Com o crescimento acelerado do mercado, as baterias emergem como peça-chave para integrar renováveis, reduzir emissões e fortalecer a infraestrutura energética no Brasil.
O armazenamento de energia por baterias deixou de ser aposta futura e passou a ocupar posição estratégica no setor elétrico brasileiro. Projeções da consultoria Clean Energy Latin America (CELA) indicam que o volume de sistemas BESS comercializados no Brasil em 2025 foi de cerca de 1,9 GWh, salto relevante frente a 2024. O valor de mercado também avançou de forma expressiva, ultrapassando R$ 2,2 bilhões.
O avanço é impulsionado pela maior presença de fontes intermitentes, como solar e eólica, e pela queda gradual nos custos das baterias de íon-lítio. Na América Latina, além da expansão das energias renováveis, cresce a eletrificação do transporte e a necessidade de dar estabilidade a redes elétricas mais complexas.
Sistema UBESS utiliza baterias para armazenar energia e garantir estabilidade à rede elétrica, ampliando a eficiência e a segurança no fornecimento. Foto: UCB Power
No Brasil, o tema ganha expectativa crescente com o primeiro leilão federal voltado a sistemas de armazenamento de grande porte, previsto para abril, que atrairá empresas nacionais, globais e grupos asiáticos já ativos no setor elétrico do país. Dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) mostram que projetos de energia concentraram 45% dos investimentos chineses no país entre 2007 e 2024. A disputa tende a envolver gigantes internacionais e companhias brasileiras interessadas em diversificar seus portfólios no campo da transição energética.
Paralelamente, o mercado B2B se fortalece. Indústrias adotam baterias para reduzir picos de consumo e proteger processos sensíveis, enquanto a presença de data centers no Brasil aumenta e amplia a busca por soluções capazes de garantir operação contínua com menor pegada de carbono.
Há ainda nichos pouco explorados, como o uso de armazenamento em regiões de fronteira para reforçar a segurança energética regional e a eletrificação de frotas fluviais e pesadas na Amazônia. Nesse contexto, empresas com presença industrial no país e longa experiência em regiões isoladas, como a UCB Power, sinalizam o potencial do Brasil como base de desenvolvimento de soluções adaptadas a climas tropicais.
Combinando as fontes hidrelétricas, solar, eólica, os biocombustíveis e as novas tecnologias de armazenamento, o país se posiciona como laboratório de modelos energéticos híbridos, capazes de atender tanto à demanda interna quanto a mercados emergentes com desafios semelhantes ligados à transição energética.
Nova fase da política climática dos EUA corta pesquisa científica, flexibiliza regras ambientais e retira o país de acordos globais, com impactos no mercado de carbono e na governança climática internacional.
A política climática dos EUA entrou em uma nova fase de inflexão em 2026, devido aos direcionamentos do governo de Donald Trump. Sob o argumento de reduzir custos, fortalecer a competitividade industrial e priorizar o preço da energia para o consumidor, o país se posiciona a favor de petróleo e gás, ao mesmo tempo em que revisa compromissos multilaterais e regulações ambientais internas.
Em janeiro, os Estados Unidos formalizaram nova retirada do Acordo de Paris e anunciaram a saída da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), medida considerada mais profunda do que a decisão adotada no primeiro mandato de Donald Trump.
O memorando presidencial, de 7 de janeiro de 2026, determinou a revisão ou o desligamento dos EUA de 66 organismos internacionais, incluindo instâncias ligadas à ONU e ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Com isso, cientistas ligados ao governo deixam de contribuir oficialmente com relatórios que orientam decisões globais sobre o clima. A mudança marca um dos movimentos mais incisivos da política climática dos EUA nas últimas décadas e coloca o país fora do principal fórum multilateral sobre o tema.
A ampliação da exploração de petróleo no Alasca ilustra a reorientação da política climática dos EUA em favor da expansão fóssil e da competitividade energética. Foto: Daniel Acker/Bloomberg
Internamente, o Escritório de Gestão e Orçamento, sob liderança de Russell Vought, propôs cortes significativos em pesquisa ambiental. Projetos da NOAA e da NASA voltados à observação da Terra enfrentam redução de recursos, enquanto a National Science Foundation pode ter retração expressiva em programas de energia limpa. Conteúdos federais sobre justiça ambiental e avaliações climáticas também foram removidos de páginas oficiais, sob justificativa de revisão técnica, uma sinalização adicional da reorientação da política climática dos EUA.
Na área regulatória, a EPA, comandada por Lee Zeldin, iniciou processo para enfraquecer a chamada “Good Neighbor Rule”, que obriga estados a conter emissões que afetam territórios vizinhos. A agência também sinalizou flexibilização de padrões de partículas finas e adiamento de exigências relacionadas a PFAS, os chamados químicos eternos, ampliando a autonomia estadual em nome do “federalismo cooperativo”.
Em conjunto, o Departamento de Energia, liderado por Chris Wright, e o Departamento do Interior, sob Doug Burgum, impulsionam o programa de expansão da produção fóssil. Proteções ambientais no Alasca foram revistas para liberar áreas à exploração, enquanto projetos de eólica offshore sofreram suspensão temporária. Estimativas indicam que, após anos de queda, as emissões norte-americanas voltaram a subir em 2025 e 2026, consolidando uma consequência drástica das mudanças estruturais na política climática dos EUA.
