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EDITORIAL BAA|O petróleo e as fragilidades estruturais da economia brasileira

O petróleo não aparece no cotidiano como problema. Ele se infiltra. Está no preço do alimento, no custo do frete, na passagem aérea, na conta invisível que reorganiza a economia sem pedir licença. No Brasil, essa dependência se tornou estrutural, silenciosa e, em muitos aspectos, naturalizada. É justamente aí que reside o maior risco.

A discussão pública costuma se concentrar em medidas pontuais, como multas, subsídios ou ajustes regulatórios. Mas isso é a superfície. O que está em jogo é um modelo econômico profundamente atrelado a um insumo volátil, geopolítico e ambientalmente insustentável.

O primeiro dano é econômico e imediato: a instabilidade. O petróleo é um ativo global, sujeito a guerras, disputas comerciais e decisões de grandes produtores. O Brasil, mesmo sendo produtor relevante, não está isolado dessas dinâmicas. Quando o preço internacional sobe, o impacto se espalha pela economia como uma onda de choque. O transporte encarece, a inflação reage, o poder de compra encolhe. Não há setor imune.

O segundo dano é social. A dependência do diesel aprofunda desigualdades. Grandes empresas conseguem negociar, absorver custos ou repassá-los. Já os caminhoneiros autônomos e pequenos operadores ficam comprimidos entre o preço do combustível e contratos cada vez mais desfavoráveis. O resultado é um ambiente de tensão permanente, com risco de paralisações, informalidade e deterioração das condições de trabalho.

Há também um efeito perverso sobre a organização produtiva. O Brasil construiu uma logística centrada no transporte rodoviário, altamente dependente de combustíveis fósseis. Isso limita a competitividade do país e engessa alternativas. Em vez de um sistema equilibrado, com ferrovias, hidrovias e soluções energéticas diversificadas, seguimos operando sob uma lógica de curto prazo, vulnerável e cara.

No campo ambiental, o desafio é ainda mais evidente. O petróleo sustenta parte relevante da economia, mas colide diretamente com os compromissos climáticos e com a necessidade de reposicionamento estratégico do país. A insistência em expandir essa dependência, especialmente em regiões sensíveis como a Amazônia, coloca o Brasil em uma encruzilhada delicada entre receita imediata e credibilidade internacional.

economia brasileira

Shipspotter Stahl / Wikimedia Commons

O problema é que a transição energética não ocorre no vazio. Ela exige planejamento, investimento e coordenação. E o Brasil ainda não resolveu como fazer essa travessia sem comprometer sua estabilidade econômica. Substituir o diesel na logística, por exemplo, não é apenas uma questão tecnológica. É uma decisão de política industrial, de infraestrutura e de modelo de desenvolvimento.

Outro desafio relevante é fiscal e político. O petróleo gera receitas importantes, mas também cria uma dependência perigosa para estados e para a própria União. Isso reduz o incentivo para mudanças estruturais e prolonga um ciclo em que o curto prazo domina a estratégia. Ao mesmo tempo, qualquer tentativa de ajuste no preço dos combustíveis gera forte reação social, o que limita a capacidade de ação do governo.

No fundo, o Brasil convive com um paradoxo. É um país com enorme potencial em energias renováveis, mas ainda profundamente ancorado em uma lógica fóssil para sustentar sua economia cotidiana. Essa contradição não se resolve com multas, nem com medidas emergenciais. Ela exige visão de longo prazo.

O debate sobre o petróleo precisa sair do campo da gestão de crises e entrar no campo do projeto de país. Isso implica discutir logística, matriz energética, inclusão produtiva e posicionamento internacional de forma integrada. Enquanto isso não acontecer, continuaremos reagindo aos sintomas, sem enfrentar as causas.

O petróleo, no Brasil, não é apenas uma commodity. É um fator estruturante das nossas fragilidades. E, ao mesmo tempo, um teste da nossa capacidade de planejar o futuro.

CIEAM avança como eixo de articulação e influência da indústria brasileira na Amazônia

Coluna Follow-Up

A atuação e o protagonismo do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM) tem consolidado a entidade como um dos principais vetores de articulação, influência e formulação estratégica da indústria brasileira a partir da Amazônia. Em um ambiente marcado por transformações regulatórias, transição energética e reconfiguração das cadeias produtivas globais, o Centro amplia seu protagonismo ao integrar agendas que vão da defesa institucional à construção de soluções para o futuro da indústria.

Esse movimento não é pontual. Ele reflete uma trajetória de quase 50 anos em que o CIEAM atua como instância de convergência entre setor produtivo, poder público e atores nacionais e internacionais, organizando demandas, estruturando propostas e contribuindo diretamente para a consolidação do Polo Industrial de Manaus como ativo estratégico do país.

No campo da sustentabilidade, a incorporação da agenda ESG ganha densidade prática dentro da atuação da entidade. O tema deixa de ocupar um espaço periférico e passa a integrar a estratégia industrial, conectando eficiência produtiva, responsabilidade ambiental e compromisso social. A indústria instalada na Amazônia passa a ser posicionada como agente econômico, mas também como parte ativa de um modelo que associa produção, conservação e inclusão. O III FÓRUM ESG AMAZÔNIA, em abril próximo, em conjunto com a SUFRAMA, será vitrine e compromisso assumido. 

A transição energética surge como uma das frentes mais estruturantes dessa nova etapa. Ao liderar discussões, organizar conhecimento técnico e articular a participação do setor em debates regulatórios, o CIEAM contribui para posicionar a indústria amazonense como agente relevante na construção de soluções energéticas adaptadas à realidade amazônica. A pauta envolve desde eficiência e diversificação da matriz até novas abordagens como comunidades energéticas e uso de ativos da floresta, sempre com foco na segurança energética e na competitividade.

A agenda de desenvolvimento e inovação também se fortalece como eixo central. O Centro, suas Comissões e Ações, atua na difusão de conhecimento técnico, na capacitação de empresas e na aproximação com novas tecnologias, criando um ambiente mais preparado para enfrentar desafios industriais contemporâneos. Essa atuação contribui para o adensamento produtivo do Polo Industrial de Manaus e para a ampliação de sua complexidade econômica.

No campo da logística e do comércio exterior, o CIEAM mantém uma atuação direta na identificação de gargalos e na construção de soluções. A entidade promove diálogo contínuo com operadores logísticos, autoridades e empresas, buscando reduzir custos, aumentar eficiência e garantir maior integração da indústria amazonense às cadeias globais. Esse esforço é estratégico para um modelo industrial localizado em uma região de desafios estruturais, mas com grande potencial de inserção internacional.

As relações internacionais também ganham espaço na agenda institucional. Ao participar de fóruns, eventos e articulações com investidores e organismos externos, o CIEAM contribui para projetar a Amazônia como território de oportunidades industriais sustentáveis. Essa presença amplia a visibilidade do modelo Zona Franca de Manaus e reforça sua relevância no debate global sobre desenvolvimento, clima e economia verde.

Outro vetor importante é a presença institucional contínua, tanto em Brasília quanto nos principais espaços e núcleos de decisão. O CIEAM atua de forma consistente na defesa dos interesses da indústria, com base técnica e capacidade de diálogo, influenciando políticas públicas e marcos regulatórios. Esse papel foi determinante em agendas recentes e segue sendo fundamental para garantir segurança jurídica e previsibilidade ao setor.

Outro eixo que ganha força é a articulação entre indústria e defesa. Por meio do CONDEFESA Amazônia, o CIEAM amplia sua atuação em temas estratégicos relacionados à soberania, segurança e desenvolvimento tecnológico. A aproximação com as Forças Armadas e instituições nacionais reforça o papel da indústria amazonense em agendas que envolvem desde inovação aplicada até fortalecimento da base industrial de defesa na região.

Da mesma forma, a promoção dos Diálogos Amazônicos, em parceria com a FGV,  consolida o CIEAM como espaço qualificado de debate e construção de pensamento estratégico. Ao reunir lideranças empresariais, especialistas e formuladores de políticas, a iniciativa amplia a capacidade de reflexão sobre os desafios e oportunidades da Amazônia, conectando desenvolvimento regional, sustentabilidade e inserção do Brasil no cenário internacional.

Ao integrar todas essas frentes, o CIEAM se afirma como uma engrenagem essencial na organização da indústria brasileira a partir da Amazônia. Sua atuação ultrapassa a representação tradicional e se posiciona como liderança na construção de caminhos coletivos, articulando interesses, consolidando agendas e projetando o Polo Industrial de Manaus como peça-chave no desenvolvimento econômico sustentável do país.


Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas às quartas quintas e sextas-feiras, sob a responsabilidade do CIEAM E coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br

Quem paga a conta da transição energética?

Expansão da transição energética acelera descarbonização, mas concentração de recursos em países ricos e aumento nas contas de luz expõem desafios de justiça climática.

A transição energética avança globalmente, mas esbarra em um desafio central: o financiamento. Substituir sistemas baseados em combustíveis fósseis por fontes limpas exige investimentos massivos em infraestrutura, tecnologia e inovação e levanta uma questão cada vez mais urgente: quem paga a conta da transição energética?

Dados da Agência Internacional de Energia (AIE) indicam que, atualmente, para cada US$ 1 investido em combustíveis fósseis, cerca de US$ 2 são direcionados à energia limpa. No entanto, essa expansão não ocorre de forma equilibrada. Aproximadamente 90% do crescimento recente dos investimentos está concentrado em economias avançadas, especialmente na China, evidenciando uma desigualdade estrutural no acesso a capital e tecnologia.

Painéis solares instalados em área urbana com cidade ao fundo, representando a expansão da transição energética e suas desigualdades globais
Investimentos em transição energética são ainda concentrados em economias desenvolvidas, enquanto o Sul Global enfrenta barreiras de acesso e financiamento. Foto: Getty Images Pro

Nos países do Sul Global, o principal obstáculo não é a disponibilidade de recursos naturais, mas o custo do financiamento. O chamado custo médio ponderado de capital (WACC) para projetos renováveis pode ser até sete vezes maior do que em países desenvolvidos. Na prática, isso encarece projetos que, do ponto de vista tecnológico, já são competitivos e atrasa a expansão da energia limpa em regiões mais vulneráveis, reforçando a desigualdade no debate sobre quem paga a transição energética em escala global.

A conta da transição é distribuída entre diferentes atores. Consumidores arcam com parte significativa por meio de encargos embutidos nas tarifas de energia. Governos entram com subsídios, incentivos fiscais e crédito público, enquanto empresas privadas investem buscando retorno financeiro e posicionamento estratégico.

No Brasil, esse arranjo passa por mecanismos como a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), o financiamento do BNDES e recursos do Fundo Clima. Em 2024, o orçamento da CDE ultrapassou R$ 37 bilhões, sendo majoritariamente financiado pelos próprios consumidores. Parte relevante desses recursos subsidia políticas públicas e incentivos às fontes renováveis, como descontos para geração eólica e solar, o que cria um paradoxo: a mesma transição que reduz emissões também pressiona o valor da conta de luz.

Esse impacto é ainda mais sensível entre famílias de baixa renda. O conceito de pobreza energética, utilizado por organismos internacionais, define que um domicílio entra nessa condição quando destina mais de 10% da renda ao pagamento de energia. No Brasil, esse cenário já afeta milhões de pessoas, evidenciando que a transição energética, embora necessária, precisa ser acompanhada por políticas que garantam equidade no acesso e na distribuição de seus custos. 

Guerra no Golfo pressiona o mundo e redefine os rumos da transição energética

A escalada de tensões no Oriente Médio recoloca o setor energético no centro da geopolítica global. Mais do que um conflito regional, trata-se de um evento com potencial de impactar diretamente as estruturas que sustentam a economia mundial.
O Golfo Pérsico concentra cerca de 48% das reservas comprovadas de petróleo do planeta, segundo a OPEC, além de rotas críticas de abastecimento. O Estreito de Ormuz, por onde passa aproximadamente 20% do petróleo consumido globalmente, volta ao centro das tensões, com impacto direto sobre preços, cadeias produtivas e decisões estratégicas de governos e empresas.

Os primeiros efeitos já são sentidos no mercado. Historicamente, qualquer instabilidade na região gera picos de preço como ocorreu após eventos ligados à guerra na Ucrânia e ataques a infraestruturas no Oriente Médio.

Segundo a International Energy Agency, a volatilidade recente reforça um padrão: o sistema energético global ainda é altamente sensível a choques geopolíticos, especialmente no petróleo e no gás natural. Esse cenário evidencia uma fragilidade estrutural a dependência de regiões geopoliticamente instáveis e pressiona países importadores a repensarem suas estratégias energéticas.

