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Riscos climáticos entram no balanço financeiro e mudam regras do mercado global

Secas, enchentes e calor extremo agora entram nos relatórios corporativos, à medida que novas regras obrigam empresas a integrar riscos climáticos à estratégia e aos resultados financeiros.

Eventos extremos como enchentes, secas e ondas de calor passaram a impactar diretamente o desempenho financeiro das empresas ao redor do mundo. Esse cenário tem impulsionado uma mudança estrutural na forma como o mercado avalia riscos climáticos e está no centro das novas normas internacionais IFRS S1 e S2.

As diretrizes, desenvolvidas pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), ligado à IFRS Foundation, criam um padrão global para que empresas revelem, de maneira consistente, como fatores climáticos e de sustentabilidade afetam seus resultados, estratégias e geração de valor no longo prazo.

Na prática, a principal mudança está na obrigatoriedade de integrar os riscos climáticos à lógica financeira dos negócios. Isso significa que eventos como secas prolongadas, enchentes ou aumento de temperatura precisam ser traduzidos em impactos concretos, como elevação de custos, interrupções produtivas e perdas operacionais.

No Brasil, a adoção dessas normas ocorre de forma gradual, sob condução da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que já iniciou a incorporação das diretrizes por meio da resolução 193. A tendência é que a exigência se torne obrigatória progressivamente para companhias abertas, acompanhando o movimento internacional.

Apesar do avanço regulatório, o nível de preparo das empresas ainda é considerado baixo. Levantamentos indicam que a maioria das organizações não possui familiaridade com as novas exigências e apenas uma parcela reduzida iniciou processos estruturados de adaptação.

Um dos principais desafios está na integração entre áreas internas. Setores como controladoria, gestão de riscos e sustentabilidade, que historicamente operam de forma separada, precisam atuar de maneira coordenada para atender às novas demandas. A mudança exige revisão de processos, criação de métricas e maior qualidade na coleta e análise de dados.

Segmentos mais expostos às variáveis climáticas, como energia, agronegócio e mineração, tendem a sentir os efeitos dessa transformação de forma mais imediata. Nessas atividades, eventos extremos já afetam diretamente produção, logística e custos operacionais, tornando a gestão de riscos climáticos uma questão estratégica.

Trator em plantação de trigo ilustra a exposição do agronegócio aos riscos climáticos, como secas e variações de temperatura
O agronegócio está entre os setores mais vulneráveis aos riscos climáticos, com impactos diretos na produtividade, custos e segurança alimentar. Foto: Tom Fisk/Pexels

Além da mensuração dos riscos, as empresas também precisarão demonstrar como estão se preparando para enfrentá-los. Isso inclui planos de adaptação, metas de transição e estratégias para reduzir vulnerabilidades ao longo da cadeia produtiva, envolvendo fornecedores e parceiros.

A expectativa é que, nos próximos anos, a qualidade e a transparência das informações evoluam, influenciando diretamente a competitividade das empresas. A capacidade de antecipar impactos climáticos e comunicar esses riscos ao mercado tende a se consolidar como fator decisivo para acesso a investimentos e financiamento. As normas IFRS S1 e S2 sinalizam uma mudança de paradigma: o clima passa a ser tratado como variável central na análise financeira e não mais como um fator externo ao negócio. 

Indústria de motocicletas cresce 12% no trimestre e março bate recorde no Polo de Manaus

A indústria de motocicletas do Polo Industrial de Manaus atravessa um momento de afirmação. Os números do primeiro trimestre de 2026 não apenas confirmam o aquecimento do setor, como também ajudam a dimensionar o papel estratégico dessa cadeia produtiva na economia regional e nacional.

Entre janeiro e março, foram produzidas 561.448 motocicletas, volume que representa um crescimento de 12,1% em relação ao mesmo período do ano passado. Trata-se do segundo melhor resultado da história para um primeiro trimestre, o que reforça a consistência do desempenho recente da indústria de duas rodas no país.

O dado ganha ainda mais relevância quando observado o comportamento de março. O mês encerrou com 212.716 unidades produzidas, estabelecendo um recorde histórico para o período. Em termos comparativos, o avanço foi de 34,5% frente a março de 2025 e de 29,6% em relação a fevereiro. Não se trata de um salto pontual, mas de uma trajetória que combina demanda aquecida, capacidade produtiva consolidada e um parque industrial que responde com eficiência.

industria de motocicletas

A composição dessa produção revela também um padrão bastante definido. As motocicletas de baixa cilindrada seguem como eixo central do mercado, com 435.731 unidades no trimestre, o equivalente a 77,6% de todo o volume fabricado. São veículos diretamente associados à mobilidade urbana acessível, ao transporte individual de baixo custo e, cada vez mais, ao trabalho por aplicativos e à logística de última milha.

As motos de média cilindrada aparecem na sequência, com 110.405 unidades e participação de 19,7%. Já as de alta cilindrada somaram 15.312 unidades, representando 2,7% da produção. A mesma hierarquia se manteve em março, indicando estabilidade no perfil de consumo e na estratégia das montadoras instaladas no PIM.

Se a produção avança, o varejo responde na mesma intensidade. No acumulado do primeiro trimestre, foram licenciadas 571.728 motocicletas, resultado 20,6% superior ao registrado no mesmo período de 2025. Março, mais uma vez, se destacou: 221.618 unidades emplacadas, com crescimento de 33,5% na comparação anual e de 29,2% frente a fevereiro.

A média diária de vendas, considerando 22 dias úteis, alcançou 10.074 motocicletas. O número, por si só, sintetiza o momento do setor: trata-se de um mercado que não apenas cresce, mas que se amplia de forma consistente, incorporando novos consumidores e reforçando o papel da motocicleta como solução de mobilidade e geração de renda.

No plano externo, as exportações também apresentam trajetória positiva. No primeiro trimestre, foram embarcadas 11.441 unidades, crescimento de 18,6% em relação ao ano anterior. Em março, os envios ao exterior totalizaram 4.606 motocicletas, com alta de 13,9% na comparação anual e de 29,1% frente a janeiro.

