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Brasil, o país dos Porteiros

Há algo de profundamente errado quando o empresário conclui que seu problema não é jurídico, mas político. Quando ele descobre que não precisa de defesa técnica — precisa de trânsito. Não precisa de tese — precisa de acesso. Não precisa de razão — precisa de porteiro.

Esse é o Brasil dos Porteiros. Um país onde as portas existem, mas nunca estão totalmente abertas. Onde a regra é pública, mas a interpretação tem dono. Onde o processo é formal, mas o desfecho depende da antessala. E onde finanças, tribunais e poder político não se encontram por acaso — se organizam.

No mercado tradicional, você compra produto. No mercado financeiro, você compra risco. No mercado da influência, você compra expectativa. Essa é a moeda mais valiosa do país. Não se trata de provar que alguém decide em favor de quem paga.

Trata-se de algo mais sofisticado: criar a percepção de que pagar aumenta as chances. A economia da influência não depende da ilegalidade explícita. Ela depende da assimetria. Quem está fora acredita na regra. Quem está dentro acredita no acesso.

E quando essa crença se consolida, cria-se um setor invisível da economia: a indústria da exploração de prestígio.

O caso recente envolvendo entidades do comércio revela algo maior que um escândalo específico. Ele ilumina o método.

Quando recursos circulam por contratos formais, pareceres técnicos e termos de cooperação aparentemente regulares, o problema deixa de ser o ato e passa a ser o desenho.

No Brasil, aprendemos algo perigoso: O risco jurídico é gerenciável. O risco político é negociável. O risco reputacional é precificável. O sistema financeiro opera exatamente assim. Bancos sabem que crises acontecem. Sabem que haverá investigação. Sabem que haverá manchetes.

Mas também sabem que existem instrumentos:

Quando o custo de blindagem é menor que o custo da punição, cria-se incentivo perverso. E aí o problema deixa de ser moral. Vira cálculo.

Nenhum sistema desses sobrevive sem linguagem própria.

A linguagem técnica cumpre papel fundamental: desidratar a indignação pública. O cidadão comum vê cifras milionárias. O sistema responde com tecnicalidades. E enquanto o debate se perde no labirinto processual, a engrenagem continua girando.

Brasil, o país dos Porteiros

Se a denúncia estiver correta, o desenho era simples: Cada tribunal tinha seu especialista. Cada especialista tinha seu contrato. Cada contrato tinha seu valor milionário.

Não importa se houve atuação concreta. Importa que o cliente acreditava que aquele nome “abria portas”. Isso não nasce do nada. Nasce de décadas de promiscuidade entre política, advocacia de alto padrão e estrutura estatal.

Quando familiares de autoridades passam a atuar em causas diretamente relacionadas a seus ambientes de influência, mesmo que formalmente autorizados, instala-se um fenômeno corrosivo: A suspeita permanente. E suspeita constante é o que corrói legitimidade institucional.

O capítulo final é sempre o mesmo. Quando a investigação parece robusta, surge o debate processual. Onde deveria haver análise de mérito, há discussão de foro. Onde deveria haver julgamento de fatos, há questionamento sobre competência. Onde deveria haver responsabilização, há prescrição.

Não se afirma culpa aqui. Afirma-se algo mais estrutural: O sistema brasileiro desenvolveu uma extraordinária capacidade de autodefesa formal.

É uma blindagem sofisticada. Legal. Técnica. Elegante. Mas devastadora para a confiança pública.

O que o episódio revela não é apenas corrupção eventual. Revela que existe um mercado paralelo de proteção institucional. E o sistema financeiro entende isso como poucos. Quando um banco cresce rapidamente, assume riscos ousados ou opera na fronteira regulatória, ele não calcula apenas spread e capitalização.

Calcula:

  • Quem o defenderá.
  • Onde tramitará eventual litígio.
  • Quanto custará cada instância.
  • Quem tem trânsito onde.

Se o Brasil vira um ambiente onde influência é ativo negociável, o custo de capital sobe para quem não participa do jogo — e cai para quem sabe jogá-lo. Isso distorce concorrência. Distorce justiça. Distorce desenvolvimento.

No Brasil dos Porteiros, nada é simplesmente institucional. Tudo tem intermediação. Empresário paga pedágio para circular dinheiro. Cidadão paga pedágio para acessar serviços. E, quando surge um problema, paga-se pedágio para sobreviver ao sistema. O pedágio invisível da influência. O mais caro de todos.

A questão não é se houve culpa neste ou naquele caso. A questão é estrutural: É aceitável que o país naturalize a ideia de que problemas jurídicos se resolvem politicamente? É aceitável que contratos milionários sejam celebrados não pela qualidade técnica, mas pela expectativa de proximidade? É aceitável que nulidades sejam rotina estratégica?

  • Regras claras sobre conflito de interesse.
  • Transparência radical em contratações institucionais.
  • Limites objetivos para atuação de parentes em ambientes de poder.
  • E, sobretudo, uma cultura pública que valorize mérito acima de trânsito.

O Brasil não é um país sem leis. É um país onde a aplicação da lei depende de navegação. E quando navegar vale mais do que cumprir, instala-se o reino da influência. O problema nunca foi apenas jurídico. Nem apenas financeiro. O problema é civilizacional.

Enquanto houver porteiros cobrando pedágio invisível para atravessar o sistema, o país continuará pagando juros morais mais altos do que os financeiros. E esses, ao contrário dos outros, não cabem no orçamento.

Floresta ou soja? – Estratégia econômica, risco climático e soberania no século XXI

A expansão da soja sobre áreas de floresta amazônica costuma ser apresentada como consequência natural do crescimento econômico. A premissa implícita é simples: produzir mais exigiria ocupar mais território. A análise técnica, entretanto, indica que essa relação não é inevitável.

A falsa escolha entre produzir e preservar

O Brasil dispõe de extensas áreas de pastagens degradadas com potencial de reconversão produtiva. A intensificação nessas áreas permite ampliar a produção sem necessidade de conversão de floresta primária. A expansão horizontal não é imperativo agronômico. É decisão estratégica – e decisões estratégicas devem considerar seus efeitos sistêmicos.

A floresta como infraestrutura invisível da economia

A Amazônia exerce função reguladora no equilíbrio climático continental. A evapotranspiração florestal influencia regimes de precipitação que sustentam a agricultura no Centro-Oeste e no Sudeste. A estabilidade hídrica que alimenta a produtividade de grãos fora da Amazônia depende do equilíbrio ecológico amazônico.

A redução da cobertura florestal altera fluxos atmosféricos, aumenta a variabilidade climática e amplia a exposição a eventos extremos. Nesse contexto, substituir floresta por soja pode gerar expansão local imediata, mas introduz risco estrutural à própria base produtiva nacional.

Foto de rios voadores e processo de evapotranspiração.
Foto: Reprodução/Documentário Rios Voadores

Governança já construída: moratória e legislação

O Brasil não enfrenta esse debate desprovido de instrumentos institucionais. Desde 2006, a Moratória da Soja estabeleceu compromisso do setor empresarial de não adquirir grãos oriundos de áreas desmatadas após julho de 2008 no bioma Amazônia. Monitoramento por satélite, auditorias independentes e rastreabilidade tornaram a iniciativa referência internacional em governança de cadeia produtiva.

Paralelamente, o Código Florestal brasileiro determina que propriedades na Amazônia Legal mantenham até 80% de sua área como Reserva Legal. Trata-se de uma das legislações ambientais mais restritivas do mundo no que diz respeito ao uso da terra.

Esses instrumentos revelam que o país já reconheceu, em termos normativos e econômicos, o valor estratégico da floresta. O desafio contemporâneo não é ausência de regra, mas coerência de aplicação e consistência estratégica. Ignorar essa arquitetura institucional seria retroceder em maturidade regulatória já conquistada.

Competitividade internacional e risco reputacional

O ambiente econômico global tornou a integridade ambiental variável competitiva. Cadeias internacionais exigem rastreabilidade e comprovação de ausência de desmatamento. Regulamentações emergentes vinculam acesso a mercados à conformidade ambiental. O capital financeiro precifica risco climático.

A expansão sobre floresta primária encarece crédito, fragiliza acordos comerciais e tensiona a posição diplomática brasileira. A reputação ambiental deixou de ser atributo simbólico. É ativo econômico.