Os Estados Unidos entram nesse cenário em posição relativamente confortável. O país é hoje um dos maiores produtores globais de petróleo e gás, impulsionado pelo shale gas, além de liderar exportações de GNL. Após a crise energética europeia de 2022, os EUA ampliaram significativamente seu papel como fornecedor global, fortalecendo sua influência energética e geopolítica.

A União Europeia volta a enfrentar um dilema crítico. Após reduzir sua dependência do gás russo, o bloco ainda lida com custos energéticos elevados. Dados da Eurostat mostram que, mesmo com avanços em renováveis, a energia na Europa segue mais cara do que em outras regiões impactando diretamente a indústria e a inflação. A resposta tende a acelerar ainda mais a transição energética mas agora com um foco mais claro em segurança energética, não apenas descarbonização.

A China combina alta dependência de importações com uma estratégia agressiva de transição energética. O país é hoje líder global em: energia solar, veículos elétricos e, principalmente, cadeia produtiva de baterias. Segundo a própria IEA, a China responde por mais de 70% da produção global de baterias de íons de lítio, consolidando sua posição como protagonista no futuro energético.

O conflito expõe uma contradição central. Ao mesmo tempo em que acelera o debate sobre transição energética, também pode aumentar, no curto prazo, o uso de combustíveis fósseis especialmente em momentos de escassez ou alta de preços. Ainda assim, a mensagem estrutural é clara: dependência de combustíveis fósseis importados é um risco estratégico crescente.

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Imagem gerada por IA

Se antes o debate se concentrava apenas na geração, hoje está claro que não existe transição energética sem armazenamento.
Fontes renováveis como solar e eólica são intermitentes por natureza. Sem sistemas de armazenamento, não garantem estabilidade nem segurança ao sistema elétrico. É nesse ponto que entram as soluções de BESS (Battery Energy Storage Systems):

1- Permitem armazenar energia em momentos de excesso de geração.

2- Garantem fornecimento em períodos de baixa produção.

3- Reduzem a dependência de térmicas fósseis para estabilização da rede

4- Aumentam a resiliência energética em cenários de crise

transição energética
Projeto em Santa Helena do Inglês – Iranduba (AM), perto de Manaus. Imagem: Alexandre Watanabe/UCB

Segundo a BloombergNEF, o mercado global de armazenamento deve crescer mais de 10 vezes até 2030, impulsionado justamente pela necessidade de segurança energética e integração de renováveis. Em um cenário de instabilidade geopolítica, baterias deixam de ser apenas um componente tecnológico e passam a ser infraestrutura estratégica.

O Brasil está em uma posição privilegiada. Com uma matriz já majoritariamente renovável, o país pode avançar para uma nova etapa: a da energia descentralizada, resiliente e armazenada.

Na Amazônia, essa oportunidade é ainda mais evidente. Sistemas híbridos com solar + baterias podem substituir o uso de diesel em comunidades isoladas reduzindo custos, emissões e dependência logística. Projetos desse tipo já demonstram que armazenamento não é apenas inovação é solução prática para desafios históricos.

A nova realidade é clara: energia deixou de ser apenas um insumo econômico. Tornou-se um pilar de soberania, estabilidade e poder. A transição energética não é mais uma agenda de longo prazo. Ela é uma resposta direta às vulnerabilidades expostas por crises como essa. E dentro dessa transição, quem domina o armazenamento, domina a capacidade de garantir energia em qualquer cenário.

Transição energética cria novo mapa na geopolítica da energia mundial

A corrida por tecnologia limpa e minerais estratégicos impulsiona a geopolítica da energia, com reflexos diretos no Brasil e na economia global.

A transição energética em curso está reconfigurando a geopolítica mundial. Mais do que a produção de petróleo, o poder passa a ser determinado pelo domínio de tecnologias, cadeias industriais e minerais estratégicos, elementos centrais na geopolítica da energia contemporânea. Nesse novo cenário, países e blocos econômicos assumem papéis distintos, combinando energia tradicional e inovação em combustíveis verdes para manter relevância global.

Os Estados Unidos continuam como um dos principais produtores de petróleo e gás, utilizando essa vantagem para sustentar alianças e disputar liderança tecnológica com a China. Em 2026, o país lançou a iniciativa “FORGE” para criar uma zona de comércio preferencial de minerais críticos, na tentativa de isolar o domínio chinês. 

Já a China consolidou uma posição estratégica ao controlar etapas essenciais do processamento de refinamento de minerais críticos. O país participa em média de 70% do mercado de refino dessas matérias-primas estratégicas, o que lhe confere poder de influência sobre cadeias produtivas inteiras. 

Apesar da expansão constante de petróleo e gás natural, a China é hoje líder na produção de energia eólica e solar. O país sozinho concentra mais de 1.500 GW de capacidade de energia limpa, o correspondente à soma das próximas seis maiores potências em energia renovável – Brasil, Austrália, Índia, Estados Unidos, Espanha e Filipinas. 

Fazenda solar na China com painéis fotovoltaicos em larga escala, destacando o papel do país na geopolítica da energia e na expansão das energias renováveis.
Fazenda solar na China. Foto: Andrea Verdelli/Bloomberg

A Europa segue uma trajetória distinta, apostando na regulação e na inovação. O bloco tem avançado na implementação de mecanismos que penalizam produtos intensivos em carbono, pressionando parceiros comerciais a se adaptarem. Paralelamente, investe na criação de uma infraestrutura robusta para o hidrogênio verde e na expansão da energia eólica offshore, especialmente no Mar do Norte. Outro foco estratégico é a economia circular, com políticas voltadas à reciclagem de metais críticos para reduzir a dependência externa.

No Oriente Médio, a estratégia combina continuidade e adaptação. A região intensifica investimentos em diversificação, incluindo gás natural, petroquímica e projetos voltados ao hidrogênio, mirando novos mercados, sobretudo na Europa. Um grande projeto de diversificação de energia é o campo de gás Jafurah, o maior campo de gás de xisto do Oriente Médio. Nesse processo, o país traz contradições em sua adaptação energética.

O Brasil surge como um ator singular no novo mapa energético. O país reúne características raras: é grande produtor de petróleo, tem vastas reservas de minerais críticos, possui uma matriz elétrica majoritariamente renovável e lidera a produção de biocombustíveis. Essa combinação coloca o Brasil em posição estratégica na corrida por combustíveis de baixo carbono, como o SAF (combustível sustentável de aviação) e a amônia verde, com expectativas promissoras na geopolítica da energia mundial.

Antes da indústria existir, alguém precisou começar

Coluna Follow-Up

A chamada “cinquentinha” não foi apenas a primeira motocicleta produzida em série no Brasil. Foi um gesto inaugural. Um movimento de antecipação. Um sinal de que havia espaço para construir, aqui, uma cadeia industrial que ainda não existia. A Abraciclo viria depois.

E essa sequência importa. Porque revela que, antes da organização institucional, houve ousadia empresarial. Antes da articulação setorial, houve investimento. Antes da narrativa coletiva, houve quem assumisse o risco. A Yamaha foi esse agente.

Da cinquentinha ao polo industrial

A decisão de produzir localmente, ainda nos anos 1970, abriu caminho para algo maior. Não se tratava apenas de atender um mercado nascente, mas de estabelecer bases industriais em um país que buscava afirmar sua capacidade produtiva.

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Com a instalação da Yamaha Motor da Amazônia, em 1985, Manaus deixa de ser apenas um território de incentivos fiscais para se tornar um centro real de produção industrial.

Ali começa a ganhar forma e conteúdo o que hoje conhecemos como Polo de Duas Rodas.

Um arranjo produtivo que envolve tecnologia, logística, fornecedores, formação de mão de obra e integração nacional. Um setor que ajudou a consolidar a Zona Franca de Manaus como um projeto de desenvolvimento com impacto econômico e social.

E, sobretudo, um setor que demonstra algo essencial para o debate contemporâneo: a Amazônia também produz indústria de alto nível.

A Abraciclo como síntese de um processo

Quando a Abraciclo completa 50 anos, o que se celebra não é somente uma entidade. Celebra-se a maturidade de um setor que nasceu fragmentado e se organizou ao longo do tempo.

A associação representa a capacidade da indústria de duas rodas de construir uma agenda comum. De dialogar com o Estado. De defender políticas públicas. De estruturar padrões.

Mas essa institucionalidade só foi possível porque houve, antes, quem desse o primeiro passo. A Yamaha está entre esses pioneiros. Sua trajetória ajuda a explicar por que a Abraciclo existe hoje como referência nacional. Porque, sem indústria, não há associação. Sem produção, não há representação.

Tecnologia, escala e permanência

Ao longo das décadas, a operação da Yamaha em Manaus evoluiu em escala e complexidade. A fábrica tornou-se uma das mais relevantes da empresa fora do Japão, com capacidade de produção contínua e integração a cadeias globais. Esse avanço não é apenas industrial. É também tecnológico.

A presença da Yamaha no Brasil contribuiu para a difusão de padrões produtivos, engenharia aplicada e cultura de qualidade. Ao mesmo tempo, ajudou a formar gerações de trabalhadores, técnicos e engenheiros na Amazônia. A indústria, aqui, não é abstrata. Ela tem rosto, trajetória e continuidade.

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Investir é acreditar no território

O anúncio de novos investimentos bilionários até o final da década reforça um ponto que muitas vezes passa despercebido no debate público: empresas não ampliam operações por acaso. Investem onde há condições de produzir, de inovar e de permanecer.

Ao reforçar sua presença no Polo Industrial de Manaus, a Yamaha sinaliza confiança em um modelo que, apesar das críticas recorrentes, segue entregando resultados concretos. Emprego. Renda. Tecnologia. Integração regional.

Mais do que máquinas, histórias

Ao longo desses 50 anos, a Yamaha não construiu apenas motocicletas. Construiu trajetórias. Jovens que ingressaram como aprendizes e se tornaram técnicos. Famílias que atravessaram gerações dentro da fábrica. Profissionais que ajudaram a traduzir tecnologia global em produção local.

Esse talvez seja o legado mais duradouro. Porque é nele que a indústria deixa de ser estatística e passa a ser experiência vivida.

O que a Yamaha ensinou ao setor

A história da Yamaha no Brasil antecipa perguntas que continuam atuais:

Onde investir? Como produzir com qualidade?Como formar pessoas? Como permanecer competitivo em um ambiente complexo?

Ao responder essas questões na prática, a empresa ajudou a moldar o setor que hoje a Abraciclo representa.

Uma celebração que aponta para frente

Celebrar os 50 anos da Abraciclo é reconhecer a força de um setor que se estruturou ao longo do tempo. Homenagear a Yamaha nesse contexto é reconhecer quem ajudou a iniciar esse processo quando ele ainda era apenas possibilidade.

Entre a primeira cinquentinha e as linhas modernas de produção em Manaus, há mais do que evolução tecnológica.

Há uma ideia que se consolidou. A de que é possível produzir na Amazônia com escala, qualidade e relevância nacional. E que, quando isso acontece, a indústria deixa de ser apenas economia. Passa a ser projeto de país.

ANOTAÇÕES PARA O NOVO LUSTRO DA ECONOMIA BRASILEIRA: 2026 A 2030 – Parte VI

O artigo “Anotações para o novo lustro da economia brasileira: 2026 a 2030” parte de um diagnóstico incômodo e necessário: o Brasil entra no próximo ciclo político carregando simultaneamente fragilidades conjunturais e impasses estruturais que já não podem mais ser tratados como episódios isolados. A leitura organiza esse cenário com densidade analítica, apontando desde a instabilidade inflacionária e os efeitos prolongados do pós-pandemia até questões mais profundas, como a concentração de renda, o empobrecimento da classe média e os desequilíbrios regionais persistentes.

O texto tem o mérito de recolocar a discussão econômica em um plano mais estratégico, afastando-se da obsessão de curto prazo que costuma dominar o debate público. Ao evocar o “novo lustro”, o autor propõe mais que uma agenda técnica: sugere uma mudança de horizonte, quase uma convocação para pensar o país em ciclos mais longos, onde decisões econômicas precisam dialogar com transformações sociais e ambientais que se arrastam há décadas.

Há também uma leitura implícita sobre o reposicionamento do Brasil no mundo. A menção à reorganização da ordem econômica internacional indica que o país não está apenas diante de seus próprios gargalos, mas inserido em um contexto global em mutação, marcado por tensões geopolíticas, reconfiguração produtiva e disputas por tecnologia e energia. Nesse sentido, o texto sugere que o atraso brasileiro não é apenas doméstico, mas também estratégico, na medida em que o país ainda não definiu com clareza seu papel nesse novo tabuleiro.

