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Infraestrutura no Amazonas: o gargalo que define o futuro

Coluna Follow-Up

O Amazonas já não pode mais tratar infraestrutura como um tema técnico, restrito a obras e cronogramas. O que está em jogo é a própria arquitetura do desenvolvimento regional.

As pontuações de infraestrutura que embasam o Plano Estratégico de Desenvolvimento apresentado pelo senador Omar Aziz, a partir da contribuição do professor Augusto César Barreto Rocha, entre outros especialistas reconhecidos nas diversas áreas, têm um mérito imediato. Elas organizam um diagnóstico que há décadas é conhecido, mas raramente enfrentado com visão de conjunto.

“A logística no Amazonas carece de planejamento, integração e infraestrutura compatível com sua dimensão territorial e potencial produtivo.”

Rodovias precárias, hidrovias subutilizadas, portos desarticulados, aeródromos limitados. Um sistema que não conversa consigo mesmo e, por isso, não sustenta nem a economia existente, tampouco permite o surgimento de uma nova.

“A ausência de conexões eficientes entre rodovias, hidrovias, portos e aeródromos compromete a mobilidade, o turismo, a bioeconomia e a competitividade regional.”

Não se trata de um problema isolado. Trata-se de um bloqueio sistêmico. A desconexão logística impede que o Amazonas transforme seus ativos em valor. Impede que a floresta em pé se converta em economia organizada. Impede que o interior deixe de ser margem.

Mas o ponto mais relevante do documento não está apenas no diagnóstico. Está na tentativa de reorganizar a lógica do planejamento.

Ao propor uma estrutura institucional específica para transportes e logística, com foco no interior, na região metropolitana e na logística industrial, o plano reconhece algo fundamental. O Amazonas exige engenharia própria, inteligência territorial e coordenação permanente entre modais.

“Superar esses gargalos exige uma ação coordenada e uma visão estratégica que transforme a logística em alicerce do desenvolvimento sustentável e da inclusão territorial.”

A aposta em uma estratégia multimodal é, portanto, uma condição estrutural. Sem integração entre rios, estradas, portos e transporte aéreo, não há bioeconomia competitiva, não há turismo estruturado, não há interiorização real do desenvolvimento.

“Mais do que construir obras, trata-se de estruturar um sistema de transporte inteligente, eficiente e regulado, capaz de potencializar as vocações econômicas do estado.”

Esse é o salto de qualidade que o plano sugere. Infraestrutura deixa de ser obra isolada e passa a ser sistema.

E quando o plano incorpora a mobilidade ribeirinha, a segurança da navegação e o acesso a serviços, ele reposiciona a logística no campo da cidadania.

“A infraestrutura é a base para a transformação da realidade e para a inclusão social e econômica de todos os amazonenses.”

Infraestrutura no Amazonas: o gargalo que define o futuro
Foto: Tadeu Jnr/Unsplash

Aqui está um dos pontos mais fortes. No Amazonas, logística não é apenas economia. É presença do Estado. É acesso à saúde, à educação, à justiça.

Mas há um ponto que precisa ser enfrentado com clareza.

Planejamento sem financiamento é retórica qualificada.

“O Amazonas apresenta uma infraestrutura deficiente, classificada entre as mais frágeis do país, o que se tornou um entrave estrutural ao desenvolvimento.”

A proposta de investimento de 2,5% do PIB estadual em infraestrutura aponta na direção correta, mas abre uma questão central. De onde virão os recursos? Como garantir continuidade? Como estruturar projetos com capacidade real de execução?

O orçamento estadual não sustenta sozinho esse esforço. As PPPs ainda demandam maturidade institucional. A articulação federal é indispensável, mas exige coordenação política e técnica.

E há um risco adicional que não pode ser ignorado.

“É preciso evitar o efeito de ocupação desordenada e degradação ambiental associado à abertura de vias.”

A história da Amazônia mostra que infraestrutura sem governança pode produzir efeitos contrários aos pretendidos. A abertura de caminhos sem ordenamento territorial gera pressão sobre a floresta e distorções no uso do solo.

Isso impõe um novo padrão de decisão.

“É necessário colocar pessoas, negócios e floresta no centro das decisões.”

Essa síntese deveria orientar cada investimento. Cada estrada, cada porto, cada rota precisa responder a um projeto de desenvolvimento, não apenas a uma demanda imediata.

“Mapear as vocações e as necessidades logísticas de cada município é condição para promover um desenvolvimento equilibrado.”

A interiorização, nesse sentido, deixa de ser um discurso recorrente e passa a ser uma estratégia baseada em inteligência territorial.

O Amazonas já possui ativos relevantes. Um polo industrial consolidado, uma base científica respeitável, um capital natural único. O que falta é a infraestrutura capaz de integrar esses elementos em um sistema funcional.

Sem isso, a diversificação econômica não avança. A bioeconomia não escala. O interior permanece desconectado.

“A proposta é construir rotas de oportunidade sem romper o equilíbrio ambiental e cultural do território.”

O plano apresentado abre uma possibilidade concreta. Mas transformar essa possibilidade em realidade exigirá mais do que formulação técnica.

Será necessário mobilizar atores, estruturar governança, garantir financiamento e, sobretudo, sustentar uma visão de longo prazo.

A infraestrutura, neste momento, não é apenas um gargalo.

É a fronteira entre um Amazonas que permanece limitado pela geografia e outro que aprende a se organizar a partir dela.


Follow-Up é publicada às quartas, quintas e sextas feiras no Jornal do Comércio do Amazonas, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, do portal https://brasilamazoniaagora.com.br

Safatle, Adorno e a nova era do autoritarismo: como o ódio voltou a organizar a vida social


O século XX acreditou ter enterrado o fascismo sob as ruínas de Berlim. A derrota militar do nazismo e a revelação dos campos de extermínio pareciam ter produzido uma vacina moral contra o autoritarismo. A humanidade jurou, diante das cinzas de Auschwitz, que aquilo jamais voltaria a acontecer.

Mas a história raramente desaparece quando suas causas permanecem intactas. O que hoje se observa em diversas partes do mundo não é apenas o crescimento de governos mais duros ou de discursos mais agressivos. É algo mais profundo e perturbador. O ódio voltou a funcionar como princípio organizador da vida social. Vladimir Safatle tem insistido que a dessensibilização coletiva diante da violência se tornou um afeto político dominante.

Décadas antes, Theodor Adorno já havia identificado a estrutura psicológica que torna isso possível: a personalidade autoritária, moldada pela submissão ao poder e pela agressividade contra os vulneráveis. Entre essas duas leituras, separadas por quase oitenta anos, emerge uma inquietante continuidade histórica. O fascismo talvez não tenha retornado como regime idêntico ao do passado. Mas as disposições sociais que o tornaram possível voltaram a circular com alarmante naturalidade.

