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Estudo da UFAM revela esvaziamento silencioso do Polo Industrial de Manaus

Coluna Follow-Up

Há um silêncio estatístico que grita mais alto do que as bravatas do noticiário econômico. Em 21 anos, a participação de insumos regionais no Polo Industrial de Manaus caiu de 32,3% para 18,8%. Não é um tropeço. É uma linha de fuga. Uma tendência longa, persistente, com cara de escolha racional e cheiro de erro estratégico. O fato está consubstanciado no estudo de Rocha, A. C. B.; Lasmar, D. J.; Costa, A. R. R. (2026). Relatório 1 – Análise de anomalias do Polo Industrial de Manaus. Projeto ANA. Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

O PIM continua funcionando, entregando volumes, batendo metas, alimentando relatórios e superando recordes. Só que, aos poucos, vai se tornando aquilo que o Brasil sempre suspeitou: um lugar onde se monta, mas não se enraíza. Uma máquina competente, porém com pouca intimidade com o território que a sustenta. Uma indústria eficiente… porém descartável.

As razões são procedentes. Mas quando o adensamento produtivo se desfaz, a economia local deixa de aprender. Com exceções pontuais — como o Polo de Duas Rodas — o projeto fabril não escala, não verticaliza, não consolida fornecedores, não acumula tecnologia. Manaus deixa de ser plataforma de produção inteligente e passa a funcionar como estação de passagem.

O resultado é perverso: a indústria perde lastro regional e, com ele, perde legitimidade política para existir como projeto nacional de desenvolvimento. O propósito original — diversificação, adensamento e regionalização das cadeias produtivas — vai ficando pelo caminho.

O debate costuma cair em duas armadilhas. A primeira é moralizar: “as empresas não querem comprar local”. A segunda é burocratizar: “faltam incentivos”. O estudo evita ambas e, por isso, é mais contundente. Sugere que o problema pode ser tributário, logístico, técnico, ou resultado de redes de fornecedores pré-existentes fora da região. Uma soma de racionalidades que, após duas décadas, passa a habitar confortavelmente a casa do “é assim mesmo”.

Determinismo, porém, é aquilo que uma política industrial inteligente se recusa a aceitar.

A oportunidade existe e tem nome e endereço: reorganização do sistema tributário e redesenho dos instrumentos de política industrial. Desde que isso não vire nova armadilha. Tratar o problema apenas como “chance de atrair mais empresas” é pouco. Atrair é verbo pobre. O verbo certo é enraizar.

Não se trata apenas de trazer fábricas. Trata-se de trazer cadeias, puxar etapas produtivas, encurtar distâncias econômicas e tecnológicas e fazer o dinheiro circular mais tempo dentro do Amazonas antes de evaporar — não por fenômeno climático extremo, mas porque foi atender outros arraiais.

Aqui entra o ponto mais ignorado — e o mais estratégico, já apontado por um dos autores do estudo, Augusto Rocha, em ensaio recente.

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Ronald Woan/Flickr Creative Commons
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Se o adensamento caiu, não foi apenas pela ausência de fornecedores tradicionais. Foi porque o PIM, como ecossistema, falhou em construir uma ponte viva entre indústria e inovação local. Falhou em transformar startups em engrenagem real do Polo. Falhou em casar o chão de fábrica com o laboratório, e o laboratório com o capital. O resultado é um PIM que compra de longe porque inova de longe. Que importa peças e também importa soluções. Que terceiriza processos e também terceiriza inteligência.

Hoje se fala em startup como adereço de evento, painel de auditório, selfie institucional. Mas startup, no contexto do PIM, não é modernidade. É infraestrutura econômica. É a forma contemporânea de criar fornecedores, tecnologias e serviços industriais com velocidade, especialização e custo competitivo. E isso é ainda mais grave quando se lembra que, graças aos recursos de P&D&I, Manaus figura entre os polos de maior intensidade inovadora do país. O que falta não é talento. É demanda industrial organizada.

Não basta “chamar as startups”. O PIM precisa ser mercado real para elas: demanda previsível, contratos piloto, padrões técnicos claros, acesso a plantas de teste, desafios industriais publicados e caminho concreto de escala. Startups não morrem por falta de discurso. 

O distanciamento entre startups e PIM é hoje um desperdício duplo: a indústria perde agilidade e soluções locais; o ecossistema inovador perde seu maior comprador potencial. No meio, Manaus perde a chance de transformar incentivos fiscais em inteligência produtiva.

Enfrentar isso exige método e escolha. Não se adensa tudo ao mesmo tempo. É preciso selecionar poucos arranjos produtivos e adensá-los de verdade. Mapear gargalos com transparência — custo, escala, prazos, certificações, logística. Alinhar incentivos para premiar quem internaliza etapas e cria fornecedores competitivos, sem fetiche protecionista nem romantismo regional. E, por fim, construir a ponte industrial das startups com pragmatismo: compras de inovação, laboratórios compartilhados, fundos mistos e governança com metas mensuráveis. Manaus já domina, com naturalidade, instrumentos como sandboxes regulatórios. Falta decisão estratégica.

Criar um Programa Ponte Industrial PIM–Startups não é ideia bonita. É necessidade estrutural. Com governança, metas de compras de inovação e trilhas setoriais — automação, manutenção avançada, eficiência energética, rastreabilidade, logística, qualidade — para que a indústria volte a produzir a partir do território e o território volte a produzir futuro dentro da indústria.

Em outras palavras: o PIM precisa parar de tratar startup como “ornamento de futuro” e passar a tratá-la como peça do presente. O Relatório 1 do Projeto ANA, da UFAM, é meritório e exige debate imediato. E que venham outros.

Se a curva dos insumos regionais continuar caindo, não se reduz apenas um percentual. Reduz-se o sentido histórico do Polo, sua capacidade de ser plataforma de desenvolvimento e a chance de a Amazônia sustentar uma economia legal que não apenas resista, mas lidere. O efeito não é só econômico. É político. Quanto mais a cadeia regional emagrece, mais o PIM perde lastro e legitimidade como projeto nacional de desenvolvimento regional.

Se quisermos enfrentar o embaraço — e não apenas descrevê-lo — política pública e estratégia empresarial precisam parar de operar como mundos paralelos. Adensamento não nasce de edital genérico nem de seminário bem-intencionado. Nasce de coordenação, foco e escolhas duras.