O ponto mais sensível, no entanto, está na convergência entre economia e território. Ao reconhecer os desequilíbrios regionais e ambientais como parte do núcleo do problema, o artigo se aproxima de uma agenda que hoje ganha força internacionalmente: a de que crescimento econômico, distribuição de renda e sustentabilidade não podem mais ser tratados como agendas paralelas. Estudos recentes sobre a Amazônia reforçam exatamente essa direção, indicando que modelos baseados na floresta em pé podem gerar emprego, renda e crescimento mais qualificado, ao mesmo tempo em que reduzem emissões e desigualdades. 

A resenha permite identificar uma tensão central que atravessa todo o texto: a dificuldade histórica do Brasil em transformar diagnóstico em política consistente. Os problemas estão mapeados há décadas, mas seguem sendo reproduzidos sob novas formas. O risco apontado, ainda que de maneira indireta, é que o próximo ciclo repita esse padrão, operando ajustes marginais em vez de promover mudanças estruturais.

No conjunto, trata-se de um artigo que cumpre bem a função de provocar reflexão qualificada. Não entrega respostas fáceis, tampouco se apoia em slogans. Ao contrário, expõe a complexidade do momento brasileiro e sugere que o verdadeiro desafio do próximo lustro não será apenas crescer, mas decidir como crescer — e para quem.

A partir do início de 2026, deverá ocorrer um amplo conjunto de debates, durante o processo eleitoral, relativo ao futuro da economia nacional e das economias estaduais. Elaborei 10 textos que, a partir de minhas experiências de planejamento nos três níveis de governo, durante algumas décadas, poderão eventualmente ser úteis como subsídios atualizados para propostas de planos, políticas públicas e projetos dos candidatos à Presidência da República e aos governos estaduais.

Esses textos se referem ao resgate dos processos de planejamento de médio e de longo prazo, à avaliação das políticas públicas em andamento, à articulação das políticas macroeconômicas de curto prazo com as políticas de desenvolvimento sustentável (=crescimento econômico globalmente competitivo + equidade social + sustentabilidade ambiental) e às propostas da estrutura de novos planos de governo. O décimo texto irá conter um esboço de uma proposta para uma Grande Transformação do Brasil, no próximo lustro.

“O perigo que nos confronta, portanto, é a rápida depressão do padrão de vida das populações europeias até o ponto que significa a atual fome para alguns (um ponto já atingido na Rússia e aproximadamente atingido na Áustria). Os homens nem sempre morrem silenciosamente. Porque a fome, que traz alguma letargia e um desespero desamparado, leva outros temperamentos à instabilidade nervosa de histeria e de louca aflição.” 

“Ideias permitem que os agentes reduzam as incertezas e proponham uma solução particular para um momento de crise, e empoderam agentes para resolver determinada crise construindo novas instituições alinhadas com novas ideias.”

 “Uma coisa é por ideias arranjadas; outra é lidar com país de pessoas de carne e sangue, de mil – e tantas misérias… De sorte que carece de se escolher”.

Guimarães Rosa

Quando uma sociedade se encontra em um contexto histórico no qual problemas econômicos conjunturais se acumulam, juntamente com problemas estruturais que carregam do seu passado, há diferentes trajetórias históricas que pode vir a percorrer. Podem surgir lideranças políticas e comunitárias que concebem e implementam grandes mudanças e transformações na construção de uma nova realidade econômica e social, com mais progresso econômico e bem-estar social para a sua população.

Mas, é possível também que os conflitos entre os interesses dos diferentes grupos que compõem a sociedade se acomodem no que se denomina a armadilha do equilíbrio de baixo nível ou “a armadilha da renda intermediária”. A busca do melhor é substituída pela busca do satisfatório, colocando a sociedade em um regime de homeostase.

Kenneth Boulding (1910-1993), reconhecido por seus estudos sobre a metodologia da economia como ciência, destacou, em 1970, a importância da homeostase para os sistemas sociais como uma forma orgânica de equilíbrio, que deriva da Biologia e não apenas da Física. Segundo o Novo Dicionário da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, da Academia Brasileira de Letras (1986), há duas definições de homeostase:

1. da Fisiologia: tendência à estabilidade do meio interno do organismo; 

2. da Cibernética: propriedade autorreguladora de um sistema ou organismo que permite manter o estado de equilíbrio de suas variáveis essenciais ou de seu meio ambiente. 

Neste século 21, a economia brasileira se encontra em um ambiente de tensões e de incertezas provocadas pela reestruturação da nova ordem econômica internacional, a partir do império do protecionismo do novo mandato do presidente Trump, pela crise fiscal e financeira dos três níveis consolidados de governo, pela polarização político-partidária que abala a formulação e a implementação das políticas econômicas, entre outros fatores.

Segundo Boulding, a homeostase se define como a propriedade de um sistema aberto em organismos sociais, que tem função de regular o seu ambiente interno para manter uma condição estável.

Toda a sua organização interna, estrutural e funcional, contribui, mediante múltiplos ajustes, para a manutenção do equilíbrio, embora os resultados das ações de ajuste possam ser imprevisíveis, envolvendo inclusive riscos sobre os resultados esperados.

A homeostase é, na verdade, o resultado da convergência dos interesses de um conjunto de diferentes grupos sociais no País em termos de sua estratégia de conformidade. Ou seja, diante de tantas incertezas sobre o futuro da economia e do sistema político, esses grupos de maior vocalidade na sociedade buscam, como estratégias, alternativas de sobrevivência conformistas. 

O equilíbrio se consegue quando todos se encontram conformados quanto à política econômica prevalecente*. É preciso destacar que o comportamento conformista não emerge como um tipping point, mas como um longo processo de decadência, silencioso mas resiliente.

Desde 2014, a economia brasileira está em estado de homeostase a partir de uma política econômica da estabilização monetária. As elites financeiras se encontram satisfeitas em se beneficiar de uma taxa de juros real considerada, recorrentemente, uma das maiores do mundo: a taxa nominal de 15% permite que o seu patrimônio financeiro dobre em menos de 5 anos, sem nenhum trabalho atual; cerca de 60 a 70 milhões de brasileiros estão protegidos precariamente sob alguma política social compensatória (Bolsa Família, Benefícios Continuados da LOAS, Previdência Social); a classe média, aos trancos e barrancos, ainda consegue, graças ao seu poder eleitoral, atenuar o avanço do processo de seu empobrecimento. Enfim, observa-se uma atitude de comportamento conformista nas opções pela atual política econômica por parte de quase todos os grupos sociais organizados do País, que se acomodam em uma estratégia de sobrevivência. 

Desde 2014, a política econômica brasileira tem sido fundamentada no modelo de equilíbrio fiscal expansionista, o qual pressupõe que, com o ajuste fiscal articulado com as tríplices reformas político-institucionais (tributária, previdenciária e administrativa), ocorrerá a retomada do crescimento impulsionada pelas forças livres dos mercados.

Através de uma adequada coordenação da política fiscal e da política monetária, a dívida pública poderia ser mantida em níveis adequados e viabilizar as taxas necessárias para que o País supere as atuais crises econômica e socioambiental, o que poderá resultar em uma eventual queda da taxa básica de juros e induzir a retomada do crescimento de forma sustentada ao longo do tempo. 

Pois bem. O déficit fiscal consolidado no Brasil não é de natureza conjuntural, como ocorreu em vários países desenvolvidos quando foram impactados pela crise de 2008 e pela pandemia da COVID-19 (ver Texto V). A condição necessária e suficiente para a retomada do crescimento nesses países foi a normalização do equilíbrio fiscal.

No caso brasileiro, o déficit é de natureza histórico-estrutural e se configurou a partir dos anos 1990, quando a despesa pública cresceu de forma acelerada com a implantação das diferentes políticas públicas previstas na Constituição de 1988, enquanto a desaceleração do crescimento do PIB e da Renda Nacional levou a um crescimento pouco significativo da base tributária. Mário Henrique Simonsen e Delfim Netto advertiam, ainda em 1990, que essa escala de despesas não caberia no PIB, a não ser que houvesse um crescimento do PIB em ritmo proporcional ou até mesmo mais do que proporcional.

Ao elaborar cenários para a economia brasileira no período 2026-2030, há uma tendência entre os economistas em trabalhar com o que se denomina “a síndrome do W e do V”. Buscam entender se após um período de desaceleração da economia, ocorrerá um novo ciclo de expansão de crescimento que poderá ser abortado por um período de nova queda. As apostas passam a ser se a configuração do ciclo futuro será a imagem de um V ou de um W no espaço geométrico euclidiano; daí as instabilidades observadas na evolução das taxas de crescimento do PIB ao longo dos anos.

Ora, poderemos estar, na verdade, vivendo uma experiência de homeostase econômica mediante um conjunto de ajustes dinâmicos controlados por mecanismos de regulação inter-relacionados, que poderão manter “a economia em banho-maria”. Uma economia que, ao procurar equilibrar politicamente as preferências conflituosas de política econômica dos diferentes setores produtivos, grupos sociais e regiões do País, tende a dar dois passos para trás depois de ter dado um passo para frente, mas sempre acomodando interesses conflitivos e poderá se envolver em um processo de decadência silenciosa.

Não se trata de analisar o estado futuro da economia brasileira como simples extrapolação do comportamento recente das principais variáveis econômicas (“cenário tendencial”), nem do tratamento do futuro como algo inédito ou desconhecido (“cisnes negros”) que estaria além dos atuais níveis de conhecimento e da experiência dos analistas. Mas de reconhecer que as restrições e condicionalidades impostas pelas decisões de políticas econômicas para o próximo quinquênio constituem um imperativo determinante de suas perspectivas e que os limites do possível encolheram.

Podemos classificar essas restrições e condicionalidades em três grupos. Ao fazer uma opção pela globalização econômica e financeira no final do século passado, o Brasil deveria ter se preparado para conviver com as interconexões e as interações da conjuntura econômica global sobre o seu grau de liberdade para formular autonomamente as políticas econômicas. E, no curto prazo, essa conjuntura é um campo menor de oportunidades e um campo maior de riscos.

O segundo grupo se refere ao que o governo endogenamente gerou de condicionalidades para o seu próprio processo de decisão, a partir de inconsistências e inconformidades nas políticas econômicas dos últimos anos. Citam-se, como exemplos: a restrição induzida à capacidade de investimento do setor público consolidado; desencontros das políticas fiscal e monetária induzindo uma taxa de juros inibidora da formação de um ciclo de expansão, etc.

Finalmente, destaca-se a perda de confiança da comunidade empresarial nacional e internacional na gestão populista da economia brasileira, afetando a intensidade e a cadência do processo de tomada de decisão sobre os investimentos. Basta lembrar Keynes, que dizia no famoso capítulo 12 de sua Teoria Geral, de 1936: “O estado da expectativa a longo prazo, que serve de base para as nossas decisões, não depende, portanto, exclusivamente do prognóstico mais provável que possamos formular. Depende, também, da confiança com a qual fazemos este prognóstico — na medida em que ponderamos a probabilidade de o nosso melhor prognóstico revelar-se inteiramente falso”.

Talvez tenhamos que começar a compreender melhor os fractais do novo mosaico da economia global e da economia brasileira, a qual, impossibilitada de avançar por restrições econômicas exógenas e endógenas ou de recuar ainda mais por razões de equilíbrio político, possa estar caminhando para um cenário de homeostase com riscos político-institucionais. Neste sentido está a necessidade de melhor compreensão das configurações de políticas macroeconômicas, que se integram com as políticas de desenvolvimento sustentável. Fica a questão: se o Brasil sair de um contexto de homeostase conformista poderá crescer com equidade social?

O Brasil vive, atualmente, uma fase de homeostase econômica, ou seja, há uma tendência autorreguladora do organismo econômico que permite manter, pelo menos, o estado de equilíbrio interno dos seus principais grupos de interesse (os rentistas, os movimentos sociais, etc.), ou porque usufruem da maior taxa de juros do mundo ou porque estão conformados com as benesses distributivas. O que nos leva a perguntar: quem de fato quer uma Grande Transformação do Brasil? 

Não dispúnhamos, até recentemente, de indicadores de desenvolvimento sustentável regionalizados para os 5569 municípios e as 27 unidades da Federação, mas de indicadores que combinavam apenas dois componentes dos ODS (crescimento econômico + equidade social), sem incorporar variáveis da sustentabilidade ambiental.