“Ao tratar da realidade amazônica, a presidente do TCE-AM ressaltou que a garantia dos direitos fundamentais na região exige atenção especial às suas especificidades territoriais, sociais e ambientais”
Durante seminário internacional, Yara Amazônia Lins defendeu os direitos fundamentais como base da justiça social, da democracia e da dignidade humana
A presidente do Tribunal de Contas do Amazonas (TCE-AM), conselheira Yara Amazônia Lins, destacou o papel do poder público na garantia dos direitos fundamentais durante a abertura do Seminário Internacional “Novas Perspectivas dos Direitos Fundamentais”, realizado nesta sexta-feira (6), na sede do Tribunal, em Manaus. O evento reuniu mais de 300 participantes, entre autoridades, juristas, servidores, estudantes e representantes da sociedade civil.
“Quando algo não vai bem na sociedade, é aos direitos fundamentais que devemos recorrer como remédio”
Afirmou a presidente em seu discurso de abertura, ao enfatizar que a efetivação desses direitos não se limita ao campo jurídico, mas representa um compromisso ético e institucional de toda a sociedade — especialmente em contextos marcados por profundas desigualdades sociais.
Segundo Yara Amazônia Lins, os direitos fundamentais ultrapassam as liberdades individuais e abrangem também os direitos sociais, econômicos, culturais e ambientais, essenciais para assegurar condições dignas de vida e fortalecer a democracia brasileira.
Amazônia, desigualdades e justiça social
Ao tratar da realidade amazônica, a presidente do TCE-AM ressaltou que a garantia dos direitos fundamentais na região exige atenção especial às suas especificidades territoriais, sociais e ambientais. Entre os desafios destacados estão a proteção do meio ambiente, o respeito aos povos indígenase ribeirinhos e a ampliação do acesso a serviços essenciais, como saúde, educação, infraestrutura e justiça social, em um território extenso e de difícil acesso.
Para Yara Lins, promover direitos na Amazônia pressupõe políticas públicas sensíveis ao território, diálogo permanente com as comunidades e atuação integrada das instituições públicas.
Imagem criada por IA
Ouvidoria, escuta social e transparência
O seminário integra a agenda de formação institucional e aproximação com a sociedade promovida pela Presidência e pela Ouvidoria do TCE-AM e marcou o início das comemorações pelos 20 anos da Ouvidoria do Tribunal, criada em 9 de fevereiro de 2006.
Segundo a presidente, as duas décadas de atuação da Ouvidoria foram marcadas pela escuta ativa da população, pelo fortalecimento do diálogo institucional e pela ampliação da transparência pública. Ela destacou ainda o papel estratégico das ouvidorias como canais de aproximação entre o cidadão e as instituições, contribuindo para o aumento da confiança social no poder público.
Controle público orientado ao cidadão
Encerrando sua fala, Yara Amazônia Lins enfatizou que o Tribunal de Contas do Amazonas vai além da fiscalização dos recursos públicos, atuando também de forma orientadora e pedagógica para a melhoria da gestão pública.
“O controle exercido pelo Tribunal tem como finalidade assegurar que o dinheiro público seja aplicado em benefício da população e contribua, de forma concreta, para a efetivação dos direitos fundamentais”, concluiu.
“Flávio Dino determinou que o Parlamento elabore uma legislação nacional para regulamentar, de forma definitiva, quais verbas indenizatórias podem ser admitidas como exceções ao teto constitucional.”
Decisão provisória determina interrupção imediata de pagamentos sem base legal específica e dá 60 dias para órgãos dos Três Poderes, em todas as esferas, reavaliarem adicionais remuneratórios e indenizações.
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026, em caráter provisório, que órgãos dos Três Poderes realizem uma revisão e suspendam imediatamente os chamados “penduricalhos” ilegais no serviço público — verbas que, na prática, podem elevar a remuneração acima do teto constitucional.
Segundo o despacho, a medida busca coibir pagamentos que ultrapassem o teto do funcionalismo, hoje fixado em R$ 46.366,19, valor correspondente ao salário dos ministros do STF.
O que Dino determinou
A decisão estabelece o prazo de 60 dias para que todos os órgãos, nos níveis federal, estadual e municipal, reavaliem verbas remuneratórias e indenizatórias que não tenham fundamento legal específico.
Pelo texto, apenas verbas expressamente previstas em lei aprovada no Congresso Nacional, assembleias legislativas ou câmaras municipais poderão ser mantidas. Pagamentos sem essa base legal deverão ser interrompidos ao fim do prazo.
“Império dos penduricalhos”
No despacho, Dino critica o que chama de “império dos penduricalhos”, sustentando que verbas indenizatórias vêm sendo usadas para “maquiar” remunerações e contornar o limite fixado pela Constituição. O ministro afirma ainda que a multiplicação dessas rubricas alcançou patamares incompatíveis com princípios como legalidade, moralidade e eficiência previstos no artigo 37 da Constituição.
‘Penduricalhos’ ilegais no serviço público; decisão vale para os Três Poderes da República — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução
Congresso é cobrado: lei nacional para definir exceções ao teto
Além de ordenar a revisão e suspensão, Dino determinou que o Parlamento elabore uma legislação nacional para regulamentar, de forma definitiva, quais verbas indenizatórias podem ser admitidas como exceções ao teto constitucional.
