Balanço do governo Wilson Lima aborda bioeconomia, índices de desmatamento e impasses na fiscalização e no caso da mineração em Autazes.
A gestão ambiental no Amazonas reúne algumas das principais contradições da agenda socioambiental brasileira. Maior estado da Amazônia Legal, abriga uma das maiores extensões de floresta preservada do país e ocupa posição estratégica nas discussões sobre clima, biodiversidade, bioeconomia e desenvolvimento sustentável.
Ao mesmo tempo, o território enfrenta pressões crescentes associadas a eventos climáticos extremos, desmatamento, infraestrutura, mineração e disputas sobre quais modelos de desenvolvimento devem orientar o futuro da região.
É nesse cenário que começa a série Eleições na Amazônia 2026: o saldo que chega às urnas, que vai analisar, estado por estado, como governos estaduais e governo federal responderam aos principais desafios socioambientais da Amazônia Legal nos últimos anos. Nesta primeira reportagem, o foco é a gestão ambiental no Amazonas, a partir dos anos de governo de Wilson Lima e da transição para Roberto Cidade.
Nos últimos anos, o estado incorporou com mais força temas como bioeconomia, adaptação climática e combate ao desmatamento ao discurso oficial. Planos, leis, programas e anúncios passaram a apontar para uma agenda de desenvolvimento sustentável. Mas o balanço que chega a 2026 exige olhar além da comunicação institucional: quanto dessa agenda virou política pública efetiva, com orçamento, fiscalização, presença territorial e melhoria concreta do Amazonas?
Do governo Wilson Lima à transição com Roberto Cidade
Para compreender o saldo socioambiental do Amazonas, é preciso considerar a diferença entre os períodos de governo analisados. Wilson Lima (União Brasil) concentrou o ciclo mais longo da gestão estadual recente.
Ele assumiu o governo em 2019, foi reeleito em 2022 e permaneceu no cargo até 2026, período em que acumulou promessas de campanha, programas anunciados, mudanças institucionais, respostas a crises ambientais e de saúde e indicadores que permitem um balanço mais amplo de sua atuação.
Já Roberto Cidade (União Brasil) assumiu o governo em um contexto de transição, após a saída de Wilson Lima para concorrer ao Senado. Por se tratar de um mandato tampão, ainda sem tempo suficiente para consolidar entregas próprias, sua gestão deve ser observada a partir dos primeiros movimentos: a composição do secretariado, a continuidade ou revisão de políticas já em andamento e o peso dado a temas como bioeconomia, adaptação climática, fiscalização ambiental e combate às queimadas.
A régua do balanço: o que foi prometido
Ao assumir o governo em 2019, Wilson Lima apresentou uma agenda que prometia modernizar o licenciamento ambiental e fortalecer órgãos como a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). O programa de 2018 também previa a criação de um Plano Estadual de Desenvolvimento Econômico Sustentável, com participação de entidades científicas, produtores, agroextrativistas e cooperativas, na tentativa de associar geração de renda, conservação ambiental e baixo impacto sobre a floresta.
Na campanha de 2022, esse discurso ganhou novos termos e prioridades. Bioeconomia, biotecnologia, ciência, inovação, conectividade e digitalização passaram a aparecer com mais força, ao lado de obras estruturantes.
Entre elas, a BR-319 ocupou lugar central na defesa do governo, apresentada como uma infraestrutura essencial para reduzir o isolamento do Amazonas, integrar o estado ao restante do país e impulsionar o desenvolvimento regional. Mas o que, de fato, marcou os anos do governo Wilson Lima? Entenda quais prioridades saíram do discurso e viraram política pública e quais agendas ficaram em segundo plano.
Licenciamento ambiental: modernização ou flexibilização?
Em janeiro de 2026, uma instrução normativa do Ipaam autorizou o uso de inteligência artificial e autodeclaração na renovação de Licenças de Operação (LO). Segundo o instituto, a medida não flexibiliza o licenciamento ambiental, mas apenas regulamenta um dispositivo já previsto no artigo 5º da Lei Estadual nº 3.785/2012, além de contribuir para reduzir a sobrecarga administrativa do órgão.
