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Produção de bicicletas no Polo de Manaus chega a 43 mil unidades no início do ano

A produção de bicicletas no Polo Industrial de Manaus alcançou 43.158 unidades no primeiro bimestre do ano. O volume, divulgado pela Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), representa uma retração de 20,1% em relação ao mesmo período de 2025.

De acordo com Fernando Rocha, vice-presidente do segmento de bicicletas da Abraciclo, o resultado já estava dentro do esperado pelo setor. A redução, segundo ele, está associada ao menor número de dias úteis no período, influenciado pelo calendário de feriados, especialmente o Carnaval. Mesmo com esse fator, o desempenho da indústria permanece alinhado às projeções traçadas para o início do ano.

O destaque da produção segue sendo o segmento de bicicletas elétricas. Entre janeiro e fevereiro, foram fabricadas 8.170 unidades desse tipo de modelo, um crescimento de 78,2% na comparação com o mesmo período do ano anterior. O avanço reforça a expansão da demanda por alternativas de mobilidade mais eficientes e com menor impacto ambiental.

Considerando apenas o mês de fevereiro, a produção atingiu 24.130 bicicletas. O número representa um aumento de 26,8% em relação a janeiro, embora ainda seja 21,1% inferior ao registrado em fevereiro de 2025.

Na análise por categorias, as bicicletas do tipo Mountain Bike (MTB) lideraram o volume produzido no primeiro bimestre, com 15.806 unidades, equivalentes a 36,6% da produção total. Em seguida aparecem os modelos urbanos e de lazer, com 9.831 unidades e participação de 22,8%, além das bicicletas infantojuvenis, que somaram 8.321 unidades, correspondendo a 19,3% do total fabricado.

No recorte específico de fevereiro, o principal destaque foi o desempenho das bicicletas elétricas, que alcançaram o terceiro lugar no ranking mensal de produção, com 4.728 unidades e participação de 19,6% do volume fabricado. A liderança do mês permaneceu com as bicicletas Mountain Bike.

No destino da produção, a região Sudeste concentrou a maior parte das bicicletas fabricadas no Polo de Manaus no primeiro bimestre. Foram 25.761 unidades enviadas para essa região, o equivalente a 59,7% do total produzido. Na sequência aparecem o Sul, com 15,2% da produção, o Nordeste com 10%, o Centro-Oeste com 9,7% e o Norte com 5,4%.

A mesma distribuição regional foi observada em fevereiro, mantendo o Sudeste como principal mercado consumidor, com 59,7% do volume produzido, seguido pelas regiões Sul (14,6%), Nordeste (11%), Centro-Oeste (9,7%) e Norte (5%).

PRODUCAO DE BICICLETAS

Acesse a apresentação com os números completos do Segmento de Bicicletas:  

https://abraciclo.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Fechamento_do_mes_-_fevereiro_de_2026-Bicicletas.pdf

Sobre a ABRACICLO e o Setor de Duas Rodas

Fundada em 1976 e contando com 15 associadas, a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares – ABRACICLO representa os fabricantes de veículos de duas rodas no país, tendo como principal missão promover o desenvolvimento sustentável e a competitividade do Setor de Duas Rodas, apoiando e defendendo a indústria nacional estabelecida no Polo Industrial de Manaus – PIM por meio dos pilares Política Industrial, Segurança Viária e Técnico.

A fabricação nacional de motocicletas, quase totalmente concentrada no Polo Industrial de Manaus (PIM), está entre as seis maiores do mundo. No segmento de bicicletas, com as principais fábricas também instaladas no PIM, o Brasil se encontra na quarta posição entre os principais produtores mundiais. No total, as fabricantes do Setor de Duas Rodas geram 20,9 mil empregos diretos em Manaus/AM e mais de 150 mil em todo o Brasil.

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Amazônia: laboratório do futuro ou celeiro de matéria-prima

Coluna Follow-Up

O debate sobre o futuro da Amazônia voltou à pauta nacional nesta semana em Brasília com uma pergunta recorrente: por que uma região com a maior biodiversidade do planeta ainda não se tornou uma potência global em bioeconomia?

A resposta mais comum aponta para a falta de inovação. Cientistas lembram que a floresta abriga cerca de 50 mil espécies de plantas, das quais aproximadamente 16 mil são árvores. 

Estimativas do Banco Mundial indicam que manter a floresta em pé poderia gerar algo como US$ 317 bilhões por ano em valor econômico global.

Apesar disso, a economia brasileira continua fortemente dependente de commodities de baixo valor agregado. Madeira, mineração, soja e pecuária ainda dominam a pauta exportadora. A riqueza biológica permanece subutilizada.

Esse diagnóstico, porém, ignora um elemento central da equação amazônica.

A Amazônia já possui uma das maiores infraestruturas de financiamento tecnológico do país. E ela foi construída pela indústria instalada no Polo Industrial de Manaus.

Todos os anos, bilhões de reais são direcionados para ciência, tecnologia e inovação por meio de mecanismos como a Lei de Informática, os fundos de PD&I e as contribuições obrigatórias para instituições de pesquisa. 

Pródigos recursos alimentam universidades, institutos tecnológicos e programas de desenvolvimento científico.

Ou seja, o problema não é ausência de recursos ou de base científica. O problema é que o sistema ainda não foi plenamente orientado para transformar conhecimento em cadeias produtivas da floresta.

Existe um descompasso entre três mundos que deveriam funcionar de forma integrada: a biodiversidade amazônica, a capacidade científica instalada e a base industrial capaz de escalar soluções.

A floresta oferece os ativos biológicos. A ciência produz conhecimento.

A indústria domina os processos de engenharia, escala produtiva, certificação e acesso ao mercado.

O desafio estratégico é conectar essas três dimensões.

Isso significa organizar um novo ciclo de desenvolvimento baseado na chamada inteligência florestal. Um sistema que combine conhecimento tradicional dos povos da Amazônia, pesquisa científica avançada e capacidade industrial para transformar ativos biológicos em produtos de alto valor agregado.

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Foto: Leo Visions/Unsplash

Teimosamente, o Polo Industrial de Manaus assume o protagonismo de quem produz na Amazônia há 60 anos

Além de sua capacidade tecnológica acumulada em setores como eletroeletrônicos, duas rodas e bens de informática, o polo financia uma rede crescente de centros de pesquisa, incubadoras e programas de inovação. Com planejamento adequado, essa estrutura poderia irradiar novos polos tecnológicos voltados às vocações regionais.