Próximos passos
A decisão ainda precisa ser submetida ao Plenário do STF para referendo dos demais ministros, em data a ser definida pela presidência da Corte, atualmente com o ministro Edson Fachin.
TRANSIÇÃO ENERGÉTICA. Mais que um plano técnico para 2026.Um pacto silencioso e decisivo entre indústria, território e futuro.
A apresentação dos resultados da Pesquisa Diagnóstica do Grupo de Trabalho de Transição Energética do CIEAM, conduzida pela Comissão de Transição Energética da entidade, não deve ser lida apenas como um levantamento técnico sobre eficiência energética. Ela representa, na prática, o primeiro movimento coordenado da indústria amazonense para assumir protagonismo em uma das agendas mais sensíveis do território: a transição da matriz energética em uma região onde mais de 1 milhão de pessoas ainda dependem de geradores a diesel para sobreviver.
Ao colocar o tema no centro da reunião de diretoria, o CIEAM sinaliza que a transição energética deixou de ser um debate periférico, ambiental ou reputacional. Ela passa a ser tratada como questão de competitividade industrial, segurança energética e responsabilidade social ampliada, conectando o chão de fábrica às comunidades isoladas, à logística amazônica e ao futuro do próprio modelo de desenvolvimento regional .
Um diagnóstico que revela maturidade — e um novo desafio
Os dados apresentados são claros: a indústria associada ao CIEAM já compreende a importância estratégica da transição energética. A média de familiaridade com os conceitos é elevada, e há consenso absoluto de que redução de custos e segurança energética são os principais motivadores para agir. Não se trata de idealismo climático, mas de pragmatismo econômico — e isso é uma virtude, não uma limitação .
Ao mesmo tempo, o diagnóstico revela um ponto crítico: existe um descompasso entre conhecimento e implementação. A maioria das empresas já avançou nas chamadas soluções básicas — como iluminação LED e ações de conscientização —, mas a adoção de tecnologias mais estruturantes, como sistemas avançados de gestão de energia (EMS), monitoramento inteligente, armazenamento e integração de fontes renováveis, ainda é incipiente .
Esse gap não é técnico. Ele é financeiro, informacional e institucional.
O custo invisível do diesel — e a urgência amazônica
A relevância dessa agenda extrapola os muros do Polo Industrial de Manaus. Na Amazônia profunda, em comunidades ribeirinhas, aldeias indígenas, vilas isoladas e sistemas híbridos precários, o diesel segue sendo a espinha dorsal da geração de energia. É caro, poluente, logisticamente complexo e socialmente injusto.
Cada litro transportado por rios e estradas precárias carrega um custo invisível: para o Estado, para o meio ambiente e para populações que vivem sob racionamento, instabilidade e tarifas implícitas altíssimas. A transição energética, aqui, não é discurso global — é condição de sobrevivência.
Ao estruturar uma agenda focada em baixo custo com sustentabilidade, o GT do CIEAM toca no ponto mais sensível e mais promissor dessa equação: não há transição possível na Amazônia se ela não for economicamente viável. Sustentabilidade que encarece a energia aprofunda desigualdades. Sustentabilidade que reduz custos cria adesão, escala e legitimidade.
O novo papel do CIEAM: de referência técnica a plataforma de execução
Talvez o achado mais estratégico da pesquisa seja institucional: 90% das empresas apontam o CIEAM como a principal autoridade e fonte de confiança no tema da transição energética . Isso confere à entidade uma responsabilidade inédita.
O plano de ação proposto — com capacitação aplicada, conexão com fornecedores, estruturação de projetos-piloto e articulação com financiamento verde — reposiciona o CIEAM como hub integrador. Não apenas quem fala sobre transição, mas quem reduz risco, organiza informação, conecta soluções e transforma intenção em projeto executável.
Essa mudança é decisiva. As empresas não pedem mais teoria. Pedem respostas objetivas: qual tecnologia contratar, com que fornecedor, com que modelo financeiro e em quanto tempo o investimento se paga.
Uma agenda industrial que aponta para fora do Polo
Ao organizar pilotos, gerar casos reais e mensuráveis e documentar resultados, o CIEAM cria algo ainda mais poderoso: referências replicáveis. O que funciona dentro do Polo pode — e deve — orientar soluções para comunidades isoladas, sistemas públicos, cadeias produtivas regionais e políticas energéticas adaptadas à realidade amazônica.
Nesse sentido, a iniciativa do GT de Transição Energética não movimenta apenas os associados. Ela reposiciona a indústria como aliada estratégica da Amazônia real, aquela que vive longe das redes, dependente do diesel, invisível nos grandes debates nacionais.
Transição energética como pacto com o território
O que está em curso não é apenas um plano técnico para 2026. É a construção de um pacto silencioso, porém decisivo, entre indústria, território e futuro. Um pacto que reconhece que competitividade e sustentabilidade não são opostos, desde que a transição seja desenhada com inteligência econômica, sensibilidade social e rigor técnico.
Ao assumir essa agenda, o CIEAM reafirma sua vocação histórica: liderar quando o desafio é estrutural, articular quando o problema é complexo e agir quando o tempo exige decisão.
