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Plano de Bioeconomia do Amazonas: uma arquitetura promissora em busca de execução consistente

A publicação do Plano Estadual de Bioeconomia do Amazonas, neste início de 2026, marca um momento relevante na trajetória recente do estado. Trata-se de um esforço institucional amplo e meritório que procura organizar, em bases mais estruturadas, uma agenda que há anos se apresenta como necessidade: transformar a floresta em pé em vetor econômico real, com geração de renda, inclusão social e inserção qualificada nos fluxos globais da economia sustentável. 

O plano nasce em um contexto que exige precisamente esse tipo de iniciativa. De um lado, o modelo industrial da Zona Franca de Manaus enfrenta pressões estruturais, tanto internas quanto externas. De outro, a agenda climática internacional, aliada à valorização crescente de ativos ambientais, abre uma janela concreta para reposicionar o Amazonas no cenário econômico global. A bioeconomia, nesse sentido, não surge como alternativa retórica, mas como possibilidade estratégica.

Mais do que isso, o plano representa um avanço importante na forma de conceber políticas públicas para a região. Ele se afasta, ao menos em intenção, de abordagens fragmentadas e setoriais, buscando integrar dimensões que historicamente foram tratadas de maneira isolada. Essa tentativa de articulação dialoga com uma premissa fundamental: no Amazonas, soluções efetivas não emergem de leituras unidimensionais, mas da capacidade de operar simultaneamente nos planos técnico-operacional, humano-institucional, econômico-estratégico e normativo-reputacional. 

Sob esse prisma, o plano deve ser lido menos como um documento acabado e mais como uma arquitetura em construção — um ponto de partida qualificado que precisará ser continuamente ajustado à realidade do território.

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Foto divulgação

A organização do plano em eixos estruturantes — governança, descarbonização, pessoas, negócios e patrimônio cultural e genético — revela um esforço de coerência interna e de alinhamento com agendas contemporâneas. Há clareza na definição de responsabilidades institucionais, com distribuição de funções entre secretarias e órgãos técnicos, além da adoção de instrumentos de gestão que buscam evitar sobreposições e lacunas. 

A formação anual de 3.000 pessoas, a criação de redes produtivas, o estímulo à inovação e a ampliação do acesso de populações tradicionais às políticas públicas sinalizam uma direção consistente. Ao mesmo tempo, a própria configuração dessas metas abre espaço para um aperfeiçoamento importante: a explicitação de linhas de base.

Sem esse referencial inicial, a avaliação de progresso tende a se tornar mais interpretativa do que objetiva. Trata-se menos de uma falha e mais de uma oportunidade de qualificação metodológica, especialmente em um plano que se propõe a ser monitorado ao longo do tempo.

O processo de construção do plano mobilizou números expressivos de participação, com milhares de contribuições oriundas de diferentes regiões do estado. Esse esforço deve ser reconhecido como um avanço em relação a práticas mais centralizadas de formulação de políticas.

Ainda assim, a etapa seguinte dessa construção pode se beneficiar de um nível maior de transparência e rastreabilidade. Em um território socialmente diverso como o Amazonas, compreender com mais precisão quem participou — e em que medida — não é um detalhe metodológico, mas um elemento central para aferir a legitimidade do processo.

Essa observação não reduz o valor do esforço realizado. Pelo contrário, aponta para um aprimoramento que pode fortalecer a credibilidade do plano, especialmente junto às populações diretamente impactadas por sua implementação.

Se o plano é sólido em sua concepção, sua efetividade dependerá da forma como enfrentará três dimensões críticas.

Um dos aspectos mais sensíveis do plano é sua relação com o modelo da Zona Franca de Manaus. O documento adota uma postura de continuidade, buscando integrar a bioeconomia como evolução do modelo existente.

Essa escolha é politicamente prudente e institucionalmente necessária. Ao mesmo tempo, a transição entre um modelo industrial consolidado e cadeias produtivas de base biológica envolve dinâmicas mais complexas, que incluem incentivos econômicos, cultura empresarial e tempo de maturação dos investimentos.

Nesse campo, o plano abre uma agenda relevante. Sua consolidação dependerá da capacidade de construir pontes concretas entre esses dois universos, evitando tanto rupturas abruptas quanto acomodações que limitem o potencial transformador da proposta.

Outro espaço fértil para evolução do plano está na incorporação mais explícita de experiências externas. Estados amazônicos vizinhos e países tropicais já acumulam trajetórias em temas como mercado de carbono, manejo florestal e pagamentos por serviços ambientais.

A incorporação desses referenciais não diminui a originalidade do plano. Ao contrário, amplia sua capacidade de aprendizado e acelera a identificação de caminhos viáveis, especialmente em áreas mais sensíveis como bioindústria, regulação e escalabilidade de produtos da biodiversidade.

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O Plano Estadual de Bioeconomia do Amazonas tem um mérito que precisa ser reconhecido com clareza: ele nomeia, organiza e institucionaliza uma agenda que há muito se impõe como necessária. Ao fazê-lo, cria condições para que o estado avance de forma mais coordenada em direção a um novo modelo de desenvolvimento.

Sua efetividade, no entanto, dependerá menos da qualidade do texto — que é consistente — e mais da capacidade de operar na complexidade do território. Isso exige, antes de tudo, uma postura de concepção que reconheça a natureza multidimensional dos desafios amazônicos.

Projetos, políticas e estratégias, na região, não fracassam necessariamente por erros de execução. Muitas vezes, falham antes, na forma como são concebidos — quando deixam de integrar variáveis técnicas, sociais, econômicas e institucionais desde o início. 

O plano, ao estruturar uma visão abrangente, já avança nesse sentido. Seu próximo movimento é traduzir essa visão em decisões operacionais capazes de se sustentar no tempo e no território.

O Amazonas dispõe de ativos singulares: biodiversidade, conhecimento tradicional e atenção internacional crescente. Transformar esses ativos em resultados concretos é um desafio de método, de governança e de continuidade.

O plano oferece um caminho. Sua consolidação dependerá da capacidade coletiva de percorrê-lo com consistência, ajustando rotas, incorporando aprendizados e mantendo o foco no que, ao final, define qualquer política pública: sua capacidade de produzir efeitos reais na vida das pessoas.

Estevão Monteiro de Paula possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Amazonas (1979), mestrado em Engenharia de Estruturas na Escola de Engenharia de São Carlos pela Universidade de São Paulo (1981) e Ph.D. – University of Tennessee (1989) dos EUA. Membro da comissão de revisão da ABNT NBR 7190:1997 – Exerceu atividades de Presidente do Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas Gerente do Centro Técnico Operacional de Manaus do Sistema de Proteção da Amazônia – SIPAM, Diretor Substituto do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA e Coordenador Geral de Pesquisas do INPA.

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Entre impostos , dívidas e apostas, a renda encurta 

“O Brasil entrou em uma fase curiosa e preocupante da sua dinâmica econômica. Nunca se arrecadou tanto. Nunca se deveu tanto. E, no meio desse aparente vigor, algo mais profundo começa a se desfazer. Dívidas e apostas avançam sobre a renda, comprometendo a capacidade real das famílias de sustentar o próprio cotidiano.”

A carga tributária atingiu 32,4% do PIB em 2025. O dado, isolado, pode sugerir eficiência arrecadatória. No entanto, quando observado em perspectiva, revela um efeito cumulativo sobre a estrutura econômica. A elevação contínua da arrecadação, especialmente sobre o consumo, altera a forma como a renda circula no país.

