A corrida por terras raras no Brasil mobiliza interesses internacionais, desafia a soberania mineral e amplia o debate sobre impactos ambientais e direitos indígenas. Em entrevista, Lula defendeu maior controle estratégico sobre esses recursos.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva situou a exploração de terras raras no Brasil no centro do debate político ao criticar iniciativas que, segundo ele, favorecem interesses externos. Em entrevista ao ICL Notícias, Lula afirmou que o país não pode abrir mão de recursos essenciais para o futuro tecnológico.
“O Flávio Bolsonaro quer vender para os Estados Unidos algo que é muito importante para o Brasil”, disse ao comentar a atuação do senador Flávio Bolsonaro na defesa de acordos para fornecimento de terras raras.
Em evento nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro indicou que o Brasil poderia atuar como fornecedor para reduzir a dependência norte-americana da China. A proposta é vista por críticos como uma inserção subordinada, na qual o país exporta matéria-prima sem avançar nas etapas de maior valor agregado.
O tema ganha relevância diante do potencial de terras raras no Brasil. Dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos e da Agência Nacional de Mineração apontam que o país possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas, a segunda maior do mundo.
Estimativas mais amplas indicam que o depósito de Araxá (MG) pode alcançar até 95 milhões de toneladas. Além dessa região, o Brasil também possui grandes reservas em Goiás e potencial expressivo na área do projeto Calha Norte, na Amazônia, o que reforça o papel estratégico das terras raras no Brasil na cadeia de materiais de alta performance.
Para Lula, esse cenário exige controle nacional sobre a exploração. O presidente defende que a gestão desses recursos seja tratada como questão de soberania nacional e critica acordos que, em sua avaliação, transferem poder de decisão a agentes externos, como no caso de articulações envolvendo a mineradora Serra Verde, em Goiás. “Se a gente deixar, essa gente vai vender o Brasil, e nós não podemos permitir. Depois de levarem nosso ouro, nossa prata, nosso diamante, nossa floresta, o que mais querem?”, afirmou.
Em um contexto geopolítico mais amplo, os Estados Unidos abordam a América Latina como área de interesse estratégico, lógica associada à Doutrina Monroe. Atualmente, essa influência se reorganiza em iniciativas como a Minerals Security Partnership, que busca garantir acesso a insumos essenciais para setores como defesa, energia e tecnologia.
A discussão sobre soberania mineral também envolve a soberania dos povos indígenas. Parte das reservas de terras raras no Brasil está localizada em áreas protegidas, onde a exploração depende do direito à consulta livre, prévia e informada aos povos indígenas, previsto na Convenção 169 da OIT.
Em artigo, o engenheiro químico Matheus Pereira, embaixador da Educação Nuclear da Rússia (RNEA) e membro do Comitê Civil pela Retomada do Programa Nuclear Brasileiro (CRPN), afirma que o principal desafio do país é transformar seu potencial mineral em desenvolvimento estratégico. Segundo ele, “a gestão desses recursos deve estar alinhada ao desenvolvimento industrial interno, à inovação tecnológica e à geração de valor agregado dentro do próprio território nacional. Abrir mão desse controle vai além de perder dinheiro: é consentir à marginalização no sistema de poder que hoje define o século XXI.”