“Enquanto os homens exercem seus podres poderes. Mortes e fuscas avançam os sinais vermelhos.”
Caetano foi além de uma canção. Ele escreveu um diagnóstico permanente.
“Enquanto os homens exercem seus podres poderes” é menos um verso e mais uma descrição de época. Uma fotografia moral de sistemas que funcionam para si — e não para o público.
As vésperas da quarta-feira de cinzas, a reportagem do Le Monde sobre Jeffrey Epstein mostra como se constrói uma blindagem do caos: o acesso aos salões, a convivência com as elites, a naturalização do convívio, o silêncio cúmplice. Não era apenas um criminoso. Era um homem protegido por redes. Redes sociais, financeiras, políticas. O horror não se sustentava sozinho — era sustentado.
O escândalo do Banco Master, no Brasil de hoje, não é da mesma natureza. Mas o mecanismo que desperta atenção é inquietantemente familiar.
A rede
Daniel Vorcaro era conhecido pelo trânsito político e jurídico. Reuniões com governadores, encontro fora de agenda com próceres da República, mediação com ex-presidentes, proximidade com ministros, conexões com fundos e gestores sob investigação.
Nada disso é, por si só, ilegal. Mas tudo isso compõe ambiente. E ambiente é o que permite que determinados personagens operem na zona cinzenta da confiança pública.
A investigação da Operação Compliance Zero aponta suspeitas graves: tentativa de venda de R$ 12 bilhões em carteiras supostamente falsas ao BRB; expansão agressiva via CDBs com taxas acima do mercado; modelo de negócio assumidamente ancorado na lógica do FGC; colapso de liquidez; impacto potencial de até R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito; investimentos de quase R$ 1 bilhão da Rioprevidência fora da cobertura do fundo.
Há defesa. Há direito ao contraditório. Há presunção de inocência. Mas há também um fato incontornável: 1,6 milhão de clientes atingidos. Bancos públicos financiando o FGC. Inevitável impacto indireto sobre recursos públicos.
E, como sempre, a pergunta que ecoa: quem sabia? Quem deveria ter sabido? Quem preferiu não ver?
A sedução do sistema
No caso Epstein, o prestígio era o escudo. No caso financeiro, o escudo pode ser a complexidade técnica.
A engenharia financeira, os relatórios, os pareceres, as intermediações, os encontros institucionais — tudo cria uma névoa respeitável. A podridão, quando existe, não se apresenta grotesca. Ela usa terno.
O Banco Central liquidou o conglomerado alegando crise de liquidez, violações normativas e comprometimento financeiro. O sistema regulatório agiu. O Comitê de Estabilidade Financeira descartou risco sistêmico. Economistas afirmam que não há risco de contágio.
Mas a questão maior não é sistêmica. É moral.

Quando um banco cresce aceleradamente pagando taxas acima do mercado, expandindo base de clientes, estruturando aquisições, circulando nos corredores do poder — e depois colapsa — o dano não é apenas contábil. É simbólico.
A confiança sofre. E confiança é a infraestrutura invisível da economia.
O paralelo estrutural
Epstein operava protegido por uma rede que temia o escândalo mais do que o crime. O risco em qualquer democracia é quando o sistema teme o escândalo mais do que a verdade.
Não se trata de afirmar que houve proteção institucional no caso Master. Isso cabe às investigações. Mas se trata de reconhecer que o Brasil vive permanentemente sob a suspeita de que proximidade política pode retardar decisões, suavizar apurações ou moldar narrativas.
E essa suspeita, mesmo quando não confirmada, corrói.
Caetano escreveu:
“Morrer e matar de fome, de raiva e de sede
São tantas vezes gestos naturais.”
No plano financeiro, morrer de fome é perder poupança. Morrer de sede é perder aposentadoria. Morrer de raiva é perder confiança.
Quando fundos de previdência públicos investem quase um bilhão em títulos que depois entram sob investigação, a pergunta deixa de ser técnica e passa a ser ética.
Quem protege quem? Quem fiscaliza quem? Quem conversa com quem?
A política como palco
O caso ganhou dimensão ainda maior quando passou ao Supremo sob relatoria de ministro envolvido em polêmicas paralelas. Viagens, sigilo, transações familiares, pressão política, pedidos de afastamento arquivados.
Tudo dentro da legalidade formal. Mas a política é também percepção. E percepção, no Brasil, anda exausta.
Epstein ensinou que o verdadeiro escândalo não é o indivíduo — é a rede que normaliza o indivíduo.
O caso Master ensina que o verdadeiro risco não é a quebra isolada — é a possibilidade de que o país se acostume com escândalos cíclicos onde sempre há conexões poderosas, decisões controversas, sigilos estratégicos e um custo pulverizado sobre a sociedade.
O verso que permanece
“Enquanto os homens exercem seus podres poderes. Mortes e fuscas avançam os sinais vermelhos.” Avançar sinais vermelhos é ignorar alertas.
Se o Banco Central demorou ou não a agir — o debate existe. Se houve influência política — a investigação dirá. Se houve fraude estruturada — a Justiça decidirá.
Mas o que a sociedade já sente é outra coisa: fadiga.
Fadiga de ciclos em que o poder circula nos mesmos salões, em que as conexões atravessam governos de espectros distintos, em que doadores aparecem ao lado de governantes diversos, em que escândalos não têm cor ideológica.
A podridão não é de um partido. É de um padrão.
Indo mais fundo
Caetano termina pedindo para aproximar seu “cantar vagabundo daqueles que velam pela alegria do mundo”. Talvez o Brasil precise aproximar sua política daqueles que velam pela estabilidade real — não pela estabilidade de conveniência. Transparência radical. Auditorias independentes. Rigor técnico sem blindagem. Responsabilização sem espetáculo.
Porque quando a rede é mais forte que a lei, o sistema apodrece. E quando o sistema apodrece, o custo não é privado. É coletivo. Enquanto os homens exercem seus podres poderes, o país aprende — às vezes tarde — que o verdadeiro risco sistêmico não é financeiro.
É. patologicamente, moral …
