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51 anos do SINAEES: Entre o estanho e o silício, uma Amazônia que aprendeu a fabricar futuro

Há exatos 51 anos, quando o Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos do Estado do Amazonas surgia em Manaus, o mundo ainda tentava compreender o alcance da revolução tecnológica que viria a moldar o século XXI. Os computadores ocupavam salas inteiras. A televisão colorida ainda era novidade em muitos países. O Japão despontava como potência industrial. A China sequer imaginava o papel que teria na economia global.

Na Amazônia, entretanto, já se desenhava silenciosamente uma escolha histórica.

Enquanto parte do Brasil enxergava a floresta somente como vazio demográfico ou fronteira extrativista, um grupo de empresários, técnicos, trabalhadores e visionários apostava que seria possível erguer aqui um parque industrial sofisticado, integrado às cadeias globais de tecnologia, sem destruir a floresta que protege o equilíbrio climático do planeta.

O SINAEES nasce nesse ambiente.

Nasce quando o Polo Industrial de Manaus ainda aprendia a caminhar. Nasce quando produzir eletroeletrônicos na Amazônia parecia improvável para muitos analistas do eixo econômico nacional. Nasce quando defender indústria na floresta exigia quase um ato de fé institucional.

51 ANOS DO SINAEES

Cinco décadas depois, o tempo respondeu.

A indústria eletroeletrônica instalada no Amazonas não somente ajudou a consolidar a Zona Franca de Manaus como política pública estratégica de integração nacional, como também participou da construção de uma das experiências mais singulares do desenvolvimento brasileiro contemporâneo. Uma experiência que conciliou geração de riqueza, preservação ambiental e soberania territorial em plena Amazônia. Poucos países do mundo conseguiram algo semelhante.

Enquanto regiões inteiras do planeta devastaram seus biomas para industrializar suas economias, o Amazonas preservou mais de 97% de sua cobertura florestal original. Não por acaso. Houve planejamento, investimento, renúncia de facilidades e, sobretudo, uma compreensão gradual de que floresta em pé e indústria tecnológica não eram conceitos incompatíveis. Eram, na verdade, complementares.

Nesse percurso, o SINAEES ajudou a organizar um setor decisivo para o Brasil.

Dos antigos aparelhos de som e televisores às modernas plataformas digitais embarcadas em automóveis, passando por celulares, motocicletas, equipamentos conectados, sistemas inteligentes e tecnologias da chamada Indústria 4.0, o setor eletroeletrônico amazônico tornou-se parte ativa das transformações produtivas globais.

  • O que antes era montagem passou a exigir engenharia.
  • O que antes dependia apenas de escala passou a depender de inteligência.
  • O que antes era mão de obra repetitiva passou a exigir formação técnica, automação, programação, análise de dados e inovação permanente.
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Indústria 4.0

Manaus deixou de ser periferia industrial para tornar-se plataforma estratégica.

Isso ocorreu graças a gerações inteiras de trabalhadores anônimos que atravessaram madrugadas em linhas de produção, técnicos que aprenderam novas linguagens tecnológicas sem abandonar suas raízes amazônicas, engenheiros que desafiaram a distância logística, gestores que enfrentaram crises cambiais, secas históricas, apagões, mudanças tributárias e ataques recorrentes ao modelo Zona Franca de Manaus.

A história do SINAEES é também a história dessa resistência.

Uma resistência silenciosa, quase nunca reconhecida em sua dimensão nacional.

Porque é fácil defender a Amazônia nos discursos internacionais. Mais difícil é compreender que existem milhões de brasileiros vivendo dentro dela, criando filhos, pagando impostos, construindo empresas e buscando dignidade sem recorrer à devastação como alternativa econômica.

Talvez esteja aí uma das maiores contribuições históricas da indústria eletroeletrônica do Amazonas: demonstrar que desenvolvimento sustentável não é retórica de conferência climática. É engenharia econômica. É política pública. É emprego formal. É arrecadação. É inovação. É permanência da floresta.

Hoje, quando o mundo discute transição energética, inteligência artificial, digitalização da economia, rastreabilidade ambiental e cadeias produtivas de baixo carbono, a Amazônia deixa de ser observada apenas como patrimônio ambiental para assumir progressivamente seu papel geopolítico.

E o Polo Industrial de Manaus passa a ser compreendido sob uma nova perspectiva. Não como exceção fiscal. Mas como infraestrutura estratégica de proteção territorial, estabilidade climática e soberania econômica brasileira.

O desafio dos próximos anos talvez seja ainda maior do que aquele enfrentado pelos pioneiros.

O século XXI exigirá da Amazônia muito mais do que conservação, mas principalmente a capacidade de liderar soluções. Bioeconomia, semicondutores verdes, mobilidade elétrica, economia circular, minerais estratégicos, inteligência artificial aplicada à floresta, monitoramento climático, integração digital da biodiversidade e tecnologias de baixo carbono formarão a nova fronteira do desenvolvimento mundial.

O Amazonas possui legitimidade histórica para participar dessa transformação. Mas isso dependerá de decisões corajosas.

Dependerá de infraestrutura compatível com o século atual. De energia confiável. De conectividade. De educação técnica. De pesquisa aplicada. De integração logística. De estabilidade institucional. E, principalmente, de autoestima regional. Porque nenhuma região prospera quando é obrigada permanentemente a justificar sua própria existência.

