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Ouro, mercúrio, armas e drogas: operação revela avanço do crime organizado em área protegida do Amazonas

 

A ofensiva da Polícia Federal e do ICMBio contra o garimpo ilegal na Estação Ecológica Juami-Japurá, no noroeste do Amazonas, expõe muito mais do que um crime ambiental isolado. O que se encontrou na região, entre dragas, mercúrio, ouro, armas, drogas e equipamentos de comunicação, revela a consolidação de uma economia clandestina que mistura mineração ilegal, narcotráfico, lavagem de dinheiro e ocupação territorial na Amazônia profunda.

A operação realizada nesta terça-feira (26) inutilizou estruturas estimadas em R$ 8 milhões e aplicou mais de R$ 1 milhão em multas. Também foram apreendidos cerca de 70 gramas de ouro, 2,1 quilos de mercúrio, munições, armamentos e pequenas quantidades de cocaína e maconha. A ação contou ainda com apoio do Censipam e identificou um modelo de exploração conhecido como “garimpo de baixão”, modalidade menos comum na região e considerada altamente destrutiva pela capacidade de devastação das áreas de mata e cursos d’água.

crime organizado
Foto de arquivo. Vista aérea de uma draga ilegal usada para extrair ouro perto de Puerto Maldonado, província de Tambopata, região de Madre de Dios, na floresta amazônica do sudeste do Peru, (Foto: Lidia Pedro/AFP)

Operação apreendeu ouro, mercúrio, drogas e armamentos

A área atingida fica dentro da Estação Ecológica Juami-Japurá, unidade federal de proteção integral criada justamente para preservar a bacia hidrográfica do Rio Juami e seus ecossistemas associados. O avanço do garimpo sobre esse território acompanha um padrão já observado em outras regiões da Amazônia brasileira, onde organizações criminosas passaram a tratar áreas protegidas e terras indígenas como corredores estratégicos para atividades ilícitas.

Relatórios recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto Igarapé mostram que o garimpo ilegal deixou de ser apenas uma atividade predatória dispersa para se transformar em eixo financeiro do crime organizado amazônico. Em muitos casos, facções passaram a controlar logística, fornecimento de combustível, compra de ouro, proteção armada e rotas fluviais utilizadas tanto para mineração quanto para tráfico de drogas.

O Amazonas tornou-se peça central desse tabuleiro. O estado possui extensas áreas de fronteira com Colômbia, Peru e Venezuela, combinação que favorece o fluxo clandestino de ouro, armas, cocaína e mercúrio. Estudos do MapBiomas apontam que a área afetada pelo garimpo na Amazônia cresceu mais de seis vezes nas últimas décadas, com forte aceleração a partir de 2018. Boa parte dessa expansão ocorreu próxima a unidades de conservação e territórios indígenas.

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Centenas de balsas e dragas bloqueiam trecho do Rio Madeira (AM) para garimpo ilegal | Crédito: Bruno Kelly / Greenpeace

Especialistas alertam para avanço de facções sobre áreas protegidas

Dados do Instituto Escolhas indicam que cerca de metade do ouro comercializado no Brasil apresenta algum nível de irregularidade ou suspeita de origem ilegal. A cadeia clandestina movimenta bilhões de reais por ano e se beneficia de fragilidades históricas na rastreabilidade do minério. O ouro ilegal extraído na Amazônia frequentemente ingressa no mercado formal com documentação fraudada, alcançando inclusive cadeias internacionais.

A presença de mercúrio apreendido na operação reforça outro problema silencioso. O metal pesado utilizado na separação do ouro contamina rios, peixes e populações humanas. Pesquisas da Fiocruz e do Instituto Evandro Chagas vêm identificando níveis preocupantes de contaminação por mercúrio em comunidades indígenas e ribeirinhas da Amazônia, especialmente em regiões pressionadas pelo garimpo.

Nos últimos anos, órgãos ambientais e forças de segurança passaram a tratar o garimpo ilegal menos como infração ambiental clássica e mais como atividade estruturante de redes criminosas complexas. A apreensão simultânea de drogas, armas e ouro na operação desta terça reforça essa leitura.

A destruição das estruturas ilegais na Juami-Japurá representa um golpe operacional importante, mas especialistas em segurança e conservação ambiental alertam que a pressão tende a migrar para novas áreas da floresta. O ciclo se repete em diferentes pontos da Amazônia, impulsionado pela alta internacional do ouro, pela fragilidade do controle territorial e pela capacidade de adaptação logística das organizações criminosas.

Na prática, o que está em disputa já ultrapassa a questão mineral. Trata-se do controle econômico e político de partes significativas da Amazônia

Pacote ruralista pode enfraquecer combate ao desmatamento na Amazônia

Com mudanças em regras ambientais e áreas protegidas, pacote ruralista amplia pressão sobre a Amazônia e reacende disputa no Congresso.

