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Anotações para o novo lustro da economia brasileira: 2026 a 2030 – a grande transformação – Parte III

III. O PLANEJAMENTO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DE ESTADOS E MUNICÍPIOS 

  • Projetos de Investimento
  • Aglomerações Produtivas de Micro e Pequenas Empresas

Paulo R. Haddad – Belo Horizonte -Fevereiro/2026

A partir do início de 2026, deverá ocorrer um amplo conjunto de debates durante o processo eleitoral relativo ao futuro da economia nacional e das economias estaduais. Elaborei 10 textos que, a partir de minhas experiências de planejamento nos três níveis de governo, durante algumas décadas, poderão eventualmente ser úteis como subsídios atualizados para propostas de planos, políticas públicas e projetos dos candidatos à Presidência da República e aos governos estaduais. Esses textos se referem ao resgate dos processos de planejamento de médio e de longo prazo, à avaliação das políticas públicas em andamento, à articulação das políticas macroeconômicas de curto prazo com as políticas de desenvolvimento sustentável (=crescimento econômico  globalmente competitivo + equidade social + sustentabilidade ambiental) e às propostas da estrutura de novos planos de governo. O décimo texto irá conter um esboço de uma proposta para uma Grande Transformação do Brasil, no próximo lustro.

“Tinha razão o Prelado, mas não basta ter razão, cumpre saber tê-la”.

Machado de Assis

“ O medo é, dos sentimentos humanos, o mais dissolvente, porque nos leva a fazer muita coisa que não queríamos fazer e deixar de fazer muita coisa que queríamos e desejávamos fazer”.

Josué de Castro

  1. INTRODUÇÃO: OS LIMITES DO POSSÍVEL

Muitos estados desmobilizaram, nas últimas décadas, os seus sistemas de planejamento ao restringir a função desses sistemas, principalmente a de ser o braço orçamentário do sistema fazendário. Trata-se de uma anomalia organizacional com consequências penosas e interdependentes do ponto de vista sustentável, cujos principais problemas e potencialidades socioambientais e socioeconômicas tendem a se equacionar de forma mais adequada através de um sistema de planejamento de médio e de longo prazo.

Como consequência, perde-se a visão estratégica da evolução da economia; os escassos recursos públicos são alocados numa perspectiva dominante de curto prazo; ao priorizar apenas a austeridade fiscal e a gestão da dívida pública estadual, espalham se incertezas no processo decisório da máquina administrativa pelas práticas de contingenciamento e de repressão fiscal; compromete-se a qualidade dos serviços públicos tradicionais (saúde, educação, justiça, segurança, infraestrutura econômica e social); etc.

Escassez de recursos fiscais e financeiros, endividamentos elevados, crescentes pressões de demanda para serviços sociais básicos: sem saída? O objetivo desse terceiro Estudo relativo às anotações para o novo lustro da economia brasileira (2026 a 2030) é mostrar, a partir de experiências de economias internacionais e nacionais, como é possível, mesmo no contexto de crise fiscal em muitas economias estaduais, promover o desenvolvimento de suas regiões e de municípios.

As experiências se relacionam ao modelo de desenvolvimento endógeno, dentro do estilo de planejamento participativo, e ao processo histórico de desenvolvimento regional na Terceira Itália. A ênfase do processo de desenvolvimento regional e local nos estados deverá ser menos de promoção industrial, através da atração de novas atividades econômicas, e mais na busca artesanal da melhoria da produtividade das atividades já implementadas nas unidades da Federação, ao longo de sua evolução histórica.

É evidente que as administrações estaduais devem cooperar com o esforço do governo federal para a estabilidade monetária do País, através do objetivo de equilibrar as suas contas e controlar a dívida pública sob sua responsabilidade. Mas não devem ter o receio de construir, do ponto de vista político-institucional, soluções inovadoras para a promoção do desenvolvimento sustentável. Não devem ter medo de percorrer novas trajetórias para o futuro das economias estaduais, mas é preciso saber fazê-lo. As anotações deste texto visam a contribuir para iluminar as trajetórias do que fazer e como fazê-lo.

O desenvolvimento local e regional se processa a partir das próprias energias e criatividade da sociedade local ou regional, através do tripé das forças dos mercados, das lideranças políticas e dos segmentos organizados da sociedade civil; ou seja, o desenvolvimento local não pode depender apenas de bons governos (poder público). É fundamental a mobilização social e política do Segundo Setor (mercado) e do Terceiro Setor (organizações não governamentais) para a formação de um processo de boa governabilidade*.

Quando um governador assumir o seu mandato, como ocorrerá em janeiro de 2027, ele buscará identificar quais os recursos de que irá dispor, nos próximos quatro anos, para realizar os compromissos que assumiu com o eleitorado. Usualmente, a resposta é dada em termos burocráticos dos recursos orçamentários, desconhecendo os recursos latentes tangíveis (capital natural, infraestrutura física e social, etc.) subaproveitados e os recursos intangíveis (capital humano, capital institucional, capital social, capital cultural, etc.).

O potencial de crescimento de regiões e municípios com menor nível de desenvolvimento pode ser ampliado se as lideranças políticas e comunitárias conseguirem mobilizar os seus recursos latentes. Nesse caso, poderiam somar os recursos latentes aos fatores de produção tradicionais e multiplicar a capacidade da sociedade para equacionar os problemas de desenvolvimento socioeconômico e socioambiental.

Recursos latentes são recursos humanos, tecnológicos e institucionais que permanecem subentendidos e não se manifestam, à espera de uma oportunidade favorável para serem ativados. Ou seja, somente emergem quando as circunstâncias político-institucionais são propícias para sua mobilização e quando as lideranças políticas e comunitárias percebem que os municípios e as regiões podem mais em termos de desenvolvimento sustentável.

Emergem, por exemplo, quando determinadas comunidades se organizam para realizar melhorias em suas condições de vida gradualmente. Os recursos latentes se manifestam por meio do espírito de iniciativa do empreendedorismo local, por eventuais poupanças financeiras e recursos materiais ociosos, pela capacidade de trabalho normal e extraordinário, pela criatividade em dar soluções inovadoras para antigos problemas, pela eliminação de desperdícios, etc.

As políticas públicas e os programas de governos que priorizaram esse estilo de desenvolvimento foram bem sucedidos quando valorizaram a endogenia e a participação. Um modelo de desenvolvimento endógeno tem, como ponto de partida, o momento em que as comunidades locais se organizam e se mobilizam, vencendo o estado de conformismo, de apatia ou de inércia. A participação se dá quando as comunidades locais, que são afetadas pelos custos e benefícios dos projetos de desenvolvimento, se envolvem na concepção e implementação, através de sugestões, críticas e dissidências. (ver Texto II)

É preciso que se faça um trabalho de conscientização dos diferentes grupos sociais das regiões e dos municípios, a fim de que percebam que o desenvolvimento local não é apenas um problema do governo federal ou do governo estadual. Felizmente, as sociedades locais estão aprendendo a fazer desenvolvimento econômico e social com a participação restrita do governo federal, ou, até mesmo, dos governos estaduais em termos de recursos financeiros e fiscais dos seus orçamentos.

Nos anos 1960 e 1970, as empresas públicas e as autarquias do governo federal foram responsáveis pelos principais investimentos realizados na promoção do desenvolvimento de muitas regiões, estados e municípios do País. Atualmente, há uma clara consciência de que a crise fiscal e financeira está dificultando as iniciativas do governo federal e dos governos estaduais, e de que as suas empresas ou têm sido privatizadas (siderúrgicas, mineração, petroquímicas, telecomunicações, etc.) ou, com destacadas exceções, estão passando por enormes dificuldades financeiras para concluir até mesmo projetos de investimento iniciados em décadas passadas; e de que o papel principal do governo federal passa a ser o de coordenação de uma agenda mais ampla dos interesses nacionais e estaduais (consistência macroeconômica, concepção e execução das políticas nacionais de desenvolvimento, garantia da estabilidade do pacto federativo, melhoria dos serviços públicos, etc.).

A reação a essas mudanças levou muitos líderes empresariais e políticos regionais e locais a abandonarem uma postura passiva e a procurar caminhos alternativos para o processo de desenvolvimento de áreas específicas, dependendo cada vez menos das incertezas e do comportamento errático dos recursos supralocais. Pouco a pouco, foram sendo registradas experiências de gestão urbana que colocavam a força da promoção do desenvolvimento econômico e social não apenas na atração e na negociação de recursos externos, mas, principalmente, na mobilização de recursos latentes disponíveis nas suas áreas de influência. Privilegiou-se o esforço endógeno, de dentro para fora, para se fazer desenvolvimento. Buscou-se a construção de parcerias interinstitucionais, entre as quais se destaca o SEBRAE, no equacionamento dos problemas das micro e pequenas empresas. Passou-se a destacar e a enfatizar o papel dos capitais intangíveis no processo de desenvolvimento regional e local.

Na área dos investimentos sociais, foi sendo descoberta a possibilidade de equacionar os problemas de habitação popular, nutrição, saúde e educação, sem depender das grandes e ineficientes burocracias governamentais ou de programas e políticas públicas centralizados em Brasília, mas utilizando recursos (naturais, empresariais, organizacionais) disponíveis no âmbito local ou microrregional. As comunidades se mobilizaram e, com menores custos e maiores inovações, foram gerando soluções novas para velhos problemas sociais, em um incontável número de experiências bem-sucedidas.

Na área de investimentos diretamente produtivos, houve também maior ênfase no esforço endógeno das comunidades locais como base para uma trajetória sustentável de crescimento. Na execução desses programas alternativos de desenvolvimento, têm sido levados em consideração os seguintes aspectos:

  • os empreendimentos incentivados são de micro, pequena e média escala, formando um espaço onde novos empresários possam exercer a prática e o aprendizado da moderna economia de mercado;
  • os empreendimentos podem se constituir em atividades autônomas na relação direta com o mercado consumidor ou se estabelecer em uma multiplicidade de arranjos com grandes empresas, que vão desde a subcontratação, passando pelos licenciamentos e concessões, articulados com sistemas de produção flexível;
  • nas regiões e localidades em que não há tradição empresarial consolidada, não bastam os incentivos financeiros para que se estruturem novos empreendimentos; é indispensável que haja um sistema de assistência técnica organizada (como os da EMBRAPA, do SEBRAE e das associações e federações empresariais) visando a apoiá-los na solução de problemas de natureza gerencial, de mercado, de produção, de tecnologia, de natureza fiscal e trabalhista, de natureza financeira. Essa assistência, contudo, não pode substituir as incertezas e os riscos típicos de todo o processo de investimento capitalista. Vale dizer, as escolhas do que produzir, de como produzir, de onde produzir, de para quem produzir são de arbítrio próprio dos empresários, os quais, mesmo com incentivos e estímulos financeiros, são os responsáveis últimos pelos riscos e pelas incertezas dos empreendimentos nas economias de mercado. Como dizia François Perroux, um dos maiores pensadores econômico do pós-II Grande Guerra: “Garantir o lucro é destruir o capitalismo”*.

Enfim, nenhuma região ou município pode se desenvolver apenas com seus próprios recursos. Há sempre a necessidade de se atrair capacidade empresarial, recursos tecnológicos e poupança financeira de “fora para dentro”. Mas, hoje está cada vez mais evidente que esse esforço de desenvolvimento precisa brotar nos corações e nas mentes das comunidades locais, num paradigma “de baixo para cima” ou “de dentro para fora”. (bottom-up and periphery-inward).

No Brasil, a polarização política tem gerado algum tipo de desconfiança sobre o papel do Terceiro Setor no processo de desenvolvimento regional e local, como se as suas organizações, principalmente as não governamentais, estivessem a serviço de alguma agenda oculta (interesses empresariais do exterior ao desestimular a comercialização de produtos agrícolas de áreas de desmatamento, externalidades negativas da exploração mineral, etc.). Em geral, essa desconfiança nasce de argumentos defensivos de produtores e exportadores que insistem em desrespeitar as estruturas regulatórias sociais e ambientais.

Em todos os países desenvolvidos, com democracias consolidadas, é fundamental que haja um Terceiro Setor estruturado e dinâmico para complementar as atividades típicas de governo e de corporações produtivas. O Terceiro Setor é constituído por organizações de iniciativa privada, sem fins lucrativos e que prestam serviços de caráter público, as quais se exprimem em fundações, associações comunitárias, organizações não governamentais, entidades filantrópicas, entre outras.

São características das organizações do Terceiro Setor, formalmente constituídas, estrutura básica não governamental, gestão própria, sem fins lucrativos, uso significativo de mão de obra voluntária. A partir de experiências de planejamento participativo com associações comunitárias, cabe acrescentar a essas características organizacionais: atuação ética e desinteressada, com visão de médio e de longo prazo e não imediatista.

Os bons governos inteligentes têm o maior interesse em apoiar as organizações do Terceiro Setor, que complementam as suas ações programáticas, na busca de uma sociedade economicamente eficiente, ambientalmente sustentável e socialmente justa. Da mesma forma, as organizações produtivas de direção lúcida, que não se limitam a criar valor para os seus acionistas, mas a criar valor para a sociedade, têm apoiado fortemente as atividades de organizações não governamentais, que têm por objetivo reduzir as mazelas da pobreza e da miséria, melhorar os níveis educacionais de grupos sociais específicos, apoiar projetos que visam a preservar, conservar e reabilitar os ativos e serviços ambientais, etc.

No caso das organizações não governamentais relacionadas com questões ambientais do País, há uma lógica específica que justifica a sua atuação. A maioria dos produtores e dos consumidores brasileiros trata os ativos (florestas, bacia hidrográficas, etc.) e os serviços ambientais como se fossem bens livres de uso comum, um mega almoxarifado de onde retiram recursos naturais (água doce, madeira, alimentos, etc.) e, igualmente, um mega lixão onde depositam os rejeitos e dejetos de seus processos produtivos e consuntivos (esgoto orgânico e inorgânico, dióxido de carbono, substâncias químicas danosas, etc.).

