“O futuro da saúde já está sendo programado. E a Amazônia precisa participar dessa construção.”
A Inteligência Artificial já está transformando a saúde em todo o mundo. E essa transformação precisa chegar àAmazônia com profundidade, propósito e impacto social.
Da análise preditiva ao apoio diagnóstico, da gestão hospitalar ao atendimento remoto em áreas de difícil acesso, a IA começa a redesenhar a maneira como prevenimos doenças, organizamos sistemas de saúde e ampliamos o acesso à medicina de qualidade.
Em uma região marcada por grandes distâncias geográficas, desafios logísticos e desigualdades históricas no acesso à saúde, a tecnologia deixa de ser apenas inovação. Ela se torna ferramenta estratégica de cuidado, eficiência e preservação da vida.
Por isso, o Amazônia Inteligente 2026 reunirá especialistas, pesquisadores, gestores públicos, startups, universidades, empresas e profissionais da saúde para discutir como a Inteligência Artificial pode transformar setores estratégicos da nossa região — incluindo a saúde pública e privada.
Será um espaço de diálogo entre ciência, tecnologia e humanização, buscando soluções adaptadas à realidade amazônica, com ética, inclusão e foco nas pessoas.
Se você atua na saúde, pesquisa, gestão, inovação ou empreendedorismo, este encontro foi pensado para você.
Participe ao lado de instituições e referências nacionais e internacionais como Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital John Hopkins, MIT, Samel, CRM, Universidade Federal do Amazonas, Universidade do Estado do Amazonas e diversos especialistas que estão construindo o futuro da saúde inteligente.
A Amazônia deve ser protagonista de uma nova era de inovação, tecnologia e desenvolvimento humano.
Venha construir esse futuro conosco.
Amazônia Inteligente 2026 17 e 18 de junho de 2026 Manaus Plaza Shopping
Entre a preservação contemplativa e os modelos industriais importados, o Amazonas começa a perceber que seu verdadeiro desafio histórico talvez seja outro: construir uma economia sofisticada, territorialmente enraizada e capaz de transformar floresta, ciência, engenharia e indústria numa mesma linguagem de desenvolvimento.
Coluna Follow-Up
O Amazonas atravessa um momento raro de inflexão histórica. Talvez pela primeira vez desde a implantação da Zona Franca de Manaus, o debate sobre desenvolvimento regional esteja sendo pressionado simultaneamente por três forças: a transição climática global, a reorganização geopolítica da economia e a necessidade brasileira de reposicionar sua soberania sobre a Amazônia.
Nesse cenário, o Polo Industrial de Manaus deixou de ser somente uma política fiscal defensiva. Passa gradualmente a ocupar outra condição: a de uma plataforma estratégica de permanência econômica, tecnológica e institucional do Brasil no coração da floresta.
Mas essa nova etapa exige maturidade intelectual.
O Amazonas além da Manaus industrial
Durante décadas, o Amazonas concentrou grande parte de sua inteligência econômica na defesa legítima do modelo ZFM. E compreensível. O Polo Industrial sustenta a arrecadação, empregos, estabilidade urbana, presença populacional, infraestrutura e integração nacional numa região historicamente vulnerável ao isolamento econômico.
A própria existência de Manaus contemporânea seria incompreensível sem a presença do modelo.
Ao mesmo tempo, a centralidade do PIM acabou produzindo uma consequência silenciosa. O Amazonas econômico passou a ser frequentemente confundido com a Manaus industrial.
Enquanto o debate se voltava para competitividade fiscal, PPBs, cadeias eletroeletrônicas, segurança jurídica e reforma tributária, o interior amazônico permaneceu à margem de uma formulação econômica estrutural mais sofisticada.
Não por ausência de pesquisadores ou quadros qualificados. O estado possui economistas, engenheiros, cientistas e especialistas em logística, energia, planejamento territorial e desenvolvimento regional plenamente conscientes das singularidades amazônicas. O problema talvez tenha sido outro: faltou integrar esses saberes numa visão de longo prazo capaz de enxergar a floresta não como obstáculo ao desenvolvimento, mas como variável central da sua reinvenção.
A floresta deixa de ser cenário
Porque a floresta não pode mais permanecer apenas como cenário externo ao modelo econômico amazônico.
Ela tende a se transformar no principal eixo de sua atualização histórica.
A validação contemporânea da Zona Franca de Manaus não decorre apenas de seus indicadores clássicos de emprego, arrecadação ou preservação relativa da cobertura vegetal. Esses elementos seguem importantes. Mas o século XXI passou a exigir algo além da manutenção do modelo. Exige sua capacidade de evoluir.
A nova legitimidade da Zona Franca
Evoluir significa adensar cadeias produtivas. Diversificar competências tecnológicas. Interiorizar oportunidades. Criar conexões reais entre indústria, ciência, biodiversidade, engenharia e infraestrutura regional.
Significa reconhecer que a floresta não é somente um patrimônio ambiental. É também território de conhecimento, bioengenharia natural, ativos genéticos, novos materiais, química fina, fármacos, alimentos, cosméticos, tecnologia climática, serviços ecossistêmicos avançados e inteligência territorial.
Mas transformar biodiversidade em capacidade econômica exige densidade científica, escala produtiva, logística e formação humana. Nenhuma economia complexa emerge apenas da retórica verde.
Entre slogans verdes e engenharia econômica
Existe hoje uma tendência internacional de imaginar a Amazônia como grande reserva estabilizadora do clima global. Parte desse olhar possui legitimidade evidente. O problema aparece quando essa expectativa reduz a região a uma função passiva de conservação contemplativa.
Como se desenvolvimento material sofisticado fosse incompatível, por definição, com floresta em pé.
Como se populações amazônicas devessem aceitar eternamente baixa infraestrutura, fragilidade energética, isolamento logístico e dependência pública em nome de uma estabilidade ecológica desenhada por centros decisórios externos.
Essa simplificação empobrece o debate e consente, indiretamente, sua permanência.
O verdadeiro desafio amazônico seria, justamente, produzir uma nova síntese histórica entre floresta e complexidade econômica.
Escutar a floresta também é política industrial
E aí a Zona Franca pode desempenhar um papel muito mais sofisticado do que aquele que seus críticos — e às vezes até seus próprios defensores — costumam enxergar.
O PIM não precisa ser percebido apressadamente como enclave industrial de montagem. Sua trajetória futura poderá depender precisamente da capacidade de incorporar progressivamente inteligência regional, inovação bioindustrial, cadeias de conhecimento amazônico e novas economias tecnológicas ligadas à sustentabilidade.
A indústria instalada na Amazônia está entrando numa fase em que sua legitimidade não será medida apenas pelo que fabrica, mas também pela forma como aprende com o território em que está inserida.
Isso implica escuta.
Escuta científica. Escuta territorial. Escuta das populações tradicionais. Escuta das universidades. Escuta da engenharia amazônica. Escuta das potencialidades econômicas ainda invisíveis da floresta profunda.
A bioindústria como fronteira estratégica
A interiorização do desenvolvimento não ocorrerá por decretos nem por slogans. Ela exigirá infraestrutura física, conectividade, energia confiável, educação técnica, pesquisa aplicada, cadeias intermediárias, integração hidroviária moderna e novas arquiteturas de financiamento regional. Há mais de 20 anos a indústria da floresta repassa ao poder público generosos recursos para este fim. Apesar disso, não há sinais objetivos dos resultados esperados.
Isso, também, exigirá também abandonar expectativas vazias.
Nem a floresta pode ser tratada apenas como ativo financeiro abstrato, sem auditoria. Nem a industrialização amazônica pode continuar dissociada das singularidades ecológicas e territoriais que definem a região.
O Amazonas, portanto, precisa construir algo mais raro e premente: uma identidade fabril amazônica.
Uma industrialização que não reproduza mecanicamente os paradigmas predatórios do século XX, mas que também não transforme a região num museu climático global incapaz de oferecer prosperidade material à própria população.
Desenvolvimento complexo em território complexo
Essa deve ser a tarefa histórica da atual geração.
Não somente defender o modelo ZFM, embora isso continue decisivo diante das disputas fiscais e geopolíticas contemporâneas. Mas aprimorá-lo a partir de uma visão mais ampla de Amazônia.
Uma visão em que a floresta deixe de ocupar apenas o discurso periférico da sustentabilidade corporativa e passe a influenciar efetivamente a inteligência econômica regional.
Porque o Amazonas não é comparável ao restante do Brasil.
Sua hidrografia redefine logística. Sua baixa densidade altera custos.Seu território impõe outra racionalidade de infraestrutura. Sua biodiversidade cria possibilidades inexistentes em outras regiões. Sua posição geopolítica redefine o conceito de soberania econômica nacional.
Importar modelos econômicos convencionais sem adaptações profundas continua sendo um erro analítico. Mas imaginar que slogans ambientais substituirão engenharia econômica também conduz a impasses perigosos.
A Amazônia exige formulação própria
É provável que o verdadeiro amadurecimento do modelo Zona Franca comece exatamente agora: no momento em que ele deixa de olhar apenas para dentro de suas fábricas e passa a enxergar, na floresta, não um limite ao desenvolvimento, mas a fronteira mais sofisticada de sua própria reinvenção histórica e diversificação inadiável.
