“Participar da Amazônia Inteligente é entrar cedo numa conversa que definirá as próximas décadas. E, desta vez, a Amazônia precisa estar sentada à mesa principal”
Há alguns anos, falar em inteligência artificial na Amazônia parecia assunto distante. Um debate reservado aos grandes centros tecnológicos, às universidades estrangeiras ou às empresas do Vale do Silício. Enquanto isso, por aqui, seguíamos convivendo com desafios históricos ligados à infraestrutura, à conectividade, à formação profissional e à necessidade permanente de gerar desenvolvimento sem destruir a floresta.
A inteligência artificial deixou de ser uma promessa futurista para se tornar ferramenta concreta de competitividade, gestão, produtividade, saúde, educação, indústria, serviços públicos e geração de negócios. Ela já reorganiza cadeias econômicas inteiras. Está transformando profissões, redefinindo mercados e criando um novo mapa global de oportunidades.
A questão agora já não é mais se essa transformação vai acontecer. Ela já começou. A verdadeira pergunta é quem estará preparado para participar dela.
Foi dessa percepção que nasceu a Amazônia Inteligente. Mais do que um evento, trata-se de uma construção coletiva. Uma tentativa concreta de aproximar a região amazônica do debate estratégico sobre tecnologia, inovação e inteligência artificial aplicada aos desafios reais da nossa economia e da nossa sociedade.
Quando reunimos pesquisadores, empresários, startups, profissionais de tecnologia, especialistas em saúde, indústria, educação e gestão pública, estamos formando algo muito maior que uma programação de palestras. Estamos criando conexões. Semeando competências. Aproximando pessoas que talvez jamais se encontrassem dentro da lógica tradicional dos setores.
A Amazônia sempre foi vista como território de recursos naturais. Poucas vezes foi tratada como território de inteligência. E talvez esteja aí uma das grandes viradas deste momento histórico.
A floresta produz conhecimento. Os desafios amazônicos exigem inovação sofisticada. Nossa realidade demanda soluções próprias em logística, monitoramento ambiental, bioeconomia, saúde remota, educação digital, rastreabilidade, gestão climática e cidades inteligentes. Não existe desenvolvimento sustentável contemporâneo sem tecnologia. E não existe soberania regional sem domínio de inteligência aplicada.
Por isso a presença de pesquisadores, desenvolvedores, cientistas de dados, profissionais do MIT, Hospital Johns Hopkins, Einstein, SAMEL, SUS, startups locais e especialistas de diversas áreas não é mero simbolismo. É sinal de que a Amazônia entrou definitivamente na rota das grandes discussões sobre inovação. E essa discussão não pode ficar restrita a uma bolha técnica.
Empresários precisam entender como a IA impactará seus negócios. Gestores públicos precisam compreender como essas ferramentas podem melhorar serviços essenciais. Profissionais liberais precisam perceber como suas carreiras serão afetadas. Jovens estudantes precisam enxergar as novas possibilidades que estão surgindo diante deles.
Quem participa desse movimento agora ganha algo raro: tempo de adaptação.
Porque a inteligência artificial não substituirá integralmente as pessoas. Mas as organizações e os profissionais que aprenderem a trabalhar com ela certamente terão vantagens competitivas enormes sobre os demais.
A Amazônia Inteligente nasce exatamente nesse ponto de encontro entre urgência e oportunidade.
Não estamos falando apenas de tecnologia. Estamos falando de futuro econômico. Formação de talentos. Permanência de jovens qualificados na região. Geração de negócios. Criação de ecossistemas de inovação. Fortalecimento da bioeconomia. Modernização da indústria. Eficiência pública. Saúde inteligente. Educação acessível.
Estamos falando da possibilidade de a Amazônia deixar de apenas reagir às transformações globais e passar a participar delas como protagonista.
Talvez este seja o maior convite do evento. Não assistir de fora. Não esperar o futuro chegar pronto. Não aceitar novamente o papel periférico que historicamente tentaram impor à região.
Participar da Amazônia Inteligente é entrar cedo numa conversa que definirá as próximas décadas. E, desta vez, a Amazônia precisa estar sentada à mesa principal.
Apoiadores, patrocinadores, verdadeiros co-autores desta jornada
“A construção de uma Amazônia inteligente, sustentável e protagonista exige mais do que discurso. Exige convergência, coragem institucional e compromisso coletivo. O Amazônia Inteligente 2026 nasce justamente dessa soma de esforços entre empresas, universidades, centros de pesquisa, entidades de classe, instituições públicas e organizações da sociedade civil que decidiram investir tempo, recursos, conhecimento e credibilidade numa agenda de futuro para a região.
Cada apoiador e patrocinador desta iniciativa representa uma peça fundamental dessa travessia. Alguns atuam na formação de talentos, outros no desenvolvimento tecnológico, na inovação industrial, na transformação digital, na pesquisa científica, no empreendedorismo, na saúde, na educação, na gestão pública ou no fortalecimento do ambiente de negócios. Juntos, ajudam a demonstrar que a Amazônia possui inteligência, capacidade técnica e capital humano para participar ativamente da nova economia global baseada em dados, automação e inteligência artificial.
Ao apoiar o Amazônia Inteligente 2026, essas instituições não patrocinam apenas um evento. Elas ajudam a afirmar uma visão de futuro em que tecnologia e floresta deixam de ser conceitos opostos e passam a integrar uma mesma estratégia de desenvolvimento sustentável, inclusão produtiva e soberania regional.”
Apoiadores Master • Polo Digital de Manaus • Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) • Governo Federal • Governo do Amazonas / SEDECTI
Patrocinadores Ouro • TV Lar • Grupo Rede Amazônica • SEBRAE Amazonas • FUMIPEQ / SEMTEPI / Prefeitura de Manaus
Patrocinadores Prata • CIEAM • Singulari Consultoria • Hospital Israelita Albert Einstein – Centro de Inovação e Tecnologia em Saúde Manaus
“A transição energética vai além da mudança tecnológica. Ela envolve também uma mudança de mentalidade industrial”
A transição energética costuma ser apresentada ao mundo como uma agenda de futuro. Mas, para quem opera diariamente os desafios da infraestrutura energética, sobretudo em regiões complexas e remotas como a Amazônia, ela deixou há muito de ser uma projeção conceitual. Tornou-se um exercício permanente de competência técnica, confiabilidade operacional e responsabilidade industrial.
Nesta arena, poucas coisas são tão importantes quanto a capacidade de transformar discurso em entrega concreta.
A história da UCB Power nasce exatamente dessa compreensão. Construída por uma família coreana que trouxe para o Brasil uma cultura empresarial baseada em disciplina, eficiência e rigor operacional, a companhia consolidou sua trajetória sobre fundamentos que seguem presentes até hoje: excelência técnica, evolução contínua e compromisso com a confiabilidade.
Imagem: UCB
Desde o início, o objetivo foi além de participar de um mercado em expansão.
A ambição sempre esteve associada à construção de uma operação sólida, preparada para responder com consistência às transformações tecnológicas e energéticas que passaram a redesenhar a economia global.
Ao longo dos anos, essa visão orientou investimentos contínuos em modernização industrial, automação, rastreabilidade, inteligência operacional e qualificação de processos. Mais do que ampliar capacidade produtiva, tratava-se de construir uma cultura capaz de sustentar crescimento sem abrir mão da estabilidade e da segurança.
Essa talvez seja uma das dimensões menos visíveis da transição energética.
Há grande atenção voltada às tecnologias finais, aos sistemas, aos equipamentos e às métricas ambientais. Mas existe um elemento anterior a tudo isso: a credibilidade industrial necessária para garantir que essas soluções funcionem em escala, com previsibilidade e permanência.
Foi justamente essa percepção que amadureceu minha visão ao longo da trajetória na UCB Power, inicialmente como Diretor de Operações e, posteriormente, na posição de CEO. A convivência direta com os desafios da produção, da padronização e da eficiência consolidou uma convicção muito clara: qualidade não pode ser somente um atributo publicitário.
Ela precisa ser verificável.
Num setor estratégico como o armazenamento de energia, isso faz toda a diferença. Não basta desenvolver soluções tecnologicamente sofisticadas. É indispensável assegurar estabilidade operacional, rastreabilidade, controle técnico e capacidade de resposta em ambientes frequentemente marcados por condições extremas de operação.
Na UCB Power, essa cultura está incorporada ao próprio modelo de gestão.
Nossa operação segue padrões internacionalmente reconhecidos que estruturam os processos industriais e garantem melhoria contínua. A certificação ISO 9001 estabelece parâmetros rigorosos para controle e consistência produtiva. A ISO 14001 reforça o compromisso ambiental e a gestão responsável dos recursos. Já a ISO 45001 consolida práticas voltadas à segurança das pessoas e à integridade das operações industriais.
Ao mesmo tempo, nossa atuação alinhada às diretrizes da Responsible Business Alliance amplia o compromisso com ética corporativa, transparência, sustentabilidade e responsabilidade social em toda a cadeia produtiva.
Mais importante do que possuir certificações é compreender o significado prático dessas estruturas.
Elas produzem efeitos concretos sobre a qualidade da entrega, a redução de variabilidades, a previsibilidade operacional e a segurança dos projetos implantados.
Isso se traduz em sistemas mais confiáveis, operações mais estáveis e maior capacidade de sustentação da expansão acelerada do mercado energético contemporâneo.
Essa consistência técnica tornou-se particularmente relevante em um país marcado por profundas desigualdades de acesso à energia. Em muitas regiões remotas, especialmente na Amazônia, a transição energética não representa apenas uma mudança tecnológica. Ela se conecta diretamente à inclusão social, à redução da pobreza energética e à criação de novas possibilidades econômicas para populações historicamente isoladas.
Os números ajudam a dimensionar essa trajetória.
