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Acampamento Terra Livre 2026 pressiona Congresso contra ameaças a indígenas

Acampamento Terra Livre reúne cerca de 200 povos indígenas para debater impactos de propostas legislativas sobre terras indígenas, conservação ambiental e o futuro da Amazônia frente à crise climática.

A 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL), considerada a maior mobilização indígena do Brasil, começou neste domingo (5), em Brasília, reunindo lideranças de diferentes regiões do país para discutir direitos, políticas públicas e estratégias de resistência. O encontro ocorre no Eixo Cultural Ibero-Americano, na área central da capital federal, e segue até sexta-feira (10), com expectativa de participação de cerca de 200 povos indígenas.

Com o tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, a edição de 2026 reforça a defesa dos territórios e modos de vida indígenas diante de pressões econômicas e propostas legislativas consideradas ameaçadoras. O Acampamento Terra Livre é um espaço de articulação política, onde diferentes povos se organizam coletivamente para influenciar decisões do Estado e ampliar a visibilidade de suas demandas.

A programação reúne marchas, plenárias, debates e atividades culturais abertas ao público. Entre os principais pontos de discussão estão iniciativas em tramitação no Congresso Nacional, como o Marco Temporal, projetos de exploração econômica em terras indígenas e propostas relacionadas à mineração e ao agronegócio. Segundo as lideranças, essas medidas representam riscos diretos à demarcação de territórios e à autonomia dos povos originários.

Plenária do Acampamento Terra Livre debate memória, verdade e justiça com lideranças indígenas reunidas em Brasília
Plenária do Acampamento Terra Livre discute memória, verdade e justiça para os povos indígenas. Foto: @ya.gaviao

Além da agenda política, o evento também destaca temas históricos e estruturais. Um dos debates centrais aborda memória, verdade e justiça, conectando violações do passado com desafios atuais. Durante uma das plenárias do Acampamento Terra Livre, foi defendida a criação de uma Comissão Nacional Indígena da Verdade, com o objetivo de investigar violências ocorridas durante a ditadura civil militar e promover reparação. Dados apresentados indicam que cerca de 8 mil indígenas foram mortos durante a ditadura civil militar, evidenciando a dimensão da violência institucional enfrentada ao longo do tempo.

Relatos de diferentes territórios mostram que essas violações persistem, com impactos associados ao desmatamento, à mineração e à implementação de grandes obras de infraestrutura. Lideranças também destacaram perdas culturais e territoriais, como a destruição de espaços sagrados e a imposição de políticas que afetaram línguas e tradições. Ao longo da semana, as mobilizações devem culminar em marchas até o Congresso Nacional e na elaboração de um documento final, que sintetiza as principais reivindicações. 

Nova tecnologia torna captura de carbono mais eficiente e barata

Pesquisadores criam material com liberação de CO₂ em baixa temperatura, reduzindo custos e ampliando o potencial da captura de carbono em escala industrial.

Uma nova classe de materiais à base de carbono pode tornar a captura de carbono mais eficiente e acessível, ao permitir a liberação do gás em temperaturas mais baixas. A inovação ajuda a enfrentar o alto custo energético, um dos principais entraves dessa tecnologia.

A captura de carbono é considerada uma estratégia relevante para reduzir emissões de gases de efeito estufa, ao impedir que o CO₂ de processos industriais chegue à atmosfera. No entanto, métodos tradicionais ainda são caros e pouco eficientes. Um dos mais utilizados, a lavagem com aminas líquidas, exige aquecimento acima de 100 °C para liberar o CO₂ capturado, elevando os custos operacionais e limitando a aplicação em larga escala.

Materiais sólidos de carbono surgem como alternativa promissora para a captura de carbono. Eles são mais baratos, têm alta área superficial e conseguem capturar CO₂ com eficiência. Além disso, podem liberar o gás com menor consumo de energia, especialmente quando incorporam nitrogênio em sua estrutura. O desafio, até então, era a falta de controle sobre a posição desses átomos, distribuídos de forma aleatória.

Pesquisadores da Universidade de Chiba desenvolveram um novo material que supera essa limitação. Chamados de “viciazitos”, esses compostos possuem grupos de nitrogênio organizados de forma adjacente e controlada, permitindo avaliar com mais precisão seu desempenho na captura de CO₂.

