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Suframa em transição: como anda o futuro da Amazônia produtiva?


A chegada de um novo superintendente à Suframa costuma ser tratada, no noticiário mais apressado, como mera troca de comando. Na Amazônia, no entanto, esse movimento carrega densidade institucional, impacto econômico e, sobretudo, expectativa coletiva. Não se trata apenas de gestão administrativa, mas da condução de um dos principais instrumentos de política pública voltados ao desenvolvimento regional do país.

É nesse espírito que se deve registrar, com sobriedade e justiça, o momento de transição. Boas vindas, Leopoldo Montenegro, e muitos avanços. Há um legado recente, a propósito, que não pode ser ignorado. Nos últimos anos, a Suframa voltou a ocupar um lugar de protagonismo técnico e político que há tempos se encontrava disperso.

Houve avanços na recomposição institucional, na melhoria dos processos internos, na retomada do diálogo com o setor produtivo e na reconstrução de pontes com Brasília. Mais do que isso, houve um esforço consistente de reposicionar a autarquia como agente estratégico de desenvolvimento, e não apenas como órgão operacional de incentivos fiscais.

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Esse movimento produziu efeitos concretos. A agenda da bioeconomia ganhou densidade, deixando de ser apenas conceito e passando a dialogar com instrumentos reais de financiamento, pesquisa e inovação. A pauta da interiorização começou a sair do discurso para ensaiar caminhos práticos. A interlocução com universidades, institutos de pesquisa e entidades empresariais ganhou fluidez. E, talvez mais importante, consolidou-se uma compreensão mais contemporânea sobre o papel da Zona Franca de Manaus no contexto da transição energética e das exigências ESG.

Nada disso é trivial. Em um ambiente nacional frequentemente marcado por instabilidade regulatória e por narrativas equivocadas sobre a Amazônia, manter coerência, técnica e direção já é, por si só, um feito relevante.

É justamente por isso que a chegada do novo superintendente deve ser compreendida menos como ruptura e mais como continuidade qualificada. A expectativa legítima da sociedade amazonense, do setor produtivo e das instituições locais é que os acertos sejam preservados, os projetos estruturantes tenham seguimento e aquilo que começou a ganhar forma seja ampliado com ainda mais ambição.

A Suframa não pode mais se permitir ciclos de descontinuidade. Cada mudança de gestão que ignora o acúmulo anterior custa tempo, credibilidade e oportunidades. A Amazônia não dispõe desse tempo.

Ao novo superintendente, portanto, cabe uma tarefa que exige equilíbrio fino. É preciso imprimir identidade própria, naturalmente, mas sem abrir mão do que já foi construído. É necessário aprofundar a agenda da inovação, acelerar a diversificação econômica e consolidar a bioeconomia como vetor real de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, é fundamental fortalecer a segurança jurídica do modelo, ampliar a previsibilidade para investidores e qualificar ainda mais o ambiente institucional.

Há também um desafio político que não pode ser negligenciado. A defesa da Zona Franca de Manaus, em um cenário global cada vez mais competitivo e em um ambiente interno por vezes hostil, exige articulação permanente, inteligência estratégica e capacidade de comunicação. Não basta fazer bem feito. É preciso mostrar, com dados, evidências e narrativa consistente, o valor que este modelo entrega ao Brasil.

O momento, portanto, é de reconhecimento e de expectativa. Reconhecimento por uma gestão que recolocou a Suframa no trilho da relevância. Expectativa por uma nova liderança que tem diante de si a oportunidade de transformar avanços em legado duradouro.

A Amazônia observa. E, mais do que observar, torce. Porque, no fim das contas, o sucesso da Suframa não pertence a governos ou a gestões específicas. Ele pertence a um projeto maior: o de provar, com inteligência e responsabilidade, que é possível desenvolver preservando, crescer incluindo e prosperar mantendo a floresta em pé.

Guerra no Irã cria maior ameaça à segurança energética da história, diz AIE

Conflito no Oriente Médio afeta petróleo e gás, pressiona preços globais e expõe fragilidade da segurança energética fóssil, com efeitos diretos na economia e na transição energética global.

A escalada do conflito no Irã já provoca um dos maiores choques à segurança energética na história recente e pode redefinir o equilíbrio global de oferta e demanda de energia. O alerta é do diretor da Agência Internacional de Energia (AIE), Faith Birol, que aponta impactos prolongados sobre mercados, cadeias produtivas e políticas públicas.

Em entrevista ao Financial Times, Fatih Birol afirmou que a atual crise representa uma ameaça sem precedentes à segurança energética mundial. “Há consciência de que é um desafio grave, mas não estou certo de que a profundidade e as consequências estejam a ser plenamente compreendidas”, disse. Em avaliação recente, ele destacou que a normalização da produção pode levar pelo menos seis meses, com possibilidade de prazos ainda mais longos em algumas regiões.

O epicentro da instabilidade está no Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa uma parcela significativa do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados globalmente. A interrupção parcial do fluxo, agravada por ataques a infraestruturas energéticas no Golfo, já pressiona os preços internacionais. Nesta semana, o barril de petróleo se aproximou dos US$ 120.