Para promover o desenvolvimento sustentável das regiões e municípios dos estados da União, é preciso mobilizar os recursos latentes disponíveis através de um modelo de desenvolvimento endógeno dentro do estilo de planejamento participativo, considerando os Grandes Projetos de Investimento (GPIs) assim como as aglomerações produtivas de micro e pequenas empresas.

B. OS GRANDES PROJETOS DE INVESTIMENTO: UMA APRESENTAÇÃO DIAGRAMÁTICA

A questão de como articular os grandes projetos de investimentos que se localizam em determinada unidade da Federação com os interesses regionais e locais, é um desafio que está presente entre nós, desde a II Grande Guerra. Nas diferentes etapas do processo de desenvolvimento nacional, as empresas privadas ou estatais de maior porte foram localizando os seus investimentos entre as diferentes regiões do País, trazendo para esses impactos muito poderosos em termos econômicos, sociais e ambientais.

Em algumas regiões, os novos projetos de investimento tinham a capacidade de reestruturar ou desestruturar todo o conjunto da economia local, por causa de seu tamanho, de suas repercussões e de sua logística. O ciclo de expansão da economia brasileira, nos anos 1970, foi, de fato, caracterizado pela liderança de inúmeros grandes projetos de investimento na estruturação inter-regional de novas cadeias de valor. 

Por grandes projetos de investimento se entende, usualmente, uma expressão que abrange “grandes unidades produtivas, a maioria das quais para o desenvolvimento de atividades básicas, como arranque ou início de possíveis cadeias produtivas para a produção de aço, cobre e alumínio; outras para a extração de petróleo, gás e carvão, dedicadas à sua exploração em bruto e/ou transformação em refinarias ou centrais termelétricas… grandes represas e obras de infraestrutura…complexos industriais, portuários, e, em outra escala, usinas nucleares, geotérmicas, etc.”*.

Para compreendermos o processo de articulação dos novos investimentos de grande porte com os sistemas produtivos locais e regionais, é preciso analisar os efeitos potenciais que as novas atividades econômicas (siderurgia, refinaria, mineração, hidroelétricas, etc.) podem gerar na economia regional ou local, os quais são classificados em (ver Diagrama 1):

Efeitos de dispersão ou de encadeamento para trás: dada a estrutura tecnológica da nova atividade econômica, essa necessitará de determinadas quantidades de insumos para produzir determinadas quantidades de produtos. A economia da região pode se beneficiar desses efeitos diretos de encadeamento para trás, produzindo parcela significativa desses insumos através do sistema produtivo existente ou da implantação de novos projetos industriais; os encadeamentos para trás podem gerar várias rodadas de efeitos positivos para a economia da região, pois as atividades beneficiadas pelos efeitos diretos necessitarão também de insumos, parcela dos quais poderá, eventualmente, também ser produzida na própria região (efeitos indiretos); ver, no Diagrama 2, o exemplo de um grande investimento siderúrgico a carvão vegetal;

Efeitos de dispersão ou de encadeamentos para frente: trata-se de beneficiamentos que podem ser realizados com os produtos da nova atividade econômica na própria economia da região, através de efeitos causados em atividades que utilizam esses produtos como insumos; ver exemplo no Diagrama 3;

Efeitos induzidos: são os provocados pela demanda final de bens de consumo ou de bens de capital em função do crescimento da renda regional; a implantação da nova atividade econômica na região e a produção resultante dos efeitos de encadeamento promoverão uma expansão nos mercados locais, a qual pode estimular o crescimento na produção local para o atendimento do consumo privado ou dos investimentos reais, dependendo do potencial de diversificação da economia regional; ver exemplo no Diagrama 4;

Efeitos Fiscaisdadas as características do sistema fiscal do País, o desenvolvimento de uma nova atividade econômica, com suas repercussões em atividades satélites ou complementares e sobre o processo de urbanização na região, sempre irá conduzir ao crescimento das receitas tributárias da região (próprias ou de transferências), por causa do aumento da circulação de mercadorias, da expansão dos setores terciários e dos acréscimos nos valores patrimoniais privados; ver exemplo no Diagrama 5.

DIAGRAMA 1

Impactos Hipotéticos de uma Nova Atividade Econômica sobre o Desenvolvimento da Região em que se Localiza


* Paulo R. Haddad – Três Ensaios sobre a Economia Brasileira: Livro 1 – A Amazônia e as Ideologias Ambientais; Livro 2 – Como as Regiões se Desenvolvem – Narrativas; Livro 3 – Planejamento e Políticas Públicas no Brasil. Ed. E-Galáxia, 2022.

* François Perroux foi pioneiro na concepção e na implementação de diversos experimentos de unificação econômica dos países europeus (Europe sans Rivage).

*Vainer, C. B. “Grandes Projetos e Organização Territorial: Os Avatares do Planejamento Regional”, em Margulis, S. Meio Ambiente: Aspectos Técnicos e Econômicos. IPEA, Rio, 1990. Haddad, P. R. “Os Novos Polos Regionais de Desenvolvimento no Brasil”, in João Paulo dos Reis Velloso (org.) Estabilidade e Crescimento: Os Desafios do Real. Ed. José Olympio, 1994. Paulo R. Haddad – Três Ensaios Sobre a Economia Brasileira. e-Galáxia,2022. Roberta Capello and Peter Nijkamp (ed.). Handbook of Regional Growth and Development Theories, EE, 2009.

ECONOMIA BRASILEIRA

Mercado de Trabalho                                Nível de Produção                                     Nível de Renda                                       Nível de Arrecadação

Regional                                                     Regional                                                   Regional                                                       Tributária

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DIAGRAMA 3

Efeitos Multiplicadores para Frente de uma Nova Atividade Econômica

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Efeitos Diretos                                           Efeitos Indiretos

Para Frente                                                             Para Frente

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As atitudes prevalecentes em relação aos grandes projetos de investimento, nas regiões onde se localizam, têm passado por três fases no Brasil. Inicialmente, uma fase de otimismo quanto às possibilidades de induzir o crescimento, a partir da geração de efeitos de transbordamento regional. Em seguida, uma fase de pessimismo quanto à efetividade das expectativas de realização dos efeitos de transbordamento previstos, tendo em vista os inúmeros “enclaves” que se formaram a partir dos grandes investimentos. E, finalmente, uma perspectiva mais ampla de inserir os grandes investimentos em um processo de planejamento mais compreensivo do desenvolvimento regional e local.

Dentro desta última linha, deve-se dar especial atenção ao fato de que os grandes projetos de investimento não resultam apenas em mazelas econômicas, sociais, culturais ou ambientais nas regiões em que se inserem, como parece encerrar contraditoriamente a análise de alguns casos pesquisados no Brasil, como, por exemplo, o Projeto Grande Carajás ou a Hidroelétrica de Samuel, na Amazônia. Eles podem contribuir de maneira significativa e insubstituível para a redefinição das potencialidades de desenvolvimento nessas regiões, através da melhoria na sua infraestrutura econômica e social, assim como da melhoria de acessibilidade aos mercados externos à região e da ampliação da disponibilidade de novos fatores locacionais (economias de urbanização, mão de obra qualificada, disponibilidade de insumos, etc.).

Neste contexto, as ações de políticas de desenvolvimento regional e local, no entorno das áreas em que se localizam os grandes projetos de investimento, devem se orientar no sentido da consolidação e da diversificação da base produtiva regional, através do aproveitamento das oportunidades de investimento potencialmente geradas pelos seus efeitos de dispersão para frente e para trás, definidos a partir das respectivas cadeias produtivas, assim como pelos seus efeitos induzidos.

Feitas estas considerações, podemos observar três padrões de articulação de um grande projeto de investimento com interesses econômicos e sociais da localidade ou da região em que se insere:

  1. padrão de enclave econômico: o empreendimento se abastece de insumos e serviços importados de outras regiões e do exterior; os seus produtos são beneficiados fora da região em que se insere; incentivos fiscais anulam os impactos tributários sobre os níveis de governo estadual e municipal; os investimentos públicos federais ficam orientados,  fundamentalmente, no sentido de garantir a infraestrutura econômica necessária para dar suporte à promoção do novo projeto; muitas vezes, o emprego gerado durante a fase de implantação do novo empreendimento se reduz de forma significativa durante a sua fase de operação, sendo que as necessidades de capacitação podem diferir em ambos os momentos;
  2. padrão de articulação seletiva: a direção do novo empreendimento estimula ações proativas de relações com as comunidades locais, de forma seletiva em tudo aquilo que possa atingir a sua imagem institucional: cuidados especiais com os impactos ambientais nas fases de implantação e de operação; compras de fornecedores locais em condições equivalentes de preço e de qualidade de bens e serviços; participação em alguns projetos locais de desenvolvimento cultural ou social; etc.
  3. padrão de articulação integrativa: o grau de integração entre os interesses da direção do empreendimento e os interesses locais e regionais se aprofundam nas seguintes direções: 1. o adensamento da cadeia produtiva do novo empreendimento na região em que se insere, levando em consideração as oportunidades de investimentos que os efeitos de dispersão para frente e para trás geram em sua fase de operação; 2. ampliação do volume de compras de bens e serviços locais em condições equivalentes de preço e qualidade; 3. internalização de parcela significativa do excedente econômico, formado pelo empreendimento na região, em projetos de ampliação, de modernização, de diferenciação ou de diversificação da produção regional ou local; 4. esforço conjunto com as lideranças locais na promoção das oportunidades de investimentos regionais; 5. realização de investimentos de preservação ambiental e de desenvolvimento sustentável nas áreas de influência direta e indireta do empreendimento, etc.

Se admitirmos que haja uma opção pelo padrão de articulação integrativa de um grande projeto de investimento em sua área de influência, podemos observar que:

  1. quanto mais desenvolvidas as regiões em que se localiza o investimento, maior será o número de arranjos e sistemas produtivos locais já consolidados com os quais deverá ocorrer a articulação integrativa;
  2. nas regiões menos desenvolvidas do País, as ações programáticas dos investimentos deverão se articular com a mobilização das potencialidades econômicas identificadas e hierarquizadas (clusters potenciais);
  3. os investimentos de infraestrutura econômica irão certamente ampliar a competitividade sistêmica dos arranjos e sistemas produtivos locais, consolidados ou potenciais, por meio da redução dos custos gerais de acessibilidade (transporte, comunicação, etc.);
  4. a melhoria dos determinantes de competitividade dos arranjos e sistemas produtivos locais irá adensar o valor econômico dos próprios investimentos de infraestrutura econômica em que se situam, por meio da expansão de carga, dos fluxos de pessoas e de informações, etc.
  5. sem uma adequada articulação entre os grandes projetos de investimentos e os diferentes arranjos e sistemas produtivos locais, é grande a chance de que possam se formar enclaves econômicos nas áreas de influência desses projetos.

Há diversos programas e projetos de desenvolvimento sustentável que compõem as ações de planejamento estratégico dos estados e municípios no Brasil que podem ser implementados nos territórios em que se localizam os Grandes Projetos de Investimentos, tanto nas áreas urbanas quanto nas áreas rurais. É evidente que fatores locacionais excluem alguns projetos de investimento que resultam dos efeitos de dispersão para frente e para trás a se instalarem na região, tais como: escala de produção, economias de urbanização, economias de aglomeração, etc., que são típicos da ação programática de micro e pequenas empresas que precisam de apoio técnico, financeiro e organizacional. 

C. COMO ORGANIZAR E IMPLEMENTAR UM ARRANJO PRODUTIVO LOCAL DE MICRO E PEQUENAS EMPRESAS*

Depois da Segunda Grande Guerra, a Itália era conhecida por ter uma Região Norte desenvolvida e uma Região Sul subdesenvolvida, tendo como referências, respectivamente, Milão e Sicília. A partir dos anos 1970, quando ainda eram muito graves as inconsistências macroeconômicas naquele país, as lideranças políticas, empresariais e comunitárias do Centro-Nordeste (Veneto, Emiglia-Romagna) conceberam um modelo de desenvolvimento local, que passou a ser conhecido como “modelo de desenvolvimento de distritos industriais da Terceira Itália”. Essa experiência deu excelentes resultados e as empresas localizadas nesses distritos são hoje responsáveis por mais de 50% das vigorosas exportações da Itália.

O modelo de desenvolvimento local da Terceira Itália se estendeu por outras regiões da Europa, constituindo, atualmente, uma macrorregião denominada de desenvolvimento do arco alpino (Nordeste da Itália, Rhone-Alpes na França, Baden, Württemberg e Baviera na Alemanha, Suíça e Áustria) com indicadores econômicos extremamente favoráveis. Nessa macrorregião, as micro, pequenas e médias empresas continuam a ser a principal fonte de emprego e dos investimentos em quase todos os setores da economia.

As experiências bem-sucedidas de desenvolvimento com base nas micro e pequenas empresas levaram o economista britânico, nascido na Alemanha, E.F. Schumaker,  a escrever uma coleção de ensaios, em 1973 –“Small is Beautiful: A Study of Economics as if People Mattered”.

Através de convênio de cooperação técnica com a PROMOS, agência da Câmara de Comércio localizada em Milão, o SEBRAE trouxe as experiências dos distritos industriais para o Brasil, a partir do ano 2000. No Brasil, adotou-se a denominação de Arranjos Produtivos Locais (APLs) para não confundir com os nossos distritos industriais (espaço urbano dotado de infraestrutura econômica, preparado para a atração de atividades industriais). Os distritos industriais italianos são uma instituição e não um espaço físico e tiveram como seu embrião conceitual a obra clássica de Alfred Marshall: “Princípios de Economia”(1890)*.