Ao completar 51 anos, o SINAEES celebra sua trajetória de entidade patronal atenta e atuante. E celebra, sobretudo, a permanência de uma ideia.

  • A ideia de que a Amazônia pode produzir alta tecnologia sem abrir mão de sua floresta.
  • A ideia de que desenvolvimento e preservação podem caminhar juntos.
  • A ideia de que o Brasil talvez ainda não tenha compreendido inteiramente a dimensão estratégica daquilo que construiu em Manaus.

Entre o estanho das antigas soldagens e o silício das novas plataformas digitais, existe uma história coletiva de coragem amazônica. Uma história que ajudou a manter a floresta viva enquanto fabrica futuro para o Brasil. E talvez seja exatamente isso que os próximos 51 anos pedirão de nós outra vez.

A ação da FIESP e o desafio de uma política industrial menos concentrada

“A iniciativa da FIESP contraria a necessidade de uma articulação nacional em favor da reindustrialização e da redução das desigualdades regionais”

A indústria nacional já foi 48% do PIB do país, em 1985. Hoje representa apenas 23,4%, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Com a reforma tributária e a nova política industrial, governos e legisladores trabalharam num caminho para ajustar a condição. Afinal, é como se pudéssemos dobrar a indústria nacional para voltar aos níveis que já tivemos. Com a nova política industrial e a reforma tributária combinadas, há um esforço nesta direção, pois o diferencial fiscal foi reduzido e a guerra fiscal combatida. 

Antes da reforma tributária aprovada, havia um espaço para a diferenciação tributária entre as unidades da federação, gerando diferenciais entre regiões e alguma insegurança. Na construção da mudança, o tributo passa primariamente para os estados consumidores. Ou seja, os ricos receberão mais tributos do que os pobres. Por aqui pode estar um problema e a criação de compensações foi um dos caminhos encontrados para ajustar a condição. 

Neste contexto, São Paulo possui 70 deputados federais, enquanto o Amazonas possui apenas 8. Mesmo com esta disparidade de forças políticas, a reforma foi feliz em manter os diferenciais tributários favorecendo a Zona Franca de Manaus (ZFM). Afinal, no Amazonas fica apenas 2,3% da indústria brasileira, enquanto São Paulo agrega 28,8% desta indústria, segundo o Perfil da Indústria da CNI.

Fiesp

Mesmo com tudo isso, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), ingressou com uma Ação Civil Pública contra os Benefícios Fiscais da ZFM no âmbito da reforma tributária. Se a indústria amazonense dobrasse de tamanho ela ainda seria pequena. Precisamos crescer em muito a indústria nacional, que só perde relevância ao longo de décadas.

Enquanto se esperaria uma união empresarial dos Estados brasileiros pelo desenvolvimento industrial, o que se verifica é o oposto. Quando há uma vitória para um potencial crescimento, com consequente redução das desigualdades, o que se percebe nesta ação é um combate contra uma oportunidade de crescimento industrial.

Mais do que uma disputa jurídica ou tributária, o que está em jogo é o tipo de país que se pretende construir: um Brasil concentrado, em que os mais fortes acumulam ainda mais vantagens, ou uma nação capaz de usar sua política fiscal para estimular o desenvolvimento regional e reduzir desigualdades históricas. Atacar a ZFM, nesse contexto, é atacar não apenas um modelo de incentivo que permaneceu na reforma tributária, mas a própria ideia de um país mais equilibrado e menos desigual.

Atacar a reduzida participação relativa de Manaus no conjunto da indústria brasileira, justamente em um contexto de declínio industrial no país, significa enfraquecer uma oportunidade concreta de expansão produtiva. A iniciativa da FIESP contraria a necessidade de uma articulação nacional em favor da reindustrialização e da redução das desigualdades regionais. 

Em vez de somar esforços para fortalecer a indústria brasileira como um todo, a contestação à Zona Franca de Manaus atinge uma das poucas políticas industriais que produziram resultados consistentes ao longo do tempo. Esse tipo de postura dificulta a construção de uma estratégia nacional de desenvolvimento mais equilibrada e integrada, além de afrontar toda a concertação política que viabilizou a reforma tributária, com toda a força que o Estado de São Paulo já possui, usando-a muito além do razoável.

A quem interessa fragilizar a Zona Franca de Manaus?

A ação judicial movida pela FIESP e pela ABINEE contra dispositivos da regulamentação da Reforma Tributária recoloca em debate um tema que o Brasil ainda insiste em tratar de maneira superficial: o papel estratégico da Zona Franca de Manaus para a economia nacional, para a integração territorial e para a estabilidade socioambiental da Amazônia.

ZONA FRANCA DE MANAUS
Foto divulgacão

O SINAEES-AM acompanha o tema com serenidade institucional, mas também com a responsabilidade histórica de representar o maior polo eletroeletrônico das Américas, instalado no coração da floresta amazônica e consolidado ao longo de décadas como uma experiência singular da indústria brasileira.

Causa perplexidade observar que justamente setores que tradicionalmente defendem segurança jurídica, previsibilidade regulatória e estabilidade institucional optem agora por questionar judicialmente um modelo cuja proteção constitucional não nasceu de conveniência fiscal, mas de uma decisão estratégica do Estado brasileiro.