Parques tecnológicos dedicados a biotecnologia, alimentos funcionais, cosméticos, biofármacos e novos materiais poderiam surgir conectados às cadeias produtivas da floresta.

A Amazônia deixaria então de exportar apenas matéria-prima e passaria a exportar conhecimento incorporado em produtos.

Isso exige decisões de política pública, coordenação institucional e visão estratégica de longo prazo. Não se trata apenas de incentivar pesquisas isoladas, mas de organizar um sistema de inovação capaz de transformar biodiversidade em prosperidade sustentável.

Os recursos existem. A ciência também.

Talvez esteja faltando apenas aquilo que a história econômica sempre exigiu para transformar potencial em desenvolvimento: decisão política e capacidade de execução.

E, nesse ponto, a indústria da Amazônia já demonstrou que pode ser parte da solução.

A COP30, realizada em Belém em novembro de 2025, consolidou um consenso internacional: a Amazônia precisa de uma economia capaz de manter a floresta em pé gerando prosperidade.

Esse consenso, no entanto, traz uma responsabilidade concreta para o Brasil. Não basta afirmar a centralidade da bioeconomia nos discursos internacionais. É preciso construir as condições produtivas que tornem essa economia viável.

A Amazônia já dispõe de três ingredientes preciosos e raros no cenário global: a maior biodiversidade do planeta. Uma base científica respeitada internacionalmente. E possui uma infraestrutura industrial que, há décadas, financia pesquisa, tecnologia e inovação.

O Polo Industrial de Manaus, muitas vezes lembrado apenas por sua produção de bens manufaturados, é também um dos principais financiadores da ciência aplicada no país. Recursos oriundos da indústria alimentam universidades, institutos tecnológicos e programas de desenvolvimento científico que sustentam boa parte da capacidade de pesquisa instalada na região.

O que começa a emergir agora, em iniciativas – mais uma – como o debate nesta semana entre o CIEAM e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, é o propósito de organizar esses elementos em torno de um novo ciclo econômico.

Adensar cadeias produtivas, modernizar marcos regulatórios, integrar cooperativas, fortalecer a bioindústria e estruturar cadeias de fornecimento capazes de transformar biodiversidade em produtos de alto valor agregado.

Essa agenda engloba planejamento, coordenação institucional e visão estratégica

Exige também reconhecer que a bioeconomia amazônica não surgirá apenas da floresta ou da ciência isoladamente. Ela dependerá da convergência entre conhecimento tradicional, pesquisa científica e engenharia industrial.

É nesse ponto que o Polo Industrial de Manaus está exercendo um papel decisivo.

Se a biodiversidade fornece os ativos biológicos e a ciência produz conhecimento, é a indústria que domina a escala produtiva, a engenharia de processos, a certificação e o acesso aos mercados globais.

A pergunta agora é prática.

O Brasil terá a capacidade de organizar sua biodiversidade, sua ciência e sua indústria para construir uma economia da floresta?

Ou continuará assistindo ao mundo transformar ativos amazônicos em riqueza fora da Amazônia?

A resposta a essa pergunta começa a ser escrita agora. E depende menos de discursos e mais de decisões.


Follow-Up é publicada às quartas, quintas e sextas feiras no Jornal do Comércio do Amazonas, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, BrasilAmazoniaAgora

Horta sem agrotóxicos: 7 práticas naturais que deixam sua horta mais saudável

Especialistas em agroecologia apontam que práticas simples, como compostagem, cobertura do solo e uso de repelentes naturais, podem ajudar a manter uma horta sem agrotóxicos.

Cultivar uma horta em casa tem se tornado um hábito cada vez mais comum em quintais, varandas e até apartamentos pequenos. O interesse por alimentos frescos, livres de resíduos químicos, tem levado muitas pessoas a plantar temperos, hortaliças e pequenas frutas no próprio lar.

Nesse processo, porém, surge uma dúvida frequente: como manter as plantas saudáveis sem recorrer a agrotóxicos ou fertilizantes sintéticos? A boa notícia é que existem alternativas simples e acessíveis que permitem nutrir o solo e controlar pragas de forma natural.

Fertilidade do solo começa na cozinha

Uma das primeiras dicas é cuidar da fertilidade do solo a partir de resíduos orgânicos da própria casa. Cascas de frutas, restos de legumes, borra de café e folhas secas podem ser reaproveitados na compostagem, um processo natural de decomposição que transforma esses materiais em adubo rico em nutrientes. Além de alimentar as plantas, a compostagem melhora a estrutura do solo, aumenta a retenção de água e estimula a presença de microrganismos benéficos que ajudam no desenvolvimento das raízes.

Outra alternativa eficiente é o uso de húmus de minhoca, considerado um dos fertilizantes naturais mais completos para hortas domésticas. Produzido a partir da vermicompostagem, ele fornece nutrientes essenciais para as plantas e contribui para tornar o solo mais equilibrado e fértil. Em muitos casos, pequenas quantidades já são suficientes para fortalecer o crescimento das mudas.

Controle de pragas sem veneno

No combate às pragas, uma dica importante é apostar em soluções naturais em vez de pesticidas químicos. Preparações caseiras feitas com ingredientes simples podem funcionar como repelentes de insetos. Caldas à base de alho ou pimenta, por exemplo, ajudam a afastar pulgões, lagartas e outros pequenos invasores da horta. O óleo de neem, extraído de uma árvore asiática, também é bastante utilizado na agricultura orgânica por agir como inseticida natural, interferindo no ciclo de desenvolvimento de diversas pragas.

Outra estratégia eficaz é diversificar as espécies cultivadas no mesmo espaço. O chamado plantio consorciado consiste em combinar plantas que se ajudam mutuamente. Manjericão cultivado próximo ao tomateiro pode ajudar a repelir insetos, enquanto ervas como cebolinha e hortelã também contribuem para afastar pragas. Essa diversidade cria um ambiente mais equilibrado e reduz a chance de infestações, um princípio importante para quem busca manter uma horta sem agrotóxicos.

Joaninha sobre folha ajudando no controle natural de pragas em horta sem agrotóxicos.
Joaninha em folha de planta, inseto considerado aliado no controle natural de pragas em sistemas de horta sem agrotóxicos. Foto: Getty Images

Solo protegido e biodiversidade

Proteger o solo também faz diferença no sucesso da horta. Uma dica simples é cobrir a terra com materiais orgânicos, como palha, folhas secas ou capim cortado. Essa técnica, conhecida como cobertura morta ou mulching, ajuda a conservar a umidade, diminui o crescimento de ervas invasoras e melhora a fertilidade do solo à medida que o material se decompõe.