Hoje, a UCB Power já soma mais de 90 mil baterias instaladas em sistemas remotos de energia. Foram mais de 620 MWh implementados apenas em projetos voltados a áreas remotas. Nos últimos dois anos, essas operações contribuíram para evitar, em média, a emissão de 65 mil toneladas de CO₂ na atmosfera, além de impactar diretamente mais de 400 mil pessoas.
Esses indicadores não representam apenas escala empresarial. Revelam uma transformação silenciosa em curso no setor energético brasileiro.
Imagem: UCB Power
Com efeito, a energia deixa de ser um insumo meramente econômico.
Tornou-se infraestrutura social, instrumento de integração territorial e elemento central da nova geopolítica industrial do século XXI.
O armazenamento energético, assim, assume papel estratégico. A expansão das fontes renováveis exige estabilidade, capacidade de gerenciamento e soluções robustas capazes de assegurar continuidade e eficiência operacional.
É justamente nesse ponto que qualidade, confiabilidade e competência industrial deixam de ser diferenciais e passam a constituir pré-condições para o futuro.
Novas parcerias na estrutura da UCB Power reforçam essa percepção.
O movimento não nasce apenas de uma oportunidade de mercado, mas do reconhecimento de uma operação construída sobre fundamentos sólidos e preparada para responder aos desafios da nova economia energética.
Ao final, a transição energética vai além da mudança tecnológica. Ela envolve também uma mudança de mentalidade industrial.
Exige empresas capazes de combinar inovação com responsabilidade, expansão com consistência e crescimento com compromisso de longo prazo.
Na UCB Power, seguimos acreditando que excelência não é um discurso eventual.
É um exercício diário de coerência entre aquilo que se promete e aquilo que efetivamente se entrega. Porque qualidade, quando é verdadeira, não precisa ser anunciada o tempo inteiro. Ela aparece nos processos. Nas entregas. E, sobretudo, na confiança que se constrói ao longo do tempo
Pesquisa sul-coreana indica que bactéria presente no kimchi pode se ligar a nanoplásticos no intestino e favorecer sua eliminação pelo organismo.
Um estudo conduzido por cientistas da Coreia do Sul sugere que uma bactéria probiótica presente no kimchi, prato tradicional fermentado à base de vegetais, pode contribuir para a eliminação de nanoplásticos do organismo. A pesquisa indica que o microrganismo é capaz de se ligar a partículas plásticas extremamente pequenas no intestino, facilitando sua saída pelas fezes antes que se acumulem em órgãos.
A descoberta foi anunciada pelo World Institute of Kimchi, instituto de pesquisa financiado pelo governo sul-coreano e vinculado ao Ministério da Ciência e TIC. Os pesquisadores analisaram uma cepa de bactéria ácido-lática isolada do kimchi, identificada como Leuconostoc mesenteroides CBA3656.
Os nanoplásticos são partículas menores que 1 micrômetro, dimensão equivalente a um milésimo de milímetro. Eles se formam a partir da degradação de materiais plásticos maiores e podem entrar no corpo humano por meio da alimentação e da água potável. Por causa do tamanho reduzido, cientistas investigam a possibilidade de essas partículas ultrapassarem a barreira intestinal e se acumularem em órgãos como rins e cérebro.
Embora os impactos das partículas na saúde humana ainda estejam em estudo, cresce o interesse por estratégias capazes de reduzir sua permanência no organismo. Nesse contexto, os pesquisadores avaliaram se microrganismos presentes em alimentos fermentados poderiam atuar como uma espécie de barreira biológica dentro do sistema digestivo.
Nos testes de laboratório, a cepa derivada do kimchi demonstrou alta capacidade de adesão a nanoplásticos de poliestireno. Em condições padrão, a bactéria atingiu 87% de eficiência de adsorção, índice semelhante ao de uma cepa de referência usada no estudo, a Latilactobacillus sakei CBA3608, que registrou 85%.
A diferença entre as duas cepas ficou mais evidente quando os testes passaram a simular condições semelhantes às do intestino humano. Nesse ambiente, a bactéria de referência teve sua taxa de ligação reduzida para apenas 3%. Já a cepa isolada do kimchi manteve desempenho de 57%, indicando maior resistência e capacidade de interação com as partículas no trato digestivo.
Além dos testes laboratoriais, os cientistas realizaram experimentos com camundongos livres de germes. Os animais que receberam a cepa CBA3656 apresentaram mais que o dobro dessas partículas nas fezes em comparação ao grupo que não recebeu o probiótico. Para os autores, esse resultado sugere que a bactéria pode favorecer a excreção das partículas ao se ligar a elas no intestino.
A pesquisa reforça o potencial de microrganismos presentes em alimentos fermentados para além da digestão e da conservação dos alimentos. Segundo os cientistas, bactérias probióticas podem ter papel relevante na interação com poluentes ambientais que entram no corpo humano.
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores destacam que os estudos ainda estão em fase inicial. Novas etapas serão necessárias para compreender melhor a eficácia da cepa em humanos, os mecanismos envolvidos no processo e a possibilidade de aplicação em estratégias de saúde pública.
A pesquisadora Sehee Lee, uma das responsáveis pelo trabalho, afirma que a poluição plástica já é reconhecida não apenas como um problema ambiental, mas também como uma preocupação de saúde. Para ela, microrganismos derivados de alimentos fermentados tradicionais podem abrir caminho para novas abordagens biológicas diante desse desafio. Os resultados foram publicados na revista científica Bioresource Technology, periódico com fator de impacto 9,0 e destaque na área de Engenharia Agrícola.
A ofensiva judicial da FIESP contra a Zona Franca de Manaus expõe mais do que um embate tributário. Revela a dificuldade histórica de parte do Brasil em aceitar qualquer redistribuição de competitividade, riqueza e protagonismo econômico fora do eixo tradicional de poder.
Coluna Follow-Up
A floresta interessa ao Brasil. O desenvolvimento amazônico, aparentemente, nem um pouco
Aparentemente, a floresta é estratégica. O carbono amazônico é estratégico. A biodiversidade amazônica é estratégica. A água amazônica é estratégica. A soberania amazônica é estratégica.
Já o desenvolvimento amazônico parece continuar sendo um problema.
O pacto federativo vale até o momento vira ameaça
O Brasil construiu durante décadas uma das economias mais concentradas do planeta. Infraestrutura, crédito, logística, universidades, mercado consumidor, cadeias produtivas e proximidade do poder político foram se acumulando em torno do eixo Sul-Sudeste como se o restante do território nacional existisse apenas como paisagem institucional da República. Sem falar nos incentivos explícitos ou transversos…
À Amazônia couberam as distâncias continentais, o isolamento logístico, os maiores custos operacionais e, curiosamente, as cobranças imorais mais severas.
Preservem. Protejam. Não desmatem. Não ocupem.
Mas também não reclamem quando tentarem retirar um dos poucos instrumentos econômicos capazes de sustentar emprego formal, arrecadação, indústria e presença produtiva legal na região.
A Zona Franca de Manaus surgiu justamente porque o Brasil reconheceu, na Constituição Federal, que tratar igualmente regiões brutalmente desiguais apenas eterniza desigualdades.
A isso se chama pacto federativo. Ou ao menos deveria. Contanto que a insaciabilidade seja intocada.
A ironia é que a reação agora surge justamente após a Reforma Tributária fortalecer ainda mais os grandes centros consumidores nacionais. O novo sistema desloca arrecadação para o destino do consumo, ampliando naturalmente as vantagens econômicas das regiões já mais ricas e mais populosas do país.
Ainda assim, parece excessivo permitir que a Amazônia preserve um mínimo de competitividade industrial.
Há algo de simbólico nisso, absolutamente perverso e explicitamente arrogante.
A arrogância e o medo histórico da desconcentração nacional
Segundo a Confederação Nacional da Indústria, São Paulo concentra cerca de 28,8% da indústria brasileira. O Amazonas responde por aproximadamente 2,3%. Em estabelecimentos industriais, o Amazonas representa apenas 0,6% do total nacional.
Mesmo assim, o estado mais rico da Federação – PASMEM ! – decidiu judicializar o risco representado por uma economia regional instalada no meio da floresta amazônica.
Talvez o temor não seja econômico. Provável seja psicopatológico, para não abrir mão das boas maneiras.
A mera ideia de desconcentração parece produzir desconforto em setores acostumados a confundir centralização histórica de riqueza com vocação natural do país.
O problema parece ser a Amazônia competir
O mais curioso é que o Brasil conviveu durante décadas com uma ampla guerra fiscal entre estados. Incentivos foram concedidos à margem do Confaz em várias regiões do país. O ambiente foi tão desorganizado que a própria União precisou editar a Lei Complementar 160/2017 para convalidar benefícios considerados ilegais e evitar um colapso jurídico nacional.
Naquele momento, a flexibilidade federativa pareceu perfeitamente aceitável. Apenas momentaneamente!
Agora, quando a Reforma Tributária preserva uma política regional prevista na Constituição e amplamente debatida durante anos pelo Congresso, surge subitamente a preocupação com “neutralidade concorrencial”.
“Neutralidade tributária” e conservação de desigualdades históricas
Neutralidade, aliás, costuma ser uma palavra elegante para defender permanências convenientes.
Também chama atenção o fato de que os próprios estados brasileiros participaram da construção do consenso federativo que permitiu a aprovação da Emenda Constitucional 132 e das leis complementares posteriores. Houve entendimento formal no âmbito do Comsefaz reconhecendo a necessidade de preservação do tratamento diferenciado da Zona Franca de Manaus.
Mas, ao que parece, alguns consensos federativos só permanecem legítimos enquanto não alteram minimamente a geografia histórica do poder econômico nacional.
A economia da Amazônia não está pedindo favor
De quebra, o mínimo de coerência.
O país exige da região estabilidade climática, preservação ambiental, proteção territorial e protagonismo geopolítico. Ao mesmo tempo, parte das elites econômicas reage contra um dos poucos modelos capazes de manter floresta preservada com atividade econômica formal, arrecadação e emprego industrial.