A Câmara dos Deputados avançou, nesta semana, em uma série de projetos defendidos pela bancada ruralista e criticados por ambientalistas e parlamentares ligados à agenda climática. A ofensiva, chamada pelos ruralistas de “Semana do Agro”, reuniu propostas com impacto direto sobre fiscalização ambiental, áreas protegidas, crédito rural e regras de proteção da vegetação nativa.

As votações foram articuladas pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), com apoio do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Para críticos, o pacote ruralista representa um novo capítulo de enfraquecimento da política ambiental brasileira.

Entre os projetos mais sensíveis está o PL 2.564/2025, que altera a Lei de Crimes Ambientais e impõe novas condições para sanções baseadas em imagens de satélite. O texto determina que produtores rurais sejam notificados antes da aplicação de embargos ou multas decorrentes da detecção remota de desmatamento. 

Na prática, a mudança pode dificultar o uso imediato de um dos principais instrumentos de fiscalização ambiental usados hoje na Amazônia, onde o monitoramento por satélite é crucial para identificar rapidamente áreas desmatadas e orientar a atuação do Ibama em regiões extensas e de difícil acesso.

Ambientalistas temem que infratores tenham tempo para retirar equipamentos, gado ou madeira antes da chegada dos agentes, enfraquecendo a resposta do Estado. O texto foi suavizado após negociação com a Frente Ambientalista e a bancada do PT, mas críticos avaliam que a exigência de notificação prévia ainda compromete a efetividade da fiscalização.

O ministro do Meio Ambiente, João Capobianco, classificou o avanço do pacote ruralista como um “retrocesso inimaginável”. Integrantes da área ambiental também alertam que a fiscalização remota concentra parte expressiva das ações do Ibama em regiões de difícil acesso, tornando os embargos via satélite estratégicos.

Outro projeto do pacote ruralista aprovado foi o PL 5.900/2025, de autoria do deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), presidente da FPA. A proposta amplia o papel do Ministério da Agricultura em decisões que afetem espécies de interesse produtivo. Após acordo, a redação foi suavizada, de “manifestação técnica conclusiva” para “manifestação técnica prévia”, mas opositores afirmam que a medida ainda pode comprometer a autonomia de órgãos técnicos do Executivo.

A Câmara também aprovou o PL 2.486/2026, que reduz os limites da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, unidade de conservação em região de forte pressão fundiária, próxima à BR-163. O projeto recategoriza parte da área como Área de Proteção Ambiental, categoria com regras mais flexíveis de uso e ocupação. 

O Ministério do Meio Ambiente critica a mudança por considerá-la desprovida de estudos técnicos suficientes. Para ambientalistas, a medida pode estimular novas ocupações ilegais e abrir precedente para alterações em outras unidades de conservação.

Avançaram ainda propostas que modificam regras da Lei de Proteção da Vegetação Nativa e mecanismos de crédito rural. O PL 364/2019 é apontado pelo Ministério do Meio Ambiente como ameaça a milhões de hectares de vegetação nativa. Já o PL 3.123/2025 pode flexibilizar critérios para concessão de crédito, inclusive em áreas associadas a desmatamento ilegal ou grilagem de terras públicas.

Defensores das medidas afirmam que os projetos buscam garantir segurança jurídica e maior previsibilidade para produtores rurais. Críticos sustentam que o pacote reduz a capacidade de fiscalização, fragiliza áreas protegidas e beneficia quem descumpre a legislação ambiental. Com a aprovação na Câmara, parte das propostas do pacote ruralista segue para o Senado.

A Igreja diante das Máquinas: Leão XIV lança alerta histórico sobre inteligência artificial e poder

“Publicada sob o simbolismo de Pentecostes, a primeira encíclica de Leão XIV trata a inteligência artificial como disputa moral, política e espiritual do século XXI, alerta para os riscos da concentração algorítmica de poder e recoloca a Amazônia no centro da batalha global por soberania, consciência e futuro humano.”

A Igreja Católica acaba de produzir uma das mais importantes intervenções civilizatórias deste início de século. E o mundo faria mal em tratar isso como simples documento religioso ou comentário lateral sobre tecnologia.

A encíclica de C sobre inteligência artificial entra na arena histórica como advertência, convocação e disputa moral, política e espiritual.

Leão XIV

O Vaticano compreendeu algo que parte das lideranças políticas e econômicas ainda se recusa a admitir com clareza: a humanidade atravessa uma mudança de era. A inteligência artificial deixou de ser ferramenta auxiliar da civilização. Ela passou a disputar o comando das estruturas que organizam linguagem, informação, desejo, comportamento, trabalho, cultura, guerra, economia e percepção da realidade.

É uma mutação profunda do poder humano.

E talvez pela primeira vez desde a Cuma autoridade moral global resolve enfrentar o tema não como novidade tecnológica fascinante, mas como questão civilizatória.

Leão XIV parece dizer ao planeta que não estamos diante apenas de máquinas mais eficientes. Estamos diante da possibilidade concreta de concentração inédita de poder cognitivo, político e econômico nas mãos de poucos grupos privados, governos e plataformas capazes de organizar a experiência humana em escala planetária.

