Entre impostos , dívidas e apostas, a renda encurta 

“O Brasil entrou em uma fase curiosa e preocupante da sua dinâmica econômica. Nunca se arrecadou tanto. Nunca se deveu tanto. E, no meio desse aparente vigor, algo mais profundo começa a se desfazer. Dívidas e apostas avançam sobre a renda, comprometendo a capacidade real das famílias de sustentar o próprio cotidiano.”

A carga tributária atingiu 32,4% do PIB em 2025. O dado, isolado, pode sugerir eficiência arrecadatória. No entanto, quando observado em perspectiva, revela um efeito cumulativo sobre a estrutura econômica. A elevação contínua da arrecadação, especialmente sobre o consumo, altera a forma como a renda circula no país.

O sistema tributário brasileiro incide majoritariamente sobre bens e serviços. Isso significa que a arrecadação cresce à medida que o custo de vida sobe. O efeito não é neutro. Ele comprime a renda disponível, reduz a capacidade de poupança e enfraquece o investimento das famílias. Ao mesmo tempo, encarece a operação das empresas, que repassam custos e reduzem margens de expansão.

A economia passa a funcionar com menor elasticidade. O consumo perde fôlego, o investimento se torna mais cauteloso e o crescimento tende a se apoiar mais na arrecadação do que na produtividade. É um deslocamento sutil, mas estrutural. A arrecadação cresce, mas a vitalidade econômica não acompanha na mesma proporção.

Nesse ambiente, o endividamento das famílias deixa de ser um fenômeno episódico e passa a ser um componente permanente do sistema. Com 80% dos lares endividados e quase um terço da renda comprometida, o crédito já não atua como alavanca de consumo, mas como mecanismo de sustentação do básico.

É nesse ponto que surge um elemento novo, capaz de agravar esse desequilíbrio. A expansão das plataformas de apostas digitais.

DÍVIDAS E APOSTAS
Endividamento das familias

A liberação das BETs introduziu uma dinâmica que não dialoga com a economia produtiva. Trata-se de uma atividade que captura renda sem gerar contrapartida equivalente em bens, serviços ou investimentos locais. O dinheiro não circula. Ele é drenado.

Esse movimento ocorre justamente no momento em que a renda das famílias já está pressionada por tributos e pelo custo de vida. O resultado é um desvio adicional de recursos que compromete ainda mais a capacidade de consumo e organização financeira.

O impacto não se limita ao indivíduo. Ele se projeta sobre a estrutura econômica. Quando a renda deixa de alimentar o consumo produtivo, há redução do efeito multiplicador. Setores que dependem da demanda interna sentem a retração. O comércio desacelera. A indústria ajusta produção. O ciclo econômico perde consistência.

Ao mesmo tempo, o uso de crédito para sustentar gastos cotidianos passa a conviver com a possibilidade de perdas associadas ao jogo. A combinação é particularmente sensível. A dívida deixa de estar vinculada apenas à necessidade e passa a incorporar riscos adicionais, ampliando a instabilidade financeira das famílias.

5baa8db2 72a2 4fb6 818e f2400c2fee56
Imagem divulgação

Há também um efeito distributivo relevante. O sistema tributário já opera de forma regressiva. A economia da aposta intensifica essa regressividade ao capturar renda justamente das camadas mais expostas à volatilidade financeira. O resultado é uma transferência silenciosa que enfraquece os esforços de inclusão econômica.

O país se aproxima, assim, de um cenário em que a arrecadação cresce de forma consistente, mas a base econômica se fragiliza. O consumo perde densidade. A renda circula menos. O endividamento se torna estrutural. E uma parcela crescente dos recursos escapa do circuito produtivo.

A questão que se coloca não é apenas fiscal. É de coerência econômica. O Brasil parece ter encontrado mecanismos eficientes para ampliar receitas, mas ainda não equilibrou os efeitos dessa expansão sobre o funcionamento da economia real.

O risco não está no tamanho da arrecadação em si, mas nas sequelas que ela produz quando não acompanhada de um ambiente que preserve a capacidade de consumo, investimento e geração de valor.

No meio desse processo, a economia da aposta atua como um acelerador silencioso. Ela não cria o problema, mas amplia suas consequências e reduz o espaço de recuperação.

O país arrecada mais. Mas sustenta menos.

Belmiro Vianez Filho
Belmiro Vianez Filho
Empresário do comércio, ex-presidente da ACA e colunista do portal BrasilAmazôniaAgora e Jornal do Commercio.

Artigos Relacionados

O que são panapanás? Entenda o fenômeno das borboletas na Amazônia

Panapaná reúne milhares de borboletas na Amazônia e revela conexões entre ciclos dos rios, biodiversidade e mudanças climáticas.

Terras raras, soberania rara

Num mundo em disputa por minerais críticos, semicondutores, dados...

Estudo na revista Nature revela que microplásticos no ar foram superestimados

Estudo revela que microplásticos transportados pelo ar vêm majoritariamente da terra e desafiam modelos globais sobre poluição.

Após 10 anos, Brasil atualiza lista de espécies aquáticas ameaçadas de extinção

Nova lista atualiza cenário das espécies aquáticas ameaçadas no Brasil e reforça medidas contra sobrepesca, poluição e perda de habitat.

A Amazônia no limite invisível do carbono – Entrevista com Niro Higuchi

Entre a ciência e a incerteza, os sinais de que a floresta pode estar deixando de ser aliada do clima exigem mais do que medições: exigem discernimento político.