A indústria instalada em Manaus não devastou a floresta amazônica. Convive com ela. Seria este justamente o incômodo silencioso?
O desconforto é com a existência da Zona Franca
Porque a Zona Franca desmente uma narrativa confortável: a de que desenvolvimento amazônico e preservação seriam incompatíveis.
No fundo, a controvérsia atual talvez revele algo mais profundo sobre o Brasil sudestino.
Lá prosperam setores que aceitam discutir desigualdade regional. Desde que ela continue existindo.
Follow-Up é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras no Jornal do Comércio do Amazonas, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, do portal brasilamazoniaagora.com.br
O ataque à Zona Franca de Manaus revela uma disputa histórica por poder econômico, concentração federativa e controle sobre o futuro da Amazônia brasileira
Durante décadas, consolidou-se no Brasil a ideia de que o desenvolvimento industrial legítimo seria aquele naturalmente concentrado no eixo Sudeste, sobretudo em São Paulo. Tudo o que escapasse dessa lógica passaria a ser tratado como exceção, concessão política ou distorção econômica. A Zona Franca de Manaus incomoda justamente porque rompe parcialmente essa geometria histórica do poder nacional.
A ofensiva recorrente contra a ZFM nunca foi somente tributária. O debate fiscal funciona como superfície visível de uma disputa muito mais profunda sobre concentração econômica, ocupação territorial, soberania nacional e o próprio desenho federativo brasileiro e bandeirante.
A reação recente de setores ligados à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo contra os mecanismos preservados da Zona Franca na reforma tributária expõe uma tensão antiga. Não se trata apenas de divergência técnica sobre incentivos fiscais. O que emerge daí é uma disputa silenciosa sobre quem terá o direito de produzir riqueza, atrair investimentos e exercer influência econômica no território brasileiro.
A concentração como projeto histórico
O Brasil construiu sua industrialização de forma profundamente concentrada. Infraestrutura logística, crédito, universidades, centros financeiros, mercado consumidor e influência política foram historicamente organizados em torno do Sudeste. Com um detalhe curioso: um movimento atrelado a benefícios fiscais.
Mesmo diante do prolongado processo de desindustrialização nacional, ainda persiste uma resistência significativa à ideia de fortalecimento de polos produtivos fora do eixo tradicional.
A contradição salta aos olhos.
Enquanto São Paulo concentra um terço da indústria brasileira, o Amazonas representa parcela reduzida desse parque industrial. Menos de 1% dos estabelecimentos industriais. Ainda assim, parte expressiva do empresariado paulista mobiliza energia política e jurídica contra um modelo instalado a milhares de quilômetros dos grandes centros econômicos do país, no meio da floresta amazônica. Com a façanha de induzir 30% da riqueza de toda região Norte.
O incômodo não nasce da dimensão atual da Zona Franca, mas do que ela simboliza como possibilidade de reorganização econômica do território nacional.
Existe uma disputa concreta pelo destino dos investimentos produtivos brasileiros.
Toda política industrial produz deslocamentos de capital, empregos, arrecadação e capacidade tecnológica. A Zona Franca de Manaus cria exatamente esse deslocamento ao atrair cadeias produtivas para uma região historicamente marginalizada dos grandes ciclos nacionais de desenvolvimento.
Por trás do discurso sobre “neutralidade tributária” ou “simplificação fiscal”, existe uma resistência à descentralização econômica.
O que parte do establishment econômico brasileiro parece defender, ainda que implicitamente, é a manutenção de um modelo em que a riqueza continue gravitando em torno das regiões já consolidadas como centros hegemônicos do país.
Nesse contexto, a ZFM se transforma quase numa anomalia geoeconômica. Ela demonstra que é possível construir indústria sofisticada fora do eixo histórico de concentração brasileira.
Reforma tributária e concentração federativa
A reforma tributária aprofundou uma lógica baseada na arrecadação no destino, favorecendo naturalmente os estados mais ricos e mais populosos.
A preservação dos diferenciais da Zona Franca acabou funcionando como um mecanismo compensatório dentro de um sistema que tende a ampliar as vantagens econômicas das regiões já mais desenvolvidas.
O debate raramente é apresentado nesses termos porque o vocabulário técnico costuma esconder o conflito político real.
Quando se fala em eliminar “distorções”, frequentemente o que se pretende remover são justamente os instrumentos que permitiam algum equilíbrio federativo em um país marcado por desigualdades históricas profundas.
A consequência disso pode ser um Brasil ainda mais concentrado, com regiões periféricas reduzidas novamente à condição de fornecedoras de matéria-prima, consumidores dependentes e territórios politicamente subordinados.
O controle das cadeias produtivas
Quem concentra a indústria concentra também logística, tecnologia, serviços financeiros, infraestrutura e influência institucional.
A disputa em torno da Zona Franca envolve igualmente o controle das cadeias produtivas nacionais.
Manaus tornou-se um polo relevante em segmentos estratégicos como eletroeletrônicos, duas rodas e bens de consumo duráveis. Isso significa empregos qualificados, centros tecnológicos, formação de mão de obra e presença de empresas globais em plena Amazônia.
A existência desse polo desloca parte do dinamismo industrial brasileiro para fora do circuito tradicional de poder econômico.
É justamente esse deslocamento que gera desconforto.
A Amazônia além da condição periférica
Durante muito tempo, a Amazônia foi enxergada apenas como fronteira mineral, reserva florestal ou espaço de expansão agropecuária.
A ideia de uma Amazônia industrializada, tecnologicamente integrada e economicamente complexa ainda enfrenta resistência em determinados círculos políticos e empresariais do país.
Há uma seletividade evidente no debate nacional.
Incentivos bilionários ao sistema financeiro, ao agronegócio exportador, à indústria automobilística do Sul-Sudeste ou à infraestrutura concentrada raramente recebem o mesmo grau de hostilidade dedicado à Zona Franca de Manaus.
A ZFM tornou-se alvo simbólico porque sua existência desafia a lógica histórica de subordinação econômica da Amazônia.
Soberania, floresta e presença nacional
A Zona Franca não representa apenas um modelo tributário. Ela também se consolidou como instrumento de presença econômica brasileira na Amazônia.
Ao gerar empregos urbanos, arrecadação formal, pesquisa tecnológica e dinamismo econômico em Manaus, o modelo ajudou a reduzir pressões predatórias sobre amplas áreas do Amazonas, o estado mais preservado do país.
Enfraquecer a ZFM possui implicações que ultrapassam o campo fiscal.
Significa mexer em um dos pilares econômicos que sustentam a permanência da floresta em pé numa região estratégica para a estabilidade climática global e para a soberania territorial brasileira.
Num momento em que o mundo inteiro volta seus olhos para a Amazônia, o Brasil parece ainda dividido entre duas visões.
Uma delas enxerga a região como mera fornecedora de recursos naturais.
A outra compreende que a Amazônia pode se tornar centro estratégico de inovação, bioeconomia, indústria sustentável e inteligência territorial no século XXI.
Muito além dos impostos
No fundo, a disputa em torno da Zona Franca de Manaus expõe diferentes projetos de país.
De um lado, um modelo concentrador, que perpetua a centralização histórica da riqueza e da influência econômica.
De outro, a possibilidade de uma federação mais equilibrada, capaz de distribuir oportunidades produtivas, integrar seus territórios e fortalecer regiões estratégicas sem destruir seus ativos ambientais.
Por isso, o debate sobre a ZFM jamais foi apenas tributário.
Ele trata de quem pode crescer, de onde o Brasil pretende produzir riqueza e de qual papel a Amazônia ocupará no futuro nacional.
Estudo liderado por Adalberto Valalerta que mudanças climáticas, contaminação por mercúrio e microplásticos ameaçam os peixes amazônicos e ampliam riscos à saúde pública e segurança alimentar na Amazônia.
O estudo analisa como as alterações ambientais afetam os peixes da Bacia Amazônica e, consequentemente, a alimentação e a saúde de milhões de pessoas que dependem do pescado como principal fonte de proteína.
Os pesquisadores apontam que a Bacia Amazônica abriga o maior sistema de água doce do planeta e uma das maiores diversidades de peixes de água doce conhecidas. Em comunidades indígenas e ribeirinhas, o consumo de pescado pode ultrapassar 160 kg por pessoa ao ano, índice considerado um dos mais altos do mundo.
Além de proteína, os peixes fornecem nutrientes importantes, como ferro, zinco, iodo e ácidos graxos essenciais, fundamentais para o desenvolvimento infantil e para a saúde da população.
Essa dependência, no entanto, também aumenta a vulnerabilidade das comunidades diante da degradação dos rios. Segundo o estudo, o aumento da temperatura da água, as secas mais severas, as cheias extremas e as mudanças no ciclo das águas afetam diretamente a reprodução, o crescimento e a sobrevivência dos peixes.
Como muitas espécies amazônicas dependem do pulso natural de cheia e vazante para se alimentar e se reproduzir, a perda dessa previsibilidade compromete os estoques pesqueiros.
A revisão de literatura do artigo indica que os impactos já são visíveis. As secas recentes na Amazônia provocaram mortalidade massiva de peixes e dificultaram o acesso ao alimento em comunidades isoladas.
Quando o nível dos rios baixa de forma extrema, lagos e igarapés podem perder conectividade, a temperatura da água aumenta e a concentração de oxigênio diminui, criando condições críticas para a vida aquática.
Além da crise climática, a contaminação por mercúrio aparece como uma das principais ameaças à segurança alimentar na Amazônia. O problema está associado principalmente ao garimpo ilegal de ouro, que libera mercúrio nos rios, solos e atmosfera.
No ambiente aquático, esse contaminante pode ser transformado em metilmercúrio, uma forma mais tóxica que se acumula nos organismos e se intensifica ao longo da cadeia alimentar. Segundo o artigo, entre 2018 e 2022, foram registradas 400 mortes de crianças Yanomami por negligência em saúde e exposição tóxica.
