Quem paga a conta da transição energética?

Expansão da transição energética acelera descarbonização, mas concentração de recursos em países ricos e aumento nas contas de luz expõem desafios de justiça climática.

A transição energética avança globalmente, mas esbarra em um desafio central: o financiamento. Substituir sistemas baseados em combustíveis fósseis por fontes limpas exige investimentos massivos em infraestrutura, tecnologia e inovação e levanta uma questão cada vez mais urgente: quem paga a conta da transição energética?

Dados da Agência Internacional de Energia (AIE) indicam que, atualmente, para cada US$ 1 investido em combustíveis fósseis, cerca de US$ 2 são direcionados à energia limpa. No entanto, essa expansão não ocorre de forma equilibrada. Aproximadamente 90% do crescimento recente dos investimentos está concentrado em economias avançadas, especialmente na China, evidenciando uma desigualdade estrutural no acesso a capital e tecnologia.

Painéis solares instalados em área urbana com cidade ao fundo, representando a expansão da transição energética e suas desigualdades globais
Investimentos em transição energética são ainda concentrados em economias desenvolvidas, enquanto o Sul Global enfrenta barreiras de acesso e financiamento. Foto: Getty Images Pro

Nos países do Sul Global, o principal obstáculo não é a disponibilidade de recursos naturais, mas o custo do financiamento. O chamado custo médio ponderado de capital (WACC) para projetos renováveis pode ser até sete vezes maior do que em países desenvolvidos. Na prática, isso encarece projetos que, do ponto de vista tecnológico, já são competitivos e atrasa a expansão da energia limpa em regiões mais vulneráveis, reforçando a desigualdade no debate sobre quem paga a transição energética em escala global.

A conta da transição é distribuída entre diferentes atores. Consumidores arcam com parte significativa por meio de encargos embutidos nas tarifas de energia. Governos entram com subsídios, incentivos fiscais e crédito público, enquanto empresas privadas investem buscando retorno financeiro e posicionamento estratégico.

No Brasil, esse arranjo passa por mecanismos como a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), o financiamento do BNDES e recursos do Fundo Clima. Em 2024, o orçamento da CDE ultrapassou R$ 37 bilhões, sendo majoritariamente financiado pelos próprios consumidores. Parte relevante desses recursos subsidia políticas públicas e incentivos às fontes renováveis, como descontos para geração eólica e solar, o que cria um paradoxo: a mesma transição que reduz emissões também pressiona o valor da conta de luz.

Esse impacto é ainda mais sensível entre famílias de baixa renda. O conceito de pobreza energética, utilizado por organismos internacionais, define que um domicílio entra nessa condição quando destina mais de 10% da renda ao pagamento de energia. No Brasil, esse cenário já afeta milhões de pessoas, evidenciando que a transição energética, embora necessária, precisa ser acompanhada por políticas que garantam equidade no acesso e na distribuição de seus custos. 

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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