A mudança, porém, gerou críticas. Pesquisadores avaliam que o novo modelo desloca parte do controle ambiental para o período posterior à concessão da licença, o chamado “pós-licença”, o que pode ampliar riscos em um cenário de baixa fiscalização de campo.
Em entrevista ao portal O Eco, o diretor do Centro de Ciências do Ambiente da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), André Mendonça, alertou para a complexidade dos processos envolvidos. “Você está lidando com populações humanas, contaminação de rios, patrimônio genético, arqueológico e áreas indígenas. Não é um processo simples que possa ser resolvido apenas por regras automatizadas”, afirmou.
Para o biólogo e pesquisador Philip Fearnside, medidas de desburocratização do licenciamento ambiental podem contribuir para legalizar impactos indiretos, especialmente no entorno de rodovias como a BR-319. A crítica também aparece em análises sobre a concessão acelerada de licenças para projetos de mineração em áreas ocupadas por povos indígenas, como no caso da exploração de potássio em Autazes, em abril de 2024.
Nesses casos, pesquisadores e organizações socioambientais apontam o risco de priorização de grandes empreendimentos sem análise aprofundada de seus impactos socioambientais.
O debate sobre o licenciamento ambiental no governo Wilson Lima se concentra, portanto, em uma pergunta central: a modernização fortaleceu o controle ambiental ou priorizou o destravamento de empreendimentos de alto impacto?
A promessa de fortalecer Sema e Ipaam
Apesar da promessa de fortalecimento dos órgãos ambientais do Amazonas, o que se observa é a continuidade de um cenário de sobrecarga e precarização. Um dos principais pontos é a contratação de profissionais técnicos para a Sema e o Ipaam.
A estrutura administrativa dos dois órgãos revela forte dependência de indicações políticas, o que reforça a tese de fragilidade institucional. Na Sema, a desproporção é significativa: o órgão conta com cerca de 23 servidores efetivos diante de um quadro de 72 cargos comissionados autorizados, o equivalente a aproximadamente três indicações sem vínculo para cada servidor concursado.
Essa pirâmide invertida concentra funções estratégicas de chefia e assessoria em cargos de confiança, enquanto o corpo estatutário permanece estagnado, sem renovação por novos concursos.
No Ipaam, o gargalo técnico aparece na idade do quadro permanente, formado por muitos servidores admitidos entre 1979 e 1999 e já próximos da aposentadoria. Enquanto os concursados se concentram na base, cargos de alto escalão — como diretorias com salários na casa dos R$ 20 mil — são ocupados majoritariamente por comissionados sem vínculo efetivo.
A alta rotatividade compromete a eficiência e dificulta a continuidade administrativa, especialmente quando equipes técnicas de chefia são substituídas. Dados do Progestão mostram que, em 2022, ano de transição política, houve queda de 93,28% no cumprimento das metas técnicas de gestão hídrica. O cenário evidencia os efeitos da perda de memória institucional e da descontinuidade de projetos de longo prazo.
A análise dos indicadores ambientais do Amazonas entre 2019 e 2026 revela um período de extremos, onde sucessivos recordes de degradação foram seguidos por uma tentativa de estabilização institucional e tecnológica no final da gestão de Wilson Lima.
Floresta preservada sob pressão
Durante o governo Wilson Lima (2019-2026), o desmatamento no Amazonas seguiu uma trajetória de forte alta nos primeiros anos, seguida por uma inflexão e queda expressiva no fim do período. Embora o estado preserve cerca de 97% de sua cobertura vegetal original, dados do Inpe e do MapBiomas mostram que a floresta permaneceu sob pressão.
Entre 2019 e 2024, o Amazonas registrou recordes sucessivos de desmatamento, impulsionados principalmente pela expansão da fronteira agropecuária no sul do estado. As áreas mais críticas se concentraram no chamado “arco do desmatamento” amazonense, especialmente nos municípios de Apuí, Lábrea e Humaitá, associados ao avanço da pecuária e da soja.
A área de influência da BR-319 também apresentou variações relacionadas a anúncios de licitação e obras, atraindo ocupações irregulares antes mesmo da consolidação de medidas de controle.
A partir de 2025, houve uma mudança relevante na tendência. O estado encerrou o ano com o menor número de alertas de desmatamento dos últimos oito anos. Segundo o Inpe, os alertas caíram de 3.897 em 2024 para 2.798 em 2025, redução de 28,2%. O Ipaam atribuiu o resultado ao fortalecimento do monitoramento diário e ao uso de sistemas de satélite de alta resolução pela iniciativa Brasil M.A.I.S.