O sistema tributário brasileiro incide majoritariamente sobre bens e serviços. Isso significa que a arrecadação cresce à medida que o custo de vida sobe. O efeito não é neutro. Ele comprime a renda disponível, reduz a capacidade de poupança e enfraquece o investimento das famílias. Ao mesmo tempo, encarece a operação das empresas, que repassam custos e reduzem margens de expansão.

A economia passa a funcionar com menor elasticidade. O consumo perde fôlego, o investimento se torna mais cauteloso e o crescimento tende a se apoiar mais na arrecadação do que na produtividade. É um deslocamento sutil, mas estrutural. A arrecadação cresce, mas a vitalidade econômica não acompanha na mesma proporção.

Nesse ambiente, o endividamento das famílias deixa de ser um fenômeno episódico e passa a ser um componente permanente do sistema. Com 80% dos lares endividados e quase um terço da renda comprometida, o crédito já não atua como alavanca de consumo, mas como mecanismo de sustentação do básico.

É nesse ponto que surge um elemento novo, capaz de agravar esse desequilíbrio. A expansão das plataformas de apostas digitais.

DÍVIDAS E APOSTAS
Endividamento das familias

A liberação das BETs introduziu uma dinâmica que não dialoga com a economia produtiva. Trata-se de uma atividade que captura renda sem gerar contrapartida equivalente em bens, serviços ou investimentos locais. O dinheiro não circula. Ele é drenado.

Esse movimento ocorre justamente no momento em que a renda das famílias já está pressionada por tributos e pelo custo de vida. O resultado é um desvio adicional de recursos que compromete ainda mais a capacidade de consumo e organização financeira.

O impacto não se limita ao indivíduo. Ele se projeta sobre a estrutura econômica. Quando a renda deixa de alimentar o consumo produtivo, há redução do efeito multiplicador. Setores que dependem da demanda interna sentem a retração. O comércio desacelera. A indústria ajusta produção. O ciclo econômico perde consistência.

Ao mesmo tempo, o uso de crédito para sustentar gastos cotidianos passa a conviver com a possibilidade de perdas associadas ao jogo. A combinação é particularmente sensível. A dívida deixa de estar vinculada apenas à necessidade e passa a incorporar riscos adicionais, ampliando a instabilidade financeira das famílias.

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Imagem divulgação

Há também um efeito distributivo relevante. O sistema tributário já opera de forma regressiva. A economia da aposta intensifica essa regressividade ao capturar renda justamente das camadas mais expostas à volatilidade financeira. O resultado é uma transferência silenciosa que enfraquece os esforços de inclusão econômica.

O país se aproxima, assim, de um cenário em que a arrecadação cresce de forma consistente, mas a base econômica se fragiliza. O consumo perde densidade. A renda circula menos. O endividamento se torna estrutural. E uma parcela crescente dos recursos escapa do circuito produtivo.

A questão que se coloca não é apenas fiscal. É de coerência econômica. O Brasil parece ter encontrado mecanismos eficientes para ampliar receitas, mas ainda não equilibrou os efeitos dessa expansão sobre o funcionamento da economia real.

O risco não está no tamanho da arrecadação em si, mas nas sequelas que ela produz quando não acompanhada de um ambiente que preserve a capacidade de consumo, investimento e geração de valor.

No meio desse processo, a economia da aposta atua como um acelerador silencioso. Ela não cria o problema, mas amplia suas consequências e reduz o espaço de recuperação.

O país arrecada mais. Mas sustenta menos.

A Amazônia diante de um mundo em ruptura

Coluna Follow-Up

A partir das reflexões de Denis Minev, por ocasião do III Fórum de ESG Amazônia, este ensaio analisa como o fim da ordem global, os limites da economia brasileira e a nova corrida tecnológica colocam a Amazônia no centro de decisões que já não podem ser adiadas.

A quebra da ordem global

Debater  a Agenda ESG em tempos de abalos na geopolítica global, cenários da economia nacional e desafios e vantagens da adoção da inteligência artificial no encaminhamento da Zona Franca de Manaus, supõe um olhar preferencial para o G de governança. 

Durante algum tempo, a economia mundial pareceu operar sob o conforto relativo de uma ordem previsível. Havia conflitos, tensões, assimetrias, mas existia uma arquitetura de coordenação. O comércio global expandia-se, as instituições multilaterais preservavam alguma autoridade e a ideia de desenvolvimento parecia vinculada à integração econômica, ao progresso tecnológico e, ainda que de forma imperfeita, à busca de estabilidade. Esse mundo, como lembrou Denis Minev em sua recente reflexão pública, deixou de existir.

O que se apresenta agora é uma paisagem mais dura. Um ambiente de dispersão de poder, fragilidade institucional, rivalidades geopolíticas crescentes e menor capacidade de arbitragem internacional. É o mundo do G0, Governança Zero, expressão que ajuda a descrever uma realidade em que já não há um “policial pacífico” da ordem global, mas uma multiplicação de interesses, riscos e movimentos unilaterais. Para países como o Brasil, e de forma ainda mais aguda para regiões como a Amazônia, isso não é abstração acadêmica. É matéria-prima do cotidiano econômico.

Um mundo mais instável, uma Amazônia mais exposta

A geopolítica voltou a pesar sobre a economia com brutalidade. O preço do petróleo, os gargalos logísticos, o custo dos fertilizantes, a insegurança nas rotas marítimas, a reorganização das cadeias produtivas, tudo isso incide diretamente sobre o custo de produzir, transportar, consumir e investir. E a Amazônia sente esses choques com uma intensidade própria. Suas cadeias são longas, a dependência logística é elevada, o custo do deslocamento é estrutural, não conjuntural. Quando o mundo encarece, a região encarece mais.

China, Índia e o novo tabuleiro do poder

É nesse ponto que a leitura de Denis Minev ganha relevância especial. Ao olhar para a China, para a Índia, para a Europa enfraquecida e para os impasses do Ocidente, ele não está apenas descrevendo o tabuleiro global. Está propondo uma pedagogia do realismo. A China continua avançando com disciplina histórica, conquistando mercado, ampliando presença, convertendo escala em poder.

Mas esse avanço convive com contradições sociais, restrições de liberdade e um modelo de vigilância que desafia valores fundamentais de sociedades abertas. A Índia, por sua vez, aparece como promessa estratégica ainda subestimada pelo Brasil, um país que cresce em ritmo robusto e tende a se afirmar como um dos grandes polos econômicos do século. Já a Europa vê ruir parte de seu arranjo confortável, especialmente o modelo alemão, antes sustentado por energia barata da Rússia, proteção estratégica dos Estados Unidos e manufatura barata da China.

Quando a geopolítica vira preço

Essa recomposição do mundo não apenas desloca centros de gravidade. Ela recoloca perguntas antigas com roupagem nova. Quem controla energia controla inflação. Quem controla dados controla produtividade. Quem controla tecnologia controla soberania. E quem não se prepara para isso corre o risco de se tornar mercado cativo, território passivo ou simples espectador do próprio futuro.

ESG, a hora da governança 

É justamente nesse cruzamento entre geopolítica, economia e estratégia empresarial que o debate ESG precisa ser resgatado de sua caricatura. Em ambientes mais superficiais, ESG ainda é tratado como repertório moral, etiqueta reputacional ou obrigação burocrática. Mas o que a conjuntura atual demonstra é outra coisa. ESG, quando levado a sério, é linguagem de governança para tempos instáveis. É mecanismo de leitura de risco, disciplina de gestão, método de adaptação e, no caso amazônico, possibilidade concreta de diferenciação competitiva.