A Zona Franca de Manaus não surgiu para criar privilégios regionais. Ela foi concebida para enfrentar desigualdades históricas, assegurar presença econômica formal numa região continental sensível e oferecer ao Brasil uma alternativa concreta ao avanço da ocupação desordenada, da devastação ambiental e das economias ilegais.

A regulamentação aprovada pelo Congresso Nacional não criou vantagens inéditas para o modelo amazônico. Apenas preservou, dentro da nova arquitetura tributária brasileira, as condições necessárias para a continuidade de um sistema produtivo que movimenta cadeias industriais nacionais, gera centenas de milhares de empregos diretos e indiretos, arrecada tributos relevantes e sustenta uma economia de base formal numa das regiões mais estratégicas do planeta.

É importante lembrar que todo esse processo ocorreu após amplo debate democrático, envolvendo audiências públicas, discussões técnicas, participação parlamentar, consultorias especializadas, representantes empresariais, governos estaduais e segmentos produtivos de diferentes regiões do país.

Não houve improviso legislativo. Não houve ruptura institucional. Houve discussão pública e decisão soberana do Congresso Nacional.

O que parece persistir, entretanto, é uma visão limitada sobre o significado contemporâneo da Amazônia para o Brasil. Ainda existe quem enxergue a região apenas como fronteira mineral, reserva ambiental ou problema logístico, ignorando que aqui também existe indústria de alta complexidade, engenharia avançada, inovação tecnológica, produção em escala global e uma economia comprometida com a formalidade e com a manutenção da floresta em pé.

O Polo Industrial de Manaus, especialmente no segmento eletroeletrônico, tornou-se referência continental em capacidade produtiva, geração de empregos e integração industrial. Sua existência ajudou a estruturar cadeias nacionais de suprimentos, fortalecer a indústria brasileira e consolidar um ambiente econômico que reduz pressões predatórias sobre a floresta amazônica.

Fragilizar esse modelo não fortalece automaticamente outras regiões industriais do país. Apenas amplia vulnerabilidades econômicas, sociais e ambientais numa área historicamente sensível da Federação.

Rui Barbosa advertia que “fora da lei não há salvação”. E foi precisamente dentro da Constituição, dentro do pacto federativo e dentro das regras democráticas que a regulamentação tributária preservou as garantias históricas da Zona Franca de Manaus.

O SINAEES-AM continuará defendendo, de forma técnica e institucional, a segurança jurídica, a previsibilidade regulatória e o reconhecimento de que a Amazônia precisa ser compreendida não como periferia econômica do país, mas como parte central de qualquer projeto sério de desenvolvimento nacional, soberania territorial e sustentabilidade brasileira.

Amazônia Inteligente quer transformar a região em protagonista da economia da IA

Enquanto o mundo acelera a corrida tecnológica em torno da inteligência artificial, a Amazônia começa a discutir qual lugar pretende ocupar nesse novo mapa econômico global. O evento Amazônia Inteligente, organizado por Ítalo Reis e Vania Thaumaturgo, surge nesse contexto como uma tentativa de aproximar formação tecnológica, inovação regional e desenvolvimento sustentável.

Com trilhas voltadas à inteligência artificial, automação, inovação e novos modelos de negócios, a iniciativa busca preparar profissionais, empresas e estudantes para uma economia cada vez mais orientada por dados e sistemas inteligentes. Mais do que acompanhar tendências globais, o projeto propõe uma reflexão sobre como a Amazônia pode construir soluções próprias, alinhadas aos seus desafios territoriais, ambientais e sociais.

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Empresário e designer de jogos lúdicos com atuação voltada ao desenvolvimento da inteligência cognitiva, aprendizagem estratégica e inovação educacional e Presidente do Instituto Amazônia Inteligente

A inteligência artificial deixou de ser um tema restrito às grandes empresas de tecnologia e passou a influenciar praticamente todos os setores econômicos. Qual é hoje o principal objetivo do Amazônia Inteligente?

ÍTALO REIS – Nosso principal objetivo é democratizar o acesso ao conhecimento sobre inteligência artificial e preparar a Amazônia para participar ativamente dessa transformação global. A IA já está impactando indústria, comércio, educação, saúde, comunicação e gestão pública. Não podemos permitir que a região fique apenas observando essas mudanças acontecerem em outros centros.

O Amazônia Inteligente nasce justamente para criar pontes entre tecnologia, formação profissional, empreendedorismo e desenvolvimento regional. Queremos estimular talentos locais, fortalecer o ecossistema de inovação e mostrar que a Amazônia também pode produzir soluções tecnológicas relevantes.

Muito se fala sobre a Amazônia como patrimônio ambiental do planeta. O evento propõe também uma Amazônia tecnológica?

ÍTALO REIS – Sem dúvida. A Amazônia não pode ser vista apenas como um território de preservação ou de contemplação ambiental. Existe aqui uma população jovem, criativa, empreendedora e com enorme capacidade de inovação.

A tecnologia pode ser uma aliada fundamental da floresta em pé. Inteligência artificial aplicada ao monitoramento ambiental, à bioeconomia, à logística regional, à saúde em áreas remotas e à educação são exemplos concretos de como inovação e sustentabilidade podem caminhar juntas.

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Foto divulgação

Quais benefícios concretos essas trilhas podem trazer para estudantes, profissionais e empresas da região?

