Com quase 10 mil casos registrados em 2025, dados de saúde pública revelam avanço da intoxicação por agrotóxicos no Brasil e mostram que trabalhadores rurais e crianças estão entre os mais afetados.
O Brasil registrou em 2025 o maior número de intoxicações por agrotóxicos da última década, segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde. O levantamento baseado nesses registros indica que mais de 9.700 pessoas foram contaminadas ao longo do ano, uma média de cerca de 27 casos por dia, número que representa crescimento de 84% em relação a 2015, início da série histórica analisada. O avanço da intoxicação por agrotóxicos no Brasil reacende o debate sobre os riscos do uso intensivo de pesticidas na agricultura.
Os dados revelam que a exposição aos pesticidas tem perfil bem definido. A maior parte das vítimas são homens entre 20 e 39 anos, grupo que concentra cerca de um terço das notificações registradas desde 2015. Mais da metade das ocorrências nessa faixa etária está relacionada ao ambiente de trabalho.
Crianças entre um e quatro anos aparecem como a segunda faixa etária com maior número de casos, mais de 17 mil, representando aproximadamente um quarto das notificações no período analisado. O dado sugere que a contaminação também ocorre em comunidades próximas às áreas de cultivo, seja pelo contato indireto com pesticidas ou pela proximidade com lavouras onde ocorre pulverização.

A distribuição geográfica dos casos também chama atenção. O Espírito Santo lidera o ranking nacional de intoxicações, concentrando cerca de 10% das ocorrências registradas em 2025. Na sequência aparecem estados da região Norte, como Tocantins, Rondônia e Acre, áreas marcadas pela expansão recente de atividades agropecuárias.
Os dados apontam que o aumento das intoxicações por agrotóxicos no Brasil acompanha a ampliação do mercado de pesticidas. Nos últimos anos, o país tem registrado recordes de aprovação e comercialização desses produtos. Apenas em 2025 foram autorizados mais de 900 novos registros de agrotóxicos e defensivos biológicos, enquanto as vendas ultrapassaram 826 mil toneladas em 2024, segundo dados do Ibama.
Pesquisas apontam que os efeitos da exposição aos pesticidas podem variar desde sintomas agudos, como náuseas, dores de cabeça, irritações na pele e dificuldades respiratórias, até impactos de longo prazo, associados a doenças neurológicas, distúrbios hormonais e alguns tipos de câncer.
Outro fator que preocupa pesquisadores é a subnotificação dos casos. Em muitas regiões rurais, o acesso limitado a serviços de saúde, a dificuldade de diagnóstico e a confusão entre sintomas de intoxicação e de outras doenças podem fazer com que parte das ocorrências nunca seja registrada oficialmente. Por isso, os números divulgados provavelmente representam apenas uma fração do total de casos de intoxicação por agrotóxicos no Brasil.
Desde 2015, o país acumula mais de 73 mil casos registrados. O problema acompanha a expansão do uso desses produtos na agricultura, por isso, compreender quem são as vítimas e como ocorre a exposição é um passo fundamental para dimensionar os riscos do modelo agrícola baseado no uso intensivo de pesticidas.