Quando uma indústria se distancia do território, ela não perde só fornecedores. Ela perde o futuro.


Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, sob responsabilidade do CIEAM, com coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do brasilamazoniaagora.com.br

O pacto federativo como critério de avaliação governamental

O pacto federativo brasileiro não é uma abstração jurídica nem um enfeite constitucional. Ele é, na essência, um acordo de sobrevivência nacional, firmado para permitir que realidades profundamente desiguais convivam sob o mesmo Estado, com equilíbrio, coesão e justiça.

É nesse ponto que se mede a grandeza — ou a omissão — de um governo estadual. Um governo não se avalia apenas por obras, indicadores ou discursos, mas pela sua disposição permanente de lutar, dia e noite, para assegurar que os direitos constitucionais do seu povo não sejam corroídos por decisões administrativas, interpretações fiscais estreitas ou conveniências arrecadatórias de outros entes da Federação.

Corrigindo injustiça

Nesse contexto, a notícia publicada no Diário Oficial do Estado de São Paulo, de 30 de janeiro, restabelece o benefício fiscal para empresas de Boa Vista e Bonfim, e corrige uma injustiça recente e reafirma um princípio maior. A medida reconhece que não é razoável impor às empresas do Norte o mesmo peso tributário aplicado a centros logísticos privilegiados, conectados por rodovias, portos e mercados consumidores densos.

O impacto é concreto

Menos custo para quem produz e comercializa em Roraima. Mais competitividade para as empresas locais. Mais empregos. Mais renda. E, sobretudo, preços mais justos para o consumidor, que é sempre o primeiro a sentir os efeitos de decisões fiscais equivocadas.

Cláusulas do Pacto Federativo

A Constituição de 1988 foi explícita ao reconhecer que tratar igualmente os desiguais é produzir injustiça. Por isso, consagrou instrumentos de compensação regional, repartição diferenciada de receitas, regimes especiais e políticas de desenvolvimento voltadas a territórios com limitações estruturais severas. A Zona Franca de Manaus e seus desdobramentos regionais são expressões diretas desse princípio — não concessões políticas, mas cláusulas vivas do pacto federativo.

Ulysses Guimaraes apresenta a Constituicao Cidada promulgada em 1988. Foto Arquivo ABr 1
Ulysses Guimarães apresentando a Constituição Cidadã em 1988

Isolados e punidos

Estados como Roraima e Amazonas carregam responsabilidades que extrapolam suas fronteiras. Protegem a Amazônia, garantem soberania territorial, sustentam estoques ambientais estratégicos para o planeta e, ainda assim, enfrentam custos logísticos, energéticos e de infraestrutura que o Sudeste sequer imagina. Exigir que contribuam sob as mesmas regras fiscais é violar a lógica do pacto.

Cumprindo o dever

Quando um governo estadual recorre ao Supremo Tribunal Federal para defender seus direitos constitucionais, ele não está criando conflito institucional. Está cumprindo seu dever. Governar, em contextos desiguais, é resistir à naturalização da injustiça. É confrontar, com base jurídica e política, a tentativa recorrente de transformar instrumentos de equilíbrio regional em “privilégios” retóricos.

Vigilância permanente

A recente ação de inconstitucionalidade e o consequente restabelecimento de benefícios fiscais para empresas de Roraima não representam um ganho episódico. Representam a reafirmação de um princípio: o pacto federativo só existe se for defendido ativamente. Sem vigilância, ele se esvazia. Sem enfrentamento, ele é capturado pelos mais fortes. Por isso, um governo estadual digno desse nome é aquele que compreende que sua missão não termina nos limites do orçamento anual.

Resultados, coordenação institucional e o papel do Polo Industrial de Manaus

Uma entrevista de Nelson Azevedo com Bosco Saraiva, titular da SUFRAMA

Os resultados recentes do Polo Industrial de Manaus indicam um período de desempenho econômico consistente, marcado por crescimento do faturamento, ampliação da produção e manutenção de níveis relevantes de emprego industrial. Em 2025, o modelo atingiu R$ 227,7 bilhões em faturamento, com crescimento de 11%, além da operação de 553 fábricas e da média mensal superior a 131 mil empregos diretos, números que ajudam a dimensionar o peso econômico do PIM para o Amazonas e para o país.

Esse desempenho está associado, entre outros fatores, ao funcionamento mais regular da coordenação institucional entre a Suframa, o setor produtivo e as entidades representativas, aspecto central para um modelo industrial que depende de previsibilidade normativa, fluidez decisória e planejamento de longo prazo.

Para analisar esse contexto e seus desdobramentos — tanto do ponto de vista econômico quanto institucional — o Brasil Amazônia Agora entrevistou Nelson Azevedo, que aborda nesta conversa os resultados alcançados, os fatores que contribuíram para esse desempenho e os desafios que permanecem na agenda de competitividade, inovação e desenvolvimento sustentável do Polo Industrial de Manaus.

Nelson Azevedo: Os resultados indicam um ciclo positivo de desempenho do Polo Industrial de Manaus. O faturamento de R$ 227,7 bilhões, o crescimento de 11%, a ampliação das exportações, a operação de 553 fábricas e a manutenção de uma média mensal superior a 131 mil empregos diretos demonstram que o modelo segue ativo e com capacidade de resposta quando há estabilidade institucional e previsibilidade nos processos.

Nelson Azevedo: Um dos fatores centrais foi a melhoria na coordenação institucional. Houve maior regularidade nos fluxos decisórios, atenção aos prazos e uma comunicação mais direta entre a Suframa, as empresas e as entidades representativas. Esse ambiente reduz incertezas e permite que o setor produtivo planeje investimentos e operações com mais segurança.

Bosco Saraiva foto Junio Matos
Bosco Saraiva

Nelson Azevedo: A interlocução se tornou mais frequente e objetiva. As demandas passaram a ser tratadas com maior clareza técnica, o que contribui para soluções mais rápidas e alinhadas à realidade industrial. Esse tipo de diálogo é fundamental para um modelo como o da Zona Franca de Manaus, que depende de decisões coordenadas e de longo prazo.

Nelson Azevedo: O Polo Industrial de Manaus cumpre um papel importante ao concentrar atividade econômica formal, geração de empregos e arrecadação em área urbana. Isso contribui para reduzir pressões sobre atividades ilegais ou predatórias e reforça a ideia de que o desenvolvimento sustentável passa pela existência de uma base econômica estruturada e regular.