Navios-tanque no Golfo Pérsico próximos ao Irã, rota estratégica para a segurança energética global
Navios-tanque próximos à ilha de Kharg, no Irã, evidenciam a importância do Estreito de Ormuz para a segurança energética e o fluxo global de petróleo. Foto: Dean Conger

De acordo com a AIE, o volume de gás afetado supera em larga escala a redução de fornecimento enfrentada pela Europa após a invasão da Ucrânia em 2022. No caso do petróleo, as perdas ultrapassam até mesmo os níveis registrados durante as crises da década de 1970, consideradas marcos históricos do setor.

Os efeitos dessa instabilidade da segurança energética já são sentidos em diferentes setores da economia. Companhias aéreas e operadores logísticos se preparam para restrições no abastecimento, enquanto governos adotam medidas emergenciais para conter os impactos. 

No Sri Lanka, a semana de trabalho foi reduzida para economizar energia. Países europeus anunciaram cortes de impostos sobre combustíveis e os Estados Unidos avaliam utilizar estoques estratégicos para estabilizar os preços.

Como resposta imediata, a AIE coordenou a liberação de cerca de 400 milhões de barris de reservas estratégicas, equivalente a uma fração relevante do total disponível. Diante do cenário, a agência defende ações de curto prazo para reduzir o consumo, como incentivo ao teletrabalho, restrições a viagens e políticas de eficiência energética, estratégias semelhantes às adotadas em crises anteriores.

Apesar das recomendações, Fatih Birol afirma que essas ações são insuficientes para equilibrar a perda de fornecimento na região do Irã. “A ação mais importante é retomar o trânsito no Estreito de Ormuz”, ressaltou.

Impactos sobre a transição energética

Ao mesmo tempo, o episódio tende a acelerar transformações estruturais no setor. A expectativa é de maior investimento na transição energética, com fontes renováveis, expansão da energia nuclear e avanço da eletrificação, especialmente no transporte. No curto prazo, porém, há risco de aumento no uso de carvão como alternativa emergencial ao gás.

Desenvolvimento sem escuta: a Amazônia governada pela ausência

O Prof. Wilson Gomes (UFBA) fez um interessante texto homenageando Jürgen Habermas, falecido recentemente. Como leitor do Wilson e do Habermas, fico refletindo o quanto precisamos de filosofia e debate público para a construção de uma democracia sólida. A visibilidade ou invisibilidade dos temas públicos é uma das questões que mais me inquietam. Afinal, colocar visibilidade num tema, não significará que ele ganhará força na sociedade ou no Estado para o seu enfrentamento.

Temos fome, carências de várias questões, seja de saúde ou segurança, de infraestrutura ou economia. Mas, o debate se perde e não inclui muitos para as soluções dos problemas. Temos uma abundância de dados e informações no mundo contemporâneo. Há ainda técnicas e técnicos de diversos campos, mas as opções de solução das mazelas da sociedade têm sido mínimas, pois seguimos com métodos do passado, que possuem seus méritos, mas não enfrentam os problemas do presente. 

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(Fotos: Euzivaldo Queiroz))

A legitimidade do poder pela força pelo Estado na Amazônia dá mais a impressão de ausência desta força do que presença. Parece que estamos esperando um desenvolvimento pela ausência. A falta de investimentos em construções transformadoras na região é notável. Seguimos a discutir como extrair recursos e não ouvimos os desejos e aspirações regionais. Mesmo com todos os protestos indígenas, com o cancelamento da intenção de concessão dos rios da Amazônia, os agentes do Estado brasileiro seguem a defender a cobrança por serviços hidroviários. Uma cobrança pelo uso da natureza. Se ela fosse para fazer portos, talvez fizesse sentido, mas é uma gana arrecadatória.

 Os investimentos em dragagem seguem sem uma avaliação crítica de sua eficácia e de sua economicidade. Como diria Henfil, as avaliações são tipicamente de cucarachas. Afinal, há estudos de entidades estrangeiras – norte-americanas ou outras. Após a gigante mudança geopolítica, é muito estranho que sigamos a ignorar as vozes da própria região nacional e a privilegiar instituições estrangeiras. Ainda em 20/07/1978, já havia charge no Pasquim “temos que tomar medidas urgentes contra a ocupação estrangeira da Amazônia”. Estamos, quase 50 anos depois, mantendo a prática e de deslegitimação das vozes e interesses nacionais.

Que falta faz as prescrições do Habermas na prática do Estado brasileiro frente ao que se faz na região Amazônica. Os desejos e aspirações regionais seguem fora da política pública. A exceção é quando se fazem manobras para grilar, como fartamente documentado no texto de Bernardo Esteves e Alan de Abreu, na Revista Piauí de 16/03/2026. Faz-se manobras documentais destrutivas, faz-se busca de arrecadação. Seguimos a usar os recursos naturais da sociedade para uso privado – o velho conhecido “patrimonialismo” nacional. Os encontros com as transformações da sociedade e das cidades para uma vida mais próspera está longe das ações.

Bioenergia na Amazônia aponta novo futuro energético, mas ainda esbarra no diesel

Entre oportunidades e desafios, a bioenergia na Amazônia desponta como estratégia para fortalecer a segurança energética, reduzir impactos ambientais e impulsionar a bioeconomia no Brasil.

