Em meio à inevitável folia momesca, talvez faça sentido parafrasear os versos de Renato Russo, e entoar em ritmo de marchinha “mas alguém está ficando rico, faturando milhões, vendendo da Amazônia as terras, águas, árvores, corpos e almas, nos mais perversos leilões”.
Nas vésperas de mais uma folia momesca, quando o Brasil se permite leveza e dispersa os vetores de reflexões e cobranças, a Amazônia aparece novamente no noticiário. Não como ambiente de prosperidade e bem-estar, mas pelas piores expressões da maldade e projeções de poder.
Dessa vez são os dois maiores escândalos de nossa geração, cujos nomes evito. Um, nacional, é o banco que aproveitou as estruturas mal desenhadas da Comissão de Valores Mobiliários e do Fundo Garantidor de Créditos, e a súbita conjuntura de juros baixos, para obter recursos de incautos e aplicar em ativos sem lastro que, inflados, seria nova base para obter ainda mais recursos de incautos para novas aplicações em ativos sem lastro. Seus fatos são publicados como resultado de jornalismo “à moda antiga” em veículos tais como O Globo e Metrópoles.
O outro, internacional, é o monstro de raízes incertas posicionado como centro gravitacional das mais abjetas ambições financeiras, políticas, científicas e lascivas. Seus fatos vêm à tona por milhões de documentos e imagens disponibilizados no website do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
O caso nacional envolve a Amazônia por investimentos em projetos de emissões de créditos de carbono, supostamente lastreadas em territórios de floresta no município amazonense de Apuí. Florestas com situação fundiária irregular, projetos sem comprovação robusta de adicionalidade ambiental se prestaram e inflar o valor de ativos no balanço do banco.

Um mercado que nasceu para precificar a preservação acabou, nesse caso, funcionando como instrumento de engenharia para a construção de uma pirâmide financeira. Fato ambiguamente distante e presente na realidade amazônica. Distante porque somos das regiões mais desbancarizadas do mundo, desconhecemos os mecanismos de financeirização. Presente porque sabemos bem como organizações obscuras ferem a nossa soberania e nos impedem de prosperar em meio à floresta.
No caso internacional um documento flagra uma empresa de ativos florestais, que se apresenta em seu website como comerciante de madeira sustentável, oferecendo trecho de floresta amazônica por US$ 25 milhões. O destinatário não era um caboclo empreendedor, nem uma cooperativa local, nem um fundo comunitário de conservação. A mensagem foi endereçada ao então executivo-líder da NBA, que encaminhou a oferta ao monstro, especulando se seria interessante comprar a floresta para depois revendê-la a chineses.
Eis a lógica subjacente a ambos os casos: O cenário de extrema incerteza, insegurança e complexidade que impede os mais simples amazônidas de empreenderem no seu próprio ambiente. É o acúmulo de camadas regulatórias, discursos sofisticados e oportunismos políticos que levam ao interior amazônida somente o desalento. Aos empreendedores locais, individualmente ou em cooperação, são negados os mecanismos de pleno usufruto do bioma.
Sem prosperidade nossas famílias se tornam frágeis, alvos fáceis aos predadores externos e internos. Outro efeito disso é que ainda nos documentos do monstro internacional há citações aviltantes sobre a dignidade de nossas pessoas, principalmente mulheres e crianças. Citações aviltantes, mas não inéditas. É que vivemos em esquecimento, silêncio e inação. Como a história do sapo em água morna.
Em meio à inevitável folia momesca, talvez faça sentido parafrasear os versos de Renato Russo, e entoar em ritmo de marchinha “mas alguém está ficando rico, faturando milhões, vendendo da Amazônia as terras, águas, árvores, corpos e almas, nos mais perversos leilões”.
