“Miopia nos acomete quando cidadãos, lideranças e governos trocam a compreensão profunda dos problemas por reações imediatas, perdendo de vista o esforço coletivo exigido pela competitividade regional e nacional”
No debate público brasileiro poucos estão a salvo da falta de visão sistêmica. Nos diversos ambientes percebemos predominância desta miopia. Ela acomete muitos em todos os andares da pirâmide social. Enquanto não a reconhecermos e agirmos em suas causas, vamos continuar sofrendo as consequências. Detalho este olhar em duas cenas.
Cena 1: Pesquisadores da Ufam publicam um relatório demonstrando forte redução no índice de regionalização do Polo Industrial de Manaus. Procurados pelos líderes de um dos portais de notícias de maior prestígio do Amazonas, detalham os números e estimam hipóteses sobre suas causas. A matéria é publicada como resultado do melhor trabalho de “jornalismo raiz”. Coleta de informações ao segundo nível. Citações literais e contextualizadas com outras informações. Do diagnóstico inicial às propostas por soluções.
O portal publicou a manchete da matéria em suas redes sociais e o que ocorreu: Populares viram na manchete uma ocorrência e interromperam seus trajetos para, na zona de comentários, proferirem ignorâncias ao que era publicado. Todos se alinhando a um dos polos das preferências políticas, buscavam culpar o polo adversário pelo que entenderam ser uma notícia ruim.

Não se dedicaram a clicar no link da matéria e lê-la com cuidado, onde se detalhava: A redução no índice de regionalização perpassa todos os governos, desde o ano de 2004, é um fenômeno ambíguo entre os setores e dentro dos setores. A única conclusão que os pesquisadores apresentaram resolutos é a necessidade de todos os agentes da sociedade amazonense se sentirem corresponsáveis pelos esforços de prospecção e apropriação de competências. Um convite ao trabalho em equipe solidário e sincero.
Cena 2: O governo federal, por meio da Câmara de Comércio Exterior, no último dia 04 de fevereiro publicou a resolução Gecex Nº 852, aumentando a alíquota do Imposto de Importação para mais de 1.200 produtos. Muitos deles onerando importações de produtos concorrentes ao PIM, como smartphones, e insumos, como circuitos e chipsets.
O governo federal aparenta não ter conseguido enxergar a reação adversa diante dos aumentos de impostos de importação lá pelas bandas da América do Norte. Nos últimos meses esse tema suscitou debates a tal ponto que a população em geral entendeu razoavelmente a ideia da tributação como um fenômeno social excludente.
Simbólico que a lista da resolução 852 incluía equipamentos de tomografia. Imagine nosso sistema de saúde sendo privado disso. Devido a forte reação o governo voltou atrás, com a resolução Gecex 866 excluiu do aumento alguns dos principais produtos. Entre eles os smartphones e tomógrafos.
O vetor da iniciativa provavelmente foram representantes das entidades setoriais. Guiados pela velha visão de procurar substituição de importações tão somente pela via tributária ou regulatória. Algo que nunca teve sucesso e claramente não encontra mais espaço. Até nos EUA, concomitante ao atabalhoamento tarifário, são evidentes esforços por apropriação de competências. Assim também ocorrera na Ásia, só que, obviamente, de modo não atabalhoado.
As duas cenas mostram quão estreito é o caminho disponível a quem, no Brasil, se percebe como corresponsável por propostas de soluções a longo prazo pela competitividade da nossa economia nacional e regional. E enquanto de alto a baixo prevalecem abordagens míopes, aos que veem a longo prazo precisam perseverar, feito os profetas de Nelson Rodrigues, segundo quem são os únicos que enxergam o óbvio.
