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BR-319 entre o discurso ambiental e a decisão política

Finalmente vai sair a obra de recuperação da BR-319? É difícil acreditar. Entretanto, sempre esteve muito claro que não era um problema técnico, jurídico ou orçamentário. Sempre se tratou de uma questão política e executiva. Querendo fazer, a obra sairia. A questão é que a costura política não era nada trivial.

Ora existia falta de dinheiro, porque o dinheiro iria para as regiões mais ricas do país e com isso surgiam as desculpas. Em outro momento, a política era mais ambientalista e assim, com projetos descuidados com o meio ambiente, levava-se o assunto para o judiciário facilmente interromper as obras. E os políticos fugiam da política, colocando a culpa na justiça.

Em outros momentos, predominava a pouca preocupação ambiental, mas, neste caso, não se tinha a intenção de alocar investimentos na Amazônia. Assim, mais uma vez, o problema era do judiciário, para paralisar as ações, por falta de orçamento ou de projetos apropriados.

kombi na estrada br 319
FOTO: Reprodução

O efeito era sempre o mesmo: nada fazer. Isso sem falar nos embates políticos regionais. Factualmente, não era uma preocupação ambiental, social ou econômica. A dinâmica era uma política amazônica enfraquecida, de proteção pela inação e do uso do judiciário para interromper as forças políticas contrárias, com foco no descuido ambiental ou no descuido econômico. Era o predomínio ao desprezo da Amazônia e do interesse de suas populações.

Foi necessário mudar o marco legal ambiental, trocando as leis de regulagem que influenciam esta obra, neutralizando os descuidos de projetos de engenharia e a força da política ambiental. Foi necessário unir as forças políticas regionais, para decidir fazer a obra, pois, no passado, havia divergência nas lideranças, onde uns queriam, outros não aceitavam. Adicione-se a isso uma liderança nacional defendendo a Amazônia, por mais que para alguns ambientalistas isso pareça um contrassenso.

Ao que tudo indica, parece que a lei parou de ser um impeditivo. O orçamento apareceu. O meio ambiente parece ser prioridade. O social parou de ser desprezado. Com estas quatro questões, a rodovia certamente será recuperada. A política lidera o tripé da sustentabilidade. Sem esta concertação, não haveria como a obra acontecer.

Será que finalmente o asfaltamento do trecho do meio da BR-319 acontecerá? Em minha opinião – e posso mudar de ideia no futuro – finalmente, chegou o momento. A obra sairá. Quando uma cerimônia política firmar esta ordem de serviço, como decisão executiva federal, conjugada com o compromisso do Amazonas e de Rondônia: a obra começará a ser feita.

BR-319
BR-319 – Foto de Orlando K. Junior – Divulgação

Passaremos então para a outra fase: assegurar a sua conclusão e defender as salvaguardas ambientais. Está na hora de começar os diálogos com todos os municípios de seu entorno. Está na hora de começar a construção das proteções ambientais e sociais para garantir o êxito econômico e proteger a floresta.

Está na hora do diálogo de quem quer fazer, mas respeita a economia, o ambiente e as pessoas. Precisamos seguir a construção republicana. Enquanto este equilíbrio estiver de pé, teremos tido sucesso. Fora dele, não há o que celebrar. É preciso fazer a rodovia, para as sociedades, atendendo ao requisito econômico e com respeito ao meio ambiente.

O autoritarismo começa quando alguém se acha melhor que o outro

“Agora sei que o homem é capaz de grandes ações. Mas, se não for capaz de um grande sentimento, não me interessa.” A advertência de Albert Camus, em A Peste, permanece atual — talvez ainda mais quando a peste já não é biológica, mas política e moral.

Vivemos um tempo em que o autoritarismo volta a circular com desenvoltura inquietante. A retórica de Donald Trump, em particular, não é um fenômeno isolado, mas um sintoma. Ela expressa e amplifica uma lógica que se espalha: a negação do outro, a simplificação agressiva da realidade, a transformação da divergência em inimigo. Como toda peste, não se impõe apenas pela força, mas pela contaminação silenciosa das ideias.

autoritarismo
Foto divulgação

O mais perturbador é que essa lógica não se sustenta apenas em estruturas de poder. Ela encontra ressonância em parcelas significativas da sociedade. Alimenta-se do medo, da frustração e, sobretudo, de uma ilusão antiga: a de que alguns são mais legítimos, mais merecedores ou mais importantes do que outros.

Diante desse cenário, a pergunta se impõe com nova urgência: como encontramos o mundo e o que estamos fazendo dele? A resposta exige mais do que indignação episódica. Ela pede revisão de valores. É nesse ponto que a humildade retorna como questão central.

