Da travessia pioneira de 1977 à consolidação como eixo logístico nacional, a história da família Di Gregorio revela como infraestrutura, resiliência e visão estratégica moldaram a competitividade da Zona Franca de Manaus – e por que essa agenda ainda exige defesa permanente.
Coluna Follow-Up
Na história do desenvolvimento do Amazonas há empresas que nascem de uma oportunidade. Outras, de uma necessidade estrutural. A da Super Terminais começa com ambas.
Em 1977, Franco Di Gregorio chega a Manaus em um cenário onde a logística era limitada, cara e dependente do transporte aéreo. Ao assumir o desafio de levar radiocomunicadores para São Paulo, destinados à indústria automotiva do ABC paulista, ele não apenas executa uma operação. Abre um caminho.
Ao enxergar nos rios amazônicos uma alternativa logística viável, inaugura uma lógica que viria a sustentar, décadas depois, a competitividade de toda uma região. A floresta deixava de ser barreira para se tornar corredor.
Da experiência ao porto
O que começou como operação se transformou em conhecimento acumulado. E o conhecimento, em infraestrutura. A criação da Super Terminais, em 1996, não foi um salto, mas consequência. A consolidação de duas décadas de aprendizado sobre os ritmos da Amazônia, suas distâncias e suas limitações.
A partir dali, a logística deixa de ser adaptação e passa a ser engenharia. O porto surge como resposta estruturada às necessidades crescentes do Polo Industrial de Manaus, que já demandava escala, previsibilidade e eficiência.
A nova geração e o salto tecnológico
A história ganha novo impulso com Marcello Di Gregorio. Aos 20 anos, ele inicia sua trajetória na logística e no comércio exterior, retornando depois aos negócios da família. Em 2022, assume a liderança da empresa em um contexto adverso, marcado por pandemia, disrupções globais e pressão crescente por sustentabilidade.
Sua gestão introduz um vetor claro. Transformar o terminal em referência tecnológica e ambiental. A busca por boas práticas internacionais, a modernização de equipamentos e sistemas e a incorporação de critérios ambientais mais rigorosos não são apenas movimentos de atualização. São reposicionamento estratégico em um ambiente que exige precisão operacional em condições extremas.
Operar onde poucos apostam
A logística na Amazônia não admite soluções padronizadas. A variação do nível dos rios, que pode chegar a 20 metros ao longo do ano, impõe uma dinâmica única. Seis meses de cheia, seis meses de seca. Um regime que exige flexibilidade estrutural e inteligência operacional contínua.
A resposta da Super Terminais está em soluções como módulos flutuantes e adaptações permanentes à realidade hidrológica. Aqui, eficiência não é apenas produtividade. É capacidade de operar onde outros não conseguem.
Quando a crise testa o sistema
As secas históricas de 2023 e 2024 elevaram esse desafio a outro patamar. Em 2023, o terminal chegou a ficar cerca de 45 dias sem receber navios. No ano seguinte, diante da previsão de um cenário ainda mais severo, a empresa antecipou uma resposta logística de grande escala.
Transferiu módulos operacionais para Itacoatiara e estruturou uma operação de transbordo que movimentou 27 navios, cerca de 33 mil contêineres e aproximadamente 840 mil toneladas. Não se tratava apenas de manter a operação. Tratava-se de preservar o abastecimento industrial do país.
Um polo que sustenta o Brasil
A dimensão dessa logística extrapola o Amazonas. Manaus responde integralmente por segmentos estratégicos do mercado interno. A totalidade dos televisores de até 75 polegadas consumidos no país, das motocicletas de até 250 cilindradas e dos aparelhos de ar-condicionado de até 32 mil BTUs é produzida na região.
Sem fluxo logístico, não há produção. Sem produção, não há abastecimento. Nesse arranjo, a Super Terminais ocupa posição central. Recebe cerca de 50% dos contêineres de importação e parcela relevante da cabotagem. Aproximadamente 40% dos produtos industriais que entram e saem de Manaus passam por sua estrutura.
A Amazônia conectada ao mundo
A operação não se limita ao território nacional. Cerca de 60% das matérias-primas vêm da Ásia. A rota inclui travessia transpacífica, passagem pelo Panamá, escalas no Caribe e a subida de aproximadamente 2 mil quilômetros pelo rio Amazonas.
É uma cadeia longa, sensível e altamente dependente de sincronização logística. Uma artéria global que desemboca no coração da floresta.
Modernização contínua
Ao longo de três décadas, a Super Terminais acompanhou a evolução dessa complexidade. Das primeiras operações em 1996 à estrutura atual, com múltiplos equipamentos e expansão do cais, há um processo consistente de investimento. Parcerias tecnológicas de longo prazo, como a mantida com a Kalmar, contribuíram para padronizar e elevar o nível das operações.
O resultado é um terminal que não apenas opera. Antecipar cenários tornou-se parte do seu método.
O futuro como responsabilidade
Marcello Di Gregorio projeta uma empresa sólida, perene e humanizada. Uma organização que combina eficiência com responsabilidade ambiental e compromisso com a comunidade.
A meta é clara. Tornar-se referência nacional em tecnologia e sustentabilidade nos próximos anos. Não como discurso, mas como trabalho.
Infraestrutura: a agenda que não pode recuar
Há, no entanto, um ponto que atravessa toda essa trajetória e precisa ser dito sem ambiguidade. A competitividade da Amazônia não é espontânea. Ela é construída. E depende, de forma direta, da infraestrutura logística. Cada metro de cais, cada rota viabilizada, cada solução técnica desenvolvida representa uma conquista em um ambiente historicamente negligenciado. Não há margem para retrocessos.
Se a Super Terminais é hoje um ativo estratégico, isso se deve a décadas de investimento, risco e persistência em um território onde operar custa mais, exige mais e entrega ao país mais do que se costuma reconhecer. Defender a infraestrutura amazônica é, portanto, defender a própria capacidade do Brasil de produzir, integrar e competir.
Um porto, uma história, uma premissa
Ao completar 30 anos, a Super Terminais celebra mais do que sua trajetória. Celebra a afirmação de uma ideia. A de que é possível transformar geografia em vantagem, complexidade em eficiência e isolamento em conexão.
Uma história que começou com uma travessia e que hoje sustenta, em silêncio, parte relevante da economia brasileira. Parabéns pelos 30 anos.
Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br