Nelson Azevedo: Os desafios estão relacionados à produtividade, à inovação tecnológica, à logística e ao adensamento das cadeias produtivas. Além disso, é importante acompanhar as transformações globais, como a digitalização industrial e as exigências ambientais, sem perder a previsibilidade regulatória que sustenta o modelo.

Nelson Azevedo: O principal aprendizado é que resultados consistentes dependem de continuidade institucional, diálogo técnico e capacidade de execução. Quando essas condições estão presentes, o modelo consegue responder às demandas econômicas e sociais da região de forma mais estável.

A redução do adensamento industrial no PIM

Em um projeto de pesquisa da UFAM que atuo, em conjunto com os Doutores Dimas José Lasmar e André Ricardo Reis Costa, fizemos um relatório que demonstra que nos últimos 21 anos os insumos regionais do Polo Industrial de Manaus (PIM) recuaram de 32,3% para 18,8%. O relatório completo com um gráfico elucidativo pode ser lido em https://bit.ly/pim2026-1. Foi uma redução de 41%. 

O que constatamos foi um movimento contrário no uso de mais insumos internacionais ou nacionais. Esta informação me pareceu particularmente preocupante e demanda tanto a análise de suas causas, como a elaboração e implantação de novas políticas públicas para estancar o processo e construir um cenário diferente. Afinal, há uma evidente redução do adensamento das cadeias produtivas das indústrias com empresas locais. Isso é um incômodo grande, pois as maiores empresas do PIM são de capital estrangeiro.

ADENSAMENTO INDUSTRIAL
Foto divulgação

Assim, a reconstrução e ampliação da indústria brasileira tem também a necessidade de encontrar uma estrutura de capital local e o que se verifica é um movimento continuado na direção oposta, o que pode também adicionar mais uma camada na problemática da desigualdade social presente na cidade de Manaus, que contempla um grande PIB, mas também uma cidade e um Estado com grandes contrastes.

Outra hipótese de causa é que algumas empresas estão fazendo a opção de verticalizar seus processos ou de usar mais fortemente sua rede de fornecedores globais e nacionais. O movimento que houve no passado de empresas que trouxeram “sistemistas” ou “subfornecedores” de outros países ou regiões para se instalar em Manaus é claramente um método que deixou de ser empregado no período estudado e há aqui outra oportunidade de correção, por meio de estímulos e decisões estratégicas das próprias empresas, pois este método melhorou em muito, em especial, a dinamicidade e competitividade do Setor de Duas Rodas. 

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Fabrica da Honda em Manaus, em imagem de arquivo — Foto: Rafael Miotto/G1

A nova dinâmica da reforma tributária, que deve atrair mais empresas para Manaus, poderá voltar fazer uso dos Projetos Produtivos Básicos (PPB) para reiniciar a atração de empresas para adensarem suas cadeias produtivas a partir de Manaus. Portanto, este é um dos caminhos de ajuste na política pública. Ademais, precisamos diversificar a indústria local para além dos setores já existentes e mudar a estrutura do adensamento industrial.

Outra oportunidade são estímulos para o spin-off tecnológico das empresas industriais, onde partes dos processos são externalizados para outras empresas. Para isso, é necessária uma maior proximidade entre o Sistema de Ciência e Tecnologia e investidores locais com as necessidades das empresas aqui instaladas, para além do uso da mão de obra qualificada ou da apropriação das novas tecnologias.

Também é oportuno um estímulo para startups que tenham vinculação com as atividades industriais atuais e futuras, nos principais setores com nascimentos de empresas e nos de maior volume produtivo. São algumas das possibilidades para melhorar a política industrial do Polo Industrial e estimular a retomada do adensamento da indústria do PIM com mais empresas locais.

Envelhecimento ativo, tecnologia e Amazônia como território de cuidado e futuro

Transpira no ar uma curva silenciosa redesenhando o país. Ela não aparece em manchetes diárias, mas determina o tipo de Brasil que teremos no trabalho, na saúde, na cultura e na economia. A população envelhece com rapidez e, em paralelo, muda o próprio sentido de envelhecer. Lições do ambiente Amazônia se oferecem como opção de reconciliação com a Natureza. 

O IBGE projeta há anos um deslocamento histórico, com a maturidade superando a infância na pirâmide etária por volta do início da década de 2030, e a tendência é de aprofundamento nas décadas seguintes.  Essa virada demográfica não é um detalhe. É o pano de fundo de uma nova cidadania.

É nesse contexto que se entendemos a geração NOLT,  (New Older Living Trend) um conceito contemporâneo de envelhecimento para as pessoas 60+. Longe de ser rótulo publicitário, a tendência descreve uma linguagem social emergente para a maturidade ativa. Pessoas 60+ que recusam a obsolescência, reinventam carreira, aprendem continuamente, praticam autocuidado e buscam propósito. A maturidade deixa de ser aposentadoria da vida e passa a ser reentrada qualificada no mundo.

O Brasil sempre tratou a experiência como passado. A geração NOLT a reivindica como futuro. Ela carrega ativos suplementares que não cabem no currículo convencional. Carrega memória institucional, inteligência prática, capacidade de leitura de contexto, senso de responsabilidade e, sobretudo, uma ética da consequência.

Essa ética importa porque o país já não pode decidir apenas com a pressa. Precisa decidir com a maturidade.

E maturidade, aqui, não é sinônimo de conservadorismo. É sinônimo de discernimento. É a capacidade de comparar caminhos, pesar danos, reconhecer limites, recusar soluções mágicas. Exatamente o que falta quando o debate sobre Amazônia se resume a slogans e disputas de ocasião.

envelhecimento ativo

A Amazônia, quando vista com seriedade, é um tratado vivo sobre longevidade. A floresta é um sistema maduro. Ela não prospera pela força, mas pela cooperação. Não se sustenta pelo excesso, mas pela circularidade. Não cresce destruindo o próprio chão, mas devolvendo ao chão aquilo que recebeu.

Esse modelo conversa profundamente com o NOLT. O que a maturidade contemporânea procura é uma vida mais inteira, menos fragmentada. A floresta oferece, antes de qualquer produto, um paradigma. Um modo de existir em que saúde não é só ausência de doença. É equilíbrio entre corpo, mente, território e comunidade.