A vocação econômica diferenciada da Amazônia

A Amazônia possui potencial econômico que transcende a monocultura de commodities. Bioeconomia, biotecnologia, cadeias farmacêuticas, cosméticas, serviços ambientais e mercados de carbono representam vetores de maior densidade tecnológica e agregação de valor.

Converter floresta tropical em expansão de soja significa optar por modelo de menor complexidade econômica e maior exposição à volatilidade internacional. A escolha define projeto de desenvolvimento.

A verdadeira fronteira é tecnológica

O século XXI premia eficiência, inovação e intensificação sustentável. Agricultura de precisão, integração lavoura-pecuária-floresta, recuperação de solos degradados e melhoramento genético permitem ampliar produtividade sem ampliar desmatamento.

A fronteira contemporânea é muito mais tecnológica que territorial. Expandir sobre floresta primária, diante dessas alternativas, representa regressão estratégica.

Soberania e responsabilidade histórica

A Amazônia ocupa centralidade na agenda climática global. Decisões tomadas em seu território reverberam em negociações multilaterais, fluxos de investimento e acordos comerciais. Preservar floresta não constitui concessão ideológica, mas instrumento de soberania econômica.

O Brasil continuará sendo potência agrícola. O ponto decisivo é como sustentar essa posição sem comprometer o ativo natural que sustenta a própria produção.

A floresta não é obstáculo ao desenvolvimento. É infraestrutura ecológica da economia brasileira. Trocar essa infraestrutura por expansão primária de curto prazo pode gerar ganho imediato, mas impõe custos acumulativos que o ambiente competitivo do século XXI tende a cobrar.


Necessário Ler – Dados Oficiais que Qualificam o Debate

Vários indicadores oficiais e análises de monitoramento espacial reforçam a profundidade técnica das escolhas estratégicas sobre uso da terra na Amazônia:

Moratória da Soja e conformidade

Relatórios de acompanhamento indicam que cerca de 97 % a 98 % da área cultivada de soja na Amazônia está em terrenos abertos antes de 2008, em conformidade com os princípios da Moratória da Soja, isto é, sem ocupar áreas desmatadas após o marco do acordo. Isso demonstra que a cadeia produtiva tem conseguido alinhar expansão agrícola com padrões de não-desmatamento nos últimos anos. 

Estudos adicionais mostram que, após a implementação da Moratória, as taxas anuais de desmatamento em municípios produtores de soja passaram de médias superiores a 10.600 km²/ano para cerca de 3.000 km²/ano – um corte de mais de dois terços nas áreas diretamente ligadas ao avanço sobre mata nativa. 

Floresta ou soja? - Estratégia econômica, risco climático e soberania no século XXI

Dados de desmatamento do INPE

Segundo estimativas recentes do INPE (PRODES), a taxa de desmatamento para o ano de 2025 na Amazônia Legal foi estimada em aproximadamente 5.796 km², resultado que representa variações regionais e reflete queda em muitos estados do bioma em comparação com o ano anterior. 

Além disso, levantamentos oficiais indicam que o desmatamento em unidades de conservação caiu cerca de 31 % no período de agosto de 2024 a julho de 2025, conforme dados oficiais compilados pelo INPE. 

MapBiomas: legado de décadas de monitoramento

Relatórios do MapBiomas mostram que, mesmo com grandes pressões de uso da terra nas últimas décadas, a soja deixou de ser um dos principais vetores de desmatamento na Amazônia após a adoção de práticas de governança no setor. Entre 1985 e 2024, o bioma perdeu cerca de 52 milhões de hectares de vegetação nativa, mas a trajetória histórica de uso da soja mudou de padrão após a consolidação dos acordos de moratória e monitoramento. 


Follow Up é publicada pelo Jornal do Comércio do Amazonas, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, responsável pelo portal de notícias da Amazônia https://brasilamazoniaagora.com.br

Por que a agenda ESG pode transformar o Polo Industrial de Manaus em ativo estratégico do Brasil

O Polo não é um favor federativo. É uma escolha civilizacional. Ele nasceu para oferecer à Amazônia uma alternativa ao desmatamento, para substituir a economia predatória por uma economia tecnológica, formal e auditável. E tem conquistado este desafio. Enquanto vastas regiões tropicais do planeta sucumbiram à conversão de florestas em pasto e mineração irregular, o Amazonas manteve mais de 97% de sua cobertura vegetal preservada.

Agora, diante da consolidação progressiva da agenda ESG no mundo, abre-se uma nova etapa histórica. O que durante décadas foi uma política de equilíbrio regional pode tornar-se uma plataforma global de legitimidade climática.

A agenda ESG não deve ser vista pelo Polo como imposição externa, mas como linguagem internacional de reconhecimento. O mundo reorganiza suas cadeias produtivas a partir de critérios ambientais, sociais e de governança. Barreiras comerciais deixam de ser apenas tarifárias e passam a ser reputacionais e climáticas. Quem não mede, não reporta, não demonstra compromisso consistente, perde acesso a mercados e capital.

Para o setor eletroeletrônico — base do SINAEES e do PIM— isso é ainda mais evidente. Trata-se de uma indústria profundamente integrada às cadeias globais, dependente de credibilidade técnica, rastreabilidade e conformidade regulatória. Incorporar o ESG com seriedade não é aderir a um modismo. É garantir permanência e um diferencial competitivo.

Há uma vantagem comparativa que nenhuma outra região industrial do planeta possui. O Polo está inserido no coração da maior floresta tropical do mundo. E sua existência contribui diretamente para que ela permaneça em pé. Ao concentrar atividade econômica urbana e tecnológica, o modelo reduz pressões sobre o interior, gera emprego formal e cria estabilidade social.

Quando as empresas estruturam governança ambiental, aprimoram eficiência energética, investem em economia circular e consolidam práticas de transparência, não estão apenas cumprindo normas. Estão demonstrando que é possível produzir tecnologia avançada sem transformar floresta em passivo ambiental.

O Polo gera emprego formal, qualificação técnica, renda estável e presença institucional em uma região onde o vazio econômico costuma ser rapidamente ocupado por atividades ilegais. A indústria, nesse contexto, não é apenas agente econômico. É instrumento de coesão territorial.

É preciso dizer com clareza: desenvolvimento sustentável na Amazônia não se faz com romantismo improdutivo nem com exploração predatória. Faz-se com institucionalidade, inovação e compromisso de longo prazo.

Durante décadas, a Zona Franca foi criticada sob a narrativa simplista da renúncia fiscal. A agenda ESG oferece a oportunidade de elevar o debate. Com métricas claras, auditoria robusta e transparência consistente, o Polo pode demonstrar sua contribuição real para o equilíbrio federativo, para a arrecadação indireta, para a pesquisa tecnológica e para a estabilidade ambiental.

Além disso, o ESG impulsiona inovação. A transição energética, a digitalização industrial, a rastreabilidade de cadeias produtivas, a gestão inteligente de resíduos e a integração com novas frentes de bioeconomia criam oportunidades de adensamento produtivo. O setor eletroeletrônico é protagonista natural dessa transformação. Não existe economia verde sem tecnologia. Não existe tecnologia sem indústria estruturada.

O momento histórico amplia essa responsabilidade. A Amazônia tornou-se epicentro do debate climático global. A realização da COP 30 em Belém é símbolo dessa mudança de eixo. O Brasil será observado não apenas por seu discurso ambiental, mas por sua capacidade de apresentar soluções concretas.

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Imagem criada por IA

Uma indústria de alta tecnologia operando na maior floresta tropical do planeta, preservando-a, gerando renda formal e cumprindo padrões internacionais de governança é mais do que um modelo regional. É um ativo geopolítico.

A agenda ESG, se assumida com profundidade estratégica e não como mera formalidade regulatória, transforma o Polo de objeto de contestação em referência internacional. Transforma a Zona Franca de mecanismo defensivo em plataforma propositiva.

Entre nós, essa é uma falsa dicotomia. O que está em jogo é o tipo de indústria que se instala na floresta e o tipo de governança que a sustenta. Se bem conduzida, a agenda ESG não enfraquece o Polo Industrial de Manaus. Ao contrário, consolida-o como uma das experiências mais sofisticadas de compatibilização entre produção, soberania e preservação ambiental no mundo contemporâneo.

E é nesse ponto que o Brasil precisa enxergar o que já construiu. Não se trata apenas de manter incentivos. Trata apenas de manter incentivos. Trata-se de compreender que, na Amazônia, a indústria também é floresta.

