Progresso, ruína e Amazônia: uma leitura filosófica da Zona Franca de Manaus

“Desmontar a Zona Franca de Manaus em nome de uma racionalidade fiscal abstrata poderia abrir espaço para economias muito mais destrutivas. Garimpo, madeira ilegal, ocupação predatória, expansão desordenada da fronteira e informalidade criminosa não são alternativas civilizatórias”

Walter Benjamin, um filósofo judeu-alemão perseguido pelo nazismo, é precursor do ambientalismo crítico e uma estrela destacada da famosa Escola de Frankfurt, um grupo de pensadores alemães que escapou do pesadelo autoritário. Em suas teses sobre desenvolvimento, não desmonta a ideia de progresso apenas por discordar dela. Ele a desmonta por deslocar o lugar de onde a história é observada. Em vez de olhar o curso histórico pela perspectiva dos vencedores, dos Estados, dos sistemas produtivos e das estatísticas triunfantes, ele olha a história a partir dos escombros que ficaram pelo caminho.

É por isso que sua crítica é mais radical do que uma simples denúncia moral da modernidade. Benjamin percebe que a ideia moderna de progresso não é apenas uma expectativa otimista. Ela é também uma forma de conhecimento. Uma epistemologia. Um modo de organizar a realidade, de selecionar evidências, de hierarquizar vidas, de justificar sacrifícios.

Neste cenário, sua ruptura é profunda. Ele não pergunta apenas se o progresso deu certo. Pergunta quem teve o poder de definir o que deveria ser chamado de progresso.

Walter Benjamin

A tradição liberal de Adam Smith via na expansão do comércio, na divisão do trabalho e no livre curso das trocas uma possibilidade de aumento geral da riqueza. A modernidade econômica nasce, em grande medida, dessa confiança no dinamismo produtivo. A sociedade avança quando produz mais, troca mais, especializa-se mais, amplia mercados e multiplica bens. Há aí uma ideia de progresso como expansão da capacidade produtiva e da interdependência econômica.

Marx, por sua vez, desloca essa leitura. Mostra que a riqueza moderna nasce de relações sociais contraditórias, da exploração do trabalho, da apropriação privada do excedente, da concentração dos meios de produção. Mas, ainda assim, parte do marxismo herdou uma confiança na potência histórica das forças produtivas. A industrialização, mesmo brutal, carregaria dentro de si a possibilidade da emancipação futura.

Para ele, a história não avança automaticamente para a libertação. A técnica não conduz necessariamente à emancipação. A industrialização não garante justiça. A expansão produtiva pode conviver com a barbárie, e muitas vezes a intensifica. O fascismo, a guerra mecanizada, a destruição da experiência humana e a administração técnica da morte demonstraram que a modernidade não era o contrário da barbárie. Era também uma de suas formas.

Nietzsche entra nesse debate por outro caminho. Sua crítica à moral do progresso, à confiança racionalista e à domesticação da vida antecipa a desconfiança diante das narrativas civilizatórias lineares. Nietzsche percebe que a história não é governada por uma razão universal benevolente, mas por forças, vontades, disputas, ressentimentos, imposições. Ele ajuda a quebrar a ingenuidade do progresso como aperfeiçoamento moral da humanidade.

Freud acrescenta uma ferida ainda mais íntima. A civilização não elimina a violência humana. Ela a reprime, desloca, reorganiza. O mal-estar não é acidente da civilização, mas parte do seu funcionamento. A modernidade técnica, jurídica e institucional não dissolve o conflito; apenas o administra sob novas formas.

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Sua imagem do “Anjo da história”, inspirada no Angelus Novus de Paul Klee, talvez seja a formulação mais contundente dessa ruptura. O anjo olha para o passado e vê uma única catástrofe, ruínas acumuladas sobre ruínas. Aquilo que chamamos de progresso é a tempestade que o empurra para o futuro enquanto os destroços crescem diante dele.

Já não se trata de medir o progresso apenas por produção, arrecadação, infraestrutura, tecnologia ou crescimento. Trata-se de perguntar que ruínas esse progresso produziu, que vidas deixou para trás, que territórios sacrificou, que formas de experiência destruiu, que promessas adiou.

Benjamin não nos autoriza a abandonar a ideia de transformação. Mas nos obriga a desconfiar da transformação que se apresenta como inevitável, neutra ou redentora.

O verdadeiro pensamento crítico, nessa chave, não celebra a marcha da história. Ele tenta interromper sua violência.