Por fim, vale lembrar que uma horta orgânica saudável depende de equilíbrio ecológico. Alternar culturas ao longo do tempo, estimular a presença de insetos benéficos e evitar o uso excessivo de produtos químicos contribuem para manter o solo vivo e produtivo. Mesmo em pequenos espaços, essas práticas ajudam a criar um ambiente mais sustentável e resiliente, base para quem deseja cultivar uma horta sem agrotóxicos.

Mais do que produzir alimentos, cultivar uma horta doméstica pode ser uma forma de se reconectar com os ciclos da natureza. Ao substituir agrotóxicos e fertilizantes sintéticos por soluções naturais, cada pequeno canteiro se transforma em um exemplo de que é possível plantar de maneira mais saudável para o planeta e para quem consome.

Energia, guerra e logística: o choque do petróleo e seus reflexos para o Brasil e a Amazônia

Coluna Follow-Up

A nova escalada geopolítica no Oriente Médio recolocou o petróleo no centro da política global. A guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e aliados ampliou o risco sobre o Estreito de Ormuz, corredor marítimo por onde circula cerca de um quinto de todo o petróleo comercializado no mundo. Quando essa artéria energética entra sob ameaça, o mercado reage imediatamente. O preço do barril sobe, o custo do transporte marítimo aumenta e o sistema econômico global passa a operar sob o peso da incerteza.

O cenário atual mostra exatamente esse movimento. Com ataques a navios e risco de interrupção no fluxo de petroleiros, analistas de energia já descrevem a situação como um choque de oferta potencial. Não se trata apenas de um aumento conjuntural de preços. O que está em jogo é a percepção de risco sobre a segurança energética global.

Nesse contexto, a capacidade de resposta dos Estados Unidos é limitada no curto prazo. O governo americano pode recorrer a instrumentos como a liberação de reservas estratégicas, redução de impostos sobre combustíveis ou restrições pontuais à exportação de petróleo. Essas medidas podem suavizar pressões domésticas temporariamente, mas não recompõem imediatamente uma rota logística ameaçada. Enquanto o mercado perceber risco sobre o fluxo de petróleo no Golfo, os preços tendem a permanecer voláteis.

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Essa dinâmica tem efeitos globais rápidos. O primeiro impacto ocorre sobre os combustíveis e o transporte. O petróleo é base da matriz energética mundial e influencia diretamente o custo de fretes marítimos, transporte rodoviário, aviação e logística internacional. O segundo impacto aparece na inflação, já que combustíveis mais caros elevam custos de produção e distribuição em praticamente todos os setores. O terceiro reflexo é financeiro, com aumento da aversão ao risco e deslocamento de capitais para ativos considerados mais seguros.

Para o Brasil, a situação traz efeitos ambíguos. Como produtor relevante de petróleo, o país pode registrar ganhos com exportações e arrecadação caso o barril permaneça valorizado. A produção brasileira, liderada pelo pré-sal, tornou o país um ator importante no mercado internacional de energia. Entretanto, esse ganho macroeconômico não impede que o consumidor doméstico sinta os efeitos da alta.

Os preços de combustíveis no Brasil continuam sensíveis às variações do petróleo internacional e ao câmbio. Quando o barril sobe, o impacto tende a aparecer primeiro no diesel, combustível central para o transporte de cargas. Isso significa que o choque energético rapidamente atravessa a economia por meio da logística e do custo de distribuição de alimentos e mercadorias.

Na Amazônia, os efeitos são ainda mais intensos. A região opera sob um dos sistemas logísticos mais complexos do país, dependente de longas rotas fluviais, rodoviárias e marítimas. O diesel movimenta barcos, caminhões e boa parte da infraestrutura de transporte regional. Quando seu preço sobe, o impacto se espalha pela cadeia de abastecimento.

Esse fator é particularmente sensível em Manaus, onde os combustíveis historicamente figuram entre os mais caros do país. Qualquer elevação adicional pressiona diretamente o custo de vida e pode afetar preços de alimentos, transporte urbano e serviços.

Nesse sentido, a recente queda da cesta básica registrada na capital amazonense pode enfrentar dificuldades para se manter caso o choque energético global se prolongue. O custo logístico é um dos principais componentes de formação de preços na região. A elevação do diesel tende a repercutir rapidamente no valor final dos produtos.

O Polo Industrial de Manaus também sente esse tipo de turbulência internacional. A indústria instalada na região depende de cadeias logísticas nacionais e globais para o recebimento de insumos e a distribuição de produtos. A alta do petróleo pode encarecer fretes marítimos e terrestres, pressionando custos industriais.

Ao mesmo tempo, o contexto reforça uma reflexão estratégica para o futuro da região. Crises energéticas globais evidenciam a vulnerabilidade de economias dependentes de combustíveis fósseis e cadeias logísticas longas. Para a Amazônia, isso recoloca com força a agenda de inovação, ciência e diversificação econômica.

A transição energética, o desenvolvimento de novas tecnologias e a valorização da bioeconomia aparecem cada vez mais como caminhos estratégicos para reduzir vulnerabilidades externas. Investimentos em pesquisa, inovação industrial e formação de talentos passam a ser fatores decisivos para construir uma economia regional mais resiliente.

Em um mundo cada vez mais atravessado por tensões geopolíticas e disputas energéticas, regiões capazes de combinar conhecimento científico, inovação tecnológica e sustentabilidade ambiental tendem a ocupar posições estratégicas no cenário global.

Trump tenta usar força para restabelecer poder de dissuasão e controle do preço doméstico da energia. O problema é que, se a rota do Golfo segue ameaçada, o mercado não compra bravata, compra proteção. E proteção encarece tudo. 

A Amazônia, com sua biodiversidade, seus recursos naturais e sua capacidade científica crescente, pode transformar essa condição em uma vantagem competitiva. O desafio consiste em acelerar esse processo antes que as próximas crises energéticas globais continuem a impor seus custos sobre a região.

Em momentos assim, ganha força o insistente argumento de que a Amazônia precisa ser plataforma de inovação, transição energética, ciência aplicada e segurança produtiva. A entrevista do Farid Mendonça Júnior ao Brasil Amazônia Agora/FollowUp encaixa aí com precisão. Quando ele fala em ciência, inovação e juventude como bases do Amazonas do século XXI, isso deixa de ser mais do que uma proposição de futuro e vira resposta concreta a uma crise real de vulnerabilidade externa.

Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas às quartas, quintas e sextas feiras sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal Brasil Amazônia Agora.

Intoxicação por agrotóxicos no Brasil bate recorde e acende alerta na saúde

Com quase 10 mil casos registrados em 2025, dados de saúde pública revelam avanço da intoxicação por agrotóxicos no Brasil e mostram que trabalhadores rurais e crianças estão entre os mais afetados.

O Brasil registrou em 2025 o maior número de intoxicações por agrotóxicos da última década, segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde. O levantamento baseado nesses registros indica que mais de 9.700 pessoas foram contaminadas ao longo do ano, uma média de cerca de 27 casos por dia, número que representa crescimento de 84% em relação a 2015, início da série histórica analisada. O avanço da intoxicação por agrotóxicos no Brasil reacende o debate sobre os riscos do uso intensivo de pesticidas na agricultura.

Os dados revelam que a exposição aos pesticidas tem perfil bem definido. A maior parte das vítimas são homens entre 20 e 39 anos, grupo que concentra cerca de um terço das notificações registradas desde 2015. Mais da metade das ocorrências nessa faixa etária está relacionada ao ambiente de trabalho.

Crianças entre um e quatro anos aparecem como a segunda faixa etária com maior número de casos, mais de 17 mil, representando aproximadamente um quarto das notificações no período analisado. O dado sugere que a contaminação também ocorre em comunidades próximas às áreas de cultivo, seja pelo contato indireto com pesticidas ou pela proximidade com lavouras onde ocorre pulverização.

Criança recebe atendimento hospitalar, ilustrando os impactos da intoxicação por agrotóxicos no Brasil em populações vulneráveis.
Dados de saúde pública mostram que crianças estão entre os grupos afetados pela intoxicação por agrotóxicos no Brasil. Foto: pop-andreeas-images

A distribuição geográfica dos casos também chama atenção. O Espírito Santo lidera o ranking nacional de intoxicações, concentrando cerca de 10% das ocorrências registradas em 2025. Na sequência aparecem estados da região Norte, como Tocantins, Rondônia e Acre, áreas marcadas pela expansão recente de atividades agropecuárias.

Os dados apontam que o aumento das intoxicações por agrotóxicos no Brasil acompanha a ampliação do mercado de pesticidas. Nos últimos anos, o país tem registrado recordes de aprovação e comercialização desses produtos. Apenas em 2025 foram autorizados mais de 900 novos registros de agrotóxicos e defensivos biológicos, enquanto as vendas ultrapassaram 826 mil toneladas em 2024, segundo dados do Ibama. 

Pesquisas apontam que os efeitos da exposição aos pesticidas podem variar desde sintomas agudos, como náuseas, dores de cabeça, irritações na pele e dificuldades respiratórias, até impactos de longo prazo, associados a doenças neurológicas, distúrbios hormonais e alguns tipos de câncer.

Outro fator que preocupa pesquisadores é a subnotificação dos casos. Em muitas regiões rurais, o acesso limitado a serviços de saúde, a dificuldade de diagnóstico e a confusão entre sintomas de intoxicação e de outras doenças podem fazer com que parte das ocorrências nunca seja registrada oficialmente. Por isso, os números divulgados provavelmente representam apenas uma fração do total de casos de intoxicação por agrotóxicos no Brasil.

Desde 2015, o país acumula mais de 73 mil casos registrados. O problema acompanha a expansão do uso desses produtos na agricultura, por isso, compreender quem são as vítimas e como ocorre a exposição é um passo fundamental para dimensionar os riscos do modelo agrícola baseado no uso intensivo de pesticidas.

Desde Platão, em tempos de guerra ou de paz, as aparências enganam

Vale lembrar a alegoria da caverna. Os homens acorrentados observavam sombras projetadas na parede e acreditavam que aquilo era o mundo real. Não viam quem manipulava as luzes, nem os objetos que produziam aquelas formas distorcidas. A ilusão parecia suficiente para explicar tudo.

A política internacional, especialmente em momentos de conflito, funciona muitas vezes com a mesma lógica. O público vê as sombras. Declarações oficiais, imagens de destruição, discursos inflamados, manchetes dramáticas. Tudo isso forma uma narrativa que parece completa, mas raramente revela a engrenagem que está por trás.

Platão não falava apenas de filosofia abstrata. Ele alertava para o risco permanente de confundir aparência com realidade. Em contextos de poder, essa confusão pode ser deliberadamente construída.

Por isso, talvez a atitude mais prudente diante de qualquer grande crise internacional seja manter uma espécie de vigilância intelectual. Ouvir o que se diz, observar o que se faz e tentar perceber o que não está sendo dito.

Vamos, então, prestar mais atenção.

Quando as manchetes falam de ataques, respostas militares e declarações de líderes, o noticiário parece concentrado apenas no campo de batalha. Mas o que realmente se move por trás dessas frases é uma disputa muito maior, que envolve poder, energia, alianças e economia global.

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Cenário de guerra

Vamos prestar mais atenção quando o foco da cobertura recai sobre destruição e tragédia, mas quase nada se fala sobre petróleo, rotas marítimas e controle de regiões estratégicas. O Golfo Pérsico continua sendo uma das áreas mais sensíveis da economia mundial. Cada movimento ali tem reflexos diretos sobre energia, comércio e estabilidade financeira.

Vamos prestar mais atenção quando aliados históricos começam a demonstrar desconforto. Um parlamentar britânico sugerindo que o rei cancele uma visita oficial aos Estados Unidos não é apenas um gesto simbólico. É um sinal de que a crise já começa a gerar tensões dentro do próprio bloco ocidental.

Vamos prestar mais atenção também na política interna dos países envolvidos. Em muitos momentos da história, decisões militares foram tomadas em ambientes de forte disputa política doméstica. Guerras podem redefinir popularidade de governos, alterar eleições e reorganizar coalizões.

E vamos prestar mais atenção, sobretudo, ao modo como as narrativas são construídas. A guerra moderna não se trava apenas com mísseis, drones e tanques. Ela também acontece no terreno da informação, das manchetes e da formação de opinião.

No fundo, quando olhamos com mais calma, percebemos que os fatos publicados são apenas a superfície. A verdadeira história costuma se mover nas camadas mais profundas da geopolítica.

A biodiversidade entra de vez na pauta da indústria

Durante muito tempo a biodiversidade foi tratada como um tema restrito à agenda ambiental. Um assunto para cientistas, ambientalistas ou políticas públicas. Essa visão está mudando rapidamente no mundo dos negócios.