Dois nomes, uma mesma causa: ciência a serviço da Terra

“Que suas trajetórias inspirem jovens pesquisadores, fortaleçam as instituições de ciência e tecnologia e reafirmem que não há soberania ambiental sem investimento contínuo em pesquisa.”

O Planet Earth Award 2026, concedido pela Aliança Mundial de Cientistas (AWS), vai além da honraria individual. É um reconhecimento internacional à ciência brasileira, quando ela se coloca na linha de frente da defesa da vida na Terra.

Neste ano, dois pesquisadores simbolizam essa convergência entre rigor acadêmico e compromisso público: Paulo Artaxo e Luisa Maria Diele-Viegas.

Paulo Artaxo: a Amazônia como engrenagem do clima planetário

Físico, professor titular da USP, bolsista produtividade do CNPq e integrante do Conselho Científico da COP30, Paulo Artaxo é uma das maiores referências mundiais na compreensão da relação entre floresta amazônica e clima global.

Seus estudos sobre aerossóis atmosféricos, emissões biogênicas da vegetação e forçantes radiativas ajudaram a decifrar um dos mecanismos mais complexos do sistema terrestre: como a floresta influencia a formação de nuvens, o ciclo hidrológico e o balanço energético do planeta.

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Artaxo demonstrou, com base empírica robusta, que a Amazônia, muito além de um estoque de carbono, é um agente ativo da estabilidade climática global. Sua pesquisa ajudou a transformar a narrativa ambiental: da floresta como paisagem exótica para a floresta como infraestrutura climática estratégica da humanidade.

Sua trajetória mostra que ciência de excelência não é neutra diante da crise: ela esclarece, orienta políticas públicas e sustenta decisões internacionais baseadas em evidências.

Luisa Maria Diele-Viegas: ciência, biodiversidade e justiça climática

Se Paulo Artaxo representa a física do sistema climático, Luisa Maria Diele-Viegas simboliza a biologia da vulnerabilidade e da resistência.

Ecóloga, docente da UFBA, presidente da Rede Kunhã Asé de Mulheres na Ciência e do capítulo brasileiro da Organização para Mulheres na Ciência no Mundo em Desenvolvimento (UNESCO), Diele-Viegas articula três dimensões fundamentais: Pesquisa científica de alta qualidade; Defesa da biodiversidade e ampliação do protagonismo feminino e latino-americano na ciência

A biologa e pesquisadora brasileira Luisa Diele Viega. Walter Costa Neto Luisa Diele Viegas 1

Sua atuação em estudos sobre mudanças climáticas e risco de extinção, investigando tolerância térmica e nicho ecológico de espécies ameaçadas, revela um ponto crucial da crise climática: não se trata apenas de temperatura média, mas de limites fisiológicos da vida.

Ao estudar lagartos de restinga, anuros de altitude e outros vertebrados tropicais, ela evidencia como o aquecimento global redefine fronteiras ecológicas e ameaça espécies já pressionadas por perda de habitat.

Mas sua contribuição vai além dos artigos científicos. Diele-Viegas também atua na construção de redes internacionais e na promoção de equidade na ciência – ampliando o acesso, a representação e a pluralidade no sistema científico brasileiro e global.

O significado maior da premiação

O Planet Earth Award reconhece trajetórias que unem produção científica de excelência e compromisso público. Nesse sentido, Artaxo e Diele-Viegas representam duas faces complementares de uma mesma urgência: a compreensão sistêmica do clima; a proteção concreta da biodiversidade e a transformação do conhecimento em ação

Num momento em que o Brasil se compromete a promover a transição energética como legado do Brasil na COP-30, a premiação de dois cientistas brasileiros com projeção internacional reforça uma mensagem estratégica:

Ao parabenizar Paulo Artaxo e Luisa Maria Diele-Viegas, o Brasil celebra não apenas indivíduos, mas a força de uma comunidade científica que insiste em produzir evidências, dialogar com a sociedade e defender o planeta com base no conhecimento.

Que suas trajetórias inspirem jovens pesquisadores, fortaleçam as instituições de ciência e tecnologia e reafirmem que não há soberania ambiental sem investimento contínuo em pesquisa.

O Brasil das Terras Raras e a Bateria do Futuro

A COP 30 não será lembrada apenas como um grande encontro diplomático em Belém. Ela pode marcar o instante em que o Brasil decidiu deixar de ser figurante da transição energética global para assumir o papel de protagonista tecnológico, mineral e industrial.

Durante décadas, fomos apresentados ao mundo como o país da floresta — guardiões do carbono, da biodiversidade, dos rios voadores. Essa identidade é verdadeira, mas incompleta. O Brasil é também o país das reservas estratégicas que sustentam o novo sistema energético global. Somos potência ambiental, mas somos igualmente potência mineral e industrial em formação.

E é nesse ponto que entra a mais alvissareira das notícias do pós-COP 30: o Brasil está no centro do mapa das terras raras e dos minerais críticos que alimentam a revolução das baterias.

O século XX foi movido a petróleo. O século XXI será movido a elétrons — e estes dependem de armazenamento eficiente, seguro e escalável.

Baterias deixaram de ser acessórios tecnológicos para se tornarem infraestrutura estratégica. Elas definem soberania energética, mobilidade elétrica, estabilidade de redes e segurança nacional. Países que dominarem a cadeia das baterias dominarão a economia da transição.

Lítio, níquel, manganês, grafite e terras raras não são apenas commodities. São os novos ativos geopolíticos.

bateria do futuro
Imagem gerada por IA

E o Brasil possui reservas expressivas de vários desses minerais, além de uma matriz elétrica majoritariamente renovável — condição raríssima no mundo. Isso nos dá uma vantagem competitiva que poucos países possuem: podemos produzir baterias com baixa pegada de carbono desde a origem da energia.

Isso não é detalhe. É diferencial civilizacional.

O nome engana. Terras raras não são necessariamente escassas. São raras em domínio tecnológico, refino e aplicação industrial.

Hoje, a cadeia global é altamente concentrada. Isso gera dependência, vulnerabilidade e tensão geopolítica. O mundo busca diversificação. Busca parceiros confiáveis. Busca estabilidade institucional.

Não se trata de repetir o erro histórico de exportar minério bruto e importar tecnologia agregada. Trata-se de verticalizar, industrializar, transformar conhecimento em valor e valor em desenvolvimento.

Temos universidades, centros de pesquisa, indústria eletroeletrônica consolidada e um parque industrial experiente em cadeias globais, como o da Zona Franca de Manaus. Temos também crescente capacidade em engenharia energética e sistemas de armazenamento.

A transição energética é muito mais do que debate climático. É um desafio social.

Na Amazônia, ainda convivemos com milhares de comunidades isoladas dependentes de diesel caro, poluente e logisticamente complexo. Substituir esse modelo por sistemas híbridos com solar, armazenamento em baterias e gestão inteligente não é utopia tecnológica — é necessidade humanitária.

A mesma tecnologia que move carros elétricos na Europa pode libertar comunidades amazônicas da pobreza energética. Isso é soberania energética com justiça social. Se produzirmos baterias, produzimos também soluções. Se dominarmos a tecnologia, dominamos o futuro de nossa própria integração territorial.

A COP 30 colocou o Brasil sob os holofotes do mundo. O compromisso ambiental precisa caminhar junto com estratégia industrial.

Não existe transição energética sem indústria. Não existe descarbonização sem inovação. Não existe sustentabilidade sem competitividade.

O Brasil tem a oportunidade histórica de alinhar três vetores:

1- Reservas minerais estratégicas,

2- Matriz elétrica renovável,

3- Base industrial e tecnológica instalada

Se houver coordenação entre governo, setor privado, academia e investidores, poderemos estruturar uma política nacional de minerais críticos e baterias com foco em cadeias produtivas verticalizadas.  Viabilizar o processamento com energia limpa, baseado em pesquisa, desenvolvimento e inovação. Com segurança jurídica e ambiental e inserção competitiva nas cadeias globais. Essa é a agenda que transforma promessa em prosperidade.

O mundo precisa de minerais críticos. O mundo precisa de baterias. O mundo precisa de energia limpa. O mundo precisa diversificar fornecedores. O Brasil reúne as condições para ser parte central dessa equação.