A Zona Franca de Manaus talvez seja um dos exemplos mais complexos da história brasileira recente para pensar a contradição entre progresso, desenvolvimento e tutela territorial.

Criada em sua configuração moderna pelo Decreto-Lei nº 288, de 1967, a ZFM surgiu como resposta geopolítica a uma pergunta que o país ainda não resolveu plenamente: o que fazer com uma região continental, estratégica, distante dos grandes centros econômicos e historicamente tratada como fronteira periférica do próprio território nacional?

zona franca de manaus
Foto divulgação

Não como favor. Como reconhecimento tácito de uma desigualdade estrutural. A Amazônia estava longe dos mercados, longe da infraestrutura logística nacional, longe dos corredores industriais consolidados do Sudeste. Era preciso compensar essa distância para integrar economicamente a região.

Seis décadas depois, os números da SUFRAMA revelam algo que desmonta boa parte das simplificações produzidas sobre o modelo.

Em 2025, o Polo Industrial de Manaus atingiu o maior faturamento de sua história. Foram R$ 227,67 bilhões movimentados entre janeiro e dezembro, crescimento de 11,02% em relação ao ano anterior, quando o faturamento já havia sido recorde. Em dólar, a movimentação ultrapassou US$ 40,9 bilhões. As exportações cresceram mais de 7%, alcançando US$ 663,9 milhões. A média mensal de empregos diretos chegou a 131,4 mil trabalhadores. O Polo encerrou o ano com 553 fábricas em operação e mais de 170 novos projetos aprovados para implantação futura.  

Descrevem um parque industrial robusto, diversificado e tecnologicamente sofisticado. O subsetor de bens de informática respondeu por mais de 21% do faturamento total do PIM. O segmento de duas rodas aproximou-se de 20%. O setor eletroeletrônico manteve peso superior a 16%. O Polo ultrapassou a marca de 2,1 milhões de motocicletas produzidas em um único ano. Monitores, condicionadores de ar, relógios, componentes eletrônicos e bens de informática consolidaram Manaus como uma das principais plataformas industriais da América Latina.  

Porque o mesmo território que alcança esse grau de complexidade produtiva continua convivendo com alguns dos piores indicadores estruturais do país.

Walter Benjamin talvez percebesse imediatamente a fissura escondida sob a grandiosidade dos números.

A ideia moderna de progresso costuma operar pela sedução das escalas: faturamento, arrecadação, crescimento, produtividade, exportação, expansão econômica. A planilha sugere êxito. O gráfico aponta ascensão. A curva aponta crescimento. Mas Benjamin nos ensinou a olhar para aquilo que permanece fora da fotografia oficial do progresso.

O Amazonas tornou-se um dos maiores contribuintes líquidos da Receita Federal. Manaus consolidou-se como a maior economia das regiões Norte e Nordeste. A atividade econômica do Estado responde por aproximadamente 30% da riqueza produzida em toda a Amazônia brasileira. Ao mesmo tempo, o próprio Estado transfere anualmente bilhões de reais para fundos e mecanismos de interiorização do desenvolvimento regional.

Mas o interior amazônico continua frequentemente marcado pela precariedade logística, pela baixa conectividade, pela dificuldade de acesso à saúde especializada, pela ausência de infraestrutura de transporte, pela fragilidade do saneamento e pela enorme dependência de políticas públicas compensatórias.

Manaus também consolidou uma centralidade econômica incomum no mapa brasileiro. Dados do IBGE divulgados pelo governo do Amazonas apontam que a capital manteve, em 2023, a sexta posição no ranking nacional do PIB municipal, com R$ 127,6 bilhões, liderando entre os municípios das regiões Norte, Nordeste e Sul.  

A leitura convencional concluiria: aqui está um caso de progresso regional.

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Foto: Bruno Leão/ Sedecti

Porque, ao lado dessa pujança econômica, persiste uma Amazônia marcada por baixos indicadores sociais, fragilidade logística, saneamento insuficiente, isolamento territorial, baixa conectividade, precariedade de serviços públicos e enorme desigualdade entre capital e interior.

O poder central incentiva a região remota, reconhece sua desvantagem geográfica, admite sua distância dos mercados, concede tratamento fiscal diferenciado e, ao mesmo tempo, mantém essa mesma região sem a infraestrutura competitiva capaz de reduzir progressivamente sua dependência dos incentivos.

Em outras palavras, a União reconhece a desvantagem, mas não corrige suas causas estruturais.

