Às vésperas do III Fórum ESG na Amazônia, uma realização da parceria entre CIEAM e Suframa, conversamos com Régia Moreira, coordenadora de ESG na indústria sobre mais um Fórum que traduz a força da mulher na indústria e a construção de um modelo que se propõe a reposicionar o setor industrial a partir da Amazônia.
Coluna Follow-Up
Conversa com Régia Moreira Leite – IMPRAM e Alfredo Lopes – BrasilAmazoniaAgora
A agenda ESG deixou de ser um conceito importado para se tornar um campo de disputa estratégica na Amazônia. No Amazonas, onde a exuberância ambiental convive com indicadores sociais ainda frágeis, o tema assume contornos próprios. Não se trata apenas de aderir a padrões globais, mas de responder a um território que exige coerência entre discurso e prática.
À frente da coordenação dessa agenda no Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM), Régia Moreira tem insistido em um ponto que, aos poucos, começa a reorganizar o debate: o ESG, na região, precisa ser interpretado a partir do social.
“Quando falamos de ESG no Amazonas, estamos falando de uma agenda que precisa equilibrar competitividade industrial com responsabilidade territorial”, afirma. “Não é apenas sobre reduzir impacto ambiental, mas sobre gerar desenvolvimento real.”
A leitura não é trivial. Durante anos, a dimensão ambiental dominou a narrativa sobre a Amazônia, muitas vezes dissociada das condições concretas de vida da população. O resultado foi um modelo de debate que, embora relevante, deixou lacunas importantes.
Régia desloca esse eixo. Para ela, o “S” não pode ocupar um papel secundário.
“Você não pode tratar o social como complemento. Ele precisa orientar decisões. Estamos falando de emprego, qualificação, inclusão produtiva e relação com as comunidades.”
Essa visão ganha força em um momento em que a indústria da Zona Franca de Manaus busca reafirmar seu papel no desenvolvimento regional, especialmente diante de críticas recorrentes e de um ambiente internacional cada vez mais exigente.
Governança como prática, não como discurso
No plano empresarial, a abordagem se materializa em decisões concretas. Régia enfatiza que governança não pode ser reduzida a protocolos formais ou relatórios.
“Governança é prática. É como você organiza decisões, como estabelece critérios e como garante transparência.”
Na empresa onde atua, ela liderou a implementação de medidas voltadas à ampliação da participação interna, maior clareza nos processos decisórios e integração entre estratégia e impacto social. A proposta é simples na formulação, mas exigente na execução: alinhar o negócio ao território.
Esse movimento responde a uma exigência crescente. A Amazônia passou a ocupar o centro das atenções globais, e com isso aumentou o nível de escrutínio sobre empresas que operam na região.
“Inovar em governança, aqui, é reconhecer que cada decisão tem impacto ampliado. Não é apenas sobre eficiência interna, mas sobre responsabilidade externa.”
Do discurso à articulação coletiva
No plano institucional, o CIEAM emerge como espaço de convergência. A agenda ESG, dentro da entidade, não se limita a uma pauta temática. Ela organiza um campo de diálogo entre empresas, instituições e sociedade.
“O CIEAM ajuda a estruturar esse pensamento coletivo. Ele cria um ambiente onde experiências são compartilhadas e referências são construídas.”
É nesse contexto que se insere o III Fórum de ESG do CIEAM, realizado em parceria com a SUFRAMA, marcado para o dia 15 de abril, em Manaus. Mais do que um evento, o encontro simboliza a consolidação de uma agenda que deixa de ser periférica.
“O Fórum é um ponto de inflexão. Ele mostra que o ESG passou a ocupar o centro das discussões industriais.”
A expectativa é que o evento amplie a compreensão sobre como práticas sustentáveis podem se traduzir em vantagem competitiva, especialmente em um cenário em que investidores, mercados e governos demandam padrões mais elevados de responsabilidade.
A presença feminina e a ampliação de perspectiva
Outro elemento que ganha relevo na construção dessa agenda é a presença feminina. Régia trata o tema sem retórica, mas com clareza.
“Não se trata de substituir visões, mas de complementar. A presença feminina amplia a perspectiva, sobretudo em temas que exigem escuta e articulação.”
A observação dialoga com a própria natureza do ESG, que exige abordagem sistêmica e capacidade de integrar múltiplos interesses. Em um ambiente historicamente marcado por estruturas mais rígidas, essa ampliação de olhar tende a produzir efeitos concretos.
ESG como ativo estratégico
Ao final, a discussão converge para um ponto decisivo: o ESG pode ser custo ou ativo, dependendo de como é incorporado.
“Quando você traz o ESG para dentro da estratégia, ele deixa de ser obrigação e passa a gerar valor”.
Na Amazônia, essa equação ganha densidade. A região é, ao mesmo tempo, vitrine global e território de desafios históricos. Empresas que conseguirem traduzir responsabilidade em resultado tendem a ocupar posição privilegiada.
“A agenda está posta. O que se observa agora é um movimento de amadurecimento, no qual a indústria começa a assumir, de forma mais estruturada, o papel que lhe cabe na construção de um modelo de desenvolvimento compatível com a complexidade amazônica”.
Follow Up é publicada às quartas, quintas e sextas feiras no Jornal do Comércio do Amazonas, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor-geral do portal
Régia Moreira Leite é economista, administradora, empresária, coordenadora da Comissão ESG e conselheira do CIEAM, Centro da Indústria do Estado do Amazonas