Porque o século XXI e a população ribeirinha estão exigindo da Amazônia algo inédito: não somente preservar a floresta para o mundo, mas construir, a partir dela, uma nova imaginação econômica brasileira como parte de sua identidade fabril emergencial.
Estevão Monteiro de Paula é professor e PhD em Engenharia de Estruturas pela Tennessee University e USP São Carlos.
Alfredo Lopes é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora.
Follow-Up é publicada pelo Jornal do Comércio do Amazonas, às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes.
Política de reciclagem em Xangai combina fiscalização, inovação industrial e mudança de hábitos para reduzir impactos ambientais em uma cidade de 25 milhões de habitantes.
A megacidade chinesa de Xangai conseguiu reduzir em 98% o volume de resíduos sólidos industriais desde 2019, quando iniciou uma política mais rígida de gestão de lixo urbano. A estratégia de reciclagem em Xangai, combinou compostagem, fiscalização, restrições a descartáveis e incentivos à economia circular, em uma cidade com cerca de 25 milhões de habitantes.
Antes da implementação do plano, Xangai gerava aproximadamente 26 mil toneladas de resíduos por dia. Seis anos depois, a cidade registra avanços importantes na destinação correta dos materiais. A taxa de reciclagem doméstica cresceu 10%, enquanto entre 35% e 45% dos resíduos passaram a ser encaminhados para instalações adequadas de coleta e tratamento.
O principal salto ocorreu no setor industrial. Empresas passaram a reaproveitar materiais descartados como insumos para novos produtos. Um dos exemplos é a CSMET, localizada no distrito de Jinshan, que transforma sobras de alumínio da indústria e resíduos domésticos do mesmo material em novos produtos de alumínio.
Segundo Chen Nan, vice-presidente da companhia, a empresa adota o conceito de transformar resíduos sólidos em recursos. A CSMET utiliza cerca de 130 mil toneladas de sucata de alumínio e materiais reciclados por ano, contribuindo para a redução de emissões associadas à produção convencional do metal.
A localização da empresa fora da área central também favorece a logística de coleta e processamento. Para lidar com as grandes distâncias dentro da metrópole, Xangai passou a apostar em operações regionais menores, distribuídas em diferentes distritos.
No distrito de Hongkou, um projeto piloto de compostagem transforma diariamente cerca de 100 kg de resíduos orgânicos domésticos em fertilizante, por meio de digestão microbiana. A iniciativa aproxima os moradores do processo de reaproveitamento e reforça a importância da separação correta do lixo dentro das casas.
As mudanças começaram com medidas rigorosas. Em 2019, as multas aplicadas a empresas por descarte irregular aumentaram dez vezes. Moradores que separavam os resíduos de forma incorreta também passaram a ser advertidos, com possibilidade de devolução do lixo após inspeção dos coletores.
O sistema adotado pela cidade divide os resíduos em quatro categorias principais: recicláveis, perigosos, orgânicos e indiferenciados. Para apoiar a adaptação da população, foram instalados novos contentores e veículos específicos para cada tipo de material. Esse conjunto de medidas tornou a reciclagem em Xangai uma política pública integrada ao cotidiano da cidade.
Além da separação do lixo, Xangai também restringiu o uso de itens descartáveis e não recicláveis em hotéis e escritórios, como copos, chinelos e outros produtos de uso único. A medida estimulou o crescimento de empresas voltadas a alternativas sustentáveis.
Uma delas é a Bluepha, que utiliza óleo de cozinha usado como matéria-prima para produzir polihidroxialcanoatos, conhecidos como PHAs. O material pode substituir plásticos derivados do petróleo em embalagens, talheres e outros utensílios descartáveis.
De acordo com a empresa, cada tonelada de óleo residual pode gerar entre 0,67 e 0,8 tonelada de PHA, com valor econômico superior ao obtido pela conversão do óleo em biodiesel. A substituição do plástico convencional pelo PHA também pode reduzir a emissão de poluentes.
Com os resultados da reciclagem em Xangai, a cidade alcançou 86,9 pontos em uma escala nacional chinesa de gestão de resíduos que vai até 100. A pontuação é considerada a maior já registrada por uma cidade desse porte no país e mostra como políticas públicas, fiscalização e inovação industrial podem transformar a relação das grandes cidades com o lixo.
Mesmo com redução de 25%, o desmatamento em terras indígenas segue concentrado em poucos territórios, pressionados por garimpo, grilagem e agropecuária.
O desmatamento em terras indígenas da Amazônia Legal registrou queda em 2025, mas os dados indicam que a pressão ilegal sobre esses territórios segue elevada e concentrada em áreas específicas. Segundo balanço da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), foram identificados 30.128 hectares de corte raso no ano passado, redução de 25% em relação a 2024, quando a área desmatada chegou a 40.178 hectares.
O corte raso é considerado uma das formas mais graves de destruição da floresta, pois remove toda a vegetação de uma determinada área. Em geral, esse tipo de desmate está associado à abertura de pastagens, à expansão agropecuária e, posteriormente, ao avanço de lavouras como a soja.
Apesar da queda, o relatório mostra que a devastação não ocorre de forma homogênea. Metade de todo o desmatamento em terras indígenas registrado em 2025 ficou concentrada em apenas 13 das 395 Terras Indígenas demarcadas e monitoradas pela FUNAI na Amazônia Legal. Juntas, essas áreas somaram 15,3 mil hectares desmatados.
Os territórios mais pressionados estão localizados nos estados do Maranhão, Pará, Mato Grosso, Amazonas e Roraima, em regiões próximas ao chamado arco da devastação. Essa faixa, que avança principalmente pelo sul e leste da Amazônia Legal, é marcada pela presença de atividades ilegais como grilagem, garimpo, extração clandestina de madeira, ocupação irregular de terras públicas, além da expansão da agropecuária.
Ao todo, 324 Terras Indígenas apresentaram algum registro de corte raso em 2025, o equivalente a 82% dos territórios monitorados pela autarquia. O dado reforça que, embora a área total desmatada tenha diminuído, a pressão sobre as TIs continua.
Além do corte raso, o levantamento da FUNAI também contabiliza outras formas de crime ambiental. A degradação florestal, que ocorre quando há retirada seletiva de árvores ou exploração irregular de madeira sem derrubada completa da vegetação, atingiu 43 mil hectares. Já os danos a áreas em regeneração, onde a floresta estava em processo de recuperação, somaram 8,5 mil hectares.
Considerando as três categorias, corte raso, degradação e danos à regeneração, a área total afetada em Terras Indígenas da Amazônia Legal chegou a 82 mil hectares em 2025. O número representa uma queda de 36% em comparação com 2024, quando os impactos somaram 128 mil hectares.
O monitoramento também aponta que as queimadas seguem como outro fator de risco para os territórios indígenas. Em 2025, o Centro de Monitoramento Remoto da FUNAI identificou focos de incêndio em 195 Terras Indígenas da Amazônia Legal.
Assim como ocorre com o desmatamento em terras indígenas, os incêndios também se concentraram em poucos territórios. Seis áreas responderam por metade do total queimado: Parque do Araguaia, em Mato Grosso; Raposa Serra do Sol e São Marcos, em Roraima; Parabubure, em Mato Grosso; Parque do Tumucumaque, no Amapá e Pará; e Kraolândia, entre Tocantins e Maranhão.
Os dados indicam avanço na redução da área total atingida, mas também revelam que a proteção das Terras Indígenas ainda depende de ações contínuas de fiscalização, combate a crimes ambientais e controle das pressões econômicas sobre a floresta.
Apesar da riqueza da biodiversidade, a bioeconomia amazônica enfrenta gargalos de logística, energia, pesquisa e certificação para transformar a floresta em renda.
A Amazônia reúne uma das maiores reservas de biodiversidade do planeta, com espécies que sustentam cadeias produtivas ligadas a alimentos, cosméticos, fármacos, perfumaria e novos materiais. Esse potencial está no centro da bioeconomia amazônica, modelo que busca gerar renda a partir do uso sustentável dos recursos biológicos, mantendo a floresta em pé e valorizando conhecimentos tradicionais.
Apesar do patrimônio natural, a região ainda enfrenta dificuldades para transformar essa abundância em uma indústria de alto valor agregado. Grande parte do que é coletado sai da Amazônia sem processamento significativo, em estado bruto, com baixo valor agregado e, muitas vezes, sem rastreabilidade suficiente. Entenda quais são os principais entraves que impedem a bioeconomia amazônica de avançar em larga escala.
Sem energia e conectividade, a bioeconomia perde valor na origem
A maioria das cadeias produtivas da sociobiodiversidade depende de comunidades extrativistas localizadas em áreas remotas, onde o acesso à energia elétrica, transporte, armazenamento e internet ainda é precário. Sem refrigeração na origem, as perdas se tornam inevitáveis: estima-se que 40% da colheita de açaí se perca por falta de frio e que até 50% das capturas de pirarucu sejam comprometidas pela ausência de gelo durante o transporte.