A tradição latina oferece uma chave precisa: homo, humus, humilis. O homem vem da terra e a ela retorna. A humildade, nesse sentido, não é concessão nem fraqueza. É lucidez. É o reconhecimento de que nenhuma posição, poder ou identidade nos autoriza a negar a dignidade do outro.

Quando essa consciência se perde, abre-se espaço para o que hoje se observa com clareza: a naturalização da agressividade, o desprezo pelo contraditório, a recusa em reconhecer limites. O autoritarismo prospera justamente onde a humildade se ausenta. Ele precisa da convicção de superioridade para existir.

Não por acaso, algumas das vozes mais lúcidas da história caminharam na direção oposta. Albert Einstein, ao reconhecer os limites do conhecimento, recusou o conforto das respostas fáceis. Hélder Câmara, ao afirmar que todos têm algo a ensinar e a aprender, desmontou a lógica hierárquica que sustenta a exclusão. Em ambos os casos, a humildade não diminui — ela amplia.

O problema é que, quando esse princípio deixa de orientar a vida coletiva, seus efeitos se acumulam. Eles aparecem nas fraturas sociais, nas desigualdades persistentes e na dificuldade de construir pactos mínimos de convivência.

O Brasil conhece bem esse fenômeno. A distância entre Norte e Sul não se explica apenas por fatores econômicos. Ela é também resultado de uma percepção distorcida de valor — de uma hierarquia implícita que desconsidera saberes, ignora realidades e perpetua assimetrias. Trata-se de uma forma de autoritarismo difuso, menos explícito, mas igualmente corrosivo.

Se a humildade implica reconhecer a origem comum e os limites compartilhados, sua consequência natural é a solidariedade. Não como discurso, mas como prática estruturante. Uma prática que exige escuta, redistribuição de oportunidades e reconhecimento efetivo da diversidade. Sem isso, qualquer ideia de Nação se fragiliza.

O avanço de lideranças e discursos autoritários, como o de Trump, não é apenas um episódio político. É um alerta. Ele revela o quanto ainda estamos distantes de internalizar um princípio elementar: o de que ninguém se sustenta acima dos outros sem, ao mesmo tempo, corroer as bases da convivência. A história já demonstrou, em diferentes momentos, o custo dessa ilusão.

Resta saber se, desta vez, seremos capazes de aprender antes que os efeitos se tornem irreversíveis. Porque, ao contrário das pestes biológicas, as pestes morais não desaparecem por exaustão. Elas persistem enquanto encontram terreno fértil. E esse terreno é, quase sempre, a ausência de humildade.

Pobre Amazonas: Entre a Potência e o Abandono 

Na temporada eleitoral, surgem momentos em que a política deixa de ser mediação de interesses legítimos para se tornar uma arena de sobrevivência a qualquer custo. O Brasil vive um desses ciclos. A disputa pelo poder, em muitos casos, já não se orienta por projetos, nem por compromissos públicos verificáveis. O que se vê é um ambiente onde estratégias de curto prazo, alianças voláteis e narrativas convenientes acabam obscurecendo a pergunta essencial que deveria sustentar a vida republicana: a quem, de fato, serve o poder?

Nesse cenário, o Amazonas não é exceção. Ao contrário, torna-se um caso emblemático de contradição estrutural. Trata-se do maior estado da federação em extensão territorial, com uma capital que figura entre os principais polos econômicos do país. Manaus está entre os maiores contribuintes da Receita Federal, impulsionada por um modelo industrial e comercial que, com todos os seus desafios, ainda sustenta uma base relevante de arrecadação, emprego e integração econômica.

Mas é justamente aí que o desconforto se instala. A robustez econômica convive, de forma quase escandalosa, com indicadores sociais que expõem fragilidades profundas. Segundo dados recorrentes do IBGE, o Amazonas aparece lado a lado com estados historicamente mais pobres, como o Maranhão, quando o tema é concentração de pobreza. Não se trata de uma oscilação conjuntural, mas de um padrão persistente que atravessa governos, ciclos econômicos e discursos eleitorais.

pobre amazonas
A maioria das casas em região periférica não possuem saneamento básico (Ricardo Oliveira/Agência Amzônia)

Esse descompasso não pode ser tratado como mera fatalidade geográfica ou herança histórica. Ele revela falhas na capacidade de transformar riqueza em bem-estar coletivo. Mais do que isso, evidencia um problema de governança. A riqueza existe, circula, é tributada, mas não se converte, na mesma proporção, em qualidade de vida, infraestrutura, educação ou oportunidades distribuídas de forma equilibrada pelo território.