Ilustração de fibra de carbono funcionalizada com grupos NH2 adjacentes que aumentam a eficiência da captura de carbono e facilitam a liberação de CO₂ com menos energia
Material com grupos amina adjacentes melhora eficiência da captura de carbono ao permitir liberação de CO₂ em baixas temperaturas. Foto: Yasuhiro Yamada/Universidade de Chiba

A equipe produziu três variações do material, com diferentes tipos de nitrogênio. Em uma delas, grupos amina (-NH₂) foram posicionados lado a lado por meio de um processo químico em etapas, com alta seletividade. Outras versões incluíram configurações pirrólicas e piridínicas, também com diferentes níveis de controle estrutural.

Testes mostraram diferenças claras de desempenho. Materiais com grupos amina adjacentes e nitrogênio pirrólico capturaram mais CO₂ do que fibras de carbono convencionais. Já a configuração piridínica apresentou menor eficiência.

O principal avanço, porém, está na liberação do gás. Nos materiais com grupos -NH₂ adjacentes, o CO₂ foi liberado a temperaturas inferiores a 60 °C. Isso abre caminho para o uso de calor residual industrial, reduzindo significativamente o consumo energético e os custos do processo. Já os materiais com nitrogênio pirrólico exigem temperaturas mais altas, mas podem ser mais estáveis ao longo do tempo.

Segundo os pesquisadores, o controle preciso da estrutura química permite projetar materiais mais eficientes e direcionados, acelerando o desenvolvimento de tecnologias de captura de carbono mais acessíveis.

Além disso, os viciazitos podem ter aplicações em outras áreas, como remoção de metais e uso como catalisadores, devido à flexibilidade de suas propriedades superficiais.

O estudo aponta um caminho promissor para tornar a captura de carbono mais viável economicamente, um passo importante para ampliar o uso dessa tecnologia no enfrentamento das mudanças climáticas.

Espécies marinhas estão desaparecendo antes mesmo de serem descobertas

Iniciativa científica reúne dados genéticos e morfológicos para identificar espécies pouco conhecidas e conter a perda acelerada da biodiversidade marinha diante das mudanças ambientais.

A perda de biodiversidade marinha nos oceanos avança em ritmo acelerado e já ameaça espécies que sequer foram descritas pela ciência. Pressionados por mudanças climáticas, destruição de habitats e organismos invasores, grupos pouco estudados, como os vermes marinhos, estão entre os mais vulneráveis à chamada “extinção silenciosa”.

Para enfrentar esse cenário, um consórcio de pesquisadores europeus lançou o projeto EuroWorm. A iniciativa da Universidade de Göttingen é voltada à catalogação de anelídeos marinhos, organismos segmentados que habitam praticamente todos os ambientes oceânicos. O objetivo é reunir informações genéticas e morfológicas dessas espécies em um banco de dados aberto, capaz de ampliar o conhecimento científico e acelerar a identificação de novas formas de vida.

Anelídeo marinho Phyllodoce rosea em ambiente oceânico, representando a biodiversidade marinha e a diversidade de vermes segmentados.
Phyllodoce rosea, um anelídeo marinho que ilustra a diversidade ainda pouco conhecida da biodiversidade marinha nos oceanos. Foto: © Hans Hillewaert

Esses animais desempenham funções essenciais nos ecossistemas, como a reciclagem de nutrientes, a oxigenação de sedimentos e o suporte às cadeias alimentares. Apesar disso, muitos permanecem desconhecidos. A estratégia do projeto inclui a coleta de amostras em regiões da Europa onde essas espécies foram originalmente registradas, contribuindo para uma compreensão mais ampla da biodiversidade marinha.

Após a coleta, os organismos passam por identificação morfológica, registro fotográfico em alta resolução e análises genômicas avançadas. Com isso, os cientistas pretendem compreender melhor as relações evolutivas entre os grupos e investigar como características como reprodução e adaptação ao ambiente se desenvolveram ao longo do tempo.

O material reunido será incorporado a coleções científicas e disponibilizado em plataformas digitais de acesso público, permitindo que pesquisadores de diferentes países, especialmente do Sul Global, utilizem os dados ou solicitem amostras para novos estudos.

Além de impulsionar a descoberta de espécies, a iniciativa reforça o papel dos museus de história natural como centros estratégicos de pesquisa. Segundo os coordenadores, a integração entre acervos históricos e tecnologias genômicas tem revelado uma diversidade ainda invisível, indicando que muitos avanços científicos começam a partir de espécimes coletados há décadas.