Por isso a Década do Envelhecimento Saudável, declarada pela ONU para 2021–2030, faz tanto sentido quando lida a partir do Norte do Brasil. O desafio é coletivo e exige ambientes, serviços e culturas que sustentem autonomia e dignidade ao longo da vida.  

A geração NOLT é ativa, e cada vez mais conectada. O percentual de brasileiros com 60 anos ou mais que usam internet saltou para 66% em 2023, com crescimento expressivo em poucos anos.  E a própria divulgação da PNAD TIC 2024 aponta que o avanço foi particularmente intenso nesse grupo etário ao longo do período recente.  

Esse dado muda tudo. Porque maturidade ativa, hoje, não é apenas caminhar, viajar e estudar. É também lidar com plataformas, serviços digitais, teleatendimento, bancos, senhas, golpes, desinformação e ansiedade algorítmica.

A presença digital amplia autonomia, mas também expõe vulnerabilidades. A inclusão precisa vir acompanhada de um novo pacto de proteção. O NOLT conectado é força social. O NOLT desprotegido é alvo.

A inteligência artificial entrou na vida cotidiana sem pedir licença, e tende a se tornar ainda mais presente no campo do envelhecimento. Há ganhos reais quando a IA é usada para monitorar sinais vitais, apoiar adesão a tratamentos, ampliar telessaúde e reduzir filas, desde que com transparência, privacidade e desenho centrado na pessoa. O tema já chegou ao debate institucional no Brasil, com alertas inclusive sobre segurança cibernética associada ao avanço dessas ferramentas.  

Mas a discussão decisiva não é se a IA “vai substituir” alguém. A pergunta certa é se ela será instrumento de autonomia ou tecnologia de tutela. Se ela ampliará a capacidade de decisão do idoso ou se o transformará em objeto de gestão.

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Foto Pixabay

Quando o NOLT encontra a IA, o ponto ético é simples. A máquina pode ajudar a prever. Só o humano pode escolher. E a escolha precisa estar protegida por direitos, por educação digital e por governança pública.

A Amazônia costuma ser convocada para justificar urgências econômicas. A geração NOLT costuma ser convocada para justificar urgências previdenciárias. Ambas, quase sempre, aparecem como problema.

A Amazônia é a grande biblioteca biológica e cultural do Brasil, com saberes tradicionais, botânica aplicada, práticas integrativas e repertórios de relação com o tempo que o mundo urbano desaprendeu. A geração NOLT é o grande capital social e profissional que o Brasil acumulou e subutilizou. Quando esses dois mundos se reconhecem, nasce uma agenda nova.

Uma agenda de reconciliação com a floresta e com seus poderes naturais e ancestrais, sem exotismo e sem apropriação. Uma reconciliação que passa por escuta, por respeito aos territórios e por repartição justa de valor. Uma agenda em que a bioeconomia não é apenas economia, mas compromisso com a vida. E em que tecnologia, inclusive IA, não é fetiche, mas ferramenta para ampliar cuidado, acesso e dignidade.

O país está envelhecendo. Isso não é ameaça. É convocação.

A geração NOLT não quer apenas viver mais. Quer viver melhor, com sentido e com protagonismo. A Amazônia não quer apenas ser “preservada” como peça de museu. Quer ser reconhecida como inteligência viva, como território de futuro, como matriz de soluções.

O Brasil pode transformar a maturidade em potência civilizatória, desde que pare de tratar a experiência como peso e a floresta como obstáculo. Há um caminho onde envelhecer é coragem, e onde a Amazônia não é a fronteira da exploração, mas a fronteira do cuidado.

Superando o imobilismo: infraestrutura como pauta eleitoral

Até que ponto faz sentido o Estado não ser investidor? Encontramos um consenso que soa meio certo, meio estranho, dependendo de quem debate: precisamos ter austeridade, em um governo que se assemelha a uma pessoa física. Pensar empresas como pessoas não é uma boa prática. Assim, como não deveria ser uma boa prática comparar as finanças de uma pessoa com um país.

Empresas e países precisam investir fortemente para conseguirem crescer, mudar, desenvolver. A condição de ficar “parado” em “equilíbrio” só é vantajosa para poucos. O que se verifica no mundo desenvolvido é uma aspiração por mais e mais, em uma ânsia sem fim por mais poder. E quem ficar no imobilismo terminará conquistado ou dominado. Basta ver o que acontece nos mercados de alta tecnologia. Há um combate global e parece que estamos longe destas pautas.

Por aqui, parece que estamos condicionados por uma dinâmica de não investimento. A questão que me inquieta é para quem interessa não investir? Por qual razão só encontrar espaços onde há interesse de exploração por grupos econômicos estrangeiros? Esta estratégia é ótima para ser dominado e não me parece a melhor estrutura para uma soberania nacional. Precisaremos criar um modelo brasileiro de sobrevivência ao contexto global, para que não sejamos engolidos nos próximos anos por alguma potência estrangeira.

infraestrutura como pauta
(Foto: Reprodução) Transporte publico de Manaus paralisado

Será que conseguiremos construir uma linha de construção de novas infraestruturas para o país ou seguiremos a pensar num Brasil sem um Estado investidor para a redução das desigualdades. Este modelo de não investimento não leva a mais prosperidade. Os momentos quando o país cresceu sempre foram derivados de forte investimento público ou privado. A questão é: como criar este ambiente? Qual será o espaço da infraestrutura no debate eleitoral nacional e estadual em 2026?

Gostaria muito que a pauta seja capturada por modelos de país onde a ciência se reencontre com as necessidades da população e das empresas. Hoje estamos atolados em ideias vagas e todas consolidadas no não fazer. Como se fosse possível crescer sem investimento. Como se fosse possível a transformação sem a mudança das práticas. 

Há tempo para colocar a pauta da infraestrutura no debate público. Seja na construção de grandes projetos interestaduais, seja na grande oportunidade para repensar a mobilidade urbana. Muito pode ser feito com desafios e missões para transformar a realidade do país. Para isso teremos que sonhar e fazer projetos de um Brasil mais desenvolvido. Precisamos sair das armadilhas de imobilismo estrutural.