A melhor notícia do pós-COP 30 não será um discurso. Será uma decisão estratégica: transformar nossas riquezas minerais em riqueza tecnológica, energética e social. Não se trata apenas de exportar recursos. Trata-se de exportar soluções.

A transição energética é bem mais do que um imperativo ambiental. É uma janela histórica de desenvolvimento soberano. Se soubermos atravessá-la com inteligência, responsabilidade e visão de longo prazo, o Brasil deixará de ser apenas o país do futuro — para ser o país do presente estratégico. E as baterias que moverão o mundo poderão carregar, também, a energia de um novo ciclo de prosperidade nacional.

Enquanto os homens exercem seus podres poderes

Caetano foi além de uma canção. Ele escreveu um diagnóstico permanente.

“Enquanto os homens exercem seus podres poderes” é menos um verso e mais uma descrição de época. Uma fotografia moral de sistemas que funcionam para si — e não para o público.

As vésperas da quarta-feira de cinzas, a reportagem do Le Monde sobre Jeffrey Epstein mostra como se constrói uma blindagem do caos:  o acesso aos salões, a convivência com as elites, a naturalização do convívio, o silêncio cúmplice. Não era apenas um criminoso. Era um homem protegido por redes. Redes sociais, financeiras, políticas. O horror não se sustentava sozinho — era sustentado.

O escândalo do Banco Master, no Brasil de hoje, não é da mesma natureza. Mas o mecanismo que desperta atenção é inquietantemente familiar.

A rede

Daniel Vorcaro era conhecido pelo trânsito político e jurídico. Reuniões com governadores, encontro fora de agenda com próceres da República, mediação com ex-presidentes, proximidade com ministros, conexões com fundos e gestores sob investigação.

A investigação da Operação Compliance Zero aponta suspeitas graves: tentativa de venda de R$ 12 bilhões em carteiras supostamente falsas ao BRB; expansão agressiva via CDBs com taxas acima do mercado; modelo de negócio assumidamente ancorado na lógica do FGC; colapso de liquidez; impacto potencial de até R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito; investimentos de quase R$ 1 bilhão da Rioprevidência fora da cobertura do fundo.

Há defesa. Há direito ao contraditório. Há presunção de inocência. Mas há também um fato incontornável: 1,6 milhão de clientes atingidos. Bancos públicos financiando o FGC. Inevitável impacto indireto sobre recursos públicos.

E, como sempre, a pergunta que ecoa: quem sabia? Quem deveria ter sabido? Quem preferiu não ver?

A sedução do sistema

No caso Epstein, o prestígio era o escudo. No caso financeiro, o escudo pode ser a complexidade técnica.

A engenharia financeira, os relatórios, os pareceres, as intermediações, os encontros institucionais — tudo cria uma névoa respeitável. A podridão, quando existe, não se apresenta grotesca. Ela usa terno.

O Banco Central liquidou o conglomerado alegando crise de liquidez, violações normativas e comprometimento financeiro. O sistema regulatório agiu. O Comitê de Estabilidade Financeira descartou risco sistêmico. Economistas afirmam que não há risco de contágio.

Mas a questão maior não é sistêmica. É moral.

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Divulgação

Quando um banco cresce aceleradamente pagando taxas acima do mercado, expandindo base de clientes, estruturando aquisições, circulando nos corredores do poder — e depois colapsa — o dano não é apenas contábil. É simbólico.

A confiança sofre. E confiança é a infraestrutura invisível da economia.

O paralelo estrutural

Epstein operava protegido por uma rede que temia o escândalo mais do que o crime. O risco em qualquer democracia é quando o sistema teme o escândalo mais do que a verdade.

Não se trata de afirmar que houve proteção institucional no caso Master. Isso cabe às investigações. Mas se trata de reconhecer que o Brasil vive permanentemente sob a suspeita de que proximidade política pode retardar decisões, suavizar apurações ou moldar narrativas.

E essa suspeita, mesmo quando não confirmada, corrói.

Caetano escreveu:

No plano financeiro, morrer de fome é perder poupança. Morrer de sede é perder aposentadoria. Morrer de raiva é perder confiança.

Quando fundos de previdência públicos investem quase um bilhão em títulos que depois entram sob investigação, a pergunta deixa de ser técnica e passa a ser ética.

A política como palco

O caso ganhou dimensão ainda maior quando passou ao Supremo sob relatoria de ministro envolvido em polêmicas paralelas. Viagens, sigilo, transações familiares, pressão política, pedidos de afastamento arquivados.

Tudo dentro da legalidade formal. Mas a política é também percepção. E percepção, no Brasil, anda exausta.

Epstein ensinou que o verdadeiro escândalo não é o indivíduo — é a rede que normaliza o indivíduo.

O caso Master ensina que o verdadeiro risco não é a quebra isolada — é a possibilidade de que o país se acostume com escândalos cíclicos onde sempre há conexões poderosas, decisões controversas, sigilos estratégicos e um custo pulverizado sobre a sociedade.

O verso que permanece

“Enquanto os homens exercem seus podres poderes. Mortes e fuscas avançam os sinais vermelhos.” Avançar sinais vermelhos é ignorar alertas.

Se o Banco Central demorou ou não a agir — o debate existe. Se houve influência política — a investigação dirá. Se houve fraude estruturada — a Justiça decidirá.

Mas o que a sociedade já sente é outra coisa: fadiga.

Fadiga de ciclos em que o poder circula nos mesmos salões, em que as conexões atravessam governos de espectros distintos, em que doadores aparecem ao lado de governantes diversos, em que escândalos não têm cor ideológica.

A podridão não é de um partido. É de um padrão.

Indo mais fundo

Caetano termina pedindo para aproximar seu “cantar vagabundo daqueles que velam pela alegria do mundo”. Talvez o Brasil precise aproximar sua política daqueles que velam pela estabilidade real — não pela estabilidade de conveniência. Transparência radical. Auditorias independentes. Rigor técnico sem blindagem. Responsabilização sem espetáculo.

Porque quando a rede é mais forte que a lei, o sistema apodrece. E quando o sistema apodrece, o custo não é privado. É coletivo. Enquanto os homens exercem seus podres poderes, o país aprende — às vezes tarde — que o verdadeiro risco sistêmico não é financeiro.

Infraestruturas e transportes impulsionam as desigualdades regionais 

“A redução das desigualdades regionais. Enquanto isso não for uma pauta pública e ação efetiva, seguiremos a condenar a Amazônia a uma condição de colônia dentro do próprio país”

Temos no país uma obrigação Constitucional de redução da desigualdade regional. Não fazemos isso. De fato, o que mais fazemos é acentuar as desigualdades. Há alguns fatores centrais para esta redução: investimentos públicos em educação, em estoques de infraestruturas, menor carga tributária etc. O que se constata é um cenário de ações distintas.

O que mais me toca e tenho criticado é a ausência de investimentos em infraestrutura. Há um desvio do olhar sobre as causas. Enquanto não desigualarmos os investimentos, aumentando no Norte do país o que se faz em relação ao Sudeste, não teremos progresso.

O que se constata é o oposto. Não há investimentos substanciais para o Norte. Não há ações para favorecer o Norte do país. A prática também é bastante distinta entre as regiões ricas e pobres. Por exemplo, entre Manaus e Porto Velho há uma rodovia sem asfalto no trecho central, com 890km de distância.

A viagem de ida e de volta, por avião, entre as cidades custa entre R$ 3.300 e cerca de R$ 4.800. Por outro lado, entre São Paulo e Porto Alegre, são 1.100km e o voo custa R$ 870. Tudo na Amazônia é mais caro. Tudo é mais difícil. Todas as ações condenam a região a um atraso econômico. Vale ainda ressaltar que, dadas as condições das estradas, o tempo de viagem de carro entre os destinos é semelhante, mesmo com distâncias bem diferentes.

Para o setor aéreo precisamos a volta da regulagem para redução das desigualdades regionais, com tarifas médias minimamente semelhantes. Os preços livres e a total livre concorrência entre as pouquíssimas empresas aéreas nacionais fazem com que os custos sejam acintosos. Isso precisa ser alterado, pois o tal livre mercado não corrigiu a desigualdade. Ele tem acentuado a desigualdade.

Os rios poderiam ser uma alternativa, mas não há portos e terminais de passageiros nas principais cidades. Um programa de portos para passageiros faz muita falta. Sequer há terminais com condições humanas aceitáveis nas cidades do interior da Amazônia ou mesmo nas principais capitais. 