É nesse ponto que o “vale tudo” político se torna particularmente nocivo. Quando a disputa pelo poder se desconecta de um projeto consistente de desenvolvimento, o que se perde não é apenas eficiência administrativa. Perde-se a capacidade de enfrentar paradoxos estruturais como este. A pobreza deixa de ser prioridade e passa a ser, muitas vezes, apenas um elemento retórico em campanhas e discursos.

O alerta, portanto, não é apenas político. É civilizatório. Um estado com a relevância econômica do Amazonas não pode naturalizar a convivência com níveis tão elevados de desigualdade. Isso constrange a cidadania, fragiliza o tecido social e compromete qualquer perspectiva de futuro sustentável.

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Imagem gerada por IA


A questão que se impõe é direta, ainda que incômoda: como um território que gera tanta riqueza permanece incapaz de distribuí-la de forma minimamente equitativa? Enquanto essa pergunta não orientar, de fato, a ação política, o risco é que o debate continue capturado por disputas superficiais, deixando intacto o núcleo do problema.

Mais de 1.300 pedidos expõem lobby da mineração em terras indígenas

Relatório da APIB revela pressão de empresas e parlamentares para flexibilizar regras e expandir a mineração em terras indígenas, levantando riscos climáticos e violações de direitos.

A intensificação da atividade minerária sobre terras indígenas na Amazônia tem acendido alertas entre organizações indígenas e especialistas. Um relatório recente da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) aponta a existência de mais de 1.300 requerimentos minerários ativos na região, dos quais 390 incidem integralmente sobre territórios indígenas, cenário que evidencia o avanço da mineração em terras indígenas no país.

O documento, elaborado em parceria com a organização Cosmopolíticas, denuncia a formação de um sistema estruturado de influência que envolve os três Poderes da República. Segundo o relatório, empresas do setor de mineração e agentes financeiros têm recorrido a narrativas associadas à “sustentabilidade” e à “descarbonização” para legitimar a exploração de minerais considerados estratégicos para a transição energética global.

O estudo foi apresentado durante um seminário realizado no Congresso Nacional, dentro da programação do Acampamento Terra Livre. A publicação sustenta que esse movimento não ocorre de forma isolada, mas integra uma articulação política mais ampla voltada à flexibilização de regras ambientais e territoriais.

No Legislativo, a análise identifica a atuação coordenada de frentes parlamentares ligadas à mineração, ao agronegócio e a grupos religiosos. Essas frentes estariam impulsionando propostas que reduzem exigências de licenciamento ambiental e limitam direitos territoriais, incluindo iniciativas associadas ao marco temporal, ampliando as possibilidades de mineração em terras indígenas.

Indígenas participam de protesto do Acampamento Terra Livre em frente ao Congresso Nacional contra mineração em terras indígenas.
Manifestantes do Acampamento Terra Livre protestam em Brasília e pressionam por respeito aos direitos indígenas. Foto: Rafael Vilela.

Já no Judiciário, o relatório direciona críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente à criação de uma câmara de conciliação no âmbito da Corte. Para a APIB, esse mecanismo pode abrir espaço para a participação de interesses empresariais em debates sensíveis, prejudicando direitos como à consulta livre, prévia e informada, garantida constitucionalmente.

A controvérsia ganhou novo fôlego após decisão recente do STF que autorizou a exploração mineral em território do povo Cinta Larga, entre Rondônia e Mato Grosso. Na mesma decisão, foi estabelecido o prazo de 24 meses para que o Congresso regulamente a mineração em terras indígenas. Até lá, foram definidas condições provisórias, como a necessidade de consentimento das comunidades e participação nos resultados econômicos da atividade.

A APIB contesta o processo, argumentando que não houve demanda coletiva dos povos indígenas para a regulamentação da mineração em seus territórios. Segundo a entidade, o pedido que originou a ação partiu de uma única associação indígena, sem representar a totalidade do povo Cinta Larga.

Além disso, a organização afirma que não houve cumprimento adequado do direito à consulta prévia, livre e informada. Para a APIB, a imposição de uma futura legislação sobre o tema pode limitar a autonomia dos povos originários, retirando a possibilidade de rejeição da atividade minerária em seus territórios.

Diante desse cenário, a entidade apresentou uma série de reivindicações ao STF, dentre elas, a inclusão de especialistas para avaliação técnica da mineração, a incorporação dos impactos climáticos nas discussões e o reconhecimento da APIB como amicus curiae no processo, o que daria voz oficial à organização para contribuir com a decisão no tribunal.

O relatório também destaca a necessidade de ampliar o debate sobre os efeitos socioambientais da extração mineral, especialmente em um contexto de crise climática. Para as organizações indígenas, a decisão em curso pode estabelecer um precedente capaz de redefinir a política mineral em terras indígenas no Brasil, com impactos duradouros sobre territórios, culturas e ecossistemas.