Na Amazônia, transição energética não é tendência.
É urgência. E, agora, começa a ganhar método, liderança e direção.
“Votar é escolher: escândalos não surgem do nada — são, quase sempre, o desfecho previsível de escolhas feitas sem atenção, sem memória e sem critério”
Há uma armadilha silenciosa operando; no tempo das redes: a velocidade. Tudo nos empurra a reagir antes de compreender, a julgar antes de verificar, a escolher antes de pensar. O ensaio “Os saqueadores: quem merece indignação no tempo das redes”, de Damares Medina, publicado pela Revista Liberta, do ICL, toca exatamente nesse ponto sensível: a indignação pública hoje é mais moldada pela narrativa do que pela dimensão real do dano social.
A pesquisa citada no texto revela algo inquietante, mas compreensível. Quando perguntadas sobre o que consideram mais grave para a sociedade, as pessoas apontam primeiro a corrupção política, depois os crimes contra trabalhadores e, por último, práticas econômicas que corroem renda e dignidade, como os juros elevados. A hierarquia faz sentido emocionalmente. A corrupção tem rosto, nome, escândalo, manchete. Ela cabe em um vídeo curto, em um meme, em uma acusação direta. Já os mecanismos financeiros e estruturais que também saqueiam o futuro são difusos, técnicos, difíceis de traduzir em indignação imediata.
Foto divulgação
Esse desequilíbrio não é um defeito moral do eleitor. É uma consequência direta de um ambiente informacional que premia o impacto rápido e pune a complexidade.
Quando a indignação é guiada, o voto corre risco
O problema começa quando essa indignação legítima deixa de ser critério e vira apenas combustível emocional. No tempo das redes, muitos candidatos aprenderam a operar exatamente nesse terreno: amplificam a revolta, encenam moralidade absoluta e oferecem culpados prontos — quase sempre os mesmos — enquanto escondem suas próprias contradições, alianças e práticas.
O ensaio da Liberta sugere, ainda que indiretamente, um alerta central para o eleitor …a corrupção que mais nos revolta costuma ser aquela que já aconteceu; a que menos percebemos é a que está prestes a se eleger. A história política brasileira está repleta de personagens que chegaram ao poder embalados por discursos inflamados contra “tudo isso que está aí” e, pouco tempo depois, passaram a figurar em investigações, delações e reportagens policiais.
Não por acaso, muitos desses perfis têm algo em comum: vivem de performance, não de trajetória; de narrativa, não de entregas; de espetáculo, não de método.
Biografias falam mais do que slogans
Um dos antídotos mais eficazes contra esse ciclo é olhar para a política com menos pressa e mais memória. Candidatos não surgem do nada. Eles carregam histórias, vínculos, padrões de comportamento. Quando se observa com atenção, fica claro quem construiu uma trajetória baseada em trabalho consistente e quem apenas saltou de indignação em indignação, sempre procurando a próxima câmera.
A retórica anticorrupção, quando desacompanhada de coerência pessoal e compromisso com transparência real, costuma ser apenas um disfarce elegante para velhas práticas. O ensaio aponta, com elegância, que a moralização excessiva do debate público pode se tornar, paradoxalmente, uma ferramenta de ocultação. Quanto mais alguém grita virtude, menos tempo sobra para examinar seus atos.
O dinheiro público não aceita improviso moral
Votar é, no fim das contas, entregar a alguém a caneta que decide o destino do orçamento, das políticas públicas e das prioridades sociais. Não é um gesto simbólico; é um ato profundamente material. Por isso, escolher mal não gera apenas frustração — gera prejuízo concreto, sobretudo para os mais pobres, que dependem mais diretamente de serviços públicos bem geridos.
O ensaio da Liberta nos lembra que há diferentes formas de saque. Algumas são explícitas, escandalosas, ilegais. Outras são silenciosas, travestidas de incompetência, vaidade ou populismo fiscal. Em comum, todas retiram recursos de quem mais precisa e os devolvem em forma de privilégio, ineficiência ou corrupção.
Quando o eleitor se deixa conduzir apenas pela emoção do momento, ele corre o risco de confundir indignação com critério e barulho com integridade.
O gesto mais radical hoje é pensar antes de votar
Num ambiente em que tudo pede reação imediata, pensar virou um ato quase subversivo. Ler um texto longo. Investigar uma biografia. Comparar discursos com votações e decisões reais. Desconfiar de quem oferece respostas simples para problemas complexos.
O ensaio “Os saqueadores” não pede menos indignação — pede indignação melhor informada. Aquela que não se esgota no compartilhamento, mas se transforma em escolha responsável. Aquela que não se satisfaz com heróis improvisados, mas exige seriedade, método e compromisso público.
Antes de votar, vale lembrar: escândalos não surgem do nada. Eles são, quase sempre, o desfecho previsível de escolhas feitas sem atenção, sem memória e sem critério.
Pensar dá trabalho. Mas remediar um mau voto custa muito mais.
Se o PIM não cria demanda estruturada, contratos piloto, homologação rápida e caminho de escala, ele importará soluções e exportará futuro. E, mais uma vez, o dinheiro circula, mas a inteligência produtiva não se fixa.