O distrito industrial italiano se define como um grupo de empresas (em geral, micro, pequenas e médias empresas) altamente concentradas geograficamente (em um município ou em uma região) que, direta ou indiretamente, trabalham para o mesmo mercado final (nacional ou internacional). As empresas de um distrito industrial italiano compartilham valores e são especificamente interligadas em um conjunto complexo de concorrência e cooperação, no qual a fonte principal de competitividade são os elementos de confiança, solidariedade e cooperação entre as empresas, resultante de estreitas interdependências de relações econômicas, sociais e comunitárias. O seu mote principal é o de cooperar para competir. Essa concepção foi adotada, adaptada e implementada dentro da realidade socioeconômica e socioambiental do Brasil pelas equipes técnicas do SEBRAE. (ver Texto II, D3)

Os fundamentos da competitividade moderna estão no desenvolvimento científico e tecnológico incorporado nas organizações públicas e privadas. Neste sentido, a sustentabilidade de um APL tem muito mais a ver com a qualidade do capital institucional humano e intelectual que comanda cada uma das suas atividades, do que com eventos efêmeros de natureza macroeconômica (apreciação ou desvalorização cambial) ou de políticas regionais (sistemas de incentivos em regime de guerra fiscal), que podem gerar competitividades espúrias.

Este terceiro texto procura registrar as experiências do Brasil com a promoção, estruturação e implementação de APLs nas diversas unidades da Federação. Registra o que deu certo e o que deu errado; as lições metodológicas para a construção do futuro; a sua adaptabilidade aos diferenciais regionais, setoriais e locais das micro e pequenas empresas brasileiras; as bases para a constituição de um modelo de desenvolvimento local e regional para o Brasil. Há uma expectativa de que essas sugestões possam ser úteis para os formuladores de propostas de planos de governo ao longo de 2026.

C.1. Um projeto em busca de um conceito: o que é um Arranjo Produtivo Local?

Nos diferentes programas e projetos do SEBRAE e de outras instituições públicas e privadas identificam-se diversas formas dos sistemas produtivos locais. Muitas vezes, há uma atividade econômica dominante que permite classificar o município ou a região pelas características dessas atividades como monoindustrial: município minerador, região do agronegócio, cidades de turismo histórico, etc. Outras vezes, o município se caracteriza por um grande projeto de investimento industrial (GPI) que atrai os seus fornecedores de insumos para o seu entorno espacial (por exemplo, a Fiat, em Betim/MG).

Nos municípios onde se localizam complexos industriais, observa-se um conjunto de atividades que estão sujeitas a importantes inter-relações de produção, comercialização e tecnologias (exemplos: complexo petroquímico de Camaçari, complexo metalmecânico do Vale do Aço).

Algumas cadeias produtivas têm na sua composição uma empresa-âncora, como na indústria automobilística ou na indústria alimentícia, capaz de estruturar os interesses empresariais a jusante e a montante. Por exemplo: empresas exportadoras de proteína animal do Oeste Catarinense orientam os seus fornecedores (geralmente pequenos produtores) quanto às condições fitossanitárias e ambientais nos seus processos produtivos, as quais são necessárias para atender às exigências dos países importadores de diferentes carnes.

A empresa–âncora, nesse tipo de situação, acaba atuando como uma agência coordenadora das indispensáveis transformações produtivas e organizacionais em termos de tecnologia, marketing, engenharia financeira, etc., ao longo de toda a cadeia produtiva.

A experiência das regiões e dos municípios que abrigam grandes projetos de investimentos e de infraestrutura econômica ou de exploração de recursos naturais não renováveis (hidroelétricas, exploração de petróleo, mineração, etc.) tem sido a de que os GPIs acabassem se transformando espacialmente em verdadeiros enclaves econômicos, nos quais os efeitos de dispersão ou de espraiamento para frente e para trás se dão alhures. Algumas vezes o SEBRAE tem sido convocado (Itabira, Macaé, Belo Oriente, Parauapebas, etc.) para incentivar a atração de pequenas e médias empresas para essas localidades ou para modernização empresarial dos pequenos negócios locais visando a integrar espacialmente o GPI com as empresas locais.

Em termos de agrupamentos produtivos é possível identificar centenas de (mais de 3000) conjuntos de micro e pequenas empresas, concentradas em municípios e microrregiões brasileiras, especializadas, em geral, na produção de bens de consumo não durável e no suprimento de seus insumos principais. Esses agrupamentos produtivos, por serem característicos das economias de muitos países e regiões por causa das vantagens competitivas locacionais das economias de aglomeração, adquirem diversas denominações, usualmente adotadas em cada país (ver Quadro 1 e Figura 1).

QUADRO 1

Concepções de aglomerados produtivos

  • agrupamento ou aglomerado maduro: agrupamento ou aglomeração de empresas em que há transações e interações entre seus agentes, com a presença de instituições de pesquisa e desenvolvimento (P&D), possibilitando a criação de externalidades positivas, mas limitadas pelo baixo grau de coordenação, com existência de conflitos de interesse e/ou desequilíbrios;
  • cluster ou agrupamento avançado: agrupamento maduro com alto nível de coesão e coordenação entre os agentes, possibilitando ganhos de externalidades para as empresas através da cooperação e aprendizado tecnológico e comercial (ver Figura 1).
  • sistemas locais de inovação: sistema local de produção que evoluiu no desenvolvimento da cooperação e do aprendizado coletivo para a inovação, sendo similar à ideia de cluster maduro, com forte ênfase no ambiente institucional local.
  • distrito industrial italiano: cluster maduro ou sistema local de inovação estruturado com base na pequena empresa, sem a existência de grandes empresas como âncora, se constituindo em uma relação de cooperação horizontal*.

*Breschi and F. Malerba – Clusters, Network, and Innovation, Oxford, 2007; Schmitz, H. (ed.) Local enterprises in the global Economy, EE, 2004; Cassiolato J. E. e Lastres, H.M.M. “Aglomerações, Cadeias e Sistemas Produtivos e de Inovação” in Cluster – Revista Brasileira de Competitividade, abril / Julho de 2002).


* Adaptação de texto preparado para o SEBRAE, em maio de 2023, baseado em experiências do autor em cerca de 70 APLs, em diferentes estados e municípios, considerando casos de diagnósticos preliminares (Relatórios de Percepção) até a implementação em diversos setores produtivos.

* Disponível em 2 volumes pela Abril Cultural, coleção Os Economistas, de 1982.

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Quando o SEBRAE, no ano de 2000, celebrou convênio com a PROMOS, câmara de comércio sediada em Milão e agência internacional de cooperação técnica, trouxe para o Brasil o melhor conhecimento das experiências da Itália (a Terceira Itália), com a concepção e a implementação dos distritos industriais italianos. 

O que se busca no desenvolvimento de municípios e de microrregiões dos estados, tendo como modelo o distrito industrial italiano, é:

  • intensa divisão de trabalho entre as empresas;
  • flexibilidade de produção e de organização;
  • especialização da mão de obra qualificada;
  • competição entre empresas baseada em inovação;
  • colaboração entre as empresas e demais agentes: fluxo de informações, identidade social e cultural entre os agentes, relações de confiança entre os agentes, complementaridades e sinergias;
  • alto grau de economias externas, redução de custos de transação, etc.

A concepção de arranjo produtivo local (APL) adotada nos programas e projetos do SEBRAE

Um arranjo produtivo local é uma concentração espacial de micro e pequenas empresas com grau diferenciado de coesão e características comuns, que pode ser:

a) horizontal, no mesmo setores ou setores conexos (couros e sapatos; madeira e móveis, confecções, etc.); b) vertical, setores estruturados em uma cadeia produtiva; c) misto, com estruturação setorial horizontal e vertical (proteína animal industrializada no Oeste Catarinense, por exemplo). 

A partir dessa base conceitual, é possível diferenciar as abordagens de arranjos produtivos locais, que se definem por: 

– uma concentração geográfica; 

– elevado grau de especialização setorial; 

 grupos de micro e pequenas empresas sem nucleação por grande empresa ou empresa-âncora; 

– baixo nível de eficiência coletiva baseada em economias externas e em ação conjunta; 

– coesão e intensidade na divisão de trabalho entre as firmas relativamente limitadas.

Algumas ilustrações de APLs são apresentadas neste texto. Esses APLs, em diferentes municípios ou microrregiões do País, podem ser objeto de estruturação e de implementação quando se leva em consideração a diferenciação de seus níveis de desenvolvimento, de organização empresarial e de estruturas de mercado.

Ilustração 1 – A metodologia de APLs adotada pelo SEBRAE se aplica a todos os tipos de agrupamentos, indiferentemente de seu status econômico, precisando, contudo, se adaptar ao nível de desenvolvimento de cada arquétipo e de cada território, principalmente de APLs carentes de nível adequado de organização produtiva*:

Agrupamento de Sobrevivência Informal: dentro deste contexto, a atividade econômica é preponderantemente informal, representada por grupos de pequenos produtores autônomos ou por grupos familiares; exploram a vantagem comparativa da existência de fatores básicos ou não especializados da região para a sobrevivência de maneira muito precária; exemplos: meleiros, artesanato, extrativismo vegetal, catadores de caranguejos, pesca artesanal, etc.

Agrupamento de Vantagem Comparativa: normalmente, apresenta-se como um agrupamento de micro, pequenas e médias empresas, muitas das vezes empresas informais que agregam reduzido valor aos fatores básicos da região; frequentemente têm problemas econômicos, sociais e ambientais, atuando como produtores de manufatura de primeiro beneficiamento; exemplos: gesso na Serra do Araripe (PE), fruticultura irrigada no Vale do Açu (RN), etc.

Agrupamento Modelo Tradicional de Crescimento: grupo formado por pequenas e médias empresas que, muitas vezes, convivem com algumas empresas de grande porte, mas com pouco relacionamento entre elas; apesar de já agregarem valor ao produto e ocuparem posições importantes no mercado regional ou nacional, falta clara visão estratégica de crescimento sustentável; exemplos: moda íntima feminina em Nova Friburgo (RJ), coureiro-calçadista em Campina Grande (PB), confecções em Tobias Barreto (SE), indústria de fogos de artifícios em Santo Antônio do Monte (MG), etc.

Ilustração 2 – APLs efetivos ou potenciais que necessitam da promoção de programas de competitividade sistêmica em um contexto de economia globalizada:

  • Agrupamento de Alavancagem Competitiva: nesse contexto, as micro e pequenas empresas convivem com grupo de empresas de grande porte, atuando em diversas etapas da cadeia produtiva; dentre elas, existem empresas que se destacam no mercado nacional, mas que encontram dificuldades estratégicas para competir no mercado internacional; exemplos: coureiro-calçadista no Vale dos Sinos (RS), cerâmica em Criciúma (SC), têxtil em Itajaí (SC), moveleiro na Serra Gaúcha (RS), etc.; na literatura de política industrial, esse tipo de agrupamento é conhecido como “stuck in the middle” (preso no meio do caminho).
  • Agrupamento Baseado em Empresa-Âncora: é um conjunto de pequenas e médias empresas que fornecem produtos/serviços para uma ou mais grandes empresas (âncora), geralmente empresas nacionais; a cooperação vertical é forte entre as empresas-âncoras e as empresas fornecedoras; há aqui o objetivo de promover o desenvolvimento da cadeia produtiva como um todo; exemplos: metalmecânico no Espírito Santo, suinícola do Oeste de Santa Catarina, petrolífero no Rio de Janeiro, etc.
  • Agrupamento Dependente de Logística Exportadora: é formado por empresas de médio e de grande porte que, geralmente, possuem competitividade produtiva mundial, resultado de condições naturais propícias e de desenvolvimento tecnológico; essas empresas são fortemente dependentes de logística eficiente e competitiva internacionalmente; entretanto, possuem presença internacional aquém do seu potencial; exemplos: fruticultura em Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), soja em Barreiras (BA), proteína animal no Triângulo Mineiro (MG) e no Oeste Catarinense, etc.

Ilustração 3 – APLs cuja estruturação fica na dependência do progresso científico e tecnológico:

  • Agrupamento de Base Tecnológica – é formado, preponderantemente, por grupo de micro, pequenas e médias empresas, normalmente spin-offs das universidades locais/incubadoras; geralmente convivem com empresas maiores e competem em setores intensivos em tecnologia; entretanto, apesar do grande conhecimento tecnológico existente, essas MPMEs ainda não possuem posicionamento consolidado no mercado nacional e no mercado internacional; exemplos: base tecnológica em São Carlos (SP), software em Joinville (SC), biotecnologia em Belo Horizonte (MG), etc.
  • Agrupamento de Alta Tecnologia: uma empresa-âncora (ou mais) estrutura uma cadeia produtiva global (apoiada por micro, pequenas e médias empresas de alta tecnologia) para elaborar produto (ou produtos) de alta complexidade, atendendo tanto ao mercado interno como demandas globais; em alguns casos, essas empresas destacam-se no mercado internacional como “plantas produtivas”, a partir de estratégias da empresa matriz; exemplos: automotivo em Belo Horizonte (MG), telecomunicações em Campinas (SP), aeronáutica em São José dos Campos (SP), etc.

De acordo com a natureza de cada agrupamento, as equipes técnicas dos estados e municípios deverão diferenciar os instrumentos e os mecanismos de planejamento a serem acionados visando à estruturação e à implementação do APL. Até mesmo a rede de precedência que define a intensidade, a cadência e o sequenciamento das ações programáticas deverá levar em consideração as características estruturais dos agrupamentos produtivos. 

Finalmente, cabe destacar, nesta parte do texto, o conceito de APL adotado nos Programas e Projetos do SEBRAE, e no Projeto Cresce Minas do Sistema FIEMG, preparado pela empresa de Consultoria McKinsey, onde buscou-se distinguir, do ponto de vista estritamente econômico, o APL de outras aglomerações produtivas/polos econômicos:


*Tipologia de agrupamentos adotado no Projeto de Atualização dos Eixos Nacionais de Integração e Desenvolvimento – Brasília (Ministério do Planejamento).

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C.2. Passo a Passo na Estruturação de um APL

1º Passo: Pré-diagnóstico para definir se é válido alocar recursos humanos, materiais e institucionais escassos, que têm usos alternativos, na estruturação de APLs específicos.