ÍTALO REIS – As trilhas oferecem capacitação prática e contato direto com ferramentas e metodologias que já estão sendo utilizadas no mercado. Isso amplia a empregabilidade, estimula novos negócios e ajuda empresas locais a entenderem como incorporar IA em seus processos.

Existe também um efeito estratégico importante. Quando fortalecemos competências tecnológicas na região, reduzimos dependência externa e criamos condições para o surgimento de startups, soluções regionais e novos modelos econômicos ligados ao conhecimento.

A Amazônia corre o risco de ficar à margem dessa nova economia digital?

ÍTALO REIS – Esse risco existe se não houver investimento em formação, conectividade e construção de ecossistemas de inovação. O mundo vive hoje uma transformação comparável às grandes revoluções industriais. Quem não se preparar tende a ampliar desigualdades.

Por outro lado, a Amazônia possui vantagens competitivas importantes. Temos biodiversidade, desafios complexos que exigem soluções inovadoras, centros de pesquisa, universidades e uma nova geração muito conectada às transformações digitais. O que precisamos é integrar esses ativos.

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Como você imagina a Amazônia daqui a dez anos no contexto da inteligência artificial?

ÍTALO REIS – Imagino uma Amazônia mais conectada, produzindo tecnologia, formando talentos e participando de cadeias globais de inovação sem abrir mão de sua identidade e de seus compromissos ambientais.

A inteligência artificial pode ajudar a gerar oportunidades, melhorar serviços públicos, aumentar produtividade e fortalecer uma economia baseada em conhecimento e sustentabilidade. O mais importante é garantir que essa transformação aconteça com protagonismo regional.

A inteligência artificial já deixou de ser uma promessa distante. Ela começa a redefinir economias, profissões e modelos de desenvolvimento em escala global. Inserir a Amazônia nesse debate significa ampliar horizontes para uma região que historicamente esteve distante dos grandes centros de decisão tecnológica.

Mais do que um evento, o Amazônia Inteligente ajuda a sinalizar uma mudança de postura. A floresta continua sendo patrimônio ambiental estratégico, mas passa também a reivindicar espaço como território de inovação, ciência e inteligência aplicada ao futuro

A floresta, o vazio e os economistas

O Amazonas vive uma contradição silenciosa. Talvez uma das mais profundas de sua história recente.

O estado abriga economistas qualificados, pesquisadores experientes em desenvolvimento regional, logística, política industrial, finanças públicas, economia ambiental e planejamento territorial. Muitos conhecem, como poucos, as limitações estruturais da Amazônia. Conhecem os custos da distância, a dependência hidroviária, a baixa densidade econômica, os gargalos energéticos, a fragilidade do interior e o peso fiscal concentrado em Manaus.

Ainda assim, justamente no momento em que o mundo inteiro discute o futuro da Amazônia, o estado parece atravessar um curioso vazio de formulação econômica própria.

O debate amazônico passou a ser conduzido quase integralmente por narrativas ambientais, climáticas e conservacionistas. Muitas delas legítimas. Algumas necessárias. Mas frequentemente formuladas a partir de uma visão abstrata do território, pouco conectada à complexidade produtiva, social e logística da Amazônia real.

a floresta

E talvez aí esteja o centro do problema.

Ao longo das últimas décadas, a inteligência econômica regional acabou se concentrando quase exclusivamente na defesa, manutenção e modernização do Polo Industrial de Manaus. O PIM sustenta empregos, arrecadação, consumo, estabilidade fiscal e presença estratégica do Brasil na região. Sua importância histórica é incontestável.

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Enquanto os debates se concentravam em incentivos fiscais, reforma tributária, competitividade industrial e cadeias eletroeletrônicas, o interior desaparecia do centro da formulação estrutural do estado.

Pouco se avançou na construção de uma teoria econômica operacional para o interior amazônico profundo. E quando economistas deixam espaços vazios, outros atores inevitavelmente os ocupam. Foi exatamente isso que aconteceu.

Nos últimos anos, multiplicaram-se propostas apresentadas como solução econômica para a Amazônia: bioeconomia, créditos de carbono, serviços ambientais, ativos florestais, cadeias sustentáveis, monetização da floresta em pé. Algumas dessas iniciativas possuem mérito real. Outras representam oportunidades relevantes de renda local, inovação científica e valorização territorial.

O problema começa quando conceitos complementares passam a ser tratados como substitutos integrais de uma estratégia econômica regional. Existe diferença entre gerar experiências econômicas pontuais e sustentar milhões de pessoas distribuídas num território continental, marcado por isolamento logístico, baixa integração de mercado e infraestrutura precária.

Nenhuma economia regional se estrutura apenas com simbolismo ambiental.

Toda experiência histórica de desenvolvimento exigiu escala, produtividade, engenharia, energia, infraestrutura, densidade econômica, capacidade tecnológica e acumulação de capital. A Amazônia possui especificidades profundas, mas não está imune às leis básicas da organização econômica. Essa talvez seja a parte mais delicada do debate contemporâneo.

Em certos círculos internacionais, consolidou-se quase uma expectativa implícita de que o interior amazônico deva permanecer economicamente “leve” para preservar a estabilidade ecológica global. Como se desenvolvimento material mais sofisticado representasse, por definição, uma ameaça ambiental inevitável.

O problema dessa lógica é que ela frequentemente reduz populações amazônicas à condição de guardiãs passivas da floresta.