Coluna Follow-Up
O Relatório 1 do Projeto ANA, da UFAM, registra um fato que deveria constranger qualquer mesa de decisão na Amazônia: em 21 anos, a participação de insumos regionais no Polo Industrial de Manaus caiu de 32,38% (2004) para 18,81% (2024). O estudo — Rocha, Lasmar e Costa (2026) — evita moralismo e trabalha com sobriedade.
Mas o dado é um aviso de incêndio: o Polo Industrial de Manaus segue produzindo, porém cada vez menos a partir do território. E quando a produção se descola do território, o que se perde não é apenas um fornecedor: perde-se a capacidade de gerar encadeamento, escala, aprendizado e tecnologia local. Ou seja: perde-se a chance de transformar indústria em desenvolvimento.
A primeira reação de bom senso é recolocar o debate no chão da fábrica.
Insumo regional nunca foi decreto. Sempre foi resultado. Câmbio, escala, estratégia global, logística e requisitos técnicos pesam — e pesam muito. O erro é fingir que basta “querer”. Cadeia produtiva não nasce por bravata. Nasce quando existe previsibilidade, competitividade e tempo de maturação. Só que o gráfico não está pedindo romantismo: ele está pedindo inteligência. Porque 21 anos de queda não são acaso: são sistema.
Caixa para demandas estranhas ao propósito
E então chegamos ao ponto que o estudo não precisa escrever — mas que a realidade escancara: a Amazônia não sofre apenas de falta de recursos; sofre de precariedade na gestão dos recursos que já existem. A indústria incentivada, que já responde por cerca de 30% da riqueza gerada em toda a Região Norte, sustenta repasses generosos para fundos e instrumentos locais. Só o FTI e o FMPES movimentam algo em torno de R$ 2 bilhões por ano.
Este deveria ser o combustível do adensamento, da diversificação e da regionalização produtiva. Mas, na prática, o dinheiro frequentemente se dispersa, se dissolve, se burocratiza — ou pior: vira caixa para demandas estranhas ao propósito. O resultado é um paradoxo: a indústria paga, mas a cadeia não escala; o recurso existe, mas a base produtiva regional não amadurece; a contribuição entra, mas o território não vira mercado de fornecedores.
Um grande escândalo civilizatório
É aqui que o problema do adensamento do PIM deixa de ser apenas industrial e se torna um espelho da economia amazônica inteira. A Amazônia é uma região de riqueza natural e cultural monumental — e, ao mesmo tempo, convive com municípios de IDH muito baixo, pobreza persistente, insegurança alimentar e falta de serviços básicos.
Amazonas e Pará concentram localidades com indicadores dramáticos; no Amazonas, exemplos como Atalaia do Norte, Itamarati e Santa Isabel do Rio Negro lembram que o “Brasil profundo” tem CEP amazônico. Esse é o grande escândalo civilizatório: uma região decisiva para o clima do planeta, mas incapaz de garantir um padrão mínimo de bem-estar ao seu povo.
E por que isso importa para a discussão do PIM?
Porque a queda do adensamento não é um acidente isolado — ela é parte de um modelo amazônico recorrente: ciclos de riqueza que não viram desenvolvimento humano. A região vive booms — da grilagem ao desmatamento, das atividades predatórias a economias de curto prazo — que geram benefícios efêmeros e deixam, depois, o colapso social e a depredação.
O “paradoxo amazônico” não é falta de ativos: é incapacidade de converter ativos em oportunidades. Não é apenas ausência de produção: é ausência de governança.
O baixo IDH na Amazônia é multifatorial e cruelmente conhecido
Educação estagnada e baixa escolaridade média; dificuldade de acesso à saúde em áreas remotas; logística encarecida e exaustiva, com comunidades que levam dias para chegar à sede municipal; insegurança fundiária e conflitos por terra que incentivam a economia predatória; urbanização desordenada; violência e facções ocupando o vácuo do Estado.
E um dado simbólico, incômodo: mesmo onde necessidades básicas melhoram, o índice de Oportunidades — acesso a educação superior, liberdade individual, segurança — permanece humilhantemente baixo. Em outras palavras: a Amazônia, muitas vezes, melhora o prato do dia, mas não abre o futuro.
O PIM deveria ser o grande contraexemplo
A economia legal, industrial, capaz de irrigar o território com tecnologia, emprego, arrecadação e encadeamentos. Mas o que o estudo da UFAM sugere, ao registrar duas décadas de queda nos insumos regionais, é que o Polo pode estar sendo tragado pelo mesmo padrão amazônico: dinheiro que entra e não transforma; recursos que circulam e não ficam; crescimento que não se converte em desenvolvimento.
A diferença é que, aqui, o paradoxo é mais vergonhoso: porque há instrumentos, há fundos, há contribuições, há massa crítica — e ainda assim a cadeia regional emagrece.
Falta de prioridade ou precariedade de gestão?
Por isso, a frase precisa ser dita com todas as letras: o problema do adensamento também é um problema de governança do dinheiro. A indústria repassa recursos volumosos; o território, porém, não recebe isso na forma de escala produtiva, fornecedores competitivos, inovação aplicada, logística inteligente e infraestrutura habilitante.
A conta não fecha — e quando a conta não fecha por 21 anos, não é “dificuldade”: é desenho institucional defeituoso. Ou falta de prioridade. Ou, no mínimo, precariedade de gestão.
