Infraestrutura colonial em 2025

A institucionalidade brasileira deu salto em 2025. Estes ganhos precisam marcar a nossa mente e a história para um progresso para todos. O Brasil ainda olha a República Federativa de cima, de Brasília, da Faria Lima, da Paulista, da Viera Soto, reproduzindo o padrão cultural imperial ou autoritário. Os diálogos são falsos e empolados, para imprimir a colonialidade no outro. 

A infraestrutura de transportes em discussão para a Região Norte do Brasil segue sendo imperial. Tal qual já detectado por Timothy Mitchell, em outros contextos, as infraestruturas ausentes que temos no Norte só se tornam presentes quando são para atender aos interesses econômicos estrangeiros, como a exportação de soja, minério ou alguma concessão. 

As concessões dos bens públicos querem passar para novo patamar.  Agora se quer conceder os rios – para obtenção e transferência do ganho futuro para empresas, movendo ainda mais recursos das áreas pobres, sem nunca criar uma condição de desenvolvimento por si, sem que sejamos tornados clientes de um senhor distante. A concessão da natureza é um desrespeito federativo.

A mentalidade exploradora está, como previu Joaquim Nabuco, continuando como uma característica nacional. Seguimos a olhar o outro não como uma república de iguais, mas como uma colônia para ser explorada. Também deliberado, em outro contexto, por Aníbal Quijano – seguimos com a centralização do poder, sem trazer a decisão para as populações da Amazônia.

As consultas públicas seguem uma tecnocracia que reproduz o pensamento colonial e explorador, ao invés de criar infraestruturas para as sociedades locais ou priorizar os interesses locais.

Não faz sentido seguir a pensar nas infraestruturas apenas para passar com a riqueza pelos rios da Amazônia ou para tirar o petróleo e seus minérios. Parece que nunca colocaremos o humano no centro. Parece que seguiremos a ignorar a natureza e a celebrar a ignorância de quem destrói. Mesmo projetos que trazem menor impacto ambiental, como a indústria de transformação em Manaus, servem para drenar impostos.

infraestrutura colonial
Vista aérea do inicio do trecho da rodovia AM 366 ao lado do aeroporto de Tapauá, no Amazonas, norte do Brasil (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Segundo estudo de André Costa (2025), apenas nos quatro primeiros meses deste ano, cada residente do Amazonas recolheu, em média, R$ 2.068. O ranking nacional é RJ, SP, SC, ES, RS, PR, MG, MT, AM, RO, GO, MS, PE e assim por diante (excluindo-se o DF). Com a reforma tributária, agora o ICMS vai para o Sudeste-maravilha – sai do produtor para o consumidor.

A gritante diferença de arrecadação é visível, quando o Pará, é colocado na antepenúltima posição, pois lá, a indústria que prevalece é a da mineração, ao contrário do Amazonas que é a indústria de transformação, com a floresta preservada. Quando despertaremos para os interesses das pessoas, nacionais e federativos? A criação de condições de desenvolvimento e de economias locais precisa entrar na pauta da infraestrutura brasileira.

Não faz sentido seguirmos a investir mais e mais nas regiões ricas, encontrado desculpas para projetos inaceitáveis, como as concessões dos rios, que nem modelo de operação rentável se tem. O que se tem é um jeito de transferir mais dinheiro para o império – agora, o dinheiro do futuro.

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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