O diagnóstico de Adorno: quando a submissão se transforma em violência

Logo após a Segunda Guerra Mundial, Adorno e seus colaboradores tentaram responder a uma pergunta que ainda hoje inquieta a consciência ocidental: como uma sociedade culta, industrializada e profundamente marcada pela tradição filosófica pôde aderir ao nazismo?

A investigação levou à formulação do conceito de personalidade autoritária. Essa estrutura psíquica combina submissão à autoridade, apego rígido às convenções sociais, medo da diferença e agressividade dirigida a grupos considerados inferiores. O sujeito autoritário não se percebe como agente da barbárie. Ele acredita estar defendendo a ordem.

Adorno percebeu algo decisivo: o fascismo não surge apenas de líderes carismáticos ou crises políticas. Ele depende de disposições psicológicas sedimentadas em sociedades acostumadas à hierarquia e à obediência.

Como o próprio filósofo advertiu em uma formulação que permanece atual:

Essa frase resume um diagnóstico radical. A barbárie não nasce apenas da irracionalidade explosiva. Ela pode emergir de sociedades disciplinadas, organizadas e aparentemente civilizadas.

Safatle e o fascismo difuso do século XXI

Vladimir Safatle propõe atualizar esse diagnóstico ao sugerir que o fascismo não deve ser compreendido apenas como episódio histórico europeu. Ele seria uma possibilidade latente das sociedades modernas, que emerge com força particular em momentos de crise estrutural.

O traço central dessa nova fase é a dessensibilização social. A violência deixa de provocar indignação e passa a ser percebida como parte da rotina. Tragédias circulam nas telas dos celulares com a mesma naturalidade que notícias banais.

Mortes coletivas tornam-se estatísticas. Sofrimentos transformam-se em fluxo informacional. A indignação perde densidade moral.

Essa transformação não ocorre apenas em regimes autoritários clássicos. Ela atravessa democracias consolidadas. A brutalidade policial naturalizada, a hostilidade crescente contra migrantes e minorias, ou a indiferença diante de guerras distantes revelam uma mutação profunda na sensibilidade política contemporânea.

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Cartaz no protesto carrega a mensagem “Queimem o fascismo, não combustíveis fósseis” – Foto: Mika Baumeister

A economia da frustração e o cálculo racional do ressentimento

Safatle insiste em um ponto provocador. O avanço do autoritarismo não pode ser explicado apenas por ignorância ou manipulação ideológica.

Em contextos de precarização econômica e insegurança social, muitos indivíduos percebem que as oportunidades diminuíram e que o espaço social parece cada vez mais restrito. Em vez de confrontar estruturas de poder distantes, passam a disputar com aqueles que estão ao lado.

O migrante, o vizinho mais pobre, a mulher que reivindica igualdade ou o trabalhador de outra origem tornam-se adversários imediatos.

O ressentimento deixa de ser apenas emoção difusa. Ele se transforma em cálculo social. Se não há prosperidade para todos, expulsar alguém parece garantir algum lugar dentro.

O laboratório histórico da violência

Safatle recupera uma hipótese clássica formulada por Hannah Arendt: as tecnologias políticas do fascismo foram testadas inicialmente nas colônias.

Antes de serem aplicados na Europa, mecanismos como campos de concentração, regimes de segregação e extermínios seletivos já haviam sido utilizados contra povos considerados inferiores.

O colonialismo produziu uma divisão radical entre vidas que merecem proteção e vidas descartáveis. Quando essa lógica retorna ao interior das próprias sociedades, o autoritarismo encontra terreno fértil.

O fascismo, nesse sentido, não surge do nada. Ele radicaliza práticas de exclusão que já estavam presentes no funcionamento normal do sistema social.

O caso brasileiro: autoritarismo como herança estrutural

A história brasileira oferece um exemplo eloquente desse processo. A formação social marcada pela escravidão, pela desigualdade extrema e pela cultura de mando produziu uma cidadania profundamente fragmentada.

Durante séculos, certos grupos foram reconhecidos como sujeitos plenos de direitos, enquanto outros permaneceram submetidos a regimes de violência cotidiana.

A brutalidade policial nas periferias, o extermínio sistemático de jovens negros ou a indiferença diante da pobreza extrema não surgiram recentemente. Eles fazem parte de uma longa tradição de dessensibilização social.

Quando crises políticas ou econômicas se intensificam, essa estrutura latente pode emergir com força renovada.

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Quando o ódio se torna política

A aproximação entre Safatle e Adorno revela um ponto central. O autoritarismo não depende apenas de golpes de Estado ou da ascensão de líderes messiânicos. Ele se consolida quando a sensibilidade moral de uma sociedade se transforma.

Quando a violência passa a ser considerada solução legítima para conflitos.

Quando a desigualdade se torna moralmente justificável.

Quando a empatia se restringe apenas aos semelhantes.

Nesse momento, o ódio deixa de ser desvio individual. Ele se torna linguagem política.

Reedição e polêmica

Em janeiro de 2016, 70 anos após a morte de Hitler, os direitos autorais de Mein Kampf (“Minha Luta”) expiraram, permitindo sua reedição na Alemanha. Uma versão comentada por historiadores foi lançada para contextualizar o conteúdo e desmistificar a ideologia nazista, tornando-se um best-seller. A medida gerou debates sobre o ressurgimento do nazismo e a disseminação de ódio. 

Reflexão e alerta 

A grande advertência que atravessa o pensamento de Adorno e Safatle é simples e perturbadora. O autoritarismo não cresce apenas porque líderes ambiciosos o promovem. Ele prospera quando sociedades inteiras se acostumam à indiferença. Quando a desigualdade deixa de escandalizar, quando a violência deixa de indignar e quando o sofrimento alheio passa a ser percebido como detalhe inevitável da ordem social.

O perigo do nosso tempo talvez não esteja apenas no retorno de regimes autoritários explícitos. Ele reside, sobretudo, na lenta normalização do ódio como princípio de organização da vida coletiva. Se isso se consolidar, o fascismo não precisará voltar como espetáculo histórico. Ele terá se dissolvido no cotidiano. E quando a barbárie se torna rotina, já não é mais possível reconhecê-la a tempo de detê-la.

A miopia nos acomete de cima a baixo

No debate público brasileiro poucos estão a salvo da falta de visão sistêmica. Nos diversos ambientes percebemos predominância desta miopia. Ela acomete muitos em todos os andares da pirâmide social. Enquanto não a reconhecermos e agirmos em suas causas, vamos continuar sofrendo as consequências. Detalho este olhar em duas cenas.