Relatórios recentes do Fórum Econômico Mundial mostram que, no horizonte da próxima década, dois riscos dominarão o cenário global. Eventos climáticos extremos e perda de biodiversidade. Não se trata apenas de preocupação ambiental. Trata-se de estabilidade econômica.

A biodiversidade sustenta sistemas produtivos inteiros. Ela garante o funcionamento de cadeias de suprimento, regula o clima, mantém a fertilidade do solo, protege recursos hídricos e assegura o equilíbrio de ecossistemas dos quais dependem setores inteiros da economia. Quando esse sistema entra em colapso, o impacto aparece nos balanços das empresas, nas cadeias industriais e na segurança econômica dos países.

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Essa percepção começa a entrar definitivamente na agenda das lideranças empresariais. O debate que antes estava restrito a conferências ambientais agora ocupa espaço nas salas de decisão das grandes corporações. Para a indústria brasileira instalada na Amazônia, esse debate tem implicações profundas.

Em um mundo cada vez mais atento aos riscos ambientais, essa característica deixa de ser apenas um argumento regional e passa a ser uma vantagem estratégica.

A indústria eletroeletrônica, em particular, ocupa uma posição central nessa transformação. Os equipamentos produzidos no Polo Industrial de Manaus estão presentes em praticamente todas as cadeias de inovação que hoje sustentam a transição tecnológica global. Smartphones, equipamentos de informática, sistemas de comunicação e dispositivos inteligentes fazem parte da infraestrutura digital da economia contemporânea.

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Ao mesmo tempo, essa produção ocorre em um dos territórios mais importantes para o equilíbrio climático do planeta. Isso cria uma convergência rara entre economia e conservação.

A Amazônia mostra que é possível combinar produção industrial, geração de empregos e preservação ambiental em grande escala. A floresta em pé não é apenas um valor ecológico. Ela também é uma base de estabilidade econômica para o futuro. O desafio agora é transformar essa percepção em estratégia de longo prazo.

Empresas, governos e instituições precisam compreender que biodiversidade não é apenas um tema de responsabilidade socioambiental. É também um fator de competitividade econômica.

Nos próximos anos, cadeias produtivas globais serão cada vez mais avaliadas por sua capacidade de reduzir riscos ambientais e proteger sistemas naturais essenciais. Países e regiões que conseguirem integrar desenvolvimento econômico e conservação terão vantagem nesse novo cenário.

Nesse contexto, a Amazônia pode deixar de ser vista apenas como fronteira ambiental e passar a ser reconhecida como uma das principais plataformas globais de economia sustentável.

O Amazonas do século XXI será construído por ciência, inovação e juventude

Nesta primeira entrevista ao Brasil Amazônia Agora, o economista Farid Mendonça Júnior – um dos construtores do PED assinado em co-autoria pelo senador Omar Aziz – reflete sobre os desafios e as oportunidades desse processo. Ao longo da conversa, ele aponta a juventude amazônica como protagonista de uma transformação que poderá redefinir o papel da região no século XXI.

Se o projeto for bem-sucedido, o Amazonas deixará de ser vista apenas como fronteira ambiental/industrial do planeta. Passará a ser reconhecida também como território de inovação, ciência e futuro.

Coluna Follow-Up


Confira a entrevista exclusiva: 

Amazonas, ciência e juventude, a equação que pode reinventar a economia regional 

Que tipo de economia o Amazonas quer construir para os próximos 20 anos e qual será o papel da juventude nesse processo?

O Amazonas precisa começar agora a construir uma economia mais diversificada, inovadora e ambientalmente sustentável. O objetivo é claro. Crescer sem destruir a floresta.

Durante décadas, o desenvolvimento do estado esteve fortemente apoiado em um único modelo produtivo, a Zona Franca de Manaus. Esse modelo foi fundamental para consolidar a economia regional e proteger a floresta ao gerar emprego e renda na capital. Mas o desafio das próximas duas décadas é ampliar essa base.

Isso significa fortalecer cadeias produtivas regionais, desenvolver a bioeconomia, ampliar serviços ambientais, impulsionar o turismo sustentável e investir muito mais em ciência e tecnologia.

O Amazonas possui ativos extraordinários. Uma biodiversidade única no planeta. Uma posição estratégica na Amazônia. Um potencial científico ainda pouco explorado.

Nesse novo cenário, a floresta deixa de ser vista apenas como patrimônio natural. Ela passa a ser entendida como fonte de conhecimento, inovação e riqueza sustentável.

E é exatamente nesse ponto que entra o papel da juventude.

A nova geração será responsável por liderar setores emergentes ligados à bioeconomia, à tecnologia, ao empreendedorismo digital e à economia criativa. Jovens pesquisadores, empreendedores e profissionais qualificados terão a missão de transformar conhecimento científico em novos produtos, negócios e soluções para a sociedade.

Em outras palavras, o futuro econômico do Amazonas dependerá da capacidade de formar uma geração preparada para inovar, empreender e liderar um modelo de desenvolvimento compatível com os desafios ambientais e tecnológicos do século XXI.


Que novos perfis profissionais surgirão no Amazonas a partir da bioeconomia, da transição energética e da indústria 4.0?

A transformação econômica que está em curso exigirá profissionais com formação técnica sólida, visão interdisciplinar e capacidade de inovar.

A bioeconomia, por exemplo, abre um campo enorme de oportunidades. Pesquisadores em biotecnologia, especialistas em produtos naturais, gestores de cadeias produtivas da biodiversidade e profissionais capazes de transformar recursos da floresta em medicamentos, cosméticos, alimentos e novos materiais de alto valor agregado.

A transição energética também cria novas demandas. Especialistas em energias renováveis, bioenergia e gestão de sistemas energéticos descentralizados serão fundamentais para levar soluções sustentáveis para comunidades isoladas da Amazônia.

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Mapa da Bacia do Rio Amazonas. Foto: Tunes Ambiental.

Ao mesmo tempo, a digitalização da economia e a chamada indústria 4.0 ampliam a necessidade de profissionais em tecnologia da informação, ciência de dados, inteligência artificial, automação industrial e logística inteligente.

Essas competências serão essenciais não apenas para modernizar empresas, mas também para tornar a gestão pública mais eficiente e melhorar os serviços oferecidos à população.

No Amazonas do futuro, os profissionais mais valorizados serão aqueles capazes de integrar tecnologia, ciência e sustentabilidade.


Como a inteligência artificial e a tecnologia podem se tornar aliadas da floresta?

