Riscos climáticos entram no balanço financeiro e mudam regras do mercado global

Secas, enchentes e calor extremo agora entram nos relatórios corporativos, à medida que novas regras obrigam empresas a integrar riscos climáticos à estratégia e aos resultados financeiros.

Eventos extremos como enchentes, secas e ondas de calor passaram a impactar diretamente o desempenho financeiro das empresas ao redor do mundo. Esse cenário tem impulsionado uma mudança estrutural na forma como o mercado avalia riscos climáticos e está no centro das novas normas internacionais IFRS S1 e S2.

As diretrizes, desenvolvidas pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), ligado à IFRS Foundation, criam um padrão global para que empresas revelem, de maneira consistente, como fatores climáticos e de sustentabilidade afetam seus resultados, estratégias e geração de valor no longo prazo.

Na prática, a principal mudança está na obrigatoriedade de integrar os riscos climáticos à lógica financeira dos negócios. Isso significa que eventos como secas prolongadas, enchentes ou aumento de temperatura precisam ser traduzidos em impactos concretos, como elevação de custos, interrupções produtivas e perdas operacionais.

No Brasil, a adoção dessas normas ocorre de forma gradual, sob condução da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que já iniciou a incorporação das diretrizes por meio da resolução 193. A tendência é que a exigência se torne obrigatória progressivamente para companhias abertas, acompanhando o movimento internacional.

Apesar do avanço regulatório, o nível de preparo das empresas ainda é considerado baixo. Levantamentos indicam que a maioria das organizações não possui familiaridade com as novas exigências e apenas uma parcela reduzida iniciou processos estruturados de adaptação.

Um dos principais desafios está na integração entre áreas internas. Setores como controladoria, gestão de riscos e sustentabilidade, que historicamente operam de forma separada, precisam atuar de maneira coordenada para atender às novas demandas. A mudança exige revisão de processos, criação de métricas e maior qualidade na coleta e análise de dados.

Segmentos mais expostos às variáveis climáticas, como energia, agronegócio e mineração, tendem a sentir os efeitos dessa transformação de forma mais imediata. Nessas atividades, eventos extremos já afetam diretamente produção, logística e custos operacionais, tornando a gestão de riscos climáticos uma questão estratégica.

Trator em plantação de trigo ilustra a exposição do agronegócio aos riscos climáticos, como secas e variações de temperatura
O agronegócio está entre os setores mais vulneráveis aos riscos climáticos, com impactos diretos na produtividade, custos e segurança alimentar. Foto: Tom Fisk/Pexels

Além da mensuração dos riscos, as empresas também precisarão demonstrar como estão se preparando para enfrentá-los. Isso inclui planos de adaptação, metas de transição e estratégias para reduzir vulnerabilidades ao longo da cadeia produtiva, envolvendo fornecedores e parceiros.

A expectativa é que, nos próximos anos, a qualidade e a transparência das informações evoluam, influenciando diretamente a competitividade das empresas. A capacidade de antecipar impactos climáticos e comunicar esses riscos ao mercado tende a se consolidar como fator decisivo para acesso a investimentos e financiamento. As normas IFRS S1 e S2 sinalizam uma mudança de paradigma: o clima passa a ser tratado como variável central na análise financeira e não mais como um fator externo ao negócio. 

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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