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P&D: calma, luxo e volúpia!

Passados quase 50 anos de desacato permanente às Disposições Transitórias da Carta Magna  que conferem isenções fiscais ao modelo Zona Franca de Manaus, é hora de refletir – em clima de prorrogação por mais 50 anos – nos estatutos legais do ponto de vista regional e local para um novo direcionamento da socioeconomia, que reduza as constrangedoras desigualdades internas através de leis e regras, claras e distintas.  Prorrogar sem rever nem planejar, no crivo do oportunismo eleitoral, é empurrar para debaixo do tapete os entraves desta caminhada por uma distribuição mais justa e inteligente de oportunidades para os barrados do baile : as populações que habitam o beiradão. Planejar, neste caso, é antes de tudo assegurar a premissa da qualificação educacional – humanística, cultural, científica e tecnológica –  dos jovens, desde o ensino fundamental, no ambiente amazônico. Eis uma premissa sobre a qual todos concordam desde sempre e que, apesar disso, tem esbarrado em adiamento sistemático e preocupante de seu enfrentamento. Um enigma instigante!

E quando se trata de prorrogar a ZFM, como modelo de irradiação de crescimento e ocupação equilibrada e sustentável do espaço socioeconômico, é inadiável rever os recursos formalmente destinados a esse fim.  No Amazonas, além dos Fundos pagos pela indústria para desenvolvimento das cadeias produtivas, turismo e outras iniciativas de interiorização do crescimento, das Taxas de Serviços Administrativos confiscadas pela União, e do Fundo de sustentação da Universidade do Estado do Amazonas, há ainda parte de um volume que ultrapassa a casa de R$ 1 bilhão/ano, as empresas beneficiadas pela Lei de Informática, na ZFM e em outras plantas industriais pelo país afora: elas recolhem outro R$ 1,3 bilhão a cada ano p ara fomentar P&D, Pesquisa e Desenvolvimento. Do ponto de vista dos recursos, portanto, é inaceitável qualquer desculpa para não ter implantado até aqui um padrão de primeiro mundo na educação de nossos jovens.

E se não faltam recursos para o ensino, falta gestão ou, em muitos casos entregues à Justiça, pudor no uso dessa ferramenta de transformação. Cabe aqui meditar sobre uma delas, criada para promover Pesquisa e Desenvolvimento, com o acréscimo do I, de Inovação, na perspectiva da formulação de um programa de médio longo prazo que construísse novas alternativas – coerentes com a vocação natural de negócios e com a paulatina emancipação da dependência de incentivos –  para a Amazônia Ocidental, sob a gerência da Suframa. O projeto nasceu ambicioso, nativo, focado no jeito e no insumo humano e cultural local – com a agregação dos valores que aqui vieram e estão – e s eu respectivo arcabouço legal. Resguardadas algumas iniciativas, que não completam os 5 dedos na mão do afago, o plano gorou em diversas de suas  proposições. Um delas, a do Instituto Nokia, que mobilizou o grito de: “agora vai!”, na esperança de tantos jovens, tudo indica, acaba de fazer água com a venda da empresa para a Microsoft. Na lógica da caneta, a falta de estatuto legal tudo parece volátil e virtual.

Há um Conselho, o CAPDA, na Suframa para gerenciar a pulverização e entender a  depreciação dos recursos. Alguns documentos, apelos, denúncias, já foram produzidos e traduzem expectativas de urgente mudança. Há que se fazer limpeza do terreno e reconhecer alguns avanços e, sobretudo, uma clareza de intuitos e vislumbres, para a formulação de um novo projeto – com respectivo marco regulatório – para gerenciar os recursos  pagos para este fim. Um dinheiro que nada mais é do que um começo de conversas nesse debate de prorrogação da ZFM. A formulação de algo semelhante a uma nova Assembleia Constituinte, de que fala o engenheiro-filósofo Saleh Hamdeh,  para regular a verba de P&D na perspectiva do desenvolvimento regional amazônico, apetrechando as novas gerações para agregar o valor precioso da inovação no acervo genético da floresta, 1/5 do bioma da Terra, fonte e resposta para a demanda local, nacional e global de fármacos, cosméticos, alimentos e energia. Caberia, pois, à Suframa, abrir um debate amplo, com participação robusta da comunidade científica, dos institutos, fundações, entidades de classe, e de todos aqueles envolvidos na conjugação do verbo inovar na primeira do plural, para formatar uma proposta que atenda aos anseios da sociedade. Uma proposta legal na definição de P&D&I – Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação,  para a Amazônia, base par a a indústria do conhecimento, a biópolis no Vale da Biodiversidade, à maneira do Vale do Silício, na Califórnia, que revolucionou a indústria digital do mundo a partir da inovação, da pesquisa focada no desenvolvimento.