Desde a Idade Média, países usam a navegação de interior como elemento de desenvolvimento próprio, aproveitando os rios, construindo canais e organizando redes de transporte em corredores logísticos. Na história do mundo, os portos e o comércio é que viabilizam a atividade econômica.

A produção de uma região, o turismo e qualquer outro tipo de atividade econômica só será viável se houver como transportar sua produção. O consumo das localidades só será efetivo em custo se for barato e rápido o transporte. Fora disso é só uma colônia disfarçada. Não é de se estranhar a pobreza nos locais extremos do país.

A ideia de conceder para a iniciativa privada ou de construir uma livre concorrência é tudo de bom para encontrar um jeito de explorar colônias. É um discurso torto para disfarçar uma mania de extrair recursos dos mais pobres para grandes grupos econômicos. Precisamos recolocar uma política pública para o público, ao invés de uma política pública de extração.

Portos públicos humanizados para os rios da Amazônia e regulagem tarifária para os céus do transporte são mecanismos que precisam surgir. Um é investimento público outro é mera regulagem. Mas ambos dependem de um preceito: a redução das desigualdades regionais. Enquanto isso não for uma pauta pública e ação efetiva, seguiremos a condenar a Amazônia a uma condição de colônia dentro do próprio país.

A Amazônia presente nos dois piores escândalos da nossa geração

Em meio à inevitável folia momesca, talvez faça sentido parafrasear os versos de Renato Russo, e entoar em ritmo de marchinha “mas alguém está ficando rico, faturando milhões, vendendo da Amazônia as terras, águas, árvores, corpos e almas, nos mais perversos leilões”.

Nas vésperas de mais uma folia momesca, quando o Brasil se permite leveza e dispersa os vetores de reflexões e cobranças, a Amazônia aparece novamente no noticiário. Não como ambiente de prosperidade e bem-estar, mas pelas piores expressões da maldade e projeções de poder. 

Dessa vez são os dois maiores escândalos de nossa geração, cujos nomes evito. Um, nacional, é o banco que aproveitou as estruturas mal desenhadas da Comissão de Valores Mobiliários e do Fundo Garantidor de Créditos, e a súbita conjuntura de juros baixos, para obter recursos de incautos e aplicar em ativos sem lastro que, inflados, seria nova base para obter ainda mais recursos de incautos para novas aplicações em ativos sem lastro. Seus fatos são publicados como resultado de jornalismo “à moda antiga” em veículos tais como O Globo e Metrópoles.

O outro, internacional, é o monstro de raízes incertas posicionado como centro gravitacional das mais abjetas ambições financeiras, políticas, científicas e lascivas. Seus fatos vêm à tona por milhões de documentos e imagens disponibilizados no website do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. 

O caso nacional envolve a Amazônia por investimentos em projetos de emissões de créditos de carbono, supostamente lastreadas em territórios de floresta no município amazonense de Apuí. Florestas com situação fundiária irregular, projetos sem comprovação robusta de adicionalidade ambiental se prestaram e inflar o valor de ativos no balanço do banco.

AMAZONIA
Uma incursão de agentes do Ibama descobre extração de madeira ilegal em larga escala. É provável que esses troncos rústicos tivessem sido exportados para mercados internacionais – Cortesia de imagem do Ibama

Um mercado que nasceu para precificar a preservação acabou, nesse caso, funcionando como instrumento de engenharia para a construção de uma pirâmide financeira. Fato ambiguamente distante e presente na realidade amazônica. Distante porque somos das regiões mais desbancarizadas do mundo, desconhecemos os mecanismos de financeirização. Presente porque sabemos bem como organizações obscuras ferem a nossa soberania e nos impedem de prosperar em meio à floresta.

No caso internacional um documento flagra uma empresa de ativos florestais, que se apresenta em seu website como comerciante de madeira sustentável, oferecendo trecho de floresta amazônica por US$ 25 milhões. O destinatário não era um caboclo empreendedor, nem uma cooperativa local, nem um fundo comunitário de conservação. A mensagem foi endereçada ao então executivo-líder da NBA, que encaminhou a oferta ao monstro, especulando se seria interessante comprar a floresta para depois revendê-la a chineses.

Eis a lógica subjacente a ambos os casos: O cenário de extrema incerteza, insegurança e complexidade que impede os mais simples amazônidas de empreenderem no seu próprio ambiente. É o acúmulo de camadas regulatórias, discursos sofisticados e oportunismos políticos que levam ao interior amazônida somente o desalento. Aos empreendedores locais, individualmente ou em cooperação, são negados os mecanismos de pleno usufruto do bioma. 

Sem prosperidade nossas famílias se tornam frágeis, alvos fáceis aos predadores externos e internos. Outro efeito disso é que ainda nos documentos do monstro internacional há citações aviltantes sobre a dignidade de nossas pessoas, principalmente mulheres e crianças. Citações aviltantes, mas não inéditas. É que vivemos em esquecimento, silêncio e inação. Como a história do sapo em água morna.

Em meio à inevitável folia momesca, talvez faça sentido parafrasear os versos de Renato Russo, e entoar em ritmo de marchinha “mas alguém está ficando rico, faturando milhões, vendendo da Amazônia as terras, águas, árvores, corpos e almas, nos mais perversos leilões”.

Bicicletas elétricas avançam no PIM e apontam virada na mobilidade urbana brasileira

Em janeiro, 19.028 bicicletas deixaram as linhas de montagem do Polo Industrial de Manaus (PIM). O número, por si só, poderia parecer apenas mais um indicador industrial. Mas, quando observado com atenção, ele revela algo maior: a engrenagem silenciosa de um modelo de desenvolvimento que conecta a floresta em pé à mobilidade urbana brasileira.

O levantamento da Abraciclo mostra que o volume representa um crescimento expressivo de 84% em relação a dezembro. A explicação é técnica: retomada gradual da produção após as férias coletivas e recomposição de estoques. Ainda assim, o salto não deixa de sinalizar vitalidade. A indústria respondeu rapidamente ao calendário e voltou a girar.

Na comparação com janeiro de 2025, entretanto, houve retração de 18,9%. O dado impõe cautela. “A comparação anual indica que o setor permanece atento ao comportamento do consumidor e confiante na evolução do mercado”, observa Fernando Rocha, vice-presidente do segmento de bicicletas da Abraciclo. É o retrato de um setor que oscila entre prudência e expectativa — reflexo de um país que ainda ajusta sua renda, seu crédito e sua confiança.

Se há um ponto de inflexão nesse cenário, ele atende pelo nome de bicicleta elétrica. A categoria cresceu 107,9% na comparação anual. Foram 3.414 unidades produzidas em janeiro, representando 17,9% do total.

O número não é trivial. Ele ecoa uma tendência global: cidades pressionadas por congestionamentos, emissões e custos de deslocamento encontram na micromobilidade elétrica uma alternativa eficiente e relativamente acessível. A bicicleta elétrica é, ao mesmo tempo, produto industrial e vetor de transição energética.

No Brasil, onde o debate sobre mobilidade sustentável ainda convive com carências estruturais, o avanço das elétricas produzidas na Amazônia ganha significado estratégico. Manaus passa a integrar, não como coadjuvante, mas como fabricante, a cadeia de uma mobilidade mais limpa.

Em janeiro, a Mountain Bike (MTB) liderou o ranking, com 7.635 unidades — 40,1% do volume total. Embora tenha registrado queda de 44,8% em relação ao mesmo mês do ano anterior, apresentou forte recuperação frente a dezembro (alta de 268,7%). A MTB permanece como espinha dorsal da indústria nacional, dialogando com o perfil híbrido do consumidor brasileiro, que mistura esporte, lazer e deslocamento cotidiano.

A categoria Infantojuvenil foi outro destaque: 4.001 unidades produzidas, crescimento de 52,1% na comparação anual e impressionantes 202,9% frente a dezembro. Mais do que um dado de mercado, é um indicador social: bicicletas infantis representam acesso ao lazer, à mobilidade segura e ao hábito precoce de um transporte mais sustentável.

A Urbana/Lazer, com 3.440 unidades (18,1% do total), mantém participação consistente, enquanto Estrada/Gravel segue como nicho técnico. O conjunto revela uma indústria diversificada, capaz de atender diferentes públicos e tendências.