Com abordagem colaborativa e interdisciplinar, o EuroWorm busca documentar a biodiversidade marinha para orientar prioridades futuras de pesquisa em um cenário de rápida transformação ambiental.

Novo gênero de tarântulas é identificado com órgão reprodutivo desproporcionalmente grande

Pesquisa identifica novas espécies de tarântulas na África e Península Arábica, revelando adaptações evolutivas que reduzem o risco de canibalismo e ampliam o conhecimento sobre biodiversidade.

Quatro novas espécies de tarântulas identificadas na Península Arábica e no Chifre da África levaram cientistas a propor um gênero totalmente inédito. Batizado de Satyrex, o grupo reúne aranhas com características anatômicas tão distintas que não puderam ser enquadradas nas classificações já existentes.

A definição do novo gênero foi baseada em análises morfológicas e moleculares. Segundo o pesquisador Alireza Zamani, responsável pelo estudo, as diferenças em relação a outros grupos de tarântulas são significativas o suficiente para justificar a nova classificação taxonômica.

O nome Satyrex faz referência à combinação entre “sátiro”, figura mitológica associada a formas exageradas, e o termo latino rex (“rei”), uma alusão direta à anatomia incomum desses animais.

Estrutura reprodutiva fora do padrão

O principal traço que distingue essas espécies está nos palpos dos machos, estruturas utilizadas na transferência de esperma durante o acasalamento – o órgão sexual do animal. Nos representantes de Satyrex, esses apêndices atingem proporções inéditas entre tarântulas conhecidas.

Na espécie Satyrex ferox, por exemplo, os indivíduos podem alcançar cerca de 14 centímetros de envergadura. Já o palpo masculino pode medir aproximadamente 5 centímetros, tamanho desproporcional em relação ao corpo e comparável ao comprimento das maiores pernas do animal.

Agressividade e adaptação evolutiva

Além da anatomia singular, o comportamento dessas aranhas também chama atenção. A espécie S. ferox apresenta alta agressividade, reagindo rapidamente a estímulos externos com postura de defesa e emissão de sons por meio do atrito entre estruturas nas pernas.

Nesse contexto, os pesquisadores levantam uma hipótese funcional para os palpos alongados. “Sugerimos que os palpos longos podem permitir que o macho mantenha uma distância mais segura durante o acasalamento, ajudando-o a evitar ser atacado e devorado pela fêmea altamente agressiva”, afirmou Zamani.

A adaptação pode representar uma vantagem evolutiva em ambientes onde o risco de canibalismo sexual é elevado, um comportamento já observado nas novas espécies de tarântulas com fêmeas mais agressivas.

*Satyrex longimanus*, reclassificada no novo gênero, integra o grupo de novas espécies de tarântulas com adaptações evolutivas incomuns.
Espécie Satyrex longimanus, uma das novas espécies de tarântulas, destacando pernas e estrutura corporal alongada. Foto: Vojtěch Víta

Novas espécies e revisão taxonômica

O novo gênero inclui três espécies inéditas — S. arabicus, S. somalicus e S. speciosus — além da reclassificação de S. longimanus, descrita originalmente no início do século XX no Iêmen, a presença de palpos significativamente mais longos foi determinante para sua reavaliação e inclusão em Satyrex, reforçando a singularidade dessas novas espécies de tarântulas.

Vida subterrânea

Todas as espécies do novo grupo possuem vivem em tocas escavadas no solo, geralmente na base de arbustos ou entre rochas. Esse comportamento contribui para sua baixa visibilidade e pode explicar por que essas novas espécies de tarântulas passaram tanto tempo sem serem descritas pela ciência.

Os resultados da pesquisa foram publicados na revista científica ZooKeys, ampliando o conhecimento sobre a diversidade e as estratégias evolutivas das tarântulas em regiões ainda pouco exploradas.

Sumaúma: a árvore gigantesca “mãe da floresta” que protege a vida na Amazônia 

Além de seu valor cultural e espiritual, a sumaúma desempenha funções ecológicas essenciais na Amazônia, influenciando chuvas, sustentando espécies e reforçando a importância da conservação. 

A sumaúma (Ceiba pentandra) é uma das espécies mais emblemáticas da floresta amazônica. Conhecida como “árvore da vida” ou “rainha da floresta”, ela pode chegar a 70 metros de altura, o equivalente a um prédio de mais de 23 andares, e desempenha um papel ecológico fundamental na floresta amazônica. 