Cena 1: Pesquisadores da Ufam publicam um relatório demonstrando forte redução no índice de regionalização do Polo Industrial de Manaus. Procurados pelos líderes de um dos portais de notícias de maior prestígio do Amazonas, detalham os números e estimam hipóteses sobre suas causas. A matéria é publicada como resultado do melhor trabalho de “jornalismo raiz”. Coleta de informações ao segundo nível. Citações literais e contextualizadas com outras informações. Do diagnóstico inicial às propostas por soluções.

O portal publicou a manchete da matéria em suas redes sociais e o que ocorreu: Populares viram na manchete uma ocorrência e interromperam seus trajetos para, na zona de comentários, proferirem ignorâncias ao que era publicado. Todos se alinhando a um dos polos das preferências políticas, buscavam culpar o polo adversário pelo que entenderam ser uma notícia ruim. 

MIOPIA NOS ACOMETE

Não se dedicaram a clicar no link da matéria e lê-la com cuidado, onde se detalhava: A redução no índice de regionalização perpassa todos os governos, desde o ano de 2004, é um fenômeno ambíguo entre os setores e dentro dos setores. A única conclusão que os pesquisadores apresentaram resolutos é a necessidade de todos os agentes da sociedade amazonense se sentirem corresponsáveis pelos esforços de prospecção e apropriação de competências. Um convite ao trabalho em equipe solidário e sincero.

Cena 2: O governo federal, por meio da Câmara de Comércio Exterior, no último dia 04 de fevereiro publicou a resolução Gecex Nº 852, aumentando a alíquota do Imposto de Importação para mais de 1.200 produtos. Muitos deles onerando importações de produtos concorrentes ao PIM, como smartphones, e insumos, como circuitos e chipsets

O governo federal aparenta não ter conseguido enxergar a reação adversa diante dos aumentos de impostos de importação lá pelas bandas da América do Norte. Nos últimos meses esse tema suscitou debates a tal ponto que a população em geral entendeu razoavelmente a ideia da tributação como um fenômeno social excludente.

Simbólico que a lista da resolução 852 incluía equipamentos de tomografia. Imagine nosso sistema de saúde sendo privado disso. Devido a forte reação o governo voltou atrás, com a resolução Gecex 866 excluiu do aumento alguns dos principais produtos. Entre eles os smartphones e tomógrafos.

O vetor da iniciativa provavelmente foram representantes das entidades setoriais. Guiados pela velha visão de procurar substituição de importações tão somente pela via tributária ou regulatória. Algo que nunca teve sucesso e claramente não encontra mais espaço. Até nos EUA, concomitante ao atabalhoamento tarifário, são evidentes esforços por apropriação de competências. Assim também ocorrera na Ásia, só que, obviamente, de modo não atabalhoado.

As duas cenas mostram quão estreito é o caminho disponível a quem, no Brasil, se percebe como corresponsável por propostas de soluções a longo prazo pela competitividade da nossa economia nacional e regional. E enquanto de alto a baixo prevalecem abordagens míopes, aos que veem a longo prazo precisam perseverar, feito os profetas de Nelson Rodrigues, segundo quem são os únicos que enxergam o óbvio. 

Crescimento em tempo de guerra – Os alertas da economia e as tarefas do Polo Industrial de Manaus


Um bom sinal que pede prudência. Os números divulgados pelo IBGE trouxeram um alento oportuno para a economia do Amazonas. A produção industrial do estado cresceu 1,9% em janeiro na comparação com dezembro, resultado acima da média nacional e suficiente para lembrar que o Polo Industrial de Manaus continua capaz de reagir mesmo em ambientes adversos.

Convém, porém, não confundir alívio com acomodação. Na comparação com janeiro do ano anterior ainda há retração relevante, e o acumulado recente da produção aponta instabilidade. Em outras palavras, o curto prazo oferece um respiro, mas o horizonte estrutural continua exigindo atenção e estratégia.

A indústria da Amazônia está operando em um tempo de transição global marcado por disputas comerciais, reorganização das cadeias produtivas e aceleração tecnológica. Crescer neste cenário não é trivial. Mas crescer ocasionalmente também não é suficiente. O desafio é transformar reação conjuntural em projeto de futuro.

Guerra conjuntural e rearranjo das cadeias globais

O mundo vive um período que muitos economistas já descrevem como uma nova era de competição geoeconômica. Tarifas, subsídios industriais, disputas por tecnologia e segurança de suprimentos passaram a orientar decisões de governos e empresas.

As cadeias produtivas estão sendo redesenhadas. Países buscam reduzir dependências externas, proteger setores estratégicos e aproximar fornecedores de seus mercados.

Esse movimento cria riscos para regiões industriais que dependem fortemente de insumos importados ou de decisões corporativas tomadas a milhares de quilômetros de distância. Mas também abre oportunidades para territórios capazes de demonstrar estabilidade institucional, capacidade produtiva e compromisso ambiental.

O Polo Industrial de Manaus precisa ler esse cenário com lucidez. A disputa global não é apenas comercial. É tecnológica, logística e reputacional.

Blindagem competitiva

O primeiro movimento necessário é reduzir vulnerabilidades.

A indústria instalada em Manaus depende de fluxos logísticos complexos e de cadeias internacionais de componentes. Oscilações cambiais, tensões comerciais ou gargalos de transporte podem rapidamente pressionar custos e margens.

Fortalecer inteligência de suprimentos, diversificar fornecedores e construir estratégias de resiliência logística deixou de ser uma recomendação teórica. Tornou-se requisito de sobrevivência.

Em um ambiente global mais turbulento, previsibilidade passa a ser um ativo estratégico.

Adensar para fortalecer

Outro ponto decisivo é o adensamento produtivo.

Quanto maior o conteúdo agregado local, menor a exposição a choques externos e maior a capacidade de inovação. Regiões industriais que apenas montam produtos permanecem vulneráveis às decisões de suas matrizes e às variações do comércio internacional.

O Amazonas tem espaço para ampliar fornecedores locais, desenvolver engenharia aplicada, integrar universidades e centros de pesquisa e estimular novos arranjos produtivos.

Adensar a indústria significa também aprofundar a presença da Amazônia na economia do conhecimento.

Diversificar mercados

A diversificação de destinos comerciais é outra dimensão estratégica.

Dependência excessiva de poucos mercados ou de poucos produtos fragiliza qualquer parque industrial. A abertura de novas frentes comerciais, como as possibilidades associadas a acordos internacionais e à integração regional, precisa ser observada com atenção.

Para o Polo Industrial de Manaus, ampliar a inserção externa significa também ampliar sua relevância dentro do projeto industrial brasileiro.

A Amazônia pode participar de cadeias globais mais sofisticadas, desde que saiba combinar competitividade industrial com credibilidade ambiental.

Uma nova narrativa para o Polo Industrial

Há ainda um campo menos visível, mas igualmente decisivo: o da narrativa.