A tecnologia pode desempenhar um papel decisivo na proteção e valorização da floresta amazônica.

Ferramentas de inteligência artificial e sensoriamento remoto já permitem monitorar desmatamento, queimadas e crimes ambientais praticamente em tempo real. Isso amplia a capacidade de fiscalização e proteção do território.

Ao mesmo tempo, sistemas digitais podem garantir rastreabilidade em cadeias produtivas sustentáveis, assegurando que produtos da floresta tenham origem legal e ambientalmente responsável.

A tecnologia também acelera a pesquisa científica. Com apoio de inteligência artificial, pesquisadores conseguem identificar propriedades medicinais e industriais da biodiversidade amazônica com muito mais rapidez.

Além disso, plataformas digitais podem conectar comunidades do interior a mercados nacionais e internacionais, ampliando oportunidades de renda.

Quando orientada por uma estratégia de desenvolvimento sustentável, a tecnologia deixa de ser apenas ferramenta de automação e se transforma em instrumento de valorização da floresta.


O Amazonas pode se tornar referência mundial em economia de base florestal. O que ainda falta para isso acontecer?

O estado possui todas as condições naturais para assumir essa liderança. A biodiversidade amazônica está entre as mais ricas do planeta.

O desafio é transformar esse potencial em desenvolvimento concreto.

Para isso, alguns obstáculos estruturais precisam ser enfrentados. Infraestrutura e logística continuam sendo gargalos importantes. Muitas regiões do interior ainda enfrentam dificuldades de transporte, acesso à energia e conectividade digital.

Outro ponto central é o fortalecimento da segurança jurídica e do ordenamento territorial, com avanços na regularização fundiária e no zoneamento econômico-ecológico.

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Também será necessário ampliar os investimentos em ciência, tecnologia e inovação, fortalecendo universidades, centros de pesquisa e parcerias com o setor produtivo.

A bioeconomia depende diretamente da capacidade de transformar conhecimento científico em produtos competitivos no mercado global.

Se esses fatores forem consolidados, o Amazonas poderá se posicionar como referência internacional em desenvolvimento sustentável baseado na floresta.


Como garantir que o desenvolvimento gere também redução das desigualdades no estado?

Uma das maiores distorções históricas do Amazonas é a concentração da atividade econômica em Manaus.

Enquanto a capital se desenvolveu, muitos municípios do interior permaneceram com baixos níveis de renda, infraestrutura e oportunidades.

Por isso, uma das estratégias centrais do plano é promover a interiorização do desenvolvimento.

Isso envolve investimentos em infraestrutura, expansão da conectividade digital, acesso à energia e estímulo a cadeias produtivas regionais.

Atividades como fruticultura, piscicultura, turismo sustentável e produtos florestais podem gerar renda local e reduzir a dependência econômica da capital.

Políticas voltadas ao empreendedorismo, à economia criativa e à inovação também podem ampliar oportunidades para jovens e pequenos produtores.

O objetivo é que a geração de riqueza beneficie um número maior de comunidades e contribua para reduzir desigualdades históricas no território amazonense.


Se o Amazonas não construir agora um projeto consistente de desenvolvimento, qual será o custo dessa omissão?

O custo pode ser alto.

Sem planejamento de longo prazo, o estado corre o risco de permanecer dependente de poucos setores e vulnerável a mudanças externas.

Do ponto de vista econômico, isso significa perda de competitividade e dificuldades para acompanhar as transformações tecnológicas e ambientais que estão redesenhando a economia global.

Do ponto de vista social, a ausência de um projeto consistente tende a ampliar desigualdades regionais e limitar oportunidades de emprego qualificado.

O mundo vive uma transição para modelos econômicos baseados em inovação e sustentabilidade. Se o Amazonas não se posicionar agora nesse novo cenário, poderá perder uma oportunidade histórica.

O custo da omissão não será apenas econômico. Será também social, ambiental e geracional.

As próximas gerações sentirão diretamente as consequências das escolhas feitas agora.

Agrotóxicos no Brasil: uso intensivo pressiona saúde pública e biodiversidade

Do recorde de intoxicações ao debate científico sobre pesticidas, os agrotóxicos no Brasil revelam tensões entre produtividade do agronegócio, saúde pública e preservação da biodiversidade.


Em 2025, o Brasil registrou um recorde de intoxicações por agrotóxicos, segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde. Foram mais de 9.700 casos de contaminação não intencional, uma média de cerca de 27 ocorrências por dia. O número representa um aumento expressivo em relação aos registros de uma década atrás e reacende o debate sobre os impactos do modelo agrícola intensivo em insumos químicos.

A maioria dos casos de intoxicação por agrotóxicos no Brasil envolve trabalhadores rurais expostos durante o manejo de pesticidas, especialmente homens entre 20 e 39 anos. No entanto, a segunda faixa etária com maior número de contaminações é a de crianças entre 1 e 4 anos, o que indica que a exposição aos agrotóxicos no Brasil não ocorre apenas no ambiente de trabalho, mas também em comunidades próximas às áreas de cultivo.

No entanto, os números oficiais provavelmente representam apenas uma fração do problema real. Uma vez que a subnotificação ainda é comum em regiões rurais, onde o acesso a serviços de saúde e sistemas de vigilância epidemiológica é limitado.

A distribuição geográfica dos casos também revela padrões ligados à expansão da fronteira agrícola. Estados como Espírito Santo, Tocantins, Rondônia e Acre aparecem entre os mais afetados, regiões onde o avanço de monoculturas como soja e milho intensificou o uso de agrotóxicos no Brasil nas últimas décadas.

Imagem aérea de extensa plantação de soja no Brasil, cultura associada ao uso de agrotóxicos no Brasil na agricultura em larga escala.
Vista aérea de plantação de soja no Brasil. Foto: Bayer.

Do envenenamento agudo às doenças crônicas

Estudos científicos mostram que a exposição a agrotóxicos pode provocar uma ampla gama de efeitos sobre a saúde humana. Nos casos agudos, os sintomas incluem náuseas, vômitos, irritações na pele, dificuldade respiratória e alterações neurológicas. Essas situações costumam ocorrer após acidentes de trabalho ou aplicação inadequada dos produtos.

Já a exposição prolongada a pequenas doses tem sido relacionada ao desenvolvimento de doenças crônicas, como alguns tipos de câncer, distúrbios hormonais, problemas reprodutivos e alterações neurológicas. Pesquisas também apontam possíveis efeitos sobre a saúde mental de trabalhadores rurais expostos a pesticidas, incluindo aumento de quadros de depressão e ansiedade.