ZFM, segurança regulatória 

A Amazônia tem diante de si uma escolha histórica. Pode continuar sendo narrada por terceiros, como passivo ambiental, fronteira a tutelar ou território à espera de redenção externa. Ou pode apresentar-se como laboratório estratégico de um modelo produtivo que combine indústria, floresta em pé, inteligência logística, bioeconomia, tecnologia e compromisso social. Não se trata de retórica. Trata-se de reposicionamento.

A Zona Franca de Manaus surge, nesse contexto, com um ativo precioso: previsibilidade institucional. A reforma tributária, ao preservar e reforçar os fundamentos do modelo, entregou ao Amazonas mais do que proteção. Entregou tempo estratégico. Em um mundo convulsionado, tempo é ativo econômico. Segurança jurídica é ativo geopolítico. E confiança regulatória é ativo de investimento.

Geopolítica instável, economia sob pressão e inteligência artificial reconfiguram as bases do desenvolvimento — e exigem respostas imediatas da Zona Franca de Manaus

Quando a geopolítica vira preço

Minev chamou atenção, com razão, para o caráter quase surpreendente desse momento. O Polo Industrial de Manaus bate recordes, gera empregos, mantém dinamismo e sinaliza vitalidade num período em que muitos apostariam em retração. Isso não é obra do acaso.

É resultado de uma longa construção institucional, de resistência política, de competência empresarial e de adaptação às mudanças do ambiente nacional e internacional. A elevação do preço dos galpões em Manaus, mencionada em sua fala, é sintoma revelador. Investimento sempre capta sinais antes de produzir manchetes.

O modelo que funciona – e o que ainda falta

Mas esse êxito não dispensa a autocrítica. Talvez a pergunta mais incômoda da palestra tenha sido a mais importante: estamos fazendo o suficiente para tornar a economia amazônica menos dependente do Polo Industrial? A resposta, dada sem rodeios, foi não. Há robustez dentro do modelo incentivado, mas ainda há fragilidade fora dele.

Seguimos com dificuldade para apontar empresas profundamente amazônicas, fora do eixo comércio-serviços e fora da engrenagem tradicional dos incentivos, que tenham alcançado escala expressiva. Isso revela um limite que a região precisa enfrentar com seriedade. Não basta defender a Zona Franca. É preciso fazer dela plataforma de transbordamento.

A economia que ainda não nasceu

É aí que o reflorestamento produtivo, a recuperação de áreas degradadas, a transformação de terra degradada em terra produtiva e os investimentos vinculados a soluções baseadas na natureza deixam de ser promessas vagas e passam a integrar uma agenda concreta de diversificação econômica.

A floresta em pé não deve ser apenas argumento ético ou metáfora civilizatória. Precisa tornar-se também economia mensurável, renda escalável, inovação territorializada e modelo replicável. O desafio não é inventar slogans verdes, mas construir cadeias, atrair capital paciente, organizar governança, conectar ciência e negócio, e dar lastro técnico à esperança.

A maior corrida tecnológica da história

Ao mesmo tempo, nenhum debate sério sobre futuro pode hoje contornar a inteligência artificial. E talvez esse tenha sido o núcleo mais vibrante da fala de Denis Minev. O mundo está atravessando um ciclo de investimento em IA sem paralelo histórico. Nem a eletricidade, nem o automóvel, nem a internet, em suas fases iniciais, atraíram simultaneamente tamanha massa de capital, tamanho grau de obsessão corporativa e tamanha expectativa de salto de produtividade. O que está em curso não é apenas uma onda tecnológica. É uma reorganização profunda da economia do conhecimento.

Geopolítica instável, economia sob pressão e inteligência artificial reconfiguram as bases do desenvolvimento — e exigem respostas imediatas da Zona Franca de Manaus
Denis Minev

Inteligência artificial: produtividade e ruptura

A inteligência artificial aparece, então, como a grande oportunidade e o grande abalo. Oportunidade porque pode aumentar produtividade, reduzir assimetrias de acesso à informação, qualificar decisões, acelerar aprendizado, ampliar competitividade e democratizar certas capacidades antes restritas a especialistas. Abalo porque traz consigo riscos sérios de cibersegurança, concentração tecnológica, desemprego em funções intermediárias e ruptura nas escadas tradicionais de formação profissional.

O fim da escada profissional

A imagem apresentada por Minev é reveladora. Se a IA já atua como um “estagiário melhor” em certas tarefas jurídicas, técnicas ou analíticas, então não estamos apenas falando de eficiência. Estamos falando de mudança na própria arquitetura do trabalho. Como formar bons advogados, engenheiros, programadores e gestores se a base da experiência profissional estiver sendo comprimida por automação? Essa é uma pergunta de sociedade, não apenas de mercado. É pergunta para a educação, para a política pública, para as empresas e para a regulação

O pulo do gato Bemol

O que impressiona, no caso da Bemol, é que a resposta não tem sido teórica. A aposta em capacitação em larga escala, a ida de dezenas de profissionais ao NVIDIA GTC, o esforço de difundir acesso às ferramentas entre milhares de colaboradores, inclusive fora das áreas técnicas, indicam uma compreensão rara no empresariado brasileiro. A IA não é assunto de laboratório isolado. É agenda de cultura organizacional. É ferramenta transversal. É alfabetização produtiva.

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Denis e a Equipe Bemol no evento NVIDIA GTC na Califórnia – foto: Reprodução

Segurança digital é segurança nacional

Nesse ponto, a palestra toca num nervo exposto do Brasil. O país até fala de inteligência artificial, mas ainda não a trata com a urgência que o tema exige. O debate público continua atrasado em relação à velocidade da transformação. Enquanto corporações globais reorganizam processos, governos repensam defesa digital e empresas requalificam equipes, parte relevante do ambiente institucional brasileiro ainda oscila entre fascínio superficial, medo difuso e incompreensão prática.

O tempo da hesitação acabou

Para o Amazonas, esse atraso pode custar caro. Mas também pode ser revertido em vantagem, desde que a região compreenda uma verdade estratégica simples: a próxima fronteira de competitividade não será vencida apenas com benefício fiscal, mão de obra disponível ou localização industrial consolidada. Ela dependerá cada vez mais da capacidade de combinar governança, inteligência tecnológica, formação humana e visão territorial.

A Amazônia diante da decisão ESG

Isso nos leva de volta ao mot implícito desta reflexão. Debater a agenda ESG em tempos de abalos geopolíticos não é insistir numa pauta lateral em meio ao caos. É entender que, justamente porque o mundo se tornou mais instável, mais belicoso e mais fragmentado, cresce a importância de modelos produtivos capazes de sustentar legitimidade, resiliência e futuro. A Amazônia não pode entrar nesse novo tempo apenas como paisagem moral do planeta. Precisa entrar como sujeito econômico, tecnológico e institucional.

Entre reagir e liderar

A fala de Denis Minev tem o mérito de reunir franqueza empresarial e percepção histórica. Não há nela complacência com o cenário global, nem romantização do progresso tecnológico, nem ilusão sobre as fragilidades nacionais. Mas há um ponto de fundo que merece ser destacado: em meio às incertezas do mundo, a Amazônia ainda dispõe de ativos raros. Possui relevância ambiental, densidade industrial, potencial científico, centralidade climática e uma oportunidade real de reposicionamento.

