A Amazônia diante de um mundo em ruptura

Coluna Follow-Up

A partir das reflexões de Denis Minev, por ocasião do III Fórum de ESG Amazônia, este ensaio analisa como o fim da ordem global, os limites da economia brasileira e a nova corrida tecnológica colocam a Amazônia no centro de decisões que já não podem ser adiadas.

A quebra da ordem global

Debater  a Agenda ESG em tempos de abalos na geopolítica global, cenários da economia nacional e desafios e vantagens da adoção da inteligência artificial no encaminhamento da Zona Franca de Manaus, supõe um olhar preferencial para o G de governança. 

Durante algum tempo, a economia mundial pareceu operar sob o conforto relativo de uma ordem previsível. Havia conflitos, tensões, assimetrias, mas existia uma arquitetura de coordenação. O comércio global expandia-se, as instituições multilaterais preservavam alguma autoridade e a ideia de desenvolvimento parecia vinculada à integração econômica, ao progresso tecnológico e, ainda que de forma imperfeita, à busca de estabilidade. Esse mundo, como lembrou Denis Minev em sua recente reflexão pública, deixou de existir.

O que se apresenta agora é uma paisagem mais dura. Um ambiente de dispersão de poder, fragilidade institucional, rivalidades geopolíticas crescentes e menor capacidade de arbitragem internacional. É o mundo do G0, Governança Zero, expressão que ajuda a descrever uma realidade em que já não há um “policial pacífico” da ordem global, mas uma multiplicação de interesses, riscos e movimentos unilaterais. Para países como o Brasil, e de forma ainda mais aguda para regiões como a Amazônia, isso não é abstração acadêmica. É matéria-prima do cotidiano econômico.

Um mundo mais instável, uma Amazônia mais exposta

A geopolítica voltou a pesar sobre a economia com brutalidade. O preço do petróleo, os gargalos logísticos, o custo dos fertilizantes, a insegurança nas rotas marítimas, a reorganização das cadeias produtivas, tudo isso incide diretamente sobre o custo de produzir, transportar, consumir e investir. E a Amazônia sente esses choques com uma intensidade própria. Suas cadeias são longas, a dependência logística é elevada, o custo do deslocamento é estrutural, não conjuntural. Quando o mundo encarece, a região encarece mais.

China, Índia e o novo tabuleiro do poder

É nesse ponto que a leitura de Denis Minev ganha relevância especial. Ao olhar para a China, para a Índia, para a Europa enfraquecida e para os impasses do Ocidente, ele não está apenas descrevendo o tabuleiro global. Está propondo uma pedagogia do realismo. A China continua avançando com disciplina histórica, conquistando mercado, ampliando presença, convertendo escala em poder.

Mas esse avanço convive com contradições sociais, restrições de liberdade e um modelo de vigilância que desafia valores fundamentais de sociedades abertas. A Índia, por sua vez, aparece como promessa estratégica ainda subestimada pelo Brasil, um país que cresce em ritmo robusto e tende a se afirmar como um dos grandes polos econômicos do século. Já a Europa vê ruir parte de seu arranjo confortável, especialmente o modelo alemão, antes sustentado por energia barata da Rússia, proteção estratégica dos Estados Unidos e manufatura barata da China.

Quando a geopolítica vira preço

Essa recomposição do mundo não apenas desloca centros de gravidade. Ela recoloca perguntas antigas com roupagem nova. Quem controla energia controla inflação. Quem controla dados controla produtividade. Quem controla tecnologia controla soberania. E quem não se prepara para isso corre o risco de se tornar mercado cativo, território passivo ou simples espectador do próprio futuro.

ESG, a hora da governança 

É justamente nesse cruzamento entre geopolítica, economia e estratégia empresarial que o debate ESG precisa ser resgatado de sua caricatura. Em ambientes mais superficiais, ESG ainda é tratado como repertório moral, etiqueta reputacional ou obrigação burocrática. Mas o que a conjuntura atual demonstra é outra coisa. ESG, quando levado a sério, é linguagem de governança para tempos instáveis. É mecanismo de leitura de risco, disciplina de gestão, método de adaptação e, no caso amazônico, possibilidade concreta de diferenciação competitiva.