A estruturação de um APL – para ser bem-sucedida – depende, em uma primeira fase, de uma série de visitas para conversações regionais que poderão definir a viabilidade de se alocarem recursos escassos das instituições nos trabalhos que levarão à promoção do APL. Essas visitas geram um relatório de percepção visando esclarecer se a demanda para a organização de um APL em determinado município ou microrregião surge de uma demanda sem raízes locais, entre os stakeholders (formadores de opinião), tais como:

  • o APL como lugar-comum para compor um plano-diretor ou a gestão pública do município, como foi a construção de distritos industriais nos anos 1970; muitos desses distritos estão ocupados atualmente com galpões do comércio atacadista local, com empresas já existentes na localidade que se relocalizaram ou, até mesmo, como pastos para atividades de pecuária;
  • líderes isolados locais mais bem informados percebem as vantagens de se ter um APL na localidade em que habitam, sem que as demais lideranças políticas, empresariais e comunitárias percebam também a importância de se estruturar o conjunto de micro e pequenas empresas especializadas em um APL no município ou na microrregião;
  • visão limitada das lideranças locais que desejam um APL no município ou na microrregião, uma vez que esse é um símbolo de status de desenvolvimento local.

Usualmente, há dois critérios básicos para se definir a estruturação de um APL a partir das conversações regionais:

  1. se os empresários que compõem o conjunto de micro e pequenas empresas do APL não têm a vontade de cooperar para competir (exemplo: decidiu-se por não continuar com os trabalhos do APL de uniformes profissionais de Brasília, pois o SEBRAE-DF identificou, nas conversações preliminares, um ambiente de concorrência aberta e não de cooperação para competir entre os empresários do setor); uma crônica do insucesso anunciado;
  2. para avançar com os trabalhos do APL, é preciso que se observe entre as lideranças locais um ambiente de inconformismo (insatisfação dotada do desejo de mudanças);
  3. o inconformismo não se confunde com insatisfação; em um país que atravessa uma crise socioeconômica e socioambiental, como é o caso atual do Brasil, é fácil constatar que há um grande número de fatores (desemprego, empobrecimento, má qualidade dos serviços públicos, etc.) que provocam insatisfação generalizada dos cidadãos; entretanto, o inconformismo é uma insatisfação dotada da vontade de promover mudanças; não se limita a constatar reclamações genéricas de alguns ou de desalentos ocasionais de outros. (ver Texto II)

2º Passo: O APL deve ser estruturado a partir de um modelo de desenvolvimento endógeno no estilo de planejamento participativo.

A ORGANIZAÇÃO DE UM APL COMO UMA EXPERIÊNCIA DE DESENVOLVIMENTO ENDÓGENO

Um processo de desenvolvimento endógeno é concebido e implementado a partir da capacidade de que dispõe determinada comunidade para a mobilização social e política de recursos humanos, materiais e institucionais, em uma determinada localidade ou região. Um processo de desenvolvimento endógeno percorre, normalmente, algumas etapas. (ver Texto II)

Não é um processo que brota no terreno do conformismo, da apatia, da inércia ou da passividade dos habitantes de um município ou região onde uma dinâmica de organização social e política ainda não se faz presente. Não há desenvolvimento onde não há inconformismo com relação ao mau desempenho dos indicadores econômicos, sociais e de sustentabilidade ambiental. Assim, em uma primeira etapa, é importante organizar a estruturação desse inconformismo. 

A etapa seguinte tem sido procurar diagnosticar, técnica e politicamente, as razões e as causas do mau desempenho desses indicadores. Não se trata apenas de preparar documentos elaborados por especialistas, mas, principalmente, de conscientizar as lideranças políticas e comunitárias sobre o que deve ser feito para transformar as condições atuais, visando a obter melhores índices de desenvolvimento humano, de competitividade econômica, etc.

A terceira etapa envolve a transformação de uma agenda de mudanças em um plano de trabalho de mudanças. Um plano de trabalho (business plan) que seja não somente tecnicamente consistente, mas essencialmente gerado a partir de uma intensa mobilização dos segmentos da sociedade civil, em regime de pacto e parceria com as autoridades e instituições locais e regionais.

3º Passo: A estruturação do inconformismo como base para a participação espontânea ou induzida das lideranças locais

Para que se possa dar início a um processo de desenvolvimento endógeno, visando a promover a organização e a consolidação de um APL produtivo, é fundamental que haja um ambiente de inconformismo entre os grupos sociais, nas áreas em que se localizam. Sem inconformismo social e político, não há condições para se estruturar um processo de desenvolvimento local. O modelo de desenvolvimento endógeno pressupõe o estilo de planejamento participativo, ou seja, a participação dos grupos sociais que serão afetados direta e indiretamente pelos custos e pelos benefícios das ações programáticas.

Usualmente, quando se entrevistam os principais líderes comunitários locais, não é difícil diagnosticar que esse inconformismo se encontra, muitas vezes, difuso ou latente, sem uma expressão formalizada ou explícita, quanto aos problemas econômicos, sociais e ambientais a serem resolvidos, ou quanto às potencialidades de crescimento econômico a serem mobilizadas. Para que possa haver um processo de mobilização social e política para a organização do APL, é importante, de início, conscientizar e sensibilizar as lideranças locais, explicitando e estruturando as características desse inconformismo latente e difuso.

A estruturação do inconformismo, em geral, envolve reflexões quanto ao baixo desempenho dos indicadores econômicos (taxa de crescimento do produto territorial, índice de valor agregado, diversificação da base produtiva, adensamento da cadeia de valor econômico, etc.), dos indicadores sociais (taxa de analfabetismo, esperança de vida ao nascer, taxa combinada de matrículas nos três níveis de ensino, concentração da renda e da riqueza, etc.) e dos indicadores de sustentabilidade ambiental (qualidade das microbacias hidrográficas, tratamento do lixo urbano, uso de defensivos agrícolas, etc.), como quanto ao reduzido nível de aproveitamento das oportunidades de investimentos disponíveis (ver Texto I).

Michael Porter tem destacado, em seus estudos sobre a vantagem competitiva, que os países e regiões que estruturam as suas economias na produção de bens e serviços intensivos em fatores básicos (recursos naturais, mão de obra qualificada ou semiqualificada, fatores climáticos, etc.), são incapazes de gerar os fundamentos de uma competitividade sustentável, assim como de prover os habitantes de melhores condições de vida; as economias desses países e regiões se caracterizam por: (ver Diagrama 6)

  • apresentam um ciclo vicioso da destruição da riqueza; 
  • sofrem, com frequência, um processo de deterioração nas suas relações de troca; 
  • se destacam pelos valores baixos de seus indicadores sociais; 
  • veem se ampliar o número de seus concorrentes em escala global, dadas as facilidades de entrada no mercado daqueles bens e serviços; 
  • não têm condições de sustentar o seu processo de crescimento no longo prazo. 

Infelizmente, essa é a situação da grande maioria das economias urbanas e sub-regionais do País, as quais necessitam, urgentemente, de serem reestruturadas, antes que ocorra um novo choque de integração competitiva a partir de uma nova abertura da economia brasileira nos próximos anos, fragilizando-as ainda mais.

DIAGRAMA 6 -A ESTRUTURAÇÃO DO INCONFORMISMO -O CICLO VICIOSO DA DESTRUIÇÃO DE RIQUEZA

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Não se pode generalizar, mas, normalmente não se observa uma situação de inconformismo em municípios cuja população vivencia um longo período de transferências de renda das políticas compensatórias (LOAS, Previdência Social, Bolsa-Família); em municípios que conviveram com um ciclo de prosperidade, mas que estão hoje em decadência; em municípios nas fronteiras minerais ou agropecuárias do País.

4º Passo: Elaboração da diagnose de um APL a partir de sugestões e críticas das lideranças locais

O que se pretende na fase de diagnose, além de um processo de sensibilização e de conscientização das comunidades locais, é identificar, de forma sistemática, o conjunto de chances, ameaças e riscos que envolvem a dinâmica e a sustentabilidade de cada APL específico, mapeando pontos de estrangulamento e oportunidades perdidas, levando os principais atores do APL a um comportamento proativo de maior cooperação e integração dos interesses locais. Entre esses riscos e ameaças, destacam-se: (ver Diagrama 7)

  1. mesmo que, no curto prazo, ainda haja atividades dentro do APL que estão apresentando níveis razoáveis de rentabilidade financeira, a médio e a longo prazos essa rentabilidade pode estar ameaçada pelas fáceis condições de entrada de novos concorrentes, expandindo a oferta e deprimindo as margens de rentabilidade;
  2. a replicabilidade de APLs equivalentes é tanto maior quanto mais os fundamentos do APL específico estiverem alicerçados sobre fatores básicos não especializados (clima, recursos naturais renováveis e não renováveis, mão de obra abundante, posição geográfica, etc.). Exemplo: o Vietnam tornou-se o segundo maior produtor mundial de café por dispor dos fatores básicos, mesmo sem tradição de produção ou de consumo do produto, ultrapassando a Colômbia;
  3. o processo de abertura da economia brasileira é irreversível a longo prazo e as suas implicações (redução dos impostos de importação, desregulamentação do comércio exterior, etc.) devem provocar um novo choque competitivo para as empresas que compõem o APL, tornando indispensável um processo de melhorias nas suas condições de competitividade; esse risco é maior para os agrupamentos produtivos de sobrevivência informal e de vantagem comparativa;
  4. por meio de inovações tecnológicas, os países industrializados estão conseguindo aumentar suas possibilidades de substituição dos produtos intensivos em fatores básicos (fibras sintéticas versus fibras naturais; novos materiais versus materiais tradicionais; etc.); 
  5. por meio de novas técnicas de gestão e de novos processos produtivos, é crescente a economia de insumos e fatores básicos (redução nos coeficientes técnicos de produção) nos processos de transformação industrial mais avançada.

DIAGRAMA 7

DIAGNOSE DE UM ARRANJO PRODUTIVO LOCAL OU CLUSTER PRODUTIVO (1) – RISCOS, AMEAÇAS E OPORTUNIDADES DE UM APL

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O vetor que deve orientar a estruturação de um arranjo produtivo local são os fundamentos da competitividade, que se contrapõem às características da economia tradicional dos agrupamentos produtivos de estratégia de sobrevivência ou de vantagem comparativa (no Quadro 2). Essa migração da Economia Tradicional para a Economia Moderna é a epígrafe mais destacada na estruturação e implementação de APLs.

QUADRO 2

DIAGNOSE DE UM ARRANJO PRODUTIVO LOCAL (2)

CARACTERÍSTICAS DE UMA ECONOMIA TRADICIONAL CONTRAPOSTAS ÀS DE UMA ECONOMIA MODERNA – FUNDAMENTOS DA COMPETITIVIDADE

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Fonte: M. Fairbanks e S. Lindsay. Plowing The Sea – Nurturing the Hidden Sources of Growth in the Developing World. HBS Press, 1997 (há tradução em português). Monitor do Brasil – Aumentando a Competitividade do Nordeste Brasileiro. São Paulo, 2000. Paulo R. Haddad – Meio Ambiente, Planejamento e Desenvolvimento Sustentável. Cap. 4 Ed. Saraiva, 2015.

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DIAGNOSE DE UM ARRANJO PRODUTIVO LOCAL (3)

DELIMITAÇÃO DA ÁREA RELEVANTE

Para definir qual será a “comunidade de interesses” de cada APL, o ponto de partida é delimitar a sua área geográfica relevante, o que tem sido feito utilizando tradicionalmente três critérios de regionalização (ver Diagrama 9):

  • área homogênea: um espaço caracterizado pela homogeneidade física, econômica, cultural, social, etc.; exemplos: as áreas de cultivo de abacaxi na Paraíba ou as áreas de caprinocultura em Pernambuco, assim como as áreas de agricultura do Cerrado;
  • área polarizada: um espaço caracterizado por um núcleo de atividades que polariza uma área de influência; exemplo: uma área que tenha um núcleo de beneficiamento industrial de uma produção extrativa mineral geograficamente dispersa, como na produção de gesso na Serra do Araripe em Pernambuco; a bacia leiteira da fábrica de leite condensado em Montes Claros;
  • área-programa: um espaço caracterizado por definição político-institucional de intervenção programática; exemplo: a rede de distribuição de bordados artesanais com vários núcleos de produção geograficamente dispersos; a área-programa pode utilizar os critérios de polarização ou de homogeneidade para a sua delimitação ou pode se caracterizar modernamente como uma região virtual, estruturada a partir do e-commerce.

Atualmente, com o desenvolvimento da tecnologia da informática e a construção de redes pela internet, a delimitação da área relevante prescinde cada vez mais do espaço geográfico. Destacam-se, segundo Roberta Capello, quatro tipos de espaço*:

  • o espaço físico-métrico: adota uma perspectiva meramente geográfica de um espaço contínuo que se define em termos de distância física e de custos de transporte;
  • o espaço uniforme-abstrato: não mais físico e contínuo, mas abstrato e discreto; trata-se de espaços econômicos como espaços abstratos “constituídos por conjunto de relações sociais, institucionais e políticas interdependentes, sem envolver, contudo, a localização geográfica;
  • o espaço relacional-diversificado: de acordo com essa concepção, o espaço gera vantagens econômicas (economias de aglomeração) através de mecanismos de sinergia e de retroalimentação, operando no nível local;
  • o espaço estilizado-diversificado: destaca diferentes aspectos das demais concepções, procurando o máximo de fertilização cruzada entre a teoria da localização, a teoria de desenvolvimento e o crescimento macroeconômico.

Algumas ilustrações podem ser destacadas: 

  1. o APL da moda íntima feminina de Nova Friburgo (Projeto PROMOS/BID/SEBRAE) transformou-se num empório de moda feminina, com incorporação da moda noturna do aglomerado produtivo de Itaperuna e a moda praia de Cabo Frio, no estado do Rio de Janeiro;
  2. o APL de bordados artesanais do Nordeste não tem um espaço geográfico-métrico, mas uma rede de ofertas diferenciadas, tendo como origem a produção em dezenas e dezenas de municípios da Região, sendo o processo de comercialização coordenado centralmente (e-commerce);
  3. o APL de móveis de escritório em Brasília tem como área central das atividades de design, engenharia financeira, observatório de mercado, precificação, etc. (informação e conhecimento) na própria Capital, e as atividades de produção supervisionadas dos móveis em municípios de Minas Gerais ou de Goiás (outsourcing).