Sem energia confiável para despolpar, secar ou congelar no local de coleta, o processamento migra para centros urbanos distantes e com ele, os empregos e a renda. Apenas 20% da população regional tem acesso a conexões de internet de qualidade, o que impede cooperativas de coordenar logística, verificar preços em tempo real ou comprovar rastreabilidade de produtos da bioeconomia amazônica, exigida por compradores internacionais.
Amazônia precisa de logística para a floresta em pé
A bacia amazônica tem mais de 380 mil quilômetros de rios navegáveis, mas conta com apenas 730 portos e docas formais registrados, uma densidade muito baixa para o tamanho do território. Produtores da bioeconomia amazônica dependem de embarcações pequenas, rios com vazão imprevisível e ancoradouros improvisados que ficam inacessíveis nas secas. Para produtos perecíveis, qualquer atraso resulta em perda total da carga.
A infraestrutura de transporte da Amazônia foi historicamente planejada para escoar commodities, como grãos e minérios, por meio de rodovias, ferrovias e portos voltados à exportação em larga escala. Esse modelo, no entanto, não atende bem à economia extrativista, que opera com pequenos lotes dispersos, produção sazonal e produtos altamente perecíveis.
A falta de conexão terrestre regular entre diferentes áreas da região agrava o problema. A BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, é um dos exemplos mais simbólicos desse impasse: ao mesmo tempo em que poderia reduzir o isolamento logístico do Amazonas, sua reconstrução levanta preocupações ambientais pelo risco de ampliar a pressão sobre áreas florestais. O desafio, portanto, não é apenas abrir caminhos, mas criar uma infraestrutura compatível com a floresta em pé.
O Plano Nacional de Logística 2050 passou a incorporar as cadeias da sociobiodiversidade e estima que investimentos em hidrovias, pequenos portos de transbordo e infraestrutura refrigerada voltados a 13 produtos selecionados poderiam triplicar o PIB da Amazônia Legal até 2050, alcançando R$ 38,6 bilhões.
O valor que não fica na Amazônia
Um estudo do WRI Brasil sobre a cadeia do açaí mostra que apenas 18,7% do valor total gerado pelo produto, R$ 1,08 bilhão de um total de R$ 5,78 bilhões, fica na região de origem. Os outros 81,3% são capturados pela indústria de exportação e pelos centros urbanos do Centro-Sul do país, onde acontecem formulação, branding, embalagem e distribuição.
Sem agroindústrias locais certificadas, laboratórios de controle de qualidade ou embalagens adequadas, o produtor vende pelo preço que o atravessador oferece. Não há alternativa: sem capacidade de estocar ou processar, a colheita precisa ser vendida imediatamente.
Para que um ingrediente amazônico seja usado em cosméticos ou suplementos de alto valor, é preciso comprovar estabilidade, segurança, eficácia e atender às exigências regulatórias de agências sanitárias. Sem essa base científica, os ativos florestais tendem a ficar restritos ao apelo de marketing, sem diferenciação técnica que justifique seu valor diante de insumos sintéticos.
É nesse ponto que atua o Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), coordenado pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam) com diretrizes da Suframa. O programa usa um mecanismo de financiamento público-privado: empresas do Polo Industrial de Manaus com benefícios fiscais federais são obrigadas, pela Lei de Informática (Lei nº 13.674/2018), a reinvestir parte das receitas em pesquisa regional. Esses recursos são direcionados para projetos de inovação na bioeconomia.
Em maio de 2026, o PPBio anunciou que foram R$ 196 milhões investidos na Amazônia Ocidental e no Amapá, com incentivo a 51 negócios da bioeconomia na Amazônia. Entre os resultados: suplementos funcionais em pó de camu-camu e guaraná com propriedades antioxidantes preservadas; um sistema de rastreabilidade da castanha-do-pará por geolocalização e banco de dados auditável e uma prensa extratora artesanal de óleo de pracaxi para comunidades sem acesso à eletricidade.
O custo de provar que a produção é sustentável
Regras sanitárias pensadas para a agroindústria urbana de grande escala não se aplicam à realidade das unidades de despolpamento ribeirinhas. O resultado é que produtos de qualidade da bioeconomia amazônica ficam impedidos de circular formalmente fora do município de origem por falta de certificação adequada.
No mercado internacional, o custo fixo da certificação orgânica, independente do volume comercializado, inviabiliza sua manutenção para cooperativas de baixa receita, excluindo-as dos mercados que mais pagariam por seus produtos.
Há ainda incompatibilidades técnicas: o Brasil usa códigos alfandegários de 8 dígitos; a alfândega alemã exige 10. Para exportar produtos compostos como chocolates, cooperativas precisam preencher relatórios técnicos adicionais detalhando teores precisos de gordura, açúcar e umidade, gerando atrasos e risco de perda de carga.
A bioeconomia amazônica opera sob sazonalidade biológica e climática: a disponibilidade de frutos, sementes e óleos varia conforme a época do ano, o regime de chuvas e o acesso aos territórios. Indústrias compradoras de cosméticos e alimentos funcionais exigem fluxos estáveis de insumos, uma exigência difícil de cumprir sem estruturas adequadas.
Mesmo com apelo ecológico crescente, ingredientes amazônicos competem com insumos sintéticos produzidos em larga escala industrial, com custos previsíveis e cadeias de suprimento integradas. Sem comprovação científica de superioridade funcional, a competitividade dos ativos florestais fica limitada.
O crescimento do interesse comercial traz ainda o risco de greenwashing, uso da imagem da Amazônia sem que a cadeia produtiva beneficie comunidades locais ou garanta conservação real. O principal instrumento de controle, o cadastro SisGen, apresenta falhas. Na maioria dos registros de acesso ao patrimônio genético, não é possível identificar de qual comunidade indígena ou ribeirinha originou-se o conhecimento tradicional utilizado, o que dificulta a repartição justa de benefícios.
Manter a floresta em pé precisa ser economicamente viável
O desafio da bioeconomia amazônica não é apenas explorar a biodiversidade, é construir uma economia capaz de remunerar quem conserva a floresta, agregar valor localmente e distribuir melhor a riqueza gerada.
O Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), regulamentado pela Lei nº 14.119/2021, é um dos mecanismos em operação. O programa Floresta+ Amazônia, do Ministério do Meio Ambiente em parceria com o PNUD, já distribuiu mais de R$ 30 milhões a famílias extrativistas em nove estados, assegurando a conservação de mais de 190 mil hectares de floresta nativa.
Iniciativas como essa, combinadas com investimento em P&D, regulação adaptada ao extrativismo, energia limpa descentralizada e infraestrutura logística específica para a floresta, apontam o caminho. Para que a bioeconomia amazônica escale de forma consistente, esses elementos precisam avançar juntos e não de forma isolada.
“O episódio envolvendo o deputado Fausto Júnior expõe a deterioração do debate político e reforça a necessidade de uma disputa eleitoral baseada em respeito, transparência, propostas e civilidade democrática”.
A ameaça de morte relatada pelo deputado federal Fausto Júnior reacende um problema que vem contaminando o ambiente político brasileiro muito além das divergências ideológicas. A escalada do ódio, da intimidação e da desumanização do adversário passou a ocupar espaços que deveriam ser reservados ao debate de ideias, à apresentação de propostas e ao confronto legítimo de projetos para a sociedade.
Independentemente de posições políticas, simpatias eleitorais ou diferenças partidárias, qualquer ameaça, perseguição ou tentativa de silenciamento pela violência representa um ataque ao próprio ambiente democrático. O Amazonas já enfrentou momentos demais em que disputas públicas foram atravessadas por radicalismos, baixarias e métodos incompatíveis com a maturidade política que a população espera de seus representantes.
O processo eleitoral não pode se transformar numa arena de destruição moral ou de incentivo ao medo. O adversário não é inimigo. Divergência não pode ser licença para intimidação. E redes sociais não deveriam servir como combustível para campanhas de ódio, linchamentos virtuais ou estímulos indiretos à violência.
O debate político exige firmeza, crítica e até dureza argumentativa. Faz parte da democracia. O que não pode ser naturalizado é a lógica do “vale tudo”, em que reputações são esmagadas, famílias são expostas e ameaças passam a circular como se fossem parte do jogo.
O Amazonas possui desafios reais demais para desperdiçar energia pública em práticas subterrâneas. A população quer discutir segurança, emprego, saúde, infraestrutura, educação, desenvolvimento regional e perspectivas econômicas para o futuro do Estado. É nisso que uma campanha eleitoral séria deveria concentrar seus esforços.
A radicalização permanente produz um ambiente tóxico que afasta pessoas qualificadas da política, empobrece o debate público e amplia a sensação de insegurança institucional. Quando ameaças passam a ser toleradas ou relativizadas conforme a conveniência política de cada grupo, todos perdem.
O momento exige responsabilidade coletiva. Das lideranças políticas, das militâncias, das instituições, da imprensa e também dos eleitores. O Amazonas precisa dar exemplo de civilidade, equilíbrio e maturidade democrática.