ZFM, segurança regulatória 

A Amazônia tem diante de si uma escolha histórica. Pode continuar sendo narrada por terceiros, como passivo ambiental, fronteira a tutelar ou território à espera de redenção externa. Ou pode apresentar-se como laboratório estratégico de um modelo produtivo que combine indústria, floresta em pé, inteligência logística, bioeconomia, tecnologia e compromisso social. Não se trata de retórica. Trata-se de reposicionamento.

A Zona Franca de Manaus surge, nesse contexto, com um ativo precioso: previsibilidade institucional. A reforma tributária, ao preservar e reforçar os fundamentos do modelo, entregou ao Amazonas mais do que proteção. Entregou tempo estratégico. Em um mundo convulsionado, tempo é ativo econômico. Segurança jurídica é ativo geopolítico. E confiança regulatória é ativo de investimento.

Geopolítica instável, economia sob pressão e inteligência artificial reconfiguram as bases do desenvolvimento — e exigem respostas imediatas da Zona Franca de Manaus

Quando a geopolítica vira preço

Minev chamou atenção, com razão, para o caráter quase surpreendente desse momento. O Polo Industrial de Manaus bate recordes, gera empregos, mantém dinamismo e sinaliza vitalidade num período em que muitos apostariam em retração. Isso não é obra do acaso.

É resultado de uma longa construção institucional, de resistência política, de competência empresarial e de adaptação às mudanças do ambiente nacional e internacional. A elevação do preço dos galpões em Manaus, mencionada em sua fala, é sintoma revelador. Investimento sempre capta sinais antes de produzir manchetes.

O modelo que funciona – e o que ainda falta

Mas esse êxito não dispensa a autocrítica. Talvez a pergunta mais incômoda da palestra tenha sido a mais importante: estamos fazendo o suficiente para tornar a economia amazônica menos dependente do Polo Industrial? A resposta, dada sem rodeios, foi não. Há robustez dentro do modelo incentivado, mas ainda há fragilidade fora dele.

Seguimos com dificuldade para apontar empresas profundamente amazônicas, fora do eixo comércio-serviços e fora da engrenagem tradicional dos incentivos, que tenham alcançado escala expressiva. Isso revela um limite que a região precisa enfrentar com seriedade. Não basta defender a Zona Franca. É preciso fazer dela plataforma de transbordamento.

A economia que ainda não nasceu

É aí que o reflorestamento produtivo, a recuperação de áreas degradadas, a transformação de terra degradada em terra produtiva e os investimentos vinculados a soluções baseadas na natureza deixam de ser promessas vagas e passam a integrar uma agenda concreta de diversificação econômica.

A floresta em pé não deve ser apenas argumento ético ou metáfora civilizatória. Precisa tornar-se também economia mensurável, renda escalável, inovação territorializada e modelo replicável. O desafio não é inventar slogans verdes, mas construir cadeias, atrair capital paciente, organizar governança, conectar ciência e negócio, e dar lastro técnico à esperança.

A maior corrida tecnológica da história

Ao mesmo tempo, nenhum debate sério sobre futuro pode hoje contornar a inteligência artificial. E talvez esse tenha sido o núcleo mais vibrante da fala de Denis Minev. O mundo está atravessando um ciclo de investimento em IA sem paralelo histórico. Nem a eletricidade, nem o automóvel, nem a internet, em suas fases iniciais, atraíram simultaneamente tamanha massa de capital, tamanho grau de obsessão corporativa e tamanha expectativa de salto de produtividade. O que está em curso não é apenas uma onda tecnológica. É uma reorganização profunda da economia do conhecimento.

