“O avanço de lideranças e discursos marcados pelo autoritarismo, como o de Trump, não é apenas um episódio político. É um alerta. Ele revela o quanto ainda estamos distantes de internalizar um princípio elementar: o de que ninguém se sustenta acima dos outros sem, ao mesmo tempo, corroer as bases da convivência.”
“Agora sei que o homem é capaz de grandes ações. Mas, se não for capaz de um grande sentimento, não me interessa.” A advertência de Albert Camus, em A Peste, permanece atual — talvez ainda mais quando a peste já não é biológica, mas política e moral.
Vivemos um tempo em que o autoritarismo volta a circular com desenvoltura inquietante. A retórica de Donald Trump, em particular, não é um fenômeno isolado, mas um sintoma. Ela expressa e amplifica uma lógica que se espalha: a negação do outro, a simplificação agressiva da realidade, a transformação da divergência em inimigo. Como toda peste, não se impõe apenas pela força, mas pela contaminação silenciosa das ideias.
O mais perturbador é que essa lógica não se sustenta apenas em estruturas de poder. Ela encontra ressonância em parcelas significativas da sociedade. Alimenta-se do medo, da frustração e, sobretudo, de uma ilusão antiga: a de que alguns são mais legítimos, mais merecedores ou mais importantes do que outros.
Diante desse cenário, a pergunta se impõe com nova urgência: como encontramos o mundo e o que estamos fazendo dele? A resposta exige mais do que indignação episódica. Ela pede revisão de valores. É nesse ponto que a humildade retorna como questão central.
A tradição latina oferece uma chave precisa: homo, humus, humilis. O homem vem da terra e a ela retorna. A humildade, nesse sentido, não é concessão nem fraqueza. É lucidez. É o reconhecimento de que nenhuma posição, poder ou identidade nos autoriza a negar a dignidade do outro.
Quando essa consciência se perde, abre-se espaço para o que hoje se observa com clareza: a naturalização da agressividade, o desprezo pelo contraditório, a recusa em reconhecer limites. O autoritarismo prospera justamente onde a humildade se ausenta. Ele precisa da convicção de superioridade para existir.
Não por acaso, algumas das vozes mais lúcidas da história caminharam na direção oposta. Albert Einstein, ao reconhecer os limites do conhecimento, recusou o conforto das respostas fáceis. Hélder Câmara, ao afirmar que todos têm algo a ensinar e a aprender, desmontou a lógica hierárquica que sustenta a exclusão. Em ambos os casos, a humildade não diminui — ela amplia.
O problema é que, quando esse princípio deixa de orientar a vida coletiva, seus efeitos se acumulam. Eles aparecem nas fraturas sociais, nas desigualdades persistentes e na dificuldade de construir pactos mínimos de convivência.
O Brasil conhece bem esse fenômeno. A distância entre Norte e Sul não se explica apenas por fatores econômicos. Ela é também resultado de uma percepção distorcida de valor — de uma hierarquia implícita que desconsidera saberes, ignora realidades e perpetua assimetrias. Trata-se de uma forma de autoritarismo difuso, menos explícito, mas igualmente corrosivo.
Se a humildade implica reconhecer a origem comum e os limites compartilhados, sua consequência natural é a solidariedade. Não como discurso, mas como prática estruturante. Uma prática que exige escuta, redistribuição de oportunidades e reconhecimento efetivo da diversidade. Sem isso, qualquer ideia de Nação se fragiliza.
O avanço de lideranças e discursos autoritários, como o de Trump, não é apenas um episódio político. É um alerta. Ele revela o quanto ainda estamos distantes de internalizar um princípio elementar: o de que ninguém se sustenta acima dos outros sem, ao mesmo tempo, corroer as bases da convivência. A história já demonstrou, em diferentes momentos, o custo dessa ilusão.
Resta saber se, desta vez, seremos capazes de aprender antes que os efeitos se tornem irreversíveis. Porque, ao contrário das pestes biológicas, as pestes morais não desaparecem por exaustão. Elas persistem enquanto encontram terreno fértil. E esse terreno é, quase sempre, a ausência de humildade.