Do recorde de intoxicações ao debate científico sobre pesticidas, os agrotóxicos no Brasil revelam tensões entre produtividade do agronegócio, saúde pública e preservação da biodiversidade.
Em 2025, o Brasil registrou um recorde de intoxicações por agrotóxicos, segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde. Foram mais de 9.700 casos de contaminação não intencional, uma média de cerca de 27 ocorrências por dia. O número representa um aumento expressivo em relação aos registros de uma década atrás e reacende o debate sobre os impactos do modelo agrícola intensivo em insumos químicos.
A maioria dos casos de intoxicação por agrotóxicos no Brasil envolve trabalhadores rurais expostos durante o manejo de pesticidas, especialmente homens entre 20 e 39 anos. No entanto, a segunda faixa etária com maior número de contaminações é a de crianças entre 1 e 4 anos, o que indica que a exposição aos agrotóxicos no Brasil não ocorre apenas no ambiente de trabalho, mas também em comunidades próximas às áreas de cultivo.
No entanto, os números oficiais provavelmente representam apenas uma fração do problema real. Uma vez que a subnotificação ainda é comum em regiões rurais, onde o acesso a serviços de saúde e sistemas de vigilância epidemiológica é limitado.
A distribuição geográfica dos casos também revela padrões ligados à expansão da fronteira agrícola. Estados como Espírito Santo, Tocantins, Rondônia e Acre aparecem entre os mais afetados, regiões onde o avanço de monoculturas como soja e milho intensificou o uso de agrotóxicos no Brasil nas últimas décadas.

Do envenenamento agudo às doenças crônicas
Estudos científicos mostram que a exposição a agrotóxicos pode provocar uma ampla gama de efeitos sobre a saúde humana. Nos casos agudos, os sintomas incluem náuseas, vômitos, irritações na pele, dificuldade respiratória e alterações neurológicas. Essas situações costumam ocorrer após acidentes de trabalho ou aplicação inadequada dos produtos.
Já a exposição prolongada a pequenas doses tem sido relacionada ao desenvolvimento de doenças crônicas, como alguns tipos de câncer, distúrbios hormonais, problemas reprodutivos e alterações neurológicas. Pesquisas também apontam possíveis efeitos sobre a saúde mental de trabalhadores rurais expostos a pesticidas, incluindo aumento de quadros de depressão e ansiedade.
Além dos trabalhadores do campo, populações que vivem próximas a grandes lavouras também podem ser expostas por meio da deriva de pulverizações, contaminação de água e resíduos presentes em alimentos.

Povos indígenas, territórios e vidas em risco
O avanço do uso de agrotóxicos no Brasil também tem provocado impactos em territórios indígenas. Relatórios do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) mostram que comunidades indígenas próximas a grandes áreas de cultivo frequentemente enfrentam episódios de intoxicação ligados à pulverização aérea ou ao uso intensivo de pesticidas em propriedades vizinhas.
Nessas regiões, a contaminação pode afetar rios, solos e espécies animais utilizadas na alimentação tradicional. Estudos relatam a presença de resíduos de agrotóxicos no Brasil em fontes de água utilizadas por comunidades indígenas, o que compromete a segurança alimentar e dificulta a manutenção de práticas agrícolas tradicionais.
Também têm aumentado os casos do uso de agrotóxicos como armas químicas contra os povos indígenas na tentativa de forçar a desocupação dos seus territórios. Em outubro de 2024, foram registradas imagens de aviões que sobrevoam a Terra Indígena Guyraroká (MS) despejando pesticidas sobre as aldeias. Os ataques passaram a ser recorrentes e causaram impactos significativos sobre a saúde da população indígena local.

A controvérsia científica do glifosato
O debate sobre os riscos dos agrotóxicos ganhou novo impulso em 2025 após a anulação de um estudo científico publicado em 2000, que havia sido amplamente utilizado como referência para avaliar a segurança do glifosato no Brasil, o herbicida é o mais utilizado no mundo.
Investigações apontaram que o artigo apresentava conflitos de interesse e participação não declarada de funcionários da Monsanto, hoje parte do grupo Bayer, no processo de redação do artigo. A retratação levantou questionamentos sobre a base científica utilizada em avaliações regulatórias e reacendeu o debate sobre os potenciais riscos da substância.
O glifosato é amplamente empregado em sistemas agrícolas baseados em sementes transgênicas tolerantes ao herbicida, especialmente em cultivos de soja, milho e algodão. Enquanto algumas agências reguladoras consideram o produto seguro quando utilizado dentro dos limites estabelecidos, parte da comunidade científica aponta possíveis associações entre a exposição prolongada e o aumento do risco de câncer.
A professora do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, Eliane Novato, afirma que os danos da exposição aos agrotóxicos podem demorar gerações para aparecerem. Novato afirma que por não se conhecer todos os impactos que os agrotóxicos causam à saúde humana é impossível falar de um uso seguro.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) define limites de Ingestão Diária Aceitável (IDA) para agrotóxicos no Brasil, calculados a partir da quantidade máxima da substância que pode ser consumida diariamente, expressa em miligramas por quilograma de peso corporal, sem risco significativo para a saúde. Porém, a especialista Eliane Novato afirma que as leis não consideram o uso total nos produtos consumidos.
“Se uma substância é utilizada no cultivo de arroz e um produto com essa mesma substância é usado no feijão, a ingestão do consumidor tem as duas doses somadas. Então, essa quantidade é muito menos inócua do que parece”, alerta.
Eliane Novato, professora e pesquisadora do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG.
Impactos ambientais e perda de biodiversidade
Os efeitos dos pesticidas não se restringem à saúde humana. Pesquisas recentes indicam que a toxicidade associada ao uso de agrotóxicos tem aumentado em diversas regiões agrícolas do mundo, incluindo o Brasil.
Entre os impactos ambientais mais frequentemente documentados estão: contaminação de solos e aquíferos, presença de resíduos químicos em rios e reservatórios, redução de organismos do solo responsáveis pela ciclagem de nutrientes e mortalidade de peixes e invertebrados aquáticos.
Outro ponto crítico é o impacto sobre insetos polinizadores, especialmente abelhas. Diversos estudos associam pesticidas como neonicotinoides e fipronil à morte de colônias e ao declínio de populações desses insetos.
O problema preocupa cientistas porque cerca de 75% das culturas alimentares dependem, ao menos parcialmente, da polinização animal. A redução desses organismos pode afetar diretamente a produtividade agrícola e o equilíbrio dos ecossistemas.