Distribuída em florestas tropicais da América do Sul, África e Ásia, a sumaúma encontra na Amazônia um de seus principais territórios. No Brasil, ocorre especialmente em áreas de várzea, onde cresce mais rapidamente, embora também esteja presente em terra firme, com porte mais reduzido. O tronco da sumaúma pode atingir até três metros de diâmetro, sustentado por raízes tabulares conhecidas como sapopemas, estruturas largas e achatadas que garantem estabilidade em solos úmidos e rasos.

Árvore sumaúma de grande porte na floresta amazônica, com tronco largo e copa elevada acima da vegetação
Foto: simonkr/ iStock

Um ecossistema em si

A sumaúma funciona como um ecossistema vertical, sua copa elevada abriga aves, insetos e outros organismos, enquanto suas raízes interagem com o solo e contribuem para a dinâmica hídrica da floresta. 

Estudos indicam que uma única sumaúma adulta pode liberar mais de mil litros de água por dia na atmosfera, participando do fenômeno dos “rios voadores”, que influenciam o regime de chuvas em grande parte da América do Sul. Além disso, suas raízes conseguem captar água em profundidade e redistribuí-la no solo, beneficiando outras espécies vegetais ao redor e atuando como uma “reguladora hídrica”.

Fibra, óleo e usos múltiplos

Os frutos da sumaúma produzem uma fibra leve e sedosa chamada paina, ou kapok, frequentemente comparada ao algodão. Essa fibra é impermeável por natureza e já foi utilizada em itens como almofadas, colchões e até coletes salva-vidas. No entanto, sua estrutura dificulta a fiação em larga escala, o que limita seu uso industrial.

As sementes também têm valor econômico, delas se extrai um óleo que pode ser utilizado na alimentação, na fabricação de sabões, lubrificantes e até como proteção contra ferrugem. O resíduo restante, rico em nutrientes, pode ser aproveitado para ração animal ou adubo.

Fibra de sumaúma (kapok) extraída do fruto da árvore Ceiba pentandra, com textura leve e branca
A fibra da sumaúma, conhecida como kapok, é leve, impermeável e já foi usada em almofadas, colchões e até coletes salva-vidas. Foto: © Arifuddin Mangka/Shutterstock.com

Propriedades medicinais e sobrevivência

Diversas partes da árvore são utilizadas na medicina tradicional. A seiva é empregada no tratamento de inflamações oculares, enquanto a casca, preparada em forma de chá, é associada a propriedades diuréticas e ao combate de doenças como a malária. Compostos presentes nas raízes também apresentam atividade antibacteriana e antifúngica.

Em situações extremas, como em períodos de seca, as raízes expostas podem fornecer água potável, um recurso vital para populações que vivem na floresta.

Telefone da floresta

Outro aspecto marcante da sumaúma está em sua relação com as populações tradicionais. As sapopemas funcionam como caixas de ressonância natural, ao serem golpeadas, produzem sons graves que podem se propagar por longas distâncias. Esse fenômeno deu origem ao chamado “telefone da floresta”, utilizado pelos povos da floresta para comunicação.

Significado espiritual e lendas

Para diversos povos indígenas e culturas antigas, a sumaúma ultrapassa a dimensão biológica e assume um papel espiritual. Entre os maias, era vista como a “escada do céu”, uma árvore que conectava céu, terra e submundo. Na Amazônia, é frequentemente chamada de “mãe da floresta” por sua capacidade de sustentar outras formas de vida.

Segundo a tradição oral, há um portal espiritual na base da árvore, invisível aos olhos humanos, por onde transitam entidades da floresta. Narrativas também associam a árvore ao Curupira, entidade protetora das matas, que utilizaria suas raízes como abrigo.

Uma das lendas mais difundidas conta a história de uma curandeira que perde o marido após uma picada de cobra e, a partir disso, passa a buscar uma cura, descobrindo uma planta capaz de tratar e imunizar contra o veneno. Anos depois, seu próprio filho é picado, mas o remédio falha. Desesperada, ela oferece a própria vida em troca da sobrevivência do filho. Desde então, seu espírito passa a viver na base da árvore sumaúma, como a “Mãe Sumaúma”, entidade que protege a floresta, seus animais e plantas.

Zona Franca de Manaus: o tempo da infraestrutura e da bioeconomia


A Zona Franca de Manaus atravessa um momento raro em sua trajetória. A combinação entre segurança jurídica consolidada e respaldo parlamentar efetivo não apenas afasta incertezas históricas, como inaugura um ciclo de previsibilidade indispensável para decisões de longo prazo. Esse novo ambiente altera o eixo do debate. Já não se trata de defender o modelo, mas de fazê-lo avançar.