Apesar da abundância de recursos renováveis, a realidade energética amazônica ainda é marcada por contradições. Nos sistemas isolados da Amazônia Legal, 96% da energia consumida provém de combustíveis fósseis, principalmente o óleo diesel. Cerca de 1,9 milhão de pessoas dependem quase exclusivamente de geradores movidos a esse combustível.

Nesse contexto, a bioenergia na Amazônia começa a ganhar espaço como alternativa estratégica, com potencial para reposicionar a região na transição energética global.

Ribeirinhos em comunidade da Amazônia utilizam gerador a diesel para garantir acesso à energia elétrica em região isolada.
Ribeirinhos ainda dependem de geradores a diesel para acesso à energia em áreas isoladas da Amazônia, evidenciando os desafios da transição energética na região.

O potencial energético do bioma está diretamente ligado à sua diversidade. Resíduos de serrarias, caroços de açaí, cachos de dendê e outros subprodutos agrícolas apresentam alto poder calorífico e podem ser convertidos em eletricidade por meio da biomassa. O caroço do açaí, por exemplo, representa cerca de 70% do peso do fruto processado, o que o torna uma fonte relevante de energia despachável. Assim, a expansão da bioenergia na Amazônia depende do aproveitamento eficiente desses resíduos.

Outra alternativa é a produção de biogás a partir de resíduos sólidos urbanos, oferecendo uma solução integrada para o destino do lixo e a geração de energia. Um estudo do Instituto Escolhas aponta que somente o Pará tem potencial para produzir 527 milhões de m³ normais de biogás por ano apenas com resíduos sólidos urbanos. 

Já os óleos vegetais regionais despontam como matéria-prima para biocombustíveis, como biodiesel e Diesel Verde (HVO), com capacidade de substituir parcialmente o diesel utilizado em comunidades isoladas, sem exigir grandes adaptações na infraestrutura existente.

No cenário global, marcado pela crescente demanda por fontes renováveis e pela busca por segurança energética, a bioenergia na Amazônia surge como uma vantagem estratégica para o Brasil. A capacidade de produzir energia a partir da floresta em pé coloca o país em posição relevante na transição energética.

No entanto, desafios persistem. A falta de infraestrutura, o acesso limitado a financiamento e a necessidade de uma governança que evite modelos insustentáveis ainda restringem o avanço do setor. Como resposta, o governo federal lançou o Programa de Energias da Amazônia, que prevê novos leilões para sistemas isolados com obrigatoriedade de 22% de fontes renováveis. O número, entretanto, é considerado ainda pouco ambicioso para o cenário atual.

A Caverna Digital e o Futuro da Amazônia

Há momentos na história em que a humanidade se depara com ferramentas tão poderosas que passam a redefinir não apenas o que fazemos, mas como pensamos. A inteligência artificial é uma dessas inflexões. E, como toda grande ruptura, ela não se limita ao campo técnico. Ela reposiciona o próprio lugar do humano no processo de construção da realidade.

Na caverna, os homens observam sombras e as tomam como verdade. Não porque desejam ser enganados, mas porque não conhecem outra referência. A realidade, mediada, torna-se suficiente. A dúvida desaparece. O esforço de compreender é substituído pela aceitação do que se apresenta.

A inteligência artificial não projeta apenas imagens distorcidas do real. Ela constrói respostas articuladas, organiza argumentos, simula autoridade. Ela fala com fluidez, responde com rapidez, oferece sínteses que parecem definitivas. E é justamente aí que reside o risco mais sofisticado: a substituição silenciosa do pensamento pela conveniência.

Confunde acesso à informação com compreensão, velocidade com profundidade, resposta com conhecimento. E, assim, atualiza a caverna em versão digital: confortável, funcional, produtiva em aparência, mas limitada em essência.

Estamos diante de um território que concentra biodiversidade, conhecimento tradicional, potencial científico e relevância geopolítica. Um território que historicamente foi interpretado por olhares externos, muitas vezes distorcidos, muitas vezes interessados. Se, agora, passarmos a incorporar a inteligência artificial sem a devida qualificação, corremos o risco de sofisticar essa dependência.

Não apenas acessar dados, mas terceirizar o sentido desses dados. A questão central, portanto, não é o avanço da inteligência artificial. É a formação de quem a utiliza.

Sem letramento em IA, a tecnologia pode reforçar assimetrias, ampliar distorções e consolidar uma nova forma de colonização — não mais territorial, mas cognitiva. Uma colonização que opera por meio da linguagem, dos modelos, das respostas que parecem neutras, mas carregam visões de mundo.

FUTURO DA AMAZONIA
Imagem gerada por IA

A inteligência artificial deixa de ser oráculo e passa a ser instrumento. Amplia a capacidade de análise, acelera a produção de conhecimento, fortalece a tomada de decisão. Torna-se aliada de uma economia baseada na floresta em pé, na bioeconomia, na ciência aplicada e na inovação orientada ao território.

Mas isso exige uma mudança de postura. Exige que o usuário deixe de ser consumidor passivo e se torne agente crítico. Que questione, compare, valide, interprete. Que compreenda limites, identifique vieses, reconheça que toda resposta é uma construção, e não uma verdade absoluta.

É tornar o humano mais consciente diante dela. É recolocar no centro a responsabilidade intelectual, a ética do uso, a consciência sobre as implicações de cada decisão mediada por tecnologia. É entender que o futuro da IA não será definido apenas por engenheiros e empresas, mas pela qualidade crítica da sociedade que a incorpora.