A pergunta, então, não é se o mundo mudou. Mudou radicalmente. A pergunta é se teremos a lucidez, a disciplina e a ousadia de construir, a partir da Amazônia, uma resposta à altura desse novo tempo.


Follow-Up é publicada às quartas, quintas e sextas feiras no Jornal do Commercio do Amazonas, sob s responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do brasilamazoniaagora.com.br

Nova enzima sustentável na indústria de papel promete corte de poluentes

Desenvolvida por cientistas brasileiras, tecnologia com fungos transforma resíduos agrícolas em enzima sustentável na indústria de papel, reduzindo poluentes e ampliando eficiência produtiva.

Pesquisadoras da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) desenvolveram uma tecnologia que pode reduzir o uso de substâncias químicas tóxicas na indústria de papel e celulose. 

A solução utiliza uma enzima produzida por fungos cultivados em resíduos agrícolas, oferecendo uma alternativa mais limpa para o processo de branqueamento da polpa celulósica. O avanço de uma enzima sustentável na indústria de papel tem potencial de aplicação em escala industrial.

Tradicionalmente, essa etapa industrial depende de compostos à base de cloro, como o dióxido de cloro, conhecidos pelo potencial poluente. Esses reagentes podem contaminar efluentes líquidos e liberar gases prejudiciais ao meio ambiente e à saúde humana. 

A nova abordagem propõe substituir parte desses insumos por uma enzima chamada xilanase, capaz de atuar na remoção de componentes da madeira durante o processamento. O uso dessa enzima sustentável na indústria de papel surge como alternativa para reduzir a carga química e os impactos ambientais do setor.

A xilanase é produzida a partir do fungo Aspergillus caespitosus, cultivado em resíduos de baixo custo, como bagaço de cana-de-açúcar e farelo de trigo, que atuam como substrato em fermentação em estado sólido. Além de reduzir custos, a estratégia valoriza subprodutos agrícolas e se alinha à bioeconomia circular. A escolha do material varia conforme a região: o bagaço é mais viável em áreas sucroalcooleiras, mesmo com pré-tratamento, enquanto o farelo de trigo pode ser utilizado diretamente em regiões produtoras.

Bagaço de cana-de-açúcar utilizado como matéria-prima para produzir enzima sustentável na indústria de papel.
Resíduo agrícola como o bagaço de cana pode ser usado na produção de enzima sustentável na indústria de papel. Foto: Canoeste.

Um dos diferenciais da enzima desenvolvida é sua estabilidade térmica. Enquanto muitas enzimas fúngicas perdem eficiência em temperaturas mais elevadas, a xilanase estudada mantém atividade em torno de 60 °C. 

Essa característica permite a aplicação da enzima sustentável na indústria de papel, especialmente nas etapas finais do branqueamento industrial, quando a temperatura do processo já está reduzida. A substância atua como complemento ao método convencional, diminuindo a necessidade de agentes químicos agressivos

Atualmente, os pesquisadores buscam ampliar o uso da enzima sustentável na indústria de papel por meio de técnicas que permitam sua reutilização, com foco em aumentar sua durabilidade e eficiência ao longo do processo.

Os resultados reforçam o papel estratégico da pesquisa e da biodiversidade brasileiras no desenvolvimento de soluções industriais mais sustentáveis. Em um país que ocupa posição de destaque na produção global de celulose, tecnologias capazes de reduzir impactos ambientais tendem a ganhar relevância crescente nos próximos anos.

Idesam oferece até R$ 200 mil em prêmios no Desafio Bioinovação Amazônia

O Idesam abre inscrições para o Desafio Bioinovação Amazônia, com prêmios de até R$ 200 mil e apoio com bolsas, mentoria e suporte técnico para soluções focadas na biodiversidade amazônica.

O Idesam lançou uma iniciativa internacional voltada à bioeconomia que pretende converter o conhecimento científico sobre a biodiversidade amazônica em produtos e soluções com potencial de mercado. Com inscrições abertas, o Desafio Bioinovação Amazônia busca reunir inovadores brasileiros e especialistas globais em pesquisa e desenvolvimento (P&D) para atuar em projetos ligados a cadeias sustentáveis da floresta.

A proposta tem financiamento do Bezos Earth Fund e conta com a parceria da Penn State University, além de organizações como a Rede Terra do Meio e a COOPEACRE. O objetivo é desenvolver soluções inovadoras a partir de insumos amazônicos, como açaí, castanha-do-brasil, andiroba, copaíba, murumuru, buriti, babaçu e borracha nativa, com foco em setores como alimentação, cosméticos e materiais sustentáveis.

Segundo Paulo Simonetti, gerente de Inovação Aberta e ESG do Idesam, o projeto aposta na convergência entre ciência e saberes locais. Para ele, trata-se do “tipo de inovação que precisamos para o futuro da Amazônia”, ao unir geração de valor econômico com a manutenção da floresta em pé .

Estrutura e etapas do programa

O desafio será desenvolvido em quatro fases: seleção de participantes, formação de equipes e concepção das soluções, período de imersão com validação das propostas e, por fim, a premiação. Parte central da experiência inclui uma residência de aproximadamente 15 dias na Amazônia, com atividades em Manaus e em comunidades rurais, com custos cobertos pela organização.

Ao todo, seis desafios orientam o programa, abordando temas como o aproveitamento de resíduos do açaí, a valorização de óleos vegetais amazônicos, o desenvolvimento de biomateriais a partir da borracha nativa e soluções para a cadeia produtiva da castanha.

Especialista apresenta árvore durante ação de educação ambiental e bioeconomia do Idesam na Amazônia
Ação de educação ambiental do Idesam promove bioeconomia e valorização da floresta em pé na Amazônia. Foto: Divulgação/Idesam

Perfis e incentivos

A chamada busca dois perfis principais: inovadores com experiência prática na Amazônia e interesse em empreendedorismo — restrito a brasileiros — e especialistas internacionais em P&D com atuação nos setores envolvidos. A ideia é integrar conhecimentos técnicos e vivências diversas para ampliar o potencial das soluções propostas.

Os selecionados para a fase de imersão terão acesso a bolsas mensais, apoio financeiro para testes e validações, mentoria especializada e suporte de instituições como o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e o Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA). As equipes também contarão com recursos de até R$ 100 mil para desenvolvimento de protótipos.

Na etapa final, os três melhores projetos receberão prêmios de até R$ 200 mil, além de suporte jurídico e estratégico para inserção no mercado. Os vencedores ainda poderão estabelecer parceria com a Zôma, iniciativa do Idesam voltada à geração de negócios na nova economia da floresta.

Atuação do Idesam

Com sede na Amazônia e atuação desde 2004, o Idesam se consolidou como uma das principais organizações brasileiras dedicadas à conservação ambiental aliada ao desenvolvimento socioeconômico. O Idesam trabalha no fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis, na promoção da bioeconomia e na construção de soluções para mitigação das mudanças climáticas, articulando ciência, políticas públicas e iniciativas de mercado.

Reconhecido nacional e internacionalmente, o Idesam acumula prêmios e certificações que reforçam seu papel estratégico na região, incluindo o reconhecimento como uma das melhores ONGs ambientais do país. Ao estruturar programas como o Desafio Bioinovação Amazônia, o Idesam amplia sua atuação ao conectar talentos, investimentos e conhecimento técnico para impulsionar uma nova economia baseada na floresta em pé.