Ainda que o mercado interno continue sendo o principal motor do setor, os dados de exportação indicam um movimento gradual de ampliação de presença internacional, sustentado pela qualidade do produto nacional e pela competitividade do parque industrial brasileiro.

As projeções para o fechamento de 2026 mantêm esse cenário de expansão moderada e sustentada. A Abraciclo estima a produção de 2.070.000 motocicletas, crescimento de 4,5% em relação a 2025. No varejo, a expectativa é de 2.300.000 unidades licenciadas, avanço de 4,6%. Já as exportações devem alcançar 45 mil motocicletas, com aumento de 4,4%.

O setor, no entanto, não ignora os riscos. Entre os fatores de atenção estão o ambiente internacional, marcado por incertezas econômicas e geopolíticas, e questões regionais, como a possibilidade de uma nova estiagem severa na Amazônia, com impactos logísticos relevantes para o Polo Industrial de Manaus.

Nesse contexto, a fala do presidente da Abraciclo, Marcos Bento, reflete um equilíbrio entre confiança e cautela. O desempenho atual é consistente, mas exige monitoramento contínuo das variáveis que podem afetar custos, abastecimento e escoamento da produção.

O ano de 2026 também carrega um valor simbólico para o setor. A Abraciclo completa 50 anos de atuação, consolidando-se como uma das principais entidades de articulação industrial do país. Desde 1976, sua trajetória está associada ao fortalecimento da indústria nacional de duas rodas, com atuação estruturada em três pilares: política industrial, segurança viária e desenvolvimento técnico.

Ao longo dessas cinco décadas, o Brasil se firmou como um dos maiores produtores globais de veículos de duas rodas, ocupando hoje a posição de maior polo fora da Ásia. Esse resultado não é circunstancial. Ele deriva de um ambiente industrial robusto, de investimentos contínuos em tecnologia e de uma cadeia produtiva que evoluiu em qualidade, inovação e valor agregado.

Essa evolução também se reflete na forma como o mercado é organizado e compreendido. A partir deste ano, a Abraciclo passa a adotar uma nova classificação para o segmento de motocicletas, ampliando para 14 categorias. Entram nesse novo desenho tipologias como Crossover, Classic, Super Sport e Sport Touring, enquanto a categoria Custom deixa de existir.

A mudança não é apenas nominal. Ela acompanha transformações no comportamento do consumidor, na diversificação dos produtos e na incorporação de novas tecnologias. Trata-se de um mercado mais sofisticado, com demandas mais segmentadas e aplicações mais variadas.

Dentro dessa nova lógica, a categoria Street liderou a produção no primeiro trimestre, com 290.340 unidades, respondendo por 51,7% do total. Em seguida aparecem a Trail, com 112.031 unidades (20%), e a Motoneta, com 73.600 unidades (13,1%). O ranking evidencia a centralidade das motocicletas voltadas ao uso urbano e misto, reforçando seu papel funcional no cotidiano das cidades brasileiras.

O desempenho do setor de motocicletas, portanto, vai além de um ciclo positivo de produção e vendas. Ele expressa uma dinâmica econômica mais ampla, na qual mobilidade, trabalho e indústria se entrelaçam. No caso do Polo Industrial de Manaus, essa engrenagem ganha um significado adicional: trata-se de um modelo que combina geração de riqueza, integração regional e preservação ambiental.

Em um país marcado por desigualdades logísticas e urbanas, a motocicleta se consolida como instrumento de acesso, de inclusão produtiva e de circulação econômica. E é justamente nesse ponto que os números deixam de ser apenas estatística e passam a revelar um fenômeno mais profundo: o de uma indústria que, ao acelerar suas linhas de produção, também movimenta a base da economia real.

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Acesse a apresentação com os números completos do

Segmento de Motocicletas:

https://abraciclo.com.br/wp-content/uploads/2026/04/Fechamento_do_mes_-_marco_de_2026-Motocicletas.pdf

Fundada em 1976 e contando com 15 associadas, a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares – ABRACICLO representa os fabricantes de veículos de duas rodas no país, tendo como principal missão promover o desenvolvimento sustentável e a competitividade do Setor de Duas Rodas, apoiando e defendendo a indústria nacional estabelecida no Polo Industrial de Manaus – PIM por meio dos pilares Política Industrial, Segurança Viária e Técnico.

A fabricação nacional de motocicletas, quase totalmente concentrada no Polo Industrial de Manaus (PIM), está entre as seis maiores do mundo. No segmento de bicicletas, com as principais fábricas também instaladas no PIM, o Brasil se encontra na quarta posição entre os principais produtores mundiais. No total, as fabricantes do Setor de Duas Rodas geram mais de 21 mil empregos diretos em Manaus/AM e mais de 150 mil em todo o Brasil.

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Reforma tributária, indústria eletroeletrônica e o futuro competitivo de Manaus

Coluna Follow-Up

A reforma tributária brasileira abriu uma nova etapa para a economia nacional. No caso do Polo Industrial de Manaus, ela não deve ser lida apenas como uma mudança de regime fiscal. Trata-se de uma inflexão estratégica. Para o setor eletroeletrônico, em especial, o debate real não está mais em saber se o modelo será preservado em tese, mas em como transformar a preservação jurídica do diferencial competitivo em expansão produtiva, adensamento tecnológico e fortalecimento da presença industrial da Amazônia no mercado brasileiro.

A Emenda Constitucional 132 de 2023 determinou que as leis instituidoras do IBS e da CBS devem criar mecanismos aptos a manter, em caráter geral, o diferencial competitivo da Zona Franca de Manaus. A regulamentação posterior, consolidada na Lei Complementar 214 de 16 de janeiro de 2025, traduziu esse comando em instrumentos operacionais e fiscais voltados à continuidade do modelo, preservando benefícios, regimes específicos e proteção às produções vinculadas ao Processo Produtivo Básico. A própria Suframa, em nota técnica de 2025, registra que a nova legislação assegura a adaptação e a modernização do regime da ZFM, mantendo incentivos, créditos presumidos, alíquotas reduzidas e tratamento específico para operações incentivadas, com vigência até 2073.