* Roberta Capello – Regional Economics. Routledge, 2015. 

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OU 

  • ESPAÇO FÍSICO-MÉTRICO 
  • ESPAÇO UNIFORME-ABSTRATO
  • ESPAÇO ESTILIZADO-DIVERSIFICADO
  • ESPAÇO RELACIONAL-DIVERSIFICADO 

5º Passo: A construção da agenda de mudanças do arranjo produtivo local 

AGENDA DE MUDANÇAS (1)

A CONSTRUÇÃO DA CADEIA DE VALOR

A cadeia de valor de um APL é constituída por múltiplos setores e indústrias da economia, conectados entre si por fluxos de bens e serviços mais intensos do que aqueles que os interligam com outros setores e indústrias da economia nacional. Inclui produtores orientados para o mercado final, assim como supridores de diversos níveis envolvidos nas transações por meio de encadeamentos para frente e para trás na cadeia produtiva.

O conceito de APL é mais amplo do que o de cadeia de valor. Um APL é constituído pelas indústrias exportadoras inter-regionais e internacionais que compõem o núcleo do APL, e assim o caracterizam, além das indústrias e atividades de serviços correlatas e integradas à cadeia produtiva. Inclui, contudo, instituições de suporte fundamental em termos de pesquisas, treinamento de mão de obra, logística de transporte, formação de empreendedores, infraestrutura especializada, etc. É importante destacar, contudo, que o complexo produtivo de cada APL é a base inicial para se organizar o seu processo de melhorias de competitividade. O Diagrama 10 ilustra o complexo produtivo da pecuária de corte.

DIAGRAMA 10

CARACTERIZAÇÃO DA PECUÁRIA DE CORTE: COMPLEXO PRODUTIVO

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AGENDA DE MUDANÇAS (2)

A COMPOSIÇÃO DE UMA AGENDA DE MUDANÇAS EM UM APL

O que deve conter a agenda de mudanças de um APL? Em primeiro lugar, é preciso distinguir três campos em que estão concentrados os problemas de desenvolvimento de um APL: a) o campo das decisões privadas, que se referem às decisões típicas de responsabilidade do empresário individual sobre o que ocorre para dentro do portão da fábrica ou da porteira da propriedade rural, envolvendo a localização das atividades, a escolha de tecnologias, as relações capital-trabalho, a adoção das técnicas de gestão, etc.; b) o campo das decisões governamentais, que se referem à oferta, pelos três níveis de governo, de serviços públicos tradicionais (justiça, segurança, infraestrutura) e semipúblicos ou meritórios (saúde, educação) nas áreas em que se localizam os APLs; c) o campo das decisões comunitárias, que se referem a problemas comuns às empresas que compõem o APL, sem que cada uma isoladamente tenha condições de resolvê-los.

Esta situação é fundamental, pois será a partir dela que poderemos definir o programa de atuação de um APL, assim como sua dinâmica de crescimento, no médio e no longo prazo, a partir das funções que lhe dão vantagens competitivas. Não cabe ao comitê gestor de um APL substituir as funções de governo e se transformar numa entidade paraestatal de planejamento do desenvolvimento local. Assim como, não cabe ao comitê gestor de um APL substituir o empresário nas suas decisões microeconômicas (o que produzir, quanto produzir, onde produzir), particularmente naquelas em que há riscos e incertezas, pois como afirmou François Perroux “garantir o lucro é destruir o capitalismo”.

O Diagrama 11 destaca as funções que tendem a ser exercidas por um APL uma vez estruturado e em fase de implementação. São funções apresentadas por Michael Porter e que são típicas de um distrito industrial italiano.

AGENDA DE MUDANÇAS (4)

SERVIÇOS COMUNITÁRIOS DE DESENVOLVIMENTO DE UM APL

É óbvio que um APL tem reduzidas chances de se estruturar e de se consolidar, se não vier a se instalar entre as empresas que o compõem um ambiente de competição cooperativa, se não eliminar o clima de desconfiança entre elas, se as empresas não abandonarem atitudes defensivas quando ocorrerem resultados adversos. A organização de um APL é um jogo de soma positiva, na medida em que permite às empresas resolverem problemas comuns, com benefícios maiores ou menores para todas elas. Uma ilustração pode ser observada no Quadro 3, preparado a partir de um trabalho da FGV, onde são mostrados alguns dos serviços que um comitê gestor de APL pode oferecer às empresas que o compõem, em parceria com diversas entidades públicas e privadas.

A composição da agenda de mudanças de cada APL varia de acordo com o seu estágio de desenvolvimento, com as suas características estruturais, com o nível de cooperação entre as firmas, com a qualidade das lideranças locais, etc. O ponto fundamental é garantir que a construção da agenda ocorra dentro de um processo de participação e de consenso entre as lideranças locais mais destacadas, para evitar que essa agenda se limite a ser um conjunto de trabalhos técnicos que não gere compromissos das comunidades quanto à sua implementação. A agenda de mudanças, para se transformar em um instrumento operacional de negociação, deve ser estruturada sob a forma de um plano de trabalho (business plan) detalhado quanto às características das ações, dos recursos materiais e financeiros, cronograma de execução, etc.

Passo 6: No processo de planejamento de um Arranjo Produtivo Local deve-se adotar o estilo de planejamento para negociação

PLANEJAMENTO PARA A NEGOCIAÇÃO

O comitê gestor de um APL, em princípio, não controla nenhum instrumento de política econômica, por ser uma organização tipicamente de iniciativa comunitária onde, em determinadas circunstâncias, os órgãos governamentais podem ser estimulados a formar parcerias em torno de ações e de projetos específicos de interesse do APL. Mesmo quando esses órgãos têm uma presença institucionalizada na coordenação da gestão de um APL, ainda é predominante o papel dos segmentos organizados da sociedade civil local no processo de coordenação.

Nesse contexto, o planejamento do desenvolvimento passa a ser compreendido como a potencialização máxima da capacidade latente de negociação dos atores sociais do APL com as instituições públicas e privadas que controlam recursos (humanos, financeiros, organizacionais, tecnológicos) e instrumentos (fiscais, financeiros subsidiados, regulatórios) indispensáveis para viabilizar as metas e os objetivos das ações programadas.

O planejamento para a negociação passa pelas seguintes etapas (ver Diagrama 12):

  • elaboração de um diagnóstico, participativo e consensualizado, dos problemas e dos potenciais de desenvolvimento do APL;
  • identificação dos pontos de estrangulamento e das oportunidades de negócios e de investimentos intervenientes no APL;
  • processo de negociação de ações e projetos para promover a organização e a consolidação do APL;
  • organização de sistemas participativos de controle e de avaliação das ações e dos projetos de desenvolvimento do APL.

Passo 7: No processo de implementação do APL o foco central deve ser a construção de estratégias de competitividade

PLANEJAMENTO DA COMPETITIVIDADE SISTÊMICA DAS EMPRESAS DE UM APL

A abundância de fatores básicos (recursos naturais, mão de obra não qualificada ou semiqualificada, etc.) não é capaz por si só de alavancar um processo de desenvolvimento sustentável nos APLs. Somente o progresso científico e tecnológico, por meio das inovações de novos produtos, de novos processos e de novas técnicas de gestão, poderá permitir que venha a ocorrer, em cada APL, o crescimento econômico com equidade social e sustentabilidade ambiental, por meio do adensamento das cadeias de valor, pela capacidade de diferenciação de produtos de difícil replicabilidade, pela redução do salário-eficiência, pela melhoria da produtividade dos recursos naturais, etc. Uma empresa para se tornar vencedora depende de sua eficiência operacional e de seu posicionamento estratégico:

1

a rentabilidade de uma empresa é definida pela atratividade da indústria em que compete e a eficiência operacional com que ela compete;

2

as empresas que competem em segmentos lucrativos e sustentáveis são atrativas e líderes operacionais, tornando-se vencedoras e desfrutando de maiores ganhos;

3

as mudanças mais fáceis e rápidas são frutos de melhorias na eficiência operacional;

4

para alcançar maiores ganhos, é necessário servir segmentos atrativos; esses novos segmentos requerem diferentes capacidades e exigem, mais uma vez, que se aumente a eficiência operacional;

5

também é possível migrar para um segmento mais atrativo em primeiro lugar, e, mais tarde, aumentar a eficiência operacional, apesar de ser mais difícil;

6

a migração de um segmento para outro mais atrativo implica ganhos crescentes, até que a empresa se torne líder em competição.

Fonte: Monitor do Brasil – Aumentando a Competitividade do Nordeste Brasileiro, 2000.

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NO PROCESSO DE IMPLEMENTAÇÃO É FUNDAMENTAL A CONSTRUÇÃO DE UMA REDE DE PRECEDÊNCIA

A REDE DE PRECEDÊNCIA (1)

Uma vez definidas quais ações devem ser executadas para promover o desenvolvimento de um APL é preciso submetê-las a uma rede de precedência que envolve o sequenciamento, a intensidade e o ritmo ou cadência das ações*

  1. sequência das ações: por sequência, entende-se o conjunto de ações e iniciativas que deveriam vir antes ou depois, e sua ordem de inserção no plano, com implicações relativas ao momento em que uma ação deve ser idealmente aplicada relativamente a outras ações que também deverão ser executadas; esse deve ser o objetivo essencial de um bom cronograma, que será tanto mais sofisticado e preciso quanto  mais se tiver uma boa ideia de timing, uma conjugação entre o tempo certo requerido para cada ação e o momento ideal de sua execução; 
  2. cadenciamento das ações: definido como a rapidez com que um sistema econômico real consegue se transformar, assimilar novas práticas, técnicas e atitudes, e, assim, criar uma nova realidade; esse conceito oferece aos planejadores condições de refletir sobre o ritmo dos diferentes componentes do plano; 
  3. intensidade das ações: dimensionada pela concentração do uso de recursos (humanos, materiais, institucionais, etc.) no tempo; as intensidades das ações dependem de sua exequibilidade em função da disponibilidade dos recursos, do grau de mobilização de atores sociais e protagonistas do plano, do estágio de evolução dos seus componentes. 

A REDE DE PRECEDÊNCIA (2)

O sequenciamento, o cadenciamento e a intensidade das ações de um plano ou de um projeto compõem os parâmetros básicos da sua rede de precedência. A construção de uma rede de precedência envolve não apenas a organização e a gestão de um cronograma físico-financeiro do plano ou projeto, mas a definição de critérios que possibilitem executá-lo no tempo ideal, com os melhores resultados possíveis.

A rede de precedência é essencial para se evitar erros de planejamento, como ilustram alguns casos de APLs:

  1. no APL de turismo sustentável dos Lençóis Maranhenses, o plano de ação tinha 17 componentes; como o componente de treinamento do SISTEMAS foi concluído em primeiro lugar, a mão de obra qualificada migrou para o Beach Park (Fortaleza) e Porto de Galinhas (Pernambuco) (questão de sequenciamento das ações);
  2. no APL de caranguejos do Delta do Rio Parnaíba as ações programáticas não foram suficientes e transversais para tirar a comunidade de 600 catadores da pobreza (questão de intensidade das ações);
  3. no APL de turismo cívico em Brasília houve um descompasso entre as ações programadas intermediárias e as finalísticas (questões de cadenciamento das ações), de tal forma que os resultados não foram muito favoráveis;
  4. no APL de e-commerce de bordados do Nordeste ocorreu uma defasagem (cadência) na estratégia de marketing que levou ao fracasso na fase inicial de sua implementação.

Finalmente, quando se trata de um Programa de Arranjos Produtivos Locais (PAPL) estadual, como ocorreu em Alagoas e no Maranhão, a rede de precedência necessita percorrer as etapas sugeridas no Diagrama 14.


*Caporalli, R. e Volker, P; SEBRAE, Brasília,2006

PLANO DE MUDANÇAS (6)

POR QUE FRACASSA UM APL

Há diversos argumentos para prever o declínio de muitas experiências de APL em andamento no Brasil. Um APL tem como fundamento conceitual o modelo de concorrência com competição, onde se procura resolver problemas comuns a grupos de micro e pequenos produtores que isoladamente não teriam como resolvê-los. A principal fonte de competitividade são os elementos de confiança, de solidariedade e de cooperação entre as empresas, um resultado de relações muito estreitas de natureza econômica, social e comunitária. Como muitos APLs são construções artificiais arquitetadas pelas burocracias públicas e privadas ou pelo oportunismo empresarial para se ter acesso aos novos mecanismos específicos de financiamento e de assistência técnica, fica claro que tende a ser curto o horizonte da sua sustentabilidade institucional. As melhores práticas são aquelas em que há um grupo de vanguarda empresarial local que lidera o processo de estruturação e implementação do APL.

Destaca-se, também, a absoluta ausência de uma rede de precedência na formulação de um projeto de APL, em quase todas as experiências em fase de execução no Brasil. Sem considerar a interdependência entre o sequenciamento, o ritmo e a intensidade das ações programadas que compõem a sua rede de precedência, corre-se o risco de se tratar o plano de ação como uma lista de benefícios que vai sendo percorrida indiscriminadamente, pressupondo-se que se tudo que foi proposto é bom para os protagonistas do APL, pode-se fazer o que for possível em qualquer cadência ou sequenciamento comandados por fatores aleatórios. Os resultados desses procedimentos normalmente podem ser inesperados, contraditórios e inconsistentes com o escopo e os objetivos do plano de ação do APL uma vez que não geram capital sinergético.