Instrumentos econômicos e floresta em pé

Há um jeito polido de escapar de um estudo técnico sem encostar no coração do método. Primeiro, presta-se reverência à ciência, citam-se instituições respeitáveis, dá-se a impressão de “revisão” e “releitura”. Depois, troca-se a discussão por uma narrativa que parece intuitiva, quase doméstica. E, por fim, carimba-se a conclusão como se fosse um laudo.

É nesse movimento que o ensaio do Juarez Baldoino da Costa se apoia ao repetir a tese “o PIM não protege a floresta”. Ele não enfrenta o eixo do argumento empírico. Ele desloca o foco para um cenário que soa improvável e, por isso mesmo, é confortável. O problema é simples: o estudo não depende desse cenário.

O estudo técnico –  I n s t r u m e n t o s E c o n ô m i c o s para a Proteção da Amazônia – A experiência do PÓLO INDUSTRIAL DE MANAUS, José A.Mota, Alexandre Rivas, José Alberto Costa Machado – que embasa a defesa dos instrumentos econômicos não pede que o leitor “acredite” num êxodo em massa de Manaus para o interior. Ele faz um exercício mais sóbrio e, por isso, mais incômodo para quem quer encerrar o debate com uma frase de efeito.

Ele constrói um contrafactual, isto é, estima “quanto Manaus desmataria” sob a hipótese de que não existisse o Polo Industrial e compara esse valor “previsto” com o desmatamento “efetivo”.  

E faz isso controlando pelos fatores que o próprio debate reconhece como determinantes do desmatamento, incluindo agropecuária, população, custo de transporte e acesso ao crédito rural. A “única diferença”, no desenho do exercício, é a presença da aglomeração industrial nos moldes do PIM em Manaus e sua ausência nos demais municípios do Amazonas.  

Aqui está o ponto pedagógico para o leitor: não é uma história; é uma conta com hipótese explícita, variável de controle e comparação.

Os dez itens do ensaio são apresentados como uma espécie de inventário de impraticabilidades do interior: faltaria infraestrutura, faltaria moradia, faltaria estrada, faltaria serviço, faltaria lógica, faltaria tudo. É possível até concordar com partes disso. O interior tem carências históricas, e ninguém sério as romantiza.

O que chama atenção é outra coisa: a lista funciona como um argumento de persuasão, não como uma refutação. Ela prova, quando muito, que um cenário extremo é improvável. E, com isso, tenta obter por contraste um prêmio indevido: “logo, não é possível afirmar que o PIM protege”.

É como responder a um cálculo de engenharia dizendo que o rio é grande. O rio pode ser grande mesmo. A pergunta é se a ponte foi calculada. O estudo foi.

O contrafactual não exige que um operário “vire pecuarista” de uma hora para outra. Ele só pergunta o que acontece com a pressão sobre o território quando se retira uma âncora econômica urbana e formal e se deixa o resto do sistema “se reorganizar” pelos incentivos disponíveis, legais e ilegais, rápidos e lentos, predatórios e não predatórios.

Um dos pilares do ensaio é a frase de efeito: o PIM não usa a floresta, a floresta não usa o PIM, portanto não haveria comunicabilidade econômica. Isso parece elegante porque confunde relação direta com relação relevante.

O estudo, ao contrário, trata a floresta como um recurso ambiental cujo consumo pode ser dinâmico e retroalimentado, e discute explicitamente como forças econômicas podem induzir demanda por novo desmatamento ao longo do tempo.  

É aqui que o argumento “não há relação” perde o chão. A relação pode ser indireta, e justamente por isso ela é a mais comum no mundo real. Emprego urbano, renda formal, presença do Estado, capacidade de fiscalização, custo de oportunidade, dinâmica migratória e organização territorial são canais típicos de “efeito indireto”. Negar isso exige mais do que uma lista de dificuldades do interior. Exige refutar o método.

O estudo não pede que o leitor “acredite”. Ele apresenta o resultado do exercício contrafactual.

Para 1997, o desmatamento efetivo de Manaus ficou em cerca de 14% a 15% do desmatamento previsto pelo modelo que impõe à capital o padrão médio de desmatamento dos demais municípios.  

O texto vai além e traduz isso como redução de 85% a 86% do desmatamento na região de Manaus, associando essa diferença ao padrão produtivo do PIM e setores impulsionados por ele, e registra um número concreto de área evitada naquele ano.  

Qualquer um pode debater hipóteses, discutir janelas, contestar defasagens, pedir outros modelos, pedir robustez. Isso é debate honesto. O que não é debate honesto é substituir o contrafactual por “parece improvável que…”.

Se o PIM “não protege”, o que protege, então, quando a economia precisa crescer sob pressão? A resposta concreta, na prática brasileira, tem sido a mesma há décadas quando o Estado não ancora renda e legalidade no território. A expansão de fronteira aparece sob as formas mais conhecidas, e quase sempre mais rápidas do que qualquer “plano” virtuoso. Pecuária extensiva e lavoura em grande escala são exemplos clássicos de conversão acelerada de cobertura florestal em área produtiva, principalmente onde o custo de ocupação é baixo e a governança é frágil.

Por isso, a crítica ao PIM não pode ser feita como se estivéssemos num laboratório moral. Ela precisa ser feita olhando o tabuleiro. Quando se empurra a Amazônia para “produzir” sem arquitetura econômica, o caminho mais curto costuma ser o caminho mais barato. E o caminho mais barato frequentemente é o que derruba.

FLORESTA EM PÉ
Ronald Woan/Flickr Creative Commons SHARE

A COP30 (Belém) colocou a questão florestal no centro justamente por reconhecer que “floresta em pé” não é estética; é estabilidade climática, hídrica e econômica. O próprio site oficial de comunicação da COP30 registra o foco em destravar financiamento para proteção florestal e menciona mecanismos discutidos, como o Tropical Forests Forever Fund (TFFF) e coalizões relacionadas a REDD+.  

Na cobertura internacional, aparecem detalhes do desenho do TFFF e sua lógica de recompensar a manutenção de florestas, incluindo o debate sobre escala de capitalização e destinação de parte dos recursos para povos indígenas.  

Em paralelo, instrumentos já existentes seguem como referência, como o Fundo Amazônia, descrito como mecanismo de doações voltado a ações de prevenção e combate ao desmatamento e promoção do uso sustentável.  