A advertência chega num momento especialmente delicado.

O mundo assiste à erosão das democracias, ao crescimento da violência política, à radicalização digital, à industrialização da mentira, à manipulação algorítmica da emoção coletiva e ao retorno explícito de discursos autoritários sustentados pela força, pelo medo e pela lógica armamentista.

O enfrentamento implícito com a atmosfera política associada ao trumpismo possui enorme significado histórico. Porque a encíclica recusa frontalmente a ideia de que tecnologia e força bruta possam substituir ética, mediação institucional e responsabilidade coletiva.

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Divulgação

A presença da Anthropic orbitando esse debate também é reveladora. Ela indica que até dentro do próprio Vale do Silício começam a surgir fissuras importantes entre os defensores da aceleração desenfreada e aqueles que perceberam o risco real de sistemas tecnológicos ultrapassarem a capacidade humana de governança moral e política.

A Amazônia aparece silenciosamente no centro dessa discussão.

A floresta já não é apenas território físico. Tornou-se infraestrutura estratégica do século XXI. Seus dados climáticos, sua biodiversidade, seus minerais críticos, seu patrimônio genético e seus conhecimentos tradicionais passam a alimentar sistemas globais de inteligência artificial, biotecnologia e modelagem ambiental.

A disputa pela Amazônia entrou definitivamente na era algorítmica.

Não se trata mais apenas de proteger árvores, rios ou fronteiras territoriais. Trata-se também de proteger soberania cognitiva, patrimônio científico, inteligência biológica e autonomia sobre os dados da floresta.

O simbolismo de Pentecostes amplia ainda mais a dimensão deste gesto histórico.

A celebração da descida do Espírito Santo marca, para a tradição cristã, o reencontro da humanidade pela linguagem iluminada pela consciência e pelo espírito. Pentecostes representa a superação de Babel.

E a encíclica surge exatamente no momento em que a linguagem humana se transforma em matéria-prima industrial de algoritmos capazes de fabricar consensos artificiais, manipular emoções, simular afetos e reorganizar a percepção coletiva da realidade.

A coincidência é poderosa demais para ser ignorada.

De um lado, a palavra como consciência, discernimento e comunhão humana. De outro, a automatização da linguagem como instrumento de captura algorítmica da consciência em escala planetária.

O Vaticano entendeu que a grande disputa do século XXI não será apenas econômica ou tecnológica. Será uma disputa sobre o próprio significado do humano.

A Igreja decidiu entrar no centro do debate mais decisivo do nosso tempo. E faz isso lembrando ao mundo algo que a civilização contemporânea parece perigosamente inclinada a esquecer: nenhuma inteligência artificial substituirá consciência moral, responsabilidade histórica e espírito humano.

A humanidade entrou numa zona de risco histórico.

E a escolha já começou:

a tecnologia a serviço da vida
ou
o poder acima da consciência.

“Esqueceram de combinar com os russos”

Ninguém de bom senso é contra a discussão sobre a mudança na escala 6×1. O mundo, em diferentes ritmos, tem caminhado para ampliar o tempo de descanso, convivência, lazer e recomposição física dos trabalhadores. Há razoável consenso de que pessoas menos exaustas tendem a produzir melhor, adoecer menos e participar com mais qualidade da vida familiar e social.

O problema começa quando uma pauta legítima, carregada de sentido civilizatório, é empurrada no afogadilho da temporada eleitoral, sem debate profundo sobre suas premissas, condições, custos, impactos e formas de transição. Transformar um direito desejável em instrumento de barganha política é, no mínimo, uma leviandade. O aplauso imediato pode render votos. A conta mal calculada, porém, costuma chegar depois, quase sempre ao endereço de quem se pretendia proteger: o trabalhador.

movimento vat convocou atos pelo brasil contra a escala 6x1
Imagem divulgação

Toda atividade humana é, em alguma medida, política. Organizar interesses, harmonizar conflitos, ajustar direitos e deveres, tudo isso pertence à vida pública. Mas há uma distância considerável entre fazer política e capturar uma demanda social para servir de palanque. Quando esse limite se rompe, a promessa deixa de ser pacto e vira espetáculo.

A situação faz lembrar a célebre pergunta atribuída a Garrincha, diante da estratégia traçada pelo treinador: esqueceram de combinar com os russos? No caso da escala 6×1, parece faltar exatamente isso. Combinar com a realidade. Com os pequenos negócios. Com a indústria. Com o comércio. Com os serviços. Com os custos de contratação. Com a produtividade. Com a informalidade. Com o país concreto que existe fora dos discursos.

E aqui há outro vício antigo, quase naturalizado. Assim como os russos da anedota entram na história como adversários duros, implacáveis e ameaçadores, os empresários costumam ser tratados, em parte do debate público, como uma categoria suspeita por definição. É um preconceito tosco e contraproducente. A sociedade que despreza quem gera emprego, investimento, produção e renda empobrece sua própria capacidade de construir soluções.

