A chegada de novos investimentos, a reorganização tributária do país e a Agenda Zona Franca de Manaus 2050 recolocam a Amazônia no centro de uma discussão que envolve indústria, inovação, proteção florestal e desenvolvimento regional. Mais do que atrair fábricas, o desafio passa a ser transformar competitividade econômica em prosperidade social e conservação ambiental.
Coluna Follow-Up
Quando a borracha perdeu protagonismo no mercado internacional, nas primeiras décadas do século passado, Manaus experimentou um fenômeno que marcaria profundamente sua relação com o restante do país. A cidade que havia financiado teatros, portos, iluminação pública e algumas das experiências urbanas mais sofisticadas da América Latina viu sua importância econômica diminuir rapidamente. Ao mesmo tempo, o eixo decisório nacional deslocava-se cada vez mais para o Centro-Sul.
Nas décadas seguintes, a economia brasileira passou por transformações profundas. A industrialização ganhou velocidade, novas rodovias conectaram mercados, grandes centros urbanos consolidaram-se como polos de investimento e consumo. Enquanto isso, a Amazônia permanecia distante dos circuitos que organizavam o crescimento nacional.
Uma resposta para o vazio
A criação da Zona Franca de Manaus, há quase 60 anos, nasceu desse contexto. Não foi uma concessão regional. Foi uma tentativa de responder a um problema concreto de ocupação econômica, integração territorial e soberania nacional numa região que ocupava mais da metade do território brasileiro e reunia menos de uma décima parte da população.
A distância dos julgamentos
Desde então, a história da Zona Franca passou a conviver com um paradoxo recorrente.
Embora os indicadores de arrecadação, emprego e conservação ambiental tenham se acumulado ao longo dos anos, o modelo permaneceu frequentemente submetido a avaliações formuladas a milhares de quilômetros da realidade amazônica. Em muitos casos, a análise partia de comparações entre Manaus e regiões dotadas de ferrovias, rodovias duplicadas, mercados consumidores próximos e cadeias produtivas construídas ao longo de mais de um século.
Um novo movimento da economia brasileira
A reportagem publicada pelo Valor Econômico nesta semana chama atenção justamente porque emerge de uma lógica diferente.
Ao examinar os efeitos da Reforma Tributária sobre a indústria eletroeletrônica, o jornal identifica uma tendência que começa a ser percebida por empresas, consultorias e investidores: a reorganização do sistema tributário brasileiro tende a reforçar a atratividade relativa da Zona Franca de Manaus para determinados segmentos industriais.
Não se trata de uma hipótese construída por lideranças amazonenses. A observação aparece a partir das próprias projeções feitas para empresas instaladas em outras regiões do país.
A reportagem menciona que a retirada progressiva dos incentivos estaduais poderá alterar significativamente a equação de competitividade de diversos empreendimentos. Em determinados casos, os custos tributários futuros passam a aproximar-se de patamares que tornam Manaus uma alternativa cada vez mais considerada nos planejamentos corporativos de longo prazo.
Os sinais que chegam a Manaus
O momento coincide com outra informação relevante. Em entrevista recente à Folha de S.Paulo, o superintendente da Suframa, Leopoldo Montenegro, confirmou a existência de aproximadamente duzentos novos projetos industriais em tramitação ou implantação no Polo Industrial de Manaus.
O número chama atenção não apenas pelo volume. Ele surge num período em que a indústria mundial atravessa um processo de reorganização produtiva impulsionado por disputas geopolíticas, busca por segurança nas cadeias de suprimentos, digitalização e transição energética.
A movimentação observada em Manaus faz parte desse cenário mais amplo. Durante a Conferência Zona Franca de Manaus 2050, realizada em Brasília por iniciativa da FIEAM, do CIEAM e da Confederação Nacional da Indústria, essa percepção apareceu em diferentes momentos do debate.
O economista Márcio Holland, da Fundação Getulio Vargas, recuperou uma questão antiga da economia brasileira. Durante muito tempo acreditou-se que o crescimento nacional acabaria reduzindo naturalmente as diferenças regionais. Os dados das últimas décadas mostram uma realidade mais complexa. As assimetrias persistem e continuam condicionando oportunidades, renda e qualidade de vida.