Super Terminais, 30 anos: a engenharia silenciosa que sustenta a Amazônia produtiva

Coluna Follow-Up

Na história do desenvolvimento do Amazonas há empresas que nascem de uma oportunidade. Outras, de uma necessidade estrutural. A da Super Terminais começa com ambas.

Em 1977, Franco Di Gregorio chega a Manaus em um cenário onde a logística era limitada, cara e dependente do transporte aéreo. Ao assumir o desafio de levar radiocomunicadores para São Paulo, destinados à indústria automotiva do ABC paulista, ele não apenas executa uma operação. Abre um caminho.

Ao enxergar nos rios amazônicos uma alternativa logística viável, inaugura uma lógica que viria a sustentar, décadas depois, a competitividade de toda uma região. A floresta deixava de ser barreira para se tornar corredor.

Da experiência ao porto

O que começou como operação se transformou em conhecimento acumulado. E o conhecimento, em infraestrutura. A criação da Super Terminais, em 1996, não foi um salto, mas consequência. A consolidação de duas décadas de aprendizado sobre os ritmos da Amazônia, suas distâncias e suas limitações.

A partir dali, a logística deixa de ser adaptação e passa a ser engenharia. O porto surge como resposta estruturada às necessidades crescentes do Polo Industrial de Manaus, que já demandava escala, previsibilidade e eficiência.

Super Terminais, 30 anos: a engenharia silenciosa que sustenta a Amazônia produtiva

A nova geração e o salto tecnológico

A história ganha novo impulso com Marcello Di Gregorio. Aos 20 anos, ele inicia sua trajetória na logística e no comércio exterior, retornando depois aos negócios da família. Em 2022, assume a liderança da empresa em um contexto adverso, marcado por pandemia, disrupções globais e pressão crescente por sustentabilidade.

Sua gestão introduz um vetor claro. Transformar o terminal em referência tecnológica e ambiental. A busca por boas práticas internacionais, a modernização de equipamentos e sistemas e a incorporação de critérios ambientais mais rigorosos não são apenas movimentos de atualização. São reposicionamento estratégico em um ambiente que exige precisão operacional em condições extremas.

Operar onde poucos apostam

A logística na Amazônia não admite soluções padronizadas. A variação do nível dos rios, que pode chegar a 20 metros ao longo do ano, impõe uma dinâmica única. Seis meses de cheia, seis meses de seca. Um regime que exige flexibilidade estrutural e inteligência operacional contínua.

A resposta da Super Terminais está em soluções como módulos flutuantes e adaptações permanentes à realidade hidrológica. Aqui, eficiência não é apenas produtividade. É capacidade de operar onde outros não conseguem.

Quando a crise testa o sistema

As secas históricas de 2023 e 2024 elevaram esse desafio a outro patamar. Em 2023, o terminal chegou a ficar cerca de 45 dias sem receber navios. No ano seguinte, diante da previsão de um cenário ainda mais severo, a empresa antecipou uma resposta logística de grande escala.

Transferiu módulos operacionais para Itacoatiara e estruturou uma operação de transbordo que movimentou 27 navios, cerca de 33 mil contêineres e aproximadamente 840 mil toneladas. Não se tratava apenas de manter a operação. Tratava-se de preservar o abastecimento industrial do país.

Um polo que sustenta o Brasil

A dimensão dessa logística extrapola o Amazonas. Manaus responde integralmente por segmentos estratégicos do mercado interno. A totalidade dos televisores de até 75 polegadas consumidos no país, das motocicletas de até 250 cilindradas e dos aparelhos de ar-condicionado de até 32 mil BTUs é produzida na região.

Sem fluxo logístico, não há produção. Sem produção, não há abastecimento. Nesse arranjo, a Super Terminais ocupa posição central. Recebe cerca de 50% dos contêineres de importação e parcela relevante da cabotagem. Aproximadamente 40% dos produtos industriais que entram e saem de Manaus passam por sua estrutura.

A Amazônia conectada ao mundo

A operação não se limita ao território nacional. Cerca de 60% das matérias-primas vêm da Ásia. A rota inclui travessia transpacífica, passagem pelo Panamá, escalas no Caribe e a subida de aproximadamente 2 mil quilômetros pelo rio Amazonas.

É uma cadeia longa, sensível e altamente dependente de sincronização logística. Uma artéria global que desemboca no coração da floresta.

Modernização contínua

Ao longo de três décadas, a Super Terminais acompanhou a evolução dessa complexidade. Das primeiras operações em 1996 à estrutura atual, com múltiplos equipamentos e expansão do cais, há um processo consistente de investimento. Parcerias tecnológicas de longo prazo, como a mantida com a Kalmar, contribuíram para padronizar e elevar o nível das operações.

O resultado é um terminal que não apenas opera. Antecipar cenários tornou-se parte do seu método.

O futuro como responsabilidade

Marcello Di Gregorio projeta uma empresa sólida, perene e humanizada. Uma organização que combina eficiência com responsabilidade ambiental e compromisso com a comunidade.

A meta é clara. Tornar-se referência nacional em tecnologia e sustentabilidade nos próximos anos. Não como discurso, mas como trabalho.

Marcello Di Gregorio Super Terminais, 30 anos: a engenharia silenciosa que sustenta a Amazônia produtiva
Marcello Di Gregorio

Infraestrutura: a agenda que não pode recuar

Há, no entanto, um ponto que atravessa toda essa trajetória e precisa ser dito sem ambiguidade. A competitividade da Amazônia não é espontânea. Ela é construída. E depende, de forma direta, da infraestrutura logística. Cada metro de cais, cada rota viabilizada, cada solução técnica desenvolvida representa uma conquista em um ambiente historicamente negligenciado. Não há margem para retrocessos.

Se a Super Terminais é hoje um ativo estratégico, isso se deve a décadas de investimento, risco e persistência em um território onde operar custa mais, exige mais e entrega ao país mais do que se costuma reconhecer. Defender a infraestrutura amazônica é, portanto, defender a própria capacidade do Brasil de produzir, integrar e competir.

Um porto, uma história, uma premissa

Ao completar 30 anos, a Super Terminais celebra mais do que sua trajetória. Celebra a afirmação de uma ideia. A de que é possível transformar geografia em vantagem, complexidade em eficiência e isolamento em conexão.

Uma história que começou com uma travessia e que hoje sustenta, em silêncio, parte relevante da economia brasileira. Parabéns pelos 30 anos. 


Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br

Água em risco: como a poluição ameaça a vida nos rios do planeta e o que pode ser feito agora


A água doce cobre menos de 1% da superfície da Terra, mas abriga uma parcela desproporcional da biodiversidade global. Rios, lagos e áreas alagadas sustentam milhares de espécies e garantem serviços essenciais para bilhões de pessoas, da produção de alimentos ao abastecimento humano. Ainda assim, esses ecossistemas estão entre os mais ameaçados do planeta.

Um estudo internacional recente, publicado na revista Environmental Reviews e do qual este autor é um dos participantes, reúne evidências de diversas regiões do mundo para mostrar que a degradação da qualidade da água é hoje um dos principais motores da perda de biodiversidade em ambientes aquáticos. Mais do que isso: o trabalho alerta que as soluções atualmente adotadas são insuficientes diante da complexidade do problema.