Como se milhões de brasileiros não tivessem também direito histórico à engenharia, à urbanização qualificada, à infraestrutura moderna, à conectividade, à industrialização compatível, à segurança energética e à complexidade econômica que o restante do país considera natural para si mesmo. Existe uma dimensão quase paternalista em parte desse discurso.

Fala-se muito da floresta. Fala-se pouco das cidades amazônicas.

Fala-se da biodiversidade. Muito menos da baixa produtividade regional, do colapso logístico sazonal, da dependência extrema do setor público, da evasão de talentos ou da fragilidade econômica dos municípios isolados.

O interior amazônico não pode ser tratado apenas como uma grande zona simbólica de compensação climática do planeta. Ele é um território humano. E territórios humanos demandam desenvolvimento complexo.

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A questão verdadeira, portanto, não é escolher entre economia e preservação. Essa simplificação empobrece o debate. O desafio histórico do Amazonas é muito mais sofisticado.

Trata-se de descobrir como construir densidade econômica compatível com a floresta.

Essas perguntas exigem liderança intelectual. E talvez seja justamente aí que o Amazonas ainda esteja devendo a si mesmo.

Há produção acadêmica relevante. Há diagnósticos técnicos consistentes. Há pesquisadores altamente preparados. Mas ainda não emergiu uma escola de pensamento econômico amazônico com força suficiente para organizar uma visão estrutural de longo prazo para o território.

Uma escola capaz de integrar economia, engenharia, logística, bioindústria, energia, ciência, geopolítica e preservação ambiental dentro de um mesmo projeto regional.

  • Sua geografia altera custos.
  • Sua hidrografia redefine a logística.
  • Sua floresta impõe restrições produtivas próprias.
  • Sua baixa densidade populacional altera toda a equação de infraestrutura.
  • Seu isolamento encarece competitividade.

Importar modelos econômicos convencionais sem adaptações profundas é um erro analítico. Mas responder a isso apenas com slogans ambientais também é insuficiente.

Talvez essa seja a tarefa histórica da atual geração de economistas amazonenses. Não apenas defender o Polo Industrial de Manaus, embora isso continue sendo vital. Nem apenas reagir às agendas formuladas em Brasília, Washington, Nova York ou Bruxelas. Mas produzir pensamento regional soberano.

Um pensamento capaz de compreender que a floresta amazônica possui importância planetária sem transformar seus habitantes em espectadores passivos de decisões tomadas por outros. Porque, no fim, a maior vulnerabilidade da Amazônia talvez não seja apenas econômica ou ambiental. Talvez seja intelectual.

Um território gigantesco, estratégico e decisivo para o século XXI ainda tentando compreender qual projeto deseja construir para si mesmo.

Estevão Monteiro de Paula é professor e PHD em engenharia de estruturas em Tenesse University e São Carlos/USP

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Como o Idesam transforma compensação de carbono em reflorestamento amazônico

Iniciativa do Idesam transforma emissões corporativas em reflorestamento produtivo, unindo conservação ambiental, biodiversidade e renda na Amazônia.

A compensação de emissões de carbono tem se tornado uma das estratégias adotadas por empresas que buscam reduzir impactos ambientais e aproximar suas práticas corporativas de compromissos socioambientais. Na Amazônia, iniciativas de reflorestamento têm conectado o setor privado a projetos de recuperação de áreas degradadas, geração de renda e valorização da floresta em pé.

Um exemplo é a parceria entre a Petronect e o Idesam. Em março deste ano, representantes do Comitê ASG da empresa estiveram na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã, no Amazonas, para conhecer de perto os resultados das ações apoiadas pela companhia na região.

A imersão, guiada pelo Idesam, teve como objetivo aproximar a empresa da realidade dos projetos de compensação de carbono. Durante a visita, os participantes acompanharam iniciativas conduzidas pelo Idesam e puderam observar como decisões tomadas no ambiente corporativo podem gerar efeitos práticos em territórios amazônicos.

A atuação da Petronect com o instituto começou em 2023, quando a empresa passou a compensar emissões de gases de efeito estufa geradas por viagens corporativas e pela produção de resíduos. A compensação ocorre por meio do Programa Carbono Neutro (PCN), iniciativa do Idesam que viabiliza o plantio de árvores na Amazônia.

Desde o início da parceria, mais de 5 mil metros quadrados já foram reflorestados com a participação da empresa. A recuperação das áreas é realizada com base em Sistemas Agroflorestais (SAFs), modelo que combina espécies nativas e cultivos agrícolas em uma mesma área. A técnica contribui para restaurar o solo, recompor a vegetação e criar alternativas econômicas para comunidades locais.

Além de capturar carbono da atmosfera ao longo do crescimento das árvores, os SAFs fortalecem um modelo de produção que integra conservação ambiental e desenvolvimento sustentável. Na prática, a compensação deixa de ser apenas um cálculo de emissões e passa a envolver também impactos sociais e econômicos nos territórios onde os projetos são implementados.

O Idesam atua há mais de duas décadas na Amazônia com iniciativas voltadas à conservação, uso sustentável da biodiversidade e geração de renda. No caso do Programa Carbono Neutro, a proposta é conectar empresas interessadas em compensar emissões a ações concretas de reflorestamento e restauração produtiva.