Petróleo na Foz do Amazonas: Marina Silva rebate comparação com Belo Monte

Ao defender exploração de petróleo na Foz do Amazonas, Marina Silva destaca diferenças no licenciamento ambiental e diz que etapa atual é apenas exploratória, com exigência de estudos e controle técnico.

A ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Marina, Silva afirmou que a Usina Hidrelétrica de Belo Monte e a exploração de petróleo na Foz do Amazonas representam projetos distintos do ponto de vista socioambiental, apesar de ambos integrarem a expansão da política energética brasileira.

Segundo ela, a principal diferença está no processo de licenciamento. “A licença de Belo Monte não foi dada por mim. Durante a minha gestão, foi encaminhada para estudos. No caso da margem equatorial, o processo passou por todos os crivos necessários do Ibama. É uma licença que foi negada duas vezes e só na terceira, com toda a autonomia dos técnicos, foi dada, e para prospecção. A licença de Belo Monte já foi diretamente para o empreendimento”, declarou. A fala reforça a crítica de que Belo Monte avançou diretamente para a fase de implementação, enquanto o petróleo na Foz do Amazonas segue, até agora, limitado à etapa de prospecção.

Vista aérea da Usina de Belo Monte, no Pará, destacando impactos socioambientais na região amazônica
Usina de Belo Monte (PA). Foto: Roney Vieira/Norte Energia/Creative Commons

Autorizada em 2011, a usina de Belo Monte (PA) foi concebida como solução para a demanda energética do Norte do país. No entanto, o empreendimento se tornou um dos mais controversos do setor. O desvio do rio Xingu provocou impactos profundos, como a mortandade de peixes e a redução da disponibilidade de alimento para comunidades ribeirinhas. Além disso, sua geração efetiva de energia tem sido inferior à capacidade instalada de 11.233 megawatts, especialmente em períodos de seca, como nos anos de 2023 e 2024 em que a produção chegou a apenas 3% do potencial.

Já em relação à exploração de petróleo na Foz do Amazonas, região marítima próxima ao Amapá, Marina Silva ressalta que o projeto ainda está em fase inicial. O Ibama negou o licenciamento em duas ocasiões antes de autorizar, com condicionantes, a perfuração exploratória. Essa etapa busca apenas verificar a viabilidade econômica do petróleo na região, sem autorização para exploração comercial.

Para Marina, essa diferença abre espaço para a construção de uma governança socioambiental mais robusta. Ela defende a criação de unidades de conservação no entorno dos projetos e a realização de estudos mais amplos, como a Avaliação Ambiental de Área Sedimentar (AAAS), que considera impactos cumulativos e regionais e não apenas efeitos diretos da atividade.

Apesar disso, o avanço do petróleo na Foz do Amazonas levanta questionamentos, sobretudo em um contexto de crise climática e necessidade de redução do uso de combustíveis fósseis. A possível abertura de uma nova fronteira petrolífera no Brasil gera críticas de especialistas, que apontam os possíveis impactos socioambientais.

Imagem de satélite da foz do rio Amazonas mostrando sedimentos no oceano Atlântico, área sensível ao petróleo na Foz do Amazonas
Especialistas ressaltam a sensibilidade ecológica da região onde avança a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Foto: Arayara

Marina reconhece o desafio, mas destaca que cabe ao Ministério do Meio Ambiente garantir a viabilidade ambiental dos projetos, enquanto decisões estratégicas sobre exploração energética são atribuídas ao Conselho Nacional de Política Energética.

Ao abordar o cenário político, a ex-ministra defendeu que o debate climático ganhe centralidade nas eleições de 2026. Para ela, o processo eleitoral será decisivo para consolidar avanços recentes na agenda ambiental e evitar retrocessos, especialmente diante de pressões por flexibilização de regras e exploração de recursos naturais.

Abelhas-rainhas conseguem sobreviver debaixo d’água por dias, aponta pesquisa

Pesquisa revela que abelhas-rainhas suportam dias submersas ao desacelerar funções vitais, indicando uma estratégia que pode ajudar populações a enfrentar eventos climáticos extremos.

As abelhas-rainhas das mamangabas (gênero Bombus) desenvolveram uma capacidade surpreendente para enfrentar um dos riscos crescentes associados às mudanças climáticas: a inundação do solo durante o inverno. Um novo estudo mostra que essas espécies conseguem permanecer vivas por até oito dias completamente submersas e continuam respirando nesse período.

Durante o inverno, essas abelhas entram em diapausa, um estado de dormência profunda em que o metabolismo é drasticamente reduzido. Enterradas em pequenas cavidades no solo, elas permanecem ali por até nove meses, dependendo exclusivamente da energia armazenada para sobreviver até a primavera.