Peixes predadores e de maior porte tendem a concentrar níveis mais altos de mercúrio. Como o pescado é parte central da dieta amazônica, a contaminação representa risco direto à saúde humana, especialmente para crianças, gestantes e populações que consomem peixe com muita frequência. Estudos citados no artigo relacionam a exposição prolongada ao mercúrio a problemas neurológicos, cardiovasculares, imunológicos e de desenvolvimento infantil.
O artigo também chama atenção para os microplásticos, considerados contaminantes emergentes. Essas partículas já foram identificadas em peixes e ambientes aquáticos da Amazônia, inclusive em áreas protegidas. Além do risco da ingestão direta, os microplásticos podem atuar como transportadores de outros poluentes, ampliando a exposição de animais e seres humanos a substâncias tóxicas.
Para os autores, os impactos não atingem todos da mesma forma. Povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e populações rurais estão entre os grupos mais expostos, porque dependem diretamente dos rios para alimentação, renda e deslocamento. Ao mesmo tempo, muitas dessas comunidades enfrentam menor acesso a serviços de saúde, saneamento, informação e alternativas alimentares seguras.
O estudo defende que a proteção dos ecossistemas aquáticos deve ser tratada como prioridade de saúde pública, justiça social e segurança alimentar na Amazônia. Entre as medidas apontadas como necessárias estão o monitoramento integrado de rios e peixes, o combate ao garimpo ilegal, a comunicação de risco sobre espécies mais contaminadas, a valorização dos sistemas alimentares tradicionais e o fortalecimento da participação comunitária na gestão dos recursos naturais.
Outra estratégia mencionada é o desenvolvimento de alternativas sustentáveis, como a aquicultura adaptada ao contexto amazônico, desde que respeite a biodiversidade local e as práticas culturais das comunidades.
A conclusão do artigo é que clima, biodiversidade e saúde humana estão interligados. Por isso, os autores enfatizam que proteger os peixes e os rios na Amazônia significa também proteger a alimentação, a cultura e a sobrevivência de populações que vivem em relação direta com os ecossistemas aquáticos.
Estudo da USP indica que as mudanças climáticas podem estimular a produção de soja, mas reduzir proteína e amido, afetando a qualidade nutricional do grão.
Um estudo liderado por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) indica que as mudanças climáticas podem alterar a produção e a composição nutricional da soja. Publicada na revista Food Research International, a pesquisa analisou os efeitos combinados do aumento de dióxido de carbono (CO₂), da alta temperatura e da seca.
Segundo os pesquisadores, esse cenário pode elevar em até 50% a produção de grãos, mas com perda de qualidade. A modelagem preditiva feita por inteligência artificial apontou redução de 20% no teor de amido e de 6% na quantidade de proteína da semente, além de aumento de 175% no teor de aminoácidos, resultado considerado inesperado pela equipe.
O trabalho foi conduzido pelo Laboratório de Fisiologia Ecológica de Plantas (Lafieco), do Instituto de Biociências da USP. Para o coordenador Marcos Buckeridge, os dados mostram que a soja passa por uma mudança metabólica relevante quando exposta simultaneamente a fatores de estresse ligados às mudanças climáticas.
A queda nos teores de proteína e amido preocupa porque a soja é uma das principais commodities agrícolas do mundo e tem papel central na alimentação animal. Menos amido significa menor disponibilidade de energia no grão, enquanto a redução de proteína pode afetar sua qualidade nutricional e seu uso na cadeia produtiva.
O estudo também mostra que os efeitos das mudanças climáticas sobre as plantas não são lineares. Isoladamente, o aumento de CO₂ pode favorecer o crescimento vegetal e ajudar a planta a perder menos água. Em condições de seca moderada, o dióxido de carbono elevado reduz a abertura dos estômatos, estruturas responsáveis pelas trocas gasosas nas folhas.
Quando o CO₂ elevado é combinado com calor extremo e falta de água, porém, o metabolismo responde de outra forma. Segundo os pesquisadores, o carbono captado pode ser direcionado para a formação de fibras, como celulose e hemicelulose, em vez de ser armazenado como amido na semente. Isso ajuda a explicar por que a planta pode produzir mais grãos, mas com composição nutricional inferior.
Para chegar aos resultados, os cientistas utilizaram dados de experimentos com soja exposta a diferentes condições de CO₂, temperatura e irrigação. A projeção do impacto triplo das mudanças climáticas foi feita com modelos estatísticos e ferramentas de aprendizado de máquina.
A combinação dos três fatores ainda não foi testada diretamente em campo ou em câmaras com todos os tratamentos simultâneos. Mesmo assim, a equipe afirma que a inteligência artificial conseguiu prever com precisão resultados já observados em cenários com dois fatores combinados, o que aumenta a confiança nas projeções.
O próximo passo será investigar quais genes estão envolvidos nessas respostas e como o metabolismo da soja é alterado em cenários climáticos extremos. A expectativa é que esse conhecimento ajude no desenvolvimento de variedades mais adaptadas às mudanças climáticas, capazes de manter produtividade sem perder qualidade nutricional. Os resultados também podem contribuir para aperfeiçoar modelos globais de previsão dos impactos das mudanças climáticas sobre a agricultura.
Mesmo com o menor índice em 40 anos, o desmatamento na Mata Atlântica ainda eliminou quase 24 hectares por dia e gerou milhões de toneladas de CO₂ equivalente.
O desmatamento na Mata Atlântica atingiu, em 2025, o menor patamar registrado em quatro décadas. Segundo levantamento divulgado pela Fundação SOS Mata Atlântica, o bioma perdeu 8.658 hectares de vegetação nativa no período de 2024-2025, área equivalente a uma média de 23,7 hectares por dia.
O resultado representa uma queda expressiva em relação ao ciclo anterior, quando foram desmatados 14.366 hectares. A redução foi de 40% na comparação com 2023-2024 e consolida uma trajetória de queda, observada nos últimos anos. Desde o período 2020-2021, a perda de vegetação no bioma caiu cerca de 60%, de acordo com a organização.
A série histórica do Atlas da Mata Atlântica, produzida pela SOS Mata Atlântica em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), acompanha o desmatamento na Mata Atlântica desde 1985. O dado mais recente é, portanto, o menor já identificado pelo monitoramento ao longo de 40 anos.
Apesar do avanço, a perda registrada em 2025 ainda teve impacto climático relevante. A supressão de 8.658 hectares de vegetação corresponde à emissão estimada de 4,14 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, conforme parâmetros do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG).
O levantamento aponta que cinco estados concentraram a maior parte da destruição no bioma. Minas Gerais liderou o ranking, com 3.092 hectares desmatados, seguido por Bahia, com 2.889 hectares; Mato Grosso do Sul, com 841 hectares; Piauí, com 659 hectares; e Paraná, com 411 hectares.
Juntos, esses cinco estados responderam por 7.893 hectares de vegetação suprimida, o equivalente a 91% de toda a perda registrada no período analisado. Ainda assim, alguns deles apresentaram queda relevante em relação ao ciclo anterior. A Bahia, historicamente entre os maiores desmatadores do bioma, reduziu o desmate em 39%. No Piauí, a retração foi ainda mais intensa, chegando a 78%.
Por outro lado, quatro estados tiveram aumento na perda de vegetação nativa: Pernambuco, Paraná, Minas Gerais e Santa Catarina. O dado indica que, mesmo diante do melhor resultado da série histórica, a pressão sobre remanescentes florestais ainda persiste em diferentes regiões.
A Mata Atlântica está presente em 17 estados brasileiros e é um dos biomas mais ameaçados do país. Ao mesmo tempo, sua conservação é estratégica para a segurança hídrica, a regulação do clima, a proteção da biodiversidade e a manutenção de serviços ecossistêmicos essenciais para áreas densamente povoadas e economicamente relevantes.
Para a SOS Mata Atlântica, o desafio agora é manter a tendência de queda e avançar rumo ao desmatamento zero até 2030. A meta está alinhada aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil e é considerada fundamental para reduzir emissões, proteger recursos naturais e garantir estabilidade ambiental em uma região que concentra grande parte da população e da economia nacional.
A continuidade da redução do desmatamento na Mata Atlântica dependerá do fortalecimento da fiscalização, da restauração de áreas degradadas e da adoção de políticas capazes de conciliar conservação, produção e planejamento territorial.
“Desmontar a Zona Franca de Manaus em nome de uma racionalidade fiscal abstrata poderia abrir espaço para economias muito mais destrutivas. Garimpo, madeira ilegal, ocupação predatória, expansão desordenada da fronteira e informalidade criminosa não são alternativas civilizatórias”
I — Walter Benjamin e a ruptura epistemológica da ideia de progresso
Walter Benjamin, um filósofo judeu-alemão perseguido pelo nazismo, é precursor do ambientalismo crítico e uma estrela destacada da famosa Escola de Frankfurt, um grupo de pensadores alemães que escapou do pesadelo autoritário. Em suas teses sobre desenvolvimento, não desmonta a ideia de progresso apenas por discordar dela. Ele a desmonta por deslocar o lugar de onde a história é observada. Em vez de olhar o curso histórico pela perspectiva dos vencedores, dos Estados, dos sistemas produtivos e das estatísticas triunfantes, ele olha a história a partir dos escombros que ficaram pelo caminho.
É por isso que sua crítica é mais radical do que uma simples denúncia moral da modernidade. Benjamin percebe que a ideia moderna de progresso não é apenas uma expectativa otimista. Ela é também uma forma de conhecimento. Uma epistemologia. Um modo de organizar a realidade, de selecionar evidências, de hierarquizar vidas, de justificar sacrifícios.
Neste cenário, sua ruptura é profunda. Ele não pergunta apenas se o progresso deu certo. Pergunta quem teve o poder de definir o que deveria ser chamado de progresso.