Cabe ao empresário cumprir a lei, respeitar direitos, remunerar com justiça e compreender que o trabalho não pode ser reduzido a exaustão. Mas cabe também ao poder público tratar a economia real com seriedade. Direito social sem cálculo, sem transição e sem responsabilidade pode virar frustração. E frustração, no Brasil, quase sempre tem CPF, salário apertado e carteira de trabalho em risco.

AMAZÔNIA 4.0 -Energia, Território e Soberania

Por Estevão Monteiro de Paula e Alfredo Lopes

Os debates realizados durante o Amazonas Óleo, Gás & Energia 2026 acabaram revelando algo que ultrapassa as discussões tradicionais sobre petróleo, gás natural ou combustíveis renováveis. O encontro, realizado em Manaus e reunindo empresários, pesquisadores, representantes da indústria, especialistas em bioeconomia, órgãos públicos e agentes do setor energético, expôs uma mudança silenciosa na forma como a Amazônia começa a ser percebida estrategicamente no país.

Amazonas Oleo Gas e Energia 2026
Imagem divulgação do evento

Ao longo dos painéis, consolidou-se uma percepção ainda difusa, mas cada vez mais presente: a região já não ocupa apenas o papel histórico de fornecedora de recursos naturais ou de reserva ambiental observada à distância. A Amazônia começa a surgir como possível laboratório mundial de infraestrutura energética em ambientes extremos.

A mudança parece sutil, mas altera profundamente o significado geopolítico da região.

O centro do debate já não estava restrito à exploração convencional de petróleo ou gás natural. As discussões avançavam sobre bioenergia, diesel verde, microrredes elétricas, integração fluvial, interiorização tecnológica e combustíveis produzidos a partir de oleaginosas amazônicas.

Em vários momentos surgia uma ideia que até poucos anos atrás parecia improvável: desenvolver uma inteligência energética concebida especificamente para a lógica operacional da floresta.

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Termelétrica do chamado Complexo do Azulão, situado na Bacia do Amazonas. Foto: reprodução

Durante décadas, grande parte do debate nacional sobre a Amazônia permaneceu aprisionada entre duas alternativas relativamente simplificadoras: preservar ou explorar. O encontro indicou o surgimento de uma terceira possibilidade, baseada no desenvolvimento de tecnologias cuja lógica nasce justamente das características ambientais, hidrológicas e territoriais amazônicas.

O território onde o modelo tradicional fracassa

Grande parte das infraestruturas modernas foi concebida para regiões densamente conectadas, com rodovias contínuas, proximidade industrial, facilidade logística e acesso permanente à manutenção técnica.

A Amazônia opera sob lógica completamente distinta.

Por muito tempo, essas características foram tratadas apenas como obstáculos ao desenvolvimento. O que começa a mudar é justamente a percepção de que essas dificuldades talvez representem também uma vantagem comparativa na produção de soluções resilientes para um mundo pressionado pelas mudanças climáticas, pela descarbonização e pela necessidade de sistemas energéticos descentralizados.

Tecnologias capazes de funcionar de maneira eficiente na Amazônia provavelmente conseguirão operar em praticamente qualquer outro ambiente extremo do planeta.

Nos debates do evento, o gás natural apareceu não apenas como combustível industrial, mas como possível eixo de reorganização territorial amazônica.

No interior da região, energia raramente significa apenas eletricidade. Ela determina conectividade, telecomunicações, refrigeração de medicamentos, bombeamento de água, funcionamento de escolas, armazenamento de alimentos e capacidade de permanência populacional em áreas isoladas.

Em muitos municípios amazônicos, ausência energética acaba significando isolamento estrutural.

Por isso, sistemas híbridos, microrredes, armazenamento distribuído, energia solar e bioenergia local passaram a ser tratados não apenas como alternativas ambientais, mas como instrumentos concretos de integração regional.

estrutura
Bioenergia da Amazonia

Quando biodiversidade vira infraestrutura

Talvez um dos debates mais relevantes tenha surgido em torno das oleaginosas amazônicas e do potencial regional para produção de diesel verde, biodiesel e combustíveis avançados.

Essa possibilidade altera profundamente a relação histórica entre floresta e desenvolvimento econômico.

Durante décadas, produzir riqueza significava substituir a floresta por outra atividade produtiva, normalmente associada à pecuária extensiva, mineração ou monocultura. O que começa a surgir agora é uma lógica distinta, na qual a própria biodiversidade passa a funcionar como plataforma bioindustrial e energética.

A floresta deixa de ocupar apenas a condição de obstáculo físico ao desenvolvimento e começa gradualmente a assumir papel de infraestrutura viva de uma nova economia.

A emergência climática, a reorganização das cadeias energéticas globais e a disputa por tecnologias de baixo carbono começam a reposicionar a Amazônia dentro das estratégias internacionais de longo prazo.

A região deixa lentamente de ser percebida apenas como fronteira ambiental, território remoto ou fornecedora de recursos primários. E começa a emergir como plataforma energética tropical, laboratório de infraestrutura resiliente e ambiente estratégico de inovação tecnológica adaptada às condições do século XXI.