Uma notícia recente, aparentemente prosaica, chamou a atenção neste clima de debate sobre a emergência do fator tecnologia da inovação,  para agregar insumos e luzes ao debate de mais 50 anos para a ZFM. É a produção de hambúrguer, linguiça, risoto, cachorro-quente, almôndegas e sopas, tudo feito com tilápia. Os pratos preparados com o peixe de origem africana, que fazem parte da merenda escolar de cerca de 3.500 estudantes do município de Apodi, no Rio Grande do Norte. O projeto foi iniciado na cidade há quatro anos, servindo aos alunos do ensino fundamental e médio apenas filé de tilápia em preparos simples. Hoje, estudantes de 11 escolas em quatro municíp ios do Estado já consomem o peixe, em preparos diversos. A associação entre dieta à base de peixe e desempenho intelectual é milenar, balanceada e, particularmente, deliciosa. Temos 3245 espécies de peixe nos rios amazônicos, muitos com perfil alimentar e de mercado da tilápia, mais uma das contribuições de Mãe-África para seus rebentos. As crianças por aqui, sabe-se lá por quais interesses,  consomem na merenda escolar linguiça calabresa de Santa Catarina, com feijão jalo, vindo da Bahia – o feijão de praia do Rio Purus é campeão de sabor e teor de proteína – entre outros itens industrializados, que percorrem três mil quilômetros de uma logística precária e cara para lhes ameaçar a saúde.  Um dos destaques da Semana de Tecnologia da Fucapi, ocorrida nestes dias, foi um trabalho desenvolvido pelos alunos de Logística da Escola, do Nível Médio, sobre Gerenciamento da Cadeia Produtiva do Pescado, num estado que desperdiça 20 milhões de toneladas de peixe por ano, onde 80% do consumo de tambaqui vem de Roraima. Por que não potencializar Roraima e exportar peixe para o Brasil e para o mundo. Tudo isso, pesquisa, desenvolvimento, inovação e alienação, faz lembrar As Flores do Mal de Charles Baudelaire, ao reconhecer que precisamos de menos calma para correr contra o tempo, temos o luxo dos recursos para desenvolver a bio-inovação e nos falta  volúpia para mudar este cenário de distorções. Até quando?

Quo Vadis, Urbs?

A expressão latina Quo Vadis, retirada da Bíblia, do livro de João Evangelista, descreve o clima de indagação – a busca de rumo e definições – que tomou conta dos cristãos após a morte, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo, nos primórdios do Cristianismo. Ela é retomada com frequência na literatura teológica da época e confere à pergunta contundente do apóstolo Pedro a Jesus, Quo Vadis, Domine?, o poder de traduzir a inquietação existencial e a configuração teológica da Igreja nascente. A expressão, por sua força e sentido, atravessou os séculos e virou um clássico da cinemateca de Hollywood. No Brasil, com o acréscimo do substantivo Urbs, o espaço urbano, foi inteligentemente apropriada pelos acertos urbanos da prefeitura de Curitiba, uma cidade premiada por seus parâmetros urbanos e sócio-ambientais de avanços civilizatórios: Quo Vadis Urbs é hoje a senha de localização e uso da bem sucedida estrutura viária de transportes, a mais laureada do planeta.

Mas nem sempre foi assim. Como Manaus na virada do século XIX, pioneira na utilização da eletricidade para fins de locomoção popular, Curitiba adotou a modernidade dos bondes elétricos para substituir as charretes ou carroças movidas a cavalo e fundou seu sistema de transporte no centro das estratégias urbanas de uso e ocupação do espaço público. Seu primeiro plano diretor é considerado pelos urbanistas como o mais democrático pelo nível de atendimento e satisfação das demandas do usuário. É importante destacar o caráter participativo de sua formulação original ocorrida em 1965 e de todas as oportunidades de atualização e ajustes que o progresso e o crescimento da cidade foram determinando historicamente. Aí, na captação de demandas, s ugestões e críticas da sociedade, reside a origem e a chave de compreensão de seus acertos.