A tradição liberal de Adam Smith via na expansão do comércio, na divisão do trabalho e no livre curso das trocas uma possibilidade de aumento geral da riqueza. A modernidade econômica nasce, em grande medida, dessa confiança no dinamismo produtivo. A sociedade avança quando produz mais, troca mais, especializa-se mais, amplia mercados e multiplica bens. Há aí uma ideia de progresso como expansão da capacidade produtiva e da interdependência econômica.
Marx, por sua vez, desloca essa leitura. Mostra que a riqueza moderna nasce de relações sociais contraditórias, da exploração do trabalho, da apropriação privada do excedente, da concentração dos meios de produção. Mas, ainda assim, parte do marxismo herdou uma confiança na potência histórica das forças produtivas. A industrialização, mesmo brutal, carregaria dentro de si a possibilidade da emancipação futura.
Benjamin rompe justamente com essa confiança residual.
Para ele, a história não avança automaticamente para a libertação. A técnica não conduz necessariamente à emancipação. A industrialização não garante justiça. A expansão produtiva pode conviver com a barbárie, e muitas vezes a intensifica. O fascismo, a guerra mecanizada, a destruição da experiência humana e a administração técnica da morte demonstraram que a modernidade não era o contrário da barbárie. Era também uma de suas formas.
Nietzsche entra nesse debate por outro caminho. Sua crítica à moral do progresso, à confiança racionalista e à domesticação da vida antecipa a desconfiança diante das narrativas civilizatórias lineares. Nietzsche percebe que a história não é governada por uma razão universal benevolente, mas por forças, vontades, disputas, ressentimentos, imposições. Ele ajuda a quebrar a ingenuidade do progresso como aperfeiçoamento moral da humanidade.
Freud acrescenta uma ferida ainda mais íntima. A civilização não elimina a violência humana. Ela a reprime, desloca, reorganiza. O mal-estar não é acidente da civilização, mas parte do seu funcionamento. A modernidade técnica, jurídica e institucional não dissolve o conflito; apenas o administra sob novas formas.
Benjamin recolhe essas fraturas e as leva ao limite.
Sua imagem do “Anjo da história”, inspirada no Angelus Novus de Paul Klee, talvez seja a formulação mais contundente dessa ruptura. O anjo olha para o passado e vê uma única catástrofe, ruínas acumuladas sobre ruínas. Aquilo que chamamos de progresso é a tempestade que o empurra para o futuro enquanto os destroços crescem diante dele.
A partir daí, a pergunta muda.
Já não se trata de medir o progresso apenas por produção, arrecadação, infraestrutura, tecnologia ou crescimento. Trata-se de perguntar que ruínas esse progresso produziu, que vidas deixou para trás, que territórios sacrificou, que formas de experiência destruiu, que promessas adiou.
Benjamin não nos autoriza a abandonar a ideia de transformação. Mas nos obriga a desconfiar da transformação que se apresenta como inevitável, neutra ou redentora.
O verdadeiro pensamento crítico, nessa chave, não celebra a marcha da história. Ele tenta interromper sua violência.
II — A Zona Franca de Manaus e o paradoxo do poder central diante da Amazônia
A Zona Franca de Manaustalvez seja um dos exemplos mais complexos da história brasileira recente para pensar a contradição entre progresso, desenvolvimento e tutela territorial.
Criada em sua configuração moderna pelo Decreto-Lei nº 288, de 1967, a ZFM surgiu como resposta geopolítica a uma pergunta que o país ainda não resolveu plenamente: o que fazer com uma região continental, estratégica, distante dos grandes centros econômicos e historicamente tratada como fronteira periférica do próprio território nacional?
Foto divulgação
O Estado brasileiro respondeu criando incentivos.
Não como favor. Como reconhecimento tácito de uma desigualdade estrutural. AAmazôniaestava longe dos mercados, longe da infraestrutura logística nacional, longe dos corredores industriais consolidados do Sudeste. Era preciso compensar essa distância para integrar economicamente a região.
Seis décadas depois, os números da SUFRAMA revelam algo que desmonta boa parte das simplificações produzidas sobre o modelo.
Em 2025, o Polo Industrial de Manaus atingiu o maior faturamento de sua história. Foram R$ 227,67 bilhões movimentados entre janeiro e dezembro, crescimento de 11,02% em relação ao ano anterior, quando o faturamento já havia sido recorde. Em dólar, a movimentação ultrapassou US$ 40,9 bilhões. As exportações cresceram mais de 7%, alcançando US$ 663,9 milhões. A média mensal de empregos diretos chegou a 131,4 mil trabalhadores. O Polo encerrou o ano com 553 fábricas em operação e mais de 170 novos projetos aprovados para implantação futura.
Esses números não descrevem uma economia artificial.
Descrevem um parque industrial robusto, diversificado e tecnologicamente sofisticado. O subsetor de bens de informática respondeu por mais de 21% do faturamento total do PIM. O segmento de duas rodas aproximou-se de 20%. O setor eletroeletrônico manteve peso superior a 16%. O Polo ultrapassou a marca de 2,1 milhões de motocicletas produzidas em um único ano. Monitores, condicionadores de ar, relógios, componentes eletrônicos e bens de informática consolidaram Manaus como uma das principais plataformas industriais da América Latina.
A questão central começa justamente aí.
Porque o mesmo território que alcança esse grau de complexidade produtiva continua convivendo com alguns dos piores indicadores estruturais do país.
Walter Benjamin talvez percebesse imediatamente a fissura escondida sob a grandiosidade dos números.
A ideia moderna de progresso costuma operar pela sedução das escalas: faturamento, arrecadação, crescimento, produtividade, exportação, expansão econômica. A planilha sugere êxito. O gráfico aponta ascensão. A curva aponta crescimento. Mas Benjamin nos ensinou a olhar para aquilo que permanece fora da fotografia oficial do progresso.
E a Amazônia está cheia dessas permanências.
O Amazonas tornou-se um dos maiores contribuintes líquidos da Receita Federal. Manaus consolidou-se como a maior economia das regiões Norte e Nordeste. A atividade econômica do Estado responde por aproximadamente 30% da riqueza produzida em toda a Amazônia brasileira. Ao mesmo tempo, o próprio Estado transfere anualmente bilhões de reais para fundos e mecanismos de interiorização do desenvolvimento regional.
Mas o interior amazônico continua frequentemente marcado pela precariedade logística, pela baixa conectividade, pela dificuldade de acesso à saúde especializada, pela ausência de infraestrutura de transporte, pela fragilidade do saneamento e pela enorme dependência de políticas públicas compensatórias.
É nesse ponto que emerge o paradoxo histórico da relação do poder central com a Amazônia
Manaus também consolidou uma centralidade econômica incomum no mapa brasileiro. Dados do IBGE divulgados pelo governo do Amazonas apontam que a capital manteve, em 2023, a sexta posição no ranking nacional do PIB municipal, com R$ 127,6 bilhões, liderando entre os municípios das regiões Norte, Nordeste e Sul.
A leitura convencional concluiria: aqui está um caso de progresso regional.
Foto: Bruno Leão/ Sedecti
A lupa benjaminiana recomenda cautela.
Porque, ao lado dessa pujança econômica, persiste uma Amazônia marcada por baixos indicadores sociais, fragilidade logística, saneamento insuficiente, isolamento territorial, baixa conectividade, precariedade de serviços públicos e enorme desigualdade entre capital e interior.
É aí que se instala o paradoxo.
O poder central incentiva a região remota, reconhece sua desvantagem geográfica, admite sua distância dos mercados, concede tratamento fiscal diferenciado e, ao mesmo tempo, mantém essa mesma região sem a infraestrutura competitiva capaz de reduzir progressivamente sua dependência dos incentivos.
Em outras palavras, a União reconhece a desvantagem, mas não corrige suas causas estruturais.
Esse é o nó político da Zona Franca.
O incentivo fiscal funciona como compensação permanente por uma infraestrutura que nunca chega plenamente. A região é estimulada a produzir, arrecadar, empregar e preservar, mas continua privada das condições logísticas, tecnológicas, energéticas e institucionais que permitiriam um salto de autonomia produtiva.
É como se o centro dissesse à Amazônia: produza, mas espere; arrecade, mas suporte; integre-se, mas sem os meios plenos da integração.
A ZFM, nesse sentido, é simultaneamente conquista e sintoma.
Conquista, porque construiu uma base industrial sofisticada em plena Amazônia, conteve alternativas econômicas predatórias e gerou riqueza onde o receituário convencional previa inviabilidade. Sintoma, porque sua permanência sob ataque revela que o Brasil ainda não resolveu o lugar da Amazônia em seu projeto nacional.
O modelo é cobrado como se operasse em igualdade de condições com o Sul e o Sudeste, mas não recebe a infraestrutura que permitiria essa igualdade. É acusado de depender de incentivos, enquanto a dependência é continuamente reproduzida pela omissão estrutural do próprio poder central.
Aí reside a violência epistemológica da noção tradicional de progresso.
O centro mede a Amazônia com régua de mercado integrado, mas lhe entrega condições de periferia logística. Cobra eficiência plena, mas preserva assimetria estrutural. Exige competitividade, mas sonega os meios históricos da competição.
Uma leitura benjaminiana dos 60 anos da Zona Franca não permitiria nem o elogio ingênuo nem a condenação preguiçosa.
Ela diria que há ruínas dos dois lados.
Há ruína na crítica fiscalista que ignora o papel ambiental, geopolítico e social do modelo. Mas há também ruína na celebração econômica que não enfrenta a persistência dos baixos indicadores humanos da Amazônia.
A questão decisiva, portanto, não é se a Zona Franca deve existir. Essa pergunta é pobre.
A pergunta decisiva é outra: por que um modelo que produziu tanta riqueza ainda não foi convertido em plataforma plena de desenvolvimento territorial?