Abelha-rainha submersa respirando debaixo d’água durante experimento científico com abelhas-rainhas à esq. Abelha-rainha em toca subterrânea durante hibernação, comportamento típico das abelhas-rainhas no inverno à dir.
Abelha-rainha em toca subterrânea durante hibernação, comportamento típico das abelhas-rainhas no inverno à esq. (Foto: Sabrina Rondeau) Abelha-rainha submersa respirando debaixo d’água durante experimento científico com abelhas-rainhas à dir. (Foto: Charles-Antoine Darveau)

A descoberta ocorreu de forma inesperada, após um incidente em laboratório, no qual tubos contendo rainhas em hibernação foram acidentalmente inundados. Ao contrário do esperado, os insetos sobreviveram e se recuperaram após a retirada da água. A partir disso, pesquisadores realizaram testes controlados com dezenas de indivíduos da espécie Bombus impatiens, confirmando a resistência à submersão prolongada.

Para entender o fenômeno, os cientistas analisaram a respiração e o metabolismo das abelhas durante a diapausa. Os resultados indicam que, nesse estado, a taxa metabólica das rainhas cai mais de 99%, reduzindo drasticamente a necessidade de oxigênio. Quando submersas, essa demanda diminui ainda mais, permitindo que realizem trocas gasosas diretamente com a água ao redor.

O mecanismo provavelmente envolve uma fina camada de ar, que se prende ao corpo do inseto e funciona como interface para a difusão de oxigênio, estratégia semelhante à de insetos aquáticos. Ainda assim, esse processo não supre totalmente as necessidades energéticas, levando as abelhas a recorrer também ao metabolismo anaeróbico, que gera energia sem oxigênio, mas produz ácido lático como subproduto.

As abelhas-rainhas das mamangabas (gênero Bombus) desenvolveram uma capacidade surpreendente para enfrentar um dos riscos crescentes associados às mudanças climáticas: a inundação do solo durante o inverno. Um novo estudo mostra que essas espécies conseguem permanecer vivas por até oito dias completamente submersas e continuam respirando nesse período.
Fotos por @andredematosalves – @meliponiculturaoficial
Fotos por @andredematosalves@meliponiculturaoficial

Essa adaptação, no entanto, tem custo. Após emergirem da água, as rainhas precisam de vários dias para se recuperar, consumindo mais energia do que em condições normais.

A relevância ecológica da descoberta é significativa. As colônias de mamangabas dependem exclusivamente da sobrevivência das abelhas-rainhas durante o inverno. Caso uma rainha não resista, toda a colônia que ela originaria deixa de existir. Em um cenário de eventos climáticos extremos mais frequentes, essa capacidade de tolerar inundações pode ser decisiva para a manutenção das populações.

O estudo reforça que, mesmo em espécies amplamente conhecidas, ainda há aspectos pouco explorados sobre sua fisiologia e resiliência. No caso das abelhas-rainhas, fundamentais para a polinização e para a segurança alimentar global, compreender essas adaptações pode ajudar a orientar estratégias de conservação diante de um clima em rápida transformação.

Juçara assume protagonismo na nova agenda da bioeconomia na Mata Atlântica

Com expedição gastronômica e novo selo sustentável, a juçara avança na bioeconomia ao integrar agrofloresta, geração de renda e proteção da biodiversidade na Mata Atlântica. 

A juçara (Euterpe edulis), espécie nativa e ameaçada da Mata Atlântica, tem ganhado protagonismo em iniciativas que combinam conservação ambiental, gastronomia e geração de renda. Um exemplo recente é a expedição realizada no Banana Bamboo Ecolodge, em Ubatuba (SP), que reuniu chefs, pesquisadores e produtores em torno do potencial sustentável do chamado “açaí da Mata Atlântica”.

A atividade integrou o projeto À Brasileira e contou com a participação das chefs Janaína Torres e Fatmata Binta. Durante a programação, os participantes conheceram sistemas agroflorestais que integram produção de alimentos e recuperação da vegetação nativa, tendo a juçara como espécie-chave.

Chefs observam cacho de juçara durante expedição gastronômica na Mata Atlântica
Expedição gastronômica destaca o potencial da juçara na bioeconomia e na valorização de sistemas alimentares sustentáveis. Foto: Banana Bamboo Ecolodge

Diferentemente da exploração do palmito, que leva à morte da planta, o uso do fruto permite manter a árvore em pé. Esse modelo contribui diretamente para a regeneração florestal e para a manutenção da biodiversidade, já que a juçara é fonte de alimento para dezenas de espécies da fauna, atuando também na dispersão de sementes. 