Que as próximas disputas eleitorais sejam vencidas no campo das propostas, da capacidade de diálogo e da confiança popular. Sem intimidação. Sem violência. Sem jogo sujo. Porque a democracia só se fortalece quando o voto vale mais que o grito e quando a política consegue preservar algo que anda perigosamente escasso no país: o respeito.
“Sem dúvida alguma, a grande missão da reforma tributária será justamente esta: demonstrar que o país é capaz de construir um sistema mais eficiente sem abrir mão da segurança jurídica, da justiça regional e da visão estratégica de nação”
Por Átila Denys
Quero inicialmente agradecer a Pinheiro Neto Advogados pela recepção e pela parceria neste encontro que, com a participação da DDL – Denys, Dantas & Lopes, respondem pela construção conjunta deste debate que transcende a técnica jurídica e alcança uma dimensão maior: o futuro econômico, institucional e territorial do Brasil.
Discutir reforma tributária neste momento histórico, é discutir o país que desejamos construir nas próximas décadas. Para nós, amazônidas, esse debate possui ainda outra camada de significado. Ele envolve desenvolvimento regional, integração nacional, soberania, segurança jurídica, preservação ambiental e inclusão econômica.
A necessidade de reformar o sistema tributário brasileiro é evidente. O modelo atual tornou-se excessivamente complexo, litigioso, burocrático e ineficiente. Há distorções que comprometem investimentos, reduzem competitividade e dificultam a capacidade de crescimento da economia nacional. Simplificar tributos, racionalizar regras e ampliar a segurança jurídica são objetivos legítimos e necessários.
Mas toda grande transformação institucional exige capacidade de compreender as singularidades do país que se pretende reformar.
O Brasil não é homogêneo. Nunca foi.
Poucas regiões revelam de maneira tão clara essa assimetria quanto a Amazônia. E poucas políticas públicas sintetizam de forma tão intensa as contradições e os desafios do desenvolvimento nacional quanto a Zona Franca de Manaus.
Ao longo dos anos, consolidou-se em parte do debate público uma leitura simplificada da Zona Franca, frequentemente reduzida à ideia de benefício fiscal. Essa interpretação ignora a origem, a função e o papel estratégico que o modelo desempenha dentro da arquitetura constitucional brasileira.
A Zona Franca não nasceu tão somente como política tributária. Ela surgiu como projeto de integração nacional.
Representou uma escolha estratégica do Estado brasileiro diante da Amazônia. Em vez de abandonar a região à lógica predatória dos ciclos extrativistas, o país decidiu estimular a presença econômica formal por meio da indústria, da tecnologia, da pesquisa, da geração de empregos e da urbanização produtiva.
Essa decisão alterou profundamente a dinâmica regional.
Foto: Bruno Zanardo
O Polo Industrial de Manaus passou a estruturar cadeias produtivas complexas, movimentar logística, serviços, comércio, inovação e arrecadação pública. Sustenta centenas de milhares de empregos diretos e indiretos e contribui decisivamente para a estabilidade econômica do Amazonas.
Mais do que isso, criou uma alternativa concreta à devastação ambiental como mecanismo de sobrevivência econômica. Esse é um ponto que o restante do país, muitas vezes, observa com pouca profundidade. A floresta em pé também depende de uma economia viável.
Conservar a Amazônia exige ciência, fiscalização e compromisso ambiental, evidentemente. Mas exige igualmente emprego, renda, atividade empresarial formal e estabilidade institucional. Onde a economia legal enfraquece, avançam outras economias. O vazio econômico costuma ser rapidamente ocupado pela ilegalidade, pela degradação ambiental e pela criminalidade organizada.
Sob essa perspectiva, a Zona Franca desempenha uma função que ultrapassa o campo fiscal. Ela ajuda a sustentar presença produtiva brasileira na Amazônia e contribui para reduzir pressões econômicas sobre a floresta.
Por isso, a excepcionalidade constitucional do modelo não pode ser analisada como privilégio circunstancial. Ela decorre de fatores estruturais objetivos e permanentes.
A Amazônia enfrenta isolamento geográfico, elevados custos logísticos, baixa integração rodoviária nacional, limitações históricas de infraestrutura e enormes desafios operacionais. Nenhuma política séria de desenvolvimento regional pode ignorar essas condições materiais.
O verdadeiro debate da reforma tributária, portanto, não deve girar em torno da preservação abstrata de incentivos. A questão central é a preservação da competitividade regional.
Porque não existe indústria sem competitividade.
Não existe investimento sem previsibilidade.
E não existe desenvolvimento sustentável sem segurança jurídica.
A transição para o novo sistema tributário precisa ocorrer com responsabilidade institucional. O país deve assegurar que a modernização do modelo fiscal não produza efeitos colaterais de fuga de investimentos ou enfraquecimento da economia amazônica.
Esse risco não pode ser tratado como hipótese retórica.
Processos de perda de competitividade costumam ocorrer de maneira gradual e silenciosa. Empresas reorganizam cadeias produtivas, investimentos deixam de ser realizados, centros de decisão migram e, lentamente, instala-se um processo de erosão econômica difícil de reverter.
O desafio brasileiro consiste justamente em construir um sistema moderno sem desmontar instrumentos constitucionais que exercem funções estratégicas para a federação.
E aqui há um aspecto essencial. A defesa da Zona Franca de Manaus não interessa apenas ao Amazonas. Trata-se de uma pauta nacional.
Defender a Zona Franca significa defender equilíbrio federativo, integração territorial, presença econômica brasileira na Amazônia e estabilidade institucional. Significa compreender que desenvolvimento regional também é política de soberania.
A Amazôniadeixou há muito tempo de ocupar posição periférica na geopolítica mundial. O mundo inteiro passou a observar a região como ativo climático, patrimônio biológico, reserva mineral estratégica e espaço de influência global. Nesse contexto, preservar mecanismos capazes de fortalecer a presença econômica formal do Brasil na Amazônia tornou-se questão de interesse nacional.
A reforma tributária será julgada, nessa perspectiva, não somente pela capacidade de simplificar tributos, mas principalmente pela maturidade institucional de respeitar as diferenças estruturais do país.
O sucesso da reforma dependerá da habilidade do Brasil em combinar eficiência econômica com justiça regional. Modernização tributária não pode significar homogeneização das desigualdades.
Tenho convicção de que o diálogo entre setor produtivo, advocacia, academia, Congresso Nacional e Poder Judiciário será decisivo nesse processo. Encontros como este demonstram precisamente a importância da construção técnica, coletiva e institucional das soluções.
Átila Denys é advogado e economista, às vésperas de completar 50 anos de atuação no desenvolvimento socioeconômico e proteção da Amazônia. Fundador da DD&L Associados, maior escritório de direito empresarial de Manaus, da Videolar e da Fundação Paulo Feitoza,tornou-se um dos principais investidores da bioeconomia regional, com aportes em mais de 30 startups
O Brasil precisa avançar. Mas precisa avançar compreendendo suas realidades territoriais, econômicas e sociais.
A Amazônia não pode continuar sendo interpretada como questão periférica do desenvolvimento nacional. Ela é parte central do destino estratégico brasileiro.
Sem dúvida alguma, a grande missão da reforma tributária será justamente esta: demonstrar que o país é capaz de construir um sistema mais eficiente sem abrir mão da segurança jurídica, da justiça regional e da visão estratégica de nação.
Defender a indústria sustentável da floresta é também defender coesão nacional, estabilidade institucional e presença brasileira sobre o próprio território.
Coluna Follow-Up
A decisão de ingressar na ação como amicus curiae não surgiu de maneira episódica. Foi deliberada em Reunião Extraordinária do Conselho Superior do CIEAM, realizada em 20 de maio, com participação de conselheiros, associados, representantes do Governo Federal, do Governo do Estado, assessores da bancada parlamentar do Amazonas e dirigentes de entidades empresariais da indústria.
Este dado é politicamente relevante porque revela uma convergência rara em torno da percepção de que a discussão transcende interesses setoriais imediatos. O que está em jogo, na avaliação dos participantes, é a preservação de um pacto constitucional concebido para reduzir desigualdades regionais, assegurar estabilidade econômica à Amazônia Ocidental e manter instrumentos concretos de proteção territorial e ambiental.
Na manifestação apresentada à Justiça Federal, o CIEAM sustenta, entre outros pontos, a inadequação da via processual utilizada para questionar matéria tributária constitucionalmente protegida, além do risco econômico, social e institucional decorrente de eventual suspensão dos mecanismos compensatórios previstos na Lei Complementar nº 214/2025.
Na rotina das entidades de classe, há momentos em que determinadas ações institucionais ultrapassam o rito jurídico e assumem um significado histórico. Entendemos que o ingresso do Centro da Indústria do Estado do Amazonas como amicus curiae na ação movida pela FIESP contra dispositivos da Reforma Tributária relacionados à Zona Franca de Manaus pertence a essa categoria.
Aqui não se trata apenas de uma contestação processual. Muito menos de um embate episódico entre regiões econômicas do país. O que está em discussão, mais uma vez, é a legitimidade de um modelo constitucional concebido para reduzir desigualdades históricas, integrar o território nacional e oferecer ao Brasil uma alternativa concreta de desenvolvimento associada à preservação ambiental.