MOBILIDADE URBANA

Do total produzido, 59,7% seguiram para o Sudeste — 11.365 unidades. O Sul absorveu 16,1%; o Centro-Oeste, 9,7%; o Nordeste, 8,6%; e o Norte, 5,9%.

A geografia confirma um padrão histórico: a Amazônia industrializa; o Sudeste consome majoritariamente. É a engrenagem federativa do modelo Zona Franca de Manaus — produção concentrada na floresta, mercado espalhado pelo país.

Essa dinâmica não é apenas econômica. É ambiental. Ao concentrar a atividade industrial em Manaus, o Brasil mantém uma alternativa concreta às pressões por desmatamento extensivo. Cada bicicleta que sai do PIM carrega, simbolicamente, essa lógica: desenvolvimento com floresta preservada.

A Abraciclo projeta a produção de 350 mil bicicletas em 2026 — alta de 4,3% sobre 2025. O crescimento esperado é moderado, mas consistente. Em um cenário de juros ainda elevados e renda comprimida, qualquer avanço sustentado já é sinal de resiliência.

O setor parece compreender que seu futuro está ligado a três variáveis centrais: crédito ao consumidor, infraestrutura cicloviária nas cidades e consolidação da cultura da mobilidade ativa.

O desempenho de janeiro revela um setor que oscila, mas não recua. Cresce nas elétricas, recompõe estoques, ajusta produção, observa o consumidor. E, sobretudo, mantém ativo um dos elos mais simbólicos da indústria brasileira: a fabricação, na Amazônia, de um produto associado à liberdade, à saúde e à sustentabilidade.

Enquanto o mundo debate transição energética e descarbonização, a roda da bicicleta gira silenciosamente nas linhas de montagem de Manaus. Não faz barulho como os motores do passado. Mas pode representar, no médio prazo, uma das faces mais visíveis de um Brasil que aprende a pedalar rumo a um desenvolvimento mais leve — e mais responsável.

Acesse a apresentação com os números completos do Segmento de Bicicletas:  

https://abraciclo.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Fechamento_do_mes_-_Janeiro_de_2026-Bicicletas.pdf

Fundada em 1976 e contando com 15 associadas, a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares – ABRACICLO representa os fabricantes de veículos de duas rodas no país, tendo como principal missão promover o desenvolvimento sustentável e a competitividade do Setor de Duas Rodas, apoiando e defendendo a indústria nacional estabelecida no Polo Industrial de Manaus – PIM por meio dos pilares Política Industrial, Segurança Viária e Técnico.

A fabricação nacional de motocicletas, quase totalmente concentrada no Polo Industrial de Manaus (PIM), está entre as seis maiores do mundo. No segmento de bicicletas, com as principais fábricas também instaladas no PIM, o Brasil se encontra na quarta posição entre os principais produtores mundiais. No total, as fabricantes do Setor de Duas Rodas geram 20,9 mil empregos diretos em Manaus/AM e mais de 150 mil em todo o Brasil.

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Anotações para o novo lustro da economia brasileira: 2026 a 2030 – A grande transformação – Parte lV

Paulo Haddad analisa o futuro da Amazônia sob uma encruzilhada histórica: ou a região avança para um processo de savanização e colapso ecossistêmico, decorrente do desmatamento, das mudanças climáticas e da exploração predatória dos recursos naturais, ou constrói uma trajetória de desenvolvimento sustentável, baseada na bioeconomia, na inovação científica e tecnológica e no planejamento de longo prazo.

A Amazônia já perdeu mais de 20% de sua floresta original e se aproxima de um ponto de ruptura ecológica, conforme alertam cientistas citados na introdução do texto. Ao mesmo tempo, ressalta que a região concentra imenso potencial produtivo — biodiversidade, recursos hídricos, minerais e energéticos — capaz de liderar um novo ciclo de crescimento econômico brasileiro.

Haddad enfatiza, porém, que esse crescimento não pode repetir modelos primário-exportadores do passado, como o ciclo da borracha, que geraram expansão econômica sem desenvolvimento sustentável. Defende a adoção das quatro regras da sustentabilidade ambiental, a incorporação do capital natural nas contas econômicas (SEEA/ONU) e a utilização do conceito de Valor Econômico Total (VET), que considera não apenas o valor de mercado dos recursos, mas também seus serviços ecológicos, culturais e de legado intergeracional.

O artigo propõe a elaboração de um Plano Decenal de Desenvolvimento Sustentável para a Amazônia, estruturado em: sistema de promoção industrial da bioeconomia; Pré-qualificação de projetos segundo critérios ambientais, econômicos e sociais; Criação de dois grandes centros industriais de bioeconomia (Amazônia Oriental e Ocidental); Integração entre crescimento econômico, inclusão social e sustentabilidade ambiental.

Resumo elaborado pelo Portal Brasil Amazônia Agora

Paulo R. Haddad – Belo Horizonte /Fevereiro-2026

Anotações para o novo lustro da economia brasileira: 2026 a 2030 – A grande transformação – Parte lV – O FUTURO DA AMAZÔNIA: SAVANIZAÇÃO OU SUSTENTABILIDADE? 

A partir do início de 2026, deverá ocorrer um amplo conjunto de debates durante o processo eleitoral relativo ao futuro da economia nacional e das economias estaduais. Elaborei 10 textos que, a partir de minhas experiências de planejamento nos três níveis de governo, durante algumas décadas, poderão eventualmente ser úteis como subsídios atualizados para propostas de planos, políticas públicas e projetos dos candidatos à Presidência da República e aos governos estaduais.

Esses textos se referem ao resgate dos processos de planejamento de médio e de longo prazo, à avaliação das políticas públicas em andamento, à articulação das políticas macroeconômicas de curto prazo com as políticas de desenvolvimento sustentável (=crescimento econômico globalmente competitivo + equidade social + sustentabilidade ambiental) e às propostas da estrutura de novos planos de governo. O décimo texto irá conter um esboço de uma proposta para uma Grande Transformação do Brasil, no próximo lustro.

INTRODUÇÃO 

Carlos A. Nobre, Gilvan Sampaio e Luis Salazar confirmam que a Amazônia desempenha um papel importante no ciclo de carbono planetário, e pode ser considerada como uma região de grande risco do ponto de vista das influências das mudanças climáticas. Concluem que: ” ” (Ciência e Cultura, vol. 59, nº 3, SP). A opinião pública brasileira vem se conscientizando sobre a dramaticidade dessa questão principalmente durante os debates da COP-30. 

A Amazônia é o mais amplo e multifacetado ecossistema brasileiro que presta serviços ambientais para o bem-estar social sustentável de toda a humanidade. A região vem sendo objeto de um processo de degradação desde o Período Colonial, passando pelo Império e pela Primeira República, e que se acelerou, a partir de 1970, durante o ciclo dos grandes projetos de investimentos diretamente produtivos e de infraestrutura econômica.

A Amazônia perdeu mais de 20% da floresta prístina e, a partir das mudanças climáticas, assiste-se ao risco de sua ruptura ecossistêmica através de um processo de savanização da região. Se não houver uma reversão nas práticas da pirataria ambiental, que tratam o meio ambiente como se fosse um almoxarifado de recursos naturais a serem pilhados, as futuras gerações assistirão ao colapso do ecossistema da Amazônia em um futuro não muito distante.

Esse período pode encurtar se houver um processo de enfraquecimento das instituições públicas responsáveis pela fiscalização das estruturas regulatórias (normas, decretos, leis) de comando e controle do Governo Federal, responsável pelo patrimônio nacional.

Em um novo ciclo de expansão da economia brasileira, há grande probabilidade de que a região poderá liderar esse ciclo, pois nela estão as maiores oportunidades de novos investimentos na bioeconomia, nas terras raras, no petróleo e gás, no agronegócio situado numa das novas rotas da seda para o Sudeste Asiático. Mas, esses projetos precisam ser formulados dentro da concepção de um processo de desenvolvimento sustentável, através de um plano decenal e não apenas através de enclaves econômicos regionais ou de ações casuísticas. 