O avanço é significativo, especialmente porque o Amazonas permanece entre os estados mais pressionados pelo desmatamento, com forte incidência sobre áreas públicas e avanço da agropecuária. Ainda assim, uma medida polêmica marcou o período. Em agosto de 2025, Wilson Lima publicou o Decreto nº 52.216/2025, que permitiu reduzir a Reserva Legal no Amazonas de 80% para 50% em áreas de floresta.
O governo defendeu que a mudança facilitaria a regularização ambiental de imóveis rurais com passivos e tornaria a recomposição florestal mais viável economicamente. Pesquisadores, porém, argumentam que a medida pode funcionar como mecanismo indireto de legalização de áreas já desmatadas. A principal crítica recai sobre o uso do Cadastro Ambiental Rural (CAR), instrumento autodeclaratório que pode ser explorado por grileiros quando não há fiscalização adequada em campo.
Além do desmatamento, o governo Wilson Lima enfrentou um dos períodos mais críticos de queimadas na Amazônia. Em 2024, o Amazonas registrou recorde histórico de focos de calor, com 21.289 ocorrências contabilizadas pelo Inpe, o maior número desde o início da série, em 1998. A crise provocou emergência ambiental, impactos humanitários no interior e poluição severa em Manaus. A fumaça atingiu todas as 62 cidades amazonenses, enquanto queimadas no entorno da Região Metropolitana e no sul do estado deixaram a capital sob densas nuvens de fumaça em diferentes momentos do biênio.
Como resposta, o governo criou o Projeto ProAmazon, voltado a estruturar uma nova estratégia de combate ao fogo e reduzir a dependência do envio de equipes a partir de Manaus. Wilson Lima anunciou a aprovação de R$ 45 milhões do Fundo Amazônia para fortalecer a atuação do Corpo de Bombeiros contra incêndios florestais e queimadas não autorizadas. O foco foi a instalação de brigadas permanentes no interior. Até maio de 2026, 16 municípios já haviam sido contemplados com grupamentos de combate a incêndio.
A gestão de Roberto Cidade herda a tarefa de manter a queda do desmatamento e consolidar os avanços no combate às queimadas. Em janeiro de 2026, o Amazonas registrou redução de 70% nos focos de calor em comparação ao mesmo mês de 2025, segundo o Inpe.
Cidade manteve ações antecipadas para o verão de 2026, com o objetivo de evitar a repetição das crises humanitárias dos anos anteriores. Ainda assim, permanece o desafio de enfrentar a pressão agropecuária no sul do estado, conter o avanço sobre áreas públicas e transformar fiscalização, monitoramento e prevenção em políticas permanentes.
Crise hídrica expõe os limites da resposta emergencial
O período entre 2019 e 2026 no Amazonas foi marcado pela transição de uma postura reativa diante dos eventos extremos para uma tentativa de institucionalizar políticas de resiliência climática, impulsionada pelas secas mais severas da história registrada na região.
Nenhum tema expôs tanto o hiato entre o discurso governamental e a realidade do território quanto a gestão de desastres naturais. Entre 2023 e 2025, o estado enfrentou estiagens sem precedentes, que isolaram comunidades ribeirinhas, comprometeram o transporte de insumos e agravaram crises humanitárias no interior.
As secas afetaram drasticamente a navegabilidade dos rios, o acesso à água potável e a segurança alimentar de milhares de famílias, além de causarem prejuízo estimado em R$ 600 milhões.
Inicialmente, o governo Wilson Lima concentrou esforços em ações emergenciais, como a distribuição de cestas básicas e água. Nesse contexto, parte significativa do orçamento executado da Sema foi direcionada a respostas imediatas, em detrimento de investimentos preventivos e de longo prazo.
Um dos alvos de críticas foi justamente o orçamento da Sema, que sofreu redução de quase 31% entre 2024 e 2026. No mesmo período, os gastos do governo estadual com publicidade e comunicação superaram os recursos da pasta ambiental em cerca de 112%.
