Com forte potencial em biocombustíveis e energia limpa, o Brasil avança nos combustíveis do futuro, enquanto enfrenta desafios para escalar soluções e reduzir impactos ambientais.
O mundo avança rumo à transição energética, mas os combustíveis fósseis ainda ditam o ritmo da economia global. Do transporte à indústria, a dependência permanece elevada e deve convergir o consumo de petróleo a um platô de 105,5 milhões de barris por dia até o fim da década, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA).
Mais do que uma ruptura com a energia fóssil, o cenário da transição energética aponta para uma reconfiguração do lugar dessas fontes. É nesse contexto que ganham força os chamados combustíveis do futuro: alternativas renováveis que buscam viabilizar a descarbonização, total ou parcial, em setores onde a eletrificação ainda enfrenta limites. Entenda quais são as fontes dos combustíveis do futuro e seus desafios, além do papel estratégico do Brasil nesse processo.
Mesmo com avanços, petróleo ainda domina a matriz energética global
Apesar do avanço das energias renováveis, a infraestrutura fóssil global já está consolidada e amortizada, o que mantém seu uso mais competitivo no curto prazo. Além disso, há setores em que a substituição ainda enfrenta barreiras técnicas e econômicas relevantes.
A petroquímica tende a se consolidar como um dos principais vetores de crescimento da demanda por petróleo, impulsionada pela produção de plásticos, fertilizantes e insumos industriais. Ao mesmo tempo, segmentos como o transporte pesado e a aviação também permanecem dependentes da alta densidade energética dos combustíveis fósseis, enquanto a segurança alimentar global segue fortemente vinculada ao gás natural, essencial para a fabricação de fertilizantes.

Em países emergentes, a prioridade ainda é garantir crescimento econômico com energia acessível, o que mantém os combustíveis fósseis como base da matriz energética. Isso mostra que a transição não se limita à adoção de novas tecnologias, mas envolve mudanças estruturais na indústria, na infraestrutura e no próprio modelo de desenvolvimento.
No Brasil, esse movimento começou a ganhar forma com a Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993), sancionada em 2024. O marco legal busca impulsionar a mobilidade de baixo carbono e estimular o uso de alternativas mais sustentáveis, a exemplo do diesel verde e do biometano, como combustível. A iniciativa também prevê mecanismos de descarbonização no setor de gás natural e incentiva a captura e o armazenamento de carbono.
Além de estruturar a inserção dessas novas rotas na matriz energética brasileira, a lei tem potencial para direcionar cerca de R$ 260 bilhões em investimentos privados e evitar a emissão de até 705 milhões de toneladas de CO₂ até 2037, segundo o Ministério de Minas e Energia.
Nesse cenário, a transição energética não se apoia em uma única solução, mas em um mosaico de alternativas com diferentes níveis de maturidade, custos e aplicações. Confira a seguir as principais vias de combustíveis do futuro e a posição do mercado brasileiro.
Hidrogênio verde
Entre os combustíveis do futuro, o hidrogênio verde se destaca como alternativa para descarbonizar setores de difícil eletrificação, como siderurgia, aviação e transporte pesado. Produzido pela eletrólise da água com uso de energia renovável, o processo gera hidrogênio sem emissões de carbono, tendo a água como único subproduto.
Na prática, a reação separa moléculas de água (H₂O) em hidrogênio (H₂) e oxigênio (O₂). Esse hidrogênio pode ser usado na geração de energia ou em células de combustível, já aplicadas em veículos em países como Japão, Alemanha e Estados Unidos.
Apesar do potencial, a tecnologia ainda enfrenta entraves importantes, como alto custo de produção, perdas energéticas ao longo da cadeia e desafios de armazenamento e transporte. Por isso, no curto prazo, a tendência é que o hidrogênio verde se consolide principalmente como insumo industrial estratégico e não como substituto em larga escala dos combustíveis fósseis.
Em termos de mercado, a América Latina desponta como uma região estratégica, com potencial para suprir entre 25% e 33% da demanda global de hidrogênio de baixo carbono. O Brasil, em especial, pode responder por cerca de 10% desse total. Segundo o Ministério de Minas e Energia, já foram anunciados aproximadamente US$ 30 bilhões em projetos no país, que também possui capacidade técnica estimada para produzir até 1,8 gigatoneladas por ano do insumo.

