Super Terminais, 30 anos: a engenharia silenciosa que sustenta a Amazônia produtiva

Coluna Follow-Up

Na história do desenvolvimento do Amazonas há empresas que nascem de uma oportunidade. Outras, de uma necessidade estrutural. A da Super Terminais começa com ambas.

Em 1977, Franco Di Gregorio chega a Manaus em um cenário onde a logística era limitada, cara e dependente do transporte aéreo. Ao assumir o desafio de levar radiocomunicadores para São Paulo, destinados à indústria automotiva do ABC paulista, ele não apenas executa uma operação. Abre um caminho.

Ao enxergar nos rios amazônicos uma alternativa logística viável, inaugura uma lógica que viria a sustentar, décadas depois, a competitividade de toda uma região. A floresta deixava de ser barreira para se tornar corredor.

Da experiência ao porto

O que começou como operação se transformou em conhecimento acumulado. E o conhecimento, em infraestrutura. A criação da Super Terminais, em 1996, não foi um salto, mas consequência. A consolidação de duas décadas de aprendizado sobre os ritmos da Amazônia, suas distâncias e suas limitações.

A partir dali, a logística deixa de ser adaptação e passa a ser engenharia. O porto surge como resposta estruturada às necessidades crescentes do Polo Industrial de Manaus, que já demandava escala, previsibilidade e eficiência.

Super Terminais, 30 anos: a engenharia silenciosa que sustenta a Amazônia produtiva

A nova geração e o salto tecnológico

A história ganha novo impulso com Marcello Di Gregorio. Aos 20 anos, ele inicia sua trajetória na logística e no comércio exterior, retornando depois aos negócios da família. Em 2022, assume a liderança da empresa em um contexto adverso, marcado por pandemia, disrupções globais e pressão crescente por sustentabilidade.

Sua gestão introduz um vetor claro. Transformar o terminal em referência tecnológica e ambiental. A busca por boas práticas internacionais, a modernização de equipamentos e sistemas e a incorporação de critérios ambientais mais rigorosos não são apenas movimentos de atualização. São reposicionamento estratégico em um ambiente que exige precisão operacional em condições extremas.

Operar onde poucos apostam

A logística na Amazônia não admite soluções padronizadas. A variação do nível dos rios, que pode chegar a 20 metros ao longo do ano, impõe uma dinâmica única. Seis meses de cheia, seis meses de seca. Um regime que exige flexibilidade estrutural e inteligência operacional contínua.

A resposta da Super Terminais está em soluções como módulos flutuantes e adaptações permanentes à realidade hidrológica. Aqui, eficiência não é apenas produtividade. É capacidade de operar onde outros não conseguem.

Quando a crise testa o sistema

As secas históricas de 2023 e 2024 elevaram esse desafio a outro patamar. Em 2023, o terminal chegou a ficar cerca de 45 dias sem receber navios. No ano seguinte, diante da previsão de um cenário ainda mais severo, a empresa antecipou uma resposta logística de grande escala.

Transferiu módulos operacionais para Itacoatiara e estruturou uma operação de transbordo que movimentou 27 navios, cerca de 33 mil contêineres e aproximadamente 840 mil toneladas. Não se tratava apenas de manter a operação. Tratava-se de preservar o abastecimento industrial do país.

Um polo que sustenta o Brasil

A dimensão dessa logística extrapola o Amazonas. Manaus responde integralmente por segmentos estratégicos do mercado interno. A totalidade dos televisores de até 75 polegadas consumidos no país, das motocicletas de até 250 cilindradas e dos aparelhos de ar-condicionado de até 32 mil BTUs é produzida na região.

Sem fluxo logístico, não há produção. Sem produção, não há abastecimento. Nesse arranjo, a Super Terminais ocupa posição central. Recebe cerca de 50% dos contêineres de importação e parcela relevante da cabotagem. Aproximadamente 40% dos produtos industriais que entram e saem de Manaus passam por sua estrutura.

A Amazônia conectada ao mundo

A operação não se limita ao território nacional. Cerca de 60% das matérias-primas vêm da Ásia. A rota inclui travessia transpacífica, passagem pelo Panamá, escalas no Caribe e a subida de aproximadamente 2 mil quilômetros pelo rio Amazonas.

É uma cadeia longa, sensível e altamente dependente de sincronização logística. Uma artéria global que desemboca no coração da floresta.

Modernização contínua

Ao longo de três décadas, a Super Terminais acompanhou a evolução dessa complexidade. Das primeiras operações em 1996 à estrutura atual, com múltiplos equipamentos e expansão do cais, há um processo consistente de investimento. Parcerias tecnológicas de longo prazo, como a mantida com a Kalmar, contribuíram para padronizar e elevar o nível das operações.

O resultado é um terminal que não apenas opera. Antecipar cenários tornou-se parte do seu método.

O futuro como responsabilidade

Marcello Di Gregorio projeta uma empresa sólida, perene e humanizada. Uma organização que combina eficiência com responsabilidade ambiental e compromisso com a comunidade.

A meta é clara. Tornar-se referência nacional em tecnologia e sustentabilidade nos próximos anos. Não como discurso, mas como trabalho.

Marcello Di Gregorio Super Terminais, 30 anos: a engenharia silenciosa que sustenta a Amazônia produtiva
Marcello Di Gregorio

Infraestrutura: a agenda que não pode recuar

Há, no entanto, um ponto que atravessa toda essa trajetória e precisa ser dito sem ambiguidade. A competitividade da Amazônia não é espontânea. Ela é construída. E depende, de forma direta, da infraestrutura logística. Cada metro de cais, cada rota viabilizada, cada solução técnica desenvolvida representa uma conquista em um ambiente historicamente negligenciado. Não há margem para retrocessos.

Se a Super Terminais é hoje um ativo estratégico, isso se deve a décadas de investimento, risco e persistência em um território onde operar custa mais, exige mais e entrega ao país mais do que se costuma reconhecer. Defender a infraestrutura amazônica é, portanto, defender a própria capacidade do Brasil de produzir, integrar e competir.

Um porto, uma história, uma premissa

Ao completar 30 anos, a Super Terminais celebra mais do que sua trajetória. Celebra a afirmação de uma ideia. A de que é possível transformar geografia em vantagem, complexidade em eficiência e isolamento em conexão.

Uma história que começou com uma travessia e que hoje sustenta, em silêncio, parte relevante da economia brasileira. Parabéns pelos 30 anos. 


Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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