Por outro lado, houve avanços no marco regulatório de adaptação climática. Entre eles, destaca-se a Lei nº 6.528/2023, que estabeleceu diretrizes para os planos municipais de adaptação às mudanças climáticas, com foco na gestão de riscos associados a cheias e vazantes.
Em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, o estado também indicou municípios prioritários para receber suporte técnico na construção de resiliência por meio do Programa Adapta Cidades. Além disso, a Fapeam lançou editais específicos voltados à adaptação climática, fortalecendo pesquisas locais posteriormente apresentadas como um “portfólio de soluções” em fóruns internacionais, como a COP30.
Apesar do avanço legal e institucional, a implementação efetiva dessas políticas enfrentou gargalos estruturais e técnicos que limitaram seu impacto na ponta, especialmente nos municípios do interior.
A execução municipal esbarrou em restrições orçamentárias, ausência de equipes técnicas qualificadas, falta de metas quantitativas e carência de estratégias intersetoriais claras para transformar a resiliência climática em planejamento urbano e rural efetivo.
Nesse período, o governo estadual operou sob uma dualidade que marcou a escala das políticas de adaptação: a tensão entre resposta emergencial e prevenção. Enquanto as crises de estiagem exigiam ações imediatas, como distribuição de água e alimentos, os investimentos em infraestrutura resiliente de longo prazo avançaram de forma limitada.
O desafio de Roberto Cidade, nesse cenário, será garantir que o orçamento de 2026 sustente tanto o custeio da máquina pública quanto os investimentos necessários em adaptação climática e infraestrutura resiliente, especialmente nos territórios mais vulneráveis do interior amazonense.
Avanços na estruturação da bioeconomia
O mandato de Wilson Lima foi marcado pela inserção da bioeconomia no debate econômico do Amazonas. O governo buscou adaptar o estado às exigências do financiamento internacional e às agendas globais de sustentabilidade, defendendo a construção de uma “matriz econômico-ambiental” capaz de monetizar os ativos da floresta e levar renda ao interior.
Um dos pontos de maior visibilidade desse movimento ocorreu durante a COP30, realizada em Belém (PA), em novembro de 2025. No evento, o então governador do Amazonas anunciou o Plano Estadual de Bioeconomia, apresentado como uma política pública estruturada em diferentes eixos, como governança, descarbonização e negócios.
A base legal e institucional para a implementação do plano já havia sido estabelecida em janeiro de 2025, com a Lei nº 7.526/2025, que instituiu a Matriz Econômica-Ambiental e de Bioeconomia. A legislação passou a tratar a bioeconomia como pilar estratégico para o Amazonas, com o objetivo de atrair investimentos e estimular uma economia verde baseada no uso sustentável dos recursos naturais.
Posteriormente, o Decreto nº 53.901/2026 regulamentou o Plano Estadual de Bioeconomia do Amazonas e detalhou as diretrizes previstas na Lei nº 7.302/2025. Na prática, o decreto buscou tirar a bioeconomia do campo do discurso e transformá-la em metas administrativas, com prazos e atribuições definidas. Entre os objetivos estabelecidos estão a redução de 80% do desmatamento ilegal até 2030 e a capacitação de 15 mil pessoas em cadeias produtivas da bioeconomia.
O decreto também previu diretrizes para a regeneração de áreas degradadas por meio do cultivo de espécies nativas de valor comercial, como açaí e cacau. A proposta busca associar recuperação ambiental, geração de renda e fortalecimento de cadeias produtivas ligadas à sociobiodiversidade.
Outro ponto relevante foi o foco em fomentar a pesquisa e interiorizar a inovação. O decreto prevê a instalação de 10 centros de inovação no interior, com a proposta de aproximar o beneficiamento dos produtos da floresta dos territórios onde eles são extraídos, em vez de concentrar essa etapa apenas em Manaus.
Em janeiro de 2026, Wilson Lima anunciou um pacote de 15 editais de fomento à Ciência, Tecnologia e Inovação por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam). Os investimentos somaram mais de R$ 81 milhões e foram apresentados pelo governo como parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento da pesquisa científica no estado, que teria acumulado R$ 1 bilhão em recursos aplicados em CT&I desde 2019.
