Cidade da China reduz em 98% os resíduos industriais

Política de reciclagem em Xangai combina fiscalização, inovação industrial e mudança de hábitos para reduzir impactos ambientais em uma cidade de 25 milhões de habitantes.

A megacidade chinesa de Xangai conseguiu reduzir em 98% o volume de resíduos sólidos industriais desde 2019, quando iniciou uma política mais rígida de gestão de lixo urbano. A estratégia de reciclagem em Xangai, combinou compostagem, fiscalização, restrições a descartáveis e incentivos à economia circular, em uma cidade com cerca de 25 milhões de habitantes.

Antes da implementação do plano, Xangai gerava aproximadamente 26 mil toneladas de resíduos por dia. Seis anos depois, a cidade registra avanços importantes na destinação correta dos materiais. A taxa de reciclagem doméstica cresceu 10%, enquanto entre 35% e 45% dos resíduos passaram a ser encaminhados para instalações adequadas de coleta e tratamento.

O principal salto ocorreu no setor industrial. Empresas passaram a reaproveitar materiais descartados como insumos para novos produtos. Um dos exemplos é a CSMET, localizada no distrito de Jinshan, que transforma sobras de alumínio da indústria e resíduos domésticos do mesmo material em novos produtos de alumínio.

Segundo Chen Nan, vice-presidente da companhia, a empresa adota o conceito de transformar resíduos sólidos em recursos. A CSMET utiliza cerca de 130 mil toneladas de sucata de alumínio e materiais reciclados por ano, contribuindo para a redução de emissões associadas à produção convencional do metal.

A localização da empresa fora da área central também favorece a logística de coleta e processamento. Para lidar com as grandes distâncias dentro da metrópole, Xangai passou a apostar em operações regionais menores, distribuídas em diferentes distritos.

No distrito de Hongkou, um projeto piloto de compostagem transforma diariamente cerca de 100 kg de resíduos orgânicos domésticos em fertilizante, por meio de digestão microbiana. A iniciativa aproxima os moradores do processo de reaproveitamento e reforça a importância da separação correta do lixo dentro das casas.

As mudanças começaram com medidas rigorosas. Em 2019, as multas aplicadas a empresas por descarte irregular aumentaram dez vezes. Moradores que separavam os resíduos de forma incorreta também passaram a ser advertidos, com possibilidade de devolução do lixo após inspeção dos coletores.

O sistema adotado pela cidade divide os resíduos em quatro categorias principais: recicláveis, perigosos, orgânicos e indiferenciados. Para apoiar a adaptação da população, foram instalados novos contentores e veículos específicos para cada tipo de material. Esse conjunto de medidas tornou a reciclagem em Xangai uma política pública integrada ao cotidiano da cidade.

Além da separação do lixo, Xangai também restringiu o uso de itens descartáveis e não recicláveis em hotéis e escritórios, como copos, chinelos e outros produtos de uso único. A medida estimulou o crescimento de empresas voltadas a alternativas sustentáveis.

Uma delas é a Bluepha, que utiliza óleo de cozinha usado como matéria-prima para produzir polihidroxialcanoatos, conhecidos como PHAs. O material pode substituir plásticos derivados do petróleo em embalagens, talheres e outros utensílios descartáveis.

De acordo com a empresa, cada tonelada de óleo residual pode gerar entre 0,67 e 0,8 tonelada de PHA, com valor econômico superior ao obtido pela conversão do óleo em biodiesel. A substituição do plástico convencional pelo PHA também pode reduzir a emissão de poluentes.

Com os resultados da reciclagem em Xangai, a cidade alcançou 86,9 pontos em uma escala nacional chinesa de gestão de resíduos que vai até 100. A pontuação é considerada a maior já registrada por uma cidade desse porte no país e mostra como políticas públicas, fiscalização e inovação industrial podem transformar a relação das grandes cidades com o lixo.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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