É o caso do IFDM (Índice FIRJAN de Desenvolvimento Municipal) construído à semelhança do IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) do PNUD/IPEA/FJP. Como destaca a análise do IFDM:

“Desde sua primeira edição, em 2008, o Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM) busca acompanhar anualmente o desenvolvimento socioeconômico brasileiro sob a ótica da menor esfera federativa: o município. Medir esse desenvolvimento exige reavaliações periódicas sobre as escolhas possíveis e os níveis de acesso alcançados. Com o passar dos anos, essa necessidade levou à revisão dos indicadores que compõem o índice.

A edição de 2025 do IFDM apresenta uma revisão metodológica do indicador, com uma série histórica totalmente revisada, contemplando os anos de 2013 a 2023. A atualização metodológica seguiu três pilares: revisão de literatura e diálogos com especialistas, identificação de novas variáveis e testes estatísticos para validar hipóteses teóricas e a estrutura de pesos do índice.

O objetivo principal foi tornar a metodologia mais precisa e alinhada à realidade brasileira. Considerando que o desenvolvimento local depende da ação conjunta das três esferas de governo, do setor empresarial e da sociedade civil, a nova estrutura incluiu indicadores que extrapolam a gestão municipal. Também foram revisadas as metas, parâmetros e pesos dos indicadores. O IFDM mantém sua base em três eixos consagrados na mensuração do desenvolvimento humano: Emprego & Renda, Saúde e Educação.

Os dados analisados seguem as premissas originais da metodologia: são obtidos exclusivamente de fontes oficiais, possuem periodicidade anual, recorte municipal e abrangência nacional. Os indicadores refletem os avanços e desafios socioeconômicos do País, desde o acesso aos serviços até sua efetividade para a população. O quadro a seguir apresenta as variáveis que compõem o índice”.

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Observação: o número e a qualidade das variações de cada componente do IFDM são mais abrangentes do que o IDH uma vez que esse indicador, por estender a sua estimativa padronizada para todos os países, sofre limitações da disponibilidade de informações nas nações menos desenvolvidas.

O índice varia de 0 a 1, sendo que quanto mais próximo de 1 maior o desenvolvimento socioeconômico da localidade (ver Tabela 1).

Com o objetivo de estabelecer valores de referência que facilitem a análise, foram convencionados quatro conceitos:

  • Municípios com IFDM entre 0,0 e 0,4: Desenvolvimento Crítico;
  • Municípios com IFDM entre 0,4 e 0,6: Desenvolvimento Baixo;
  • Municípios com IFDM entre 0,6 e 0,8: Desenvolvimento Moderado;
  • Municípios com IFDM entre 0,8 e 1,0: Desenvolvimento Alto.

lista a seguir mostra a situação das 27 sedes de governo das unidades federativas do Brasil de acordo com o IFDM – Índice FIRJAN de Desenvolvimento Municipal. Os valores são baseados em dados da edição 2025, que utiliza dados oficiais de 2023.

ECONOMIA BRASILEIRA

Observação: o mapa ilustra a persistência dos desequilíbrios regionais de desenvolvimento; a sua atenuação deve se tornar um dos objetivos de um processo de planejamento do desenvolvimento sustentável na agenda do Brasil que queremos.

TABELA 1

IFDM edição 2025 – ano base 2023 – Capitais

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Observação: os indicadores dos estados e das capitais de menos desenvolvimento seriam bem menores sem as transferências fiscais que beneficiam as suas variáveis de renda, saúde e educação. (ver Texto I).

Para avaliar o processo de desenvolvimento sustentável das cidades brasileiras, o Instituto Cidades Sustentáveis (ICS), em parceria com a Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável (SDSN), que é vinculada à ONU, lança, desde 2021, o Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades – Brasil(IDSC-BR), o qual permite mapear, monitorar e avaliar o cumprimento dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (assinado pelo Brasil em setembro de 2015). O IDSC-BR é elaborado com base em mais de 80 indicadores.

O Índice de desenvolvimento sustentável das cidades-BR, visa, de forma geral, a integração das cidades brasileiras em cada um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Seus objetivos e estratégias de estabelecimento dos ODS se constituem como ferramenta útil e efetiva para uma gestão pública e ação política nos municípios brasileiros. Além disso, possui ainda o objetivo de promover a construção de informações locais e de forma mais compreensível e acessível, de modo que gestores públicos possam se apropriar de sua metodologia, bem como da concepção e aplicação desta ferramenta. Em resumo, o IDSC-BR oferece uma ferramenta que visa a melhoria da gestão pública em uma ação política de prefeitos e seja orientada, a fim de definir metas com base em indicadores e facilitar o monitoramento dos ODS em um nível local.

Os indicadores se relacionam com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) agrupados na Tabela 2, onde há um destaque de alguns indicadores devido ao seu caráter inovador e de sua relevância para o atual momento da sociedade brasileira.

TABELA 2

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)Indicadores (exemplos)
1. Erradicar a pobrezaPessoas com renda até 1/4 do salário-mínimo
2. Erradicar a fomeObesidade infantil
3. Saúde de qualidadeMortalidade por suicídio
4. Educação de qualidadeAcesso à internet nas escolas de ensino fundamental
5. Igualdade de gêneroTaxa de feminicídio 
6. Água potável e saneamentoÍndice de tratamento de esgoto
7. Energia renovável e acessíveisVulnerabilidade energética
8. Trabalho digno e crescimentoJovem de 15 a 24 anos de idade que não estudam nem trabalham
9. Indústria, inovação e infraestruturaParticipação dos empregos em atividades intensivas em conhecimento e tecnologia
10. Reduzir as desigualdadesViolência contra a população LGBTIQIA+ *
11. Cidades e comunidades sustentáveisDomicílios em favelas
12. Produção e consumo sustentáveisProdução atendida com coleta seletiva
13. Ação climáticaEmissão de CO² per capita
14. Proteger a vida marinhaEsgoto tratado antes de chegar ao mar, rios e córregos
15. Proteger a vida marítimaTaxa de áreas florestais e naturais
16. Paz, justiça e instituições eficazesHomicídio infantil
17. Parcerias para a implementação dos objetivosInvestimento público

Fonte: Instituto de Cidades Sustentáveis.

A elaboração do IDCS–BR é uma grande evolução metodológica na elaboração de indicadores quantitativos que nos permitem retirar a viseira da teoria e perceber melhor a realidade econômica e social do Brasil.

A redução dos custos para processar, armazenar e divulgar indicadores socioeconômicos a partir do ciclo de inovações da tecnologia de informações tem estimulado a produção de vários indicadores de forma aleatória, pontual e, muitas vezes, sem sentido analítico. Na verdade, pode-se observar que há quatro gerações de indicadores socioeconômicos e ambientais que emergiram nas seis últimas décadas, a partir da combinação de interesses acadêmicos com o interesse dos formuladores de políticas públicas. Particularmente, desde 1965, ocorreu uma explosão de novos indicadores de desenvolvimento em diferentes países.

Durante a crise de 1929, os governos dos EUA, Inglaterra, França e de outros países europeus se deram conta de que não dispunham de um sistema atualizado de informações para acompanhar a conjuntura econômica e as tendências de crescimento de suas economias (nível de atividade), assim como não dispunham de mecanismos de monitoramento para acompanhar os movimentos dos preços em seus países e regiões (índices gerais de preços e índices de custo de vida).

Assim, pouco a pouco, sob as orientações conceituais das obras de Keynes e as diretrizes operacionais de Richard Stone, entre outros, foram se desenvolvendo indicadores de acompanhamento da conjuntura e do ambiente macroeconômico de diversos países do Mundo, até que as Nações Unidas assumiram a responsabilidade técnica para a normatização desses indicadores através da contabilidade nacional e para a sua sistematização nos países menos desenvolvidos, a partir dos anos 1950.

A segunda geração de indicadores socioeconômicos está relacionada à necessidade de se dispor de informações atualizadas, desagregadas e relevantes para a concepção e a implementação de políticas públicas de natureza redistributiva da renda e da riqueza em países, regiões e localidades. A motivação política para o desenvolvimento dos sistemas de indicadores sociais emergiu particularmente nos anos 1970, quando se constatou que os ciclos de crescimento econômico do pós-II Grande Guerra haviam gerado desigualdades e assimetrias na distribuição de seus custos e benefícios entre grupos sociais, famílias e regiões.

A terceira geração de indicadores está contextualizada na necessidade de melhor conhecimento do desenvolvimento científico e tecnológico das nações e de suas regiões, assim como das inextricáveis relações entre crescimento econômico e sustentabilidade ambiental. Desde a ECO-92, a concepção de desenvolvimento sustentável, que procura um equilíbrio entre competitividade sistêmica, equidade social e qualidade do meio ambiente, está demandando, para a sua operacionalização, uma outra geração de indicadores de caráter inovador que vêm se configurando como de enorme relevância ao longo dos últimos dez anos. No Brasil, dispomos de inúmeros indicadores de sustentabilidade ambiental, como, por exemplo, os relatórios da qualidade das águas em nossas bacias hidrográficas produzidos pela ANA, pelo IDSC-BR, entre outras instituições públicas e privadas.

A geração de indicadores, que ainda não tem um caráter sistêmico e busca se consolidar, é a dos indicadores dos capitais sociais ou intangíveis (cultural, humano, conhecimento e institucional). As modernas teorias de desenvolvimento destacam que, embora as estruturas físicas sejam uma condição necessária para um processo de crescimento econômico de uma sociedade, o desenvolvimento sustentável dependerá fundamentalmente da sua capacidade de organização social e política, fundada na qualidade e na intensidade de seus capitais sociais.

O que se busca são indicadores da qualidade institucional da gestão pública, do grau de mobilização e participação dos cidadãos no planejamento governamental, da capacidade de cooperar para competir de micro e pequenos empresários, da sustentabilidade fiscal dos governos estaduais e municipais e de sua responsabilidade social, etc. É possível encontrar aqui e ali um crescente número desses indicadores, que cada vez mais vem, influenciando a concepção e a implementação das políticas públicas.

Desde a definição dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, quando os países membros se comprometeram com sua implementação até 2030, foram sendo elaborados indicadores (como o IDSC-BR) para fundamentar planos, programas e políticas de governo e estruturar a última geração de indicadores de desenvolvimento sustentável.

Indicadores de desenvolvimento sustentável equivalem às aspirações do Brasil que queremos, pois representam adequadamente as condições de vida das gerações atuais e das gerações futuras. Para a sua implementação bem sucedida, são necessárias lideranças como a do Presidente JK que, sem otimismo ingênuo, baseava o seu mandato presidencial “na manifestação inequívoca de fé na capacidade realizadora dos brasileiros, no triunfo do espírito pioneiro, na prova de confiança na grandeza do Brasil”.

O IDSC-BR permite visualizar com maior clareza a situação socioeconômica e socioambiental dos municípios e dos seus respectivos estados, ao incorporar a dimensão da sustentabilidade ambiental e ao permitir a sua comparabilidade internacional*. Vejamos a situação de 3 capitais, lembrando que o IDSC-BR varia de Muito alto: 80 a 100; Alto: 60 a 79,99; Médio: 50 a 59,99; Baixo: 40 a 49,99; Muito baixo: 0 a 39,99.

 IFDMIDSC-BR
Recife0,708840,23 (3528º de 5570)
Belém0,639040,16 (5349º de 5570)
Porto Velho0,673238,96 (5426º de 5570)

O que fazer quando uma sociedade chega, após uma longa evolução histórica, dividida estruturalmente pelos níveis de renda, de região, de cor, de gênero? (ver Texto I). Nos últimos anos, desde a Constituição de 1988, a predominância na agenda governamental da redução das desigualdades sociais e regionais de desenvolvimento tem sido de ações das políticas sociais compensatórias (Bolsa-Família, Lei Orgânica de Assistência Social, Previdência Social) e das transferências fiscais do Governo Federal para estados e municípios (FPM, FPE, fundos educacionais, fundos de saúde pública, etc.).

É preciso reconhecer que as políticas sociais e fiscais compensatórias do Governo Federal, que vieram se estruturando desde os anos 1990, contribuíram para que a crise social não assumisse um recorte de pobreza africana. E, também, que os movimentos organizados da sociedade civil mobilizaram várias iniciativas de doações de bens essenciais para os mais necessitados, lembrando que “um pouco dos que têm muito pode representar muito para os que têm pouco”.

Entretanto, não é preciso elaborar indicadores através de metodologias sofisticadas para reconhecer a profundidade das desigualdades sociais no Brasil. Basta, caminhando ou viajando, olhar para os lados em muitos contextos geográficos. Vejamos dois exemplos típicos.

