Relatório aponta queda de 81% nas populações de peixes migratórios de água doce no mundo

Relatório internacional revela que peixes migratórios de água doce enfrentam colapso global, com impactos diretos na biodiversidade, na pesca e na segurança alimentar de milhões de pessoas.

As migrações de peixes de água doce, uma das maiores e menos visíveis jornadas animais do planeta, estão entrando em colapso acelerado. Um relatório internacional aponta que essas rotas, essenciais para o equilíbrio dos rios e para a subsistência humana, vêm sendo interrompidas em escala global, com impactos ecológicos e econômicos cada vez mais evidentes.

A Avaliação Global de Peixes Migratórios de Água Doce, divulgada durante a COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias, revela que essas espécies estão entre as mais ameaçadas do mundo. Os peixes migratórios de água doce são responsáveis por manter a dinâmica dos ecossistemas fluviais e sustentar pescarias continentais, garantindo alimento e renda para centenas de milhões de pessoas.

Peixes migratórios de água doce ameaçados destacam crise global da biodiversidade em rios
Peixes migratórios de água doce estão entre as espécies mais ameaçadas do planeta, refletindo o colapso das migrações fluviais e os impactos sobre os ecossistemas. Foto: © Zeb Hogan

Os dados indicam uma queda de cerca de 81% nas populações desde 1970, um dos declínios mais acentuados já registrados entre vertebrados. Além disso, 97% das espécies migratórias já listadas enfrentam risco de extinção, o que evidencia a gravidade da crise.

Entre os principais fatores estão a construção de barragens, que interrompem rotas naturais, a fragmentação de habitats, a poluição, a sobrepesca e as mudanças climáticas. Esses impactos comprometem a conectividade dos rios, elemento vital para o ciclo de vida dos peixes migratórios de água doce, que dependem de longos deslocamentos entre áreas de reprodução, alimentação e crescimento.

O levantamento identificou 325 espécies como candidatas a ações internacionais coordenadas de conservação. A maior concentração está na Ásia, com 205 espécies, seguida pela América do Sul (55), Europa (50), África (42) e América do Norte (32).

Entre as bacias hidrográficas prioritárias para intervenção estão sistemas estratégicos como Amazônia, La Plata-Paraná, Danúbio, Mekong, Nilo e Ganges-Brahmaputra, regiões onde a pressão humana sobre os rios cresce rapidamente.

Apesar da magnitude do problema, especialistas alertam que a crise permanece subestimada. Diferentemente de desmatamentos ou eventos extremos, o colapso das migrações ocorre de forma invisível, sob a superfície das águas, dificultando sua percepção pública e política.

Na Amazônia, considerada um dos últimos grandes refúgios dessas espécies, o cenário já é preocupante. Os peixes migratórios de água doce respondem por cerca de 93% da pesca regional e sustentam uma atividade econômica estimada em US$ 436 milhões por ano.

Um dos exemplos mais emblemáticos é o bagre dourado (Brachyplatystoma rousseauxii), que realiza uma das maiores migrações de água doce conhecidas, percorrendo mais de 10 mil quilômetros desde os Andes até áreas costeiras. Essa jornada só é possível em rios plenamente conectados, condição cada vez mais rara.

Exemplar de dourada na Amazônia ocidental, espécie símbolo dos peixes migratórios de água doce e de longas rotas fluviais
A dourada (Brachyplatystoma rousseauxii) é um dos principais exemplos de peixes migratórios de água doce, capaz de percorrer milhares de quilômetros nos rios amazônicos. Foto: M. Goulding et al.

Diante desse cenário, o relatório defende uma mudança estrutural na gestão dos recursos hídricos. A principal recomendação é tratar os rios como sistemas ecológicos integrados e não como unidades fragmentadas por fronteiras nacionais. Isso inclui a proteção de corredores migratórios, o planejamento em escala de bacias e a cooperação internacional.

A crise das migrações fluviais expõe o desafio de preservar processos ecológicos invisíveis, mas fundamentais para a vida no planeta. Sem ação coordenada e urgente, os especialistas alertam que uma das maiores migrações da Terra pode desaparecer silenciosamente.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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