Isso não elimina os conflitos existentes. Toda expansão energética produz impactos territoriais, reorganizações populacionais, disputas fundiárias e pressões ambientais.

Mas talvez a pergunta central já não seja mais escolher entre desenvolvimento ou preservação.

O verdadeiro desafio parece estar em descobrir quais modelos tecnológicos permitem produzir desenvolvimento sem destruir os sistemas ecológicos que sustentam a própria Amazônia.

Nesse novo cenário, a floresta deixa de representar apenas paisagem natural. Ela passa a funcionar como infraestrutura viva de um novo paradigma energético, territorial e civilizacional.

Estevão Monteiro de Paula é Engenheiro Civil pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Engenharia de Estruturas na Escola de Engenharia de São Carlos pela Universidade de São Paulo e Ph.D. – University of Tennessee (1989) dos EUA.

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Sem soberania econômica, a Amazônia continuará sendo explorada

Já existem muitas cadeias produtivas na Amazônia, mas elas podem ser muito, muito maiores, se forem construídas com a harmonia que a região requer. Primeiro por uma questão de custo, segundo por uma questão de soberania e rentabilidade. Todas as estratégias extrativistas e destrutivas da região fracassaram.

Precisamos estabelecer uma nova ordem de harmonia com a Amazônia brasileira. A partir disso é que teremos uma soberania sobre a região e uma cooperação com o restante do país. Enquanto persistir o ignorar da Amazônia ou uma perspectiva usurpadora, seguiremos a ter problemas.

A cadeia produtiva mineral do Pará e a indústria do Amazonas são os elementos que se destacam. Mesmo estes dois grandes polos produtores já consolidados, eles ainda são ignorados ou combatidos por boa parte da estrutura de poder nacional. É visível o quanto há de incômodo sobre uma e outra solução produtiva.

SOBERANIA ECONOMICA

Mas, para além destas estruturas, precisam existir várias outras formas de produzir na região. É possível ampliar muito mais a produção industrial de Manaus, que, em uma área pequena, consegue gerar mais de 100 mil empregos diretos e outros muitos país afora. 

A estrutura mineral do Pará faz uso de ferrovias e hidrovias de forma competitiva. Mas, para além dela é necessário surgir um complexo industrial que faça mais do que a extração, porque esta exportação gera pouco de tributos para o país, mesmo que positiva de outras formas.

Os grandes espaços vazios do interior precisam ser potencializados pelo que são, para não olharmos para a floresta apenas como uma reserva econômica para o futuro. A presença de atividades rentáveis e sustentáveis no interior será perfeitamente possível, desde que se reconheçam as vocações locais, mas isso será impossível, se não dermos voz para seus moradores.

Como país, estamos acostumados a pensar pela perspectiva de Brasília ou de São Paulo, apagando e ignorando os interesses amazônicos. Pouco é falado do que interessa aos povos do interior profundo da Amazônia.

Há o interesse de ditar o que fazer e neste “fazer” há uma prescrição de subemprego ou atividades de subsistência subordinada a grupos econômicos estrangeiros ou grandes grupos nacionais. São políticas públicas para outros povos. A perspectiva de solução começará a surgir pela infraestrutura que conecte os rios com as cidades por meio de portos dignos, bem estruturados e que adotem a perspectiva cidadã para quem se move pelos rios. As estruturas contemporâneas seguem improvisadas. Isso precisa mudar.

A infraestrutura necessária passa também pelo transporte aéreo. Não adiantará abrir “os céus” da Amazônia para estrangeiros, pois o que precisamos é de um capitalismo Amazônico e não de um colonialismo tardio. Encontrar as vocações produtivas depende de um integrar interno, antes de um integrar externo e muito distante de um entregar externo, que é o que se faz cotidianamente, como no caso do Projeto de Lei 539/2024 que entrega os céus da Amazônia para estrangeiros.

A mania entreguista, deste colonialismo tardio, precisa ser interrompida, sob a pena de nunca aproveitarmos a Amazônia pelos amazônidas, nem pelo Brasil e, ao fim de tudo, aproveitarmos pela destruição e não pelo convívio. É intrigante porque tantos lutam contra a soberania econômica da Amazônia.

O bem, embora muitas vezes silencioso, continua sendo mais poderoso que o medo

Há momentos em que a sociedade parece atravessar regiões de sombra. O ambiente público se torna áspero, as palavras perdem delicadeza, o desacordo abandona os limites da civilidade e a violência tenta ocupar o espaço onde deveriam prevalecer o diálogo, a prudência e o respeito à vida.

A mensagem do Evangelho jamais foi um convite à indiferença diante da dor humana. Tampouco uma fuga espiritual diante das tensões do mundo. O Evangelho é, antes de tudo, uma boa nova. Uma convocação permanente para que a humanidade não se deixe aprisionar pela lógica do ódio, da vingança e da destruição.