Além do papel ecológico, a cadeia produtiva da juçara tem sido impulsionada por experiências gastronômicas que valorizam ingredientes nativos. Durante a expedição, pratos elaborados com produtos da Mata Atlântica demonstraram como a culinária pode atuar como ferramenta de conscientização e fortalecimento de sistemas alimentares sustentáveis.

Ave se alimentando de frutos de juçara em árvore da Mata Atlântica
A juçara é essencial para a fauna: seus frutos alimentam aves e ajudam na dispersão de sementes na Mata Atlântica. Foto: Luciano Candisani

A iniciativa também evidenciou a importância da sociobiodiversidade e dos saberes tradicionais. A visita ao Quilombo da Fazenda destacou a relação histórica entre comunidades locais e a floresta, reforçando o papel desses territórios na conservação ambiental.

No campo institucional, a Fundação Florestal lançou o Selo Pró-Juçara, que reconhece práticas sustentáveis em toda a cadeia produtiva da espécie. Vinculado ao Programa de Conservação da Palmeira-Juçara, criado em 2021, o selo busca agregar valor a produtos e incentivar modelos que mantêm a floresta em pé.

A certificação contempla duas categorias: produtores que realizam o manejo sustentável e agentes que comercializam derivados da juçara. Entre os critérios avaliados estão a coleta responsável, com manutenção de parte dos frutos para a fauna, e a preservação genética da espécie, evitando cruzamentos com o açaí amazônico.

Cerca de 300 famílias já estão capacitadas para obter o selo, inseridas em iniciativas que conectam conservação e geração de renda. O programa também integra políticas de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), que remuneram práticas como plantio, manejo e proteção da espécie em Unidades de Conservação.

Ao todo, essas ações fazem parte de um conjunto mais amplo de estratégias que beneficiam milhares de famílias e contribuem para a preservação de extensas áreas naturais no estado de São Paulo. A proposta é consolidar cadeias produtivas sustentáveis com base em rastreabilidade, inovação e identidade territorial.

Nesse contexto, a juçara se torna símbolo de uma nova economia: baseada na valorização da biodiversidade, na integração entre conhecimento tradicional e ciência e na construção de mercados alinhados à conservação da Mata Atlântica.

Crise climática na Antártida coloca pinguim-imperador em risco de extinção

Monitoramentos científicos mostram que a crise climática na Antártida altera cadeias alimentares, reduz populações e amplia riscos de extinção em espécies importantes do ecossistema.

 A crise climática na Antártida já provoca impactos severos na fauna do continente, colocando espécies emblemáticas sob ameaça crescente. Atualizações recentes da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) indicam que o pinguim-imperador passou a integrar a categoria “em perigo de extinção” na Lista Vermelha, refletindo o agravamento das condições ambientais na região.

O principal fator por trás desse cenário é a redução do gelo marinho, essencial para a reprodução da espécie. O aquecimento global, impulsionado pela queima de combustíveis fósseis, tem diminuído a extensão e a estabilidade desse habitat. Sem uma base sólida de gelo, os filhotes ficam vulneráveis, quando o gelo se rompe antes do tempo, muitos acabam sendo levados ao mar antes de desenvolverem resistência à água.

Gráfico dos status da Lista Vermelha da IUCN evidencia impactos da crise climática na Antártida sobre espécies ameaçadas
Gráfico da classificação de risco das espécies na escala da IUCN. Foto: Brasil Amazônia Agora.

Dados de monitoramento por satélite apontam uma queda de cerca de 10% na população entre 2009 e 2018, o equivalente a mais de 20 mil indivíduos adultos. Projeções indicam que, mantidas as condições atuais, a população pode encolher até 50% até o fim do século, um dos impactos mais evidentes da crise climática na Antártida.

O problema não se limita às aves. O lobo-marinho-antártico também apresentou um declínio expressivo e foi reclassificado como espécie “em perigo”. Em pouco mais de duas décadas, sua população caiu de aproximadamente 2 milhões para menos de 1 milhão de indivíduos adultos. A redução está associada, sobretudo, à escassez de krill, base da cadeia alimentar na região, que tem migrado para águas mais profundas diante do aquecimento dos oceanos.

Além disso, a competição por alimento e a pressão de predadores naturais, como orcas e focas-leopardo, agravam ainda mais a situação da espécie. Outro caso preocupante é o do elefante-marinho-do-sul, agora classificado como “vulnerável”. A disseminação de doenças, como a gripe aviária, tem causado mortalidade elevada em colônias, especialmente entre filhotes recém-nascidos. Em alguns casos, surtos chegam a eliminar a maioria dos indivíduos jovens, comprometendo a renovação populacional.