Em Manaus, estamos nos ajustes, acessos e inclusões finais do novo Plano Diretor. Há que se reconhecer o esforço dos técnicos e parlamentares para traduzir a expectativa cívica de um planejamento participativo e focado no interess4 comum. Cabe rememorar o primeiro Plano Diretor de Manaus, formulado em plena folia do látex, pelo engenheiro João Miguel Ribas, em 1893, sob a batuta de Eduardo Gonçalves Ribeiro. Um plano que só foi atualizado e ajustado com a expansão urbana da economia da Zona Franca na gestão de Jorge Teixeira, 82 anos depois, em 1975, com algumas alterações e alinhamentos substantivos de Severiano Mário Porto, no governo municipal de Artur Neto em 1989. De lá pra cá, (des) mandos políticos, no sentido rasteiro da premissa imediatista, e da importação apressada de parâmetros e talentos estranhos às demandas e avaliações nativas, fizeram de Manaus essa falta de rumo e definições urbanas que abriga toda sorte de confusão e desalinho, oportunismos e degradação que a estão levando a lugar nenhum. Para onde vai a cidade com a profusão de canetas e carimbos dos arautos de uma legalidade de plantão a serviço de forças inominadas e a escassez de entendimento, planejamento e comunhão de propósitos? Para onde pode caminhar numa cidade cuja área vital de sua economia tem sido alvo de intervenção vesga, estapafúrdia, obscura e federal, num arbítrio improcedente contra o qual a tribo não se levanta nem mais se espanta?

Manaus tem uma estrutura viária específica, planejada há mais de um século, e maltratada desde então. Diferente de Brasília, que tem sua dinâmica de mobilidade urbana planejada e ancorada no transporte individual. Essa é a razão pela qual o metrô de lá teve suas obras se arrastando há anos e o trecho em funcionamento é muito pequeno em relação às dimensões demográficas da cidade. Manaus tem sua dinâmica relacionada ao deslocamento a pé em 50%, e o restante por ônibus e por veículos individuais. Este item teve um crescimento assustador nos últimos 10 anos. São cinco mil carros novos nas ruas a cada mês, resultado do crescimento econômico e da própria realidade adversa do transporte coletivo precário na cidade. É claro que nem só d e caos no trânsito e travamento do sistema viário se alimentam as demandas de planejamento urbano. É hora do fator político de ordenamento da polis, como postularam os gregos, anular a futrica estéril e sedimentar uma discussão que definirá responsabilidades e atores, a partir da elaboração do novo Plano Diretor de Manaus. Mais que interligar e priorizar uma visão holística e proativa, esta proposta contempla e exige seja monitorado o Plano Viário, Plano de Transporte Coletivo, Plano de Ciclovias, Plano Diretor de Águas, de Esgotos, de Drenagem, dos Transportes Aéreos, da Orla, da Estrutura Logística- Portuária, de Saneamento de Igarapés, de Coleta e Tratamento de Resíduos Sólidos, de Acessibilidade, de Áreas Comerciais e Industriais, Uso do Solo e Código de Posturas, Comunicações (Internet, Celulares e Redes Sociais), enfim, uma visão integrada, transparente e coerente dessa gama enorme de demandas e servi ços em favor do cidadão, fator essencial, sujeito, objeto e justificativa de toda gestão pública e ação política. Uma tarefa de fôlego e de todos.

Por isso, ainda é possível e preciso meter o bedelho do palpite proativo nessa novidade urbana de planejar paradigmas decentes, coerentes e inteligentes de ocupação do espaço, suas fragilidades e potencialidades. Mais do que isso: é essencial e decisivo acompanhar cada passo do que for aprovado. Afinal, o ato de crescer – quando se trata de uma semeadura urdida de um sonho, uma planta, uma casa ou nossa cidade – está associado ao imperativo do cuidar, assegurar ao espaço público o mesmo caráter e o zelo doméstico de quem o ocupa com as mesmas obrigações e afeto com que cuidamos do lar, onde fabricamos e vivemos o desafio da partilha familiar. Um modelo de vida em comum, na abrangência da comunhão cívica, que subsidia, surpreende e gratifica respostas para essa indagação que se impõe formular: Quo vadis, Urbs?

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