Além dos trabalhadores do campo, populações que vivem próximas a grandes lavouras também podem ser expostas por meio da deriva de pulverizações, contaminação de água e resíduos presentes em alimentos. 

Trabalhador rural aplica pesticida em lavoura com pulverizador, prática relacionada ao uso de agrotóxicos no Brasil na produção agrícola.
Trabalhador aplica pesticida em área de cultivo. A exposição ocupacional está entre os principais fatores associados aos casos de intoxicação por agrotóxicos no Brasil. Foto: Pixabay

Povos indígenas, territórios e vidas em risco

O avanço do uso de agrotóxicos no Brasil também tem provocado impactos em territórios indígenas. Relatórios do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) mostram que comunidades indígenas próximas a grandes áreas de cultivo frequentemente enfrentam episódios de intoxicação ligados à pulverização aérea ou ao uso intensivo de pesticidas em propriedades vizinhas.

Nessas regiões, a contaminação pode afetar rios, solos e espécies animais utilizadas na alimentação tradicional. Estudos relatam a presença de resíduos de agrotóxicos no Brasil em fontes de água utilizadas por comunidades indígenas, o que compromete a segurança alimentar e dificulta a manutenção de práticas agrícolas tradicionais.

Também têm aumentado os casos do uso de agrotóxicos como armas químicas contra os povos indígenas na tentativa de forçar a desocupação dos seus territórios. Em outubro de 2024, foram registradas imagens de aviões que sobrevoam a Terra Indígena Guyraroká (MS) despejando pesticidas sobre as aldeias. Os ataques passaram a ser recorrentes e causaram impactos significativos sobre a saúde da população indígena local. 

Avião agrícola Ipanema pulveriza inseticidas sobre lavoura, ilustrando o uso de agrotóxicos no Brasil na produção agrícola.
Foto: Divulgação/Embraer

A controvérsia científica do glifosato

O debate sobre os riscos dos agrotóxicos ganhou novo impulso em 2025 após a anulação de um estudo científico publicado em 2000, que havia sido amplamente utilizado como referência para avaliar a segurança do glifosato no Brasil, o herbicida é o mais utilizado no mundo.

Investigações apontaram que o artigo apresentava conflitos de interesse e participação não declarada de funcionários da Monsanto, hoje parte do grupo Bayer, no processo de redação do artigo. A retratação levantou questionamentos sobre a base científica utilizada em avaliações regulatórias e reacendeu o debate sobre os potenciais riscos da substância.

O glifosato é amplamente empregado em sistemas agrícolas baseados em sementes transgênicas tolerantes ao herbicida, especialmente em cultivos de soja, milho e algodão. Enquanto algumas agências reguladoras consideram o produto seguro quando utilizado dentro dos limites estabelecidos, parte da comunidade científica aponta possíveis associações entre a exposição prolongada e o aumento do risco de câncer.

A professora do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, Eliane Novato, afirma que os danos da exposição aos agrotóxicos podem demorar gerações para aparecerem. Novato afirma que por não se conhecer todos os impactos que os agrotóxicos causam à saúde humana é impossível falar de um uso seguro. 

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) define limites de Ingestão Diária Aceitável (IDA) para agrotóxicos no Brasil, calculados a partir da quantidade máxima da substância que pode ser consumida diariamente, expressa em miligramas por quilograma de peso corporal, sem risco significativo para a saúde. Porém, a especialista Eliane Novato afirma que as leis não consideram o uso total nos produtos consumidos. 

Impactos ambientais e perda de biodiversidade

Os efeitos dos pesticidas não se restringem à saúde humana. Pesquisas recentes indicam que a toxicidade associada ao uso de agrotóxicos tem aumentado em diversas regiões agrícolas do mundo, incluindo o Brasil.

Entre os impactos ambientais mais frequentemente documentados estão: contaminação de solos e aquíferos, presença de resíduos químicos em rios e reservatórios, redução de organismos do solo responsáveis pela ciclagem de nutrientes e mortalidade de peixes e invertebrados aquáticos. 

Outro ponto crítico é o impacto sobre insetos polinizadores, especialmente abelhas. Diversos estudos associam pesticidas como neonicotinoides e fipronil à morte de colônias e ao declínio de populações desses insetos.

O problema preocupa cientistas porque cerca de 75% das culturas alimentares dependem, ao menos parcialmente, da polinização animal. A redução desses organismos pode afetar diretamente a produtividade agrícola e o equilíbrio dos ecossistemas.

Abelhas sobre flores em área natural, insetos polinizadores que podem ser afetados pelo uso de agrotóxicos no Brasil.
Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

Um modelo agrícola dependente de insumos químicos

O aumento da produção agrícola brasileira está associado a um modelo intensivo em insumos químicos. Fertilizantes sintéticos, herbicidas e pesticidas tornaram-se componentes essenciais para sustentar grandes monoculturas voltadas à exportação.

Esse modelo permitiu ganhos significativos de produtividade, mas também criou uma dependência estrutural de insumos industriais, muitos deles produzidos fora do país.

No caso dos fertilizantes, a dependência externa é particularmente elevada. Em 2025, o Brasil importou cerca de 45,5 milhões de toneladas desses produtos, com gastos superiores a US$ 16 bilhões. Estima-se que mais de 85% dos fertilizantes utilizados na agricultura nacional venham do exterior.

Sacos de fertilizantes armazenados para uso agrícola, insumos essenciais na produção e relacionados ao modelo dependente de agrotóxicos no Brasil.
Sacos de fertilizantes utilizados na agricultura. O modelo agrícola baseado em insumos químicos, incluindo fertilizantes e pesticidas, reforça a dependência de agrotóxicos no Brasil. Foto: Agrolink

Fertilizantes, guerras e geopolítica

Essa dependência expõe o país a variações cambiais e oscilações no mercado internacional. O mercado global de fertilizantes tornou-se cada vez mais sensível a crises geopolíticas. Países como Rússia, Belarus, China e Canadá estão entre os principais fornecedores desses insumos para o Brasil.

Conflitos internacionais e sanções econômicas podem afetar diretamente a disponibilidade e o preço desses produtos. A guerra entre Rússia e Ucrânia, por exemplo, provocou forte aumento no preço do potássio e de fertilizantes nitrogenados em 2022. 

Mais recentemente, a escalada do conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel também começa a repercutir no mercado global de fertilizantes, insumo essencial para a produção agrícola. Segundo análise do Rabobank, as tensões geopolíticas adicionaram um “prêmio de risco” ao mercado, elevando os custos desses produtos e criando um possível descompasso entre o aumento das despesas de produção e os preços das commodities agrícolas, especialmente soja e milho. 

