Safatle, Adorno e a nova era do autoritarismo: como o ódio voltou a organizar a vida social


O século XX acreditou ter enterrado o fascismo sob as ruínas de Berlim. A derrota militar do nazismo e a revelação dos campos de extermínio pareciam ter produzido uma vacina moral contra o autoritarismo. A humanidade jurou, diante das cinzas de Auschwitz, que aquilo jamais voltaria a acontecer.

Mas a história raramente desaparece quando suas causas permanecem intactas. O que hoje se observa em diversas partes do mundo não é apenas o crescimento de governos mais duros ou de discursos mais agressivos. É algo mais profundo e perturbador. O ódio voltou a funcionar como princípio organizador da vida social. Vladimir Safatle tem insistido que a dessensibilização coletiva diante da violência se tornou um afeto político dominante.

Décadas antes, Theodor Adorno já havia identificado a estrutura psicológica que torna isso possível: a personalidade autoritária, moldada pela submissão ao poder e pela agressividade contra os vulneráveis. Entre essas duas leituras, separadas por quase oitenta anos, emerge uma inquietante continuidade histórica. O fascismo talvez não tenha retornado como regime idêntico ao do passado. Mas as disposições sociais que o tornaram possível voltaram a circular com alarmante naturalidade.

O diagnóstico de Adorno: quando a submissão se transforma em violência

Logo após a Segunda Guerra Mundial, Adorno e seus colaboradores tentaram responder a uma pergunta que ainda hoje inquieta a consciência ocidental: como uma sociedade culta, industrializada e profundamente marcada pela tradição filosófica pôde aderir ao nazismo?

A investigação levou à formulação do conceito de personalidade autoritária. Essa estrutura psíquica combina submissão à autoridade, apego rígido às convenções sociais, medo da diferença e agressividade dirigida a grupos considerados inferiores. O sujeito autoritário não se percebe como agente da barbárie. Ele acredita estar defendendo a ordem.

Adorno percebeu algo decisivo: o fascismo não surge apenas de líderes carismáticos ou crises políticas. Ele depende de disposições psicológicas sedimentadas em sociedades acostumadas à hierarquia e à obediência.

Como o próprio filósofo advertiu em uma formulação que permanece atual:

Essa frase resume um diagnóstico radical. A barbárie não nasce apenas da irracionalidade explosiva. Ela pode emergir de sociedades disciplinadas, organizadas e aparentemente civilizadas.

Safatle e o fascismo difuso do século XXI

Vladimir Safatle propõe atualizar esse diagnóstico ao sugerir que o fascismo não deve ser compreendido apenas como episódio histórico europeu. Ele seria uma possibilidade latente das sociedades modernas, que emerge com força particular em momentos de crise estrutural.

O traço central dessa nova fase é a dessensibilização social. A violência deixa de provocar indignação e passa a ser percebida como parte da rotina. Tragédias circulam nas telas dos celulares com a mesma naturalidade que notícias banais.

Mortes coletivas tornam-se estatísticas. Sofrimentos transformam-se em fluxo informacional. A indignação perde densidade moral.

Essa transformação não ocorre apenas em regimes autoritários clássicos. Ela atravessa democracias consolidadas. A brutalidade policial naturalizada, a hostilidade crescente contra migrantes e minorias, ou a indiferença diante de guerras distantes revelam uma mutação profunda na sensibilidade política contemporânea.

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Cartaz no protesto carrega a mensagem “Queimem o fascismo, não combustíveis fósseis” – Foto: Mika Baumeister

A economia da frustração e o cálculo racional do ressentimento

Safatle insiste em um ponto provocador. O avanço do autoritarismo não pode ser explicado apenas por ignorância ou manipulação ideológica.

Em contextos de precarização econômica e insegurança social, muitos indivíduos percebem que as oportunidades diminuíram e que o espaço social parece cada vez mais restrito. Em vez de confrontar estruturas de poder distantes, passam a disputar com aqueles que estão ao lado.

O migrante, o vizinho mais pobre, a mulher que reivindica igualdade ou o trabalhador de outra origem tornam-se adversários imediatos.

O ressentimento deixa de ser apenas emoção difusa. Ele se transforma em cálculo social. Se não há prosperidade para todos, expulsar alguém parece garantir algum lugar dentro.

O laboratório histórico da violência

Safatle recupera uma hipótese clássica formulada por Hannah Arendt: as tecnologias políticas do fascismo foram testadas inicialmente nas colônias.

Antes de serem aplicados na Europa, mecanismos como campos de concentração, regimes de segregação e extermínios seletivos já haviam sido utilizados contra povos considerados inferiores.

O colonialismo produziu uma divisão radical entre vidas que merecem proteção e vidas descartáveis. Quando essa lógica retorna ao interior das próprias sociedades, o autoritarismo encontra terreno fértil.

O fascismo, nesse sentido, não surge do nada. Ele radicaliza práticas de exclusão que já estavam presentes no funcionamento normal do sistema social.

O caso brasileiro: autoritarismo como herança estrutural

A história brasileira oferece um exemplo eloquente desse processo. A formação social marcada pela escravidão, pela desigualdade extrema e pela cultura de mando produziu uma cidadania profundamente fragmentada.

Durante séculos, certos grupos foram reconhecidos como sujeitos plenos de direitos, enquanto outros permaneceram submetidos a regimes de violência cotidiana.

A brutalidade policial nas periferias, o extermínio sistemático de jovens negros ou a indiferença diante da pobreza extrema não surgiram recentemente. Eles fazem parte de uma longa tradição de dessensibilização social.

Quando crises políticas ou econômicas se intensificam, essa estrutura latente pode emergir com força renovada.

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Quando o ódio se torna política

A aproximação entre Safatle e Adorno revela um ponto central. O autoritarismo não depende apenas de golpes de Estado ou da ascensão de líderes messiânicos. Ele se consolida quando a sensibilidade moral de uma sociedade se transforma.

Quando a violência passa a ser considerada solução legítima para conflitos.

Quando a desigualdade se torna moralmente justificável.

Quando a empatia se restringe apenas aos semelhantes.

Nesse momento, o ódio deixa de ser desvio individual. Ele se torna linguagem política.

Reedição e polêmica

Em janeiro de 2016, 70 anos após a morte de Hitler, os direitos autorais de Mein Kampf (“Minha Luta”) expiraram, permitindo sua reedição na Alemanha. Uma versão comentada por historiadores foi lançada para contextualizar o conteúdo e desmistificar a ideologia nazista, tornando-se um best-seller. A medida gerou debates sobre o ressurgimento do nazismo e a disseminação de ódio. 

Reflexão e alerta 

A grande advertência que atravessa o pensamento de Adorno e Safatle é simples e perturbadora. O autoritarismo não cresce apenas porque líderes ambiciosos o promovem. Ele prospera quando sociedades inteiras se acostumam à indiferença. Quando a desigualdade deixa de escandalizar, quando a violência deixa de indignar e quando o sofrimento alheio passa a ser percebido como detalhe inevitável da ordem social.

O perigo do nosso tempo talvez não esteja apenas no retorno de regimes autoritários explícitos. Ele reside, sobretudo, na lenta normalização do ódio como princípio de organização da vida coletiva. Se isso se consolidar, o fascismo não precisará voltar como espetáculo histórico. Ele terá se dissolvido no cotidiano. E quando a barbárie se torna rotina, já não é mais possível reconhecê-la a tempo de detê-la.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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