Combustíveis sintéticos (e-fuels)
Os combustíveis sintéticos, também conhecidos como e-fuels, são produzidos a partir da combinação de hidrogênio verde com dióxido de carbono capturado da atmosfera ou derivado de processos industriais.
O resultado é um combustível líquido que pode substituir gasolina, diesel ou querosene em motores convencionais, sem necessidade de mudanças significativas na infraestrutura existente.
Por isso, são considerados uma alternativa estratégica para descarbonizar setores em que a eletrificação ainda enfrenta limitações econômicas ou técnicas, como aviação, transporte marítimo e parte da frota já em circulação.
Entre as vantagens, os e-fuels se destacam pela compatibilidade com motores atuais e pelo potencial de reduzir emissões, especialmente quando utilizam energia renovável em toda a cadeia produtiva.
No entanto, o processo de produção ainda é caro, energeticamente ineficiente e depende de grande disponibilidade de eletricidade limpa. Além disso, ainda há dúvidas sobre a viabilidade em larga escala e a competição por recursos renováveis, o que pode limitar sua adoção no curto e médio prazo.

Combustíveis de aviação sustentáveis (SAF)
Os Combustíveis Sustentáveis de Aviação (SAF) surgem como uma das principais alternativas para reduzir as emissões no setor aéreo, a aviação civil é responsável por cerca de 2% das emissões globais de CO₂.
Produzidos a partir de matérias-primas renováveis, como óleos vegetais e resíduos agrícolas, podem reduzir as emissões em até 80% em relação ao querosene fóssil. Por terem propriedades semelhantes ao combustível convencional, são considerados “drop-in”, podendo ser usados na infraestrutura e nos motores atuais sem grandes adaptações, o que os torna especialmente relevantes em um setor onde a eletrificação ainda é limitada por questões técnicas, como o peso das baterias.
No Brasil, o SAF ganhou impulso com a Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024), que criou o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV) e estabeleceu metas progressivas de redução de emissões no setor. O país reúne vantagens competitivas, como a ampla produção de biocombustíveis e rotas promissoras; como HEFA (a partir de óleos vegetais) e ATJ (derivado do etanol).
Ainda assim, o avanço enfrenta desafios relevantes, sobretudo o alto custo, atualmente até duas vezes superior ao combustível convencional, e a dificuldade de escala. A expectativa é que os ganhos tecnológicos e a expansão da produção tornem o SAF mais viável nos próximos anos.

Diesel verde
O diesel verde, ou HVO (Hydrotreated Vegetable Oil), é um biocombustível 100% renovável produzido a partir de óleos vegetais e gorduras animais. Ele é um dos biocombustíveis mais utilizados no mundo. Quimicamente semelhante ao diesel fóssil, pode ser utilizado em motores convencionais sem adaptações e se destaca pela redução significativa das emissões de gases de efeito estufa.
A relevância desse combustível é especialmente grande no Brasil, onde a principal fonte consumida é o óleo diesel. Segundo a Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), o diesel representa quase 50% da matriz veicular brasileira, sendo central no transporte de cargas em rodovias, agricultura, indústria e até mesmo no transporte público.
O Brasil tem a vantagem de ser um dos maiores produtores de biocombustíveis do mundo. Apesar do potencial, o mercado brasileiro ainda está em fase inicial. Testes industriais já foram realizados, como na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (PR), e o combustível passou a integrar a agenda pública com a criação do Programa Nacional de Diesel Verde (PNDV), previsto na Lei do Combustível do Futuro.
A proposta inclui a adoção gradual do HVO na matriz energética, com metas a serem definidas entre 2027 e 2037. O avanço, no entanto, depende de regulamentação, escala produtiva e disponibilidade de matéria-prima, o que mantém o diesel verde como uma promessa em consolidação no país.