Especialistas alertam que o avanço das mudanças climáticas pode intensificar a ocorrência de doenças em regiões polares, onde muitas espécies ainda não desenvolveram resistência a novos patógenos. A proximidade entre indivíduos em colônias facilita a rápida propagação dessas enfermidades, ampliando os efeitos da crise climática na Antártida.

Para organizações ambientais, os dados reforçam a urgência de ações globais para conter o aquecimento do planeta. A preservação dos ecossistemas antárticos, altamente sensíveis, depende diretamente da redução das emissões de gases de efeito estufa e da adoção de políticas climáticas mais rigorosas em escala internacional.

Relatório aponta queda de 81% nas populações de peixes migratórios de água doce no mundo

Relatório internacional revela que peixes migratórios de água doce enfrentam colapso global, com impactos diretos na biodiversidade, na pesca e na segurança alimentar de milhões de pessoas.

As migrações de peixes de água doce, uma das maiores e menos visíveis jornadas animais do planeta, estão entrando em colapso acelerado. Um relatório internacional aponta que essas rotas, essenciais para o equilíbrio dos rios e para a subsistência humana, vêm sendo interrompidas em escala global, com impactos ecológicos e econômicos cada vez mais evidentes.

A Avaliação Global de Peixes Migratórios de Água Doce, divulgada durante a COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias, revela que essas espécies estão entre as mais ameaçadas do mundo. Os peixes migratórios de água doce são responsáveis por manter a dinâmica dos ecossistemas fluviais e sustentar pescarias continentais, garantindo alimento e renda para centenas de milhões de pessoas.

Peixes migratórios de água doce ameaçados destacam crise global da biodiversidade em rios
Peixes migratórios de água doce estão entre as espécies mais ameaçadas do planeta, refletindo o colapso das migrações fluviais e os impactos sobre os ecossistemas. Foto: © Zeb Hogan

Os dados indicam uma queda de cerca de 81% nas populações desde 1970, um dos declínios mais acentuados já registrados entre vertebrados. Além disso, 97% das espécies migratórias já listadas enfrentam risco de extinção, o que evidencia a gravidade da crise.

Entre os principais fatores estão a construção de barragens, que interrompem rotas naturais, a fragmentação de habitats, a poluição, a sobrepesca e as mudanças climáticas. Esses impactos comprometem a conectividade dos rios, elemento vital para o ciclo de vida dos peixes migratórios de água doce, que dependem de longos deslocamentos entre áreas de reprodução, alimentação e crescimento.

O levantamento identificou 325 espécies como candidatas a ações internacionais coordenadas de conservação. A maior concentração está na Ásia, com 205 espécies, seguida pela América do Sul (55), Europa (50), África (42) e América do Norte (32).

Entre as bacias hidrográficas prioritárias para intervenção estão sistemas estratégicos como Amazônia, La Plata-Paraná, Danúbio, Mekong, Nilo e Ganges-Brahmaputra, regiões onde a pressão humana sobre os rios cresce rapidamente.

Apesar da magnitude do problema, especialistas alertam que a crise permanece subestimada. Diferentemente de desmatamentos ou eventos extremos, o colapso das migrações ocorre de forma invisível, sob a superfície das águas, dificultando sua percepção pública e política.

Na Amazônia, considerada um dos últimos grandes refúgios dessas espécies, o cenário já é preocupante. Os peixes migratórios de água doce respondem por cerca de 93% da pesca regional e sustentam uma atividade econômica estimada em US$ 436 milhões por ano.

Um dos exemplos mais emblemáticos é o bagre dourado (Brachyplatystoma rousseauxii), que realiza uma das maiores migrações de água doce conhecidas, percorrendo mais de 10 mil quilômetros desde os Andes até áreas costeiras. Essa jornada só é possível em rios plenamente conectados, condição cada vez mais rara.

Exemplar de dourada na Amazônia ocidental, espécie símbolo dos peixes migratórios de água doce e de longas rotas fluviais
A dourada (Brachyplatystoma rousseauxii) é um dos principais exemplos de peixes migratórios de água doce, capaz de percorrer milhares de quilômetros nos rios amazônicos. Foto: M. Goulding et al.

Diante desse cenário, o relatório defende uma mudança estrutural na gestão dos recursos hídricos. A principal recomendação é tratar os rios como sistemas ecológicos integrados e não como unidades fragmentadas por fronteiras nacionais. Isso inclui a proteção de corredores migratórios, o planejamento em escala de bacias e a cooperação internacional.

A crise das migrações fluviais expõe o desafio de preservar processos ecológicos invisíveis, mas fundamentais para a vida no planeta. Sem ação coordenada e urgente, os especialistas alertam que uma das maiores migrações da Terra pode desaparecer silenciosamente.