  1. Um grupo de turistas chega ao Aeroporto Internacional de Confins e sai de Belo Horizonte em direção a Ouro Preto. Logo no início da BR–040, à sua esquerda, está o Belvedere, um dos mais caros e luxuosos bairros da Capital mineira, com índices de desenvolvimento humano (IDH) iguais aos da Suíça e da Noruega (0,951). Do outro lado equivalente da rodovia, está o Morro do Papagaio, com uma população de quase 20 mil habitantes com um IDH (=emprego e renda + educação + saúde) igual a 0,685, semelhante aos índices baixos da África do Sul ou da Índia.
  2. Se você estiver no estado de Alagoas e viajar na direção do Rio São Francisco, saindo de Maceió, na Zona da Mata, passando pelo Agreste e pelo Sertão do Nordeste, você verá o desenrolar de um cenário dos patamares de pobreza extrema enraizados no espaço geográfico. Se você achar que mora no País das Maravilhas, não olhe para os lados, pois verá que 48,7% da população do Nordeste é de pessoas pobres.

Para Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia em 1998, o desenvolvimento é um processo de criação de oportunidades para que as pessoas possam realizar os seus projetos de vida. Em uma economia de baixo crescimento, com ciclos frequentes de recessão econômica, como é o caso do Brasil nos últimos quarenta anos, o processo prevalecente tem sido o de destruição de oportunidades. Segundo o IBGE, a taxa de desemprego entre os jovens de 18 a 24 anos tende a ser superior ao dobro da taxa geral. 

Desse contexto, em que prevalecem taxas abissais no tripé das desigualdades de renda, de emprego e de oportunidades, algumas lições podem ser apreendidas, a partir das experiências históricas de diversos países de economias de mercado quanto às relações entre as três dimensões de um processo de desenvolvimento sustentável:

  • Políticas públicas bem concebidas e implementadas têm a capacidade de reduzir sensivelmente o número de pobres e de miseráveis de um país ou de uma região. 
  • Economias de mercado que se envolveram em processos excessivos e dominantes de financeirização têm os seus níveis do tripé de desigualdades acentuados.
  • As economias capitalistas que progridem mais e melhor sempre realizaram uma inteligente combinação de mercado e governo, de tal forma que não se trata de mercado ou governo, mas de combinar ambos para maior benefício da sociedade, através de processos de planejamento indicativo.

Richard Wilkinson e Kate Pickett*, epidemiologistas que têm estudado os problemas de desigualdade e de saúde, demonstraram no seu livro “The Spirit Level”, que quase todos os indicadores de bem-estar social são afetados menos pela riqueza de uma sociedade e mais pelo quanto ela é desigual. E que a vida nas sociedades mais divididas economicamente é pior para todos, inclusive para os mais ricos. 

Em seu livro, é apresentado o estudo desenvolvido para a construção de um Índice de Saúde e Problemas Sociais, através de dados sobre problemas sociais: nível de confiança, doenças mentais (incluindo uso de drogas e consumo de álcool), esperança de vida ao nascer e mortalidade infantil, obesidade, desempenho educacional de crianças, gravidez precoce, homicídios, taxas de aprisionamento e mobilidade social. Esse conjunto completo de informações somente estava disponível, à época da pesquisa, para vinte e três países desenvolvidos e para todos os estados dos Estados Unidos. 

Em seguida, procuraram correlacionar os indicadores entre países e entre estados, de um lado, com os níveis de desenvolvimento econômico e, do outro lado, com os níveis de desigualdades sociais. Concluíram que os problemas sociais e de saúde são fracamente relacionados com a renda per capita de países e estados e fortemente relacionados com as suas desigualdades sociais. 

Por exemplo: os Estados Unidos, que são o país com a maior renda per capita do mundo (o maior nível de desenvolvimento econômico), apresentam o pior valor do Índice de Saúde e Problemas Sociais entre os países analisados. Em 2007, à época da pesquisa, 1% da população ganhava quase 25% da renda nacional. Os mesmos resultados foram obtidos para quase todos os indicadores, tomados isoladamente, e para todos os estados dos Estados Unidos: problemas sociais e de saúde estão sistematicamente relacionados com as desigualdades sociais.

Desde os anos 1960 e 1970, o Brasil vem executando, com relativo sucesso, políticas públicas de desenvolvimento socioeconômico e socioambiental, iniciadas num período em que o Governo Federal chegou a ter superávits primários superiores a 5% do PIB, no início dos anos 1970, e as empresas estatais a dispor de 80% de recursos próprios para o financiamento dos seus projetos de investimentos. Com a atual crise fiscal dos três níveis de governo houve uma exaustão do modelo de crescimento liderado pelo Poder Público e uma desmobilização, em termos de eficácia, das políticas sociais, ambientais e regionais.

Os eventos portadores de mudanças, neste século 21, têm sido tão intensos que não podemos apenas continuar reproduzindo políticas de um passado, ainda que glorioso. As políticas públicas em todos os seus níveis têm que se transformar e renovar mesmo em um ambiente de incertezas, pois, quando as lideranças se responsabilizam pelo bem-estar social sustentável de uma nação, há riscos que não podemos deixar de correr na formulação e na implementação das políticas públicas. Como dizia Keynes, a dificuldade não reside nas novas ideias, mas em conseguir escapar das antigas. A renovação de ideias deve se construir num processo permanente na formulação das políticas, baseando-se nas experiências do passado do próprio país e de outras nações: 

  • As economias de mercado que apresentam melhor desempenho econômico sustentado são as que têm os melhores indicadores de igualdades sociais. 
  • Políticas econômicas que aumentam as desigualdades sociais resultam em menor crescimento econômico. 
  • As economias de mercado que têm piores indicadores de desenvolvimento social sustentável são as economias com pior distribuição de renda e de riqueza, independentemente do seu nível de desenvolvimento.

As experiências históricas relativas às inter-relações entre as três dimensões estruturantes de um processo de desenvolvimento sustentável mostram que quase todas as medidas ou indicadores de bem-estar social são afetados menos pelo crescimento da renda e da riqueza de uma sociedade do que pelo grau de desigualdades sociais em que está imersa. Onde as disparidades de renda e de riqueza são mais intensas há mais níveis elevados de desalento social. Keynes afirmava que o capitalismo somente poderia encontrar legitimidade se as pessoas de rendas mais modestas continuassem a acreditar que as pessoas mais ricas mereciam sua sorte graças às contribuições para a sociedade e não graças à especulação e ao roubo.

A questão das desigualdades sociais está presente no Brasil desde o período da Abolição da Escravatura, no século 19, quando se estruturou a economia de mercado capitalista. A resiliência dessas desigualdades persistiu ao longo de nossa história passando por diferentes momentos, agravando-se na crise econômica de 1929 e no “Milagre Econômico dos anos 1970”, atenuando-se no primeiro ciclo de expansão do pós-II Grande Guerra (Plano de Metas de JK) e após o bem-sucedido Plano Real, com o aborto da superinflação dos anos 1990. Mas a experiência histórica da Humanidade mostra que a resiliência das desigualdades sociais é muito difícil e complexa de ser superada, como mostra o livro de Walter Scheidel*, onde o autor indaga se a violência das massas e catástrofes são as únicas forças que podem efetivamente reduzir as desigualdades econômicas.

Walter Scheidel, historiador austríaco que ensina História Antiga na Universidade de Stanford (Califórnia), analisou a evolução das desigualdades sociais e econômicas desde o período da Idade da Pedra (fase da Pré-História) até o século 21. A tese principal do seu livro pode ser resumida em dois principais argumentos:

  1. Durante milhares de anos, a civilização não nos levou a uma equalização pacífica; no amplo conjunto de sociedades e diferentes níveis de desenvolvimento, a estabilidade favoreceu a desigualdade econômica, do Império Romano aos Estados Unidos; choques violentos foram de imensa importância para a ruptura da ordem estabelecida, ao comprimir a distribuição de renda e de riqueza, reduzindo o hiato entre ricos e pobres; ao longo da história conhecida, os mais poderosos nivelamentos invariavelmente resultaram dos mais poderosos choques;
  2. Destaca quatro diferentes tipos de choques ou rupturas violentas que resultaram na descompressão na distribuição de renda e da riqueza: a) a mobilização da sociedade em seu conjunto para as grandes guerras (como na 1ª e na 2ª Guerras Mundiais), que levam à tributação confiscatória, à intervenção do governo na economia, à inflação, à ruptura dos fluxos globais de bens e de capitais e a outros fatores que combinados destroem a riqueza das elites e redistribuem os seus recursos; b) as revoluções transformadoras (Revolução Francesa, Revolução Russa), com o seu dramático impacto equalizador; c) colapso do Estado, que desestrutura a posição da elite mais rica e melhor posicionada no topo da hierarquia do poder político (Somália, como exemplo): d) as pandemias letais, que poderiam agir como mecanismos pacíficos de redução das desigualdades.

Podemos elaborar uma reflexão sobre o que Scheidel denomina os Quatro Cavaleiros do Apocalipse (Guerra, Revolução, Colapso e Pandemia) em função das experiências históricas do Brasil em anos mais recentes. Nesse caso, cabe uma reflexão com foco nos impactos distributivos da pandemia da covid-19 sobre as desigualdades sociais e o empobrecimento da população brasileira.

Embora Walter Scheidel tenha dado especial atenção à investigação sobre a devastadora peste negra, com mortes estimadas que variaram de 50 a 200 milhões de pessoas durante o século XIV, na Eurásia, ele dedicou sua análise também para outras experiências históricas de pandemias. 

Entre essas lições, destaca-se que em todas elas ocorreram:

  1. extraordinária perda de milhares ou milhões de vidas;
  2. sacrifícios inusitados no bem-estar social das populações e no atendimento de suas necessidades básicas;
  3. empobrecimento generalizado das sociedades, com queda persistente da renda e do emprego;
  4. intensificação dos conflitos distributivos da renda e da riqueza entre os diferentes grupos sociais;
  5. eliminação, ao longo do tempo, pelas estruturas institucionais prevalecentes, da descompressão das desigualdades sociais através do nivelamento das perdas.

Mas a principal lição da história se refere à constatação de que as cicatrizes econômicas e sociais das mazelas pós-pandemias serão mais ou menos profundas dependendo do contexto histórico de três fatores: o estado geral da nação no período pré-pandemia; a intensidade e a duração da fase das contaminações e das mortes; o conjunto de ações e intervenções de natureza mitigatória e compensatória das autoridades estabelecidas.

No caso brasileiro, o período pré-pandemia já não era nada favorável. A economia crescia lentamente; o número de pobres e miseráveis posicionava o Brasil como o sétimo país mais desigual do mundo; o número de desempregados, subempregados e desalentados chegava a 28 milhões; o percentual das famílias brasileiras endividadas era superior a 65%. 

Vale dizer, um ponto de partida com elevado passivo social, ao qual iria se somar a degradação dos indicadores de desenvolvimento humano durante o ciclo da pandemia.

Felizmente, durante esse ciclo, a situação socioeconômica dos brasileiros tornou-se menos dramática, pois, além da preservação ainda que parcial das políticas sociais compensatórias, foram incrementados auxílios emergenciais trabalhistas e de financiamentos favorecidos do Governo Federal. Apesar de tudo isso, mazelas adicionais das desigualdades não deixaram de emergir para os pobres através dos problemas nas áreas de alimentação, educação, saúde.

A Constituição de 1988, no seu Art. 6º, manifestou profunda preocupação com a pobreza e as desigualdades sociais no Brasil. A partir daí, foi sendo elaborado e implementado um conjunto expressivo de políticas sociais compensatórias, sendo que somente três delas (Bolsa Família, Previdência Social e Lei Orgânica de Assistência Social) realizam pagamentos em torno de 35 milhões de benefícios por mês. 

Políticas que são absolutamente essenciais e indispensáveis para evitar que as classes D e E de nossa população mergulhem em um grau de pobreza africana, como os países da Somália, Burundi ou do Sudão do Sul.

Contudo, essas ações compensatórias são insuficientes para erradicar a pobreza e as desigualdades sociais no País, as quais nascem, se perpetuam e se reproduzem desde o período histórico da escravidão, através do que se denomina regimes das desigualdades.

Não basta, pois, através de ações compensatórias ou de eventuais melhorias da renda domiciliar per capita, sinalizar que os indicadores de desigualdades sociais melhoraram. Os regimes de desigualdades são um contexto socioeconômico em que há interdependência entre múltiplas manifestações de desigualdades (habitação, nutrição, saúde, qualidade dos serviços públicos, etc.) e a institucionalização das novas formas de organização social das políticas sociais.