Precisa formar seus próprios intérpretes, seus próprios analistas, seus próprios construtores de sentido. Precisa dominar as ferramentas sem se submeter a elas. Precisa, sobretudo, sair da caverna digital com autonomia.

Porque, no fim, a questão não é se a inteligência artificial será usada.

A bioeconomia virou consenso — e esse pode ser o problema

A bioeconomia virou consenso. Está nos discursos institucionais, nos editais, nos planos estratégicos e nas promessas de futuro. A Amazônia, nesse cenário, passou a ser tratada como fronteira de inovação — um território capaz de produzir riqueza a partir da floresta em pé, conciliando conservação ambiental, inclusão social e inserção competitiva em mercados globais. Os bioprodutos surgem como a síntese perfeita dessa narrativa: são apresentados como solução técnica, oportunidade econômica e resposta ética ao mesmo tempo.

Mas há algo profundamente desconfortável que raramente é dito com clareza: a lógica que está sendo usada para estruturar esses bioprodutos não nasceu na Amazônia — e, na maioria das vezes, não funciona nela.

O que se observa, na prática, é uma tentativa insistente de encaixar sistemas vivos, complexos e territorialmente enraizados dentro de modelos produtivos lineares, concebidos para matérias-primas homogêneas, previsíveis e controláveis. Trata-se de uma transposição quase automática de estruturas industriais para um contexto que opera sob outra lógica — ecológica, social e temporal. E quando essa transposição falha, o diagnóstico costuma ser equivocado: culpa-se a falta de tecnologia, a baixa produtividade ou a dificuldade de acesso a mercados. Raramente se questiona o modelo em si.

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A cadeia de valor de um bioproduto amazônico não é uma cadeia no sentido clássico. Ela não é linear, não é estável e tampouco responde a comandos de otimização isolados. Trata-se de um sistema vivo, atravessado por interdependências ecológicas, tensões sociais, assimetrias institucionais e múltiplas racionalidades que coexistem sem necessariamente convergir. É um sistema que resiste à simplificação não por falta de conhecimento, mas porque sua própria estrutura impede reduções sem perda de sentido.

A floresta não é apenas o cenário onde a cadeia começa. Ela é a condição de existência do próprio produto. O ativo central não é o óleo, o extrato ou o composto bioativo. É o sistema ecológico que permite que esse ativo exista — com seus ciclos hidrológicos, suas interações entre espécies, sua variabilidade genética e sua capacidade de regeneração. Ignorar isso é inverter a lógica do problema. É tratar o produto como causa e a floresta como detalhe. E cadeias estruturadas dessa forma podem até funcionar no curto prazo, mas carregam, desde a origem, o germe da sua própria fragilidade.

O que e o Extrativismo vegetal no Brasil

Da mesma forma, o conhecimento tradicional não pode ser reduzido a um insumo técnico passível de extração e apropriação. Ele está inserido em sistemas culturais complexos, em práticas sociais específicas e em formas de relação com o território que não se traduzem em planilhas ou protocolos industriais. Quando esse conhecimento é deslocado do seu contexto, algo se rompe. E o paradoxo se instala: quanto mais valor o bioproduto ganha no mercado, maior o risco de desestruturação das bases sociais que sustentam esse valor.

No plano econômico, o discurso da bioeconomia frequentemente esconde uma continuidade incômoda. Muitas cadeias de bioprodutos ainda reproduzem, com nova linguagem, a velha lógica extrativa. O valor sobe ao longo da cadeia, concentrando-se nos elos mais distantes da origem, enquanto as comunidades que garantem o acesso ao recurso permanecem capturando uma fração mínima desse valor. Não se trata de um desvio pontual, mas de uma estrutura que se repete. E que tende a se aprofundar à medida que a demanda cresce e a pressão por escala se intensifica.

É justamente aí que emerge uma das contradições centrais desse modelo: a escala necessária para competir em mercados globais frequentemente entra em conflito com os ritmos ecológicos e sociais que garantem a qualidade, a autenticidade e a sustentabilidade do bioproduto. Ao tentar acelerar o sistema, simplificam-se práticas de manejo, homogeneízam-se processos e, pouco a pouco, perde-se exatamente aquilo que tornava o produto diferenciado. O que era singular se torna comum. E o que era sustentável passa a ser apenas explorável.

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Imagem kardaska569931/Vecteezy

Diante disso, a complexidade costuma ser tratada como um problema a ser resolvido — um ruído que precisa ser eliminado para que a cadeia funcione de forma eficiente. Mas essa é talvez a maior ilusão desse campo. A complexidade não é um obstáculo externo ao sistema. Ela é constitutiva dele. Ignorá-la não simplifica a realidade — apenas produz modelos incapazes de operá-la.

Há ainda uma dimensão frequentemente subestimada: a do tempo. O mercado exige velocidade, previsibilidade e crescimento contínuo. A floresta opera em ciclos, em variações, em respostas lentas e não lineares. As comunidades organizam sua vida em ritmos próprios, que não obedecem a metas trimestrais nem a contratos de fornecimento rígidos. Quando esses tempos são forçados a convergir artificialmente, alguém paga o preço — e, quase sempre, não é quem captura o maior valor da cadeia.