O decreto também detalhou critérios para que empresas do Polo Industrial de Manaus (PIM) possam receber incentivos fiscais ao investir em processos de economia circular ou em produtos da sociobiodiversidade. A medida buscou aproximar a agenda da bioeconomia do setor industrial, ampliando sua presença nas diretrizes econômicas do estado.
Apesar dos avanços institucionais, a legislação também gerou pontos de tensão. Um dos principais debates envolve a chamada “transferência de controle”, dispositivo que permite que entidades privadas e organizações do terceiro setor assumam a gestão de serviços e projetos em áreas protegidas. Para críticos, a medida pode fragilizar a proteção dessas unidades de conservação caso seja implementada sem fiscalização adequada, transparência e garantias de controle público.
Bioeconomia avança no papel, mas esbarra em orçamento e execução
Mesmo com um arcabouço legal robusto, a execução das políticas de bioeconomia enfrentou obstáculos de escala, orçamento e governança. Um dos principais gargalos foi a operacionalização financeira do Fundo Estadual de Bioeconomia, criado para dar suporte às ações do setor, mas ainda dependente, em 2026, da criação de uma legislação específica para garantir funcionamento pleno e menor vulnerabilidade à volatilidade do tesouro estadual.
Assim, muitas iniciativas permaneceram concentradas no plano institucional, com dificuldade para alcançar, de fato, comunidades tradicionais, produtores locais e municípios distantes da capital. Ao final do ciclo, a principal dúvida é se a bioeconomia conseguirá se consolidar como política de Estado ou se permanecerá como uma vitrine diplomática associada a fóruns internacionais.
De um lado, leis aprovadas, metas quantitativas para 2030 e a inclusão da economia circular como diretriz para o PIM indicam uma tentativa de estruturação. De outro, o lançamento de planos em eventos globais sem orçamento plenamente garantido no interior, se volta para a permanência de modelos econômicos baseados na exploração intensiva de recursos naturais e a resposta ainda reativa às crises climáticas revelam limites importantes.
O sucesso dessa transição, agora sob a gestão de Roberto Cidade, será medido pela capacidade do governo do Amazonas de transformar planejamento em orçamento real, presença técnica nos territórios e fiscalização em campo. Mais do que projetar o Amazonas como vitrine internacional da sustentabilidade, o desafio será garantir que a economia da floresta em pé dispute espaço, na prática, com a lucratividade da degradação.
BR-319: tensão entre integração logística e risco ambiental no Amazonas
Durante o mandato de Wilson Lima (2019-2026), a BR-319 foi um dos eixos centrais da agenda de infraestrutura do Amazonas e, ao mesmo tempo, um dos principais pontos de conflito ambiental da gestão.
O então governador adotou um discurso voltado à soberania, à integração regional e ao fim do isolamento terrestre do estado. Lima defendeu reiteradamente a pavimentação do chamado “trecho do meio” como uma questão de dignidade, segurança logística e redução do custo de vida.
Durante a pandemia de Covid-19, a ausência de conexão terrestre foi citada por Lima como um entrave ao escoamento de produtos e ao transporte de insumos essenciais, como oxigênio.
Entre 2019 e 2026, o governo estadual também pressionou o governo federal pela aceleração do licenciamento da rodovia, enquanto minimizava parte dos alertas apresentados por órgãos ambientais e especialistas. A principal crítica à gestão, nesse tema, recai sobre a incapacidade de conter a pressão ambiental na área de influência da BR-319, especialmente o avanço do desmatamento.

Monitoramentos do Observatório BR-319 indicaram que o desmatamento no entorno da rodovia teve relação com anúncios de licitações e expectativas de pavimentação do trecho do meio, impulsionando a especulação fundiária. Embora o governo defendesse a obra com a promessa de salvaguardas ambientais, como o plantio de 100 mil mudas e a instalação de passagens de fauna, imagens de satélite apresentadas no Senado em 2025 indicaram que a governança ambiental prevista era insuficiente para conter a degradação.
Ainda que o Amazonas tenha registrado queda geral no desmatamento em 2025, o sul do estado e o entorno da BR-319 permaneceram como áreas de alta tensão. A análise do período sugere que não houve uma estrutura efetiva de controle territorial e fiscalização robusta na região, o que favoreceu o avanço da fronteira agrícola, da especulação fundiária e da supressão vegetal ilegal.