O artigo científico está disponível em Environmental Reviews 34: 1–30 (2026). https://doi.org/10.1139/er-2025-0229

Um problema invisível e global

A poluição da água não é um fenômeno isolado nem recente. Ela resulta de décadas, em alguns casos, séculos, de atividades humanas. Substâncias químicas simples, como sais e nutrientes, convivem com contaminantes mais complexos, como pesticidas, fármacos e microplásticos.

Mas o desafio vai além da diversidade de poluentes. Eles raramente atuam sozinhos. Em muitos casos, diferentes contaminantes se combinam entre si e com outros estressores, como o aquecimento global, amplificando seus efeitos. O resultado é um cenário de múltiplas pressões: perda de espécies, alterações nos ciclos ecológicos, queda na qualidade da água para consumo humano e impactos econômicos significativos.

Água em risco: como a poluição ameaça a vida nos rios do planeta e o que pode ser feito agora
Foto: Sojhal Mehtab/Unsplash

De onde vem a poluição?

As fontes de poluição são variadas e, muitas vezes, interligadas. Entre as principais estão:
-Esgoto doméstico, ainda sem tratamento adequado em grande parte do mundo;
-Agricultura, responsável por grande parte da carga de nutrientes e pesticidas;
-Indústria, com uma gama extensa de substâncias químicas e metais pesados;
-Mineração, com impactos duradouros e frequentemente irreversíveis;
-Ambientes urbanos, que concentram resíduos, plásticos e poluição térmica.

Dados globais indicam que menos da metade do esgoto doméstico e industrial recebe tratamento adequado antes de ser lançado no ambiente. Além disso, fertilizantes e pesticidas utilizados na agricultura afetam vastas áreas, tornando a poluição difusa um dos maiores desafios para a gestão ambiental.

Efeitos que vão além da natureza

Os impactos da poluição da água não se restringem aos ecossistemas. Eles afetam diretamente a saúde humana, a economia e a segurança alimentar. Doenças transmitidas pela água contaminada ainda causam milhões de mortes todos os anos, especialmente em regiões mais vulneráveis. Ao mesmo tempo, a degradação dos ecossistemas reduz a produtividade pesqueira, compromete o abastecimento e aumenta os custos de tratamento de água. Há, portanto, uma convergência clara: proteger a biodiversidade aquática significa também proteger o bem-estar humano.

Por que as soluções atuais não funcionam?

Apesar de avanços importantes em algumas regiões, como a melhoria no tratamento de esgoto e a redução de certos poluentes, o progresso global é limitado e desigual. O estudo aponta três grandes obstáculos:

  1. Fragmentação das políticas públicas, que tratam problemas isoladamente;
  2. Falta de monitoramento consistente, especialmente em países em desenvolvimento;
  3. Dificuldade de lidar com poluentes emergentes e misturas complexas.

Além disso, muitas ações são reativas, focadas na remediação após o dano, em vez de prevenir a poluição na origem.

Quatro caminhos para mudar o rumo

Para “dobrar a curva” da perda de biodiversidade em águas continentais, isto é, interromper e reverter a tendência de declínio, propomos um conjunto integrado de soluções. Essas soluções se organizam em quatro grandes frentes:

1. Conhecer melhor o problema
É essencial ampliar o monitoramento da qualidade da água e entender como os poluentes afetam os organismos e os ecossistemas. Sem dados, não há gestão eficaz.

2. Regular e fiscalizar
Leis mais rigorosas, combinadas com fiscalização efetiva, são fundamentais para reduzir a entrada de poluentes. O princípio do “poluidor-pagador” ganha destaque nesse contexto.

3. Controlar e restaurar
Tecnologias de tratamento, soluções baseadas na natureza (como áreas úmidas restauradas) e ações em escala de bacia hidrográfica são ferramentas-chave para reduzir impactos.

4. Atuar nas causas do problema
Educação ambiental, incentivos econômicos e mudanças no comportamento da sociedade são essenciais para reduzir a pressão sobre os recursos hídricos.

Água em risco: como a poluição ameaça a vida nos rios do planeta e o que pode ser feito agora

Para o Brasil, a mensagem é particularmente relevante. Com a maior rede hidrográfica do planeta e uma biodiversidade aquática extraordinária, o país está no centro desse debate. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios conhecidos: saneamento insuficiente, poluição por mineração, expansão agrícola e impactos das mudanças climáticas. A Amazônia, por exemplo, já apresenta sinais de contaminação por plásticos e outros poluentes, evidenciando que nem mesmo regiões consideradas remotas estão imunes.
Foto: Niloufar Mirhadi/Unsplash

Lições do passado e esperança para o futuro

Há exemplos positivos. A redução da chuva ácida na Europa e na América do Norte, por meio de acordos internacionais e políticas coordenadas, mostra que problemas complexos podem ser enfrentados com sucesso. Mas esses casos também trazem um alerta: recuperar ecossistemas degradados é muito mais difícil e mais caro do que evitar a degradação.

O papel do Brasil

Para o Brasil, a mensagem é particularmente relevante. Com a maior rede hidrográfica do planeta e uma biodiversidade aquática extraordinária, o país está no centro desse debate. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios conhecidos: saneamento insuficiente, poluição por mineração, expansão agrícola e impactos das mudanças climáticas. A Amazônia, por exemplo, já apresenta sinais de contaminação por plásticos e outros poluentes, evidenciando que nem mesmo regiões consideradas remotas estão imunes.

Um desafio de todos

A crise da qualidade da água é, acima de tudo, um problema sistêmico. Ela conecta ambiente, economia, saúde e sociedade. A boa notícia é que as soluções já existem e são conhecidas. O desafio agora é implementá-las com escala, integração e continuidade. Como conclui o estudo, reverter a perda de biodiversidade em águas doces não depende apenas de novas descobertas científicas, mas de decisões políticas, cooperação internacional e engajamento social. Em outras palavras: sabemos o que fazer. Falta fazer e fazer agora.

Leia o estudo Medidas para melhorar a qualidade da água e reverter a perda global de biodiversidade em água doce (tradução livre de “Measures for improving water quality to bend the curve of global freshwater biodiversity loss“) na íntegra em:

Terras raras no Brasil entram no centro da disputa por soberania nacional

A corrida por terras raras no Brasil mobiliza interesses internacionais, desafia a soberania mineral e amplia o debate sobre impactos ambientais e direitos indígenas. Em entrevista, Lula defendeu maior controle estratégico sobre esses recursos.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva situou a exploração de terras raras no Brasil no centro do debate político ao criticar iniciativas que, segundo ele, favorecem interesses externos. Em entrevista ao ICL Notícias, Lula afirmou que o país não pode abrir mão de recursos essenciais para o futuro tecnológico. 

“O Flávio Bolsonaro quer vender para os Estados Unidos algo que é muito importante para o Brasil”, disse ao comentar a atuação do senador Flávio Bolsonaro na defesa de acordos para fornecimento de terras raras.

Em evento nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro indicou que o Brasil poderia atuar como fornecedor para reduzir a dependência norte-americana da China. A proposta é vista por críticos como uma inserção subordinada, na qual o país exporta matéria-prima sem avançar nas etapas de maior valor agregado.

Senador Flavio Bolsonaro Edilson Rodrigues Agencia Senado 1
Flávio Bolsonaro foto: Edilson Rodrigues / Agencia Senado

O tema ganha relevância diante do potencial de terras raras no Brasil. Dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos e da Agência Nacional de Mineração apontam que o país possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas, a segunda maior do mundo. 