Se o Amazonas responde por parcela expressiva da riqueza regional, contribui de forma relevante para a arrecadação nacional e ainda repassa recursos significativos para fundos e mecanismos de interiorização, então o problema não pode ser reduzido à suposta improdutividade da região. O problema está na forma como a riqueza gerada é apropriada, redistribuída, bloqueada ou não convertida em infraestrutura civilizatória.
A Amazônia, nesse quadro, aparece como território que financia parte da federação e continua sendo tratada como devedora de explicações.
Esse talvez seja o ponto mais benjaminiano do paradoxo.
O progresso existe, mas não redime. A indústria existe, mas não basta. A arrecadação existe, mas não se transforma automaticamente em emancipação. A floresta permanece em pé em grande parte do território, mas a população continua frequentemente privada das condições materiais de uma cidadania plena.
O desafio dos próximos 60 anos não é abandonar os incentivos. É construir as condições históricas para que eles deixem, gradualmente, de ser muleta defensiva e passem a funcionar como plataforma de transição.
Isso exige infraestrutura logística compatível com a Amazônia. Exige conectividade. Exige energia estável e limpa. Exige ciência, tecnologia, bioeconomia industrializada, formação profissional, integração dos municípios e capacidade de transformar P&D em cadeias produtivas regionais.
A Zona Franca precisa deixar de ser vista apenas como regime fiscal.
Ela precisa ser compreendida como dispositivo geopolítico, ambiental, produtivo e civilizatório.
Walter Benjamin nos ajuda a ver que a pergunta sobre o progresso amazônico não pode ser feita apenas do ponto de vista da planilha. Ela precisa ser feita do ponto de vista das ruínas que ainda se acumulam: municípios empobrecidos, juventudes sem oportunidade, rios sem infraestrutura, comunidades isoladas, periferias urbanas superlotadas, promessas de interiorização que avançam menos do que deveriam.
Mas Benjamin também nos impediria de destruir aquilo que, mesmo contraditório, contém a barbárie.
Desmontar a Zona Franca em nome de uma racionalidade fiscal abstrata poderia abrir espaço para economias muito mais destrutivas. Garimpo, madeira ilegal, ocupação predatória, expansão desordenada da fronteira e informalidade criminosa não são alternativas civilizatórias.
A tarefa histórica é outra.
Fazer da Zona Franca não o álibi do progresso, mas seu ponto de inflexão. Transformar o modelo em plataforma de uma nova política amazônica, capaz de combinar indústria, floresta em pé, infraestrutura, equidade territorial e soberania produtiva.
Talvez seja essa a conclusão mais fiel à lente benjaminiana.
O progresso verdadeiro, se ainda podemos usar essa palavra, não é a tempestade que empurra a Amazônia para um futuro abstrato enquanto suas ruínas se acumulam.
É a decisão política de interromper essa tempestade.
E reconstruir, a partir dela, um desenvolvimento que finalmente reconheça a Amazônia não como periferia subsidiada, mas como centro estratégico de um Brasil que ainda não aprendeu a compreender o próprio território.
Balanço do governo Wilson Lima aborda bioeconomia, índices de desmatamento e impasses na fiscalização e no caso da mineração em Autazes.
A Amazônia Legal ocupa mais da metade do território brasileiro e reúne realidades sociais, econômicas e ambientais muito diferentes entre si. Ela também está no centro das principais discussões sobre clima, biodiversidade, desenvolvimento sustentável e o futuro do país. Embora muitas vezes seja tratada como um bloco único, a região é formada por estados com histórias políticas, modelos econômicos, pressões territoriais e desafios climáticos próprios. Clique aqui para entender melhor sobre a série.
Na série de reportagens Eleições na Amazônia 2026: o saldo que chega às urnas, vamos analisar, estado por estado, como os governos da Amazônia Legal e o governo federal têm respondido aos principais desafios socioambientais dos últimos anos. Às vésperas das eleições 2026, a proposta é observar o que foi prometido, o que foi entregue e o que ainda permanece como lacuna em áreas estratégicas como adaptação climática, gestão territorial, combate ao desmatamento, bioeconomia, infraestrutura, proteção de povos e comunidades tradicionais e desenvolvimento sustentável.
A cada reportagem, o objetivo será cruzar discursos oficiais, programas de governo, dados públicos, indicadores ambientais, políticas anunciadas e exemplos concretos da atuação estadual e federal. Mais do que medir ações isoladas, a série busca entender como as escolhas feitas em Brasília e nos governos estaduais moldam o presente e o futuro da Amazônia e como esse saldo socioambiental deve chegar ao debate público nas eleições 2026.
Em um momento em que a Amazônia é decisiva para o equilíbrio climático do Brasil e do mundo, olhar para a gestão pública é também indagar que projeto de futuro está sendo construído para o território. A preservação da floresta, a valorização da sociobiodiversidade e a adaptação às mudanças climáticas dependem de políticas nacionais, mas também de escolhas feitas diariamente nos governos estaduais. Nas eleições 2026, essas escolhas estarão novamente em disputa nas urnas. Na primeira matéria, o balanço do governo estadual do Amazonas nos últimos anos.
A gestão ambiental no Amazonas reúne algumas das principais contradições da agenda socioambiental brasileira. Maior estado da Amazônia Legal, abriga uma das maiores extensões de floresta preservada do país e ocupa posição estratégica nas discussões sobre clima, biodiversidade, bioeconomia e desenvolvimento sustentável.
Ao mesmo tempo, o território enfrenta pressões crescentes associadas a eventos climáticos extremos, desmatamento, infraestrutura, mineração e disputas sobre quais modelos de desenvolvimento devem orientar o futuro da região.
É nesse cenário que começa a série Eleições na Amazônia 2026: o saldo que chega às urnas, que vai analisar, estado por estado, como governos estaduais e governo federal responderam aos principais desafios socioambientais da Amazônia Legal nos últimos anos. Nesta primeira reportagem, o foco é a gestão ambiental no Amazonas, a partir dos anos de governo de Wilson Lima e da transição para Roberto Cidade.
Nos últimos anos, o estado incorporou com mais força temas como bioeconomia, adaptação climática e combate ao desmatamento ao discurso oficial. Planos, leis, programas e anúncios passaram a apontar para uma agenda de desenvolvimento sustentável. Mas o balanço que chega a 2026 exige olhar além da comunicação institucional: quanto dessa agenda virou política pública efetiva, com orçamento, fiscalização, presença territorial e melhoria concreta do Amazonas?
Do governo Wilson Lima à transição com Roberto Cidade
Para compreender o saldo socioambiental do Amazonas, é preciso considerar a diferença entre os períodos de governo analisados. Wilson Lima (União Brasil) concentrou o ciclo mais longo da gestão estadual recente.
Ele assumiu o governo em 2019, foi reeleito em 2022 e permaneceu no cargo até 2026, período em que acumulou promessas de campanha, programas anunciados, mudanças institucionais, respostas a crises ambientais e de saúde e indicadores que permitem um balanço mais amplo de sua atuação.
Já Roberto Cidade (União Brasil) assumiu o governo em um contexto de transição, após a saída de Wilson Lima para concorrer ao Senado. Por se tratar de um mandato tampão, ainda sem tempo suficiente para consolidar entregas próprias, sua gestão deve ser observada a partir dos primeiros movimentos: a composição do secretariado, a continuidade ou revisão de políticas já em andamento e o peso dado a temas como bioeconomia, adaptação climática, fiscalização ambiental e combate às queimadas.
Ao assumir o governo em 2019, Wilson Lima apresentou uma agenda que prometia modernizar o licenciamento ambiental e fortalecer órgãos como a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). O programa de 2018 também previa a criação de um Plano Estadual de Desenvolvimento Econômico Sustentável, com participação de entidades científicas, produtores, agroextrativistas e cooperativas, na tentativa de associar geração de renda, conservação ambiental e baixo impacto sobre a floresta.
Na campanha de 2022, esse discurso ganhou novos termos e prioridades. Bioeconomia, biotecnologia, ciência, inovação, conectividade e digitalização passaram a aparecer com mais força, ao lado de obras estruturantes.
Entre elas, a BR-319 ocupou lugar central na defesa do governo, apresentada como uma infraestrutura essencial para reduzir o isolamento do Amazonas, integrar o estado ao restante do país e impulsionar o desenvolvimento regional. Mas o que, de fato, marcou os anos do governo Wilson Lima? Entenda quais prioridades saíram do discurso e viraram política pública e quais agendas ficaram em segundo plano.
Licenciamento ambiental: modernização ou flexibilização?
Em janeiro de 2026, uma instrução normativa do Ipaam autorizou o uso de inteligência artificial e autodeclaração na renovação de Licenças de Operação (LO). Segundo o instituto, a medida não flexibiliza o licenciamento ambiental, mas apenas regulamenta um dispositivo já previsto no artigo 5º da Lei Estadual nº 3.785/2012, além de contribuir para reduzir a sobrecarga administrativa do órgão.
A mudança, porém, gerou críticas. Pesquisadores avaliam que o novo modelo desloca parte do controle ambiental para o período posterior à concessão da licença, o chamado “pós-licença”, o que pode ampliar riscos em um cenário de baixa fiscalização de campo.
Em entrevista ao portal O Eco, o diretor do Centro de Ciências do Ambiente da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), André Mendonça, alertou para a complexidade dos processos envolvidos. “Você está lidando com populações humanas, contaminação de rios, patrimônio genético, arqueológico e áreas indígenas. Não é um processo simples que possa ser resolvido apenas por regras automatizadas”, afirmou.
Para o biólogo e pesquisador Philip Fearnside, medidas de desburocratização do licenciamento ambiental podem contribuir para legalizar impactos indiretos, especialmente no entorno de rodovias como a BR-319. A crítica também aparece em análises sobre a concessão acelerada de licenças para projetos de mineração em áreas ocupadas por povos indígenas, como no caso da exploração de potássio em Autazes, em abril de 2024.