Para o setor privado, projetos desse tipo representam uma oportunidade de ampliar a responsabilidade socioambiental e apoiar cadeias produtivas alinhadas à manutenção da floresta. Ao mesmo tempo em que compensam parte de suas emissões de CO2, as empresas contribuem para iniciativas que valorizam a biodiversidade, fortalecem comunidades e ajudam a manter os serviços ambientais prestados pela Amazônia.

A velha obsessão contra a Amazônia e a ZFM

Coluna Follow-Up

O ensaio de Farid Mendonça Jr., “A FIESP ataca a Zona Franca de Manaus de novo!”, deixa claro um posicionamento que a discussão econômica brasileira frequentemente tenta esconder sob o verniz técnico da “livre concorrência”. A disputa em torno da Zona Franca de Manaus nunca foi tão-somente tributária. Ela envolve poder regional, concentração histórica de riqueza e a velha dificuldade de parte do eixo econômico paulista em aceitar que o Brasil é maior do que o seu cinturão industrial.  

A FIESP insiste em tratar a Zona Franca como distorção concorrencial, mesmo depois de a Constituição ter reafirmado sua proteção estratégica até 2073. O argumento atual gira em torno da manutenção dos créditos presumidos de IBS e CBS previstos na regulamentação da reforma tributária. A entidade sustenta que haveria “vantagem adicional” para Manaus. O problema é que essa narrativa ignora o próprio texto constitucional, que determinou a preservação do diferencial competitivo da Amazônia diante da substituição do ICMS, IPI, PIS e Cofins pelo novo sistema tributário.  

O debate precisa ir além da técnica fiscal

Existe um traço histórico nessa resistência. Desde o colapso do ciclo da borracha, a Amazônia experimenta uma relação profundamente desigual com o centro econômico do país. A riqueza produzida aqui irrigou bancos, infraestrutura, comércio e industrialização no Sudeste. Belém e Manaus viveram o auge de um ciclo exportador enquanto o Brasil republicano pouco fez para transformar aquela prosperidade extrativista em cadeia industrial permanente.

Quando os ingleses levaram sementes da seringueira para a Ásia e desmontaram a hegemonia amazônica da borracha, o país não criou mecanismos robustos de agregação de valor local, industrialização ou ciência aplicada para sustentar a região. O capital acumulado migrou. Os investimentos públicos acompanharam o eixo já dominante. O Sudeste industrializou-se fortemente ao longo do século XX; a Amazônia permaneceu fornecedora de recursos naturais, distante dos centros decisórios.

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A Zona Franca surge justamente como tentativa tardia de correção federativa.

Por isso a Constituição de 1988 não trata a ZFM como favor fiscal. Ela a reconhece como instrumento de redução das desigualdades regionais, integração nacional e soberania territorial. O artigo 3º da Constituição estabelece como objetivo fundamental da República reduzir desigualdades sociais e regionais. Não é concessão política. É cláusula civilizatória do pacto federativo brasileiro.

Há um aspecto que o debate paulista frequentemente evita encarar. O Polo Industrial de Manaus ajudou a manter a floresta em pé enquanto outras regiões expandiram riqueza mediante devastação intensiva. O Amazonas preserva mais de 95% de sua cobertura florestal. Essa preservação não ocorreu por acaso ou virtude abstrata. Ela foi sustentada por um modelo econômico urbano-industrial que concentrou emprego e renda em Manaus, reduzindo pressão sobre a floresta profunda.  

É curioso observar que parte do empresariado do Sudeste se quer reconhece os serviços ambientais globaisda Amazônia, a estabilidade climática, rios voadores e regulação hídrica para o agronegócio e para os reservatórios hidrelétricos do Centro-Sul, mas reage quando o país mantém um mecanismo econômico destinado justamente a evitar que a floresta seja convertida em pasto, mineração ilegal e devastação predatória.

Os chamados “rios voadores” abastecem o regime de chuvas que sustenta boa parte da produção agrícola e energética brasileira. O Centro-Sul depende climaticamente da Amazônia mais do que costuma admitir. A floresta presta um serviço sistêmico ao país inteiro, inclusive às cadeias produtivas paulistas.

Nesse contexto, o discurso da FIESP revela dificuldade histórica

acentuada de compreender a Amazônia como sujeito federativo pleno. A lógica implícita parece simples: incentivos industriais no Sudeste são tratados como política econômica; incentivos na Amazônia viram “privilégio”.

O artigo de Farid descreve essa ferida ao mencionar o “ranço histórico” das oligarquias econômicas centralizadoras.  

Chegou o momento de inverter a pergunta.

Quanto custaria ao Brasil desmontar a Zona Franca?

Quantos bilhões seriam necessários em programas sociais, repressão ambiental, ocupação territorial, segurança pública e combate ao desmatamento para substituir os mais de 500 mil empregos diretos e indiretos vinculados ao modelo?  

A discussão séria sobre a Amazônia exige abandonar o velho olhar colonial interno que vê a região apenas como fornecedora de matéria-prima ou estoque ambiental do país. O Brasil precisa decidir se deseja uma Amazônia integrada pela inteligência produtiva, pela bioeconomia, pela indústria tecnológica e pela ciência, ou empurrada novamente para ciclos primários e economias ilegais.