Outro ponto raramente enfrentado é o da estética da solução. Há uma tendência de buscar modelos “limpos”, replicáveis, organizados — cadeias que possam ser desenhadas em fluxogramas claros e apresentados como casos de sucesso. Mas a Amazônia não é limpa nesse sentido. Ela é densa, ambígua, contraditória. Projetos que tentam apagar essa complexidade para se tornarem comunicáveis acabam, muitas vezes, se tornando irreais.

Existe também um desconforto institucional que atravessa todo esse debate. As regras do jogo — jurídicas, sanitárias, fundiárias, comerciais — não foram pensadas para esse tipo de sistema. Elas operam com categorias rígidas, enquanto a realidade amazônica é fluida. O resultado é um ambiente onde a conformidade é difícil, a informalidade persiste e a inovação, quando ocorre, frequentemente acontece apesar das instituições, e não por meio delas.

E talvez o mais crítico: ainda se insiste em tratar a bioeconomia como setor, e não como mudança de paradigma. Como se fosse possível encaixá-la nos mesmos instrumentos, nas mesmas métricas e nas mesmas lógicas de avaliação. Enquanto isso acontecer, continuaremos medindo sucesso com ferramentas que não capturam o que realmente importa — a integridade ecológica, a autonomia dos territórios e a distribuição real de valor.

Talvez seja mais adequado inverter a pergunta. Em vez de buscar formas de reduzir a complexidade para viabilizar os bioprodutos, seria preciso perguntar que tipo de arranjos são capazes de operar dentro dessa complexidade sem destruí-la. Isso implica aceitar que não existe solução única, que os tempos do mercado, do ecossistema e das comunidades não coincidem, e que qualquer tentativa de alinhá-los à força tende a gerar distorções profundas.

Implica também reconhecer que a governança dessas cadeias não está dada. Ela precisa ser construída — e construída com os atores do território, não apenas para eles. Isso exige novas formas de articulação institucional, novos mecanismos de repartição de valor e, sobretudo, uma disposição real de lidar com conflitos que não serão resolvidos por ferramentas técnicas isoladas.

O filtro da complexidade no fundo, a complexidade da cadeia de valor de um bioproduto amazônico funciona como um filtro. De um lado, estão as iniciativas que tentam simplificar a Amazônia para que ela se adapte ao mercado. De outro, aquelas que começam a perceber que talvez seja o próprio conceito de mercado que precise ser revisto para dialogar com a Amazônia.

O primeiro caminho é mais rápido, mais replicável e mais confortável. Também é o que mais se aproxima de modelos já conhecidos — e, por isso mesmo, o que mais tende a reproduzir resultados igualmente conhecidos. O segundo caminho é mais incerto, mais lento e exige uma mudança mais profunda de perspectiva. Não se trata apenas de inovar produtos, mas de reinventar as formas de produzir valor.

Enquanto essa mudança não ocorre, continuaremos assistindo a cadeias que parecem promissoras no papel, que capturam investimentos, que geram indicadores positivos no curto prazo — mas que, silenciosamente, fragilizam as bases ecológicas e sociais das quais dependem.

E talvez a questão mais incômoda — e mais necessária — seja esta: estamos realmente interessados em desenvolver a bioeconomia amazônica ou apenas em adaptar a Amazônia a uma economia que nunca soube, de fato, lidar com ela?

O valor da floresta em pé e o colapso de uma lógica ultrapassada

Dia Mundial das Florestas


Há momentos em que uma proposta ultrapassa o campo da política pública e se projeta como um marco civilizacional. A iniciativa brasileira de criar um fundo global para florestas tropicais se insere exatamente nesse território. Ela não apenas responde à urgência climática. Ela reorganiza o próprio conceito de valor na economia contemporânea.

Durante décadas, a floresta foi tratada como obstáculo. Um vazio a ser ocupado, uma fronteira a ser vencida, um ativo inerte à espera de conversão em pasto, madeira ou monocultura. Essa visão, ainda hoje defendida por setores que resistem à transição, sustenta uma equação simples e equivocada: derrubar para crescer.

Ao propor um mecanismo financeiro que remunera países pela manutenção de suas florestas, o país introduz uma lógica que até então permanecia marginal. A de que conservar não pode ser um custo. Precisa ser uma fonte contínua de receita, previsível, mensurável e integrada ao sistema econômico global.

Esse movimento desloca o eixo da discussão. A floresta deixa de ser um tema ambiental periférico e passa a ocupar o centro da infraestrutura climática do planeta. Como qualquer infraestrutura estratégica, ela exige investimento, governança e retorno.

FLORESTA EM PÉ
© PREFEITURA DE SÃO JOSÉ DO XINGU (MT)

O fundo, nesse sentido, atua como instrumento de correção histórica. Ele reconhece que os serviços ambientais prestados pelas florestas tropicais, especialmente a regulação do clima e do ciclo hidrológico, sustentam cadeias produtivas inteiras, inclusive aquelas que operam a milhares de quilômetros de distância.

Parte do agronegócio que ainda aposta na expansão predatória sustenta sua atividade sobre bases ecológicas que ele próprio contribui para fragilizar. A regularidade das chuvas, a estabilidade térmica e a fertilidade dos sistemas naturais não são variáveis externas. São condições estruturais da produtividade.