Um modelo agrícola dependente de insumos químicos
O aumento da produção agrícola brasileira está associado a um modelo intensivo em insumos químicos. Fertilizantes sintéticos, herbicidas e pesticidas tornaram-se componentes essenciais para sustentar grandes monoculturas voltadas à exportação.
Esse modelo permitiu ganhos significativos de produtividade, mas também criou uma dependência estrutural de insumos industriais, muitos deles produzidos fora do país.
No caso dos fertilizantes, a dependência externa é particularmente elevada. Em 2025, o Brasil importou cerca de 45,5 milhões de toneladas desses produtos, com gastos superiores a US$ 16 bilhões. Estima-se que mais de 85% dos fertilizantes utilizados na agricultura nacional venham do exterior.

Fertilizantes, guerras e geopolítica
Essa dependência expõe o país a variações cambiais e oscilações no mercado internacional. O mercado global de fertilizantes tornou-se cada vez mais sensível a crises geopolíticas. Países como Rússia, Belarus, China e Canadá estão entre os principais fornecedores desses insumos para o Brasil.
Conflitos internacionais e sanções econômicas podem afetar diretamente a disponibilidade e o preço desses produtos. A guerra entre Rússia e Ucrânia, por exemplo, provocou forte aumento no preço do potássio e de fertilizantes nitrogenados em 2022.
Mais recentemente, a escalada do conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel também começa a repercutir no mercado global de fertilizantes, insumo essencial para a produção agrícola. Segundo análise do Rabobank, as tensões geopolíticas adicionaram um “prêmio de risco” ao mercado, elevando os custos desses produtos e criando um possível descompasso entre o aumento das despesas de produção e os preços das commodities agrícolas, especialmente soja e milho.
O impacto é especialmente relevante porque o Oriente Médio concentra uma parcela significativa da oferta global de fertilizantes nitrogenados, como a ureia. A região responde por cerca de 35% do comércio marítimo desse insumo, enquanto o Irã sozinho representa 11% das exportações globais de ureia. Com a instabilidade na região e riscos logísticos em rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz, analistas alertam para possíveis aumentos nos custos agrícolas e reflexos futuros nos preços dos alimentos.

O desafio de repensar o modelo agrícola
Diante desse conjunto de fatores — impactos sanitários, ambientais e vulnerabilidades econômicas — estudos conduzidos por pesquisadores da Fiocruz, Embrapa e universidades brasileiras apontam que o futuro da agricultura no país passa pela adoção de sistemas produtivos capazes de reduzir a dependência de pesticidas e fertilizantes químicos.
Entre as propostas discutidas estão o manejo integrado de pragas, o uso de bioinsumos, fertilizantes biológicos e práticas regenerativas que buscam restaurar a fertilidade natural do solo. Nesse contexto, os sistemas agroflorestais têm ganhado destaque.
Esse modelo combina o cultivo agrícola com árvores e espécies nativas, criando sistemas produtivos biodiversos que favorecem a ciclagem de nutrientes, reduzem a necessidade de fertilizantes e aumentam a resiliência das lavouras diante de eventos climáticos extremos.
Apesar do potencial ambiental e produtivo, a expansão das agroflorestas ainda enfrenta desafios, como a falta de assistência técnica especializada, dificuldades de acesso a crédito e uma infraestrutura logística voltada principalmente para grandes monoculturas.

Embora existam evidências crescentes sobre os impactos sanitários e ambientais do uso intensivo de pesticidas, o país segue ampliando a oferta desses produtos no mercado. Em 2025, o país registrou um novo recorde de 912 liberações de agrotóxicos no Brasil e defensivos biológicos, número 37% maior que o do ano anterior, mantendo a tendência de expansão observada na última década.
O dado evidencia uma contradição central do modelo agrícola brasileiro, enquanto os alertas sobre riscos à saúde humana, à biodiversidade e à segurança ambiental aumentam, o país continua ampliando a disponibilidade de insumos químicos que sustentam a atual lógica de produção no campo.