A serviço de quem
E aí, sim, a discussão volta à indústria com mais honestidade. Não se trata de impor insumos regionais. Trata-se de tornar a cadeia local adotável: técnica, econômica e logisticamente. Não se trata apenas de trazer fábricas. Trata-se de trazer cadeias, puxar etapas produtivas, encurtar distâncias econômicas e tecnológicas e fazer o dinheiro circular mais tempo dentro do Amazonas antes de evaporar — não por fenômeno climático extremo, mas porque foi atender outros arraiais.
Se os recursos do FTI e do FMPES não se convertem, com nitidez, em adensamento e oportunidades produtivas, então é preciso coragem para perguntar: a quem eles estão servindo? E por quê?
Desconexão entre startups e chão de fábrica
Por fim, há um gargalo contemporâneo que grita dentro desse contexto maior: a desconexão entre startups e chão de fábrica. A Amazônia não pode se dar ao luxo de tratar startups como “adereço de evento”. Startup é fornecedor do século XXI — automação, eficiência energética, rastreabilidade, manutenção avançada, logística, qualidade.
Se o PIM não cria demanda estruturada, contratos piloto, homologação rápida e caminho de escala, ele importará soluções e exportará futuro. E, mais uma vez, o dinheiro circula, mas a inteligência produtiva não se fixa.
Oportunidades produtivas reais
A saída não é retórica. É arquitetura: foco em poucos arranjos produtivos para adensar de verdade; metas mensuráveis; transparência no uso dos recursos; e um Programa Ponte Industrial PIM–Startups, com compras de inovação, sandboxes industriais, laboratórios compartilhados e governança com cobrança pública de resultados.
Isso é política industrial séria resultante da interação com o poder público. E é, ao mesmo tempo, política social, porque desenvolvimento humano na Amazônia não será alcançado com promessas — mas com oportunidades produtivas reais, cadeias locais e dinheiro obedecendo missão.
O Relatório 1 do Projeto ANA não é munição contra o Polo. É um espelho. E ele pergunta, sem palavras: a Amazônia vai continuar rica em recursos e pobre em futuro? Porque quando uma indústria se distancia do território, ela não perde só fornecedores. Ela perde o futuro — e arrasta o território junto.
Com fábricas na Amazônia e foco em soluções críticas de armazenamento de energia, a UCB Power une inovação local e escala global para enfrentar os desafios energéticos do país.
A transição energética no Brasil ganha um novo capítulo com a entrada da multinacional chinesa Vision Group como acionista minoritária da UCB Power, empresa brasileira especializada em soluções de armazenamento de energia. A operação, além de reforçar o posicionamento da UCB como player global, destaca-se como um exemplo real de alianças internacionais para impulsionar a escala industrial sem descaracterizar a atuação local.
Fundada em 1973, a UCB Power mantém plantas em Manaus (AM) e Extrema (MG), além de sede em São Paulo e escritório em Rondônia, e possui forte inserção em regiões de difícil acesso energético. A empresa acumula experiência prática em levar soluções críticas a localidades remotas, longe dos grandes centros urbanos, o que a torna um caso singular na agenda de transição energética no país.
Sistema de baterias da UCB Power instalado em comunidade remota na Amazônia. A empresa tem vasta experiência em soluções energéticas em regiões de difícil acesso. Foto: Divulgação.
A parceria com a Vision — listada na Bolsa de Shenzhen e detentora de um robusto portfólio tecnológico, incluindo baterias de íons de lítio, chumbo-ácido e células de hidrogênio — representa uma aposta estratégica em inovação com respeito à identidade brasileira. Segundo Ronaldo Gerdes, CEO da UCB, o acordo permitirá “acesso direto à tecnologia, escala global e maior robustez industrial, sem abrir mão da nossa essência, da nossa marca e da proximidade com o mercado brasileiro”.
O movimento ocorre em um momento de forte expectativa para o setor, com o primeiro leilão federal para contratação de sistemas de armazenamento previsto para este ano e a crescente demanda por soluções B2B. A UCB Power também mantém parcerias comerciais na Ásia, com escritórios em Seul, na Coreia do Sul, e em Shenzhen, na China, cidade onde a Vision Group está listada na bolsa.
Com previsão de faturar R$ 800 milhões neste ano, a UCB Power torna-se um símbolo de como a transição energética pode ocorrer de fato a partir da realidade brasileira, priorizando aplicações críticas e respeitando os desafios regionais sem abrir mão da ambição internacional.
Os heróis da obstinação criativa: profissionais que recusam a retórica vazia, que enfrentam dados, complexidades e contradições com rigor técnico e responsabilidade institucional, e que compreendem que pensar logística na Amazônia é pensar soberania, desenvolvimento e futuro.
Coluna Follow-Up
Empreender na Amazônia é operar permanentemente na fronteira entre o possível e o necessário. Não se trata apenas de distância geográfica, mas de uma assimetria estrutural que impõe custos adicionais, riscos recorrentes e um grau de imprevisibilidade que nenhuma economia madura deveria naturalizar.
Ainda assim, há quase seis décadas, o setor produtivo instalado na região sustenta cadeias, empregos, inovação e arrecadação em um território que permanece estratégico para o país — mas frequentemente tratado como exceção logística.
