Por trás da inteligência artificial: Como é viver perto de data centers?

A expansão global dos data centers ligados à inteligência artificial (IA) tem transformado paisagens, bairros e rotinas urbanas. Embora sejam invisíveis para a maioria dos usuários de internet, essas gigantescas infraestruturas físicas consomem energia em larga escala, geram ruído constante e levantam dúvidas sobre seus impactos ambientais e sociais, especialmente para quem mora nas proximidades.

Um epicentro de conflitos: o caso da Virgínia

A Virgínia, nos Estados Unidos, é o local com maior concentração de data centers no mundo. São quase 600 instalações, incluindo 150 centros hiperescaláveis. Apesar da insatisfação crescente de moradores, dezenas de novos projetos estão em curso. 

Se todos forem construídos, os data centers da Virgínia consumirão tanta energia que a principal fornecedora local, a Dominion, já firmou contratos para produzir 40 gigawatts de energia, três vezes a produção energética do estado em 2025.

O ruído que nunca para

Entre as queixas mais comuns dos vizinhos está o zumbido contínuo emitido pelos sistemas de resfriamento e operação dos servidores. Segundo o economista Lourenço Galvão Diniz Faria, consultor em transição energética e sustentabilidade, o barulho pode alcançar 80 decibéis ponderados (dBA), comparável a um soprador de folhas. 

“O zumbido constante de servidores e sistemas auxiliares cria níveis de ruído significativos e persistentes. Isso pode afetar comunidades próximas e animais silvestres”, explica Faria.

Água turva, torneiras secas

Em outras partes dos EUA, como Mansfield, na Geórgia, moradores relatam alterações na qualidade da água após a construção de data centers. Poços particulares passaram a apresentar água turva e com sedimentos e a pressão caiu a ponto de ser preciso encher baldes para dar descarga no banheiro.

Beverly Morris, uma das moradoras, relata que não consegue mais beber a água da torneira por não confiar na qualidade. “Tenho medo de beber a água, mas ainda cozinho e escovo os dentes com ela”, diz Morris. “Fico preocupada com isso.”

Apesar das queixas, a empresa responsável pelo centro local, a Meta, afirma que não há relação entre suas operações e os problemas relatados, uma explicação que os moradores contestam.

Gordon Rogers coleta amostra de água do rio Flint, na Geórgia, para avaliar impactos ambientais na região próxima a data centers.
Pesquisador coleta amostras regulares de água para monitorar a saúde do rio Flint, na Geórgia, região afetada pela crescente pressão dos data centers. Foto: BBC

Falta de transparência e preocupação com poluentes

A escassez de informações claras sobre os impactos ambientais também preocupa. Muitos data centers operam com turbinas a gás natural e geradores a diesel. Ainda não há dados precisos sobre a poluição emitida pelos data centers, tanto no ar, quanto na água ou sobre os possíveis efeitos à saúde de vizinhanças e ecossistemas.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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