Enfim, um arranjo produtivo local pode ser considerado adequadamente estruturado quando dispuser das seguintes características: um plano de ação plurianual; uma estratégia competitiva consensualizada; um ambiente entre seus participantes de cooperar e interagir para competir; um modelo de governança com gestão participativa e compartilhada; um sistema de controle e avaliação com indicadores de processo e indicadores de resultados ou finalísticos. Esses procedimentos podem dar certa garantia de que as atividades e ações programadas não se transformem num exercício de voluntarismo tecnocrático, numa experiência fortuita de projetos de vitrine ou numa mobilização de esperanças comunitárias desencontradas e dispersas quanto aos seus objetivos de médio e de longo prazo.

Um dos objetivos do processo de desenvolvimento sustentável das unidades da Federação é o de promover a mobilização das potencialidades de crescimento econômico de suas regiões e localidades, assim como de reduzir os desequilíbrios intraestaduais nas condições de vida de seus habitantes. Como quase todas as unidades estão vivenciando uma crise fiscal e financeira, o desenvolvimento de suas regiões e localidades passa por três ideias-força: 1. A mobilização dos recursos latentes tangíveis e intangíveis; 2. A atração de grandes projetos de investimento dentro do padrão de articulação integrativa; 3. Promoção de arranjos produtivos locais das aglomerações de micro e pequenas empresas locais. Lembrando que “quem sabe faz a hora não espera acontecer”. 

Terceiro setor acelera adoção de IA, mas ainda enfrenta desigualdades

O uso de inteligência artificial (IA) começa a ganhar espaço no terceiro setor brasileiro, ainda que de forma desigual e cercada por desafios estruturais. Pesquisas recentes do Gife (Grupo de Institutos Fundações e Empresas), assim como análises veiculadas pela imprensa, indicam que organizações da sociedade civil têm adotado IA principalmente em tarefas operacionais, enquanto apenas uma parcela avança para usos mais estratégicos.

No campo socioambiental, essa adoção é ainda incipiente, marcada por limitações de acesso à tecnologia, capacitação técnica e financiamento. Na Amazônia, no entanto, algumas iniciativas pioneiras começam a se destacar.

O Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia) tem investido de forma consistente em automação de processos, capacitação institucional e desenvolvimento de produtos digitais que integram dados, inovação e gestão. Essa experiência demonstra como a IA pode acelerar rotinas internas, qualificar análises de dados e aumentar a eficiência na implementação e no monitoramento de projetos socioambientais.

A área financeira é um dos exemplos mais concretos desse avanço. O Idesam implantou robôs de RPA (Robotic Process Automation) integrados ao ERP institucional e a portais bancários, automatizando fluxos de pagamento, conferências e outras atividades repetitivas.

Operando com regras predefinidas e conectados a dashboards de controle gerencial, esses sistemas reduzem erros, agilizam processos e fortalecem a transparência, um aspecto especialmente sensível na gestão e na prestação de contas de projetos socioambientais.

A automação de processos administrativos, aliás, é apontada por especialistas como uma das tendências mais consolidadas no terceiro setor global, justamente por liberar tempo e energia das equipes para atividades estratégicas e de maior impacto.

Outro gargalo recorrente nas pesquisas sobre inovação no setor é a falta de capacitação interna. Para enfrentar esse desafio, o Idesam adotou uma política institucional de formação e capacitou 100% de sua equipe em 2025, com certificação. Os módulos abordaram o uso responsável da IA, boas práticas, limites éticos e aplicações concretas no cotidiano de trabalho.

Essa iniciativa dialoga com uma discussão cada vez mais presente no campo socioambiental: sem governança clara e formação adequada, os riscos associados ao uso de IA, como vieses algorítmicos, interpretações equivocadas de dados ou dependência excessiva de ferramentas, tendem a superar seus benefícios.

Para além da automação interna, o Idesam também investiu no desenvolvimento de painéis interativos e mapas de Business Intelligence (BI) que apoiam tanto a gestão quanto o trabalho em campo. Entre eles estão o painel de Indicadores, o painel de Projetos de Carbono Florestal no Brasil, o painel Redes da Sociobiodiversidade, o mapa de plantio e o painel do Programa Prioritário de Bioeconomia.

Essas plataformas consolidam dados sobre projetos, territórios, cadeias produtivas e redes comunitárias, permitindo que equipes técnicas, gestores e parceiros tenham acesso a informações mais precisas e atualizadas. A tecnologia contribui para o monitoramento de impacto e para uma tomada de decisão mais qualificada, especialmente em regiões remotas, onde os dados costumam ser fragmentados ou de difícil integração.

Apesar dos avanços, os desafios permanecem. Especialistas destacam que a adoção de IA no terceiro setor ainda esbarra na escassez de recursos, nas desigualdades tecnológicas entre organizações, na ausência de políticas robustas de proteção de dados e em dilemas éticos, sobretudo em projetos que envolvem populações vulneráveis.

Nesse contexto, pesquisadores apontam que o próximo passo não está apenas na incorporação de novas tecnologias, mas na combinação entre inovação e fortalecimento institucional. O objetivo é garantir que a IA não apenas aumente a eficiência operacional, mas amplie o impacto social e ambiental de forma ética, justa e responsável.


Artigo publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo e republicado com autorização da autora

Paola Bleicker é diretora executiva do Idesam, bióloga com ênfase em ecologia, especialista em turismo e desenvolvimento local pela UEA (Universidade do Estado do Amazonas)

Por trás da inteligência artificial: Como é viver perto de data centers?

A expansão global dos data centers ligados à inteligência artificial (IA) tem transformado paisagens, bairros e rotinas urbanas. Embora sejam invisíveis para a maioria dos usuários de internet, essas gigantescas infraestruturas físicas consomem energia em larga escala, geram ruído constante e levantam dúvidas sobre seus impactos ambientais e sociais, especialmente para quem mora nas proximidades.

Um epicentro de conflitos: o caso da Virgínia

A Virgínia, nos Estados Unidos, é o local com maior concentração de data centers no mundo. São quase 600 instalações, incluindo 150 centros hiperescaláveis. Apesar da insatisfação crescente de moradores, dezenas de novos projetos estão em curso. 

Se todos forem construídos, os data centers da Virgínia consumirão tanta energia que a principal fornecedora local, a Dominion, já firmou contratos para produzir 40 gigawatts de energia, três vezes a produção energética do estado em 2025.

O ruído que nunca para

Entre as queixas mais comuns dos vizinhos está o zumbido contínuo emitido pelos sistemas de resfriamento e operação dos servidores. Segundo o economista Lourenço Galvão Diniz Faria, consultor em transição energética e sustentabilidade, o barulho pode alcançar 80 decibéis ponderados (dBA), comparável a um soprador de folhas. 

“O zumbido constante de servidores e sistemas auxiliares cria níveis de ruído significativos e persistentes. Isso pode afetar comunidades próximas e animais silvestres”, explica Faria.

Água turva, torneiras secas

Em outras partes dos EUA, como Mansfield, na Geórgia, moradores relatam alterações na qualidade da água após a construção de data centers. Poços particulares passaram a apresentar água turva e com sedimentos e a pressão caiu a ponto de ser preciso encher baldes para dar descarga no banheiro.

Beverly Morris, uma das moradoras, relata que não consegue mais beber a água da torneira por não confiar na qualidade. “Tenho medo de beber a água, mas ainda cozinho e escovo os dentes com ela”, diz Morris. “Fico preocupada com isso.”

Apesar das queixas, a empresa responsável pelo centro local, a Meta, afirma que não há relação entre suas operações e os problemas relatados, uma explicação que os moradores contestam.

Gordon Rogers coleta amostra de água do rio Flint, na Geórgia, para avaliar impactos ambientais na região próxima a data centers.
Pesquisador coleta amostras regulares de água para monitorar a saúde do rio Flint, na Geórgia, região afetada pela crescente pressão dos data centers. Foto: BBC

Falta de transparência e preocupação com poluentes

A escassez de informações claras sobre os impactos ambientais também preocupa. Muitos data centers operam com turbinas a gás natural e geradores a diesel. Ainda não há dados precisos sobre a poluição emitida pelos data centers, tanto no ar, quanto na água ou sobre os possíveis efeitos à saúde de vizinhanças e ecossistemas.

Consumo de água por data centers de IA pode chegar a 18 milhões de litros por dia

O avanço dos data centers, impulsionado pela expansão da inteligência artificial, ameaça ecossistemas e agrava crises hídricas com o uso intensivo e a perda de água.

Com o avanço acelerado da inteligência artificial, cresce também a necessidade de infraestrutura. Um dos pilares dessa expansão são os data centers, instalações que hospedam servidores e processam grandes volumes de dados. Embora muitas vezes invisíveis ao público, essas estruturas têm um impacto ambiental crescente, principalmente no consumo de água e energia.

Além de gastarem energia em larga escala, data centers consomem volumes expressivos de água para evitar o superaquecimento dos servidores. Uma analogia utilizada para explicar os data centers é a do “canudo gigante”, instalações de grande porte podem usar até 5 milhões de galões de água por dia, o equivalente a mais de 18 milhões de litros. 

Interior de um dos data centers do Google.
Interior de um dos data centers do Google, infraestrutura funciona como um megacomputador e exige grandes quantidades de água para resfriamento. Foto: Google.

A refrigeração dos servidores é o principal motivo desse consumo elevado. Nos sistemas mais comuns, a água circula por tubulações, absorve o calor e evapora em torres de resfriamento, exigindo reposição constante. Em regiões com escassez hídrica, opta-se por sistemas fechados e a ar, que reduzem o uso de água, mas consomem muito mais eletricidade.

Segundo pesquisadores da Universidade Cornell, se o crescimento da IA mantiver o ritmo atual, o consumo de água por data centers pode chegar a 1,125 bilhão de metros cúbicos anuais até 2030, o equivalente a cerca de 450 mil piscinas olímpicas.

Nos Estados Unidos, país com mais de 3 mil data centers, o impacto já é sentido em pequenas cidades, onde o uso de água pelos centros de dados tem provocado tensões entre moradores e grandes empresas de tecnologia. Além do impacto ambiental sobre ecossistemas e o risco de agravo de crises hídricas. 

O ponto central da discussão está na chamada “água consumida”,  aquela retirada dos sistemas locais de abastecimento e perdida por evaporação, sem retorno à fonte. Mesmo pequenas interações com a inteligência artificial geram esse impacto. 

Quanta água é consumida em uma pergunta ao ChatGPT? 

Uma pesquisa na Califórnia indicou que gerar 100 palavras no ChatGPT consome, em média, 519 ml de água, ou seja, uma garrafa de água. Se 10% da força de trabalho dos EUA utilizasse o sistema semanalmente, o gasto anual seria suficiente para abastecer por um dia e meio todas as casas do estado de Rhode Island. Estima-se que o gasto de água para gerar imagens seja 30 vezes maior que o exigido para textos. 

III Fórum ESG Amazônia: o Ensaio Geral do PIM para a nova gramática UE-Mercosul

Coluna Follow-Up

Há eventos que se encerram quando as luzes do auditório se apagam. E há eventos que começam exatamente ali, quando o aplauso termina e sobra o único território onde a reputação se prova: a execução. O III Fórum ESG Amazônia, conduzido por CIEAM e SUFRAMA, está diante dessa encruzilhada silenciosa. Ele pode ser mais uma vitrine bem-intencionada — ou pode se tornar instrumento de método, uma engrenagem anual que organiza o Polo Industrial de Manaus para disputar o futuro com régua própria.

Providência é estratégia

A diferença não está no tema, porque o tema é indiscutível. A diferença está nas providências. E providência, neste caso, não é burocracia: é estratégia de sobrevivência. O mundo entrou numa era em que sustentabilidade deixou de ser medalha e passou a ser senha de acesso. Não se compra mais discurso; compra-se evidência. Não se premia mais promessa; premia-se prontidão. 

E o nome que o Polo escolheu para essa prontidão — ZFM+ESG — só ganhará densidade se for tratado como infraestrutura de mercado, e não como identidade decorativa.

A Europa cobra antes do rito

Agora, porém, há um fator novo que torna tudo mais urgente do que parecia ontem. O Acordo UE–Mercosul não é mais hipótese distante: a União Europeia já sinaliza movimentos institucionais para assinatura definitiva e para aplicação provisória de partes do acordo enquanto a ratificação completa não se conclui.

Isso significa que o mundo pode começar a cobrar resultados, rotas e conformidades antes mesmo de o tratado virar “definitivo” no rito formal. E quando o mercado antecipa a cobrança, quem se antecipa na preparação ganha vantagem; quem espera pela formalidade perde tempo — e tempo, no comércio contemporâneo, é uma forma de tarifa invisível.

shutterstock VhxoymT

O mundo avalia sistemas

É aqui que o Fórum se separa de um evento e se aproxima de um marco. Um marco exige uma pergunta incômoda, e o Polo precisa encará-la sem tremor: o que o PIM será capaz de provar, como conjunto, no primeiro ciclo de exigência real que o Acordo UE–Mercosul tende a acelerar?

Não como coleção de cases isolados, mas como ecossistema industrial coerente. Porque o mundo não avalia ilhas; avalia sistemas. E o PIM, se pretende ser o conglomerado ESG mais destacado do continente, precisa se apresentar como sistema — justamente no momento em que a Europa eleva a régua e reforça a gramática da evidência.

Métrica, rotina, verificação

Há um interlúdio que precisa ser dito com franqueza industrial. A era do ESG “de PowerPoint” terminou. O mercado global não tem tempo para folclore corporativo. Ele não pedirá slogans; pedirá métrica. Não aceitará promessa; exigirá rotina. Não se satisfará com autoavaliação; solicitará verificação. 

E isso precisa ser preparado antes do Fórum, ainda que a minuta formal só seja publicada na semana anterior. A minuta, sozinha, não cria método. O método nasce de alinhamento prévio, de governança simples, de decisão coletiva sobre um mínimo comum que sustente a reputação do conjunto.

O centro de gravidade

Entre o “querer ser” e o “ser”, há um abismo que só se atravessa com método. O primeiro gesto de método é escolher um centro de gravidade. O Fórum precisa nascer com uma ideia nuclear capaz de organizar tudo o que vier em volta: ZFM+ESG como regime de competitividade e estabilidade. Isso muda o tom do evento por completo. 