Uma sociedade se encontra em uma trajetória histórica de desenvolvimento sustentável quando a economia está crescendo de forma sustentada, sem ciclos alternados e recorrentes de expansão e de recessão, mas com progresso científico e tecnológico; os frutos do crescimento, expressos nos níveis de renda e de riqueza, estão distribuídos com inclusão social; e são adotados processos recorrentes de preservação, de conservação e de reabilitação dos ecossistemas. Estariam os assentamentos humanos na Amazônia em uma trajetória histórica de desenvolvimento sustentável? 

economia brasileira
Ponto de nao retorno

Segundo o IBGE, o bioma Amazônia ocupa cerca de 49% do território brasileiro. A Amazônia possui a maior floresta tropical do mundo, equivalente a 1/3 das reservas tropicais úmidas, que abrigam a maior quantidade de espécies da flora e da fauna; são mamíferos: 311; anfíbios: 163; répteis: 550; aves: 1000; peixes: 3000; flora: 13.229. Contém 20% da disponibilidade de água doce e de grandes reservas minerais. O delicado equilíbrio de suas formas de vida é muito sensível à interferência humana. 

Um bioma pode conter diferentes ecossistemas A Amazônia contém três ecossistemas:

1. – Mata de Igapó – margens dos rios permanentemente inundadas, plantas adaptadas à umidade (hidrófilas);

2. – Mata de Várzea – inundações em alguns períodos;

3. Mata

A Amazônia Legal é uma área que engloba nove estados do Brasil pertinentes à Bacia Amazônica, instituída pelo Governo Federal através da Lei 1806/1953, visando a melhor planejar o desenvolvimento socioeconômico da região amazônica. A área de abrangência da Amazônia corresponde à totalidade dos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Maranhão e Tocantins, perfazendo uma superfície correspondente a cerca de 61% do território brasileiro e com uma população estimada de 38 milhões de brasileiros (13% da população brasileira). Na classificação clássica de regiões (homogêneas, polarizadas, programadas), a Amazônia Legal é uma área-programa. 

A análise territorial que se fará neste texto será baseada nos conceitos de espaço propostos por , do Instituto Politécnico de Milão, que considera quatro tipos de espaço:*

Roberta Capello – Regional Economics. Routledge, 2007

O espaço físico-métrico: que adota uma concepção puramente geográfica de espaço contínuo, físico-métrico, em termos da distância e dos custos de transporte; foi a concepção usada por grandes geógrafos na primeira metade do século 20 e que denominou de “espaço banal”, o qual está na cabeça do cidadão brasileiro quando se refere ao mapa da Amazônia; da mesma forma, o espaço físico-métrico é a base para a elaboração oficial de indicadores socioeconômicos e socioambientais para macrorregiões, microrregiões, estados e municípios no Brasil; 

O espaço uniforme-abstrato: as primeiras teorias de crescimento regional, formuladas a partir da II Grande Guerra, procuraram explicar porque algumas regiões são prósperas e outras empobrecidas, porque algumas regiões crescem mais rapidamente do que outras; que fatores são determinantes do crescimento local; neste caso,“a análise econômica investiga a capacidade de um sistema subnacional (a Amazônia, uma unidade da Federação, uma metrópole e os seus entornos de influência, regiões de mineração ou do agronegócio, áreas polarizadas ou economicamente deprimidas, etc.) desenvolver atividades econômicas, atraí-las e gerar as condições para um processo de crescimento sustentado; utiliza-se a concepção de espaço uniforme-abstrato, não mais físico e contínuo, mas abstrato e discreto”; essa concepção de espaço será utilizada para analisar o processo de desenvolvimento de diferentes áreas da Amazônia, em termos de sua base econômica, da heterogeneidade tecnológica, de áreas preservadas e de áreas degradadas, etc.; 

O espaço diversificado-relacional: que destaca a importância das economias de aglomeração no processo de desenvolvimento local; de acordo com esta concepção, amplamente adotada nos anos 1970 e 1980, o espaço gera vantagens econômicas através dos mecanismos de grande escala de sinergia e de efeitos acumulados de (realimentação) operando localmente; exemplos típicos são os Distritos Industriais da Terceira Itália e os Sistemas Locais de Inovações; neste tipo de espaço, é fundamental a presença do capital sinergético “o qual consiste na capacidade real ou latente de toda comunidade para articular, de forma democrática, as diversas formas de capital intangível (institucional, social, humano, cultural, etc.) disponíveis nessa comunidade”; nesta concepção de espaço, o território é concebido como um sistema de governança local que une uma comunidade, um conjunto de protagonistas privados e um conjunto de instituições locais; finalmente, o território é um sistema de relações econômicas e sociais constituindo o capital social ou relacional de um espaço geográfico particular; 

O espaço diversificado-estilizado: segundo , até o fim dos anos 1990, essas diferentes concepções de espaço se desenvolveram sem que houvesse a menor convergência entre elas; ocorreram avanços teóricos, a partir de então, que permitiram incorporar modelos de crescimento com economias de aglomeração e retornos crescentes de escala, referenciados como modelos da “nova geografia econômica” e do “crescimento endógeno”, nos quais o espaço tornou-se diversificado-estilizado; pressupõem que as atividades produtivas se concentram em torno de polos de desenvolvimento específico, de tal forma que o nível e a taxa de crescimento da renda são diversificados dentro da mesma região. 

II. O PIB DA AMAZÔNIA: 1940 a 2022 

No emaranhado de fluxos, mercados e instituições que compõem a macroeconomia de um país ou de uma região, os analistas derivam alguns indicadores para caracterizar o estado geral da economia. O mais destacado pelos meios de comunicação é o PIB, juntamente com os indicadores do mercado de trabalho e de inflação. Quando o PIB cresce, significa que a população terá mais bens e serviços para o consumo privado, para os investimentos em novas unidades produtivas, para o consumo público e para as exportações. Poderá também ampliar o campo de oportunidades de emprego para os jovens entrando nos mercados de trabalho. O PIB, juntamente com as importações, compõe a oferta global de bens e serviços da economia. 

O PIB pode ser definido como um conjunto de bens e serviços finais produzidos durante determinado período (um trimestre) em determinado país ou região. No seu cálculo são retiradas as transações intermediárias para evitar dupla contagem. 

O PIB não é uma medida precisa com relação às condições de vida dos brasileiros ou de outros povos em geral. As principais críticas ao uso do PIB como indicador de desenvolvimento têm sido: 

Relatório Sarkozy, da comissão formada por Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi, 2008, sendo os dois primeiros laureados com o prêmio Nobel de Economia.

 tudo que se pode vender e que tenha um valor agregado monetário vai aumentar o PIB e seu crescimento, independentemente do fato que isso venha ou não a expandir o bem-estar individual ou coletivo (por exemplo: quanto maior o número de acidentes nas estradas, maior será o PIB pelo aumento dos serviços médicos, consertos de veículos, consumo de material hospitalar, etc.); 

 no PIB não são contabilizadas muitas contribuições essenciais positivas ao bem-estar social (por exemplo: trabalhos voluntários, trabalhos domésticos, atividades benevolentes, lazer e tempo livre, etc.); 

 o PIB se interessa pelas produções, não pelos resultados; assim, ter mais de bens e serviços não significa ter mais bem-estar (por exemplo: há poucos períodos em que o PIB cresce mais aceleradamente do que durante as Grandes Guerras); 

 o PIB é uma variável-fluxo que, entretanto, não contabiliza os valores das variáveis-estoque, como, por exemplo, as diferentes formas de capital tangível (capital técnico, capital natural, infraestrutura econômica e social) e intangível (social, institucional, intelectual, etc.); 

 no cálculo do PIB, não há a preocupação com os impactos do modelo de crescimento adotado sobre o meio ambiente e sobre a distribuição dos seus benefícios entre as famílias e os indivíduos. 

É um erro técnico definir o PIB como o total da riqueza produzida no país durante determinado período. A contabilidade social de um país ou de uma região pode ser elaborada em termos de variáveis-fluxo ou de variáveis-estoque. Uma variável-fluxo se mede num período (ano, trimestre, etc.), assim como, por exemplo, o PIB, os investimentos, o consumo, etc.

Uma variável-estoque se mede em um dado instante do tempo, como, por exemplo, a riqueza nacional não financeira no dia 1º de janeiro de 2022, que se exprime pelo valor da capacidade instalada em termos de potencial produtivo (hidroelétricas, máquinas, equipamentos, áreas agricultáveis, etc.), pelo valor do capital natural, etc. 

Portanto, o PIB é uma variável-fluxo e a riqueza, uma variável-estoque. É um erro confundir o estoque de água em um reservatório em um dado instante com os fluxos de entrada e saída de água desse reservatório num dado período. Novos fluxos de investimentos em capital físico, realizados durante o ano, modificam o valor da riqueza nacional não financeira, calculado no fim do ano.