O recado é objetivo: o mundo está deixando de discutir floresta como “tema” e passando a discutir floresta como “ativo” que precisa de governança e remuneração. É a linguagem adulta do século.

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(Foto: Adriano Gambarini / WWF Brasil)

O ensaio tenta isolar a Amazônia como se fosse um palco. Só que a floresta não é cenário. Ela opera como uma máquina física.

Os “rios voadores” são descritos como correntes atmosféricas de umidade que regulam o regime de chuvas em regiões distantes, incluindo Centro-Oeste, Sudeste e Sul, com impacto direto sobre bacias hidrográficas e agricultura.  

E já há evidência empírica recente ligando desmatamento à distribuição de chuvas no Brasil e aos riscos econômicos associados, inclusive com impactos sobre hidrelétricas, segundo estudo do Climate Policy Initiative/PUC-Rio sobre “flying rivers”.  

Quando reservatórios baixam e secas se repetem, a conta não é apenas ambiental. Ela aparece na energia, no alimento, na inflação e no próprio agronegócio que alguns tratam como se estivesse blindado contra a física. A floresta é parte da infraestrutura que sustenta a produtividade agrícola. Enfraquecê-la é serrar o próprio andaime.

O ensaio termina decretando que “o apelo ambiental não existe”, mas constrói essa segurança sobre um desvio. Ele combate uma hipótese folclórica e ignora um contrafactual explícito, com controles e comparação.    

A crítica séria ao estudo exigiria apontar o erro do cálculo, a variável omitida, a especificação frágil, o viés estatístico, a hipótese indevida. Em vez disso, oferece uma coleção de “dificuldades do interior” como se dificuldade social fosse prova econométrica.

No fim das contas, não é o Polo Industrial de Manaus que está sendo julgado aqui — é o direito de a Amazônia ser tratada com método. Porque quando alguém diz que “o apelo ambiental não existe”, o que faz não é apenas recusar um argumento; é recusar uma arquitetura inteira de governança contemporânea. É declarar irrelevante a lógica que o mundo inteiro está tentando construir: remuneração por serviços ambientais, métricas, fundos, regeneração, restauração, transição energética e bioeconomia com escala. O século está mudando de idioma. E a Amazônia não pode continuar sendo empurrada para o dialeto antigo do “derruba e ocupa”.

O contrafactual é incômodo porque ele não discute intenções; discute efeitos. E efeitos têm o mau hábito de contrariar histórias bem contadas. Quando um estudo estima quanto Manaus desmataria na ausência do PIM e compara com o que Manaus de fato desmatou, ele está dizendo ao leitor: “não vamos decidir isso por impressão; vamos decidir por comparação”. E, diante disso, o inventário das carências do interior — real, doloroso, histórico — não é resposta. É desvio.

Se a tese é que “o PIM não protege”, a honestidade intelectual exige que se diga, com igual clareza, qual arranjo substituiria essa âncora urbana sem abrir espaço para o caminho mais curto da fronteira: a conversão rápida de floresta em área produtiva de baixa governança, com pecuária extensiva e lavouras avançando onde o Estado é ralo e a fiscalização é intermitente. Porque, na prática do Brasil profundo, quando se enfraquece uma economia legal sem construir outra arquitetura de prosperidade, o vácuo raramente vira bioeconomia. O vácuo vira atalho.

E é aí que a discussão deixa de ser acadêmica e vira responsabilidade histórica. A floresta em pé não é um “apelo”. É uma infraestrutura que produz água, estabilidade térmica e previsibilidade — e, ao perder força, ameaça reservatórios, energia, alimentos e o próprio agronegócio que alguns tratam como se estivesse fora do alcance dos rios voadores.

Por isso, a pergunta final precisa ser feita com calma, mas sem ingenuidade: o que leva alguém a insistir, com tanta convicção e tão pouca sustentação empírica, em negar qualquer relação entre instrumentos econômicos, indústria urbana e inibição do desmatamento? A quem serve decretar que essa relação “não existe”? E, sobretudo, qual alternativa concreta se oferece ao país — além do velho método sem métrica, sem governança e sem retorno: a coragem fácil do correntão?

O custo climático e ambiental da inteligência artificial

Com alta demanda energética, a ampliação da inteligência artificial (IA) compromete as metas climáticas e pode gerar até 44 milhões de toneladas de CO₂ por ano até 2030.

A expansão acelerada da inteligência artificial (IA) está elevando os impactos ambientais da infraestrutura digital a níveis alarmantes. Apesar dos compromissos climáticos assumidos por empresas como Amazon e Google, grande parte da eletricidade que alimenta os centros de dados ainda vem de fontes fósseis. 

Nos Estados Unidos, estima-se que 50% da energia utilizada por essas instalações seja gerada por termelétricas movidas a carvão ou gás natural, usinas que, além de emitir grandes volumes de CO₂, consomem intensamente recursos hídricos.

Chaminés de usina termelétrica liberando fumaça no ar, ilustrando o impacto ambiental da energia usada por data centers para IA.
Para sustentar a IA em escala global, data centers recorrem a fontes intensivas de energia, como termelétricas, elevando as emissões e os riscos ambientais. Foto: Anthony Wallace/AFP

Estudos da Universidade Cornell projetam que, até 2030, o setor de IA poderá emitir entre 24 e 44 milhões de toneladas de CO₂ por ano, o equivalente a adicionar 10 milhões de carros nas estradas americanas. 

O número de data centers cresce rapidamente para atender à demanda da IA. Estima-se que, até 2030, o setor consuma cerca de 945 terawatts-hora (TWh) por ano, superando o consumo energético atual do Japão. Esse avanço pressiona governos e empresas a manterem fontes fósseis em operação.

O Google, por exemplo, reportou um aumento de 51% em suas emissões de carbono entre 2019 e 2024, apesar da meta de zerar suas emissões até 2030. A contradição se intensifica: o treinamento de modelos como o GPT-4 gerou mais de 2.800 toneladas de CO₂ apenas na fase inicial. 

No entanto, é a etapa de inferência, quando os usuários interagem com a IA em tempo real, que concentra até 90% do consumo energético total ao longo da vida útil do modelo. Especialistas alertam para o chamado “Paradoxo de Jevons”; quanto mais eficiente e acessível se torna uma tecnologia, maior tende a ser seu uso e, consequentemente, maior o consumo total de recursos. 