Nesses casos, pesquisadores e organizações socioambientais apontam o risco de priorização de grandes empreendimentos sem análise aprofundada de seus impactos socioambientais.
O debate sobre o licenciamento ambiental no governo Wilson Lima se concentra, portanto, em uma pergunta central: a modernização fortaleceu o controle ambiental ou priorizou o destravamento de empreendimentos de alto impacto?
A promessa de fortalecer Sema e Ipaam
Apesar da promessa de fortalecimento dos órgãos ambientais do Amazonas, o que se observa é a continuidade de um cenário de sobrecarga e precarização. Um dos principais pontos é a contratação de profissionais técnicos para a Sema e o Ipaam.
A estrutura administrativa dos dois órgãos revela forte dependência de indicações políticas, o que reforça a tese de fragilidade institucional. Na Sema, a desproporção é significativa: o órgão conta com cerca de 23 servidores efetivos diante de um quadro de 72 cargos comissionados autorizados, o equivalente a aproximadamente três indicações sem vínculo para cada servidor concursado.
Essa pirâmide invertida concentra funções estratégicas de chefia e assessoria em cargos de confiança, enquanto o corpo estatutário permanece estagnado, sem renovação por novos concursos.
No Ipaam, o gargalo técnico aparece na idade do quadro permanente, formado por muitos servidores admitidos entre 1979 e 1999 e já próximos da aposentadoria. Enquanto os concursados se concentram na base, cargos de alto escalão — como diretorias com salários na casa dos R$ 20 mil — são ocupados majoritariamente por comissionados sem vínculo efetivo.
A alta rotatividade compromete a eficiência e dificulta a continuidade administrativa, especialmente quando equipes técnicas de chefia são substituídas. Dados do Progestão mostram que, em 2022, ano de transição política, houve queda de 93,28% no cumprimento das metas técnicas de gestão hídrica. O cenário evidencia os efeitos da perda de memória institucional e da descontinuidade de projetos de longo prazo.
A análise dos indicadores ambientais do Amazonas entre 2019 e 2026 revela um período de extremos, onde sucessivos recordes de degradação foram seguidos por uma tentativa de estabilização institucional e tecnológica no final da gestão de Wilson Lima.
Floresta preservada sob pressão
Durante o governo Wilson Lima (2019-2026), o desmatamento no Amazonas seguiu uma trajetória de forte alta nos primeiros anos, seguida por uma inflexão e queda expressiva no fim do período. Embora o estado preserve cerca de 97% de sua cobertura vegetal original, dados do Inpe e do MapBiomas mostram que a floresta permaneceu sob pressão.
Entre 2019 e 2024, o Amazonas registrou recordes sucessivos de desmatamento, impulsionados principalmente pela expansão da fronteira agropecuária no sul do estado. As áreas mais críticas se concentraram no chamado “arco do desmatamento” amazonense, especialmente nos municípios de Apuí, Lábrea e Humaitá, associados ao avanço da pecuária e da soja.
A área de influência da BR-319 também apresentou variações relacionadas a anúncios de licitação e obras, atraindo ocupações irregulares antes mesmo da consolidação de medidas de controle.
A partir de 2025, houve uma mudança relevante na tendência. O estado encerrou o ano com o menor número de alertas de desmatamento dos últimos oito anos. Segundo o Inpe, os alertas caíram de 3.897 em 2024 para 2.798 em 2025, redução de 28,2%. O Ipaam atribuiu o resultado ao fortalecimento do monitoramento diário e ao uso de sistemas de satélite de alta resolução pela iniciativa Brasil M.A.I.S.
O avanço é significativo, especialmente porque o Amazonas permanece entre os estados mais pressionados pelo desmatamento, com forte incidência sobre áreas públicas e avanço da agropecuária. Ainda assim, uma medida polêmica marcou o período. Em agosto de 2025, Wilson Lima publicou o Decreto nº 52.216/2025, que permitiu reduzir a Reserva Legal no Amazonas de 80% para 50% em áreas de floresta.
O governo defendeu que a mudança facilitaria a regularização ambiental de imóveis rurais com passivos e tornaria a recomposição florestal mais viável economicamente. Pesquisadores, porém, argumentam que a medida pode funcionar como mecanismo indireto de legalização de áreas já desmatadas. A principal crítica recai sobre o uso do Cadastro Ambiental Rural (CAR), instrumento autodeclaratório que pode ser explorado por grileiros quando não há fiscalização adequada em campo.
Além do desmatamento, o governo Wilson Lima enfrentou um dos períodos mais críticos de queimadas na Amazônia. Em 2024, o Amazonas registrou recorde histórico de focos de calor, com 21.289 ocorrências contabilizadas pelo Inpe, o maior número desde o início da série, em 1998. A crise provocou emergência ambiental, impactos humanitários no interior e poluição severa em Manaus. A fumaça atingiu todas as 62 cidades amazonenses, enquanto queimadas no entorno da Região Metropolitana e no sul do estado deixaram a capital sob densas nuvens de fumaça em diferentes momentos do biênio.
Como resposta, o governo criou o Projeto ProAmazon, voltado a estruturar uma nova estratégia de combate ao fogo e reduzir a dependência do envio de equipes a partir de Manaus. Wilson Lima anunciou a aprovação de R$ 45 milhões do Fundo Amazônia para fortalecer a atuação do Corpo de Bombeiros contra incêndios florestais e queimadas não autorizadas. O foco foi a instalação de brigadas permanentes no interior. Até maio de 2026, 16 municípios já haviam sido contemplados com grupamentos de combate a incêndio.
A gestão de Roberto Cidade herda a tarefa de manter a queda do desmatamento e consolidar os avanços no combate às queimadas. Em janeiro de 2026, o Amazonas registrou redução de 70% nos focos de calor em comparação ao mesmo mês de 2025, segundo o Inpe.
Cidade manteve ações antecipadas para o verão de 2026, com o objetivo de evitar a repetição das crises humanitárias dos anos anteriores. Ainda assim, permanece o desafio de enfrentar a pressão agropecuária no sul do estado, conter o avanço sobre áreas públicas e transformar fiscalização, monitoramento e prevenção em políticas permanentes.
Crise hídrica expõe os limites da resposta emergencial
O período entre 2019 e 2026 no Amazonas foi marcado pela transição de uma postura reativa diante dos eventos extremos para uma tentativa de institucionalizar políticas de resiliência climática, impulsionada pelas secas mais severas da história registrada na região.
Nenhum tema expôs tanto o hiato entre o discurso governamental e a realidade do território quanto a gestão de desastres naturais. Entre 2023 e 2025, o estado enfrentou estiagens sem precedentes, que isolaram comunidades ribeirinhas, comprometeram o transporte de insumos e agravaram crises humanitárias no interior.
As secas afetaram drasticamente a navegabilidade dos rios, o acesso à água potável e a segurança alimentar de milhares de famílias, além de causarem prejuízo estimado em R$ 600 milhões.
Inicialmente, o governo Wilson Lima concentrou esforços em ações emergenciais, como a distribuição de cestas básicas e água. Nesse contexto, parte significativa do orçamento executado da Sema foi direcionada a respostas imediatas, em detrimento de investimentos preventivos e de longo prazo.
Um dos alvos de críticas foi justamente o orçamento da Sema, que sofreu redução de quase 31% entre 2024 e 2026. No mesmo período, os gastos do governo estadual com publicidade e comunicação superaram os recursos da pasta ambiental em cerca de 112%.
Por outro lado, houve avanços no marco regulatório de adaptação climática. Entre eles, destaca-se a Lei nº 6.528/2023, que estabeleceu diretrizes para os planos municipais de adaptação às mudanças climáticas, com foco na gestão de riscos associados a cheias e vazantes.
Em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, o estado também indicou municípios prioritários para receber suporte técnico na construção de resiliência por meio do Programa Adapta Cidades. Além disso, a Fapeam lançou editais específicos voltados à adaptação climática, fortalecendo pesquisas locais posteriormente apresentadas como um “portfólio de soluções” em fóruns internacionais, como a COP30.
Apesar do avanço legal e institucional, a implementação efetiva dessas políticas enfrentou gargalos estruturais e técnicos que limitaram seu impacto na ponta, especialmente nos municípios do interior.
A execução municipal esbarrou em restrições orçamentárias, ausência de equipes técnicas qualificadas, falta de metas quantitativas e carência de estratégias intersetoriais claras para transformar a resiliência climática em planejamento urbano e rural efetivo.
Nesse período, o governo estadual operou sob uma dualidade que marcou a escala das políticas de adaptação: a tensão entre resposta emergencial e prevenção. Enquanto as crises de estiagem exigiam ações imediatas, como distribuição de água e alimentos, os investimentos em infraestrutura resiliente de longo prazo avançaram de forma limitada.
O desafio de Roberto Cidade, nesse cenário, será garantir que o orçamento de 2026 sustente tanto o custeio da máquina pública quanto os investimentos necessários em adaptação climática e infraestrutura resiliente, especialmente nos territórios mais vulneráveis do interior amazonense.
Avanços na estruturação da bioeconomia
O mandato de Wilson Lima foi marcado pela inserção da bioeconomia no debate econômico do Amazonas. O governo buscou adaptar o estado às exigências do financiamento internacional e às agendas globais de sustentabilidade, defendendo a construção de uma “matriz econômico-ambiental” capaz de monetizar os ativos da floresta e levar renda ao interior.
Um dos pontos de maior visibilidade desse movimento ocorreu durante a COP30, realizada em Belém (PA), em novembro de 2025. No evento, o então governador do Amazonas anunciou o Plano Estadual de Bioeconomia, apresentado como uma política pública estruturada em diferentes eixos, como governança, descarbonização e negócios.
A base legal e institucional para a implementação do plano já havia sido estabelecida em janeiro de 2025, com a Lei nº 7.526/2025, que instituiu a Matriz Econômica-Ambiental e de Bioeconomia. A legislação passou a tratar a bioeconomia como pilar estratégico para o Amazonas, com o objetivo de atrair investimentos e estimular uma economia verde baseada no uso sustentável dos recursos naturais.