O Polo Industrial de Manaus ainda é frequentemente reduzido, em parte do debate nacional, a um sistema de incentivos fiscais isolado na floresta. Essa leitura simplificada ignora décadas de contribuição econômica, tecnológica e ambiental do modelo.

Num mundo que busca cadeias produtivas sustentáveis, a indústria instalada em Manaus representa algo singular. Produção industrial associada à preservação de uma das maiores reservas de biodiversidade do planeta.

Reforçar essa narrativa não é exercício de marketing. É afirmação estratégica de um modelo de desenvolvimento que concilia economia, tecnologia e floresta em pé.

Tecnologia e identidade amazônica

O futuro industrial do Amazonas dependerá também da capacidade de dialogar com as transformações tecnológicas em curso.

Digitalização, manufatura avançada, mobilidade elétrica, novos materiais e bioeconomia estão redefinindo a base produtiva mundial.

A Amazônia reúne ativos únicos para participar dessa transição. Conhecimento científico acumulado, biodiversidade incomparável e uma experiência industrial consolidada que já demonstrou sua capacidade de adaptação.

A combinação entre indústria, ciência e bioeconomia pode abrir caminhos inéditos para uma nova etapa do desenvolvimento regional.

A convocação permanente

Os números da indústria em janeiro são um sinal positivo. Mas sinais isolados não constroem destino.

O momento exige visão estratégica, cooperação institucional e capacidade de articulação entre empresas, universidades, trabalhadores e governos. O Polo Industrial de Manaus nasceu justamente dessa convergência de esforços e dessa compreensão coletiva de que a Amazônia precisava de uma base econômica sólida para proteger seu território e gerar oportunidades para sua população.

Essa continua sendo a tarefa do nosso tempo.

Por isso vale recordar uma lição antiga que permanece sempre atual. O desenvolvimento da Amazônia nunca foi obra de iniciativas isoladas. Ele sempre dependeu da capacidade de reunir diferenças em torno de um propósito comum.

A unidade na diversidade continua sendo a nossa maior força.

Quem não junta separa. E separados não iremos a lugar algum.

Amazônia: ameaças internas

O Professor Vladimir Safatle (USP) lançou no dia 10/03 o livro “Ameaça Interna”, que elabora sobre a “psicanálise dos novos fascismos globais”. O livro traz importantes reflexões filosóficas. A partir de seu conteúdo, sobre a continuidade de processos excepcionais, que levam a guerras e a normalização da barbárie com outros povos e culturas, trago algumas de suas ideias para uma reflexão em um paralelo potencial com a Amazônia e para as imagens que fazemos sobre nós e nosso território nacional.

Como ele destaca, para alguns brasileiros o “inferno verde” precisa ser conquistado, transformado, explorado e modificado. Esta visão destruidora, mais do que integradora e saqueadora, longe de cooperativa, representam muito do que segue sendo falado nos debates nacionais sobre a Amazônia. Ele esclarece que parte da tradição brasileira é que quem estiver mais próximo da natureza amazônica devem ser transformados ou destruídos.

A indiferença e a falta de solidariedade social com quem vive na Amazônia faz o progresso parecer uma ideia de apagamento das pessoas. A dinâmica das capitais e centros de poder são muito mais evidentes nas periferias dos sistemas sociais. Nesta forma, a potencial adesão ao progresso significaria uma mudança de um modo de vida e não uma integração das vidas.

 A exploração dos minerais ou do petróleo amazônico passaria, portanto, pelo ato de ignorar as regiões. A segregação das sociedades locais para a implantação de projetos de desenvolvimento leva para a extração de riquezas e subordinação ao modo de vida da metrópole, como se este fosse o ideal Amazônico: uma nova Bacia de Campos, para o petróleo ou um novo interior de Minas Gerais para os minérios. Não há uma expectativa de um modo diferente de vida ou de produção. Há até mesmo um ideal agroextrativista ou agroindustrial intensivo, onde plantações de café, cana de açúcar ou soja adentrem o território Amazônico.

AMEACAS INTERNAS
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A crise do clima, a crise ambiental ou a crise do desmatamento não surgem como crises a serem combatidas, mas crises permanentes com as quais deveríamos conviver e aceitar. Os debates públicos não causam indignação ou vontade de proteção da floresta. A destruição dos espaços de indígenas não é percebida como um problema – quando muito se aponta o sofrimento dos povos com a falta de recursos pela perspectiva urbana e não pela perspectiva própria daqueles povos.

Poderemos ter em breve as ameaças estrangeiras na Amazônia. Todavia, parafraseando o professor Safatle, as ameaças e práticas constante que temos que nos defender são, inicialmente, as ações internas de destruição de costumes e a falta de aceitação social dos nossos modos de vida, e no paralelo potencial que destaco, nossos modos de vida amazônicos. Está aí um dos maiores desafios: integrar a Amazônia ao Brasil pelo que ela é e não pelo que ela pode ser ao mudar seus modos de vida. 

Ideias disruptivas e culturas institucionais

Por Estevão Monteiro de Paula e Alfredo Lopes –
Co-fundadores do BrasilAmazoniaAgora

Estados não mudam apenas porque novas ideias surgem. Mudam quando suas instituições aprendem a operar sob novos paradigmas.

A história da administração pública mostra que reformas governamentais raramente fracassam por falta de diagnósticos ou propostas. Frequentemente fracassam porque encontram organizações moldadas por décadas de práticas, rotinas e valores que foram concebidos para responder a realidades diferentes daquelas que se pretende transformar.

Essa tensão entre inovação e continuidade é inerente à vida institucional. Planos de governo podem apresentar estratégias sofisticadas e ambições transformadoras. No entanto, sua implementação depende de organizações que carregam histórias longas, identidades profissionais consolidadas e culturas institucionais profundamente sedimentadas.

Esse fenômeno se torna especialmente visível em contextos de mudança estrutural, como o que se discute atualmente no Amazonas. Ao longo das últimas décadas, o desenvolvimento econômico regional se organizou em torno da centralidade do Polo Industrial de Manaus. Esse modelo produziu resultados importantes, mas também moldou profundamente o funcionamento das instituições públicas.

Secretarias e órgãos administrativos foram estruturados para responder às demandas desse arranjo econômico. Desenvolveram rotinas, competências e relações institucionais compatíveis com ele. Quando surgem propostas de diversificação produtiva, interiorização econômica ou estímulo a novos setores, essas iniciativas inevitavelmente se deparam com instituições organizadas para lidar com outra lógica de desenvolvimento.