Ao longo de sua trajetória, o CIEAM jamais se limitou à condição de entidade corporativa no sentido estreito do termo. Desde sua fundação, em 1979, por lideranças empresariais que compreenderam a Amazônia como questão nacional, a instituição assumiu um papel de articulação política, formulação estratégica e defesa de um projeto regional conectado aos interesses permanentes do Brasil.
A história da entidade é marcada justamente pela percepção de que o Polo Industrial de Manaus não poderia sobreviver como simples enclave econômico. Sua permanência dependeria da capacidade de produzir efeitos estruturantes sobre o território, sobre o emprego, sobre a arrecadação pública, sobre a formação de capital humano e, sobretudo, sobre a manutenção da floresta em pé como ativo geopolítico brasileiro.
Por isso, cada ataque à Zona Franca de Manaus costuma carregar uma curiosa simplificação. Reduz-se um sistema complexo de integração regional à caricatura fiscal conveniente aos debates de ocasião. Ignora-se deliberadamente que a economia incentivada do Amazonas financia universidade pública multicampi, pesquisa científica, inovação tecnológica, interiorização do desenvolvimento, cadeias logísticas, arrecadação federal e estabilidade social em uma das regiões mais sensíveis do planeta.
Há também uma dimensão simbólica pouco observada fora da Amazônia. O CIEAM se consolidou como uma espécie de memória institucional da resistência econômica regional. Resistência feita menos de retórica e mais de permanência. Permanência diante de sucessivas reformas tributárias, crises cambiais, ciclos recessivos, incompreensões ideológicas e disputas federativas que frequentemente enxergam a Amazônia apenas como reserva ambiental abstrata ou fronteira mineral disponível.
Essa trajetória ajuda a explicar por que o debate sobre a Zona Franca dificilmente permanece restrito à economia. Na Amazônia, indústria, soberania territorial, proteção ambiental, integração logística e estabilidade social acabaram formando uma mesma equação histórica. Separar artificialmente esses elementos talvez seja um dos equívocos recorrentes de parte do debate nacional.
O significado do movimento atual está justamente na coerência entre origem, estatuto e ação institucional.
Quando o CIEAM ingressa numa disputa judicial para defender a manutenção do diferencial competitivo assegurado constitucionalmente à Zona Franca, não está apenas defendendo empresas associadas. Está reafirmando a própria razão de existir de uma entidade criada para proteger a sustentabilidade econômica, social e territorial da Amazônia Ocidental.
Isso ajuda a compreender por que a defesa do modelo amazônico passou, nos últimos anos, a incorporar novas linguagens e novos compromissos. O debate já não cabe apenas na gramática fiscal. Ele atravessa soberania, clima, segurança territorial, bioeconomia, ciência, transição energética e estabilidade democrática.
Poucos modelos econômicos no mundo convivem, simultaneamente, com produção industrial de alta complexidade e preservação de mais de 97% da cobertura florestal do território onde estão instalados. Esse dado deveria ser suficiente para deslocar parte do debate nacional para um campo mais racional e menos ideológico.
A reação institucional do CIEAM diante da ação da FIESP revela exatamente isso. Há uma compreensão madura de que o Brasil atravessa um momento delicado de reorganização tributária, geopolítica e ambiental. E que desmontar mecanismos constitucionais de equilíbrio regional, em nome de interpretações conjunturais ou disputas concorrenciais, significa aprofundar assimetrias históricas que o país jamais conseguiu resolver plenamente.
A rigor, permanece atual a intuição dos fundadores da entidade. A Amazônia não pode ser condenada à economia predatória pela ausência de alternativas legais, tecnológicas e produtivas. Defender a indústria sustentável da floresta é também defender coesão nacional, estabilidade institucional e presença brasileira sobre o próprio território.
Certamente por isso, o gesto do CIEAM tem hoje um peso que ultrapassa os autos do processo. Ele reafirma que a Zona Franca de Manaus continua sendo, acima de tudo, um pacto constitucional entre desenvolvimento, soberania e floresta.
Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, do portal brasilamazoniaagora.com.br.
Muito além do apelo comercial, ingredientes amazônicos usados em cosméticos mostram como bioeconomia, tecnologia e conhecimento local transformam sementes, resinas e frutos em produtos de alto valor agregado.
Antes de chegar às prateleiras dos grandes centros urbanos em forma de cremes, shampoos ou perfumes, muitos cosméticos começam sua trajetória na Floresta Amazônica. Óleos vegetais, manteigas e resinas extraídas da biodiversidade regional carregam propriedades cada vez mais valorizadas pela indústria da beleza.
Nos últimos anos, a busca por ativos naturais e cadeias produtivas mais sustentáveis ampliou o interesse por ingredientes amazônicos usados em cosméticos, como andiroba, copaíba e murumuru, hoje presentes em formulações para pele, cabelo e cuidados corporais.
Mas o avanço desse mercado levanta uma questão que vai além do apelo comercial: como transformar a biodiversidade amazônica em valor econômico sem repetir modelos de exploração predatória? É nesse ponto que a bioeconomia ganha espaço, propondo cadeias capazes de gerar renda para populações locais e manter a floresta em pé.
Grande parte dos ingredientes amazônicos usados em cosméticos se insere no universo dos Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNMs): frutos, sementes, óleos e resinas aproveitados na alimentação, em medicamentos, cosméticos e tecnologias tradicionais. Nesse modelo, a floresta gera renda sem que a árvore precise ser derrubada.
Para a bioeconomia amazônica, esses produtos são estratégicos por unir conhecimento tradicional, conservação e mercado. Como destaca o Idesam, “conhecer a cadeia dos PFNMs é importante não apenas pelo seu potencial de retorno econômico, mas também pelo impacto positivo que as atividades de produção não madeireira podem proporcionar às comunidades tradicionais e à conservação da floresta”.
A seguir, conheça alguns dos principais ingredientes amazônicos usados em cosméticos, suas características e aplicações, e o papel que podem desempenhar em uma economia capaz de valorizar a floresta e as populações que vivem nela.
Entre os ingredientes amazônicos usados em cosméticos, a andiroba é uma das espécies mais conhecidas no universo dos óleos vegetais. Extraído das sementes da andirobeira, árvore de grande porte comum em áreas de manejo florestal não madeireiro, o óleo é usado há gerações por populações amazônicas no cuidado com a pele, na cicatrização de machucados e como repelente natural.
Na indústria biocosmética, esse conhecimento tradicional ganhou novas aplicações. O óleo de andiroba aparece em sabonetes, cremes, óleos corporais e produtos capilares como shampoos, condicionadores e máscaras. A sua relevância está na combinação de ácidos graxos e compostos bioativos que hidratam, suavizam e protegem a pele, além de contribuir para a reparação da barreira cutânea.
Entre os componentes mais valorizados estão os ácidos oleico, palmítico e linoleico, que formam uma camada protetora sobre a pele e os fios, reduzindo a perda de água e aumentando a maciez. No segmento capilar, o óleo ajuda a selar as cutículas, reduzir o frizz e devolver brilho aos fios danificados.
O óleo de andiroba também contém compostos com ação anti-inflamatória, antisséptica e calmante, o que explica sua presença em produtos para peles sensíveis, oleosas ou acneicas, e também em formulações para couro cabeludo irritado ou com caspa e cosméticos pós-sol, pós-depilação e óleos de massagem.
Essa versatilidade faz da andiroba um dos ingredientes amazônicos mais estratégicos para o mercado de cosméticos naturais e dermocosméticos, já que em uma única matéria-prima, a indústria encontra hidratação, emoliência e ação calmante, sem depender de aditivos sintéticos.
Para a bioeconomia amazônica, isso se traduz em uma cadeia concreta de geração de valor: da coleta de sementes ao beneficiamento do óleo, a andiroba deixa de ser matéria-prima bruta e passa a integrar mercados de maior valor agregado.
Chamada de “milagre da floresta”, a copaíba é um dos ingredientes amazônicos usados em cosméticos mais versáteis da biodiversidade regional. Pertencente ao gênero Copaifera, a espécie fornece um óleo-resina extraído do tronco, substância densa e aromática que combina características de resina e óleo essencial.
Na cosmética, o óleo-resina se destaca pela presença de compostos bioativos com propriedades anti-inflamatórias, antimicrobianas, calmantes e antioxidantes. O mais estudado é o beta-cariofileno, associado ao cuidado de peles sensíveis, irritadas ou com tendência à acne. Mas outros compostos da resina também contribuem para sua ação protetora e para o interesse da indústria em formulações voltadas à regeneração e ao equilíbrio da pele.
Essa combinação explica a presença da copaíba em categorias muito distintas. Na skincare, aparece em sabonetes, cremes, séruns, loções e óleos corporais — com foco no controle da oleosidade, no cuidado de peles acneicas, na redução de vermelhidão e na recuperação da barreira cutânea. Por sua ação calmante, ela pode ainda compor balms, loções pós-sol e produtos pós-depilação.
No segmento capilar, entra em shampoos, tônicos e máscaras voltados ao couro cabeludo, especialmente em casos de caspa, descamação e irritação. Já na higiene oral, aparece em pastas de dente e enxaguantes, pelo aroma e pelo potencial antimicrobiano.