Isso significa que mesmo com modelos mais leves, a integração massiva da IA em dispositivos e serviços pode ampliar drasticamente a demanda global por eletricidade e água, anulando os ganhos ambientais esperados.

A falta de transparência agrava o problema. Empresas como OpenAI, Google e Amazon não divulgam dados precisos sobre o consumo energético de seus modelos, o que dificulta estimativas confiáveis da pegada de carbono e a adoção de medidas corretivas. 

A Amazônia entre duas economias: a floresta em pé e a floresta nas sombras

A economia da floresta em pé é, por definição, uma economia de prazo longo. Ela exige investimento contínuo, qualificação, logística estável, pesquisa, financiamento paciente e, sobretudo, capacidade de fazer a prosperidade chegar aos rios, às estradas e aos municípios distantes, onde o custo de produzir legalmente ainda é alto demais para muita gente.

Coluna Follow-Up

A Amazônia Ocidental costuma ser descrita como uma grande paisagem. Mas, no cotidiano, ela é sobretudo uma grande economia — feita de infraestruturas, decisões, fricções e escolhas difíceis. Em Manaus, isso se traduz em portos, contêineres, turnos, inspeções, exigências de padrão, metas de produtividade e uma engrenagem industrial que, por mais que seja atacada por caricaturas, é hoje uma das principais formas de a floresta permanecer de pé. 

No interior, o mesmo cotidiano se traduz em distâncias, custos, risco, falta de presença pública contínua — e uma vulnerabilidade que pode ser capturada por mercados ilegais.

Não há romantismo nesse retrato. Há apenas o reconhecimento de que a Amazônia vive, simultaneamente, dois regimes econômicos: um regime formal, que depende de contrato, tecnologia e estabilidade; e um regime clandestino, que depende de liquidez, captura de rotas e ausência de Estado. O desafio é entender essa convivência sem mistificação e sem pânico — com a sobriedade de quem olha o território como ele é.

CNPJ na floresta: a economia do prazo longo

O Brasil gosta de falar da Amazônia como “fronteira natural”. Mas a sustentabilidade amazônica, na prática, é uma construção institucional — artificial no melhor sentido da palavra: um parque industrial de alta complexidade operando no coração da floresta, com cadeias integradas, logística fluvial desafiadora e contrapartidas que consolidam uma infraestrutura social.

No Amazonas, a chamada “indústria da floresta em pé” não é um slogan. O Polo Industrial de Manaus reúne 552 indústrias e 127 empresas de bioindústria, combinando manufatura, automação, controle de qualidade e engenharia de processo — uma cadeia técnica que desmente a caricatura do “ventilador no meio da selva”.

Engenharia e padrão internacional: a indústria sem caricatura

Esse tecido industrial sustenta o Estado. A síntese publicada pelo BAA/JCAM aponta mais de 85% das receitas estaduais e mais de 60% das receitas tributárias vinculadas ao PIM. Essa não é uma defesa retórica: é a descrição de uma base econômica real que financia serviços públicos, capacidade administrativa e, quando bem orientada, instrumentos de interiorização do desenvolvimento.

A economia da floresta em pé é, por definição, uma economia de prazo longo. Ela exige investimento contínuo, qualificação, logística estável, pesquisa, financiamento paciente e, sobretudo, capacidade de fazer a prosperidade chegar aos rios, às estradas e aos municípios distantes — onde o custo de produzir legalmente ainda é alto demais para muita gente.

Tecnologia que cobra responsabilidade: competitividade com agenda ambiental

Há um ponto que quase nunca entra no debate nacional: alto padrão tecnológico hoje é também padrão ambiental. nesta Follow Up do BAA, o Polo Eletrônico é descrito como plataforma capaz de liderar economia circular e logística reversa num mundo que gerou 62 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2022, com apenas 22,3% documentado como coletado e reciclado formalmente. É o tipo de agenda que transforma obrigação legal em vantagem competitiva — e projeta soberania produtiva a partir da Amazônia.

Nada disso acontece por inércia. Requer regras, metas, rastreabilidade e pressão de mercado — e, ao mesmo tempo, políticas públicas que enxerguem a complexidade do território amazônico.

A régua errada: quando a contabilidade tenta matar a política pública

Essa potência, porém, costuma ser julgada por uma métrica que não consegue enxergar a realidade amazônica. A “régua dos bacanas” – expressão usada para descrever os interesses inconfessos que tratam a ZFM como privilégio – expõe o vício do Demonstrativo de Gastos Tributários: tratar incentivo constitucional como “perda” sem admitir efeitos compensatórios nem os avanços civilizatórios visto por observadores sensatos.

A contabilidade pública registra no primeiro semestre de 2025 um relato dos números que falam por si.

• R$ 1,2 bilhão recolhidos ao Fundo de Turismo, Infraestrutura e Interiorização (FTI);
• R$ 469 milhões destinados à Contribuição para o Ensino Superior, que financia a Universidade do Estado do Amazonas (UEA);
• R$ 198 milhões ao Fundo de Fomento às Micro e Pequenas Empresas (FMPES);
• R$ 728 milhões pagos em ICMS, tornando a indústria o maior contribuinte isolado do Estado;
• e, ainda, R$ 2,36 bilhões investidos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) pelas empresas de bens 

 Esse é um desafio do cotidiano: a estabilidade institucional de um modelo que depende de previsibilidade para continuar gerando emprego, arrecadação e capacidade pública.

Interiorização: o custo invisível do desenvolvimento

Interiorizar desenvolvimento sem transformar o interior em “fronteira de saque” custa caro: energia, internet, transporte, assistência técnica, crédito e compra garantida. É aqui que a economia legal revela sua fragilidade: onde o Estado demora, o crédito não chega e o custo de fazer certo é alto, a alternativa ilegal aparece como atalho.

Por isso, a floresta em pé não se sustenta apenas com discurso ambiental. Ela precisa reduzir o custo do legal, ampliar a escala do que funciona, criar segurança econômica para cadeias produtivas e manter presença pública contínua — não episódica.

A economia das sombras: o território como mercado

É nesse intervalo que cresce a economia clandestina. Ela não precisa de laboratório científico e de inovação; precisa de rota. Não precisa de contrato; precisa de imposição. Não precisa de prazo; precisa de liquidez.

A pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, repercutida pelo Correio Braziliense, estima que 44,6% dos municípios da Amazônia Legal já têm sinais de facções em 2025 (344 de 772), com 258 sob controle e 86 em disputa. O mesmo recorte informa que o Comando Vermelho se espalhou para 286 cidades e mantém hegemonia em 202 delas.

A mudança não é só territorial: é econômica. O crime organizado passou a “precificar” a floresta — e a se associar a crimes ambientais. O garimpo vira plataforma logística; e o narcotráfico se encaixa na extração mineral, na grilagem e na madeira. A Revista Pesquisa Fapesp descreve esse mecanismo como narcogarimpo: facções usando infraestrutura do garimpo — aeronaves, pilotos, pistas e rotas — para ampliar o tráfico, além de atuar como segurança armada e impor “regras” onde o Estado não chega.

Do contrato ao medo: dois regimes disputando o mesmo mapa

E há uma engrenagem ainda mais silenciosa: a capacidade de maquiar o ilegal como legal. É aqui que entra a Revista Piauí: um estudo do Centro de Sensoriamento Remoto da UFMG, citado em material associado à publicação, estimou que, entre 2021 e 2022, quase 30% do ouro extraído e registrado na ANM tinha origem irregular; o mesmo material aponta que, em oito meses de 2023, a mineração desmatou 76 km² na Amazônia e que a área de garimpo de ouro dobrou entre 2016 e 2022.

O resultado é uma economia de curto-circuito: a devastação gera caixa; o caixa compra armas, corrupção e silêncio; e o medo vira ativo econômico. Não é que o crime “apareça” de repente — ele se instala como um mercado onde faltam alternativas confiáveis.

Por isso, o debate amazônico mais sério não é um duelo moral entre “bons” e “maus”. É uma disputa de modelos econômicos: um modelo que transforma tecnologia e arrecadação em escola, saúde, universidade, pesquisa e cadeias legais; e outro que transforma rota em pedágio e floresta em ativo clandestino. 

A saída, portanto, também não é retórica. É método: reduzir o custo do legal e aumentar o custo do ilegal. Fortalecer interiorização com financiamento paciente, compras públicas inteligentes e programas estruturantes. Blindar rastreabilidade e inteligência financeira. Proteger cadeias produtivas e territórios com presença pública contínua. E, sobretudo, parar de tratar o desenvolvimento amazônico como “gasto” — porque, na Amazônia, o vácuo não fica vazio: ele é ocupado.

ZIBS, a “escola global” da Zhejiang University que ajuda a explicar por que a China virou potência de inovação e riqueza

Uma postagem recente do empresário Denis Minevapós visita à Zhejiang University International Business School (ZIBS), acendeu um alerta relevante para quem acompanha o tabuleiro geoeconômico: a China não está apenas “crescendo” — ela está construindo instituições com ambição global, capazes de formar líderes, atrair talentos internacionais e transformar conhecimento em vantagem competitiva multissetorial.

A ZIBS é um desses símbolos: uma escola de negócios internacional criada dentro de uma das universidades mais fortes da China, instalada em um campus desenhado para conectar academia, indústria e redes globais.

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A ZIBS (Zhejiang University International Business School) foi oficialmente lançada em 15 de novembro de 2018 e nasceu com um desenho claro: ser uma “business school global a partir da China”, conectando Oriente e Ocidente e formando profissionais para a nova economia internacional.  

Dois detalhes ajudam a entender seu posicionamento:

Internacionalização real: documentos da própria escola apontam que quase metade dos alunos tem origem internacional, de mais de 50 países. 

Vocação para temas de fronteira: organizações e materiais institucionais destacam foco em áreas como fintech, transformação digital, operações globais, inovação e liderança. 

Em outras palavras: não é só “um curso em inglês”. É uma plataforma de formação e influência desenhada para operar no centro do mundo que a China está ajudando a reorganizar.


A ZIBS está no International Campus da Zhejiang University, na cidade de Haining, estrategicamente posicionada entre Hangzhou e Shanghai — dois polos decisivos de inovação, indústria e finanças na China.  

O próprio campus é apresentado como parte da estratégia de internacionalização da universidade, com estrutura residencial e ambiente multinacional — um “ecossistema” de educação, pesquisa e conexões.  


A ZIBS é “filha” de uma locomotiva acadêmica: a Zhejiang University (ZJU), sediada em Hangzhou, frequentemente listada entre as melhores do mundo e com reputação forte em pesquisa e inovação.  

Esse ponto é central para a leitura geopolítica: quando uma universidade desse porte cria uma escola internacional com governança moderna e agenda de fronteira, ela está sinalizando que a disputa por riqueza (e poder) passa por:

  • Formar gente em escala e com qualidade
  • Atrair talentos do mundo todo
  • Transformar ciência e tecnologia em negócios, cadeias produtivas e influência

O que a ZIBS representa, no fundo, é um tipo de institucionalidade que a China vem refinando: universidades como infraestrutura de desenvolvimento nacional, e não apenas como centros de ensino.

Na prática, isso costuma aparecer etapas dinâmicas:

Pesquisa orientada a resultados (economia digital, finanças, inovação aplicada) — exemplo: a própria ZIBS mantém centros dedicados a temas como economia digital e inovação financeira. 

Integração com empresas e políticas públicas (do currículo ao desenho de ecossistemas)

Internacionalização seletiva (inglês, atração de estrangeiros, redes e reputação)

É um modelo que ajuda a explicar por que a China ganhou musculatura em múltiplos setores ao mesmo tempo: indústria avançada, digital, finanças, logística, energia, P&D e formação executiva — tudo “conversando”.


Para o Brasil — e especialmente para a Amazônia — a lição não é “copiar a China”. A lição é perceber o que está em jogo. 

Quem dominar instituições de ciência, tecnologia e formação executiva global domina a capacidade de gerar riqueza, orientar investimentos e liderar cadeias internacionais.

A Amazônia, se quiser deixar de ser apenas “tema” e virar plataforma de soluções, precisa de ambientes institucionais que conectem: bioeconomia + engenharia + dados + finanças + governança + mercado global.

Isso conversa diretamente com agendas como bioeconomia de escala, industrialização limpa, financiamento climático, rastreabilidade, economia digital aplicada à floresta e formação de lideranças com capacidade de negociação internacional.