Vivemos um tempo em que a agressividade parece buscar normalização. As redes amplificam ressentimentos, o debate público se contamina pela intolerância e muitas famílias passam a conviver com angústias silenciosas produzidas por um ambiente de permanente hostilidade. Há uma espécie de adoecimento moral em curso quando o adversário deixa de ser visto como ser humano e passa a ser tratado como inimigo a ser destruído.

Essas palavras não pertencem apenas ao campo da devoção individual. Elas possuem dimensão social e coletiva. Falam sobre convivência, responsabilidade, reconciliação e maturidade espiritual. Falam sobre famílias, comunidades e instituições inteiras que precisam reaprender a proteger a dignidade humana acima das disputas passageiras.

O Amazonas conhece profundamente o valor da convivência entre diferenças. Nossa formação cultural nasceu do encontro de povos, crenças, sotaques e visões de mundo. A floresta, com sua grandiosidade silenciosa, talvez seja a maior professora dessa coexistência delicada entre forças distintas que aprendem a compartilhar o mesmo território.

MEDO

Por isso, mais do que nunca, é tempo de oração. Não como gesto protocolar, mas como exercício de serenidade interior. Rezar pela paz significa também trabalhar pela paz. Significa escolher palavras que curem em vez de ferir. Significa proteger crianças e famílias do contágio da brutalidade. Significa preservar a esperança quando muitos tentam espalhar medo.

Há uma força silenciosa na bondade que frequentemente passa despercebida em tempos barulhentos. E talvez seja justamente ela que sustente a travessia humana nos períodos mais difíceis. A maldade produz ruído imediato, mas o amor constrói permanência. A violência intimida por algum tempo, mas a fraternidade deixa raízes.

Nenhuma sociedade encontrará estabilidade duradoura alimentando rancores como método de convivência. Nenhuma família floresce sob o peso do medo. Nenhuma democracia amadurece quando o ódio passa a ser tratado como instrumento legítimo de afirmação política ou pessoal.

O Evangelho permanece atual exatamente porque insiste em recordar aquilo que o mundo frequentemente esquece: a vida humana é sagrada. E toda vez que alguém escolhe a paz, ainda que discretamente, uma parte da escuridão perde força.

Que Deus fortaleça os corações aflitos, ilumine as consciências perturbadas e derrame serenidade sobre os lares. Que a oração devolva equilíbrio onde houver angústia. E que, acima de tudo, a mensagem do amor prevaleça sobre qualquer manifestação de maldade.

Porque o bem, embora muitas vezes silencioso, continua sendo mais poderoso que o medo.

Responsabilização climática ganha força após decisão histórica na ONU

Com apoio de 141 países, decisão da ONU fortalece a responsabilização climática e amplia a cobrança por redução de emissões e transição energética.

A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que reforça a responsabilidade jurídica dos Estados no enfrentamento das mudanças climáticas. Adotado em sessão plenária em Nova York, o texto recebeu 141 votos favoráveis, 28 abstenções e 8 contrários, consolidando apoio majoritário à ideia de que a responsabilização climática deve ser tratada como obrigação legal e não apenas como compromisso político voluntário.

A decisão dá sequência ao parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça, principal órgão judicial da ONU, sediado em Haia. No documento, a Corte classificou a crise climática como ameaça existencial à humanidade e afirmou que os países têm deveres legais de proteger o sistema climático, reduzir emissões e cumprir tratados internacionais.

Embora pareceres consultivos não tenham força de sentença, carregam peso jurídico e político relevante, eles orientam governos e tribunais sobre a interpretação do direito internacional e podem embasar ações de responsabilização climática, especialmente por parte das nações mais vulneráveis ao aquecimento global.

Enchente em área urbana evidencia impactos da crise climática e reforça debate sobre responsabilização climática.
Eventos extremos, como enchentes, ampliam a pressão por responsabilização climática de países diante dos impactos ambientais e sociais da crise do clima.

A proposta foi articulada por um grupo liderado por Vanuatu, país insular altamente exposto à elevação do nível do mar e a eventos climáticos extremos. Durante as negociações, países produtores de petróleo tentaram enfraquecer o debate da responsabilização climática por meio de emendas,  rejeitadas pela maioria. Votaram contra Belarus, Irã, Israel, Libéria, Rússia, Arábia Saudita, Estados Unidos e Iêmen.

A resolução pede que os governos reduzam emissões de carbono, ampliem a capacidade de energia renovável, acelerem a transição energética e eliminem gradualmente subsídios considerados ineficientes a esses combustíveis. 

O texto também solicita que o secretário-geral da ONU apresente, até setembro de 2027, um relatório com formas de promover o cumprimento das obrigações de responsabilização climática apontadas pela Corte, buscando transformar o entendimento jurídico em instrumentos concretos.

Outro ponto central é a proteção de direitos fundamentais — como vida, saúde e condições adequadas de existência — no âmbito das políticas climáticas, além do apelo à cooperação internacional de boa-fé.