Ao analisar a Amazônia, Holland chamou atenção para um aspecto frequentemente negligenciado. O desafio regional não se resume à preservação ambiental ou à expansão econômica. Ele envolve infraestrutura, energia, conectividade, ciência, educação e capacidade institucional para transformar potencial em atividade produtiva.
A Amazônia real
A observação dialoga com uma preocupação recorrente entre empresários da região. Rebecca Garcia costuma lembrar que a Amazônia continua sendo comparada a realidades que não são as suas. Quem produz em Manaus enfrenta distâncias continentais, custos logísticos diferenciados, sazonalidades fluviais e limitações de infraestrutura que não encontram paralelo em grande parte do território nacional. Ainda assim, o Polo Industrial consolidou uma das mais importantes bases manufatureiras da América Latina.
Os números ajudam a compreender essa trajetória. Mais de 130 mil empregos diretos, centenas de milhares de ocupações indiretas, centros de pesquisa vinculados à Lei de Informática, investimentos permanentes em inovação e uma estrutura produtiva capaz de atender mercados nacionais e internacionais.
Crescimento e floresta
Antônio Silva, presidente da FIEAM, tem observado que esses resultados foram alcançados sem que o Amazonas repetisse a dinâmica de devastação registrada em outras fronteiras econômicas. Enquanto a indústria crescia, a cobertura florestal permaneceu amplamente preservada.
Esse dado costuma aparecer nas estatísticas ambientais. Mas ele também pode ser observado na paisagem. Basta percorrer algumas horas além dos limites urbanos de Manaus para compreender que a floresta continua sendo o elemento dominante do território.
Essa singularidade amazônica ajuda a compreender um aspecto raramente percebido fora da região. Cada novo investimento industrial aprovado na Zona Franca amplia uma economia formal que reduz pressões sobre a floresta. Em certo sentido, todo investidor que aposta em Manaus passa a integrar uma rede econômica que contribui para a manutenção da floresta em pé.
O que fazer com a força acumulada
Foi justamente essa convivência entre atividade econômica e conservação que levou Luiz Augusto Rocha, presidente do Conselho do CIEAM, a defender uma reflexão mais ampla sobre o papel da Zona Franca nas próximas décadas.
A Agenda ZFM 2050 parte de uma constatação simples. A indústria instalada em Manaus não encerra as possibilidades de desenvolvimento da Amazônia. Ela constitui uma base a partir da qual novas cadeias econômicas podem ser estruturadas.
Nesse contexto surgem temas como bioeconomia, digitalização, pesquisa aplicada, empreendedorismo regional, infraestrutura logística, energia limpa e conectividade.
Denis Minev, líder empresarial, tem insistido numa observação que merece atenção. A biodiversidade amazônica, por si só, não produz riqueza. O valor econômico surge quando conhecimento, tecnologia, capital e organização produtiva conseguem transformar recursos naturais em produtos, serviços, processos e propriedade intelectual.
Essa transformação exige tempo. Exige instituições. Exige investimento continuado. Exige uma economia capaz de sustentar ciência, pesquisa e inovação.
Por isso, talvez o aspecto mais interessante das notícias recentes não esteja apenas na possibilidade de novos investimentos industriais chegarem a Manaus.
O que emerge desses movimentos é a percepção gradual de que a Amazônia voltou a ocupar espaço nos cálculos estratégicos do país. Não como um problema a ser administrado à distância. Nem como uma paisagem a ser contemplada.
Mas como um território onde se cruzam temas que passaram a influenciar o futuro da economia mundial: segurança climática, biodiversidade, energia, tecnologia, soberania e produção industrial.
A Reforma Tributária não criou essa realidade. Os projetos anunciados pela Suframa também não. Ambos apenas ajudam a iluminar um processo que já vinha se desenhando silenciosamente.
Depois de décadas tentando explicar sua relevância ao restante do país, a Amazônia começa a ser observada novamente por razões que ela própria ajudou a construir ao longo de sua história recente.
Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal BrasilAmazoniaAgora.