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Imagem de reprodução

O fundo proposto pelo Brasil expõe essa incoerência com clareza. Ao atribuir valor econômico direto à floresta em pé, ele demonstra que o verdadeiro atraso não está na preservação, mas na insistência em modelos que já não se sustentam diante da crise climática.

A COP30 surgiu, assim, como um ponto de inflexão. Depois de anos marcados por compromissos difusos e metas frequentemente descumpridas, o debate começa a se deslocar para instrumentos concretos, capazes de alinhar incentivos econômicos com a estabilidade ambiental.

O fundo de florestas tropicais sintetiza esse novo momento. Ele oferece escala, previsibilidade e racionalidade a uma agenda que, até aqui, foi fragmentada e insuficiente.

Ao invés de reagir às pressões externas, o país assume protagonismo ao propor uma arquitetura financeira que dialoga com o interesse global. Não como concessão, mas como liderança. Não como defesa de um patrimônio isolado, mas como contribuição direta à estabilidade do sistema climático.

Ela sinaliza que a floresta pode, enfim, deixar de ser vista como limite e passar a ser reconhecida como fundamento. Que o futuro não será construído apesar dela, mas a partir dela.

E, sobretudo, que o tempo das justificativas para a destruição começa a se esgotar.

ExpoPIM 4.0 e o dever de convergir pelo bem comum

Há eventos públicos que ultrapassam o protocolo, a formalidade das agendas e o brilho circunstancial das solenidades. Tornam-se símbolos. A ExpoPIM 4.0, em Manaus, é um desses marcos. Seu significado vai além da vitrine tecnológica, além da celebração da inovação industrial, além do justo orgulho regional com o Polo Industrial de Manaus. Ela se apresenta, sobretudo, como um convite irrecusável à convergência.

Quando estão em jogo os interesses da cidadania, quando a pauta é o destino dos que dependem da ação pública para viver com dignidade, trabalhar com esperança e educar seus filhos com perspectiva de futuro, nenhuma instituição pode se dar ao luxo do isolamento. O desenvolvimento verdadeiro não nasce da vaidade dos setores, nem da disputa menor por protagonismo. Ele floresce quando se organiza um grande mutirão de responsabilidades, inteligência e compromisso público.

ExpoPIM 4.0
Autoridades políticas, empresariais e públicas na abertura da ExpoPIM 4.0, nesta quinta (Foto: Suframa)

Foi esse espírito que a ExpoPIM 4.0 ajudou a revelar. Ao reunir indústria, poder público, especialistas, entidades de classe, centros de conhecimento e representantes institucionais em torno da nova indústria e do futuro da Amazônia, o evento projetou um horizonte que interessa a todos. Um horizonte em que tecnologia, pesquisa, sustentabilidade, investimento e governança caminham na mesma direção, a serviço da prosperidade social.

O Amazonas conhece, talvez como poucos, o peso histórico das escolhas certas e o custo das omissões. A experiência da Zona Franca de Manaus demonstra que os grandes êxitos coletivos não surgem por acaso. Eles resultam de articulação, visão de longo prazo, defesa institucional, capacidade técnica e, acima de tudo, da compreensão de que um projeto regional precisa ser também um projeto de país.

Por isso, a celebração da ExpoPIM 4.0 traz consigo uma lição maior. Sempre que o poder público atua em sintonia com o setor produtivo responsável, com o parlamento comprometido, com a academia vocacionada à solução de problemas concretos e com as entidades representativas que conhecem o chão das necessidades reais, o Amazonas avança. E avança com legitimidade.

Essa comunhão de esforços é decisiva. O papel parlamentar, quando exercido com senso de Estado, ajuda a proteger conquistas, aperfeiçoar marcos legais e garantir estabilidade para os investimentos. O Executivo, quando orientado pelo interesse público, transforma diretrizes em políticas, coordena prioridades e materializa oportunidades.

As entidades de classe, por sua vez, preservam a memória das lutas, dão densidade às pautas estratégicas e ajudam a manter vivo o elo entre produção, emprego e desenvolvimento. A academia, com sua inteligência crítica e sua vocação para a pesquisa, ilumina caminhos, antecipa tendências e oferece base sólida para decisões mais qualificadas.

É dessa soma que nasce a confiança. E a confiança pública é um dos ativos mais valiosos para qualquer sociedade que queira prosperar sem abrir mão de seus princípios.

No Tribunal de Contas, compreendemos cada vez mais que controle, tecnologia e sustentabilidade precisam dialogar com os grandes desafios do presente. Fiscalizar não é apenas verificar conformidades. É também contribuir para que a máquina pública se torne mais inteligente, mais eficiente, mais sensível às urgências da população.

É por isso que nossa presença em espaços como a ExpoPIM 4.0 carrega um sentido que vai muito além da representação institucional. Estamos ali para afirmar que a boa governança, a inovação responsável e o uso qualificado da informação são aliados do desenvolvimento e da cidadania.

O futuro da administração pública passa por essa capacidade de aprender com os ambientes mais dinâmicos da sociedade. Passa pela incorporação de novas tecnologias, pela análise inteligente de dados, pela abertura ao diálogo interinstitucional e pela disposição de construir soluções comuns. Passa também pela coragem de reconhecer que desenvolvimento econômico e responsabilidade socioambiental precisam caminhar juntos, especialmente em uma região cuja importância estratégica para o Brasil e para o mundo é incontornável.