Estimativas mais amplas indicam que o depósito de Araxá (MG) pode alcançar até 95 milhões de toneladas. Além dessa região, o Brasil também possui grandes reservas em Goiás e potencial expressivo na área do projeto Calha Norte, na Amazônia, o que reforça o papel estratégico das terras raras no Brasil na cadeia de materiais de alta performance.

Para Lula, esse cenário exige controle nacional sobre a exploração. O presidente defende que a gestão desses recursos seja tratada como questão de soberania nacional e critica acordos que, em sua avaliação, transferem poder de decisão a agentes externos, como no caso de articulações envolvendo a mineradora Serra Verde, em Goiás. “Se a gente deixar, essa gente vai vender o Brasil, e nós não podemos permitir. Depois de levarem nosso ouro, nossa prata, nosso diamante, nossa floresta, o que mais querem?”, afirmou.

Luiz Inácio Lula da Silva durante entrevista.
Foto: Ricardo Stuckert

Em um contexto geopolítico mais amplo, os Estados Unidos abordam a América Latina como área de interesse estratégico, lógica associada à Doutrina Monroe. Atualmente, essa influência se reorganiza em iniciativas como a Minerals Security Partnership, que busca garantir acesso a insumos essenciais para setores como defesa, energia e tecnologia. 

A discussão sobre soberania mineral também envolve a soberania dos povos indígenas. Parte das reservas de terras raras no Brasil está localizada em áreas protegidas, onde a exploração depende do direito à consulta livre, prévia e informada aos povos indígenas, previsto na Convenção 169 da OIT. 

Em artigo, o engenheiro químico Matheus Pereira, embaixador da Educação Nuclear da Rússia (RNEA) e membro do Comitê Civil pela Retomada do Programa Nuclear Brasileiro (CRPN), afirma que o principal desafio do país é transformar seu potencial mineral em desenvolvimento estratégico. Segundo ele, “a gestão desses recursos deve estar alinhada ao desenvolvimento industrial interno, à inovação tecnológica e à geração de valor agregado dentro do próprio território nacional. Abrir mão desse controle vai além de perder dinheiro: é consentir à marginalização no sistema de poder que hoje define o século XXI.”

Mineração sustentável é possível? Transição energética expõe dilema

Expansão da mineração impulsionada pela transição energética amplia conflitos territoriais, desafia a governança e testa, na prática, os limites do conceito de mineração sustentável.

A corrida global por tecnologias de baixo carbono intensificou a demanda por minerais críticos e expôs um paradoxo central: a transição energética depende de uma expansão sem precedentes da mineração, atividade historicamente associada a profundos impactos ambientais.

Esse dilema tem alimentado um debate conceitual e político sobre a chamada mineração sustentável. Na academia, a ideia é frequentemente questionada. Alguns autores afirmam que o conceito é um “oxímoro corporativo”. Segundo o antropólogo Stuart Kirsch, esse termo é utilizado para suavizar críticas e criar a percepção de controle sobre danos muitas vezes irreversíveis.

Duas correntes principais orientam essa discussão. A primeira, associada à chamada “sustentabilidade forte”, defende que a mineração não pode ser sustentável por operar sobre recursos finitos e insubstituíveis. Já a visão dominante na indústria aposta na “sustentabilidade fraca”, baseada na ideia de que perdas ambientais podem ser compensadas por ganhos econômicos, infraestrutura ou inovação tecnológica.

Entre inovação e limites: o papel da tecnologia na mineração

Na prática, o setor mineral tem buscado sustentar sua narrativa por meio de tecnologias de mitigação que reforçam o discurso da mineração sustentável. Um dos exemplos mais relevantes é o uso do “dry stacking”, o empilhamento a seco, que reduz o teor de umidade dos rejeitos para cerca de 10% a 15%, permitindo sua compactação sem a necessidade de barragens. A técnica pode recuperar entre 85% e 90% da água utilizada e eliminar o risco de rompimentos de barragens.

Sistema de empilhamento a seco de rejeitos em mineração, tecnologia que reduz uso de água e riscos de barragens na mineração sustentável.
Empilhamento a seco surge como alternativa para reduzir riscos e consumo hídrico, sendo uma das principais tecnologias associadas ao conceito da mineração sustentável. Crédito: Pedro Vilela / Agencia i7

Outro avanço está nos sistemas de recirculação hídrica em circuito fechado, que já conseguem reaproveitar até 90% da água no processamento mineral. Em cenários mais avançados, tecnologias de “Zero Liquid Discharge” (ZLD) permitem praticamente eliminar o descarte de efluentes líquidos.

A eletrificação também ganha espaço. Em minas subterrâneas, a substituição de equipamentos a diesel por veículos elétricos pode reduzir em até 40% os custos de energia e 60% os de manutenção. Em operações de superfície, sistemas “trolley-assist” permitem cortes de até 90% nas emissões em trechos eletrificados.

Apesar desses avanços, limites biofísicos permanecem incontornáveis. Um dos principais é o declínio global dos teores minerais. Para produzir a mesma quantidade de cobre hoje, por exemplo, é necessário movimentar volumes significativamente maiores de rocha do que há décadas. Esse processo amplia o consumo energético e a geração de rejeitos, fenômeno conhecido como “deslocamento de carga”.

Há ainda impactos que a tecnologia não consegue reverter. A perda de biodiversidade em áreas sensíveis pode ser definitiva, enquanto a drenagem ácida de mina pode exigir tratamento contínuo por séculos ou até milênios.

No plano geopolítico, cresce o debate sobre a “colonialidade verde”, um conceito usado para criticar práticas que, embora apresentadas como sustentáveis, reproduzem desigualdades históricas do colonialismo, especialmente contra povos indígenas, comunidades tradicionais e países do Sul Global. No caso da mineração, países do Norte Global aceleram sua transição energética enquanto transferem os custos ambientais da extração para regiões do Sul Global, frequentemente habitadas por comunidades indígenas e populações vulneráveis.

No Brasil, essa dinâmica se agrava com a expansão do garimpo ilegal. Entre 1985 e 2022, a área ocupada por essa atividade cresceu de forma acelerada, com mais de 91% concentrada na Amazônia, com foco em terras indígenas e unidades de conservação. Em 2022, ao menos 77% dos pontos de extração de garimpo apresentavam indícios de ilegalidade.

O uso de mercúrio é um dos principais problemas. O garimpo responde por cerca de 37% das emissões globais desse metal tóxico, que se acumula na cadeia alimentar e afeta diretamente populações ribeirinhas e indígenas.

Indígenas pescando em rio amazônico, atividade ameaçada pela contaminação por mercúrio associada ao garimpo e aos desafios da mineração sustentável.
Contaminação por mercúrio impacta a pesca e a saúde de comunidades indígenas, evidenciando os limites da mineração sustentável na Amazônia. Foto: Diego Gurgel

Diante desse cenário, a economia circular surge como alternativa estratégica. A reciclagem de minerais críticos pode suprir entre 25% e 40% da demanda até 2050, segundo estimativas internacionais. No entanto, há um atraso estrutural: como muitos desses materiais estão sendo utilizados agora, levará entre 15 e 20 anos para que retornem ao ciclo produtivo em escala significativa.

Entre avanços tecnológicos, limites físicos e disputas políticas, a atividade mineral se consolida como um dos principais campos de tensão da transição energética, onde desenvolvimento, meio ambiente e justiça social se encontram em permanente conflito, colocando em xeque, na prática, os limites do próprio conceito de mineração sustentável.