Conter essa visão concentradora não significa hostilidade a São Paulo. O próprio desenvolvimento paulista contou historicamente com forte apoio federal, infraestrutura pública, crédito subsidiado, proteção industrial e política cambial favorável. O que se pede agora é reciprocidade federativa e maturidade nacional.

A brasilidade que a Amazônia reivindica não é separatista nem ressentida. Ela pede reconhecimento. Reconhecimento de que a região sustenta equilíbrio climático, soberania territorial, biodiversidade estratégica e estabilidade ambiental para o país inteiro. E reconhecimento de que reduzir desigualdades regionais não é caridade econômica. É dever constitucional da República.


Eleições na Amazônia 2026: o saldo que chega às urnas

Às vésperas das eleições, série de reportagens investiga o saldo ambiental da Amazônia, cruzando dados públicos, políticas anunciadas e impactos no território.

A Amazônia Legal ocupa mais da metade do território brasileiro e reúne realidades sociais, econômicas e ambientais muito diferentes entre si. Ela também está no centro das principais discussões sobre clima, biodiversidade, desenvolvimento sustentável e o futuro do país. Embora muitas vezes seja tratada como um bloco único, a região é formada por estados com histórias políticas, modelos econômicos, pressões territoriais e desafios climáticos próprios.

Na série de reportagens Eleições na Amazônia 2026: o saldo que chega às urnas, vamos analisar, estado por estado, como os governos da Amazônia Legal e o governo federal têm respondido aos principais desafios socioambientais dos últimos anos. Às vésperas das eleições 2026, a proposta é observar o que foi prometido, o que foi entregue e o que ainda permanece como lacuna em áreas estratégicas como adaptação climática, gestão territorial, combate ao desmatamento, bioeconomia, infraestrutura, proteção de povos e comunidades tradicionais e desenvolvimento sustentável.

Eleições na Amazônia 2026: o saldo que chega às urnas nessas eleições

A cada reportagem, o objetivo será cruzar discursos oficiais, programas de governo, dados públicos, indicadores ambientais, políticas anunciadas e exemplos concretos da atuação estadual e federal. Mais do que medir ações isoladas, a série busca entender como as escolhas feitas em Brasília e nos governos estaduais moldam o presente e o futuro da Amazônia e como esse saldo socioambiental deve chegar ao debate público nas eleições 2026.

Em um momento em que a Amazônia é decisiva para o equilíbrio climático do Brasil e do mundo, olhar para a gestão pública é também indagar que projeto de futuro está sendo construído para o território. A preservação da floresta, a valorização da sociobiodiversidade e a adaptação às mudanças climáticas dependem de políticas nacionais, mas também de escolhas feitas diariamente nos governos estaduais. Nas eleições 2026, essas escolhas estarão novamente em disputa nas urnas. Na primeira matéria, o balanço do governo estadual do Amazonas nos últimos anos.

Leia a primeira matéria da série Eleições na Amazônia 2026: o saldo que chega às urnas fazendo um balanço final dos mandatos de Wilson Lima e Roberto Cidade pelo estado do AMAZONAS em:

Amapá

Acre

Ocean UEA, desenhando o mapa da inovação amazônica

O Ocean UEA represente uma das iniciativas mais estratégicas já construídas para reposicionar o Amazonas dentro da economia do conhecimento. E isso vai muito além da oferta de cursos ou da capacitação técnica em áreas emergentes.

Estamos diante de uma mudança de paradigma.

Durante décadas, a Amazônia foi observada quase exclusivamente pela ótica de suas riquezas naturais, de seus conflitos ambientais ou de sua importância geopolítica. Pouco se falou sobre sua capacidade de produzir inteligência, tecnologia, criatividade e soluções próprias para os desafios do século XXI. O Ocean UEA começa a alterar essa percepção de forma concreta.

Ao integrar educação, inovação, indústria tecnológica e formação criativa, o projeto inaugura uma nova etapa para a Universidade do Estado do Amazonas e para toda a região. O programa STEM Criar possui, nesse contexto, um significado especial.

Sua proposta transcende a formação convencional. Ele articula ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática como ferramentas de emancipação intelectual e social. Mais do que preparar profissionais para o mercado, ajuda a formar uma geração capaz de compreender a Amazônia em sua complexidade e, ao mesmo tempo, dialogar com as tecnologias mais avançadas do mundo contemporâneo.

Ocean UEA

A revolução digital em curso não será conduzida apenas pelos grandes centros econômicos tradicionais. Os territórios capazes de combinar diversidade cultural, criatividade, sustentabilidade e inteligência aplicada terão protagonismo crescente. A Amazônia reúne essas condições de forma singular.

Certamente, o Ocean UEA não é apenas um centro de formação tecnológica. Ele funciona como um ambiente de reconstrução de autoestima regional e de fortalecimento da soberania intelectual amazônica.

Quando estudantes amazonenses desenvolvem projetos em jogos digitais, inteligência artificial, metaverso, programação, design e experiências imersivas, o que se consolida é a percepção de que a Amazônia também pode produzir futuro, e não apenas fornecer matéria-prima para o desenvolvimento de outras regiões.

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Foto divulgação

A UEA passa a ocupar um papel ainda mais relevante como plataforma de integração entre conhecimento acadêmico, inovação aplicada, empreendedorismo e desenvolvimento regional. A universidade amplia sua missão histórica e se projeta como uma instituição capaz de preparar o Amazonas para os novos ciclos econômicos e tecnológicos que já estão em formação.