Infraestrutura deixa de ser gargalo

Essa mudança de patamar impõe uma revisão estratégica da infraestrutura que sustenta o Polo Industrial de Manaus. Durante décadas, logística precária, custo energético elevado e limitações de conectividade foram tratados como obstáculos crônicos. Agora, passam a ser variáveis centrais de competitividade.

Competitividade industrial

A questão deixa de ser apenas operacional. Infraestrutura, nesse contexto, é política industrial. É o que define a capacidade de integração da Amazônia aos fluxos nacionais e globais de produção. É o que determina se o Polo continuará sendo um enclave produtivo ou se se afirmará como plataforma dinâmica de inovação, agregação de valor e inserção internacional.

Transformar previsibilidade em execução

Ao enfrentar esse desafio, abre-se uma janela histórica para corrigir distorções estruturais. A primeira delas é a excessiva concentração produtiva. A diversificação deixa de ser um discurso recorrente e passa a ser uma exigência econômica. Novos segmentos precisam ser incorporados com inteligência, conectando indústria, ciência e ativos naturais da região.

Diversificar para crescer, adensar para resistir

A segunda é o adensamento das cadeias produtivas. O Polo não pode permanecer dependente de elos externos para etapas críticas de produção. A consolidação de fornecedores locais, o estímulo à inovação tecnológica e a integração com centros de pesquisa são caminhos para elevar a densidade econômica e reduzir vulnerabilidades.

Interiorização

Mas é na terceira frente que reside a inflexão mais profunda. A interiorização do desenvolvimento. Enquanto a economia permanecer concentrada em Manaus, a promessa de equilíbrio regional continuará incompleta. Infraestrutura adequada é o que pode transformar rios em corredores logísticos eficientes, energia em vetor de inclusão e conectividade em instrumento de integração territorial.

Logística, energia e conectividade

É nesse ponto que a bioeconomia ganha centralidade. Não como conceito abstrato ou agenda periférica, mas como eixo estruturante de uma nova economia amazônica. Uma economia que reconhece a floresta como ativo estratégico, que articula conhecimento científico com saberes tradicionais e que responde a uma demanda global crescente por soluções sustentáveis.

Bioeconomia ganha status

A bioeconomia, no entanto, exige mais do que intenção. Precisa de escala, investimento, governança e mercado. Depende de cadeias organizadas, de segurança regulatória e de infraestrutura que permita transformar potencial em produto, pesquisa em negócio, biodiversidade em valor econômico legítimo.

Da floresta ao mercado

O momento que se desenha para a Zona Franca é, portanto, de responsabilidade ampliada. A base institucional está posta. O ambiente político é favorável. Os instrumentos existem. O que se exige agora é capacidade de execução.

Transformar estabilidade em competitividade. Converter infraestrutura em desenvolvimento efetivo. E fazer da bioeconomia não uma promessa recorrente, mas um vetor concreto de geração de riqueza, inclusão produtiva e soberania regional.

O futuro da Amazônia passa pela capacidade de entregar resultados. A Amazônia já demonstrou sua relevância para o Brasil. Chegou o tempo de demonstrar sua capacidade de liderar um novo paradigma de desenvolvimento, socialmente justo e ambientalmente sustentável. 

Descoberta de fósseis antecipa origem de animais complexos em milhões de anos

Análise de fósseis raros com tecidos moles indica que grupos ancestrais de animais já existiam milhões de anos antes do previsto, redefinindo marcos da evolução biológica.

Uma descoberta no sudoeste da China está levando cientistas a revisar o surgimento da vida animal complexa, um dos marcos clássicos da evolução. Fósseis encontrados na província de Yunnan indicam que organismos com estruturas sofisticadas já existiam antes da chamada explosão cambriana, evento que há décadas é tratado como ponto de partida da diversificação dos animais.

Os exemplares foram identificados na biota de Jiangchuan e somam mais de 700 fósseis datados entre 554 milhões e 539 milhões de anos. O conjunto revela uma comunidade rica do período Ediacarano, com espécies que apresentam características mistas, algumas típicas de formas primitivas e outras associadas a grupos modernos.

A explosão cambriana, iniciada há cerca de 539 milhões de anos, sempre foi considerada o momento de rápida expansão da complexidade biológica. No entanto, os novos dados sugerem que esse processo começou antes. De acordo com os pesquisadores, animais que até então eram associados apenas ao Cambriano já estavam presentes milhões de anos antes.