Dois fatores simbolizam essa condição de forma inequívoca. De um lado, a BR-319, cuja degradação prolongada e indefinição institucional comprometem a previsibilidade de um eixo fundamental de integração nacional.
De outro, a estiagem, que nos últimos anos deixou de ser um evento episódico para se consolidar como variável estrutural do planejamento logístico amazônico. Entre a morosidade da infraestrutura terrestre e a vulnerabilidade da navegação em períodos críticos, empresas e trabalhadores são obrigados a responder com rapidez a desafios que extrapolam sua esfera de controle.
Nesse contexto, a resiliência do setor produtivo amazônico não pode ser confundida com conformismo. Ao contrário: ela se expressa na busca contínua por soluções técnicas, operacionais e institucionais capazes de mitigar riscos, reduzir custos sistêmicos e preservar a competitividade regional.
O que se observa é um esforço permanente de articulação com universidades, órgãos técnicos, agências reguladoras e instâncias federais, com o objetivo de transformar emergência em protocolo, improviso em planejamento e exceção em governança.
Essa postura revela uma verdade que precisa ser reconhecida: não é o heroísmo que sustenta a economia amazônica, mas a inteligência aplicada à adversidade. E nenhuma região do país deveria depender indefinidamente da coragem cotidiana de seus empreendedores para compensar déficits históricos de infraestrutura e coordenação pública.
É nesse ponto que se impõe o reconhecimento àqueles que escolheram o caminho mais exigente do debate qualificado e da construção de soluções duráveis. Os membros da Comissão de Logística do CIEAM representam os heróis da obstinação criativa: profissionais que recusam a retórica vazia, que enfrentam dados, complexidades e contradições com rigor técnico e responsabilidade institucional, e que compreendem que pensar logística na Amazônia é pensar soberania, desenvolvimento e futuro.
Sua atuação silenciosa, persistente e propositiva demonstra que, mesmo em um território marcado por desafios históricos, é possível substituir a queixa pela formulação, o improviso pela inteligência e a espera passiva pela ação estruturante. É essa obstinação — discreta, mas estratégica — que mantém o Amazonas em movimento e o Brasil conectado ao seu próprio destino.
Follow-up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal BrasilAmazoniaAgora
Da meta climática à execução, a transição energética avança sobre indústria, tecnologia e cadeias globais, redefinindo poder econômico, impactos ambientais e o papel do Brasil e da Amazônia.
“A implementação acelerada deve tornar-se nosso novo parâmetro de ambição diante da urgência climática.” A frase, presente na Nona Carta da Presidência da COP30, sintetiza a virada no debate global sobre a transição energética. Superada a etapa do consenso climático, o foco agora se desloca para a execução em larga escala.
André Corrêa do Lago, presidente da COP30. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.
A transição entra em sua fase mais decisiva. As perguntas deixaram de ser “se” ou “quando” e passaram a ser “quem lidera, quem fabrica e quem lucra”. A produção de painéis solares, baterias, eletrolisadores e redes elétricas tornou-se questão geopolítica, enquanto o controle das cadeias de suprimento passou a ser tratado como tema de soberania nacional.
Em 2025, os investimentos globais em transição energética atingiram US$ 2,3 trilhões, segundo a BloombergNEF. Foi o segundo ano consecutivo em que os aportes em energia limpa superaram os investimentos em petróleo e gás. Ainda assim, o setor enfrenta gargalos de implementação, saturação de cadeias produtivas e incertezas regulatórias: a taxa de crescimento caiu de 27% em 2021 para 8% em 2025.
A última Carta da Presidência da COP30 reforça o diagnóstico de que a questão climática já é consenso científico; o desafio agora é viabilizar infraestrutura, escala e coordenação política para resolvê-la.
A disputa tecnológica da transição: múltiplas rotas, um jogo de poder
Não existe uma via única para a transição energética. O processo envolve uma disputa aberta por tecnologias de geração, transporte e armazenamento de energia, com implicações econômicas e geopolíticas crescentes. Entre as rotas em disputa estão solar, eólica, hidrelétrica, nuclear e hidrogênio verde, cada uma com diferentes custos, riscos e níveis de maturidade.
O solar fotovoltaico consolidou-se como a tecnologia de expansão mais acelerada. Em 2025, a China se tornou o primeiro país a atingir mais de 1 TW de capacidade de energia solar instalada, enquanto mercados emergentes como Índia e Paquistão registraram crescimentos próximos de 92%, impulsionados pelos baixos preços dos painéis chineses.
Foto: Click Petróleo e Gás.
O hidrogênio verde desponta como elo estratégico para a descarbonização de setores industriais pesados e do transporte de longa distância.
Já o mercado de eletrolisadores, equipamentos que produzem hidrogênio a partir da eletricidade, está em expansão acelerada e deve atingir US$ 771,5 milhões até 2035.
Ao mesmo tempo, a transição expõe um desafio estrutural, as cadeias globais de minerais críticos seguem reproduzindo assimetrias históricas. Países do Sul Global concentram a extração de lítio, cobalto, cobre e níquel, mas permanecem na base da cadeia de valor, exportando matéria-prima e importando tecnologias patenteadas.