Não se trata de abandonar a floresta ou negar a identidade amazônica. Pelo contrário. O desafio contemporâneo consiste justamente em construir uma economia sofisticada a partir das singularidades da região, valorizando biodiversidade, cultura, criatividade e inteligência local.

Mais do que ensinar tecnologia, ele ajuda a criar mentalidade inovadora, pensamento crítico, capacidade de colaboração e confiança coletiva. Elementos indispensáveis para qualquer sociedade que deseje participar ativamente das transformações globais em curso.

Com efeito, talvez estejamos apenas no início desse processo. Mas alguns movimentos já indicam que a Amazônia começa, finalmente, a ocupar um lugar menos periférico na geografia mundial da inovação. E isso tem enorme significado histórico para a UEA, para o Amazonas e para as futuras gerações da região.

Venda da única mineradora brasileira de terras raras aos EUA acende alerta

Operação bilionária com a Serra Verde amplia debate sobre minerais críticos, transição energética, controle estrangeiro e impactos socioambientais da mineração no Brasil.

A Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu, na segunda-feira (11), um procedimento administrativo para avaliar a venda da Serra Verde Pesquisa e Mineração à empresa norte-americana USA Rare Earth (USAR). A mineradora brasileira, com atuação em Goiás, é considerada a única produtora de terras raras em operação no país.

A análise busca verificar se a combinação dos negócios entre a Serra Verde e a USAR, somada ao acordo de fornecimento firmado no âmbito da operação, deve ser enquadrada como ato de concentração de mercado. Segundo o Cade, ao fim da apuração, a Superintendência-Geral poderá decidir pelo arquivamento do caso, pela aprovação da operação ou pela abertura de processo administrativo.

A negociação foi anunciada em abril, quando a empresa brasileira foi vendida à USAR por US$ 2,8 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 13,8 bilhões. Paralelamente, a Serra Verde também firmou um contrato de 15 anos para fornecer toda a produção da fase inicial de sua mina a uma empresa capitalizada pelo governo dos Estados Unidos e por fontes privadas.

A operação ocorre em um momento de intensificação da disputa global por minerais estratégicos. As terras raras formam um grupo de elementos usados em tecnologias essenciais para a transição energética. Embora o Brasil tenha uma das maiores reservas de terras raras conhecidas do mundo, a produção nacional ainda é considerada incipiente.

A Serra Verde atua na exploração de quatro dos 17 elementos de terras raras considerados relevantes para cadeias tecnológicas e industriais. Por isso, a venda da mineradora passou a ser acompanhada não apenas pelo setor econômico, mas também por órgãos de controle e por atores ligados ao debate ambiental, geopolítico e socioeconômico.

Órgãos de controle e Congresso ampliam debate sobre terras raras

Em paralelo à análise do Cade, o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) pediu que o TCU acompanhe e fiscalize a atuação do governo federal em projetos relacionados à exploração de terras raras. O pedido menciona limitações de órgãos federais para responder a demandas em curso, como a revisão do plano de manejo da Chapada dos Veadeiros pelo governo de Goiás.

O avanço da pauta também tem provocado reações no Congresso. A deputada federal Célia Xakriabá (Psol-MG), coordenadora do GT Mineração da Frente Parlamentar Mista Ambientalista, afirma que a transição energética, da forma como vem sendo conduzida, pode repetir lógicas históricas de exploração territorial.

“Quem está nas terras onde esses minerais serão explorados terá retorno? Faz sentido para essas comunidades esse tipo de exploração?”, questiona.

A parlamentar cita o Projeto de Lei nº 2.780/2024, aprovado na Câmara dos Deputados na semana passada, como um dos pontos de atenção. O texto prevê medidas para estimular a pesquisa, a exploração e o investimento em minerais críticos e estratégicos, com prioridade para determinados projetos e apoio ao licenciamento ambiental. Para setores ambientalistas, a proposta precisa incorporar salvaguardas socioambientais mais robustas.

A Frente Parlamentar Ambientalista, por meio do GT Mineração, articulou emendas ao projeto. Uma delas, de autoria de Célia Xakriabá, propõe que a definição de minerais críticos e estratégicos considere critérios técnicos, socioambientais e climáticos, além de consulta popular.

Especialistas alertam para riscos do modelo de mineração brasileiro

Para o geógrafo Ricardo Assis Gonçalves, o debate não deve ocorrer apenas sob a ótica da demanda internacional, mas incluir o modelo de mineração adotado no país. “Não basta a criação de uma empresa estatal para terras raras sem discutir e mudar o modelo de mineração vigente no país. Uma estatal que continue apenas extraindo e exportando bens minerais de maneira intensiva representa a manutenção de um modelo predatório, produtor de injustiças ambientais e de zonas de sacrifício”, afirma.

Gonçalves cita Minaçu, em Goiás, como exemplo dos limites de um desenvolvimento baseado na megamineração. O município, marcado pela exploração de amianto a céu aberto, ainda convive com altos índices de pobreza e baixa renda.

A investigação do Cade, portanto, ocorre em um cenário mais amplo: de um lado, a pressão internacional por minerais essenciais à transição energética; de outro, o desafio brasileiro de transformar sua riqueza mineral em desenvolvimento tecnológico, proteção socioambiental e benefícios concretos para os territórios onde esses recursos estão localizados.