Geopolítica instável, economia sob pressão e inteligência artificial reconfiguram as bases do desenvolvimento — e exigem respostas imediatas da Zona Franca de Manaus
Denis Minev

Inteligência artificial: produtividade e ruptura

A inteligência artificial aparece, então, como a grande oportunidade e o grande abalo. Oportunidade porque pode aumentar produtividade, reduzir assimetrias de acesso à informação, qualificar decisões, acelerar aprendizado, ampliar competitividade e democratizar certas capacidades antes restritas a especialistas. Abalo porque traz consigo riscos sérios de cibersegurança, concentração tecnológica, desemprego em funções intermediárias e ruptura nas escadas tradicionais de formação profissional.

O fim da escada profissional

A imagem apresentada por Minev é reveladora. Se a IA já atua como um “estagiário melhor” em certas tarefas jurídicas, técnicas ou analíticas, então não estamos apenas falando de eficiência. Estamos falando de mudança na própria arquitetura do trabalho. Como formar bons advogados, engenheiros, programadores e gestores se a base da experiência profissional estiver sendo comprimida por automação? Essa é uma pergunta de sociedade, não apenas de mercado. É pergunta para a educação, para a política pública, para as empresas e para a regulação

O pulo do gato Bemol

O que impressiona, no caso da Bemol, é que a resposta não tem sido teórica. A aposta em capacitação em larga escala, a ida de dezenas de profissionais ao NVIDIA GTC, o esforço de difundir acesso às ferramentas entre milhares de colaboradores, inclusive fora das áreas técnicas, indicam uma compreensão rara no empresariado brasileiro. A IA não é assunto de laboratório isolado. É agenda de cultura organizacional. É ferramenta transversal. É alfabetização produtiva.

Equipe Bemol no NVIDIA GTC na California 1
Denis e a Equipe Bemol no evento NVIDIA GTC na Califórnia – foto: Reprodução

Segurança digital é segurança nacional

Nesse ponto, a palestra toca num nervo exposto do Brasil. O país até fala de inteligência artificial, mas ainda não a trata com a urgência que o tema exige. O debate público continua atrasado em relação à velocidade da transformação. Enquanto corporações globais reorganizam processos, governos repensam defesa digital e empresas requalificam equipes, parte relevante do ambiente institucional brasileiro ainda oscila entre fascínio superficial, medo difuso e incompreensão prática.

O tempo da hesitação acabou

Para o Amazonas, esse atraso pode custar caro. Mas também pode ser revertido em vantagem, desde que a região compreenda uma verdade estratégica simples: a próxima fronteira de competitividade não será vencida apenas com benefício fiscal, mão de obra disponível ou localização industrial consolidada. Ela dependerá cada vez mais da capacidade de combinar governança, inteligência tecnológica, formação humana e visão territorial.

A Amazônia diante da decisão ESG

Isso nos leva de volta ao mot implícito desta reflexão. Debater a agenda ESG em tempos de abalos geopolíticos não é insistir numa pauta lateral em meio ao caos. É entender que, justamente porque o mundo se tornou mais instável, mais belicoso e mais fragmentado, cresce a importância de modelos produtivos capazes de sustentar legitimidade, resiliência e futuro. A Amazônia não pode entrar nesse novo tempo apenas como paisagem moral do planeta. Precisa entrar como sujeito econômico, tecnológico e institucional.

Entre reagir e liderar

A fala de Denis Minev tem o mérito de reunir franqueza empresarial e percepção histórica. Não há nela complacência com o cenário global, nem romantização do progresso tecnológico, nem ilusão sobre as fragilidades nacionais. Mas há um ponto de fundo que merece ser destacado: em meio às incertezas do mundo, a Amazônia ainda dispõe de ativos raros. Possui relevância ambiental, densidade industrial, potencial científico, centralidade climática e uma oportunidade real de reposicionamento.

A pergunta, então, não é se o mundo mudou. Mudou radicalmente. A pergunta é se teremos a lucidez, a disciplina e a ousadia de construir, a partir da Amazônia, uma resposta à altura desse novo tempo.


Follow-Up é publicada às quartas, quintas e sextas feiras no Jornal do Commercio do Amazonas, sob s responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do brasilamazoniaagora.com.br

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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