Porque estabilizar não é apenas reduzir emissões; é garantir previsibilidade, reduzir risco, evitar choques, proteger emprego e manter coesão econômica e social do território industrial. Sem essa ancoragem, ESG vira moralismo corporativo: bonito, mas frágil. Com essa ancoragem, ESG vira engenharia: auditável, defensável, exportável.

Abraçar tudo é perder tudo

E, como toda engenharia séria, ela precisa de foco. Há outra armadilha recorrente — e muito brasileira — que precisa ser desarmada a tempo: tentar abraçar vinte temas para não desagradar ninguém. Um Fórum que tenta abarcar tudo se torna incapaz de entregar algo. 

O sucesso do III Fórum dependerá de uma coragem elegante: escolher poucas trilhas e tratá-las como espinha dorsal de um ciclo de 12 meses, com prazos e resultados visíveis. Não por falta de ambição, mas por excesso de inteligência. Porque o Acordo UE–Mercosul, mesmo em regime provisório ou gradual, tende a premiar quem chega com documentação, governança e prontidão, e a punir quem chega com retórica e improviso.

Chegar com coisas andando

Surge então um interlúdio mais concreto, quase decisivo para a percepção externa. O símbolo mais convincente de um Fórum bem-sucedido é ter, na plateia, coisas que já começaram. Não importa se ainda são pilotos, se ainda estão aprendendo, se ainda não alcançaram a perfeição. Importa que existam. Porque quando existem, o Fórum deixa de funcionar como convocação e passa a funcionar como relatório de avanço. E isso muda a credibilidade. Muda a atmosfera. Muda a natureza do próprio ZFM+ESG.

Floresta em pé: prova, não metáfora

A partir daí, o diferencial amazônico pode cumprir seu papel sem cair no exagero que destrói confiança. O PIM tem um argumento singular: a indústria como guarda-chuva verificável da floresta em pé. Mas a Amazônia é o lugar onde o mundo aprendeu a desconfiar de frases bonitas. Por isso, a providência mais sofisticada do III Fórum é também a mais prudente: transformar o diferencial amazônico em evidência auditável, sem propaganda, sem promessa totalizante, sem frases que não sobrevivem à verificação. 

Impacto territorial é mensurável. Emprego e renda são mensuráveis. Qualificação, inovação, P&D, produtividade material e encadeamentos econômicos também. O Polo não precisa afirmar que “salva a floresta”. Precisa provar que reduz pressão econômica sobre ela ao oferecer um caminho produtivo capaz de disputar, com seriedade, a economia predatória.

Uma declaração que não seja poema

E então, por fim, o Fórum poderá produzir a entrega que realmente importa. Não uma declaração cerimonial, mas um compromisso com calendário. Poucos compromissos, indicadores definidos, prazos objetivos e uma governança de acompanhamento que transforme o evento em engrenagem anual. O Brasil já coleciona cartas que não mudam nada. O que o III Fórum precisa é inaugurar um regime de prova — porque é isso que o Acordo UE–Mercosul, em sua iminência e em sua lógica de evidência, tende a antecipar.

Chegar primeiro não é acaso

A melhor preparação para o III Fórum ESG Amazônia, portanto, não é aumentar o espetáculo. É aumentar a densidade. É fazer com que ZFM+ESG deixe de ser um nome promissor e vire um método verificável. E métodos verificáveis não nascem no palco; nascem antes, nas providências invisíveis que organizam o palco para que ele produza continuidade.

O Polo Industrial de Manaus já tem escala, já tem tradição e já tem um território simbólico que nenhuma outra planta industrial do continente possui. Falta consolidar aquilo que o mundo mais respeita quando o comércio vira régua: método.

Como o acordo com a União Europeia pode ser oportunidade

O acordo entre o Mercosul e a União Europeia está em momentâneo entrave, mas o vetor geral é para que ele se concretize. Concretizando-se, é mais oportunidade que ameaça. Sobretudo à economia amazonense, tanto para o Polo Industrial de Manaus – PIM, quanto para a Bioeconomia, e todos os comércios e serviços envolvidos. O tempo em que ele está travado pode ser nova chance para que compreendamos isso.

Para o PIM o acordo seria ameaça se a Europa fornecesse insumos ou produtos concorrentes ao PIM. Contudo, quase todos os insumos e produtos concorrentes do PIM são oriundos da Ásia. Notável exceção são os polímeros, com origem nos Estados Unidos. Extremamente improvável o Mercosul buscar acordo de livre comércio com esses dois continentes. 

acordo com a união europeia
Criador: thitivong – Crédito: Getty Image

Mercosul e União Europeia são complementares. Sem problemas que num primeiro momento o benefício ao PIM seja indireto. De pronto, o Brasil deve rentabilizar melhor as exportações de commodities alimentícias e energéticas. Essa renda fortalece o mercado interno brasileiro e este aumenta a demanda pelos bens de consumo duráveis produzidos no PIM. 

Mas no PIM há setores que, se bem guiados, terão benefício direto. Cito o Polo Naval.A Europa tem um sistema de navegação interna por balsas que é uma base de demanda por embarcações semelhantes às que produzimos já em boa escala para o Arco Norte. Isso sem tirar do radar os iates e lanchas que povoam os cenários mediterrâneos.

Embarcações de pequeno e médio porte, que não exigem as enormes capacidades e ciclos operacionais já totalmente dominadas pelos estaleiros asiáticos. Não concorreríamos com eles, mas acrescentaríamos ao nosso “know-how” o benefício da proximidade aos melhores minérios do mundo, e razoável capacidade siderúrgica. Capacidade siderúrgica esta que deve aumentar com a reforma tributária – que corrigiráa atual carga que pune a exportação de produtos com maior valor agregado. 

Dado o exemplo do PIM, retornamos à urgência da Bioeconomia. O livre-comércio tende a beneficiar as regiões por suas vantagens comparativas. No PIM temos a do setor naval, mas fora do PIM seria de esperar que fôssemos proeminentes exportadores de fármacos e alimentos. Não somos. Temos qualidade e diversidade. Falta-nos escala. 

Noticia-se a resistência da União Europeia contra a produção agrícola do Mercosul. Certamente os franceses fariam biquinho contra o vinho argentino, mas aceitariam vorazmente o licor do abacaxi do Novo Remanso. O problema é que não produziríamos abacaxi suficiente para dar conta desta demanda. O mesmo para todos os demais produtos da nossa pauta de Bioeconomia com infinitas aplicações.

Daí que precisamos de uma governança local que providencie a adequada arquitetura econômica (expressão do amigo Alfredo Lopes). Precisamos que toda a Amazônia Ocidental seja tomada por sistemas agroflorestais, sob permanente monitoramento e aperfeiçoamento genético, para preservar a floresta e providenciar a escala necessária à exportação.

Este sistema de governança proveria um mecanismo de engenharia institucional de desenvolvimento. Aliando regularização fundiária, licenciamento ambiental, estruturas logísticas, apoio técnico e crédito. O Zoneamento Econômico-Ecológico pode ser a base disso, sobre solos e águas. É o mecanismo de engenharia institucional de desenvolvimento adequado para o século XXI. Mas, pela sua não aplicação, o Amazonas se mantém atrasado como a Europa do século XVII, anterior aos EnclosureActs. Esta é a maior oportunidade – e urgência – diante do acordo.

Como data centers estão transformando o poder global e o clima na era da IA

Entenda como data centers impulsionados pelo avanço da inteligência artificial (IA) consomem água e energia em larga escala, geram emissões crescentes e se tornam peças-chave da nova geopolítica.

Nos últimos anos, o uso da inteligência artificial (IA) teve um crescimento exponencial. Um exemplo que demonstra esse quadro é o ChatGPT, que alcançou 100 milhões de usuários em apenas dois meses após seu lançamento, no fim de 2022. Em outubro de 2025, a empresa já havia atingido os 800 milhões de usuários ativos por semana.

Embora termos como “nuvem” e “inteligência artificial” parecem sugerir leveza ou abstração, por trás dessas tecnologias existe uma infraestrutura física extremamente densa e exigente, que consome energia, água, metais e território em escala colossal. 

No centro dessa materialidade estão os data centers; instalações que abrigam servidores, redes e sistemas de armazenamento digital. Os data centers existem desde os primórdios da computação, mas sua expansão acelerou drasticamente para atender às demandas da IA, que requer muito mais poder de processamento do que os serviços digitais convencionais.

Essa infraestrutura se tornou estratégica na geopolítica. Hoje, Estados Unidos e China concentram quase dois terços da potência global tecnológica. A capacidade de treinar modelos de inteligência artificial, acessar chips avançados e atrair grandes centros de dados passou a ser tratada como questão de segurança nacional. A nova corrida tecnológica é também uma disputa por recursos físicos e controle territorial, com impactos socioambientais crescentes e ainda subdimensionados.

Interior de um data center moderno com corredores de servidores iluminados, representando infraestrutura de data centers sustentáveis.
Interior de um data center. Foto: Adobe Stock Photo.

A corrida da IA começa no subsolo

O poder computacional da IA também exige uma base mineral robusta. Chips de alto desempenho, como as GPUs usadas nos treinamentos, dependem de materiais como terras raras, gálio, germânio e cobre, este último essencial para a fiação e os sistemas de resfriamento. 

Fragmentos de minerais de terras raras extraídos, expostos em superfície escura, representando a base física da cadeia de suprimentos da inteligência artificial.
Minerais de terras raras, essenciais para a fabricação de chips e servidores usados em IA, concentram-se em poucos países e impulsionam novas disputas geopolíticas. Foto: Divulgação/SVPM.

Em 2025, o preço do cobre subiu 28% diante da expansão dos data centers de IA e da transição energética. A produção global desses minerais está concentrada em poucos países, especialmente na China, o que gera riscos geopolíticos e compele a busca por fornecedores alternativos. Com grandes reservas de terras raras e nióbio, o Brasil entrou no radar de potências ocidentais, atraindo bilhões em investimentos, mas também ampliando conflitos socioambientais em áreas sensíveis.

Energia, água e território: o esgotamento de recursos por trás da inovação

O impacto ambiental dos data centers é igualmente alarmante. Para funcionar com máxima eficiência, os centros de IA agrupam milhares de chips em proximidade extrema, formando supercomputadores que consomem volumes colossais de energia. Em 2024, esses centros consumiram 415 terawatts-hora (TWh), cerca de 1,5% de toda a eletricidade mundial.

A projeção é que esse número atinja mais que o dobro até 2030, chegando a 945 TWh. Só nos Estados Unidos, o consumo de energia por data centers em 2023 já era equivalente a todo o consumo anual da Irlanda. A Meta prevê que seu novo centro em construção na Louisiana usará o dobro de energia do que toda a cidade de Nova Orleans.

A maior parte desse impacto não vem do treinamento dos modelos, mas da inferência, ou seja, o uso em tempo real por milhões de usuários. Estima-se que a inferência represente até 90% do consumo energético de um modelo de IA ao longo de sua vida útil.

Além da eletricidade, há o uso intensivo de água para resfriamento. Uma analogia comum para explicar os data centers é a do “canudo gigante” e ilustra bem o problema: os data centers extraem milhões de galões de água por dia de aquíferos locais, muitas vezes em regiões sob estresse hídrico. Instalações de grande porte chegam a consumir o equivalente a 5 milhões de galões por dia. 

O sistema de resfriamento por água aquecida de um data center do Sandia Labs, em Albuquerque, Novo México. A instalação recebeu certificação LEED Ouro por sua eficiência energética em 2020.
O sistema de resfriamento por água aquecida de um data center do Sandia Labs, em Albuquerque, Novo México. Foto: Bret Latter/Sandia Labs via Flickr CC.

Conflitos já surgiram devido à alta demanda, no Uruguai, a pressão popular obrigou o Google a adotar um sistema menos intensivo em consumo de água. Em São Paulo, durante a crise hídrica no Sistema Cantareira, a construção de centros de dados gerou forte debate sobre os limites do setor.

Há também o impacto sobre o uso da terra, ocupando centenas de hectares, data centers substituem áreas que poderiam ser usadas para agricultura, moradia ou conservação ambiental. Além dos prédios, os centros de dados exigem linhas de transmissão e infraestrutura associada. A promessa de inovação tecnológica vem acompanhada de um custo ambiental crescente, nem sempre visível, mas cada vez mais difícil de ignorar.

Vista aérea do Sistema Cantareira com níveis de água drasticamente baixos, evidenciando as marcas da seca e a exposição do solo rachado ao redor do reservatório.
Fotografia da seca no reservatório Cantareira. Foto: Divulgação/SABESP.

Quando dados viram poder, a geopolítica dos data centers

A distribuição da potência de data centers se tornou um novo indicador de poder global. Ela define quem consegue desenvolver IA em larga escala, proteger dados estratégicos e liderar a economia digital, um ativo comparável a bases militares ou reservas de energia.

Hoje, Estados Unidos e China lideram, com 39% e 22% da potência global disponível para equipamentos de TI, respectivamente. Essa vantagem já é tratada como questão de segurança nacional. Em 2025, o governo dos EUA lançou um plano para acelerar a infraestrutura de IA, enquanto a China reforçou sua estratégia de integração entre tecnologia e desenvolvimento econômico. A ideia de que a liderança em IA se traduz em poder global circula há anos entre chefes de Estado.

Outras regiões tentam reduzir a dependência das grandes potências. Países europeus buscam autonomia tecnológica por meio de parcerias multilaterais e economias emergentes, como Arábia Saudita e Índia, investem para não ficarem à margem da nova ordem digital.

