Futebol, miragens e a alma brasileira

Há poucos fenômenos capazes de suspender o Brasil como o futebol.

Quando a Seleção entra em campo, quando o clube do coração disputa uma decisão, quando um garoto de origem humilde dribla adversários como quem desafia a própria gravidade social, algo se move dentro de nós. Uma espécie de reconhecimento coletivo. Como se, por alguns instantes, o país se reencontrasse consigo mesmo.

Talvez por isso o futebol seja mais do que um esporte. Ele se transformou numa narrativa nacional.

Nele convivem a pobreza e a glória, a improvisação e a genialidade, a tragédia e a redenção. O futebol nos oferece uma versão condensada do Brasil que gostaríamos de ser. Um país criativo, ousado, alegre, capaz de surpreender o mundo mesmo quando todos apostam em seu fracasso.

O futebol brasileiro se construiu sobre a celebração do improvável. Aprendemos a admirar o drible que desmonta esquemas, o atacante que decide sozinho uma partida perdida, o lance genial que transforma derrota em vitória. Nossos heróis são os que rompem a lógica.

Durante décadas, o país se acostumou a procurar atalhos para problemas estruturais. Esperamos pelo salvador da pátria, pelo governante iluminado, pelo empresário visionário, pelo juiz incorruptível, pelo craque capaz de resolver tudo sozinho.

O futebol alimenta essa expectativa porque, às vezes, ela realmente funciona dentro das quatro linhas. Fora delas, porém, a realidade costuma ser menos generosa.

Nenhum país se desenvolve apenas com lampejos de genialidade. Nenhuma economia prospera sustentada por dribles. Nenhuma sociedade supera suas desigualdades apostando exclusivamente no talento individual.

As nações mais bem-sucedidas aprenderam algo que raramente aparece nos compactos esportivos: a força das rotinas.

A televisão mostra o gol. Não mostra os milhares de treinamentos. Mostra a taça. Não mostra décadas de formação de base. Mostra o craque. Não mostra a estrutura que permitiu seu surgimento. Talvez aí resida uma das maiores ilusões da brasilidade futebolística.

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(Foto: Agência Brasil)

Confundimos resultado com processo. Celebramos o fruto e ignoramos as raízes.

O curioso é que os maiores momentos do futebol brasileiro nasceram justamente da combinação entre inspiração e organização. Pelé encontrou uma estrutura. Zico surgiu de um sistema de formação. O tetra de 1994 nasceu mais da disciplina do que da fantasia. O penta de 2002 reuniu talentos extraordinários dentro de uma engrenagem cuidadosamente montada.

A lição estava diante dos nossos olhos. Mas preferimos continuar apaixonados pelo milagre.

O futebol oferece uma miragem confortável. Faz parecer que bastam criatividade e talento para superar qualquer obstáculo. A vida nacional, entretanto, insiste em demonstrar que prosperidade depende de algo menos glamouroso: planejamento, educação, infraestrutura, ciência, instituições e persistência.

Talvez seja hora de imaginar miragens mais factíveis.

Sonhar continua sendo indispensável. Povos sem sonhos envelhecem. O problema surge quando os sonhos se tornam desculpas para adiar o trabalho necessário.

Seria admirar tanto o pesquisador que descobre uma nova molécula quanto o centroavante que marca um gol decisivo.

Seria compreender que o verdadeiro campeonato do século XXI talvez esteja sendo disputado nos laboratórios, nas universidades, nas startups, nos centros de tecnologia e nas salas de aula.

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O futebol continuaria existindo. Felizmente. Continuaria sendo uma das mais belas expressões da cultura brasileira. Continuaria nos emocionando, nos reunindo e nos oferecendo momentos de rara felicidade coletiva.

Mas deixaria de ocupar sozinho o território dos nossos grandes sonhos.

Porque um país maduro não abandona suas paixões. Apenas aprende a distribuí-las melhor. Talvez o desafio brasileiro não seja deixar de acreditar nos milagres.

Talvez seja construir as condições para que eles aconteçam com menos frequência, justamente porque o progresso deixou de depender deles. Quando esse dia chegar, o Brasil continuará comemorando gols. Mas terá descoberto que as maiores vitórias de uma nação raramente acontecem aos 45 minutos do segundo tempo.

Belmiro Vianez Filho
Belmiro Vianez Filho
Empresário do comércio, ex-presidente da ACA e colunista do portal BrasilAmazôniaAgora e Jornal do Commercio.

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