Nesse contexto, a introdução de ideias disruptivas não altera apenas programas administrativos. Ela desafia culturas organizacionais, identidades profissionais e formas consolidadas de atuação estatal.

inovação governamental

Este ensaio examina essa tensão entre inovação e cultura institucional. Analisa como culturas organizacionais se formam, quais efeitos produzem na gestão pública e por que propostas transformadoras frequentemente encontram resistência dentro das próprias instituições responsáveis por implementá-las. Mais do que um problema técnico, trata-se de um desafio institucional.

Instituições públicas não são apenas estruturas formais definidas por leis ou regulamentos. Elas também operam como sistemas de valores, crenças e práticas compartilhadas que orientam o comportamento de seus membros ao longo do tempo.

Como observa Edgar Schein em seus estudos sobre cultura organizacional, instituições desenvolvem padrões de interpretação e comportamento que acabam sendo internalizados por seus membros. Esses padrões influenciam a forma como problemas são percebidos e como soluções são formuladas.

A cultura institucional define quais temas são considerados prioritários, quais práticas são reconhecidas como legítimas e quais estratégias parecem plausíveis dentro da organização. Ela se manifesta nas rotinas administrativas, nas narrativas institucionais e nas experiências transmitidas entre gerações de servidores. Com o tempo, essa cultura produz uma identidade coletiva. Certas práticas deixam de ser percebidas como escolhas históricas e passam a ser tratadas como o modo natural de funcionamento da instituição.

Esse processo gera estabilidade e previsibilidade. Organizações com culturas consolidadas conseguem coordenar suas atividades com maior fluidez, pois compartilham códigos e expectativas comuns.

Entretanto, essa mesma estabilidade pode se transformar em obstáculo quando mudanças estruturais se tornam necessárias.

Instituições tendem a reproduzir práticas que foram eficazes no passado, mesmo quando o contexto que lhes deu origem já se transformou. Esse fenômeno é descrito por Douglass North como dependência de trajetória institucional: escolhas feitas em determinado momento histórico passam a limitar as possibilidades de ação no futuro.

Culturas institucionais produzem efeitos ambivalentes.

Por um lado, fortalecem o senso de pertencimento e preservam a memória organizacional. Servidores compartilham referências comuns que facilitam a coordenação interna e reduzem conflitos operacionais.

Por outro lado, essas mesmas culturas podem gerar resistência à mudança, especialmente quando novas propostas desafiam valores ou práticas estabelecidas.

Organizações passam a interpretar propostas inovadoras como ameaças à identidade construída ao longo do tempo. Muitas vezes essa resistência não é deliberada. Trata-se de uma reação defensiva diante do desconhecido.

Além disso, instituições públicas frequentemente reproduzem modelos organizacionais considerados legítimos no ambiente institucional em que operam. Como demonstraram DiMaggio e Powell, organizações tendem a imitar práticas consideradas bem-sucedidas em seu campo institucional, mesmo quando essas práticas não são necessariamente as mais adequadas.

Com o tempo, essas dinâmicas produzem inércia burocrática. Procedimentos e rotinas passam a ser mantidos não porque sejam eficientes, mas simplesmente porque sempre foram realizados dessa maneira.

No Amazonas, a necessidade de transformação institucional torna-se particularmente evidente quando se observa o esforço de diversificação econômica baseado na bioeconomia.

A valorização sustentável da floresta em pé abre oportunidades para cadeias produtivas associadas a produtos da sociobiodiversidade, como açaí, castanha, óleos vegetais, fitoterápicos e ingredientes naturais utilizados nas indústrias alimentícia, cosmética e farmacêutica.

Entretanto, o desenvolvimento dessas cadeias exige uma atuação estatal diferente daquela historicamente consolidada. Requer integração entre ciência e produção, articulação com comunidades locais, logística territorial complexa e apoio a pequenos empreendedores distribuídos por regiões distantes dos grandes centros urbanos.

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Muitas instituições públicas, porém, foram estruturadas para lidar com demandas assistenciais ou com a interface industrial concentrada em Manaus. Seus sistemas administrativos, critérios de avaliação e rotinas operacionais refletem essa história institucional.

Promover a bioeconomia amazônica exige, portanto, não apenas novos programas de governo. Exige que as instituições públicas desenvolvam novas capacidades organizacionais.

Transformações institucionais bem-sucedidas raramente resultam de decisões administrativas isoladas. Mudanças duradouras exigem processos de adaptação que reconheçam a história e a identidade das organizações envolvidas.

O primeiro passo consiste em compreender a cultura institucional existente. Diagnósticos organizacionais permitem identificar valores, práticas e narrativas que estruturam o funcionamento da instituição.

Em seguida, torna-se necessário construir sentido coletivo para a mudança. Reformas tendem a encontrar menor resistência quando são apresentadas como continuidade de valores institucionais já presentes na organização.

A participação dos próprios servidores na construção das mudanças também desempenha papel central. Processos de reforma que incorporam a experiência acumulada dentro das instituições geram maior legitimidade e adesão.

Por fim, reformas institucionais exigem alterações concretas na arquitetura administrativa. Sistemas de avaliação, fluxos decisórios e mecanismos de incentivo precisam ser ajustados para que novos comportamentos sejam efetivamente estimulados.

Culturas institucionais não são obstáculos a serem simplesmente removidos. Elas são resultado de processos históricos que deram coerência e estabilidade ao funcionamento das organizações públicas.

Entretanto, quando o contexto social e econômico se transforma, essas mesmas culturas podem se tornar limitadoras.

No caso do Amazonas, a construção de novos caminhos de desenvolvimento — baseados na bioeconomia, na diversificação produtiva e na valorização da floresta em pé — coloca o Estado diante de um desafio institucional profundo.

A inovação governamental não depende apenas de boas ideias. Depende da capacidade de transformar as instituições responsáveis por realizá-las.

Porque, em última instância, políticas públicas mudam quando as organizações que as executam aprendem a pensar e agir de maneira diferente.

SCHEIN, Edgar. Organizational Culture and Leadership. Jossey-Bass, 2010.

NORTH, Douglass. Institutions, Institutional Change and Economic Performance. Cambridge University Press, 1990.

DIMAGGIO, Paul; POWELL, Walter. The Iron Cage Revisited: Institutional Isomorphism and Collective Rationality in Organizational Fields. American Sociological Review, 1983.

OSTROM, Elinor. Understanding Institutional Diversity. Princeton University Press, 2005.

Estevão é cientista formado pela UFAM, USP São Carlos e Ph.D. – University of Tennessee.

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Os primeiros mil dias de vida: ciência, nutrição e desenvolvimento humano

“Integrar políticas de primeira infância com estratégias de segurança alimentar, valorização da biodiversidade e fortalecimento das comunidades tradicionais pode transformar os primeiros mil dias em um eixo estruturante do desenvolvimento humano sustentável na Amazônia”

Os primeiros mil dias de vida — período que vai da concepção até aproximadamente os dois anos de idade — são hoje reconhecidos pela ciência como a fase mais decisiva do desenvolvimento humano. Nesse curto intervalo ocorre uma convergência extraordinária de processos biológicos, neurológicos e sociais que moldam as bases da saúde, da cognição e do comportamento ao longo de toda a vida.