Contudo, como num país em crise fiscal e financeira é difícil politicamente equilibrar os usos e fontes de fundos que compõem um descompasso entre receitas e despesas do setor público consolidado, a política vai de ajuste em ajuste de curto prazo, impulsionada por decisões ad hoc. Não há dúvida que o equilíbrio macroeconômico é indispensável para que haja condições para a efetividade da política monetária manter a inflação dentro da meta programada, mas, se depender do déficit zero, a cronologia do equilíbrio será imprevisível no Brasil.

Como a maioria das políticas sociais é financiada pelos recursos orçamentários anuais e plurianuais, elas têm que avançar em um ambiente de incertezas, de cortes e de contingenciamentos, o que reduz a sua eficiência e a sua eficácia em termos de suas metas (objetivos quantificados) e da qualidade dos serviços públicos.

Na verdade, os déficits fiscais têm sido parcialmente cobertos, de forma insuficiente, através da crescente dívida pública, de aumentos ocasionais de impostos e taxas, de rendimentos distribuídos pelas empresas estatais, de restos a pagar institucionalizados. 

Os governantes, diante da avalanche de demandas legítimas para mais custeio e mais investimentos, têm de compartilhar, trimestre a trimestre, uma reprogramação orçamentária com sua base aliada, com enorme sacrifício dos compromissos prioritários com eleitores que os conduziram aos novos mandatos. 

Uma trajetória que coloca a economia brasileira em “banho-maria”, sem veias abertas e sem progresso econômico e social significativo numa sociedade conformista.

Os governantes, no início de seus mandatos, ficam sob o encantamento das benesses esperadas que os equilíbrios fiscais trarão com a eventual expansão do excedente econômico. Mas, “no meio do caminho tinha uma pedra” e a retomada do crescimento pode demorar ou até não vir (contexto que Robert Skidelsky denominou de sadismo intelectual) e o seu desencantamento pode ocorrer, como em Cinderela, no meio de seu mandato, ou seja, antes da meia-noite.

Descontentes, podem querer reduzir o tempo necessário para viabilizar os seus compromissos eleitorais com artifícios micro e macroeconômicos. Nesse momento, coisas estranhas podem ocorrer na política econômica.

A apresentação das desigualdades sociais de um país ou de uma região se processa, usualmente, através de indicadores sintéticos (o coeficiente de Gini, o percentual da renda que vai para 1% mais rico, o número de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza, etc.). Esses indicadores permitem comparações internacionais ou inter-regionais das condições de desigualdades sociais de maneira mais ou menos desagregada por grupos sociais no tempo e no espaço. Uma forma complementar de mensurar o nível de pobreza é a de estimar a renda familiar disponível estendida pelo tamanho e composição, como propõe Atkinson* com ilustração da renda familiar de um casal:

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Renda Familiar Estendida

Na verdade, esse é o valor da renda de que uma família dispõe para consumir ou poupar mais, o seu acesso a serviços públicos ou semipúblicos que irá determinar seu padrão de vida. Se o nível de renda familiar estendida não lhe garante o atendimento de suas necessidades básicas, ela tende a se endividar. A avaliação do caso das famílias brasileiras na atualidade:

  1. Quando a retomada do crescimento econômico se baseia no endividamento de empresas e de famílias (debted) ocorre um indicador da insuficiência da renda disponível; o endividamento das famílias brasileiras atingiu níveis recordes, fechando 2025 em 49,7% da renda anual, com picos de inadimplências impulsionadas pelo SELIC elevada. Essas famílias se endividaram, sob constrangimentos financeiros, por não disporem de poupanças ou de ativos para venda e, muitas vezes para atender às suas necessidades básicas.
  2. Em fevereiro de 2026, 20% das famílias paulistanas estavam inadimplentes (não conseguiam pagar as dívidas na data do vencimento), com destaques para atrasos superiores a 90 dias (53,5% dos casos), levando-as a se endividar para pagar dívidas (efeito Ponzi).
  3. Nesse contexto, as famílias brasileiras, principalmente a classe média e as mais pobres, estavam reféns de três tensões psicossociais e político-institucionais. O desemprego e a renda em queda conduziram ao seu empobrecimento. A perda de qualidade nos serviços públicos essenciais afetou o seu bem-estar social. As incertezas quanto à realização de suas oportunidades futuras trouxeram-lhes fadiga e estresse emocional. 
  4. Esse longo período de mazelas socioeconômicas sofrido pelas famílias brasileiras não comprometeu, contudo, o seu inconformismo quanto ao processo cruel, difuso e silencioso de seu empobrecimento e de assimetrias sociais. Ao contrário, muitas estão politicamente conscientes de que o País precisa passar por uma Grande Transformação, que dificilmente ocorrerá a partir de ideias e doutrinas historicamente superadas ou de governos que atuam casuisticamente, de acordo com regras espúrias de sobrevivência no poder.
  5. As atuais políticas sociais compensatórias que vem sendo aperfeiçoadas pelo Governo Federal, desde a elaboração da Constituição de 1988, são necessárias mas insuficientes para reduzir significativamente as desigualdades sociais no Brasil. As principais causas são  a limitação para reduzir os índices de pobreza, pois têm como referência uma concepção limitada de pobreza ou de extrema pobreza; para Anthony B. Atkinson o termo desigualdade significa coisas diferentes para pessoas diferentes; estamos interessados em conhecer a desigualdades de oportunidades de renda e de riqueza?; com quais renda e riqueza deveríamos nos preocupar para definir pobreza ou extrema pobreza?; como estabelecer a linha da pobreza e descrever a situação na qual uma pessoa encontra dificuldades para sair da armadilha da pobreza?;

para reduzir o grau de pobreza e de pobreza extrema significativamente a política pública necessita de respeitar os três princípios da Rede de Precedência: a intensidade das ações, a sequência das ações e o ritmo das ações, o que pressupõe crescimento recorrente do excedente produtivo e a formação de superávits primários no setor público consolidado; no caso brasileiro são obstáculos resilientes a serem superados por ter se tornado um país de baixo crescimento econômico e de crise fiscal estrutural;  

  • essas políticas utilizam como referência para a estimativa de valores a serem distribuídos (Bolsa Família, Benefícios Continuados, etc.) o salário-mínimo vigente desde fevereiro de 2026 (R$ 1.621,00); ocorre que o DIEESE defende que o salário-mínimo já deveria ser de R$ 7.164,94 em fevereiro de 2026, para garantir uma vida digna a uma família com dois adultos e duas crianças. 

Charles Ponzi, nascido Carlo Ponzi, foi um estelionatário italiano radicado nos EE.UU., conhecido por ter elaborado a maior fraude do século XX, estimada em 50 bilhões de dólares. Enriqueceu e levava uma vida de luxo em Boston, graças a um esquema de captação de recursos monetários dos imigrantes italianos e judeus, desde os anos 1910. O “esquema Ponzi”, parecido com o que hoje denominamos de pirâmide financeira, se baseava na promessa de aplicações com 50 por cento de lucro em 45 dias.

Pagava os primeiros investidores com o dinheiro dos novos investidores, ganhando assim a confiança dos imigrantes num primeiro momento. Envolveu-se em grandes negócios de um boom imobiliário na Flórida, onde chegou a vender terrenos submersos em áreas pantanosas. O negócio desmoronou e Ponzi terminou seus dias, pobre e cego, no subúrbio de Engenho Novo, no Rio de Janeiro. Morreu em 1949, internado na ala de indigentes do Hospital São Francisco. Está enterrado no Cemitério do Caju. 

Os livros de finanças incorporaram a expressão “Efeito Ponzi” para designar os imbróglios que ocorrem frequentemente em operações financeiras fraudulentas ou desequilibradas, as quais têm se tornado mais frequente com a evolução da internet e com a desregulamentação dos mercados financeiros.

Tecnicamente, Hyman Minsky definiu três perfis de situação financeira: quando os fluxos de rendimentos prospectivos de um empreendimento financiado dão para cobrir o principal e os juros; quando as receitas imediatas e de curto prazo dão para cobrir apenas os juros; e, finalmente quando esses rendimentos são insuficientes para cobrir até mesmo os pagamentos de juros, de tal forma que a dívida aumenta. Minsky denominou essa última situação financeira de “posição de Ponzi”.

Concluindo, as políticas sociais compensatórias são limitadas, tanto para a erradicação da miséria e da pobreza, assim como para a redução das desigualdades sociais. Falta-lhes intensidade e cadenciamento por causa da crise fiscal que o Brasil vivencia; e, também, é restrita a sua contribuição para transformar o regime de desigualdades prevalecente no País.

Julia Lynch*, cientista política da Universidade da Pensilvânia, que estuda as desigualdades resilientes na saúde e na riqueza, mostra em seu livro que, desde 1990, os partidos políticos dominantes na Europa “fracassaram em tratar do problema da desigualdade, resultando numa reação política e na transformação dos sistemas partidários”.

Ela critica a métrica usual da desigualdade econômica em um país a partir apenas da participação engrandecida do 1% ou do 0,01% no topo da pirâmide na distribuição de renda, a qual tem sido dramática nos EE.UU. e no Reino Unido, mas, também, desde 1980, em outras democracias industrializadas.

Ela propõe que, se quisermos compreender por que a desigualdade é tão resiliente, deveríamos considerar os regimes de desigualdades e não apenas a desigualdade da renda ou da saúde (ou qualquer outro indicador socioeconômico) de forma isolada e específica. Um regime de desigualdades tem dois atributos: interdependência e institucionalização. 

Interdependência se refere à estreita conexão entre as múltiplas manifestações das desigualdades e os indutores (drivers) prevalecentes das várias formas de desigualdades.

Institucionalização se refere às mudanças de regimes que emergem da tendência das novas formas de organização social para replicar aspectos importantes das velhas formas que pretendem substituir. Lynch conclui que múltiplas manifestações de desigualdades se combinam para reforçar entre si as características dos Estados do Bem–Estar Social avançados.

Em resumo: Julia Lynch propõe que uma política social de transferência fiscal de renda pode atender a uma das necessidades humanas (a necessidade de alimentação, fome zero, etc.) sem abalar ou desestruturar o regime das desigualdades dominantes. Alguns indicadores de desigualdades, quando calculados isoladamente, podem quantificar resultados específicos de melhoria da renda domiciliar per capita, mas não a prevalência dos regimes de desigualdades. Um contexto social e político que se torna mais complexo quando nele se adiciona a atual crise fiscal que abala os três níveis de governo.

Como avaliar o sistema capitalista brasileiro do ponto de vista de uma Grande Transformação para superar os problemas estruturais do País? Como ampliar o campo de oportunidades dos jovens que vêm se graduando em um sistema educacional de acessibilidade cada vez mais democrático? Como erradicar a pobreza extrema e atenuar a distribuição da renda e da riqueza? (ver Texto X).

Avaliar um sistema econômico significa observar, através de diferentes indicadores socioeconômicos e socioambientais, como o sistema está resolvendo os problemas fundamentais de desenvolvimento sustentável de uma sociedade. Essa observação não pode ser realizada apenas sobre indicadores de curto prazo (taxa de inflação, déficit fiscal, etc.), pois o sistema pode sempre sofrer ajustes fiscais e financeiros para superar as questões de conjuntura. Uma das características do capitalismo após o longo período do pós-II Grande Guerra, marcado por um ciclo de crescimento com estabilidade monetária até o início dos anos 1970, tem sido uma sequência de ciclos de instabilidades econômicas e financeiras e a persistência dos regimes de desigualdades.

No Brasil, o capitalismo tem se mostrado incapaz de resolver alguns dos problemas que são usualmente denominados de estruturais. O seu equacionamento não ocorre apenas através de medidas transitórias e voluntaristas, mas é preciso que nasça da consciência política de lideranças propensas a conceber e a implementar grandes transformações. Essas transformações nascem da inter-relação de ideias renovadas, de interesses iluminados e de instituições flexíveis e dinâmicas, geralmente estruturadas em políticas públicas sob a liderança de estadistas que vislumbram o horizonte de uma nação além do jogo político cujo principal objetivo é a manutenção e a preservação do poder para sustentar os interesses de sua base aliada.

As fragilidades do capitalismo brasileiro em muitos contextos são semelhantes às experiências históricas do capitalismo norte-americano ou europeu. Em outros, são específicas do nosso subdesenvolvimento político e do caráter emergente do nosso progresso econômico e social. Essas fragilidades se tornam visíveis em assimetrias e dissonâncias no processo de desenvolvimento do bem-estar social sustentável na vida dos brasileiros. 