Entre os fósseis analisados estão possíveis ancestrais de deuterostômios, grupo que inclui desde equinodermos até vertebrados, como peixes e humanos. Também foram identificados organismos com simetria bilateral semelhantes a vermes, além de formas que lembram estruturas iniciais de estrelas-do-mar e pepinos-do-mar.

Pepino-do-mar, animal marinho relacionado a grupos identificados em fósseis do Ediacarano
Fósseis indicam organismos com simetria bilateral semelhantes a vermes e formas iniciais de estrelas-do-mar e pepinos-do-mar. Foto: Frédéric Ducarme

O sítio também revelou organismos com tentáculos e mecanismos de alimentação mais complexos do que o esperado para a época. Parte dos exemplares apresenta morfologias inéditas, o que dificulta seu enquadramento nos grupos conhecidos e sugere uma diversidade ainda pouco documentada.

Para os cientistas, o conjunto fossilífero registra uma fase de transição entre dois momentos-chave da história da vida: o Ediacarano e o Cambriano. Essa conexão ajuda a preencher lacunas entre evidências fósseis e estudos genéticos, que já apontavam para uma origem mais antiga de diversos grupos animais.

Outro aspecto relevante da descoberta está no modo de preservação. Os fósseis foram registrados como compressões carbonáceas, um tipo raro que permite a conservação de tecidos moles, como estruturas digestivas e partes relacionadas à alimentação. Esse nível de detalhe é incomum, já que o registro fóssil costuma preservar principalmente partes duras, como conchas e esqueletos.

Segundo os pesquisadores, essa característica pode explicar a ausência de evidências semelhantes em outros locais. Em vez de indicar que esses organismos não existiam, a falta de registros pode estar associada às condições específicas necessárias para sua preservação.

Os resultados reforçam a ideia de que a evolução animal não ocorreu de forma abrupta, mas sim ao longo de um processo mais gradual, com a complexidade biológica emergindo antes do que se imaginava.

Governo lança plano nacional para impulsionar a bioeconomia no Brasil até 2035

Política reúne 185 ações para impulsionar cadeias produtivas sustentáveis, valorizar conhecimento tradicional e expandir a bioeconomia no Brasil com foco ambiental e social.

O governo federal apresentou um novo plano para transformar a biodiversidade em um dos principais motores econômicos do país até 2035. O Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio) propõe integrar conservação ambiental e produção econômica, conectando desde comunidades tradicionais até setores industriais e fortalecendo a bioeconomia no Brasil.

A iniciativa está estruturada em três eixos centrais: sociobioeconomia e ativos ambientais, bioindustrialização competitiva e produção sustentável de biomassa. A proposta busca consolidar um modelo de desenvolvimento que utilize os recursos naturais de forma sustentável, ampliando oportunidades econômicas e inclusão social dentro da bioeconomia no Brasil.

Trabalhador rural segura frutos de cacau colhidos na floresta, representando a bioeconomia no Brasil e a produção sustentável ligada à biodiversidade.
Foto: Imago Xinhua

No campo social, o plano prevê o fortalecimento de cadeias produtivas ligadas à sociobiodiversidade, com apoio a cerca de 6 mil empreendimentos e ampliação do acesso ao crédito para agricultores familiares. Também está prevista a expansão dos pagamentos por serviços ambientais, com a meta de beneficiar 300 mil pessoas, especialmente em comunidades tradicionais e povos indígenas.

Outro ponto relevante é a valorização do patrimônio genético brasileiro. O governo pretende ampliar a repartição de benefícios gerados a partir do uso de recursos naturais em setores como cosméticos e fármacos, garantindo maior retorno financeiro às comunidades que detêm conhecimentos tradicionais associados.

Na área industrial, o PNDBio aposta na bioindustrialização como vetor de crescimento. Entre as metas está a incorporação de novos fitoterápicos no Sistema Único de Saúde (SUS) e o aumento da participação desses produtos no mercado farmacêutico nacional.

O plano também estabelece objetivos ambientais ambiciosos, como a recuperação de 2,3 milhões de hectares de vegetação nativa e a consolidação de territórios voltados à restauração ecológica. Além disso, prevê a concessão de 60 Unidades de Conservação para atividades de ecoturismo e a ampliação de áreas destinadas ao manejo florestal sustentável.