A Amazônia não precisa de discursos fragmentados. Precisa de pactos maduros. E planos compartilhados. Precisa da presença ativa que reconheça a centralidade do trabalho, da educação, da inovação, da integridade e da inclusão social. Precisa de instituições despojadas de interesses imediatos, capazes de priorizar aquilo que verdadeiramente importa. O bem comum não pode ser uma abstração retórica. Ele deve ser o eixo das decisões.

Por isso, todo mutirão cívico merece ser compreendida como mais que uma feira, mais que uma agenda de negócios, mais que um encontro setorial ou comunhão parcial. Ele representa uma pedagogia da cooperação. Mostra que o Amazonas será tanto mais beneficiado quanto mais seus atores públicos e privados forem capazes de superar fragmentações, cultivar convergências e agir com espírito de corresponsabilidade.

Nossa terra precisa disso. Nossos jovens precisam disso. Os pais e mães de família, que diariamente depositam no Estado e na economia a esperança de uma vida melhor, precisam disso. Os trabalhadores que movem esta região, os empreendedores que geram oportunidades, os pesquisadores que dedicam sua inteligência ao futuro, os cidadãos que esperam serviços públicos mais efetivos e mais humanos, todos dependem dessa capacidade de união em torno do essencial.

Sigamos, portanto, nessa direção. Com menos dispersão e mais propósito. Com menos interesses mediados pelo cálculo individual e mais compromisso com a prosperidade coletiva. Com menos ruído e mais escuta entre instituições que, embora distintas em sua natureza, se encontram na mesma obrigação ética de servir.

Quando o Amazonas escolhe convergir, ele se fortalece. Quando suas instituições se reconhecem como parceiras na construção do futuro, o desenvolvimento deixa de ser promessa e começa a ganhar forma concreta. E quando a cidadania ocupa o centro da agenda, a inovação deixa de ser apenas técnica para se tornar instrumento de justiça, equilíbrio e esperança.

A iniciativa da Exposição nos recordou que nenhum avanço duradouro se sustenta sem cooperação, sem responsabilidade e sem compromisso com as pessoas. Essa é a agenda que merece continuar. Essa é a direção que pode honrar os êxitos da Zona Franca de Manaus e projetar novos acertos para o Amazonas. Essa é, em essência, a medida do futuro que devemos construir juntos.

A floresta que respira carbono: como funciona o motor climático da Amazônia


Poucas pessoas percebem que a floresta amazônica funciona como um gigantesco organismo vivo que respira carbono. Não se trata de metáfora. Trata-se de um sistema biológico complexo que captura, transforma, armazena e devolve carbono continuamente à atmosfera.

Essa dinâmica, essencial para o equilíbrio climático do planeta, foi estudada em profundidade por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) no âmbito do projeto CADAF — Carbon Dynamics of Amazon Forests.

Entre os cientistas que ajudaram a construir esse campo de conhecimento estão pesquisadores brasileiros de projeção internacional, como Niro Higuchi, referência mundial em manejo florestal e biomassa amazônica.

O que esses estudos revelam é que a floresta amazônica não é apenas um grande reservatório de carbono. Ela é, sobretudo, um sistema dinâmico de circulação de carbono em permanente funcionamento. Entender esse sistema é fundamental para compreender o papel da Amazônia na estabilidade climática da Terra.

A primeira etapa: a captura do carbono

O ciclo começa com um processo simples e extraordinário ao mesmo tempo: a fotossíntese. As árvores absorvem dióxido de carbono da atmosfera e, usando energia solar, transformam esse carbono em matéria orgânica. Esse carbono passa então a compor os troncos, galhos, folhas, raízes e tecidos vegetais.

Estima-se que a floresta amazônica armazene dezenas de bilhões de toneladas de carbono em sua biomassa. Isso faz da Amazônia um dos maiores sumidouros de carbono do planeta.

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Foto: Patrick Hendry//Unsplash

O crescimento das árvores: carbono virando floresta

Uma vez capturado, o carbono passa a fazer parte da biomassa das árvores. O crescimento das árvores funciona como um verdadeiro mecanismo de sequestro de carbono. Quanto mais a árvore cresce, mais carbono ela incorpora em sua estrutura. O projeto CADAF mediu esse processo utilizando parcelas permanentes de inventário florestal, onde pesquisadores monitoram:

  • o diâmetro das árvores
  • o crescimento anual
  • a mortalidade natural
  • a regeneração da floresta

A partir desses dados, é possível estimar com precisão quanto carbono está sendo acumulado pela floresta ao longo do tempo.

O ciclo invisível: folhas, raízes e solo

Mas o carbono não permanece apenas na madeira das árvores. Parte dele circula continuamente dentro do ecossistema. Esse fluxo ocorre por processos naturais como:

  • queda de folhas e galhos
  • renovação das raízes
  • decomposição da matéria orgânica

Esse material vegetal que cai no chão da floresta forma a serapilheira, uma camada rica em nutrientes que alimenta microorganismos do solo. Esses organismos decompõem a matéria orgânica e devolvem parte do carbono para a atmosfera, enquanto outra parte permanece armazenada no solo.