Por reunir aroma, emoliência, ação calmante e antioxidante em uma única matéria-prima com aplicação em tantas categorias, a copaíba é tratada pela indústria como um ativo multifuncional.
A cadeia da copaíba, no entanto, exige atenção ao manejo. A extração ocorre por perfuração controlada no tronco, que depois deve ser vedada, e a técnica precisa preservar a saúde da árvore. Quando bem manejada, a copaibeira permanece viva e continua produzindo óleo-resina por anos, tornando essa cadeia um exemplo de uso econômico da floresta em pé.
Para a bioeconomia amazônica, a copaíba representa uma oportunidade concreta de geração de renda sem derrubada. Com manejo responsável, rastreabilidade e beneficiamento local, o óleo-resina deixa de ser matéria-prima bruta e passa a integrar cadeias de maior valor agregado.
Palmeira nativa da Amazônia cujas amêndoas dão origem a uma manteiga vegetal muito valorizada pela indústria biocosmética. De textura rica e alta capacidade hidratante, tornou-se especialmente conhecida em produtos capilares, mas também aparece em formulações para pele, lábios, mãos, pés e cosméticos sólidos.
A manteiga é obtida pelo processamento das amêndoas e apresenta coloração amarelada, com ácidos graxos como oleico e linoleico, além de vitamina A. Essa composição, associada à hidratação, proteção e reparação, é o que consolida o murumuru entre os ingredientes amazônicos usados em cosméticos de maior apelo no mercado atual.
No segmento capilar, aparece em máscaras de tratamento, condicionadores, cremes de pentear, finalizadores e versões sólidas de shampoo e condicionador. A sua função é nutrir os fios, reduzir o ressecamento, controlar o frizz e formar uma camada protetora contra a perda de umidade — o que a torna especialmente indicada para cabelos secos, crespos, cacheados ou quimicamente tratados.
Em formulações bem desenvolvidas, contribui ainda para reduzir a porosidade e devolver brilho sem pesar, tornando-se um dos ingredientes amazônicos usados em cosméticos em linhas de reconstrução e nutrição capilar.
Nos cuidados com a pele, a textura sólida em temperatura ambiente, mas de fácil derretimento ao contato com o calor corporal, favorece seu uso em hidratantes, cremes para áreas ressecadas, balms labiais e produtos para mãos, pés, cotovelos e joelhos. Nesses casos, atua principalmente no reforço da barreira protetora, na melhora da elasticidade e na redução do ressecamento.
A versatilidade do murumuru também favorece seu uso em cosméticos sólidos e maquiagens, como batons e corretivos. Além de ajudar na estrutura do produto, contribui para uma aplicação mais macia, alinhada à tendência de fórmulas com menor uso de água e maior presença de ingredientes vegetais.
Um exemplo conhecido de sua aplicação em larga escala é a linha Ekos Murumuru, da Natura. Em 2019, a Máscara de Reconstrução do Fio Murumuru Ekos recebeu o prêmio francês Les Victoires de la Beauté na categoria inovação, dando visibilidade internacional ao ingrediente amazônico.
Antes de chegar aos produtos, porém, o murumuru percorre uma cadeia que começa na floresta: os frutos são coletados, os cocos quebrados, as amêndoas secas e a manteiga extraída. Esse processo pode envolver comunidades ribeirinhas, cooperativas e pequenas estruturas de beneficiamento, gerando renda sem exigir a derrubada da palmeira.
Em Nova Cintra, no Pará, a Cooperativa dos Produtores de Agricultura Familiar e Economia Solidária reativou uma usina de óleo vegetal e processou cerca de 25,8 toneladas de caroço de murumuru. A Embrapa estima que cada árvore gere entre 12 e 21 litros de manteiga, o que pode representar até R$ 840 por pé manejado. A cadeia também envolve empresas como a Natura, que compra de uma rede com mais de 3 mil famílias extrativistas.
Uma das palmeiras mais marcantes do Brasil, presente especialmente em áreas úmidas da Amazônia e do Cerrado. Conhecida por comunidades tradicionais como “árvore da vida”, fornece frutos, fibras, folhas e um óleo de coloração alaranjada-avermelhada, muito usado pela indústria biocosmética.
Extraído da polpa do fruto, o óleo de buriti é chamado de “ouro líquido” pela cor intensa e pela riqueza em compostos antioxidantes. É um dos ingredientes amazônicos usados em cosméticos voltados à nutrição da pele, proteção contra o ressecamento, luminosidade e cuidado pós-sol.
Na cosmética, o buriti se destaca pela ação antioxidante e emoliente. Os carotenoides ajudam a combater os efeitos dos radicais livres, associados ao envelhecimento precoce da pele, a vitamina E contribui para a proteção e a hidratação, e os ácidos graxos formam uma camada que reduz a perda de água, deixando a pele mais macia e os cabelos mais nutridos e brilhantes.
Por esse perfil, o óleo aparece em óleos corporais, hidratantes, cremes faciais, séruns, loções pós-sol, além de protetores labiais e máscaras capilares. Na pele, é usado para melhorar a elasticidade, reforçar a barreira cutânea e devolver viço a peles secas, opacas ou maduras.
Nos cabelos, protege os fios contra o ressecamento causado por sol, sal, cloro e poluição e ajuda a reduzir o aspecto áspero, melhorar o brilho e preservar a umidade da fibra capilar.
A cor vibrante do óleo também favorece seu uso em maquiagens com apelo sensorial, como iluminadores, batons, bases, BB creams e hidratantes bronzeadores, contribuindo tanto para a textura e a hidratação quanto para o efeito luminoso na pele.
Além do valor cosmético, o buriti tem grande importância para a bioeconomia: as folhas entram no artesanato, os frutos na alimentação e o óleo em cadeias de beleza e cuidados pessoais. Quando a coleta é feita de forma sustentável, a palmeira permanece em pé e continua gerando recursos ao longo do tempo. A cadeia do buriti também ajuda a valorizar veredas, igapós e outros ambientes alagáveis, ecossistemas fundamentais para a manutenção da água e da biodiversidade.
Árvore nativa de áreas úmidas da Amazônia, encontrada em regiões de várzea, o pracaxi fornece sementes das quais se extrai um óleo vegetal apreciado pela indústria biocosmética, sobretudo em produtos de alta performance para cabelo e pele.
Conhecido no mercado como “silicone natural”, o óleo de pracaxi chama atenção pela capacidade de formar uma película leve e sedosa sobre os fios e a pele, retendo a umidade, melhorando a maciez e criando sensação de proteção sem o toque pesado de ingredientes sintéticos.
O seu principal diferencial está na composição rica em ácido beênico, encontrado nesse óleo em concentração elevada, que contribui para o efeito condicionante: alinha a superfície dos fios, reduz o atrito, controla o frizz e aumenta o brilho.
Por isso, o pracaxi é muito usado em séruns reparadores, óleos finalizadores, máscaras e cremes de pentear voltados a cabelos cacheados, crespos, secos ou quimicamente tratados. Nos cabelos, atua como agente de acabamento e proteção: sela as cutículas, melhora a penteabilidade, reduz a aparência de pontas ressecadas e forma uma barreira contra a perda de água. Pode ainda aparecer em produtos com proposta de proteção térmica, indicados antes do secador ou da exposição a sol e poluição.
Na pele, o pracaxi é um dos ingredientes amazônicos usados em cosméticos pela ação emoliente e de suporte à barreira cutânea. Além do ácido beênico, o óleo contém ácidos oleico e linoleico, associados à elasticidade, hidratação e renovação. Aparece em cremes corporais, óleos de massagem, loções hidratantes e formulações voltadas a áreas ressecadas ou à melhora da textura da pele.
O ingrediente também tem espaço em maquiagens como bases, corretivos e batons, onde ajuda a melhorar o deslizamento e o conforto da aplicação. Para a indústria biocosmética, a relevância do pracaxi está na combinação de performance sensorial e origem vegetal: entrega brilho, maciez, emoliência e proteção — características procuradas em cosméticos naturais e em linhas de beleza limpa — e oferece às marcas a possibilidade de substituir ou reduzir ingredientes sintéticos sem abrir mão da experiência de uso.
Do ponto de vista da bioeconomia, sua cadeia depende da coleta das sementes, não da derrubada da árvore. Quando organizada com manejo adequado, beneficiamento local e participação de cooperativas ou comunidades extrativistas, a produção do óleo pode gerar renda recorrente em áreas de várzea, reforçando o valor econômico da floresta em pé.
Palmeira amazônica de grande porte cujo fruto dá origem a um óleo extraído da polpa. Pela cor, textura e composição rica em ácidos graxos, é frequentemente chamado de “azeite da Amazônia”.
Embora também tenha uso alimentar, o patauá ganhou espaço na indústria biocosmética pelos benefícios associados ao cuidado dos cabelos e da pele. Rico em ácido oleico, um tipo de ômega-9, o óleo nutre, suaviza e protege a fibra capilar, além de contribuir para a manutenção da umidade.