O mundo mudou — e a Amazônia precisa reagir antes de ser empurrada


Empresário à frente da Bemol e observador atento das transformações globais, Denis Minev compartilha uma leitura direta sobre o novo cenário internacional, os limites da economia brasileira e os desafios — e oportunidades — que se colocam para o Amazonas.


O que mudou foi a estrutura de coordenação do mundo. Durante décadas, havia uma lógica relativamente organizada, com regras, instituições e algum grau de previsibilidade. Isso deixou de existir.

Hoje temos múltiplos polos de poder, interesses conflitantes e menor capacidade de coordenação. Esse ambiente é mais instável e mais difícil de prever. As decisões são mais reativas e os impactos econômicos mais rápidos.

Isso afeta diretamente comércio, energia, cadeias produtivas e investimento. E regiões como a Amazônia sentem isso de forma mais intensa.


Ela chega principalmente via custos. Energia, transporte, insumos — tudo passa a oscilar mais. E na Amazônia isso tem um efeito amplificado, porque as cadeias são longas e dependentes de importações.

O preço do petróleo, por exemplo, impacta diretamente o custo de vida aqui. A logística encarece, a produção encarece e isso pressiona a inflação local.

Além disso, há uma reorganização das cadeias globais. Empresas estão buscando reduzir riscos, diversificar fornecedores. Isso cria oportunidades, mas também aumenta a competição.

E há a China, que continua expandindo sua presença com foco em escala e mercado. Para nós, isso é um desafio, mas também uma oportunidade de parceria.


O Brasil entra com algumas limitações importantes. A principal é o custo do capital. Juros elevados reduzem muito a capacidade de investimento das empresas.

Projetos que seriam viáveis com juros mais baixos deixam de acontecer. Isso afeta expansão, inovação e produtividade.

Ao mesmo tempo, temos uma dívida pública em crescimento e um nível elevado de endividamento das famílias, o que impacta consumo e inadimplência. Há um ponto positivo, que é o mercado de trabalho aquecido. Mas isso não resolve os desafios estruturais.

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O Amazonas vive um momento interessante. O Polo Industrial de Manaus está forte, gerando empregos e batendo recordes. Isso é resultado de um modelo que foi bem construído ao longo do tempo.

A reforma tributária trouxe previsibilidade, o que é muito relevante num mundo instável. Isso pode atrair novos investimentos.

Mas há um desafio claro: a baixa diversificação da economia fora do polo. Ainda temos poucas empresas de base amazônica com escala relevante.

O modelo funciona, mas ainda não conseguimos expandir seus efeitos para além dele.

Mas é importante ter clareza: isso não se constrói de forma espontânea. Exige estrutura, tecnologia, governança e, principalmente, modelo de negócio viável.

Hoje ainda estamos no início desse processo. Existem iniciativas relevantes, fundos dedicados e projetos sendo estruturados, mas ainda falta escala.

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Foto: Divulgação/Suframa)

O Fórum ESG da Amazônia cumpre um papel que vai além do debate. Ele é um espaço de alinhamento estratégico.

Hoje, a agenda ambiental, social e de governança deixou de ser um tema periférico e passou a influenciar diretamente acesso a mercados, custo de capital e competitividade das empresas. O fórum ajuda a traduzir isso para a realidade da indústria local.

Ele também tem um mérito importante: mostra que a Amazônia não está começando do zero. Já existem práticas, experiências e empresas que incorporaram ESG de forma concreta. O desafio agora é escala.

Além disso, o fórum cria um ambiente de troca entre setor público, privado e academia, o que é essencial para enfrentar problemas complexos. ESG não é uma agenda que se resolve de forma isolada.

Num momento em que o mundo cobra resultados e consistência, o fórum ajuda a posicionar a Zona Franca de Manaus como um modelo de desenvolvimento que combina produção industrial com responsabilidade ambiental.  


Esse é um dos caminhos mais promissores que temos. O Brasil, e especialmente a Amazônia, possui uma vantagem comparativa muito clara nesse tema. Temos escala territorial, biodiversidade e condições naturais que poucos países possuem.

A recuperação de áreas degradadas não é apenas uma agenda ambiental. É uma agenda econômica. Existe demanda crescente por créditos de carbono, por cadeias produtivas sustentáveis e por soluções baseadas na natureza.

Mas é importante ter clareza: isso não se constrói de forma espontânea. Exige estrutura, tecnologia, governança e, principalmente, modelo de negócio viável.

Hoje ainda estamos no início desse processo. Existem iniciativas relevantes, fundos dedicados e projetos sendo estruturados, mas ainda falta escala.

Se bem estruturado, esse tipo de investimento pode cumprir dois papéis ao mesmo tempo: gerar retorno econômico e ajudar a reposicionar a Amazônia como protagonista de uma nova economia global baseada em sustentabilidade.

O risco é tratar isso apenas como narrativa. O desafio é transformar em indústria.


A inteligência artificial é o principal vetor de transformação desse momento. O volume de investimento global nessa área é sem precedentes.

Ela tem potencial de aumentar significativamente a produtividade das empresas e da economia como um todo. Mas também traz riscos, especialmente em segurança digital e no mercado de trabalho.

Um dos pontos mais sensíveis é a quebra da chamada “escada profissional”. Funções de entrada estão sendo substituídas por IA. Isso levanta uma questão importante: como formar profissionais qualificados no futuro?

Essa é uma discussão que ainda não está sendo feita com a profundidade necessária no Brasil.

Denis Minev é diretor-presidente da Bemol e cofundador da Fundação Amazonas Sustentável, do Museu da Amazônia, da plataforma Parceiros Pela Amazônia e parceiro do portal BrasilAmazôniaAgora. É também investidor em diversas startups amazônicas nos segmentos de bioeconomia, carbono, logística e turismo e serviu como Secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico do Amazonas. Em 2012, foi selecionado Young Global Leader do Fórum Econômico Mundial.

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BAA — Qual é o principal risco para a Amazônia hoje?

O principal risco é não agir na velocidade necessária. O mundo está mudando rapidamente e as decisões estão sendo tomadas agora.

A Amazônia tem ativos importantes, mas precisa organizá-los em uma estratégia de futuro. Caso contrário, continuará dependente de um modelo único.


Três pontos são claros.

  • Consolidar e expandir o Polo Industrial.
  • Avançar na diversificação econômica.
  • E investir fortemente em capacitação para a nova economia digital.

Sem isso, vamos perder competitividade.


Eu faria um pedido muito direto: experimentem. Se alguém ainda não passou algumas horas usando ferramentas como ChatGPT ou Claude, está perdendo uma oportunidade concreta de aprendizado.

A diferença entre usar e não usar é muito grande. A IA já permite ganhos reais de produtividade, tanto no trabalho quanto em atividades do dia a dia.

Nas empresas, isso não pode ser tratado como algo restrito à área de tecnologia. É uma ferramenta transversal. Todos deveriam estar aprendendo a usar.

Na Bemol, por exemplo, nós ampliamos o acesso para toda a equipe. Parte dos colaboradores utiliza versões mais avançadas, mas todos têm algum nível de contato com essas ferramentas. Isso muda a forma de trabalhar. Muda a forma de aprender. E, em muitos casos, melhora a qualidade das decisões.

A recomendação é simples: dedicar tempo, testar, explorar. Quem fizer isso mais cedo vai sair na frente.