Assim, o solo amazônico funciona como um importante reservatório de carbono subterrâneo.

A respiração da floresta

Assim como qualquer organismo vivo, a floresta também respira. Árvores, raízes e microorganismos liberam dióxido de carbono como parte de seus processos metabólicos. Esse carbono retorna à atmosfera. Em uma floresta saudável, esse processo é equilibrado.

A quantidade de carbono absorvida pelo crescimento das árvores tende a compensar a quantidade liberada pela respiração e decomposição. É esse equilíbrio que mantém a floresta funcionando como reguladora do clima.

Quando o sistema se rompe

Esse equilíbrio pode ser rompido por distúrbios ambientais. Entre os principais fatores que alteram a dinâmica do carbono na Amazônia estão:

  • desmatamento
  • queimadas
  • degradação florestal
  • mudanças climáticas
Área desmatada com árvores derrubadas à direita e floresta preservada à esquerda. Cenário pode se agravar com a sanção do PL da Devastação.
Desmatamento em área de transição entre vegetação preservada e solo exposto. A fragmentação da floresta compromete a biodiversidade e afeta o equilíbrio climático da região. Medidas como o PL da Devastação podem agravar esse cenário ao flexibilizar licenciamento ambiental. Foto: Iguiecologia.

Quando grandes áreas são destruídas, o carbono acumulado durante décadas ou séculos é liberado rapidamente para a atmosfera. Nesse caso, a floresta deixa de ser um sumidouro e passa a se tornar uma fonte de emissões de carbono.

A importância da ciência amazônica

Projetos como o CADAF são fundamentais para medir e compreender esses processos.

Eles integram:

  • inventários florestais
  • dados de campo
  • modelagem climática
  • sensoriamento remoto por satélite

Essas informações permitem calcular estoques de carbono e entender como a floresta responde às mudanças ambientais.

Esse conhecimento também é essencial para políticas climáticas globais, como programas de redução de emissões por desmatamento.

A floresta como infraestrutura climática do planeta

A Amazônia não é apenas um conjunto de árvores. Ela funciona como uma gigantesca infraestrutura biológica de regulação climática. Captura carbono, regula o ciclo da água, influencia padrões de chuva e ajuda a estabilizar a temperatura global.

Preservar esse sistema significa proteger um dos principais mecanismos naturais de equilíbrio climático da Terra. Entender sua dinâmica é o primeiro passo para defendê-la.

RIQUEZA QUE O BRASIL NÃO PRECIFICA


Há um erro histórico, quase civilizacional, na forma como tratamos aquilo que nos sustenta. A água, abundante aos olhos distraídos da Amazônia, segue sendo tratada como um recurso garantido, quando na verdade é um ativo estratégico de valor incalculável — econômico, social, ambiental e geopolítico.

O alerta global não é retórico. As Nações Unidas reforçam que a água potável e o saneamento ainda exigem investimentos estruturais, governança eficiente e cooperação internacional consistente. O acesso desigual penaliza principalmente mulheres e crianças, afetando saúde, educação e produtividade social  .

Esse dado revela um paradoxo incômodo: estamos cercados por água, mas ainda distantes de sua valorização plena. O problema não é escassez física. É escassez de inteligência econômica e política sobre o que a água representa.

RIQUEZA QUE O BRASIL
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Na Amazônia, rios não são apenas cursos naturais. São infraestrutura logística, matriz energética potencial, ativo climático global, base da bioeconomia e elemento estruturante de cadeias produtivas sustentáveis. Ainda assim, o valor atribuído à água permanece implícito, invisível, subprecificado.

Quando um ativo não é precificado corretamente, ele é explorado de forma ineficiente ou predatória. É exatamente isso que ocorre quando a água é tratada como um recurso infinito e gratuito, enquanto atividades degradantes avançam sem internalizar seus custos ambientais.

Precificar a água não significa mercantilizá-la. Significa reconhecer seu valor real dentro de uma lógica de desenvolvimento sustentável. Significa incorporar custos ambientais, orientar políticas públicas e atrair investimentos para infraestrutura hídrica, saneamento e inovação.

Mais do que isso, significa reposicionar o Brasil — e especialmente a Amazônia — no centro de uma nova economia global que começa a entender que água é segurança, energia, alimento e estabilidade social.

Há um dado estratégico pouco explorado: países com abundância hídrica terão vantagem competitiva crescente em um mundo pressionado por mudanças climáticas. A Amazônia, nesse contexto, não é apenas uma floresta. É um sistema hídrico de escala continental com impacto direto sobre regimes de chuva, produção agrícola e equilíbrio climático global.

O sistema internacional já reconhece que a água pode ser vetor de conflito ou de cooperação  . A diferença está na capacidade de governança. Enquanto o mundo disputa água, o Brasil insiste em desperdiçar poder.

O editorial que se impõe não é de contemplação, mas de reposicionamento. A água precisa sair da invisibilidade econômica e entrar no centro da estratégia nacional. Isso passa por regulação moderna, instrumentos de valoração e integração com políticas de bioeconomia.

Na Amazônia, esse movimento ganha dimensão ainda mais profunda. Valorizar a água é valorizar a floresta em pé. É reconhecer que o verdadeiro ativo não está apenas no que se extrai, mas no que se preserva e potencializa. O que não é valorizado, inevitavelmente, é perdido.