No segmento capilar, aparece em shampoos, condicionadores, máscaras de nutrição, óleos de tratamento, finalizadores e séruns para o couro cabeludo. A sua função principal é reduzir o ressecamento, melhorar a maleabilidade dos fios, diminuir a quebra ao pentear e devolver brilho e elasticidade. Em formulações com proposta de revitalização, também é associado ao fortalecimento dos fios e à redução da queda por enfraquecimento.
Além dos ácidos graxos, o patauá contém antioxidantes e nutrientes da polpa que ajudam a proteger contra o estresse oxidativo e a cuidar do couro cabeludo, tornando-o relevante em linhas voltadas à saúde capilar e à recuperação de fios danificados.
Na pele, o óleo é valorizado pela ação emoliente e pela boa compatibilidade com a barreira cutânea. Forma uma camada protetora leve que ajuda a manter a hidratação por mais tempo, o que explica sua presença em loções corporais, cremes hidratantes, óleos de massagem e produtos voltados a peles secas, maduras ou desidratadas.
A relevância do patauá para a indústria biocosmética está na combinação entre desempenho sensorial e origem vegetal: entrega maciez, brilho, nutrição e proteção em fórmulas capilares e corporais, ampliando o repertório de ingredientes amazônicos usados em cosméticos capazes de substituir ou complementar ativos sintéticos em produtos de maior valor agregado.
Do ponto de vista da bioeconomia, sua cadeia depende da coleta dos frutos, não da derrubada da palmeira. Como a espécie leva anos para produzir, cada árvore representa um patrimônio vivo para comunidades extrativistas. Quando a coleta respeita os ciclos da floresta e envolve manejo adequado, o patauá pode gerar renda recorrente, fortalecer cadeias locais e incentivar a conservação dos patauazais nativos.
Um dos maiores símbolos da sociobiodiversidade amazônica, a castanha-do-brasil vai além do uso alimentar: suas sementes também dão origem a um óleo vegetal muito utilizado pela indústria biocosmética.
Na cosmética, o óleo é reconhecido pela ação nutritiva, emoliente e antioxidante. Sua composição reúne ácidos graxos como o linoleico, ligado à manutenção da barreira protetora da pele, e o oleico, associado à maciez e à emoliência.
Juntos, ajudam a reduzir a perda de água, melhorar a elasticidade e deixar a pele com toque mais suave. A presença de vitamina E reforça o interesse da indústria: além de contribuir para a estabilidade das formulações, esse antioxidante ajuda a proteger contra agressões externas como poluição, vento e exposição solar.
Nos cuidados corporais, o óleo aparece em cremes, loções hidratantes, óleos de massagem e sabonetes voltados à hidratação intensa, com foco em nutrir, suavizar e recuperar a barreira cutânea, especialmente em peles ressecadas ou com perda de elasticidade.
No segmento capilar, é associado à etapa de nutrição dos fios. Presente em máscaras, condicionadores, finalizadores e reparadores de pontas, ajuda a devolver maciez, reduzir o frizz, melhorar o brilho e selar as cutículas, deixando os fios mais maleáveis e com aparência menos áspera.
O ingrediente também encontra espaço em produtos para unhas e cutículas: em séruns, ceras nutritivas e óleos fortalecedores, hidrata a região, reduz o ressecamento e melhora o aspecto de unhas quebradiças e cutículas rachadas. Essa versatilidade faz da castanha-do-brasil um dos ingredientes amazônicos usados em cosméticos mais completos para marcas que buscam componentes vegetais com diferentes aplicações.
A relevância da castanha-do-brasil, no entanto, vai além da fórmula. A castanheira é uma árvore nativa protegida por lei e sua produção depende de um ecossistema equilibrado, com polinizadores e dispersores presentes na floresta. Por isso, a coleta da castanha é uma das atividades extrativistas mais importantes da Amazônia e está diretamente ligada à manutenção da floresta em pé.
Açaí (Euterpe oleracea)
Um dos frutos amazônicos mais conhecidos no Brasil e no mundo, o açaí vai além do consumo alimentar, o óleo extraído da polpa também ganhou espaço em formulações voltadas à proteção antioxidante, hidratação e cuidado com pele e cabelos.
Na cosmética, o açaí se destaca pela presença de antocianinas, polifenóis e flavonoides, compostos antioxidantes responsáveis pela coloração arroxeada do fruto e pelo interesse da indústria em produtos de prevenção ao envelhecimento precoce. Esses compostos ajudam a proteger a pele contra os efeitos dos radicais livres, associados à exposição solar, à poluição e ao estresse urbano, fatores que contribuem para a perda de viço, elasticidade e firmeza.
Além dos antioxidantes, o óleo contém ácidos graxos como o oleico (ômega-9) e o linoleico (ômega-6), que favorecem a hidratação, melhoram a maciez e reforçam a barreira de proteção da pele, reduzindo a perda de água.
Por ter toque leve, pode ser usado em produtos faciais e corporais sem deixar sensação oleosa. O açaí também contém fitoesteróis, compostos com ação calmante e de recuperação da pele sensibilizada.
Por esse perfil, aparece em cremes faciais, séruns, loções hidratantes, brumas, BB creams e produtos antipoluição, usado principalmente para devolver luminosidade, melhorar o viço e reforçar a proteção diária contra fatores externos. O ingrediente dialoga bem com a tendência dos cosméticos urbanos, formulados para proteger pele e cabelo dos impactos da poluição, do sol e do ritmo das grandes cidades.
Nos cabelos, o óleo de açaí é aproveitado em shampoos, condicionadores, máscaras, finalizadores e reparadores de pontas, especialmente em linhas para cabelos tingidos ou quimicamente tratados. A sua ação emoliente ajuda a selar as cutículas, reduzir o frizz, suavizar pontas ressecadas e melhorar a aparência dos fios.
Para a bioeconomia amazônica, o açaí tem importância particular: sua cadeia já movimenta milhares de famílias ribeirinhas e extrativistas, principalmente pela venda da polpa para alimentação. O uso cosmético amplia esse potencial ao permitir o aproveitamento de subprodutos como caroços e frações oleosas dentro de uma lógica de uso mais integral da matéria-prima.
Fruto de uma palmeira espinhosa típica da Amazônia, especialmente associada ao Pará, o tucumã oferece dois insumos de interesse para a indústria biocosmética: o óleo extraído da polpa, de coloração alaranjada, e a manteiga obtida da amêndoa.
Na cosmética, é valorizado pela combinação entre compostos antioxidantes e ácidos graxos que nutrem, protegem e suavizam pele e cabelos. O óleo da polpa é rico em carotenoides, como o betacaroteno, pigmento associado à cor intensa do fruto e à ação antioxidante, enquanto a manteiga da amêndoa concentra ácidos graxos que formam uma camada protetora, reduzindo a perda de água e melhorando a maciez.
Essa composição garantiu ao tucumã espaço em produtos voltados à hidratação, luminosidade e cuidado com peles secas, maduras ou expostas ao sol. Em cremes faciais, séruns, loções corporais e produtos pós-sol, ajuda a reforçar a barreira cutânea, melhorar a elasticidade e devolver viço à pele.
O apelo associado à pró-vitamina A também o torna interessante em formulações com proposta de renovação e uniformização da textura, embora sem substituir ativos dermatológicos específicos, como os retinoides.
Nos cabelos, aparece em máscaras, condicionadores, cremes de pentear, finalizadores e produtos anti-frizz. A sua função é nutrir fios ressecados, reduzir a porosidade, melhorar o brilho e formar uma película leve de proteção contra a perda de umidade, especialmente em linhas voltadas a cabelos secos, cacheados, crespos ou quimicamente tratados.
O tucumã também pode compor balms labiais, manteigas corporais, sabonetes e cosméticos sólidos, onde atua como agente emoliente e estruturante: dá textura, melhora o deslizamento e o conforto da aplicação, além de hidratar áreas mais ressecadas como lábios, mãos, cotovelos e joelhos.
A relevância do tucumã para a indústria biocosmética está nessa dupla possibilidade de uso. O óleo da polpa se destaca pelos carotenoides e antioxidantes; a manteiga da amêndoa pela nutrição e proteção. Juntos, permitem que o fruto entre em diferentes categorias, ampliando seu potencial de valor agregado.
Do ponto de vista da bioeconomia, a coleta dos frutos, o aproveitamento da polpa e o uso da amêndoa podem gerar renda para comunidades locais sem exigir a derrubada da palmeira. As folhas ainda fornecem fibras para o artesanato, ampliando as possibilidades de aproveitamento da espécie. Em sistemas agroflorestais e áreas de recuperação, o tucumã pode ser utilizado para diversificar a produção e fortalecer alternativas econômicas em regiões amazônicas.
Ucuuba (Virola sebifera ou Virola surinamensis)
Árvore nativa de áreas alagáveis da Amazônia, especialmente das várzeas, a ucuuba tem nome de origem indígena que costuma ser traduzido como “árvore da gordura”. A referência vem do principal insumo extraído da espécie para a indústria biocosmética: uma manteiga vegetal densa, firme e altamente valorizada em produtos para pele, cabelo e cosméticos sólidos.