Donald Trump discursando durante o evento “Winning the AI Race”, no qual apresentou o Plano de Ação para Inteligência Artificial dos Estados Unidos, destacando o papel estratégico da IA na segurança nacional.
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante o evento “Winning the AI Race”, onde lançou o Plano de Ação para Inteligência Artificial em julho de 2025. Foto: Chip Somodevilla/Getty Images

Essa corrida já influencia políticas públicas. Para atrair data centers, governos oferecem incentivos fiscais, flexibilizam regulações e aceleram licenças ambientais. Por meio do Plano de Ação de IA, lançado em 2025, os Estados Unidos incluíram propostas recentes para afrouxar normas ligadas à água e ao ar limpos e viabilizar a expansão de data centers, além de revogar uma ordem executiva que estabelecia diretrizes para um desenvolvimento mais ético e responsável de IA. No Brasil, a lógica é semelhante: estados e União disputam investimentos com benefícios fiscais e cessão de terrenos, mesmo em regiões sob pressão hídrica e energética.

O debate, porém, raramente aborda quem controla essa infraestrutura e retém seus lucros e quem arca com os impactos ambientais e territoriais de longo prazo. Assim, enquanto o valor estratégico dos dados se concentra em poucas empresas e países, os custos ecológicos tendem a permanecer locais e duradouros.

O impacto climático da inteligência artificial

Essas repercussões desafiam diretamente as metas climáticas das próprias empresas de tecnologia. Google, Amazon e outras gigantes da IA mantêm compromissos públicos de alcançar emissões líquidas zero até 2040 ou antes. No entanto, o Relatório Ambiental do Google de 2025 revelou um aumento de 51% em suas emissões em 2024 em comparação a 2019. 

Segundo pesquisadores da Universidade Cornell, se mantido o ritmo atual de crescimento da IA, o setor pode lançar de 24 a 44 milhões de toneladas de CO₂ por ano até 2030, o equivalente a colocar 10 milhões de carros a mais nas estradas americanas. A projeção de água a ser consumida no mesmo período é entre 731 e 1.125 milhões de metros cúbicos por ano, isso equivale a cerca de 292 mil a 450 mil piscinas olímpicas.

Apesar da linguagem aparentemente etérea que acompanha expressões como “computação em nuvem” e “modelos leves”, a realidade da IA é muito mais material. Essas tecnologias dependem de infraestruturas colossais, alto consumo de energia e água e vastas áreas de solo impermeabilizado. Por trás da abstração, há um processo concreto que impõe um preço socioambiental crescente e desigualmente distribuído.

Tela de celular exibindo aplicativos de inteligência artificial com o termo "Artificial Intelligence" destacado na parte superior da imagem.
Foto: Getty Images.

O Supremo só se salva se escolher o caminho mais difícil

“E não apenas a opinião pública: as instituições do setor público, os atores do setor produtivo, a academia, as organizações da sociedade civil e os territórios que dependem da estabilidade institucional para trabalhar, investir e planejar o futuro observam o Tribunal…”

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Há momentos em que a República descobre — com espanto tardio — que a legitimidade das instituições é um patrimônio vitalício, de construção diária, feita de prudência, transparência e contenção.

A crise que agora invadiu o Supremo Tribunal Federal não nasceu ontem, nem começou apenas com a atmosfera tóxica que se formou em torno do caso Banco Master. Ela é, antes, a soma de três vetores que se retroalimentam: a radicalização política, a hiperexposição de ministros e a fome social por exemplos éticos num país cansado de privilégios.

No epicentro, o STF volta a enfrentar o dilema que nenhum tribunal constitucional consegue evitar: ser guardião da Constituição sem se tornar prisioneiro da própria visibilidade. E, quando a Corte é arrastada para o palco — por fatos, ruídos, pressões e disputas — cresce o risco de que o debate público deixe de perguntar “o que é constitucional?” e passe a perguntar “quem é confiável?”.

É nesse contexto que a entrevista de Edson Fachin, recém-empossado presidente da Corte, no Estadão do dia 27.01.2026, se torna um documento político-institucional. Não pelo que ela “revela” de bastidores, mas pelo que ela confessa como necessidade. 

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Foto: Wilton Junior

Por que o caso Master virou símbolo e contaminou o ambiente do STF com tamanho poder corrosivo?

A dimensão financeira e social do escândalo: o colapso do Banco Master, a intervenção/liquidação e o rastro de investigação criminal criaram um cenário em que a sociedade espera respostas rápidas, tecnicamente robustas e politicamente imunes. O Banco Central apontou “grave crise de liquidez” e “graves violações às normas” como motivação para o regime especial no conglomerado. 

A judicialização de decisões regulatórias sensíveis: quando o Judiciário passa a tocar, diretamente, o fio desencapado que liga supervisão bancária, mercado, interesses privados e reputação institucional, qualquer sombra vira tempestade.  

O Brasil vive um paradoxo: exige do Supremo que proteja a democracia, mas se revolta quando o Supremo aparece demais; exige decisões rápidas, mas suspeita quando elas vêm por liminar; exige ética exemplar, mas normalizou um ecossistema político em que a vantagem virou método.

E só há um caminho a seguir — e ele é o mais exigente: voltar a ser percebida como instituição e não como soma de biografias. Quando a crise entra no STF, a resposta não pode ser corporativa; tem de ser constitucional. Não pode ser performática; tem de ser estruturante. Não pode ser “pancada”; tem de ser norma.

Dura lex sed lex. Em tempos de hiperexposição, redes em combustão e política em estado de nervo, essa máxima soa quase como provocação: a lei não foi feita para agradar, mas para resistir. A crise que alcança o Supremo Tribunal Federal é, ao mesmo tempo, sintoma e advertência — sintoma de um país que judicializou seus conflitos e advertência de que nenhum poder sobrevive ileso quando se afasta da disciplina que o legitima: a forma, o rito, a transparência e a Constituição.

A sociedade brasileira — em suas múltiplas vozes — acompanha esta hora com apreensão, sim, mas também com confiança: confiança de que o Supremo Tribunal Federal, sob crítica e sob prova, continuará exercendo o seu papel de guardião insubstituível dos direitos e deveres constitucionais. 

E não apenas a opinião pública: as instituições do setor público, os atores do setor produtivo, a academia, as organizações da sociedade civil e os territórios que dependem da estabilidade institucional para trabalhar, investir e planejar o futuro observam o Tribunal com a expectativa de que a Corte reafirme, por atos e por autocontenção, o fundamento que mantém a República de pé — a supremacia da Constituição, acima de conveniências, paixões e circunstâncias.

Porque, no fim, a República pode suportar quase tudo — menos a ideia de que a lei virou opção.

“E mesmo porque fora da lei não há salvação”.

Transição energética: o pacto, a bateria e as parcerias

Há transições que parecem grandes demais para caber numa frase — e, no entanto, elas cabem num gesto, em um pacto.

Um pacto entre o que o Brasil precisa agora e o que o mundo exige daqui pra frente. Um pacto entre indústria e território. Entre engenharia e clima. Entre a urgência de estabilizar redes elétricas e a ambição de reimaginar a energia como serviço, silenciosa, confiável, disponível como quem acende uma luz e não pensa no milagre.

É um órgão da nova economia: armazena, sustenta, regula, protege. Se a transição energética é o caminho, o armazenamento é a ponte. E ponte não se faz só com metal e química, ela demanda confiança, escala, cadeia de suprimentos, inteligência aplicada, além dos parceiros que tragam mundo para dentro, sem tirar o Brasil de si.

Por isso, a entrada estratégica da chinesa Vision Group na UCB Power — com participação minoritária anunciada em janeiro de 2026 — é um movimento societário que funciona como declaração de rota. A Vision chega como investidora e aliada tecnológica, somando robustez industrial e capacidade de inovação ao conhecimento local e à proximidade com o cliente que a UCB construiu ao longo de décadas.

TRANSICAO ENERGETICA
Sistema BESS da UCB (Divulgação)


A UCB preserva sua governança e sua operação, como quem mantém o leme mesmo quando aceita novos ventos. Parceria é aliança com contorno — um desenho em que cada parte continua sendo ela mesma, só que mais capaz.

A Vision carrega um repertório de pesquisa e propriedade intelectual que acelera ciclos, encurta tentativas, amplia eficiência — e oferece à UCB uma musculatura extra para disputar o futuro do BESS, do lítio e das soluções integradas de armazenamento numa América Latina que começa a acordar para o óbvio de que sem bateria, a energia limpa não vira segurança energética.

E o Brasil entra nessa história como plataforma

A UCB tem duas fábricas — Manaus (AM) e Extrema (MG) — e mantém parcerias comerciais na Ásia, com presença em Seul e Shenzhen, como quem já vinha preparando o mapa antes de anunciar o próximo passo. Há, nesse desenho, um recado sutil: a Amazônia industrial, quando bem compreendida, é uma das engrenagens possíveis para o país produzir, integrar e escalar soluções que o mundo pede. Não uma contradição.

Não vender só o equipamento, mas entregar continuidade. Não empilhar CAPEX, mas oferecer performance. Não transferir complexidade para o cliente, mas assumir integração, operação, manutenção — e transformar bateria em infraestrutura acessível.

Quando isso acontece, a transição energética deixa de ser discurso e vira rotina.

No fim, todo pacto verdadeiro tem a promessa de que o ganho privado encontre valor público; que a inovação vire emprego qualificado; que a escala reduza custos; que o armazenamento permita mais solar, mais eólica, mais estabilidade. E claro, menos diesel, menos risco, menos improviso.

A bateria é o coração. A parceria é o sistema circulatório. E o pacto é a coragem de colocar o Brasil na conversa global como um fabricante de futuro.

Educação básica: o controle que orienta, a responsabilidade que protege

Há um tipo de fiscalização que chega tarde — quando o dano já virou estatística, quando a criança já ficou para trás, quando a desigualdade já venceu mais uma rodada. E há um controle que precisa chegar antes: não para punir, mas para impedir que o erro vire destino; não para constranger, mas para ensinar o poder público a cumprir, com método e coragem, o seu dever mais sagrado.

Quando assumimos a missão de conduzir o TCE-AM, eu trouxe comigo uma convicção antiga — e ela se tornou prioridade prática, diária: o controle externo deve ser, ao mesmo tempo, firme e útil. Firme no dever de exigir resultados. Útil no compromisso de orientar caminhos. Porque, no Amazonas real, aquele que vive longe dos centros de decisão não pode pagar o preço da desorganização pública. E, entre todos os direitos, nenhum é tão decisivo quanto o direito de aprender.

A educação básica, sobretudo a educação infantil e a alfabetização na idade certa, é o alicerce silencioso de todo o resto. É ali que se decide se a vida vai florescer ou apenas resistir. É ali que a política pública deixa de ser discurso e vira chão: vaga em creche, professor valorizado, gestão madura, recurso aplicado corretamente, criança alfabetizada no tempo certo, aprendizagem que acontece — e não apenas se promete.

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(Foto: Alberto Cesar Araújo / Amazônia Real)

Por isso, o TCE-AM tem ampliado sua presença na área educacional com uma abordagem orientada a resultados e impacto social, ancorada em auditorias operacionais, acompanhamentos técnicos e ações de orientação aos gestores. A Secretaria de Controle Externo, por meio do Departamento de Auditoria em Educação, tem realizado fiscalizações e monitoramentos contínuos, com presença em campo, análise técnica e diálogo institucional — especialmente onde os gargalos são mais antigos e a demanda mais urgente.

Quando acompanhamos a ampliação de vagas em creches e pré-escolas, por exemplo, não estamos olhando apenas para um número. Estamos olhando para um futuro inteiro. Uma vaga em creche é uma criança protegida, uma mãe que consegue trabalhar, uma família que encontra alguma estabilidade, um ciclo de pobreza que pode ser interrompido. É também uma política pública que precisa de planejamento, execução, priorização, acompanhamento — e responsabilidade.

E quando monitoramos a alfabetização, em consonância com o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, estamos lidando com um retrato duro do país dentro do nosso território: há municípios em que a alfabetização no período adequado ainda é alarmantemente baixa; em outros, os resultados são muito superiores e precisam ser preservados e aprofundados. Essa desigualdade não pode ser normalizada. Ela precisa ser enfrentada como se enfrenta uma emergência — com diagnóstico, metas, transparência e ação.

O Tribunal não substitui o gestor. Mas também não pode ser um espectador. Nosso papel é garantir que o direito exista na vida real — e isso exige induzir boas práticas, emitir alertas, construir notas técnicas, orientar o uso correto de recursos como Fundeb e VAAT, fortalecer a governança educacional e evitar perdas que, no fim, caem sempre sobre os mesmos ombros: os das crianças e famílias mais vulneráveis.

É nesse espírito que nasce e se consolida uma nova fase da atuação do TCE-AM, materializada recentemente com a instituição do Programa de Apoio à Melhoria da Qualidade da Educação no Amazonas — iniciativa pioneira, com foco em alfabetização, aprendizagem, equidade e maturidade da gestão educacional, sob coordenação do conselheiro-corregedor Fabian Barbosa. O programa não é uma peça formal: é um instrumento de transformação, porque organiza a ação, cria método, aproxima, responsabiliza e acompanha.

Eu tenho chamado esse caminho, internamente e nos nossos “cadernos de responsabilidade”, de uma escolha de civilização: governar e controlar não como gestos burocráticos, mas como atos de cuidado com o futuro. Esses cadernos são mais do que uma agenda de temas; são uma ética de atuação pública. Eles nos lembram que cada procedimento técnico precisa carregar um sentido humano. E que cada número, cada relatório, cada visita, cada recomendação, precisa ter como destino final o cidadão — especialmente o cidadão que mais precisa do Estado para não ser abandonado.

A educação é a base da transformação social. E, no Amazonas, ela é também a base da justiça territorial, da redução das desigualdades e da construção de oportunidades reais.

Por isso, reafirmo: o Tribunal de Contas do Amazonas continuará atuando de forma técnica, responsável e colaborativa para apoiar os gestores, induzir boas práticas e garantir que as políticas públicas educacionais cheguem, de fato, a quem mais precisa. Nosso foco não é produzir papel. É produzir resultado. É ajudar o Amazonas a cumprir o seu dever com as suas crianças — e, com isso, honrar o seu amanhã.