Esse ponto é decisivo. A reforma não eliminou a singularidade econômica de Manaus. Ao contrário, reconheceu que o novo desenho tributário nacional precisaria absorver a excepcionalidade constitucional da Zona Franca. Isso confere segurança institucional ao setor produtivo, mas não elimina os desafios. O texto legal oferece uma moldura. O resultado concreto dependerá da capacidade empresarial, sindical e governamental de interpretar corretamente a transição e agir antes que outros polos industriais ocupem o espaço que Manaus tem legitimidade e condições de ampliar.

O setor eletroeletrônico entra nesse novo ciclo em posição particularmente relevante. Dados da Suframa mostram que, no primeiro semestre de 2025, o Polo Industrial de Manaus alcançou faturamento recorde de R$ 110,8 bilhões e 131.464 empregos diretos. Nesse desempenho, o subsetor eletroeletrônico respondeu por 16,3% do faturamento total do PIM, enquanto bens de informática chegaram a 21,81%. Isso significa que o complexo eletroeletrônico e digital não é acessório dentro do modelo. Ele está no centro de sua dinâmica econômica, tecnológica e laboral.

Por isso, a reforma tributária precisa ser encarada pelo SINAEES e por suas indústrias representadas com uma dupla lente. A primeira é defensiva. Ela exige vigilância técnica permanente para que a regulamentação infralegal, os sistemas de apuração, o tratamento creditício e os procedimentos de fiscalização não corroam, na prática, aquilo que a Constituição e a lei complementar afirmaram no plano normativo. A segunda lente é ofensiva. Ela impõe a construção de uma agenda de reposicionamento industrial.

ponte de manaus releitura imagem IA

Essa agenda parte de um fato simples. Em um sistema baseado em IVA dual, com IBS e CBS substituindo gradualmente PIS, Cofins, ICMS, ISS e a maior parte do IPI, a eficiência da cadeia produtiva, a rastreabilidade fiscal, a governança de dados e a qualidade do planejamento tributário passam a ter peso ainda maior. O Ministério da Fazenda informa que a transição para a sociedade começa em 2026 e vai até 2033, com implementação gradual do novo modelo. A EC 132 também previu para 2026 uma fase inicial de cobrança-teste com alíquotas de 0,1% para o IBS e 0,9% para a CBS. Em outras palavras, a transição já começou como realidade operacional, e não mais como hipótese legislativa. 

Nesse ambiente, as oportunidades para o polo eletroeletrônico são concretas. A primeira delas está na reorganização competitiva das cadeias. Empresas que dominarem rapidamente os novos fluxos de crédito, classificação, documentação fiscal e integração entre compras, produção e distribuição poderão reduzir atritos, antecipar ganhos de eficiência e melhorar sua capacidade de resposta ao mercado nacional. Isso favorece especialmente um setor como o eletroeletrônico, cuja competitividade depende de escala, velocidade, integração logística e atualização tecnológica contínua. Essa é uma inferência a partir do desenho do novo modelo e da natureza operacional do setor. 

A segunda oportunidade está no adensamento produtivo. A reforma, ao redesenhar a tributação do consumo e deslocar a lógica da competitividade para um sistema mais transparente e estruturado, cria incentivos para rever a arquitetura das cadeias de suprimento. Para Manaus, isso pode significar ampliar a nacionalização qualificada de componentes, fortalecer fornecedores locais e regionais, desenvolver parcerias com empresas de software, automação, conectividade e semicondutores embarcados, além de aproximar a indústria da base científica e tecnológica instalada na região. O polo eletroeletrônico tem condições de liderar esse movimento porque articula manufatura, engenharia, informática, design de produto e integração de sistemas.

A terceira oportunidade está na imagem estratégica do setor. Durante décadas, a defesa da Zona Franca foi muitas vezes reduzida a uma discussão sobre renúncia fiscal. A reforma, paradoxalmente, oferece chance de reposicionar o debate em termos mais sofisticados. Manaus não deve ser apresentada como exceção tolerada, mas como ativo nacional de política industrial, integração territorial e sustentabilidade. O setor eletroeletrônico é talvez o melhor exemplo disso, porque demonstra capacidade de combinar emprego formal, produção de bens de alta circulação nacional, absorção tecnológica e presença industrial em pleno coração da Amazônia.

Mas nenhuma dessas oportunidades se realizará por inércia. Há premissas inegociáveis para aproveitá-las.

A primeira premissa é segurança jurídica com inteligência operacional. Não basta ter o benefício assegurado no texto legal. É preciso traduzir isso em sistemas, processos, capacitação tributária, revisão contratual, atualização de ERPs Enterprise Resource Planning, Sistema de Gestão Empresarial, além de governança de compliance. A empresa que entrar tarde na curva de adaptação pagará mais caro em insegurança, litígio e perda de competitividade.

A segunda premissa é coordenação institucional. O SINAEES terá papel central se conseguir atuar como articulador entre empresas, Suframa, Fazenda, CBA, lideranças parlamentares e entidades da indústria. Em momentos de transição estrutural, a representação setorial madura não é apenas reivindicatória. Ela organiza inteligência coletiva, consolida diagnósticos, antecipa riscos e constrói linguagem comum para defesa do setor. Incluir o CBA nessa articulação significa reconhecer que a competitividade futura do Polo Industrial de Manaus não será definida somente por incentivos fiscais bem preservados, mas pela capacidade de incorporar inovação, sustentabilidade e inteligência territorial ao seu modelo produtivo.

A terceira premissa é visão industrial de longo prazo. O novo ambiente tributário precisa ser aproveitado para reposicionar o polo eletroeletrônico em segmentos mais intensivos em tecnologia, conectividade, eficiência energética, mobilidade, automação e digitalização industrial. A vantagem comparativa de Manaus não pode se limitar ao custo fiscal. Ela precisa combinar diferencial tributário, capacidade produtiva, inovação e narrativa estratégica.