Diversas instituições científicas internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o UNICEF, o Banco Mundial e o Harvard Center on the Developing Child, apontam esse período como a janela mais sensível para a formação do chamado capital humano.

Durante esses mil dias, o organismo da criança passa por transformações estruturais profundas. Sistemas fisiológicos fundamentais — neurológico, imunológico, metabólico e muscular — estão em pleno processo de formação. As condições nutricionais da gestante, a qualidade do ambiente intrauterino, o acesso ao pré-natal e os cuidados nos primeiros meses de vida influenciam diretamente a saúde futura do indivíduo.

Estudos da epidemiologia do desenvolvimento mostram que condições adversas nesse período podem aumentar o risco de doenças crônicas ao longo da vida, como diabetes, obesidade, hipertensão e doenças cardiovasculares.


O campo da neurociência tornou ainda mais evidente a importância desse período. O cérebro humano apresenta, nos primeiros anos de vida, sua fase máxima de plasticidade.

Pesquisas indicam que podem ser formadas até um milhão de conexões neurais por segundo durante os primeiros anos de vida. Esse processo de formação de sinapses estabelece as redes neurais responsáveis pela linguagem, memória, aprendizagem, regulação emocional e comportamento social.

Segundo o Harvard Center on the Developing Child, a arquitetura cerebral é construída por meio de interações contínuas entre predisposições genéticas e experiências vividas. A qualidade das relações entre o bebê e seus cuidadores exerce influência direta nesse processo.

Interações afetivas, contato visual, conversas, brincadeiras e estímulos sensoriais ajudam a fortalecer circuitos neurais associados ao bem-estar e à aprendizagem. Por outro lado, ambientes marcados por negligência, violência ou estresse intenso podem ativar de forma persistente os sistemas biológicos ligados à resposta ao medo e à ansiedade.

Pesquisas publicadas na série sobre desenvolvimento infantil da revista The Lancet demonstram que experiências positivas na primeira infância são capazes de melhorar significativamente o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças, com impactos que se estendem por toda a vida adulta.

desenvolvimento humano
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A nutrição durante os primeiros mil dias exerce papel central na formação do organismo. Esse período é particularmente sensível para o desenvolvimento do cérebro, para o crescimento físico e para a maturação do sistema imunológico.

Pesquisas em epigenética demonstram que fatores ambientais e nutricionais podem influenciar a forma como determinados genes são ativados ou silenciados ao longo da vida. Esse fenômeno, conhecido como programação biológica precoce, indica que escolhas e condições vividas nesse período podem influenciar trajetórias de saúde por décadas.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que o aleitamento materno seja iniciado na primeira hora após o nascimento, mantido de forma exclusiva durante os primeiros seis meses de vida e continuado, junto à alimentação complementar adequada, até pelo menos dois anos de idade.

O leite materno oferece todos os nutrientes necessários ao bebê nos primeiros meses de vida e fornece anticorpos essenciais para a proteção contra infecções respiratórias e gastrointestinais. Além disso, a amamentação está associada a menor risco de obesidade, diabetes e doenças crônicas ao longo da vida.


No Brasil, pesquisas conduzidas por instituições como a Fiocruz, o Ministério da Saúde e universidades federais têm monitorado os indicadores de nutrição infantil e aleitamento materno.

`O Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019) revela que cerca de 45,8% dos bebês brasileiros menores de seis meses recebem aleitamento materno exclusivo. Embora esse índice represente avanço importante em comparação com décadas anteriores, ainda permanece abaixo das metas internacionais estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde.

A pesquisa também mostra que 62,4% dos bebês brasileiros são amamentados na primeira hora de vida, prática considerada fundamental para fortalecer o vínculo entre mãe e filho e estimular a produção de leite materno.

Dados históricos mostram avanços expressivos nas últimas décadas. Em 1986, apenas 4,7% das crianças menores de seis meses eram alimentadas exclusivamente com leite materno no Brasil. Em 2006, esse índice já havia alcançado cerca de 37%, resultado de políticas públicas voltadas à promoção da amamentação e ao fortalecimento do Sistema Único de Saúde.

Apesar desse progresso, estudos apontam que o crescimento desses indicadores se desacelerou nos últimos anos, o que reforça a necessidade de novas estratégias de apoio às famílias e de fortalecimento das políticas de primeira infância.

Outro dado importante refere-se ao uso frequente de mamadeiras, chupetas e bicos artificiais. Pesquisas indicam que cerca de metade das crianças brasileiras menores de dois anos utiliza esses dispositivos, o que pode contribuir para o desmame precoce.

Além disso, especialistas alertam para desafios relacionados à introdução alimentar inadequada, como consumo precoce de alimentos ultraprocessados e baixa diversidade nutricional.

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Quando analisados à luz das desigualdades territoriais brasileiras, os primeiros mil dias revelam um desafio ainda maior para regiões como a Amazônia.

A vastidão geográfica, a dificuldade de acesso a serviços de saúde e as vulnerabilidades socioeconômicas presentes em algumas áreas tornam o acompanhamento adequado de gestantes e crianças pequenas mais complexo.

Investir na qualidade da nutrição, do cuidado e da estimulação nos primeiros anos de vida pode representar uma estratégia decisiva para melhorar indicadores de saúde, reduzir desigualdades sociais e fortalecer o capital humano da região.

Ao mesmo tempo, a Amazônia possui ativos importantes para essa agenda. A biodiversidade regional oferece enorme potencial para sistemas alimentares saudáveis baseados em produtos locais nutritivos e culturalmente valorizados.

Integrar políticas de primeira infância com estratégias de segurança alimentar, valorização da biodiversidade e fortalecimento das comunidades tradicionais pode transformar os primeiros mil dias em um eixo estruturante do desenvolvimento humano sustentável na Amazônia.

Cuidar adequadamente desse período não significa apenas proteger a infância. Significa investir na formação de gerações mais saudáveis, capazes de construir um futuro social, econômico e ambientalmente equilibrado para o Brasil e para a maior floresta tropical do planeta. 

Referências 

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Breastfeeding. Geneva: WHO.

UNICEF. Global Breastfeeding Scorecard. New York: UNICEF.

BOCCOLINI, C. S. et al. Tendência de indicadores do aleitamento materno no Brasil em três décadas. Revista de Saúde Pública.

BRASIL. Ministério da Saúde. Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil – ENANI 2019.

CENTER ON THE DEVELOPING CHILD. Harvard University. Early Childhood Development Research.

