. Tendo inclusive viralizado um bordão que simboliza tudo isso, o já famoso “Drill baby, drill”, em incentivo claro a exploração de recursos naturais para produção de energia altamente poluente.

Já a União Europeia tem focado em expandir sua capacidade de energia limpa e diminuir a dependência do mercado chinês e, desde 2019, conta com o Green Deal Industrial Plan, política centrada em financiamento direto e simplificação regulatória.

No Brasil, a principal política é a Nova Indústria Brasil (NIB), lançada em 2024, com previsão de R$ 300 bilhões em investimentos até 2026. A Missão 5 do programa prioriza bioeconomia, descarbonização e segurança energética, com metas como ampliar o uso de biocombustíveis e fortalecer a soberania mineral.

O país parte de uma posição estratégica, com 93% da matriz elétrica renovável, liderança em biocombustíveis e grandes reservas de minerais críticos. O desafio é transformar esse potencial em valor agregado industrial, evitando o papel histórico de exportador de commodities.

Imagem de mangueira de abastecimento sobre grãos de soja. A soja é uma das principais matérias-primas para produção de biocombustíveis no Brasil.
A soja é uma das principais matérias-primas para a produção de biocombustíveis no Brasil, especialmente do biodiesel. Foto: Neogen.

As fronteiras de transição e contradições na Amazônia

A Amazônia concentra algumas das maiores contradições da transição energética. Enquanto o bioma regula o clima global, ele também abriga cerca de 2,5 milhões de pessoas em sistemas isolados, dependentes de usinas a diesel caras e poluentes.

Porém, iniciativas e soluções tem tornado a energia limpa em vetor de transformação. Os projetos de energia solar com baterias, a eletrificação de escolas e postos de saúde e o fortalecimento de biocombustíveis a partir de produtos locais, demonstram como a transição pode promover inclusão produtiva e reduzir a dependência fóssil. Ao mesmo tempo, a pressão por novas frentes de exploração de petróleo na Margem Equatorial expõe o dilema entre o discurso verde e as práticas reais das políticas públicas.

Painéis solares integrados a baterias de lítio da UCB Power, sistema que permite geração e armazenamento de energia na transição energética.
Painéis solares geram e armazenam energia em baterias de lítio da UCB Power, solução que fortalece a transição energética e a estabilidade dos sistemas elétricos. Foto: Divulgação.

A transição energética deixou de ser apenas um compromisso climático e se consolidou como um processo de reconfiguração do poder global, no qual tecnologia, minerais e indústria definem novas hierarquias. Para o Brasil, o desafio é alinhar sua abundância de recursos naturais à capacidade de desenvolvimento tecnológico próprio. A era da retórica climática ficou para trás e começa agora o momento da aceleração geopolítica da transição energética.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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