Na cosmética, a manteiga de ucuuba se destaca pela textura seca e pelo alto poder de hidratação. Diferente de outras manteigas vegetais mais oleosas, tem consistência firme em temperatura ambiente e boa absorção quando aplicada à pele, o que a torna útil em formulações que precisam entregar nutrição intensa sem deixar sensação pegajosa.
O seu principal diferencial está na presença de ácidos graxos, especialmente o mirístico e o láurico, que formam uma camada protetora sobre a pele, reduzindo a perda de água e contribuindo para a maciez. Esses compostos também favorecem a estrutura e a estabilidade de produtos como cremes, balms e cosméticos sólidos.
Por esse perfil, a ucuuba aparece em cremes faciais e corporais, loções firmadoras, manteigas hidratantes, balms labiais, sabonetes e desodorantes naturais em bastão. Em produtos voltados a peles secas, maduras ou sensibilizadas, sua função é reforçar a barreira cutânea, melhorar a elasticidade e ajudar na recuperação de áreas ressecadas como lábios, cutículas, calcanhares e cotovelos.
No cuidado capilar, a manteiga entra em shampoos e condicionadores em barra — onde ajuda a dar estrutura ao produto — e em máscaras e finalizadores, atuando como agente emoliente para reduzir o ressecamento e melhorar a maciez de cabelos secos, volumosos ou danificados.
A ucuuba também se alinha à tendência da beleza sem água, a chamada waterless beauty. Por ser uma manteiga firme, ajuda a substituir ceras sintéticas ou derivados de petróleo em formulações sólidas, oferecendo textura, estabilidade e apelo vegetal.
No passado, a árvore foi muito explorada pela madeira, usada em produtos de baixo valor agregado. Com a valorização cosmética das sementes, a espécie passou a representar um exemplo claro de como a bioeconomia pode mudar a lógica de uso da floresta: em vez de derrubar a árvore uma única vez, comunidades podem coletar seus frutos de forma recorrente.
Além dos óleos fixos e das manteigas vegetais, a Amazônia também fornece óleos essenciais usados em perfumes, sabonetes, cremes, óleos corporais e produtos de bem-estar. Entre os ingredientes aromáticos da floresta estão breu-branco, pau-rosa, priprioca, cumaru e puxuri, espécies que carregam aromas associados à identidade regional.
Esse grupo de insumos é relevante porque conecta cosméticos, biodiversidade e cadeias produtivas sustentáveis. É nessa frente que atua a Inatú Amazônia, marca coletiva criada com o apoio do Idesam, que reúne a produção de óleos vegetais e essenciais extraídos por cooperativas e associações de comunidades tradicionais, com proposta de fortalecer o comércio justo, ampliar o acesso ao mercado e gerar renda a partir da conservação da floresta.
Em 2023, o Idesam e as comunidades parceiras lançaram o primeiro óleo essencial de breu do mundo com certificação FSC para manejo florestal não madeireiro, um marco para a bioeconomia amazônica. O produto estreou na Naturaltech, uma das principais feiras de produtos naturais da América Latina, dentro de uma estratégia de valorização dos produtos florestais manejados de forma sustentável.
A iniciativa mostra como ingredientes aromáticos da floresta podem ganhar valor agregado quando associados a organização comunitária, manejo responsável e acesso a mercados especializados. Nesse modelo, a perfumaria e os cosméticos deixam de ser apenas vitrines para insumos amazônicos e passam a integrar uma cadeia capaz de contribuir para a conservação, a renda local e o reconhecimento dos territórios produtores.
Idesam mostra como bioeconomia pode gerar renda com a floresta em pé
A presença de ingredientes amazônicos em cosméticos não garante por si sustentabilidade. Para que a bioeconomia funcione de fato, é preciso criar estruturas capazes de organizar a produção, qualificar o beneficiamento, melhorar a logística e garantir rastreabilidade. Além de ampliar a participação das comunidades no valor final dos produtos.
Um exemplo desse esforço está na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uatumã, em São Sebastião do Uatumã, município localizado a cerca de 250 quilômetros de Manaus. Na região, a instalação de uma miniusina de beneficiamento de óleos vegetais amazônicos deu novo impulso à produção florestal não madeireira, com expectativa de gerar uma receita média de R$ 850 mil.
A iniciativa faz parte do projeto Cidades Florestais, desenvolvido pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), com investimento de R$ 400 mil do Fundo Amazônia. Segundo o instituto, a estrutura foi pensada para agregar valor aos produtos da floresta, ampliar o acesso das comunidades a mercados mais rentáveis e atender setores como o de cosméticos.
A miniusina tem capacidade mensal para produzir até 3 toneladas de óleos fixos e 90 litros de óleos essenciais. Entre os insumos beneficiados estão buriti, breu, priprioca, andiroba e copaíba, além de manteigas de cupuaçu e tucumã. Para o diretor técnico do Idesam, Carlos Koury, transformar a matéria-prima dentro da própria comunidade muda a lógica econômica local.
“Você sair da venda de uma semente, que entregaria na cidade a R$ 2 o quilo, e poder entregar um óleo a R$ 100 ou R$ 500 o quilo, é um resultado que a gente almeja para Uatumã”, afirmou Koury.
De acordo com o Idesam, mais de 300 famílias devem ser beneficiadas pela estrutura, que também busca diversificar fontes de renda e fortalecer o empreendedorismo social na região. A proposta é trabalhar com uma usina de uso múltiplo, capaz de atender diferentes cadeias produtivas a partir do aproveitamento sustentável da biodiversidade amazônica.
Mais recentemente, a miniusina da RDS do Uatumã passou por modernização por meio do projeto Green Harvest, desenvolvido pelo INDT em parceria com o Idesam para a Inatú Amazônia. A iniciativa levou automação ao beneficiamento de óleos vegetais e essenciais, com o objetivo de aumentar a eficiência, a qualidade e a competitividade da produção local.
O Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio) também tem buscado aproximar empresas, instituições de ciência e tecnologia, startups e cadeias extrativistas. Em 2026, o Idesam informou que produtos desenvolvidos no âmbito do programa incluíam cosméticos naturais e dermocosméticos formulados com bioativos da floresta, como copaíba, andiroba, pracaxi e murumuru.
Essas iniciativas mostram que a bioeconomia amazônica não depende apenas da existência de ingredientes valiosos. Ela exige tecnologia, pesquisa, investimento, compras responsáveis e modelos de negócio capazes de manter parte significativa do valor nos territórios. Essas iniciativas mostram que a floresta em pé pode ser a base de uma economia mais inteligente, capaz de unir ciência, conservação e renda local.
“Edição do Diálogos Amazônicos reúne representantes do governo, academia e setor privado para debater os caminhos da nova economia verde amazônica”
Instituído pelo governo federal em dezembro de 2024, o Selo Amazônia surgiu como uma estratégia para fortalecer a bioeconomia na região Norte, agregando valor a produtos desenvolvidos com responsabilidade socioambiental e compromisso com os povos originários e comunidades locais. A proposta busca estimular cadeias produtivas sustentáveis e ampliar a presença da Amazônia em mercados cada vez mais atentos a critérios de rastreabilidade, impacto social e conservação ambiental.
Para discutir os desdobramentos dessa iniciativa na atração de investimentos, na consolidação de negócios de impacto e na construção de uma política industrial verde para o país, a Fundação Getulio Vargas (FGV) realiza, nesta segunda-feira (25 de maio), mais uma edição do projeto Diálogos Amazônicos.
O webinar “Selo Amazônia, Investimentos Sustentáveis e Negócios de Impacto” reunirá Julia Cruz, secretária de Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), e Matheus Faria, sócio-fundador da Axcell, aceleradora de negócios de impacto voltada à Amazônia.
Com mediação de Márcio Holland, professor de Políticas Públicas da FGV EESP, o encontro deve abordar os desafios e as oportunidades para consolidar um modelo de desenvolvimento capaz de articular inovação, competitividade e sustentabilidade na Amazônia contemporânea.
O evento conta com apoio da Abraciclo — Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares. Aberto ao público, o webinar será transmitido ao vivo, a partir das 19h, pelo canal da FGV no YouTube. Mais informações e inscrições estãodisponíveis no link do evento.
Sobre a ABRACICLO e o Setor de Duas Rodas
Fundada em 1976 e contando com 15 associadas, a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares – ABRACICLO representa os fabricantes de veículos de duas rodas no país, tendo como principal missão promover o desenvolvimento sustentável e a competitividade do Setor de Duas Rodas, apoiando e defendendo a indústria nacional estabelecida no Polo Industrial de Manaus – PIM por meio dos pilares Política Industrial, Segurança Viária e Técnico.
A fabricação nacional de motocicletas, quase totalmente concentrada no Polo Industrial de Manaus (PIM), está entre as seis maiores do mundo. No segmento de bicicletas, com as principais fábricas também instaladas no PIM, o Brasil se encontra na quarta posição entre os principais produtores mundiais. No total, as fabricantes do Setor de Duas Rodas geram mais de 21,8 mil empregos diretos em Manaus/AM e mais de 154 mil em todo o Brasil.