Biometano e Biogás
O biogás e o biometano são alternativas de combustíveis do futuro renováveis, produzidos a partir da decomposição de resíduos orgânicos, como restos de alimentos, esterco, esgoto e resíduos agrícolas. Enquanto o biogás pode ser utilizado diretamente na geração de energia, o biometano — obtido após a purificação do biogás — possui alto teor de metano e pode substituir o gás natural em diversas aplicações, inclusive no transporte e na indústria.
No Brasil, o setor apresenta forte potencial de expansão. A produção de biometano gira em torno de 400 mil m³ por dia, com projeção de alcançar 30 milhões m³/dia até 2030, segundo a Associação Brasileira de Biogás (ABiogás). Além de reduzir emissões, o combustível contribui para o aproveitamento de resíduos e ganha espaço como alternativa ao diesel e ao óleo combustível, atraindo investimentos e fortalecendo o papel do país na transição energética.

Etanol de Segunda Geração (E2G)
O etanol de segunda geração (E2G) representa um avanço em relação ao etanol tradicional ao utilizar resíduos agrícolas e biomassa, como o bagaço da cana-de-açúcar. Por não competir com a produção de alimentos e aproveitar subprodutos da cadeia agrícola, apresenta maior eficiência energética e menor impacto ambiental. No Brasil, empresas como a Raízen têm investido na expansão dessa tecnologia, ampliando o papel do país na inovação em combustíveis do futuro.
O etanol, por sua vez, já é um dos pilares da matriz energética brasileira desde a década de 1970. Com ampla infraestrutura consolidada e uma frota majoritariamente flex, o combustível segue ganhando espaço. O governo federal também tem ampliado sua participação na mistura com a gasolina, com perspectivas de aumento dos atuais 27% para até 35%, consolidando o etanol — em suas diferentes gerações — como uma das principais alternativas renováveis no país.

Amônia verde
A amônia verde é uma alternativa de baixo carbono à amônia convencional, amplamente utilizada na produção de fertilizantes e insumos industriais. Diferentemente da versão tradicional, produzida a partir de gás natural e com altas emissões de CO₂, a amônia renovável é obtida a partir do hidrogênio verde combinado ao nitrogênio do ar, sem emissões no processo – o que a situa no campo dos combustíveis do futuro.
Além de seu uso consolidado no agronegócio, o composto ganha novas aplicações como vetor energético em caldeiras, turbinas ou motores, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa. No Brasil, o avanço dessa tecnologia começa a ganhar escala, com iniciativas como a produção de amônia renovável em Cubatão e projetos em desenvolvimento em regiões como Nordeste e Sul.
O país reúne vantagens competitivas relevantes, como uma matriz elétrica mais de 85% renovável, o que favorece a produção de hidrogênio e seus derivados. O governo federal tem apoiado e investido na produção do combustível por meio do Programa Nacional de Hidrogênio e da Lei do Hidrogênio Limpo, além de dispor de investimentos do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES).

Hélio-3: O combustível do futuro pode vir da Lua
Um estudo da Universidade da Califórnia, publicado na revista Nature Geosciente, reforça evidências de que o hélio-3 pode ser mais abundante na Terra do que se estimava. Esse elemento desperta interesse por seu potencial uso na fusão nuclear, o mesmo processo que gera energia nas estrelas, e é considerado uma possível alternativa entre os combustíveis do futuro. No entanto, sua aplicação ainda é experimental e depende de avanços tecnológicos significativos.
Grande parte do interesse global, porém, está fora do planeta. O hélio-3 é mais abundante na Lua, o que tem impulsionado a corrida espacial. A China, por exemplo, identificou o recurso em amostras trazidas pela missão Chang’e-5, em 2020, reacendendo o debate sobre a exploração lunar como estratégia energética de longo prazo.

O mercado brasileiro avança apoiado em vantagens estruturais, como uma matriz majoritariamente renovável e a liderança em biocombustíveis, mas ainda esbarra em gargalos de infraestrutura, custos e escala. A consolidação desse potencial dependerá da maturidade tecnológica e da efetividade das políticas públicas voltadas aos combustíveis do futuro, capazes de reduzir incertezas e viabilizar a expansão dessas rotas no médio e longo prazo.