Agenda Parlamentar – A vocação do Amazonas é a indústria

Coluna Follow-Up

O lançamento da Agenda Legislativa da Indústria do Amazonas, realizado na Assembleia Legislativa do Estado (ALEAM), reforçou a necessidade de aprofundar a interlocução entre o setor industrial e o Parlamento Estadual e Federal. As manifestações dos parlamentares presentes evidenciaram disposição para um diálogo contínuo, qualificado e orientado ao interesse público.

As lideranças do Polo Industrial de Manaus reiteraram, naquela ocasião, que a contribuição da indústria ultrapassa o âmbito produtivo. O setor exerce papel estruturante na economia e nas instituições do Estado, apoiando políticas públicas essenciais e contribuindo para a estabilidade fiscal e social do Amazonas.

Essa contribuição se expressa em dados concretos, que devem ser compreendidos como base objetiva para o aperfeiçoamento das políticas de desenvolvimento. No último ano, a atividade industrial destinou aproximadamente R$ 6 bilhões a mecanismos diretos de financiamento público e institucional.

Destacam-se cerca de R$ 2 bilhões ao Fundo de Fomento ao Turismo, aplicados pelo Estado em áreas estratégicas como saúde e infraestrutura; R$ 600 milhões ao Fundo de Micro e Pequenas Empresas; aproximadamente R$ 2,5 bilhões em pesquisa, desenvolvimento e inovação; e mais de R$ 800 milhões destinados ao financiamento integral da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), instituição presente em todos os municípios.

Somam-se a esses valores os efeitos indiretos da arrecadação tributária, que sustentam o orçamento estadual e municipal e fortalecem políticas públicas em diversas áreas. A atividade industrial instalada no Amazonas constitui, portanto, um dos pilares da capacidade fiscal e da geração de renda e riqueza do Estado.

Diante desse cenário, torna-se fundamental avançar na discussão sobre a aplicação desses recursos. O desafio não se limita ao volume arrecadado, mas à sua capacidade de promover desenvolvimento equilibrado, reduzir desigualdades regionais e fortalecer as vocações econômicas do interior.

O Parlamento Estadual, como representante legítimo da sociedade amazonense, desempenha papel central na construção de um novo ciclo de desenvolvimento. A partir de suas atribuições constitucionais, pode contribuir para aprimorar mecanismos de planejamento, investimento e governança, ampliando a efetividade das políticas públicas. Nesse contexto, algumas questões orientam o debate:

• De que forma os recursos gerados pela indústria podem alcançar, com maior eficiência, os municípios do interior?

• Como estimular novas cadeias produtivas integradas ao Polo Industrial de Manaus?

• Como fortalecer arranjos produtivos locais capazes de gerar emprego, renda e autonomia econômica fora da capital?

• Como alinhar investimentos em inovação às vocações regionais da bioeconomia e da floresta em pé?

• Como superar as deficiências em infraestrutura que elevam os custos industriais e comprometem a competitividade?

• Como qualificar melhor a mão de obra local diante dos desafios da concorrência?

Essas reflexões apontam para a necessidade de um planejamento mais integrado, capaz de conectar a capacidade produtiva instalada em Manaus ao potencial econômico e social do conjunto do Estado.

A indústria tem interesse direto na expansão de cadeias produtivas, na qualificação da mão de obra e na redução das desigualdades regionais, não apenas por responsabilidade institucional, mas por visão estratégica de longo prazo.

Como contribuição estratégica, o setor industrial tem buscado, de forma contínua, encomendar estudos sobre sua efetividade e seus impactos na sociedade. Esses levantamentos metodológicos apontam avanços socioeconômicos relevantes, demonstrando que a média salarial da indústria, somada aos benefícios, supera a média nacional. Trata-se de um universo de aproximadamente 130 mil empregos diretos.

O objetivo não é revisar o modelo, mas aperfeiçoá-lo.

As contribuições apresentadas pelos parlamentares reforçam a importância de construirmos, em conjunto com o setor produtivo, instrumentos mais eficientes de planejamento e acompanhamento dos investimentos, de modo a transformar recursos financeiros em resultados sociais mensuráveis.

A Zona Franca de Manaus demonstrou, ao longo de décadas, sua capacidade de gerar riqueza e preservar a floresta. O passo seguinte consiste em assegurar que essa riqueza alcance, com maior precisão e amplitude, todo o território amazonense.

A vocação do Amazonas é a indústria. Seu fortalecimento, aliado a políticas públicas eficazes, pode consolidar um desenvolvimento mais inclusivo, sustentável e equilibrado para o Estado.


Follow-Up é publicada às quartas, quintas e sextas feiras no Jornal do Comércio do Amazonas sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal Brasil Amazônia Agora