Se quisermos enfrentar o embaraço — e não apenas descrevê-lo — política pública e estratégia empresarial precisam parar de operar como mundos paralelos. Adensamento não nasce de edital genérico nem de seminário bem-intencionado. Nasce de coordenação, foco e escolhas duras.
Coluna Follow-Up
Há um silêncio estatístico que grita mais alto do que as bravatas do noticiário econômico. Em 21 anos, a participação de insumos regionais no Polo Industrial de Manaus caiu de 32,3% para 18,8%. Não é um tropeço. É uma linha de fuga. Uma tendência longa, persistente, com cara de escolha racional e cheiro de erro estratégico. O fato está consubstanciado no estudo de Rocha, A. C. B.; Lasmar, D. J.; Costa, A. R. R. (2026). Relatório 1 – Análise de anomalias do Polo Industrial de Manaus. Projeto ANA. Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
O PIM continua funcionando, entregando volumes, batendo metas, alimentando relatórios e superando recordes. Só que, aos poucos, vai se tornando aquilo que o Brasil sempre suspeitou: um lugar onde se monta, mas não se enraíza. Uma máquina competente, porém com pouca intimidade com o território que a sustenta. Uma indústria eficiente… porém descartável.
As razões são procedentes. Mas quando o adensamento produtivo se desfaz, a economia local deixa de aprender. Com exceções pontuais — como o Polo de Duas Rodas — o projeto fabril não escala, não verticaliza, não consolida fornecedores, não acumula tecnologia. Manaus deixa de ser plataforma de produção inteligente e passa a funcionar como estação de passagem.
O resultado é perverso: a indústria perde lastro regional e, com ele, perde legitimidade política para existir como projeto nacional de desenvolvimento. O propósito original — diversificação, adensamento e regionalização das cadeias produtivas — vai ficando pelo caminho.
O debate costuma cair em duas armadilhas. A primeira é moralizar: “as empresas não querem comprar local”. A segunda é burocratizar: “faltam incentivos”. O estudo evita ambas e, por isso, é mais contundente. Sugere que o problema pode ser tributário, logístico, técnico, ou resultado de redes de fornecedores pré-existentes fora da região. Uma soma de racionalidades que, após duas décadas, passa a habitar confortavelmente a casa do “é assim mesmo”.
Determinismo, porém, é aquilo que uma política industrial inteligente se recusa a aceitar.
A oportunidade existe e tem nome e endereço: reorganização do sistema tributário e redesenho dos instrumentos de política industrial. Desde que isso não vire nova armadilha. Tratar o problema apenas como “chance de atrair mais empresas” é pouco. Atrair é verbo pobre. O verbo certo é enraizar.
Não se trata apenas de trazer fábricas. Trata-se de trazer cadeias, puxar etapas produtivas, encurtar distâncias econômicas e tecnológicas e fazer o dinheiro circular mais tempo dentro do Amazonas antes de evaporar — não por fenômeno climático extremo, mas porque foi atender outros arraiais.
Aqui entra o ponto mais ignorado — e o mais estratégico, já apontado por um dos autores do estudo, Augusto Rocha, em ensaio recente.
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Se o adensamento caiu, não foi apenas pela ausência de fornecedores tradicionais. Foi porque o PIM, como ecossistema, falhou em construir uma ponte viva entre indústria e inovação local. Falhou em transformar startups em engrenagem real do Polo. Falhou em casar o chão de fábrica com o laboratório, e o laboratório com o capital. O resultado é um PIM que compra de longe porque inova de longe. Que importa peças e também importa soluções. Que terceiriza processos e também terceiriza inteligência.
Hoje se fala em startup como adereço de evento, painel de auditório, selfie institucional. Mas startup, no contexto do PIM, não é modernidade. É infraestrutura econômica. É a forma contemporânea de criar fornecedores, tecnologias e serviços industriais com velocidade, especialização e custo competitivo. E isso é ainda mais grave quando se lembra que, graças aos recursos de P&D&I, Manaus figura entre os polos de maior intensidade inovadora do país. O que falta não é talento. É demanda industrial organizada.
Não basta “chamar as startups”. O PIM precisa ser mercado real para elas: demanda previsível, contratos piloto, padrões técnicos claros, acesso a plantas de teste, desafios industriais publicados e caminho concreto de escala. Startups não morrem por falta de discurso.
O distanciamento entre startups e PIM é hoje um desperdício duplo: a indústria perde agilidade e soluções locais; o ecossistema inovador perde seu maior comprador potencial. No meio, Manaus perde a chance de transformar incentivos fiscais em inteligência produtiva.
Enfrentar isso exige método e escolha. Não se adensa tudo ao mesmo tempo. É preciso selecionar poucos arranjos produtivos e adensá-los de verdade. Mapear gargalos com transparência — custo, escala, prazos, certificações, logística. Alinhar incentivos para premiar quem internaliza etapas e cria fornecedores competitivos, sem fetiche protecionista nem romantismo regional. E, por fim, construir a ponte industrial das startups com pragmatismo: compras de inovação, laboratórios compartilhados, fundos mistos e governança com metas mensuráveis. Manaus já domina, com naturalidade, instrumentos como sandboxes regulatórios. Falta decisão estratégica.
Criar um Programa Ponte Industrial PIM–Startups não é ideia bonita. É necessidade estrutural. Com governança, metas de compras de inovação e trilhas setoriais — automação, manutenção avançada, eficiência energética, rastreabilidade, logística, qualidade — para que a indústria volte a produzir a partir do território e o território volte a produzir futuro dentro da indústria.
Em outras palavras: o PIM precisa parar de tratar startup como “ornamento de futuro” e passar a tratá-la como peça do presente. O Relatório 1 do Projeto ANA, da UFAM, é meritório e exige debate imediato. E que venham outros.
Se a curva dos insumos regionais continuar caindo, não se reduz apenas um percentual. Reduz-se o sentido histórico do Polo, sua capacidade de ser plataforma de desenvolvimento e a chance de a Amazônia sustentar uma economia legal que não apenas resista, mas lidere. O efeito não é só econômico. É político. Quanto mais a cadeia regional emagrece, mais o PIM perde lastro e legitimidade como projeto nacional de desenvolvimento regional.
Se quisermos enfrentar o embaraço — e não apenas descrevê-lo — política pública e estratégia empresarial precisam parar de operar como mundos paralelos. Adensamento não nasce de edital genérico nem de seminário bem-intencionado. Nasce de coordenação, foco e escolhas duras.
Quando uma indústria se distancia do território, ela não perde só fornecedores. Ela perde o futuro.
Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, sob responsabilidade do CIEAM, com coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do brasilamazoniaagora.com.br