A quarta premissa é qualificação de pessoas. A transição tributária exigirá novos perfis técnicos nas áreas fiscal, contábil, jurídica, logística, tecnologia da informação e gestão industrial. Num setor em rápida transformação, a disputa por competitividade passa também por formação profissional. Isso vale tanto para o chão de fábrica quanto para os núcleos de inteligência empresarial.

industria tecnologia inovacao sustentabilidade e meio ambiente foto inteligencia artificial DALL E
Imagem gerada por Inteligência Artificial

O que está em jogo, portanto, é maior do que a preservação de um regime. O que se decide agora é se a indústria eletroeletrônica de Manaus será apenas beneficiária de uma transição protegida ou protagonista de um novo ciclo de modernização industrial amazônica.

A reforma tributária, bem compreendida, não deve ser recebida com euforia ingênua nem com temor paralisante. Ela impõe cautela, método e ação. Para o Polo Industrial de Manaus, e para o setor eletroeletrônico em particular, o momento pede menos retórica defensiva e mais estratégia produtiva. A garantia constitucional do diferencial competitivo foi preservada. A oportunidade econômica também existe. 

Falta agora cumprir a parte mais difícil e mais nobre dessa travessia: transformar proteção legal em potência industrial, expectativa em investimento e vantagem comparativa em liderança efetiva.Se esse movimento for bem conduzido, Manaus não apenas atravessará a reforma. Sairá dela mais preparada para demonstrar ao Brasil que desenvolvimento regional, tecnologia, emprego e floresta em pé podem, sim, fazer parte da mesma equação.


Follow-Up é publicada às quartas, quintas e sextas feiras no Jornal do Comércio do Amazonas, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor geral do portal  brasilamazoniaagora.com.br

Como uma corrente oceânica transformou o clima da Terra há 34 milhões de anos

Estudo mostra como a formação de uma corrente oceânica intensificou a captura de carbono, resfriou o planeta e marcou a transição para um novo regime climático global.

A formação da Corrente Circumpolar Antártica foi um dos eventos mais decisivos para a reorganização do clima terrestre há cerca de 34 milhões de anos. Um estudo recente publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences mostra como esse sistema passou de um estágio inicial fragmentado para se tornar a maior corrente oceânica do planeta e um dos principais reguladores climáticos da Terra.

Atualmente, essa corrente oceânica circunda a Antártida sem barreiras continentais e transporta um volume de água mais de 100 vezes superior ao de todos os rios do mundo somados. No entanto, esse fluxo contínuo nem sempre existiu. Segundo a pesquisa liderada por Hanna Knahl, do Alfred Wegener Institute, sua formação está diretamente ligada à separação gradual entre a Antártida, a América do Sul e a Austrália durante o período Oligoceno.

Antártida com extensas camadas de gelo cercadas pelo oceano, evidenciando a atuação da corrente oceânica
Paisagem da Antártida coberta por gelo e cercada pelo oceano, onde a corrente oceânica exerce papel central na regulação do clima global. Foto: Will Salter / Getty Images

Com a abertura dessas passagens oceânicas, especialmente na região conhecida como portal da Tasmânia, ventos intensos passaram a circular livremente ao redor do continente antártico. Esse processo permitiu o fortalecimento progressivo do sistema, alterando a dinâmica da circulação global e consolidando o papel dessa corrente oceânica no equilíbrio climático.

Modelagens climáticas indicam que, em seus estágios iniciais, o sistema apresentava comportamento heterogêneo. Enquanto algumas áreas já exibiam fluxos intensos, outras, como partes do Oceano Pacífico, permaneciam relativamente estáveis. Isso sugere que a reorganização climática ocorreu de forma gradual e não abrupta.

Naquele período, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera alcançava cerca de 600 partes por milhão, patamar superior ao atual e considerado possível novamente até o fim do século em cenários de altas emissões. A intensificação desse sistema contribuiu para ampliar a absorção de carbono pelos oceanos, favorecendo a redução das temperaturas globais e marcando o início de uma fase mais fria do planeta, com a consolidação de gelo permanente nos polos.

Os autores destacam que compreender esse processo histórico é essencial para interpretar as mudanças climáticas contemporâneas. Isso porque a atuação dessa circulação no passado difere significativamente do seu papel atual, evidenciando que grandes sistemas oceânicos podem responder de maneiras distintas às condições do planeta.

O estudo também reforça a importância de modelos climáticos integrados, que consideram simultaneamente interações entre oceanos, atmosfera, gelo e continentes. Essa abordagem tem ampliado a capacidade científica de reconstruir transformações globais e antecipar possíveis impactos em um cenário de aquecimento acelerado.

Os caminhos invisíveis do carbono na Amazônia

Da atmosfera à raiz, o carbono percorre um ciclo complexo dentro da floresta — e entender esse caminho é essencial para o futuro climático do planeta.


Quando se fala em carbono na Amazônia, a imagem mais comum é a de árvores absorvendo CO₂ da atmosfera. Mas essa é apenas a porta de entrada de um sistema muito mais complexo.

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Foto divulgação

Esse percurso começa na fotossíntese, quando o carbono atmosférico é incorporado à planta. A partir daí, ele se distribui por diferentes compartimentos da árvore: tronco, galhos, folhas e raízes.

Cada uma dessas partes cumpre um papel específico. O tronco funciona como um reservatório de longo prazo. As folhas participam de ciclos mais rápidos, ligados à troca de energia e gases com a atmosfera. Já as raízes conectam o CO2 ao solo, onde parte significativa desse elemento pode permanecer por longos períodos.

A floresta também devolve CO2 ao ambiente por meio da respiração das plantas e da decomposição da matéria orgânica. Esse fluxo contínuo de entrada e saída é o que mantém o sistema em equilíbrio.

Para entender essa dinâmica, os pesquisadores do INPA utilizam inventários florestais contínuos, combinando medições de campo com modelos matemáticos capazes de estimar a biomassa e, consequentemente, o carbono armazenado.

Esse tipo de conhecimento é essencial para medir com precisão o papel da Amazônia no clima global. Ele permite calcular quanto carbono a floresta retém, quanto libera e como essas variáveis mudam ao longo do tempo.

Mais do que isso, essa ciência é a base para políticas públicas, projetos de carbono e estratégias de desenvolvimento sustentável.