Posteriormente, o Decreto nº 53.901/2026 regulamentou o Plano Estadual de Bioeconomia do Amazonas e detalhou as diretrizes previstas na Lei nº 7.302/2025. Na prática, o decreto buscou tirar a bioeconomia do campo do discurso e transformá-la em metas administrativas, com prazos e atribuições definidas. Entre os objetivos estabelecidos estão a redução de 80% do desmatamento ilegal até 2030 e a capacitação de 15 mil pessoas em cadeias produtivas da bioeconomia.
O decreto também previu diretrizes para a regeneração de áreas degradadas por meio do cultivo de espécies nativas de valor comercial, como açaí e cacau. A proposta busca associar recuperação ambiental, geração de renda e fortalecimento de cadeias produtivas ligadas à sociobiodiversidade.
Outro ponto relevante foi o foco em fomentar a pesquisa e interiorizar a inovação. O decreto prevê a instalação de 10 centros de inovação no interior, com a proposta de aproximar o beneficiamento dos produtos da floresta dos territórios onde eles são extraídos, em vez de concentrar essa etapa apenas em Manaus.
Em janeiro de 2026, Wilson Lima anunciou um pacote de 15 editais de fomento à Ciência, Tecnologia e Inovação por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam). Os investimentos somaram mais de R$ 81 milhões e foram apresentados pelo governo como parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento da pesquisa científica no estado, que teria acumulado R$ 1 bilhão em recursos aplicados em CT&I desde 2019.
O decreto também detalhou critérios para que empresas do Polo Industrial de Manaus (PIM) possam receber incentivos fiscais ao investir em processos de economia circular ou em produtos da sociobiodiversidade. A medida buscou aproximar a agenda da bioeconomia do setor industrial, ampliando sua presença nas diretrizes econômicas do estado.
Apesar dos avanços institucionais, a legislação também gerou pontos de tensão. Um dos principais debates envolve a chamada “transferência de controle”, dispositivo que permite que entidades privadas e organizações do terceiro setor assumam a gestão de serviços e projetos em áreas protegidas. Para críticos, a medida pode fragilizar a proteção dessas unidades de conservação caso seja implementada sem fiscalização adequada, transparência e garantias de controle público.
Bioeconomia avança no papel, mas esbarra em orçamento e execução
Mesmo com um arcabouço legal robusto, a execução das políticas de bioeconomia enfrentou obstáculos de escala, orçamento e governança. Um dos principais gargalos foi a operacionalização financeira do Fundo Estadual de Bioeconomia, criado para dar suporte às ações do setor, mas ainda dependente, em 2026, da criação de uma legislação específica para garantir funcionamento pleno e menor vulnerabilidade à volatilidade do tesouro estadual.
Assim, muitas iniciativas permaneceram concentradas no plano institucional, com dificuldade para alcançar, de fato, comunidades tradicionais, produtores locais e municípios distantes da capital. Ao final do ciclo, a principal dúvida é se a bioeconomia conseguirá se consolidar como política de Estado ou se permanecerá como uma vitrine diplomática associada a fóruns internacionais.
De um lado, leis aprovadas, metas quantitativas para 2030 e a inclusão da economia circular como diretriz para o PIM indicam uma tentativa de estruturação. De outro, o lançamento de planos em eventos globais sem orçamento plenamente garantido no interior, se volta para a permanência de modelos econômicos baseados na exploração intensiva de recursos naturais e a resposta ainda reativa às crises climáticas revelam limites importantes.
O sucesso dessa transição, agora sob a gestão de Roberto Cidade, será medido pela capacidade do governo do Amazonas de transformar planejamento em orçamento real, presença técnica nos territórios e fiscalização em campo. Mais do que projetar o Amazonas como vitrine internacional da sustentabilidade, o desafio será garantir que a economia da floresta em pé dispute espaço, na prática, com a lucratividade da degradação.
BR-319: tensão entre integração logística e risco ambiental no Amazonas
O então governador adotou um discurso voltado à soberania, à integração regional e ao fim do isolamento terrestre do estado. Lima defendeu reiteradamente a pavimentação do chamado “trecho do meio” como uma questão de dignidade, segurança logística e redução do custo de vida.
Durante a pandemia de Covid-19, a ausência de conexão terrestre foi citada por Lima como um entrave ao escoamento de produtos e ao transporte de insumos essenciais, como oxigênio.
Entre 2019 e 2026, o governo estadual também pressionou o governo federal pela aceleração do licenciamento da rodovia, enquanto minimizava parte dos alertas apresentados por órgãos ambientais e especialistas. A principal crítica à gestão, nesse tema, recai sobre a incapacidade de conter a pressão ambiental na área de influência da BR-319, especialmente o avanço do desmatamento.
Foto: BNC Amazonas
Monitoramentos do Observatório BR-319 indicaram que o desmatamento no entorno da rodovia teve relação com anúncios de licitações e expectativas de pavimentação do trecho do meio, impulsionando a especulação fundiária. Embora o governo defendesse a obra com a promessa de salvaguardas ambientais, como o plantio de 100 mil mudas e a instalação de passagens de fauna, imagens de satélite apresentadas no Senado em 2025 indicaram que a governança ambiental prevista era insuficiente para conter a degradação.
Ainda que o Amazonas tenha registrado queda geral no desmatamento em 2025, o sul do estado e o entorno da BR-319 permaneceram como áreas de alta tensão. A análise do período sugere que não houve uma estrutura efetiva de controle territorial e fiscalização robusta na região, o que favoreceu o avanço da fronteira agrícola, da especulação fundiária e da supressão vegetal ilegal.
Para as próximas gestões, o desafio será equilibrar os processos de licenciamento e a demanda por integração logística com governança ambiental, controle territorial e avaliação técnica rigorosa. A pavimentação da BR-319, caso avance, dependerá não apenas de obras e condicionantes formais, mas de uma presença permanente do Estado, capaz de impedir que a rodovia se transforme em novo vetor de degradação na Amazônia.
Autazes vira símbolo da tensão entre exploração de recursos e direitos territoriais
A mineração de potássio em Autazes, no sul do Amazonas, tornou-se um dos principais pontos de tensão jurídica e ambiental durante o governo Wilson Lima. O caso expôs o choque entre a defesa de um modelo de desenvolvimento baseado na extração predatória de recursos naturais e a garantia dos direitos territoriais indígenas, especialmente do povo Mura.
Conduzido pela empresa Potássio do Brasil, o projeto prevê a extração de silvinita para a produção de fertilizantes, insumo estratégico para o agronegócio brasileiro. Wilson Lima passou a defender o empreendimento como relevante para a soberania nacional e para a redução da dependência externa de fertilizantes.
Nesse contexto, o termo “potássio verde” foi incorporado ao discurso do governo em torno do projeto, para associar a mineração a uma agenda de sustentabilidade e atrair a atenção de mercados vinculados ao capital verde. A principal controvérsia, porém, está na localização da jazida. A área de interesse do se sobrepõe à Terra Indígena Soares/Urucurituba, território ainda não homologado, mas tradicionalmente ocupado pelo povo Mura.
A ausência de conclusão do processo demarcatório ampliou a insegurança territorial e abriu espaço para disputas envolvendo comunidades indígenas, empresa, governo estadual, órgãos federais e Ministério Público Federal. Por meio do Ipaam, o governo estadual buscou avançar no licenciamento ambiental do projeto.
A condução do processo, no entanto, foi contestada sob o argumento de que empreendimentos com impacto sobre terras indígenas devem ser licenciados pelo Ibama, na esfera federal. Outro ponto central das críticas foi a ausência de Consulta Prévia, Livre e Informada às comunidades afetadas, como prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
A disputa resultou em uma paralisação jurídica. O licenciamento conduzido pelo estado foi suspenso pela Justiça Federal, que apontou falhas no rito, especialmente pela ausência de participação adequada das comunidades indígenas e pela falta de legitimidade do Ipaam para autorizar a exploração em uma área com incidência sobre território tradicional.
Enquanto o governo estadual apresentava o projeto como essencial para a economia do Amazonas, o Ministério Público Federal e organizações indígenas denunciavam a pressão sobre o território Mura e os riscos de descaracterização cultural. Para os Mura, a disputa em Autazes não se restringe à mineração: ela está diretamente ligada a uma reivindicação territorial que se arrasta há décadas.
A área passou a concentrar ainda mais disputas após o avanço do projeto da Potássio do Brasil, estimado em US$ 2,5 bilhões. Em meio ao conflito, a Justiça chegou a determinar a devolução de terras compradas pela empresa e a retomada do processo de reconhecimento territorial, mas recursos e impasses mantiveram o caso em aberto.
A tensão aumentou após declaração de Wilson Lima, em 18 de abril, quando o governador afirmou ser “totalmente contra” a demarcação dos territórios indígenas do povo Mura em Autazes. Na ocasião, ele alegou que a presença de um território demarcado poderia impedir a exploração mineral de potássio. A fala foi criticada por organizações indígenas, como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, por desconsiderar a ocupação ancestral do povo Mura e os direitos constitucionais dos povos indígenas.
Na transição para o governo de Roberto Cidade, a mineração em Autazes permanece como um campo de disputa jurídica e política. A insistência em um modelo convencional de mineração em área reivindicada por povos indígenas contrasta com o discurso de bioeconomia e sustentabilidade que o Amazonas busca consolidar internacionalmente.
O caso revela uma contradição central da política ambiental do estado nos últimos anos: embora o Amazonas tenha avançado na criação de leis, planos e metas ligadas à bioeconomia e sustentabilidade, ele ainda enfrenta dificuldades para romper com modelos econômicos baseados na exploração intensiva de recursos naturais e na pressão sobre territórios tradicionais.