No eixo da economia circular, a proposta incentiva o uso de biomassa — materiais orgânicos de origem vegetal ou animal — para a produção de energia e insumos industriais, incluindo biocombustíveis e produtos da indústria bioquímica renovável.

Elaborado ao longo de dois anos com participação de 16 ministérios, além de representantes da sociedade civil, academia e setor privado, o PNDBio reúne 185 ações estratégicas. A política foi submetida a consulta pública e recebeu mais de 900 contribuições antes de sua aprovação.

A proposta sinaliza uma mudança de paradigma ao tratar a biodiversidade não apenas como patrimônio a ser preservado, mas como base para um novo ciclo de desenvolvimento econômico sustentável, consolidando a bioeconomia no Brasil como eixo estratégico nacional.

Deus não está em Guerra: Papa Leão XIV desmonta narrativa moral de Donald Trump

O choque da Semana Santa entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o Papa Leão XIV extrapolou o alcance de um episódio diplomático ou meramente religioso. E permitiu a exposição de duas visões de mundo que se confrontam no ponto mais sensível da civilização: o uso de Deus.

De um lado, o poder político que, em meio à guerra, recorre à linguagem religiosa para justificar, mobilizar e sustentar decisões de força. Do outro, a autoridade espiritual que recusa essa apropriação e denuncia, com precisão teológica, a distorção.

Quando Leão XIV afirma que Deus rejeita as orações de líderes com “mãos cheias de sangue” e, em seguida, dirige-se diretamente a Trump pedindo uma saída para o conflito com o Irã, ele não está apenas opinando sobre uma guerra. Ele está desautorizando um método. E esse método tem história.

Leão XIV
Dois líderes de Estado

A tentativa de associar guerra a desígnio divino não é nova. Mas sua reaparição no centro da política global, com linguagem explícita e simbologia reativada, revela algo mais profundo.

Ao invocar Deus, o poder não apenas busca legitimidade. Ele desloca o campo do debate. Transforma decisões políticas em supostas missões. Reduz o espaço da crítica. Amplifica a adesão emocional. Cria uma blindagem moral.

Quem discorda deixa de ser apenas opositor. Passa a ser, simbolicamente, um obstáculo ao próprio plano divino.

E é exatamente esse mecanismo que o Papa confronta.


O embate entre Trump e Leão XIV ganha relevância não pelo tom, mas pelo significado.

De um lado, a normalização da fé como ferramenta de mobilização em contexto de guerra. A resposta da Casa Branca segue essa linha, tratando como legítima a convocação religiosa no esforço militar.

De outro, a recusa categórica dessa fusão. O Papa não apenas critica a guerra. Ele questiona a legitimidade espiritual de quem tenta justificá-la em nome de Deus. Esse não é um desacordo comum. É um confronto entre duas formas de compreender a relação entre fé e poder.

E há um elemento adicional que intensifica esse choque: Leão XIV é americano. Ao falar, ele não o faz de fora. Ele rompe de dentro. E, ao fazer isso, impede qualquer leitura confortável de alinhamento automático entre religião e nacionalidade.


É preciso ir além da superfície. Há, nesse processo, um oportunismo claro. A fé cristã, com sua potência simbólica e sua capacidade de mobilização, torna-se instrumento conveniente. Seus valores são seletivamente apropriados. Sua mensagem é recortada. Seu núcleo é deslocado.

O Deus da misericórdia é convocado como legitimador da guerra. O símbolo do sacrifício é reinterpretado como justificativa para o sacrifício alheio. A comunhão é substituída pela divisão. Esse movimento não é acidental. Ele é funcional. E, ao ser aceito, corrói silenciosamente a própria base espiritual que afirma defender.


A lógica que sustenta esse cenário é antiga. A equivalência. A resposta proporcional. A ideia de que a violência pode ser equilibrada pela violência. Em escala global, esse princípio revela sua falência. Ele produz escaladas, não soluções. Multiplica justificativas. Dilui responsabilidades. Cada lado se vê como reação legítima ao outro. Todos se sentem autorizados.

E o ciclo se perpetua. O Evangelho propõe outra lógica.

Não como ingenuidade, mas como ruptura. Como recusa de organizar o mundo a partir da violência. Como estratégia de superação. Amar o inimigo não significa concordar com ele. Significa não permitir que ele determine a sua resposta.


