Se o maior beneficiário da riqueza gerada é o poder público, a discussão precisa evoluir. Já não basta perguntar quanto a indústria paga. É indispensável perguntar o que se faz com o que já foi arrecadado. Como essa receita se converte – ou deixa de se converter – em infraestrutura, qualidade de vida, inclusão e futuro. É nesse ponto que o III Fórum ESG Amazônia ganha densidade política e estratégica.
Coluna Follow-Up
Trata-se de um momento particular em curso. Ele não se anuncia em narrativas grandiosas, mas se revela naquilo que começa a se organizar com método, protagonismo e direção. Um novo protagonismo em construção.
Sob a liderança de mulheres – com Régia Moreira à frente – o III Fórum ESG Amazônia, promovido por CIEAM e Suframa, é muito mais que um evento de agenda institucional. É um sinal de mudança. Indica que a indústria da floresta começa há algum tempo a operar não só com novas métricas, mas com uma nova disposição de espírito. Há, ali, uma transição em curso: menos defensiva, mais propositiva; menos reativa, mais consciente do seu papel histórico.
E esse movimento não surge no vazio. Ele dialoga, ainda que indiretamente, com um debate que volta e meia reaparece no Amazonas, sempre carregado de tensão e simplificação: afinal, para onde vai a riqueza gerada pela indústria?
- Mais informações sobre o evento acesse: https://www.sympla.com.br/evento/iii-forum-de-esg-cieam-suframa/3282927

A pergunta é legítima. Mas a resposta exige cuidado.
Durante anos, consolidou-se uma narrativa conveniente de que a indústria fatura muito e contribui pouco. Uma leitura que, ao ganhar força, parece dispensar análise mais rigorosa. O problema é que, quando os dados entram na conversa, essa percepção perde sustentação.
O Polo Industrial de Manaus não é apenas um enclave produtivo. É um dos principais estruturadores da economia regional. Gera empregos formais, com remuneração acima da média local, sustenta cadeias extensas de serviços e logística, e mantém viva uma dinâmica econômica que alcança centenas de milhares de famílias. Sua presença é capilar, atravessa a cidade e molda a vida urbana. Mas o dado mais relevante, e talvez o menos explorado, está na forma como essa riqueza é distribuída.
Estudos acadêmicos consistentes indicam que mais da metade da riqueza gerada pelo modelo retorna ao Estado sob a forma de tributos. Os trabalhadores ficam com uma parcela significativa, mas ainda distante desse volume. E as empresas, ao contrário do que sugere o senso comum, operam com uma fração menor do que a média nacional.
Isso não encerra o debate
Se o maior beneficiário da riqueza gerada é o poder público, a discussão precisa evoluir. Já não basta perguntar quanto a indústria paga. É indispensável perguntar o que se faz com o que já foi arrecadado. Como essa receita se converte – ou deixa de se converter – em infraestrutura, qualidade de vida, inclusão e futuro. É nesse ponto que o III Fórum ESG Amazônia ganha densidade política e estratégica.
Ao enfatizar o “S” da agenda – o social -, o encontro sugere que a indústria compreende a insuficiência de um modelo que se sustente apenas em indicadores econômicos e ambientais. Há um reconhecimento implícito de que o desenvolvimento precisa chegar com mais clareza às pessoas, aos territórios, às periferias urbanas e ao interior profundo da Amazônia. Mas essa agenda não é responsabilidade exclusiva do setor produtivo.
Se há lacunas na distribuição dos ganhos, elas não serão resolvidas por pressão isolada sobre a indústria. Exigem articulação. Exigem um projeto de Estado. Exigem, sobretudo, capacidade de coordenação entre quem arrecada, quem regula e quem produz.
O Amazonas segue devendo a si mesmo um Plano Estratégico de Desenvolvimento – já em discussão – que vá além da retórica. Um plano com metas claras, prazos verificáveis e compromisso público. Um instrumento capaz de enfrentar questões que permanecem abertas há décadas.
Como transformar arrecadação em política pública efetiva?
Como garantir que fundos existentes cumpram sua finalidade?
Como integrar indústria e bioeconomia de forma consistente?
Como interiorizar oportunidades e reduzir a pressão sobre Manaus?
Como ampliar a participação social nos resultados sem fragilizar a competitividade?
A Zona Franca já demonstrou sua capacidade de gerar riqueza, sustentar empregos, financiar ciência e manter estruturas essenciais como a universidade pública. O que ainda carece de demonstração, na mesma escala, é a capacidade coletiva de converter essa base econômica em um projeto integrado de desenvolvimento.
O que se vê agora, com o protagonismo feminino no Fórum ESG, é um ensaio de resposta. Ainda inicial, ainda em construção, mas relevante. Porque aponta para uma indústria que não apenas reage às críticas, mas começa a incorporar o debate como parte de sua própria agenda.
A questão, portanto, permanece. Não se trata mais de saber apenas quanto a indústria paga. Trata-se de compreender, com responsabilidade e transparência, o que o Amazonas está disposto a fazer com tudo aquilo que já foi gerado.
Mais informações sobre o evento acesse: https://www.sympla.com.br/evento/iii-forum-de-esg-cieam-suframa/3282927
Follow-Up é publicada pelo Jornal do Comércio do Amazonas às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal BrasilAmazôniaAgora.