Incapacidade para equacionar o problema da pobreza persistente e para reverter um processo de crescentes desigualdades sociais na distribuição da renda e da riqueza. Incapacidade para conter o uso predatório da base de recursos ambientais do País. Incapacidade para eliminar a tendência de imiscuir interesses privados com interesses públicos na gestão governamental, dentro do estilo de capitalismo de compadrio associado às práticas de corrupção. Incapacidade para controlar a vocação imanente entre protagonistas políticos para ações de populismo econômico que criam ciclos de instabilidade econômica, que resultam quase sempre em elevadas taxas de desemprego, etc. (ver Texto II).

Um dos problemas específicos do capitalismo no Brasil é a necessidade de se consolidar uma nova geração de empreendedores, inconformados com o status quo, que tenham o perfil cultural, a base ideológica e a sensibilidade política para lidar com os desafios contemporâneos de um mundo cada vez mais veloz, mais complexo e mais inextricável. Novos empreendedores com níveis de informação e conhecimento compatíveis com as inovações científicas e tecnológicas das revoluções industriais em marcha. E, ao mesmo tempo, compatíveis com uma cosmovisão indispensável para lidar, em seu planejamento estratégico, com as questões da sustentabilidade ambiental e da equidade social, em um país no qual as elites têm se tornado cada vez mais especulativas no campo econômico e impiedosas no campo socioambiental.

A importância de se rejuvenescer o capitalismo, criando um campo de oportunidades para a emergência de uma nova geração de empreendedores econômicos, sociais e culturais, se exprime na reflexão de Keynes, escrita em dezembro de 1935: “A dificuldade não está nas novas ideias, mas em escapar das velhas, que se ramificam, para aqueles que foram criados como a maioria de nós foi, por todos os cantos de nossas mentes”.

Thomas Piketty*, diretor de estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales e professor na Paris School of Economics, elaborou duas obras, que já se tornaram clássicas sobre os regimes de desigualdades na História, combinando análises e pesquisas de historiadores, sociólogos e cientistas. 

Ao se pensar em um processo de Grande Transformação da economia brasileira, que não se limita a ajustes incrementais de curto prazo, a leitura dos textos de Thomas Piketty é fundamental para avaliar as experiências históricas e ideológicas sobre como diferentes países, em diversos momentos históricos, conseguiram superar suas crises econômicas e regimes de desigualdades. Da mesma forma, a leitura do livro de Joseph Stiglitz* que propõe a superação do liberalismo por um capitalismo progressista.

Pode-se afirmar que as obras de Piketty, além da construção de uma agenda histórica das relações dos sistemas econômicos com os regimes de desigualdades, culminando com propostas para a organização de experiências do socialismo participativo no século 21, trouxeram novas luzes às controvérsias prevalecentes com a incorporação das análises de historiadores, sociólogos, cientistas políticos. Essa incorporação levou os editores do livro “After Piketty” a destacar uma reconciliação entre a Economia e as demais Ciências Sociais, particularmente quando se discutem as relações entre a acumulação de riquezas financeiras e não financeiras e os seus impactos nas estruturas do poder político. 

Esses impactos permitem que se imponha uma alternativa a um modelo de política econômica que melhor atenda os interesses dos grupos sociais mais bem aquinhoados no topo da pirâmide, acobertados por racionalizações acadêmicas, segundo as quais a concentração da renda e da riqueza de uma sociedade é favorável à acumulação de capital social, ao aumento não inflacionário da demanda agregada e ao bem-estar social de todos – direta ou indiretamente.

No caso brasileiro, o principal desafio no atual momento histórico é o de retomada do crescimento acelerado da economia brasileira a uma taxa necessária de pelo menos 5% ao ano. Com esse ritmo de crescimento sustentado, será possível equacionar alguns problemas conjunturais e estruturais a partir da formação ampliada de um excedente econômico que facilitará a geração de renda e de emprego, num contexto de estabilização monetária.


* “Quando um grupo de indivíduos reage repetidamente, de forma característica, em resposta a uma situação causada por um estímulo, concluímos que os membros do grupo adotam uma atitude social fixada em relação a ela. Essa reação característica de grupos de pessoas é às vezes denominada comportamento conformista” (Dicionário de Ciências Sociais, FGV/MEC).

* Jeffrey D. Sachs – The Age of Sustainable Development. Columbia University Press.

* Richard Wilkinson and Kate Picket – The Spirit Level: Why Greater Equality Makes Societies Stronger. Bloomsbury Press, 2009. No Prefácio, escreveram: “We live in a pessimist period. As well as being worried by the likely consequences of global warming, it is easy to feel that many societies are, despite their material success, increasingly burdened by their social failings”. Na Parte Três do livro, sugerem o que fazer para construir uma melhor sociedade.

* Walter Scheidel – The Great Leveler: Violence and the History of Inequality from the Stone Age to the Twenty-First Century.Princeton and Oxford, 2017.

*Anthony B. Atkinson, Inequality: What can be done?, Harvard 2015, Gerald M. Meier and Joseph E. Stiglitz, Frontiers of Development Economics, Oxford University Press ver artigo de Ravi Kanbur and Lyn Squire- “The Evolution of thinking about Poverty, Exploring the Interactions”, 2015. 

* Julia Lynch – Regimes of Inequality: The Political Economic of Health and Wealth, Cambridge, 2020.

* Thomas Piketty – Capital in the Twenty – First Century e Capital and Ideology, Harvard. After Piketty – The Agenda for Economics and Inequality, edited by Heather Boushey, J. Bradford Delong and Marshall Steinbaum, Harvard 2017.

* Joseph E. Stiglitz – The Road to Freedom: Economics and the Good Society, 2024, Norton.

Planejar para governar: o Amazonas em debate

O Amazonas vive hoje uma contradição que já não pode mais ser ignorada.

Enquanto sustenta um dos mais importantes polos industriais do país, o Estado apresenta um dos menores ritmos de crescimento econômico da região Norte. Estados vizinhos avançam impulsionados por novas frentes produtivas, enquanto o Amazonas permanece excessivamente dependente de um único motor econômico.

Esse dado não diminui a importância da Zona Franca de Manaus. Pelo contrário. Reforça sua centralidade.

amazonas em debate
Zona Franca de Manaus

Nenhuma economia regional se sustenta, no longo prazo, apoiada em um único eixo produtivo. A insistência nesse modelo, sem a construção de alternativas complementares, aprofunda a vulnerabilidade econômica do Estado e amplia as desigualdades territoriais que já se tornaram evidentes entre Manaus e o interior.

O Amazonas não pode mais adiar a construção de uma agenda de diversificação econômica que dialogue com sua realidade territorial, sua vocação ambiental e as transformações da economia global.

Bioeconomia, cadeias produtivas florestais, aquicultura, fruticultura, indústria de base biológica, turismo sustentável e inovação tecnológica não são temas acessórios. São caminhos concretos para ampliar a base econômica do Estado.

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Mas esses caminhos exigem método.

A apresentação de um Plano Estratégico de Desenvolvimento por uma das lideranças políticas do Estado ganha relevância justamente por isso. Não como solução em si, mas como sinal de que o debate pode avançar para um novo patamar.

  • Se há um plano, é necessário que outros também sejam apresentados.
  • Se há um diagnóstico, ele precisa ser confrontado, aprimorado, discutido.

O Amazonas precisa discutir, com maturidade, como pretende crescer nos próximos anos. Precisa decidir como irá transformar a força da Zona Franca em plataforma de desenvolvimento territorial e, ao mesmo tempo, construir novas bases econômicas que reduzam sua dependência estrutural.

Essa não é uma escolha ideológica. É uma necessidade econômica. E é também uma responsabilidade política.

O eleitorado amazonense, especialmente aquele que vive no interior do Estado, já conhece as consequências da ausência de planejamento. Conhece o custo de modelos que não geram capilaridade econômica nem inclusão social.

Não há mais espaço para soluções fáceis. Não há mais espaço para fórmulas midiáticas. O Amazonas já sabe o que não funciona. E começa, finalmente, a reconhecer o que precisa ser feito. Planejar, neste momento, não é uma opção. É condição para governar.

Combustíveis do futuro avançam no Brasil, mas ainda enfrentam limites estruturais

Com forte potencial em biocombustíveis e energia limpa, o Brasil avança nos combustíveis do futuro, enquanto enfrenta desafios para escalar soluções e reduzir impactos ambientais.

O mundo avança rumo à transição energética, mas os combustíveis fósseis ainda ditam o ritmo da economia global. Do transporte à indústria, a dependência permanece elevada e deve convergir o consumo de petróleo a um platô de 105,5 milhões de barris por dia até o fim da década, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA).

Mais do que uma ruptura com a energia fóssil, o cenário da transição energética aponta para uma reconfiguração do lugar dessas fontes. É nesse contexto que ganham força os chamados combustíveis do futuro: alternativas renováveis que buscam viabilizar a descarbonização, total ou parcial, em setores onde a eletrificação ainda enfrenta limites. Entenda quais são as fontes dos combustíveis do futuro e seus desafios, além do papel estratégico do Brasil nesse processo.

Mesmo com avanços, petróleo ainda domina a matriz energética global

Apesar do avanço das energias renováveis, a infraestrutura fóssil global já está consolidada e amortizada, o que mantém seu uso mais competitivo no curto prazo. Além disso, há setores em que a substituição ainda enfrenta barreiras técnicas e econômicas relevantes.

A petroquímica tende a se consolidar como um dos principais vetores de crescimento da demanda por petróleo, impulsionada pela produção de plásticos, fertilizantes e insumos industriais. Ao mesmo tempo, segmentos como o transporte pesado e a aviação também permanecem dependentes da alta densidade energética dos combustíveis fósseis, enquanto a segurança alimentar global segue fortemente vinculada ao gás natural, essencial para a fabricação de fertilizantes.

Plataforma de perfuração offshore ao entardecer sobre o oceano, como a prevista na bacia da Foz do Amazonas.
Foto: Divulgação/Petrobras

Em países emergentes, a prioridade ainda é garantir crescimento econômico com energia acessível, o que mantém os combustíveis fósseis como base da matriz energética. Isso mostra que a transição não se limita à adoção de novas tecnologias, mas envolve mudanças estruturais na indústria, na infraestrutura e no próprio modelo de desenvolvimento.

No Brasil, esse movimento começou a ganhar forma com a Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993), sancionada em 2024. O marco legal busca impulsionar a mobilidade de baixo carbono e estimular o uso de alternativas mais sustentáveis, a exemplo do diesel verde e do biometano, como combustível. A iniciativa também prevê mecanismos de descarbonização no setor de gás natural e incentiva a captura e o armazenamento de carbono.

Além de estruturar a inserção dessas novas rotas na matriz energética brasileira, a lei tem potencial para direcionar cerca de R$ 260 bilhões em investimentos privados e evitar a emissão de até 705 milhões de toneladas de CO₂ até 2037, segundo o Ministério de Minas e Energia.

Nesse cenário, a transição energética não se apoia em uma única solução, mas em um mosaico de alternativas com diferentes níveis de maturidade, custos e aplicações. Confira a seguir as principais vias de combustíveis do futuro e a posição do mercado brasileiro.

Hidrogênio verde

Entre os combustíveis do futuro, o hidrogênio verde se destaca como alternativa para descarbonizar setores de difícil eletrificação, como siderurgia, aviação e transporte pesado. Produzido pela eletrólise da água com uso de energia renovável, o processo gera hidrogênio sem emissões de carbono, tendo a água como único subproduto.

Na prática, a reação separa moléculas de água (H₂O) em hidrogênio (H₂) e oxigênio (O₂). Esse hidrogênio pode ser usado na geração de energia ou em células de combustível, já aplicadas em veículos em países como Japão, Alemanha e Estados Unidos.

Apesar do potencial, a tecnologia ainda enfrenta entraves importantes, como alto custo de produção, perdas energéticas ao longo da cadeia e desafios de armazenamento e transporte. Por isso, no curto prazo, a tendência é que o hidrogênio verde se consolide principalmente como insumo industrial estratégico e não como substituto em larga escala dos combustíveis fósseis.

Em termos de mercado, a América Latina desponta como uma região estratégica, com potencial para suprir entre 25% e 33% da demanda global de hidrogênio de baixo carbono. O Brasil, em especial, pode responder por cerca de 10% desse total. Segundo o Ministério de Minas e Energia, já foram anunciados aproximadamente US$ 30 bilhões em projetos no país, que também possui capacidade técnica estimada para produzir até 1,8 gigatoneladas por ano do insumo.

Tanque de armazenamento de hidrogênio em projeto de P&D ilustra o avanço do hidrogênio verde entre os combustíveis do futuro no Brasil.
Tanque de armazenamento de hidrogênio verde. Foto: Divulgação EDP

Combustíveis sintéticos (e-fuels)

Os combustíveis sintéticos, também conhecidos como e-fuels, são produzidos a partir da combinação de hidrogênio verde com dióxido de carbono capturado da atmosfera ou derivado de processos industriais. 