O impacto é especialmente relevante porque o Oriente Médio concentra uma parcela significativa da oferta global de fertilizantes nitrogenados, como a ureia. A região responde por cerca de 35% do comércio marítimo desse insumo, enquanto o Irã sozinho representa 11% das exportações globais de ureia. Com a instabilidade na região e riscos logísticos em rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz, analistas alertam para possíveis aumentos nos custos agrícolas e reflexos futuros nos preços dos alimentos. 

Explosões e fumaça após ataque em Teerã, capital do Irã, conflito geopolítico que afeta o mercado global de fertilizantes e pode impactar a agricultura.
Ataque em Teerã, capital do Irã. Foto: Creative Commons Attribution/Reprodução/ND Mais

O desafio de repensar o modelo agrícola

Diante desse conjunto de fatores — impactos sanitários, ambientais e vulnerabilidades econômicas — estudos conduzidos por pesquisadores da Fiocruz, Embrapa e universidades brasileiras apontam que o futuro da agricultura no país passa pela adoção de sistemas produtivos capazes de reduzir a dependência de pesticidas e fertilizantes químicos.

Entre as propostas discutidas estão o manejo integrado de pragas, o uso de bioinsumos, fertilizantes biológicos e práticas regenerativas que buscam restaurar a fertilidade natural do solo. Nesse contexto, os sistemas agroflorestais têm ganhado destaque.

Esse modelo combina o cultivo agrícola com árvores e espécies nativas, criando sistemas produtivos biodiversos que favorecem a ciclagem de nutrientes, reduzem a necessidade de fertilizantes e aumentam a resiliência das lavouras diante de eventos climáticos extremos.

Apesar do potencial ambiental e produtivo, a expansão das agroflorestas ainda enfrenta desafios, como  a falta de assistência técnica especializada, dificuldades de acesso a crédito e uma infraestrutura logística voltada principalmente para grandes monoculturas. 

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Embora existam evidências crescentes sobre os impactos sanitários e ambientais do uso intensivo de pesticidas, o país segue ampliando a oferta desses produtos no mercado. Em 2025, o país registrou um novo recorde de 912 liberações de agrotóxicos no Brasil e defensivos biológicos, número 37% maior que o do ano anterior, mantendo a tendência de expansão observada na última década. 

O dado evidencia uma contradição central do modelo agrícola brasileiro, enquanto os alertas sobre riscos à saúde humana, à biodiversidade e à segurança ambiental aumentam, o país continua ampliando a disponibilidade de insumos químicos que sustentam a atual lógica de produção no campo.

Bioeconomia amazônica busca escala com novas conexões entre startups e investidores

Imersão organizada pela Endeavor reúne executivos, organizações científicas e negócios da floresta para fortalecer o ecossistema de impacto.


Fortalecer redes entre investidores, executivos e empreendedores locais tornou-se um passo estratégico para ampliar a escala da bioeconomia amazônica. Quatro meses após a COP30, realizada em Belém, cresce o esforço para transformar os compromissos globais assumidos durante a conferência climática em iniciativas econômicas concretas na região.

Com esse objetivo, a Endeavor promoveu na última semana uma imersão exclusiva com executivos e investidores em Manaus e Novo Airão. A iniciativa buscou aproximar empreendedores da Amazônia de redes internacionais de inovação e impacto, consolidando parte das conexões estimuladas durante o encontro climático.

A proposta é simples, mas estratégica. Para que os negócios da floresta avancem, é necessário ampliar o diálogo entre quem desenvolve soluções baseadas na biodiversidade e quem possui capital, experiência de gestão e acesso a mercados.

Idesam como ponte entre ciência, capital e território

A iniciativa contou com a colaboração técnica do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), organização que atua há duas décadas na construção de um modelo econômico regenerativo para a região.

Ao longo da imersão, o instituto apresentou experiências acumuladas em projetos voltados à bioeconomia, com destaque para o Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), a AMAZ Aceleradora de Impacto e a Zôma, geradora de negócios da floresta lançada durante o FIINSA na COP30.

Essas iniciativas têm em comum a tentativa de aproximar conhecimento científico, empreendedorismo e saberes tradicionais, criando condições para gerar renda e inovação a partir da biodiversidade amazônica.

Segundo Renato Rebelo, coordenador da Zôma, a participação do Idesam na agenda reforça esse papel de articulação entre diferentes atores do ecossistema.

Ele destaca que compreender a dinâmica local é fundamental para o sucesso dos investimentos.

Programação aproxima investidores da realidade da floresta

A agenda começou na última quinta-feira, 5 de março, com uma rodada de conexões entre executivos convidados pela Endeavor e startups locais no Casarão de Inovação Cassina, espaço que se consolidou como referência para o ecossistema de inovação em Manaus.

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No dia seguinte, o grupo visitou duas instituições voltadas à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico. A programação incluiu o Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA) e o Centro de Incubação e Desenvolvimento Empresarial (CIDE), onde foram apresentados projetos e oportunidades ligadas à bioeconomia.

Durante o fim de semana, as atividades seguiram para Novo Airão. Na cidade, investidores tiveram contato direto com empreendimentos ligados ao turismo de base comunitária e à produção de cosméticos sustentáveis, setores considerados promissores dentro da economia da floresta.

Empreendedores buscam escala e acesso a mercado

Para a Endeavor, iniciativas desse tipo ajudam a aproximar diferentes perfis de empreendedorismo e estimulam a construção de negócios capazes de crescer sem perder o compromisso com impacto socioambiental.

De acordo com Daniella Mello, diretora de Comunicação e Parcerias da organização, o objetivo é facilitar conexões que permitam acelerar esse ecossistema.

Na ponta do ecossistema, empreendedores da região veem nessas conexões uma oportunidade para superar gargalos históricos ligados a logística, acesso a investimento e inserção em mercados nacionais e internacionais.

Para Emerson Lima, pesquisador da Terra Amazônia Superplants, empresa especializada em suplementos alimentares baseados em ativos da biodiversidade amazônica, a aproximação com redes de empreendedores mais experientes ajuda a consolidar estratégias de crescimento.

A experiência reforça um dos principais desafios da bioeconomia amazônica. Transformar o enorme potencial da biodiversidade em cadeias produtivas estruturadas exige mais do que boas ideias. Requer conexões duradouras entre ciência, investimento e empreendedorismo local.