Mais de 77% das patentes em tecnologias limpas estão registradas no Norte Global, o que limita a capacidade de desenvolvimento autônomo dos países periféricos e aprofunda a dependência tecnológica.
Mineração em terras raras. Foto: Bloomberg.
O papel estratégico do armazenamento de energia
Por trás da disputa entre rotas tecnológicas, armazenar energia com eficiência é uma variável decisiva – embora pouco comentada. Os sistemas de armazenamento (BESS – Battery Energy Storage Systems) são essenciais para viabilizar fontes intermitentes como solar e eólica. Sem baterias, o excedente de geração se perde e a estabilidade das redes fica comprometida.
UCB Power: nacionalização tecnológica no armazenamento
A empresa brasileira UCB Power exemplifica esforços de nacionalização tecnológica no setor de armazenamento. Com mais de 50 anos de atuação e unidades em Manaus e no Sudeste, a empresa produz desde baterias de lítio LFP até sistemas completos de armazenamento, como o UBESS, voltados para comércio e indústria.
A recente entrada da chinesa Vision como sócia minoritária da UCB Power deve ampliar a escala industrial e a difusão dessas tecnologias no Brasil e na América Latina, fortalecendo a inserção do país em cadeias estratégicas da transição energética.
Vista aérea da unidade da UCB Power em Manaus, polo industrial estratégico para a transição energética e o desenvolvimento de soluções de armazenamento de energia no país. Foto: Divulgação/UCB Power.
A transição enfrenta um descompasso estrutural: o clima opera em anos, a indústria em décadas. A janela para limitar o aquecimento global a 1,5 °C se estreita, enquanto as emissões globais permanecem elevadas.
A construção de fábricas, redes elétricas, cadeias de suprimento e sistemas de armazenamento exige planejamento, licenciamento e financiamento de longo prazo, etapas bastante demoradas. A Presidência da COP30 alerta que, sem estabilidade política e coordenação contínua, a infraestrutura necessária não será construída no tempo exigido pela ciência.
China, política industrial e soberania energética
A transição energética tornou-se eixo central das estratégias nacionais. De olho em tudo isso, a China consolidou posição dominante e hoje fabrica 80% dos painéis solares, 60% das turbinas eólicas, 70% dos veículos elétricos e 75% das baterias, além de controlar o refino da maioria dos minerais críticos e concentrar 75% das patentes em energia limpa.
Em contraste, o posicionamento atual dos Estados Unidos sob o governo de Donald Trump tem sido abertamente contrário a políticas climáticas ambiciosas e de transição para energias renováveis. Em eventos internacionais como o Fórum Econômico Mundial em Davos, Trump criticou a política energética baseada em renováveis, chegando a caracterizá-la como “inviável”.
O governo Trump também tem executado um desmonte das políticas ambientais e uma ampliação da indústria de combustíveis fósseis. Tendo inclusive viralizado um bordão que simboliza tudo isso, o já famoso “Drill baby, drill”, em incentivo claro a exploração de recursos naturais para produção de energia altamente poluente.
Já a União Europeia tem focado em expandir sua capacidade de energia limpa e diminuir a dependência do mercado chinês e, desde 2019, conta com o Green Deal Industrial Plan, política centrada em financiamento direto e simplificação regulatória.
No Brasil, a principal política é a Nova Indústria Brasil (NIB), lançada em 2024, com previsão de R$ 300 bilhões em investimentos até 2026. A Missão 5 do programa prioriza bioeconomia, descarbonização e segurança energética, com metas como ampliar o uso de biocombustíveis e fortalecer a soberania mineral.
O país parte de uma posição estratégica, com 93% da matriz elétrica renovável, liderança em biocombustíveis e grandes reservas de minerais críticos. O desafio é transformar esse potencial em valor agregado industrial, evitando o papel histórico de exportador de commodities.
A soja é uma das principais matérias-primas para a produção de biocombustíveis no Brasil, especialmente do biodiesel. Foto: Neogen.
As fronteiras de transição e contradições na Amazônia
A Amazônia concentra algumas das maiores contradições da transição energética. Enquanto o bioma regula o clima global, ele também abriga cerca de 2,5 milhões de pessoas em sistemas isolados, dependentes de usinas a diesel caras e poluentes.
Porém, iniciativas e soluções tem tornado a energia limpa em vetor de transformação. Os projetos de energia solar com baterias, a eletrificação de escolas e postos de saúde e o fortalecimento de biocombustíveis a partir de produtos locais, demonstram como a transição pode promover inclusão produtiva e reduzir a dependência fóssil. Ao mesmo tempo, a pressão por novas frentes de exploração de petróleo na Margem Equatorial expõe o dilema entre o discurso verde e as práticas reais das políticas públicas.
Painéis solares geram e armazenam energia em baterias de lítio da UCB Power, solução que fortalece a transição energética e a estabilidade dos sistemas elétricos. Foto: Divulgação.
A transição energética deixou de ser apenas um compromisso climático e se consolidou como um processo de reconfiguração do poder global, no qual tecnologia, minerais e indústria definem novas hierarquias. Para o Brasil, o desafio é alinhar sua abundância de recursos naturais à capacidade de desenvolvimento tecnológico próprio. A era da retórica climática ficou para trás e começa agora o momento da aceleração geopolítica da transição energética.