O resultado é um combustível líquido que pode substituir gasolina, diesel ou querosene em motores convencionais, sem necessidade de mudanças significativas na infraestrutura existente. 

Por isso, são considerados uma alternativa estratégica para descarbonizar setores em que a eletrificação ainda enfrenta limitações econômicas ou técnicas, como aviação, transporte marítimo e parte da frota já em circulação.

Entre as vantagens, os e-fuels se destacam pela compatibilidade com motores atuais e pelo potencial de reduzir emissões, especialmente quando utilizam energia renovável em toda a cadeia produtiva. 

No entanto, o processo de produção ainda é caro, energeticamente ineficiente e depende de grande disponibilidade de eletricidade limpa. Além disso, ainda há dúvidas sobre a viabilidade em larga escala e a competição por recursos renováveis, o que pode limitar sua adoção no curto e médio prazo.

Frasco de e-fuel em primeiro plano com fábrica ao fundo representa a produção de combustíveis sintéticos e o avanço dos combustíveis do futuro.
Foto: Motor UOL

Combustíveis de aviação sustentáveis (SAF)

Os Combustíveis Sustentáveis de Aviação (SAF) surgem como uma das principais alternativas para reduzir as emissões no setor aéreo, a aviação civil é responsável por cerca de 2% das emissões globais de CO₂. 

Produzidos a partir de matérias-primas renováveis, como óleos vegetais e resíduos agrícolas, podem reduzir as emissões em até 80% em relação ao querosene fóssil. Por terem propriedades semelhantes ao combustível convencional, são considerados “drop-in”, podendo ser usados na infraestrutura e nos motores atuais sem grandes adaptações, o que os torna especialmente relevantes em um setor onde a eletrificação ainda é limitada por questões técnicas, como o peso das baterias.

No Brasil, o SAF ganhou impulso com a Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024), que criou o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV) e estabeleceu metas progressivas de redução de emissões no setor. O país reúne vantagens competitivas, como a ampla produção de biocombustíveis e rotas promissoras; como HEFA (a partir de óleos vegetais) e ATJ (derivado do etanol). 

Ainda assim, o avanço enfrenta desafios relevantes, sobretudo o alto custo, atualmente até duas vezes superior ao combustível convencional, e a dificuldade de escala. A expectativa é que os ganhos tecnológicos e a expansão da produção tornem o SAF mais viável nos próximos anos. 

Aeronave da Airbus sendo abastecida com biocombustível de aviação destaca o uso de SAF entre os combustíveis do futuro.
Foto: Airbus / Jane Widdowson / Beetroot

Diesel verde

O diesel verde, ou HVO (Hydrotreated Vegetable Oil), é um biocombustível 100% renovável produzido a partir de óleos vegetais e gorduras animais. Ele é um dos biocombustíveis mais utilizados no mundo. Quimicamente semelhante ao diesel fóssil, pode ser utilizado em motores convencionais sem adaptações e se destaca pela redução significativa das emissões de gases de efeito estufa. 

A relevância desse combustível é especialmente grande no Brasil, onde a principal fonte consumida é o óleo diesel. Segundo a Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), o diesel representa quase 50% da matriz veicular brasileira, sendo central no transporte de cargas em rodovias, agricultura, indústria e até mesmo no transporte público. 

O Brasil tem a vantagem de ser um dos maiores produtores de biocombustíveis do mundo. Apesar do potencial, o mercado brasileiro ainda está em fase inicial. Testes industriais já foram realizados, como na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (PR), e o combustível passou a integrar a agenda pública com a criação do Programa Nacional de Diesel Verde (PNDV), previsto na Lei do Combustível do Futuro. 

A proposta inclui a adoção gradual do HVO na matriz energética, com metas a serem definidas entre 2027 e 2037. O avanço, no entanto, depende de regulamentação, escala produtiva e disponibilidade de matéria-prima, o que mantém o diesel verde como uma promessa em consolidação no país.

Mangueira de combustível posicionada sobre grãos de soja representa a produção de biocombustíveis e a expansão dos combustíveis do futuro a partir de matérias-primas agrícolas.
Foto: Canal Rural.

Biometano e Biogás

O biogás e o biometano são alternativas de combustíveis do futuro renováveis, produzidos a partir da decomposição de resíduos orgânicos, como restos de alimentos, esterco, esgoto e resíduos agrícolas. Enquanto o biogás pode ser utilizado diretamente na geração de energia, o biometano — obtido após a purificação do biogás — possui alto teor de metano e pode substituir o gás natural em diversas aplicações, inclusive no transporte e na indústria.

No Brasil, o setor apresenta forte potencial de expansão. A produção de biometano gira em torno de 400 mil m³ por dia, com projeção de alcançar 30 milhões m³/dia até 2030, segundo a Associação Brasileira de Biogás (ABiogás). Além de reduzir emissões, o combustível contribui para o aproveitamento de resíduos e ganha espaço como alternativa ao diesel e ao óleo combustível, atraindo investimentos e fortalecendo o papel do país na transição energética.

Unidade de produção de biogás ilustra a geração de energia renovável a partir de resíduos e o avanço dos combustíveis do futuro no Brasil.
Unidade de produção de biogás. Foto: Divulgação/Aggreko

Etanol de Segunda Geração (E2G)

O etanol de segunda geração (E2G) representa um avanço em relação ao etanol tradicional ao utilizar resíduos agrícolas e biomassa, como o bagaço da cana-de-açúcar. Por não competir com a produção de alimentos e aproveitar subprodutos da cadeia agrícola, apresenta maior eficiência energética e menor impacto ambiental. No Brasil, empresas como a Raízen têm investido na expansão dessa tecnologia, ampliando o papel do país na inovação em combustíveis do futuro.

O etanol, por sua vez, já é um dos pilares da matriz energética brasileira desde a década de 1970. Com ampla infraestrutura consolidada e uma frota majoritariamente flex, o combustível segue ganhando espaço. O governo federal também tem ampliado sua participação na mistura com a gasolina, com perspectivas de aumento dos atuais 27% para até 35%, consolidando o etanol — em suas diferentes gerações — como uma das principais alternativas renováveis no país.

Planta industrial de etanol de segunda geração utiliza resíduos agrícolas para produzir energia renovável, destacando o avanço dos combustíveis do futuro.
Planta industrial de etanol de segunda geração. Foto: Bloomberg Línea

Amônia verde 

A amônia verde é uma alternativa de baixo carbono à amônia convencional, amplamente utilizada na produção de fertilizantes e insumos industriais. Diferentemente da versão tradicional, produzida a partir de gás natural e com altas emissões de CO₂, a amônia renovável é obtida a partir do hidrogênio verde combinado ao nitrogênio do ar, sem emissões no processo – o que a situa no campo dos combustíveis do futuro.

Além de seu uso consolidado no agronegócio, o composto ganha novas aplicações como vetor energético em caldeiras, turbinas ou motores, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa. No Brasil, o avanço dessa tecnologia começa a ganhar escala, com iniciativas como a produção de amônia renovável em Cubatão e projetos em desenvolvimento em regiões como Nordeste e Sul. 

O país reúne vantagens competitivas relevantes, como uma matriz elétrica mais de 85% renovável, o que favorece a produção de hidrogênio e seus derivados. O governo federal tem apoiado e investido na produção do combustível por meio do Programa Nacional de Hidrogênio e da Lei do Hidrogênio Limpo, além de dispor de investimentos do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES).  

Mão segurando frasco de amônia verde com grama ao fundo simboliza o desenvolvimento de fertilizantes sustentáveis e o avanço dos combustíveis do futuro.
Foto: Neoenergia

Hélio-3: O combustível do futuro pode vir da Lua

Um estudo da Universidade da Califórnia, publicado na revista Nature Geosciente, reforça evidências de que o hélio-3 pode ser mais abundante na Terra do que se estimava. Esse elemento desperta interesse por seu potencial uso na fusão nuclear, o mesmo processo que gera energia nas estrelas, e é considerado uma possível alternativa entre os combustíveis do futuro. No entanto, sua aplicação ainda é experimental e depende de avanços tecnológicos significativos.

Grande parte do interesse global, porém, está fora do planeta. O hélio-3 é mais abundante na Lua, o que tem impulsionado a corrida espacial. A China, por exemplo, identificou o recurso em amostras trazidas pela missão Chang’e-5, em 2020, reacendendo o debate sobre a exploração lunar como estratégia energética de longo prazo.

Planeta Terra visto da Lua ilustra o potencial do hélio-3 como recurso energético e sua relação com os combustíveis do futuro.
Foto: Divulgação/NASA.

O mercado brasileiro avança apoiado em vantagens estruturais, como uma matriz majoritariamente renovável e a liderança em biocombustíveis, mas ainda esbarra em gargalos de infraestrutura, custos e escala. A consolidação desse potencial dependerá da maturidade tecnológica e da efetividade das políticas públicas voltadas aos combustíveis do futuro, capazes de reduzir incertezas e viabilizar a expansão dessas rotas no médio e longo prazo.

Combustíveis e a jaboticaba dos preços

O Brasil tem dificuldades para lidar com o sistema de preços. É verdade não somos os únicos, mas nosso histórico de casos pitorescos chama atenção. Exemplo, na década de 1980 muitos brasileiros engajaram como “fiscais do Sarney”, para denunciar os comerciantes que estivessem tentando vender produtos a preços diferentes dos tabelados pelo governo. Resultado: Escassez, prateleiras vazias.

Agora, diante da guerra no Irã, nos preocupamos com a oferta e os preços dos combustíveis. O governo federal adianta algumas propostas: Prosseguir com o “abrasileiramento” dos preços dos combustíveis, retirar tributos sobre o consumo interno e tributar exportações. 

Em 2025 o Brasil produziu 219 milhões de metros cúbicos de petróleo, o dobro de 2008. Contudo, nossas refinarias mal absorveram a metade, e produziram apenas 123 milhões de metros cúbicos em combustíveis, quase o mesmo de ainda 2013. Paramos no tempo.

Óbvio que ninguém é imune aos choques das guerras. Mas os impactos são maiores quando uma cadeia produtiva já estava operando com restrições. E a cadeia brasileira de petróleo está desde a década de 1950 limitada por péssimos incentivos. Por vezes com algumas correções, mas nunca enfrentando o problema pela raiz.

Combustíveis

Temos uma empresa estatal dominando o mercado de refino, com 11 das 18 refinarias e 80% da capacidade de refino. Algumas refinarias foram vendidas nos últimos anos, mas atraíram quase zero investimentos porque seus produtos perdem a atratividade ao concorrer no mercado interno com os preços abrasileirados da Petrobras, em um tabelamento chancelado pela Agência Nacional de Petróleo. 

Em síntese, o preço dos combustíveis no mercado interno brasileiro é simultaneamente um instrumento de gerenciamento de curto prazo da inflação e da arrecadação tributária, e fiscal pelos dividendos da estatal. Arrecadação tributária brasileira tem a fina covardia de pesar mais no consumo interno, nos bens e serviços menos elásticos. 

Se o preço do petróleo cai no mercado global, a estatal demora a reduzir os preços dos combustíveis nas vendas às distribuidoras, aumenta seus dividendos, mantém a arrecadação tributária, e concede um período de atratividade às refinarias privadas. Se o preço do petróleo aumenta, a estatal demora a aumentar os preços dos combustíveis, para conter a inflação e evitar aumento nos juros, e inviabiliza a produção das refinarias privadas. 

No website da Petrobrás há tentativa de explicar o cálculo dos preços dos combustíveis. Em meia-verdade, aponta corretamente o papel dos tributos e incorretamente uma precificação em que impõe margem de lucro sobre o custo.

A plena verdade é que o refino brasileiro tivesse crescido na mesma proporção da produção de petróleo, estaria colaborando para diminuir os preços globais de combustíveis. E o mercado de refino estivesse desconcentrado, incentivos à contenção de preços ocorreriam não apenas pelo aumento da oferta, mas também pela maior diversidade nas estratégias de armazenamento e distribuição.

A solução do governo dará uma aparência de controle e resistência ao choque. Contudo, a tributação das exportações deve nos tirar a oportunidade de receber do estrangeiro uma renda extraordinária pelo momento de valorização da nossa commodity.

A retirada de impostos sobre consumo interno evitará uma dor ainda maior nos bolsos da população. Mas a jaboticaba do abrasileiramento de preços faz com que continuemos em nossos orçamentos familiares em constante sufoco pela ausência de abundância e prosperidade e ameaça ante a quaisquer choques.