Compreender os caminhos do carbono dentro da floresta é, portanto, compreender o funcionamento de um dos principais sistemas de regulação climática do planeta.

O projeto INCT – Madeiras da Amazônia está focado na busca de valores agregados à madeira por meio de serviços ecossistêmicos da floresta. Em princípio, o foco é sobre o carbono, água e energia. O vídeo de hoje é sobre o carbono. Precisamos estimar os estoques, as diferenças de estoques com o passar do tempo e a capacidade de troca gasosa (CO2) entre a floresta e a atmosfera. Falta pouco! Depois disso, o manejo florestal sustentável na Amazônia poderá ser mais atraente. As imagens foram geradas no transecto Norte – Sul, que foi instalado em 1996 pelo projeto Jacaranda (Convênio JICA e INPA)

Quando o Estado se aproxima: TCE-AM transforma acessibilidade em ação concreta

Seminário inédito na Região Norte combina serviços diretos, escuta ativa e soluções técnicas para levar cidadania a pessoas com deficiência e reposicionar o papel do poder público.

No serviço público acontecem iniciativas que não se limitam ao protocolo institucional. Sobretudo quando atravessam a formalidade e alcançam um território mais sensível, onde o poder público se mede não pelo discurso, mas pela capacidade de chegar a quem historicamente ficou à margem. O 1º Seminário de Acessibilidade da Região Norte, promovido pelo Tribunal de Contas do Amazonas (TCE-AM), parece se inscrever exatamente nesse campo.

Ao incorporar serviços diretos à população em sua programação, o evento desloca o eixo tradicional dos seminários técnicos. Em vez de se restringir ao debate entre especialistas, abre espaço para uma atuação concreta, que toca a vida cotidiana das pessoas com deficiência. Emissão de documentos, orientação sobre benefícios sociais e atendimento jurídico deixam de ser promessas abstratas e passam a compor uma oferta imediata de cidadania.

Esse movimento revela uma compreensão mais ampla do papel institucional. O controle externo, muitas vezes associado à fiscalização de contas e contratos, assume aqui uma dimensão pedagógica e social. Não se trata apenas de acompanhar políticas públicas, mas de induzir sua efetividade a partir do contato direto com quem depende delas.

A fala da conselheira-presidente Yara Amazônia Lins aponta nessa direção ao vincular acessibilidade à garantia de direitos e ampliação de oportunidades. Há, nesse posicionamento, um reconhecimento de que inclusão não é um conceito acessório, mas um critério estruturante de qualquer política pública que pretenda ser legítima.

Na mesma linha, a procuradora de contas Fernanda Cantanhede Veiga Mendonça, ao destacar o caráter transformador do seminário, sugere que a iniciativa busca tensionar a cultura institucional. O desafio não é apenas normativo ou técnico, mas simbólico: aproximar o Estado de realidades que frequentemente permanecem invisíveis nos processos decisórios.

A programação reforça esse duplo compromisso. De um lado, a presença de Lars Grael na abertura introduz a dimensão humana da superação e da inclusão, trazendo para o centro do debate experiências que transcendem estatísticas. De outro, as discussões técnicas sobre acessibilidade arquitetônica, conduzidas por especialistas como Eduardo Ronchetti, sinalizam que a transformação exige também rigor, método e aplicação prática.

TCE-AM
Imagem divulgação

O ponto de convergência está na vivência. As atividades que simulam barreiras e experiências cotidianas das pessoas com deficiência funcionam como um dispositivo de sensibilização. Elas deslocam o olhar de quem planeja políticas, aproximando-o das limitações concretas impostas por espaços, serviços e atitudes ainda pouco inclusivos.

No contexto amazônico, onde as desigualdades territoriais já impõem desafios adicionais, esse tipo de iniciativa ganha um significado ampliado. A acessibilidade, nesse cenário, não se resume à eliminação de barreiras físicas. Ela envolve acesso à informação, a serviços básicos e à própria presença do Estado em regiões onde ele frequentemente chega de forma fragmentada.

Ao abrir suas portas e seus serviços, o TCE-AM ensaia um modelo de atuação que combina técnica e sensibilidade. Um modelo em que o espírito público não se esgota na fiscalização, mas se afirma na capacidade de reconhecer, incluir e responder.

No fim, o que está em jogo não é apenas um seminário. É a tentativa de redesenhar a relação entre instituições e sociedade, especialmente com aqueles que, por muito tempo, permaneceram fora do campo de visão das políticas públicas.

Transição energética global avança e renováveis chegam a mais de 49% da capacidade

Avanço acelerado das renováveis, liderado pela energia solar, reforça a transição energética global e expõe desigualdades regionais na adoção de fontes limpas.

As fontes renováveis estão cada vez mais próximas de alcançar os combustíveis fósseis na capacidade global de geração de eletricidade, em um movimento que reforça a transição energética global. Em 2025, elas atingiram 49,4% da matriz elétrica mundial, avanço significativo em relação aos 46,3% registrados no ano anterior.

Os dados são do relatório Estatísticas da Capacidade Renovável 2026, divulgado pela Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA). Segundo o levantamento, a capacidade instalada global de energias renováveis chegou a 5.149 gigawatts (GW), com a adição de 692 GW ao longo do ano, o maior crescimento já registrado.

O avanço foi impulsionado principalmente pela energia solar, que consolidou sua posição como a fonte renovável de maior expansão no mundo. Ela respondeu por cerca de três quartos da nova capacidade adicionada em 2025, com 510 GW instalados. Já a energia eólica ocupou o segundo lugar, com incremento de 159 GW, volume superior à expansão total das fontes fósseis, que somaram 116 GW no mesmo período.

Turbinas eólicas em parque energético mostram crescimento da transição energética global com energia renovável
Foto: engel.ac/Shutterstock

No total, as energias renováveis representaram 85% de toda a nova capacidade elétrica adicionada globalmente em 2025, evidenciando uma mudança estrutural alinhada à transição energética global.