BLACK, M. et al. Early childhood development coming of age: science through the life course. The Lancet

Agricultura, inteligência artificial e empreendedorismo: as lições do Brasil para a África

“Empresário Denis Minev leva ao Banco Mundial a experiência brasileira de transformação agrícola como referência para geração de empregos no continente africano.”

A África voltou ao centro das discussões sobre desenvolvimento econômico global. Com uma população jovem em rápido crescimento e a necessidade de criar milhões de empregos nas próximas décadas, o continente tornou-se prioridade para governos, instituições multilaterais e investidores internacionais.

Esse foi o pano de fundo do encontro internacional “Laying the Groundwork for Jobs in Africa”, promovido pelo Banco Mundial em Roma, reunindo líderes políticos, economistas, empresários e especialistas em desenvolvimento para discutir caminhos concretos para geração de trabalho e renda no continente.

Do Brasil para a África

Entre os participantes do debate esteve o empresário brasileiro Denis Minev, membro do High Level Advisory Council on Jobs do Banco Mundial, que levou ao fórum internacional uma reflexão baseada na experiência do Brasil na transformação de sua agricultura.

Segundo ele, a principal mudança necessária não está apenas na tecnologia ou nos investimentos, mas na forma de pensar a atividade agrícola.

Para o empresário, a transição do agricultor tradicional para o empreendedor rural é uma das condições essenciais para aumentar produtividade, renda e capacidade de inovação no campo.

Essa mudança de mentalidade foi justamente um dos fatores que ajudaram o Brasil a se tornar uma das maiores potências agrícolas do mundo nas últimas décadas.


O Brasil passou por uma transformação estrutural profunda no setor agrícola. Até a década de 1970, o país ainda era importador de alimentos. Em poucas décadas, tornou-se um dos maiores produtores e exportadores agrícolas do planeta.

Essa mudança teve como base três pilares principais: ciência aplicada, empreendedorismo e extensão tecnológica.

A criação da Embrapa, em 1973, estabeleceu a infraestrutura científica que permitiu adaptar culturas agrícolas a condições tropicais. Pesquisadores desenvolveram variedades de soja, milho e outras culturas capazes de prosperar em solos antes considerados inadequados para a agricultura.

Um exemplo emblemático foi a transformação do Cerrado brasileiro em uma das regiões agrícolas mais produtivas do mundo.

Além da pesquisa científica, a disseminação dessas tecnologias ocorreu por meio de um sistema amplo de assistência técnica e extensão rural. Fazendas experimentais e projetos demonstrativos ajudaram agricultores a observar na prática novas técnicas de produção antes de adotá-las em suas propriedades.

Segundo Minev, esse modelo oferece um caminho possível para países africanos que enfrentam desafios semelhantes de clima, solo e acesso à tecnologia.

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Laying the Groundwork for Jobs in Africa

Outro elemento decisivo da experiência brasileira é a formação empreendedora. Instituições como o SEBRAE desenvolveram programas voltados para capacitar produtores rurais em gestão, planejamento e inovação. Um dos exemplos mais conhecidos é o programa Empretec, metodologia internacional de desenvolvimento de competências empresariais aplicada a milhares de empreendedores.

Ao combinar ciência agrícola com formação empresarial, o Brasil criou um ambiente em que produtores rurais passaram a atuar como gestores de negócios, não apenas como agricultores.

Esse modelo ampliou a capacidade de investimento, a adoção de tecnologias e a integração aos mercados nacionais e internacionais.


Uma nova transformação começa agora a moldar o futuro da agricultura global: a digitalização. Durante sua participação no evento do Banco Mundial, Denis Minev destacou que a inteligência artificial tende a desempenhar um papel crescente no aumento da produtividade agrícola.

Ferramentas digitais permitem automatizar processos, gerar análises de dados e apoiar decisões estratégicas mesmo em empresas de pequeno porte.

Segundo ele, a porta de entrada para essa transformação está na capacitação das equipes. Empresas com algum nível de alfabetização digital já podem utilizar ferramentas amplamente disponíveis para melhorar gestão, planejamento e inovação.


A África reúne condições naturais importantes para expansão agrícola. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios estruturais relacionados à produtividade, infraestrutura e qualificação da força de trabalho.

Iniciativas internacionais como o Plano Mattei, liderado pela Itália em parceria com o Banco Mundial, buscam justamente construir bases para um novo ciclo de desenvolvimento no continente.

O plano envolve atualmente 14 países africanos e concentra esforços em setores estratégicos como energia, agricultura e infraestrutura.

Para Minev, o sucesso dessas iniciativas dependerá da capacidade de integrar ciência, empreendedorismo e tecnologia.

A experiência brasileira demonstra que, quando esses elementos se combinam, a agricultura deixa de ser apenas uma atividade de subsistência e passa a funcionar como motor de desenvolvimento econômico.

Nesse sentido, as lições do Brasil podem ajudar a inspirar novos caminhos para um continente que busca transformar potencial agrícola em prosperidade social.


O Plano Mattei é uma estratégia do governo italiano para ampliar a cooperação econômica com países africanos. Inspirado na figura de Enrico Mattei, fundador da estatal energética ENI, o plano busca estabelecer parcerias estruturais em setores como energia, agricultura, infraestrutura e educação.

A iniciativa envolve atualmente 14 países africanos e conta com apoio de instituições multilaterais como o Banco Mundial. O objetivo central é criar bases sustentáveis para geração de empregos e crescimento econômico no continente.


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Denis Minev é empresário brasileiro e CEO da Bemol, uma das maiores empresas de varejo da Amazônia.

Ele integra o High Level Advisory Council on Jobs do Banco Mundial, grupo internacional responsável por aconselhar a instituição em políticas voltadas à geração de emprego e desenvolvimento econômico.

Minev participa de debates globais sobre empreendedorismo, inovação e desenvolvimento sustentável, levando a experiência brasileira para fóruns internacionais.


Três fatores explicam a transformação agrícola do Brasil:

Ciência aplicada — pesquisa agropecuária liderada pela Embrapa

Extensão rural — disseminação prática de tecnologia entre produtores

Empreendedorismo — formação empresarial e gestão no campo

A combinação desses elementos permitiu ao país aumentar produtividade, expandir exportações e consolidar o agronegócio como um dos motores da economia brasileira.

Copiar o vídeo no texto e abrir uma janela marcando que por volta de 1:20 começa a manifestação do Dênis 

Contaminação por agrotóxicos está afetando a saúde e segurança alimentar dos povos indígenas

Pesquisas e relatos de comunidades revelam impactos de agrotóxicos em terras indígenas, com contaminação de rios, aumento de intoxicações e pressão da expansão agrícola sobre territórios tradicionais.