Para a ONU e organizações da sociedade civil, a aprovação representa um marco na agenda de justiça climática. A resolução fortalece a ideia de que os países historicamente mais responsáveis pelas emissões devem responder de forma proporcional aos danos causados. No campo diplomático, a decisão sinaliza que a maioria dos Estados-membros apoia uma interpretação mais firme do direito internacional climático e amplia a pressão sobre governos que resistem à redução do uso de combustíveis fósseis.

ONG está transformando biodiversidade amazônica em inovação alimentar

A partir da ciência e da tecnologia, o Idesam impulsiona soluções que agregam valor a frutos da Amazônia e abrem novos mercados sustentáveis.

Frutos tradicionais da Amazônia, como castanha-da-Amazônia, cupuaçu, açaí, buriti e tucumã, vêm ganhando novas formas de uso por meio da tecnologia. Transformados em pó, lascas ou outros formatos desidratados, esses ingredientes passam a ter maior durabilidade, facilidade de transporte e mais possibilidades de aplicação na indústria de alimentos, na gastronomia e no consumo cotidiano.

A inovação está associada à liofilização, técnica que retira a água dos alimentos por meio de congelamento e desidratação a frio. Diferente de processos que usam altas temperaturas, esse método ajuda a preservar características importantes dos frutos, como cor, sabor, aroma e parte de seus nutrientes. Isso permite que ingredientes regionais sejam armazenados por mais tempo e usados em receitas variadas, sem a necessidade de conservantes químicos.

Entre os exemplos estão o buriti em pó, usado em massas e pães; o cupuaçu na preparações doces; a castanha-da-Amazônia em cremes e proteínas vegetais e o tucumã em lascas liofilizadas, ingrediente conhecido na culinária amazonense, especialmente no tradicional X-Caboquinho. Ao serem reidratados ou incorporados às receitas, esses produtos recuperam parte da textura e das propriedades do alimento original.

PPBio conecta ciência, floresta e mercado

As soluções fazem parte de iniciativas ligadas ao Programa Prioritário de Bioeconomia, o PPBio, idealizado pela Suframa e coordenado pelo Idesam. O programa busca conectar pesquisa, tecnologia, empresas, startups e comunidades locais para desenvolver novos produtos, processos e serviços ligados à sociobiodiversidade amazônica.

Segundo dados do programa, os investimentos já somam cerca de R$ 196 milhões. A iniciativa reúne 51 negócios incentivados, 19 Instituições de Ciência e Tecnologia e já apoiou mais de 240 soluções inovadoras. Além disso, contribuiu para a geração de mais de 800 empregos em cadeias produtivas da Amazônia Ocidental e do Amapá.

A proposta, apoiada pelo Idesam, é agregar valor aos produtos da floresta, ampliando oportunidades de renda e fortalecendo modelos econômicos baseados no uso sustentável da biodiversidade. Em vez de comercializar apenas matérias-primas in natura, a bioeconomia passa a investir em processamento, inovação e desenvolvimento de produtos com maior valor agregado.

Durante a Expopim 4.0, realizada em março, em Manaus, o público conheceu aplicações práticas desses ingredientes. As receitas foram preparadas pela chef Renata Peixe-boi. Entre as preparações estavam crepioca de buriti com creme de castanha-da-Amazônia, pãozinho de buriti com queijo coalho, biscoitinho de cupuaçu e buriti, creme de macaxeira com tucumã e chips crocantes, além de iogurte de macaxeira com proteína de castanha, geleia de araçá-boi e nibs de cacau.

“A ideia foi mostrar, na prática, como esses ingredientes podem fazer parte do dia a dia, de forma simples e inovadora”, afirma Expedito Moura, do Idesam, que participou da organização da atividade.

Além da culinária regional, os ingredientes amazônicos liofilizados têm potencial para alcançar outros mercados, como panificação, alimentação saudável, produtos plant-based e alta gastronomia. A facilidade de armazenamento e transporte também pode ampliar o acesso a esses insumos fora da região amazônica.

O Brasil diante do governo Trump: cautela, soberania e sangue-frio diplomático

A volta de Donald Trump ao centro do poder americano recoloca o Brasil diante de uma pergunta incômoda: como negociar com um governo que transforma tarifa, ameaça, recuo e exceção institucional em instrumentos permanentes de pressão política? A questão deixou de ser apenas comercial. Tornou-se diplomática, estratégica e, em alguns momentos, quase civilizatória.

O episódio recente envolvendo a blindagem de Trump, de seus familiares e de seus negócios contra auditorias fiscais reacendeu nos Estados Unidos o debate sobre conflito de interesses, captura institucional e uso privado do poder público. A controvérsia foi tratada por veículos como APFinancial Times e Wall Street Journal como um fato extraordinário na relação entre Presidência, Justiça e sistema tributário americano.

trump tarifas

Para a diplomacia brasileira, o alerta é evidente. Um governo que mistura política doméstica, guerra comercial, pressão judicial, interesses familiares e comunicação de choque exige do interlocutor estrangeiro um repertório menos ingênuo. O Brasil não pode reagir a cada sobressalto como se fosse apenas mais uma divergência protocolar. Precisa tratar a relação com Washington como tema de Estado, com prudência, documentação rigorosa e cálculo de longo prazo.