A expansão, no entanto, não ocorreu de forma homogênea entre as regiões. A Ásia manteve a liderança, concentrando aproximadamente 75% da nova capacidade instalada, o equivalente a 511 GW, e registrando crescimento de 21%. Em contraste, a África alcançou sua maior taxa histórica de expansão, 15,9%, mas ainda com volume absoluto reduzido, somando 11,3 GW, com destaque para países como Etiópia, África do Sul e Egito.

Já a América Central e o Caribe adicionaram 21 GW em capacidade renovável, mas apresentaram o menor crescimento percentual em comparação a 2024, indicando desafios estruturais na ampliação dessas fontes.

O relatório também chama atenção para as desigualdades persistentes entre países e regiões. Segundo a IRENA, economias com menor participação de renováveis seguem mais vulneráveis a oscilações geopolíticas e crises energéticas.

Para o diretor-geral da agência, Francesco La Camera, o avanço contínuo das energias renováveis demonstra não apenas uma tendência de mercado, mas um caminho estratégico para aumentar a resiliência econômica. “Um sistema de energia mais descentralizado, com uma parcela crescente de energias renováveis e mais participantes do mercado, é estruturalmente mais resiliente”, afirmou. 

O cenário reforça que a transição energética global já está em curso e que sua aceleração será decisiva diante de um contexto internacional marcado por incertezas e tensões geopolíticas.

Conheça as serpentes da Amazônia e como seu veneno ajuda a salvar vidas

Espécies que controlam pragas e sustentam ecossistemas também inspiram medicamentos: entenda como as serpentes da Amazônia conectam biodiversidade, ciência e saúde pública.

A Amazônia brasileira concentra uma das maiores diversidades de serpentes do planeta, reunindo cerca de 189 espécies registradas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Nesse cenário, marcado pelo avanço urbano sobre áreas naturais, as serpentes da Amazônia assumem um papel ambíguo: ao mesmo tempo em que representam risco à saúde pública, também são essenciais para o equilíbrio ecológico e para avanços científicos.

Entre as maiores espécies de serpentes da Amazônia estão as jiboias e as sucuris, pertencentes à família Boidae. Diferentemente do que muitos imaginam, essas serpentes não possuem veneno. Elas capturam suas presas por constrição, utilizando a força muscular. Apesar do tamanho, que pode ultrapassar vários metros, essas serpentes da Amazônia raramente oferecem perigo direto aos humanos em ambientes naturais.

Jiboia Boa constrictor imperator, uma das serpentes da Amazônia não peçonhentas, em ambiente natural
A jiboia Boa constrictor imperator é uma das serpentes da Amazônia que não possuem veneno e utilizam a constrição para capturar suas presas. Foto: Natalia Kuzmina / Shutterstock.com

Riscos e importância para a medicina

Já os acidentes ofídicos de maior gravidade estão associados a serpentes peçonhentas específicas, classificadas como de interesse médico. No Brasil, as jararacas (Bothrops) lideram esse cenário, sendo responsáveis por cerca de 87% das ocorrências. Adaptáveis, elas ocupam inclusive áreas alteradas pela presença humana.

Outras espécies também exigem atenção. A surucucu-pico-de-jaca (Lachesis muta), maior serpente venenosa das Américas, habita principalmente florestas densas. As cascavéis (Crotalus), identificadas pelo chocalho, apresentam alto potencial letal e são associadas a maior número de óbitos. Já as corais-verdadeiras (Micrurus), embora possuam veneno altamente potente, causam poucos acidentes devido ao comportamento discreto.

Cobra coral, uma das serpentes da Amazônia com veneno neurotóxico potente, em ambiente natural
A cobra coral está entre as serpentes da Amazônia mais venenosas, com toxina potente, embora acidentes sejam raros devido ao comportamento discreto. Foto: Divulgação Instituto Butantan

Apesar dos riscos, o veneno dessas serpentes tem contribuído para avanços importantes na medicina. Compostos extraídos de jararacas, por exemplo, foram fundamentais no desenvolvimento de medicamentos para controle da hipertensão, como o captopril. Pesquisas recentes também exploram o uso dessas substâncias na criação de materiais para regeneração de tecidos e cicatrização, especialmente em pacientes com doenças crônicas, evidenciando o valor científico das serpentes da Amazônia.

Especialistas destacam que a convivência segura com esses animais passa por medidas simples de prevenção. A manutenção de ambientes limpos, sem acúmulo de lixo ou entulho, reduz a presença de roedores, principais presas das serpentes, e consequentemente, a aproximação desses répteis das residências.

O que fazer em caso de acidente?

Em caso de picada, a orientação é lavar o local com água e sabão e buscar atendimento médico imediato. Procedimentos como torniquetes, cortes ou sucção devem ser evitados, pois podem agravar o quadro clínico. Sempre que possível, a identificação da espécie auxilia na escolha do soro adequado.

Mais do que animais temidos, as serpentes da Amazônia desempenham função estratégica no controle de pragas e na manutenção dos ecossistemas. Além de representar uma fonte valiosa para a pesquisa científica.

Governo investe R$ 132 milhões na regularização fundiária para conter desmatamento na Amazônia

Programa prioriza pequenos produtores em áreas críticas e combina titulação de terras com apoio produtivo, fortalecendo a regularização fundiária na Amazônia e a conservação florestal.

O governo federal formalizou novos contratos voltados à regularização fundiária na Amazônia e ao fortalecimento da assistência técnica rural na região. A iniciativa, conduzida em parceria com a Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater), prevê investimento de cerca de R$ 132 milhões e deve beneficiar mais de 7 mil famílias em áreas prioritárias para o controle do desmatamento.

As ações integram o Programa União com Municípios, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, em articulação com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária e a própria Anater. Ao todo, 14 entidades foram selecionadas para executar os serviços em campo.

Alt text: Área de desmatamento na floresta amazônica evidencia a urgência da regularização fundiária na Amazônia para conter a degradação ambiental.
Foto: Bruno Kelly / Amazônia Real

O foco do projeto está em pequenas propriedades rurais, com até quatro módulos fiscais, localizadas em assentamentos ou em terras públicas federais ainda sem destinação. A proposta busca garantir segurança jurídica aos ocupantes, ao mesmo tempo em que incentiva práticas produtivas sustentáveis.