Para as próximas gestões, o desafio será equilibrar os processos de licenciamento e a demanda por integração logística com governança ambiental, controle territorial e avaliação técnica rigorosa. A pavimentação da BR-319, caso avance, dependerá não apenas de obras e condicionantes formais, mas de uma presença permanente do Estado, capaz de impedir que a rodovia se transforme em novo vetor de degradação na Amazônia.
Autazes vira símbolo da tensão entre exploração de recursos e direitos territoriais
A mineração de potássio em Autazes, no sul do Amazonas, tornou-se um dos principais pontos de tensão jurídica e ambiental durante o governo Wilson Lima. O caso expôs o choque entre a defesa de um modelo de desenvolvimento baseado na extração predatória de recursos naturais e a garantia dos direitos territoriais indígenas, especialmente do povo Mura.
Conduzido pela empresa Potássio do Brasil, o projeto prevê a extração de silvinita para a produção de fertilizantes, insumo estratégico para o agronegócio brasileiro. Wilson Lima passou a defender o empreendimento como relevante para a soberania nacional e para a redução da dependência externa de fertilizantes.
Nesse contexto, o termo “potássio verde” foi incorporado ao discurso do governo em torno do projeto, para associar a mineração a uma agenda de sustentabilidade e atrair a atenção de mercados vinculados ao capital verde. A principal controvérsia, porém, está na localização da jazida. A área de interesse do se sobrepõe à Terra Indígena Soares/Urucurituba, território ainda não homologado, mas tradicionalmente ocupado pelo povo Mura.
A ausência de conclusão do processo demarcatório ampliou a insegurança territorial e abriu espaço para disputas envolvendo comunidades indígenas, empresa, governo estadual, órgãos federais e Ministério Público Federal. Por meio do Ipaam, o governo estadual buscou avançar no licenciamento ambiental do projeto.
A condução do processo, no entanto, foi contestada sob o argumento de que empreendimentos com impacto sobre terras indígenas devem ser licenciados pelo Ibama, na esfera federal. Outro ponto central das críticas foi a ausência de Consulta Prévia, Livre e Informada às comunidades afetadas, como prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
A disputa resultou em uma paralisação jurídica. O licenciamento conduzido pelo estado foi suspenso pela Justiça Federal, que apontou falhas no rito, especialmente pela ausência de participação adequada das comunidades indígenas e pela falta de legitimidade do Ipaam para autorizar a exploração em uma área com incidência sobre território tradicional.
Enquanto o governo estadual apresentava o projeto como essencial para a economia do Amazonas, o Ministério Público Federal e organizações indígenas denunciavam a pressão sobre o território Mura e os riscos de descaracterização cultural. Para os Mura, a disputa em Autazes não se restringe à mineração: ela está diretamente ligada a uma reivindicação territorial que se arrasta há décadas.
A área passou a concentrar ainda mais disputas após o avanço do projeto da Potássio do Brasil, estimado em US$ 2,5 bilhões. Em meio ao conflito, a Justiça chegou a determinar a devolução de terras compradas pela empresa e a retomada do processo de reconhecimento territorial, mas recursos e impasses mantiveram o caso em aberto.
A tensão aumentou após declaração de Wilson Lima, em 18 de abril, quando o governador afirmou ser “totalmente contra” a demarcação dos territórios indígenas do povo Mura em Autazes. Na ocasião, ele alegou que a presença de um território demarcado poderia impedir a exploração mineral de potássio. A fala foi criticada por organizações indígenas, como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, por desconsiderar a ocupação ancestral do povo Mura e os direitos constitucionais dos povos indígenas.
Na transição para o governo de Roberto Cidade, a mineração em Autazes permanece como um campo de disputa jurídica e política. A insistência em um modelo convencional de mineração em área reivindicada por povos indígenas contrasta com o discurso de bioeconomia e sustentabilidade que o Amazonas busca consolidar internacionalmente.
O caso revela uma contradição central da política ambiental do estado nos últimos anos: embora o Amazonas tenha avançado na criação de leis, planos e metas ligadas à bioeconomia e sustentabilidade, ele ainda enfrenta dificuldades para romper com modelos econômicos baseados na exploração intensiva de recursos naturais e na pressão sobre territórios tradicionais.