As tarifas impostas por Trump ao Brasil em 2025 e a tentativa posterior de renegociação mostraram que a relação bilateral passou a operar sob maior volatilidade. A Casa Branca chegou a justificar medidas contra o Brasil em termos de segurança nacional, política externa e defesa de empresas americanas, enquanto análises internacionais apontaram risco de guerra comercial e reacomodação das relações entre Brasília e Washington.

Nesse ambiente, a primeira precaução brasileira deve ser separar Estado de espetáculo. Trump governa, em larga medida, pela produção de impacto. O anúncio vale tanto quanto a medida. A ameaça, muitas vezes, já cumpre parte do objetivo. A diplomacia brasileira precisa evitar a armadilha da reação emocional e construir respostas graduais, jurídicas, multilaterais e tecnicamente verificáveis.

A segunda precaução é não personalizar a relação. O Brasil deve dialogar com a Casa Branca, mas também com Congresso, governadores, setor empresarial, universidades, imprensa, organismos multilaterais e cadeias produtivas americanas que dependem do mercado brasileiro. Relação bilateral madura não pode ficar refém do temperamento de um presidente.

A terceira estratégia é compreender que, quando Trump fala em tarifas, minerais críticos, China, segurança, energia ou Amazônia, raramente se trata de um único tema. Há interesses industriais, eleitorais, financeiros e geopolíticos atravessando a mesa. O Brasil precisa chegar a cada negociação sabendo quem ganha, quem perde, quem pressiona e quem especula com cada movimento.

O crescimento da presença empresarial e financeira da família Trump em setores ligados à comunicação, ativos digitais, infraestrutura e fundos privados amplia ainda mais esse ambiente de desconfiança institucional nos Estados Unidos. Mesmo sem provas formais de ilegalidade, o debate sobre conflito de interesses passou a ocupar o centro da política americana.

Em mercados hiperfinanceirizados, volatilidade também produz enriquecimento. Tarifas repentinas, sanções, guerras comerciais e suspensões inesperadas alteram petróleo, dólar, cadeias industriais, mineração estratégica e ações do setor de defesa em questão de horas. A diplomacia brasileira precisa entender que parte desse jogo contemporâneo opera simultaneamente no campo político e no financeiro.

A quarta precaução é impedir que a Amazônia seja convertida em moeda geopolítica de troca. A região entrou definitivamente no tabuleiro global por razões climáticas, minerais, energéticas, tecnológicas e militares.

O risco é que a floresta seja tratada como compensação diplomática, reserva mineral disponível ou ativo estratégico em disputas entre grandes potências. A resposta brasileira deve ser firme e serena: soberania amazônica, sim; isolamento, não. Cooperação, sim; tutela, não. Investimento, sim; chantagem, não.

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Foto divulgação

Nesse contexto, minerais críticos, biodiversidade, créditos de carbono, terras raras, logística amazônica e transição energética passarão a ocupar posição cada vez mais central nas disputas internacionais.

O Brasil também não pode substituir dependência de Washington por dependência de Pequim. Diversificação madura significa negociar com todos preservando margem de manobra.

Isso envolve reduzir vulnerabilidades em setores críticos como semicondutores, fertilizantes, energia, defesa, alimentos, tecnologia climática e minerais estratégicos. O mundo atravessa uma reorganização das cadeias globais de produção e a Amazônia aparece cada vez mais como território decisivo nesse rearranjo.

O Itamaraty conhece esse terreno. A tradição diplomática brasileira sempre trabalhou mais próxima da prudência do que do impulso. Mas o tempo atual exige uma prudência armada de dados, inteligência econômica e capacidade de antecipação.

A política externa não pode apenas administrar crises sucessivas. Precisa prever onde a próxima pressão poderá surgir. Cada tarifa, cada ameaça comercial, cada movimento envolvendo China, OTAN, minerais estratégicos ou clima repercute diretamente sobre a indústria brasileira, a Zona Franca de Manaus e a posição internacional do país.

Talvez a regra mais prudente no trato com Trump seja relativamente simples: conversar sempre, conceder pouco, registrar tudo e jamais negociar sozinho. O Brasil precisa transformar cada pressão bilateral em debate multilateral, cada tarifa em dossiê técnico e cada ameaça em oportunidade de articulação com outros países igualmente afetados.

A diplomacia brasileira não deve hostilizar os Estados Unidos. Seria erro primário. Mas tampouco pode fingir que está diante de uma administração convencional. O governo Trump opera com uma combinação particular de nacionalismo econômico, personalismo jurídico, teatralização da força e imprevisibilidade calculada.

A Amazônia, a Zona Franca de Manaus, os minerais críticos, a transição energética e a indústria brasileira estarão cada vez mais no centro desse jogo. O Brasil precisará falar com serenidade, mas também com coluna vertebral. Em tempos de diplomacia turbulenta, ingenuidade estratégica costuma custar caro.