Na primeira fase, as atividades serão concentradas em 48 municípios considerados estratégicos para a redução do desmatamento nos estados do Amazonas, Acre, Pará, Mato Grosso, Rondônia e Roraima. A expectativa é regularizar aproximadamente 2,3 milhões de hectares, atendendo cerca de 7,3 mil famílias, um avanço importante para a regularização fundiária na Amazônia.

O cronograma prevê o início das operações ainda em abril, com a formação das equipes técnicas e a assinatura das ordens de serviço. As ações incluem visitas às propriedades, levantamento de dados fundiários e ambientais e apoio direto aos agricultores na adoção de sistemas agroecológicos e agroflorestais.

Além da titulação das terras, o programa também investe na ampliação da Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater), com foco na geração de renda e na valorização de atividades produtivas compatíveis com a conservação da floresta. A estratégia considera a diversidade social e territorial da região, marcada pela presença de comunidades tradicionais, povos indígenas e diferentes modelos de uso da terra.

Ao final dos três ciclos previstos, a meta é alcançar a regularização de 9,5 milhões de hectares, área equivalente ao estado de Santa Catarina, e atender cerca de 30 mil famílias, consolidando a regularização fundiária na Amazônia como instrumento-chave no combate ao desmatamento.

Criado em 2023, o Programa União com Municípios já definiu 81 localidades prioritárias com base em dados oficiais de desmatamento, das quais 70 aderiram à iniciativa. O financiamento total das ações pode chegar a R$ 815 milhões, com recursos de diferentes fontes, incluindo o Fundo Amazônia, o Fundo Verde para o Clima e parcerias com organismos internacionais como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

O novo papel da Amazônia produtiva no Brasil que se reconfigura – Entrevista com Leopoldo Montenegro

Assumir a Superintendência da Zona Franca de Manaus neste momento é mais do que uma mudança de gestão. É ocupar um ponto sensível da reorganização econômica do país.

O novo superintendente chega com uma leitura clara do contexto: o Brasil vive uma transição de modelo, e a Amazônia deixa de ser periferia para ocupar o centro da agenda estratégica.

A aposta é direta. Uma economia mais limpa, mais tecnológica e com maior capacidade de agregar valor a partir dos ativos naturais da região.

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BAA – O que representa assumir a Suframa neste momento específico do Brasil e da Amazônia Ocidental?

Leopoldo Montenegro – Vivemos um cenário de transição importante na economia brasileira, e a Amazônia se encontra no centro do debate sobre o novo modelo de desenvolvimento sustentável do país. Portanto, acredito que podemos ser protagonistas do processo de passagem para uma economia mais limpa, mais agregadora de valor, mais tecnológica e mais intensiva no uso responsável dos nossos bioativos regionais.

BAA – Qual leitura o senhor faz do papel atual da Zona Franca de Manaus no contexto nacional?

Leopoldo Montenegro – Vejo a Zona Franca com um papel estratégico, sobretudo em um momento em que há um esforço do Governo brasileiro no sentido de retomar a importância da participação da indústria de transformação na economia do país. Esse esforço se materializa na formulação de uma nova política industrial – a Nova Indústria Brasil – cujas premissas baseadas em descarbonização, na bioeconomia e no avanço tecnológico são altamente aderentes à produção do Polo Industrial de Manaus.

BAA – Quais são as três primeiras medidas ou frentes de atuação que o senhor pretende implementar? Há alguma agenda emergencial que exige resposta rápida da Suframa?

Leopoldo Montenegro – Neste primeiro momento, elegi como prioridades o avanço no processo de modernização da Suframa, principalmente a partir da construção dos novos sistemas informatizados para agilizar e melhorar a qualidade dos serviços prestados aos nossos usuários; a atração de novos investimentos, para que possamos diversificar a produção e aumentar a mão de obra ocupada e; principalmente, estruturar o processo de operacionalização das novas regras advindas da regulamentação da reforma tributária.

BAA – A ZFM segue sendo alvo de críticas recorrentes. Onde o senhor acredita que está o maior problema: comunicação, modelo ou execução? Como pretende fortalecer a narrativa e a legitimidade do modelo?

Leopoldo Montenegro – As principais críticas à Zona Franca de Manaus recaem sobre o custo fiscal do modelo e sobre sermos, supostamente, um enclave econômico, isolados do restante do país, o que, do ponto de vista prático, não faz sentido. Somos os principais geradores de arrecadação federal na Região, de emprego qualificado e de renda, além de contribuímos para a conservação da cobertura florestal nativa do Amazonas, além de estarmos bastante integrados a outras cadeias produtivas do restante do país.

Nesse sentido, acredito que precisamos estabelecer uma nova abordagem de comunicação que esclareça o papel estratégico da Zona Franca para a Amazônia e para o Brasil.

BAA – Como integrar a bioeconomia ao modelo industrial sem fragilizar a competitividade do Polo Industrial de Manaus?

Leopoldo Montenegro – A integração da bioeconomia à indústria do PIM fortalece nosso modelo e a economia do Estado como um todo, e o reflexo desse processo é justamente a interiorização do desenvolvimento. Para que isso aconteça, o Amazonas precisa superar desafios históricos, como garantir regularização fundiária; oferecer assistência técnica ao produtor que o habilite a alcançar escala, tratamento, armazenamento e escoamento da produção e; acima de tudo, agregar valor, e temos visto que o alcance da maior parte desse propósito é possível a partir da aplicação da inovação, da pesquisa e da tecnologia.

BAA – Como o senhor avalia o uso dos recursos de P&D (Lei de Informática, PPBio etc.)? Existe espaço para uma política mais agressiva de inovação na Amazônia?

Leopoldo Montenegro – Considero a política de investimentos em PD&I derivada da Lei de Informática da Zona Franca de Manaus como uma poderosa ferramenta de transformação econômica ao dispor da nossa região, na medida em que possibilita o surgimento de novos produtos e novos negócios inovadores na Amazônia.