O avanço da fronteira agrícola sobre biomas brasileiros têm intensificado a tensão entre a expansão do agronegócio e a integridade dos territórios indígenas. Nos últimos anos, organizações indigenistas e entidades de direitos humanos têm denunciado que o uso intensivo de pesticidas ultrapassa o papel de insumo agrícola e se associa a episódios de contaminação ambiental e pressão territorial sobre comunidades originárias. Em diversas regiões do país, casos de uso de agrotóxicos em terras indígenas têm se tornado cada vez mais frequentes.

A expansão das lavouras tem transformado rapidamente a paisagem de regiões como o Cerrado e a Amazônia. O Matopiba, área que engloba Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, tornou-se um dos principais polos dessa expansão. O crescimento das monoculturas altera o regime hídrico, reduz a vegetação nativa e pressiona territórios indígenas localizados no entorno das áreas agrícolas.

Nessas regiões, comunidades relatam impactos diretos da pulverização de agrotóxicos. A deriva — quando partículas químicas são transportadas pelo vento para áreas vizinhas — pode atingir aldeias, rios e roças tradicionais. Episódios de intoxicação aguda são relatados após a passagem de aviões e drones agrícolas, com sintomas como náuseas, vômitos, irritação nos olhos e problemas respiratórios.

Em muitos casos, a deriva de agrotóxicos em terras indígenas ocorre mesmo quando a aplicação acontece fora dos limites oficiais das áreas protegidas.

Avião agrícola pulveriza pesticidas sobre plantação, prática associada à deriva de agrotóxicos em terras indígenas.
Avião realiza pulverização de agrotóxicos sobre lavoura. Especialistas alertam que a deriva da aplicação pode levar agrotóxicos em terras indígenas, contaminando água, roças e comunidades próximas. Foto: Rogério Machado/Gazeta do Povo

Pesquisas também apontam efeitos de longo prazo associados à exposição contínua a pesticidas. Estudos em municípios agrícolas de Mato Grosso indicam maior incidência de malformações congênitas e óbitos fetais em áreas com alta intensidade de cultivo. Em cidades como Lucas do Rio Verde (MT), onde mais de 50% do território é ocupado por lavouras, o risco de uma criança nascer com malformações é cerca de 20% maior do que em regiões com maior preservação ambiental.

A contaminação da água é outra preocupação central. Pesquisas realizadas em Mato Grosso do Sul identificaram mais de 20 ingredientes ativos de agrotóxicos em rios, chuva e reservatórios superficiais. Parte dessas substâncias é considerada altamente perigosa à saúde e já foi proibida em outros países.

Os impactos também atingem a soberania alimentar das comunidades indígenas. Roças tradicionais que cultivam milho crioulo, mandioca e plantas medicinais são contaminadas pela pulverização agrícola. Em territórios cercados por grandes fazendas, análises laboratoriais já detectaram resíduos químicos em plantas utilizadas na alimentação e em rituais culturais.

Além dos efeitos ambientais e sanitários, denúncias recentes apontam que a pulverização também tem sido usada como instrumento de intimidação em conflitos fundiários. Relatórios da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) registram casos em que aviões e drones teriam lançado pesticidas sobre aldeias, escolas ou áreas de retomada indígena durante disputas por terra, episódios que inserem o debate sobre o uso de agrotóxicos em terras indígenas em contextos de violência territorial.

O tema também se amplia em um contexto de mudanças legislativas e disputas jurídicas, como a Lei 14.785/2023, conhecida como “Pacote do Veneno”, que flexibilizou regras para o registro de pesticidas no país. Apesar das controvérsias, decisões recentes do Supremo Tribunal Federal têm também estabelecido limites ao uso dessas substâncias. No julgamento da ADI 6137, a Corte confirmou a validade da lei do Ceará que proíbe a pulverização aérea, destacando os riscos comprovados da prática para a saúde pública.

Preço dos fertilizantes dispara com guerra no Irã e preocupa agronegócio no Brasil

Tensões no Oriente Médio já pressionam o preço dos fertilizantes, com possíveis impactos na produção agrícola e no preço dos alimentos.

A escalada do conflito no Irã já começa a provocar efeitos no mercado global de fertilizantes e preocupa produtores rurais brasileiros. A instabilidade no Oriente Médio tem provocado aumento nos custos de alguns insumos, pressionando o preço dos fertilizantes e criando incertezas para a produção agrícola e para o custo dos alimentos no país.

Entre os produtos mais afetados está a ureia, fertilizante amplamente utilizado em culturas como soja, milho e trigo. Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), desde o início das tensões na região, a ureia registrou alta de cerca de 33% no Brasil, impulsionada principalmente pelo encarecimento do gás natural, matéria-prima essencial na produção desses insumos, e por dificuldades logísticas no comércio internacional.

A guerra também afeta rotas estratégicas de transporte de fertilizantes, como o Estreito de Ormuz. O Oriente Médio responde por cerca de 30% do comércio global desses insumos e a instabilidade na região dificulta a circulação de cargas e eleva custos de frete marítimo. Com isso, o preço dos fertilizantes tende a sofrer novas oscilações no mercado internacional, afetando cadeias agrícolas dependentes desses produtos.

Para o Brasil, o cenário levanta preocupações adicionais devido à forte dependência de insumos importados. De acordo com dados do setor, cerca de 85% dos fertilizantes utilizados na agricultura brasileira vêm do exterior. Em 2025, o país importou mais de 43 milhões de toneladas desses produtos, enquanto a produção nacional ficou em pouco mais de 7 milhões de toneladas.

Plantação de milho em fase de crescimento, cultura sensível às variações no preço dos fertilizantes.
Milharal em desenvolvimento no campo. O aumento no preço dos fertilizantes pode impactar culturas como milho e soja, elevando custos de produção agrícola. Foto: Sementes Renascer

O pesquisador do Insper Agro Global, Alberto Pfeifer, avalia que os efeitos do conflito podem não aparecer imediatamente na produção agrícola brasileira. Já que as safras em andamento ainda contam com fertilizantes adquiridos anteriormente e disponíveis nos estoques. No entanto, caso a instabilidade persista, os impactos podem se tornar mais evidentes na próxima safra de verão, cujo plantio costuma começar a partir de agosto.

O aumento no preço dos fertilizantes também tende a alterar decisões de plantio em diferentes países, especialmente em culturas de grande escala como milho e soja. Isso ocorre porque esses insumos representam uma parcela significativa do custo de produção agrícola, podendo chegar a cerca de 40% do total em algumas lavouras.

No longo prazo, a elevação dos custos deve se refletir no preço final dos alimentos. Produtos hortifrutigranjeiros podem sentir os primeiros efeitos, seguidos por grãos e derivados. Caso a pressão sobre fertilizantes persista, cadeias produtivas dependentes de milho e soja — como a produção de carnes, ovos e leite — também podem sofrer impactos indiretos.