É aqui que o pensamento cristão oferece algo que a política raramente consegue formular. A fé sustenta sentido em meio ao caos. A caridade orienta a ação concreta no encontro com o outro. Mas é a esperança que rompe o determinismo da guerra. Sem esperança, o conflito se torna inevitável. Com esperança, ele se torna transitório. E isso muda o horizonte.


A Sexta-feira da Paixão, em que este texto se insere, não é apenas memória religiosa. É diagnóstico. Ela revela como o poder reage quando confrontado. Revela a facilidade com que a violência se legitima. Revela o silêncio dos que poderiam agir. Mas também revela algo mais profundo: que a verdade pode ser sacrificada, mas não eliminada. A cruz não encerra a história.


Há uma frase que atravessa essa reflexão e que ganha força neste contexto: é preciso morrer para germinar. O que precisa morrer hoje não são pessoas, mas ideias. A ideia de que a guerra pode ser santificada. A crença de que Deus escolhe lados políticos. A convicção de que a força produz justiça duradoura. Sem essa morte, não há renovação.


A Ressurreição é o ponto que a lógica da guerra não consegue alcançar. Ela afirma que a morte não tem a última palavra. E, ao afirmar isso, desmonta toda a estrutura baseada no medo, na destruição e na imposição. Um mundo que acredita apenas na morte se organiza pela defesa. Um mundo que admite a vida além da morte se abre à reconstrução. Essa é a dimensão mais radical da esperança.


O choque entre Trump e Leão XIV não se resolve em declarações. Ele revela uma encruzilhada. De um lado, a fé como instrumento de poder. De outro, a fé como limite ao poder. De um lado, a guerra legitimada. De outro, a guerra desmascarada. De um lado, o Deus convocado. De outro, o Deus que recusa.


Neste tempo, não basta denunciar. É preciso afirmar. Afirmar que nenhuma guerra se torna justa porque invoca Deus. Afirmar que nenhuma liderança se legitima ao sequestrar a fé. Afirmar que a esperança não é fraqueza, mas a única alternativa real ao ciclo da violência. Entre a cruz e o mundo, permanece uma escolha. Persistir na lógica que nos trouxe até aqui. Ou atravessar a Paixão com a coragem de quem acredita que, depois dela, ainda é possível ressuscitar.

Cientista brasileiro, Carlos Nobre é nomeado pelo Papa para conselho sobre clima e justiça social

Presença de Carlos Nobre em conselho do Vaticano conecta ciência, ética e política, ampliando o debate sobre mudanças climáticas e seus impactos no Brasil e no mundo.

O climatologista Carlos Nobre foi nomeado pelo Papa Leão XIV para integrar o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, órgão do Vaticano responsável por discutir temas como justiça social, saúde, migração, economia e meio ambiente.

A escolha ocorre em um contexto de intensificação da crise climática global e reforça a crescente inserção da pauta ambiental em espaços de governança internacional. Segundo Nobre, a nomeação sinaliza a urgência de tratar o aquecimento global como uma questão central para o futuro da humanidade. “Estamos diante de uma emergência climática que coloca todos em risco”, afirmou.

Com trajetória consolidada na ciência do clima, Carlos Nobre é pesquisador aposentado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e hoje atua no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Ao longo de décadas, tornou-se uma das principais referências internacionais em estudos sobre a Amazônia e mudanças climáticas.

O dicastério ao qual Nobre passa a integrar foi criado em 2016, durante o pontificado de Francisco, com o objetivo de articular a doutrina social da Igreja a desafios contemporâneos. Para o cientista, a participação da Igreja Católica no debate ambiental amplia o alcance das discussões sobre clima e sustentabilidade, especialmente em regiões mais vulneráveis. Ele destaca que países tropicais e em desenvolvimento, como o Brasil, tendem a sofrer impactos mais intensos das mudanças climáticas.

“A Igreja tem uma grande importância para a humanidade e, quando ela escolhe olhar para o meio ambiente, ela está olhando para as pessoas. Muitas vidas estão em risco. Estou honrado de ser parte desse grupo e poder ajudar”, disse. 

A nomeação também dialoga com um movimento mais amplo dentro da Igreja de incorporar a agenda socioambiental em suas reflexões e ações. O cientista Carlos Nobre já havia participado de discussões no Vaticano durante o Sínodo da Amazônia, em 2019, quando apresentou contribuições sobre a importância estratégica da floresta para o equilíbrio climático global.

Ao assumir a nova função, o pesquisador afirma que pretende contribuir para aproximar ciência, política e ética na construção de soluções diante da crise climática.