Essa distinção conceitual pode ser ilustrada pela descoberta do Pré-Sal que se caracterizou como o aumento do valor do capital natural do País. Os impactos favoráveis do Pré-Sal sobre o crescimento do PIB e da Renda Nacional ocorrem somente a partir do início dos fluxos de investimento de sua exploração, prospecção e refino. Da mesma forma, estudos sobre desigualdades sociais mostram que a concentração da riqueza ainda é maior que a concentração da renda no Brasil.

As Tabelas 1, 2 e 3 relativas ao PIB da Amazônia mostram que é imenso o potencial produtivo da Amazônia, pois quando ocorreu a melhoria da infraestrutura econômica e social e a disponibilidade de incentivos fiscais e financeiros na Região, a partir dos anos 1970, o PIB saltou de 13,83% (1940) para 31,10% (2022) em relação ao PIB do estado de São Paulo, o mais desenvolvido do País. A Tabela 3 mostra, contudo que, com exceção do Mato Grosso (área de cerrado), os demais estados da Amazônia estão com o seu PIB per capita de 15% a 40% inferior ao PIB per capita do País, valores aquém do que se poderia esperar do desenvolvimento da região, com suas imensas potencialidades econômicas. 

A leitura dos resultados da evolução do PIB tem de ser feita com muitos cuidados. Em primeiro lugar, como dizia , o PIB é, principalmente, um indicador de crescimento econômico, mas não de bem-estar social, o qual depende da renda que as famílias e seus membros recebem.

É possível que muitas pessoas ganhem alguma renda sem participar direta ou indiretamente na formação do PIB. É o caso de milhões de brasileiros que são aposentados, deficientes físicos, idosos ou desalentados economicamente que constituem a legião dos beneficiários das políticas sociais compensatórias do Governo Federal: Bolsa Família, Lei Orgânica de Assistência Social, Previdência Social. Da mesma forma, muitas pessoas que estão na economia informal passam a ser registradas no PIB quando passam para os mercados formais, como é o caso dos atuais 15 milhões de ativos no MEI (microempresários individuais). 

Enfim, é bom ou é ruim para o país, se o PIB cresce muito ou pouco? A resposta afirmativa ou negativa depende do que estivermos medindo com os nossos indicadores estatísticos: o processo de crescimento econômico, o processo de desenvolvimento socioeconômico ou o processo de desenvolvimento sustentável.

A Tabela 4 mostra a renda mensal domiciliar per capita dos estados da Amazônia Legal em 2022 e 2023, cujos valores são, em geral, maiores do que os respectivos valores do PIB per capita por incluírem as rendas de transferências fiscais. Os dados nos mostram que as famílias da Amazônia Legal, em média, estão com as condições de vida bem inferiores à média de condições de vida das famílias das áreas mais desenvolvidas do País. É indispensável, pois, que haja uma aceleração do crescimento do PIB, da renda, do emprego e da base tributável da região para a melhoria do padrão de vida de suas famílias.

É muito importante não subestimar a importância do PIB e de seu crescimento para as condições de vida da população, pois, em sua composição, há inúmeros bens e serviços (proteína animal, proteína vegetal, serviços de habitação, de educação, de transporte, de saúde, etc.) que são inequivocamente indispensáveis para o bem-estar social da população, principalmente para as necessidades básicas dos grupos sociais de baixa renda. 

Os estados do Maranhão, Acre, Pará, Amapá, e Tocantins apresentavam uma participação no rendimento per capita superior à sua participação no PIB per capita porque, na renda familiar, são incluídos os ganhos das políticas sociais compensatórias (Bolsa Família, Benefícios Continuados da LOAS, Previdência Social). 

Nota: População residente estimada para 1º de julho, segundo as unidades da Federação, enviada ao Tribunal de Contas da União – TCU 

A Amazônia Legal inclui unidades da Federação das grandes regiões do Norte, do Centro-Oeste e do Nordeste.

TABELA 3

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O ciclo da borracha, no final do século 19 e começo do século 20, na Amazônia estimulou o crescimento econômico regional sem gerar historicamente um processo de desenvolvimento sustentável. Esse ciclo se enquadrou no modelo primário-exportador que se baseia, desde o Período Colonial, na formação de uma economia em torno de um produto de exportação (a base de exportação) definido por sua vantagem comparativa e não por sua vantagem competitiva, a qual depende de inovações e do progresso tecnológico.

Ciclo da borracha

Por ter como fundamento na sua produção fatores não especializados (abundância de recursos naturais e mão de obra não qualificada, clima, posição geográfica, etc.), tende a ocorrer a sua replicabilidade em outras regiões do planeta que poderão conquistar o seu espaço no comércio internacional se forem competitivas (ver texto III), como ocorreu com a migração da borracha para o Sudeste Asiático. O segundo momento histórico recente da ocupação socioeconômica e socioambiental da Amazônia ocorreu a partir dos anos 1970. Naquela época, o Brasil passava por um ciclo de expansão denominado de “milagre econômico”, sendo que muitos grandes projetos de infraestrutura econômica e de projetos diretamente produtivos foram implementados em diversas regiões do País e particularmente na Amazônia. Diferentemente do ciclo econômico da borracha, esse novo momento foi marcado pelo colapso ambiental em várias áreas da região.

III. O PIB DA AMAZÔNIA 2025 – 2040 

Já se dispõe de algumas projeções sobre o que ocorreria com o crescimento econômico da Amazônia se as potencialidades da base produtiva de recursos naturais renováveis e não renováveis fossem exploradas segundo as quatro regras da sustentabilidade ambiental:1 

1 -utilizar os recursos renováveis a taxas menores ou iguais à taxa natural que podem regenerar; 

2 -otimizar a eficiência com que recursos não renováveis são usados, o que depende do grau de substituição entre recursos e progresso tecnológico; 

3 -manter sempre os fluxos de resíduos no meio ambiente no nível igual ou abaixo da sua capacidade assimilativa; 

4 -a vegetação nativa e os ecossistemas críticos devem ser preservados, reabilitados e/ou reestruturados, a exploração futura do capital natural deve ser restrita às áreas modificadas pelas atividades humanas prévias. 

Essas projeções se baseiam na identificação do que se denomina de “vocações definidas”, ou seja,”o resultado de como cada área respondeu aos desafios de crescimento econômico no passado, explorando suas vantagens comparativas… A estratégia de futuro deve respeitar as vocações, procurar aumentar a vantagem comparativa nos produtos historicamente fundamentais para o país ou região, porém olhar além, buscar horizontes, novas alternativas.

O futuro não respeita vocações. Exige mudança flexibilidade, inovação. Exige que se desenvolvam novas aptidões, que possam atender aos anseios dos sistemas econômicos no futuro… ousar e desenvolver novas aptidões, para que se façam mudanças significativas, uma Grande Transformação”³. (Plano de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo 2022-2040) 

1 Philip Lawn –Frontier Issues in Ecological Economics, EE, 2007 

TEEB – The Economics of Ecosystem and Biodiversity, 4 volumes, Earthscan

Diversas instituições públicas e privadas já identificaram um grande número de oportunidades de investimentos diretamente produtivos que passam pelos critérios de rentabilidade privada e social (Banco Mundial/OCDE), os quais poderiam alavancar um ciclo longo de crescimento sustentado e sustentável na Amazônia com base em vantagens comparativas e em vantagens competitivas. Dois exemplos podem ser mencionados: 

1. A UFAM (Universidade Federal da Amazônia) analisou diferentes arranjos produtivos locais potenciais na Amazônia: fitoterápicos, fitocosméticos, madeireiro, piscicultura, floricultura, nutricêuticos/ complementos alimentares, fruticultura, microbiologia industrial. Na formação da cadeia de valor desses produtos, as atividades extrativistas e os primeiros beneficiamentos podem se localizar nas comunidades locais com as florestas em pé e as atividades intensivas de ciência e tecnologia em centros industriais especializados nas capitais ou nas cidades de porte médio da Amazônia, onde há disponibilidade de economias de aglomeração. 

A importância da adoção de um processo de industrialização da bioeconomia para a Amazônia pode ser ilustrada através de um estudo do World Resources Institute (WRI). O WRI elaborou dois cenários para a Amazônia em 2050, seguindo modelos de estática-comparativa (incluindo relações de insumo-produto):