O incentivo fiscal funciona como compensação permanente por uma infraestrutura que nunca chega plenamente. A região é estimulada a produzir, arrecadar, empregar e preservar, mas continua privada das condições logísticas, tecnológicas, energéticas e institucionais que permitiriam um salto de autonomia produtiva.

É como se o centro dissesse à Amazônia: produza, mas espere; arrecade, mas suporte; integre-se, mas sem os meios plenos da integração.

Conquista, porque construiu uma base industrial sofisticada em plena Amazônia, conteve alternativas econômicas predatórias e gerou riqueza onde o receituário convencional previa inviabilidade. Sintoma, porque sua permanência sob ataque revela que o Brasil ainda não resolveu o lugar da Amazônia em seu projeto nacional.

O modelo é cobrado como se operasse em igualdade de condições com o Sul e o Sudeste, mas não recebe a infraestrutura que permitiria essa igualdade. É acusado de depender de incentivos, enquanto a dependência é continuamente reproduzida pela omissão estrutural do próprio poder central.

Aí reside a violência epistemológica da noção tradicional de progresso.

O centro mede a Amazônia com régua de mercado integrado, mas lhe entrega condições de periferia logística. Cobra eficiência plena, mas preserva assimetria estrutural. Exige competitividade, mas sonega os meios históricos da competição.

Uma leitura benjaminiana dos 60 anos da Zona Franca não permitiria nem o elogio ingênuo nem a condenação preguiçosa.

Há ruína na crítica fiscalista que ignora o papel ambiental, geopolítico e social do modelo. Mas há também ruína na celebração econômica que não enfrenta a persistência dos baixos indicadores humanos da Amazônia.

A questão decisiva, portanto, não é se a Zona Franca deve existir. Essa pergunta é pobre.

A pergunta decisiva é outra: por que um modelo que produziu tanta riqueza ainda não foi convertido em plataforma plena de desenvolvimento territorial?

Se o Amazonas responde por parcela expressiva da riqueza regional, contribui de forma relevante para a arrecadação nacional e ainda repassa recursos significativos para fundos e mecanismos de interiorização, então o problema não pode ser reduzido à suposta improdutividade da região. O problema está na forma como a riqueza gerada é apropriada, redistribuída, bloqueada ou não convertida em infraestrutura civilizatória.

Esse talvez seja o ponto mais benjaminiano do paradoxo.

O progresso existe, mas não redime. A indústria existe, mas não basta. A arrecadação existe, mas não se transforma automaticamente em emancipação. A floresta permanece em pé em grande parte do território, mas a população continua frequentemente privada das condições materiais de uma cidadania plena.

O desafio dos próximos 60 anos não é abandonar os incentivos. É construir as condições históricas para que eles deixem, gradualmente, de ser muleta defensiva e passem a funcionar como plataforma de transição.

Isso exige infraestrutura logística compatível com a Amazônia. Exige conectividade. Exige energia estável e limpa. Exige ciência, tecnologia, bioeconomia industrializada, formação profissional, integração dos municípios e capacidade de transformar P&D em cadeias produtivas regionais.

Ela precisa ser compreendida como dispositivo geopolítico, ambiental, produtivo e civilizatório.

Walter Benjamin nos ajuda a ver que a pergunta sobre o progresso amazônico não pode ser feita apenas do ponto de vista da planilha. Ela precisa ser feita do ponto de vista das ruínas que ainda se acumulam: municípios empobrecidos, juventudes sem oportunidade, rios sem infraestrutura, comunidades isoladas, periferias urbanas superlotadas, promessas de interiorização que avançam menos do que deveriam.

Desmontar a Zona Franca em nome de uma racionalidade fiscal abstrata poderia abrir espaço para economias muito mais destrutivas. Garimpo, madeira ilegal, ocupação predatória, expansão desordenada da fronteira e informalidade criminosa não são alternativas civilizatórias.

Fazer da Zona Franca não o álibi do progresso, mas seu ponto de inflexão. Transformar o modelo em plataforma de uma nova política amazônica, capaz de combinar indústria, floresta em pé, infraestrutura, equidade territorial e soberania produtiva.

Talvez seja essa a conclusão mais fiel à lente benjaminiana.

O progresso verdadeiro, se ainda podemos usar essa palavra, não é a tempestade que empurra a Amazônia para um futuro abstrato enquanto suas ruínas se acumulam.

E reconstruir, a partir dela, um desenvolvimento que finalmente reconheça a Amazônia não como periferia subsidiada, mas como centro estratégico de um Brasil que ainda não aprendeu a compreender o próprio território.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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