Estimamos que, em 2025, o montante desses investimentos tenha alcançado R$ 1,6 bilhão e esses recursos vêm, gradativamente, se desconcentrando em direção aos estados da Amazônia Ocidental e do Amapá, graças ao esforço da Suframa em levar informação a essas localidades sobre as possibilidades de aportes em projetos de diversas vertentes, através das Jornadas de Integração e Interiorização do Desenvolvimento. 

BAA – Logística continua sendo um dos principais entraves. Há alguma estratégia concreta em construção? Como a Suframa pode influenciar decisões estruturais que estão fora da sua governança direta?

Leopoldo Montenegro – A insuficiência logística, exposta severamente pelas secas de 2023 e 2024, reforça a urgência das pautas defendidas pela Suframa: BR-319 pavimentada, hidrovias operacionais e modais integrados. A competitividade do modelo ZFM depende da superação do isolamento geográfico.

Por isso, trabalhamos em estreita colaboração com o Governo Federal, via MDIC, para viabilizar soluções estruturantes. O Plano Nacional de Logística, no âmbito do Ministério dos Transportes, e o Projeto Rotas de Integração Sul-Americana, do Ministério do Planejamento, são avanços promissores que visam transformar a realidade do abastecimento e escoamento de mercadorias na região.

BAA – A agenda ESG virou linguagem obrigatória. Como traduzir isso em vantagem competitiva real para a ZFM?

Leopoldo Montenegro – A agenda ESG se traduz em vantagem real para o investidor e para a Zona Franca, de maneira geral. Hoje, importa para o consumidor saber se aquela mercadoria ajudou a preservar a Amazônia ou se promoveu o desenvolvimento social de quem vive aqui. Foi por essa razão que lançamos, em 2025, a iniciativa ZFM+ESG, visando incentivar a adoção de práticas ambientais, sociais e de governança corporativa pelas empresas em nossa área de atuação.

Desde então, temos dezenas de empresas que se voluntariaram a participar e que estão implementando ações nas três dimensões do ESG. Na prática, isso vira vantagem quando uma empresa do Polo consegue acessar crédito mais barato por ser sustentável, ou quando ela reduz desperdícios adotando economia circular. Além disso, o ESG é a nossa melhor defesa institucional.

Fica muito difícil questionar os incentivos da ZFM quando a gente prova, com dados, o efeito positivo do PIM na conservação da cobertura florestal nativa do Amazonas.

BAA – Como será o diálogo com entidades como CIEAM, FIEAM e empresas do Polo? Pretende implementar algum modelo de governança mais colaborativo?

Leopoldo Montenegro – Nosso diálogo com empresas e entidades de classe já é, e continuará a ser, o mais franco, aberto e colaborativo possível. Foi por meio dessa aproximação com o setor produtivo que conseguimos entender de perto os entraves e as potencialidades de cada um dos segmentos do Polo Industrial de Manaus e, munidos dessas informações, conseguimos avançar em muitos temas internos da Suframa, ou junto a outros órgãos da Administração Federal e do Congresso Nacional, quando estavam fora de nossa área de atuação.

BAA – Investidores ainda enxergam instabilidade no modelo? O que pode ser feito para aumentar previsibilidade e atratividade?

Leopoldo Montenegro – Muito pelo contrário. Não receio afirmar que a Zona Franca de Manaus nunca esteve amparada por tanta segurança jurídica como depois da Reforma Tributária, que vai marcar uma nova trajetória do nosso modelo daqui por diante. As diretrizes que foram estabelecidas na Constituição Federal e as regras instituídas nas leis que regulamentaram os benefícios tributários relativos à Zona Franca e às Áreas de Livre Comércio mantiveram nossa competitividade e nos tornaram mais atrativos em um ambiente em que haverá pouquíssimas exceções ao regime regular.

E isso já está se materializando desde agora, pois temos observado o aumento do interesse de investidores nacionais e estrangeiros pelo Polo Industrial de Manaus, inclusive pela elevação na apresentação de projetos de ampliação e de implantação de novos empreendimentos.

BAA – Onde o senhor imagina a Suframa e a Zona Franca daqui a 10 anos?

Leopoldo Montenegro – Vejo uma Suframa mais ágil, digital e conectada, levando o desenvolvimento de maneira cada vez mais intensa para os outros estados da nossa área de atuação, e uma Zona Franca de Manaus como o principal exemplo mundial de que é possível ter uma indústria pujante, de alta tecnologia, operando em total harmonia com a floresta. Imagino um Polo Industrial que desenvolve tecnologia própria aqui dentro, aproveitando a nossa biodiversidade de forma inteligente e sustentável.

Se conseguirmos deixar um ecossistema onde o jovem amazonense tenha oportunidade de trabalhar com tecnologia de ponta sem precisar sair da sua terra, sabendo que ele faz parte da solução para a mudança econômica e social da região, então meu trabalho terá valido a pena.


📊 Resultado historico para a Zona Franca de ManausA reuniao do Conselho de Administracao da Suf 1

Quem é o novo superintendente da Suframa

Leopoldo Augusto Melo Montenegro Junior assumiu a Superintendência da Zona Franca de Manaus em março de 2026, em substituição a Bosco Saraiva, por nomeação oficial publicada no Diário Oficial da União. 

Servidor de carreira da própria Suframa, Montenegro construiu sua trajetória técnica dentro da autarquia, com atuação destacada nas áreas de projetos, inovação e políticas de desenvolvimento regional.

É graduado em Direito e Administração, possui especializações em Gestão de Projetos e Gestão de Pessoas e é mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). 

Antes de assumir o comando, ocupava a Superintendência Adjunta de Projetos, onde esteve diretamente envolvido no acompanhamento de investimentos industriais e na execução de políticas de pesquisa, desenvolvimento e inovação na Amazônia. 

Ao longo da carreira, também atuou no Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA) e em áreas estratégicas ligadas à Lei de Informática, com foco na articulação entre indústria, tecnologia e bioeconomia. 

Sua nomeação sinaliza uma transição com forte caráter técnico e de continuidade institucional, em um momento de reposicionamento estratégico da Zona Franca no contexto da nova política industrial brasileira.