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Recuperação de terras degradadas no Cerrado pode injetar R$ 3,4 bilhões no país

Com milhões de hectares improdutivos, a recuperação de terras degradadas no Cerrado surge como solução de baixo custo para frear perdas econômicas e ambientais.

A restauração de áreas improdutivas no Cerrado brasileiro desponta como estratégia capaz de unir ganhos ambientais e dinamização econômica. Segundo estudo divulgado pelo Instituto ClimaInfo, com apoio do Observatório do Clima e do GT Infraestrutura, a recuperação de terras degradadas no Cerrado pode adicionar R$ 3,4 bilhões à economia regional até 2030, caso 6,5 milhões de hectares de pastagens sejam restaurados.

O potencial é significativo diante da dimensão do passivo ambiental. O Brasil possui entre 160 e 180 milhões de hectares ocupados por pastagens, dos quais 32% se encontram no Cerrado. Segundo a Embrapa, a perda de produtividade gera prejuízos anuais estimados em R$ 7 bilhões aos produtores e reduz o valor das propriedades, áreas com baixa capacidade produtiva podem valer até metade do preço de fazendas bem manejadas.

Nesse contexto, a recuperação de terras degradadas no Cerrado surge como alternativa para elevar a renda rural sem ampliar a fronteira agrícola.

Pasto com gado em área de solo degradado no Cerrado, evidenciando a necessidade de recuperação de terras degradadas no Cerrado.
Área com pastagem degradada no Cerrado mostra os impactos da baixa produtividade e da erosão do solo. A recuperação de terras degradadas no Cerrado é estratégica para reduzir prejuízos e evitar novos desmatamentos. Foto: Projeto ABC Capacitação

Os impactos ambientais da degradação também são expressivos. A deterioração das pastagens favorece erosão, compactação do solo, assoreamento de rios e rebaixamento do lençol freático. Ao restaurar áreas já abertas, reduz-se a pressão por novos desmatamentos e amplia-se a oferta de terras aptas de forma sustentável.

O investimento necessário para recuperar os 6,5 milhões de hectares é estimado em R$ 9,5 bilhões até 2030, cerca de 1,8% dos recursos destinados ao Plano Safra 2025/2026. Parte desses valores pode ser mobilizada por instrumentos existentes, como o Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono) e linhas de crédito do BNDES voltadas à regularização ambiental e à adoção de práticas resilientes.

A recuperação de terras degradadas no Cerrado pode contribuir para reduzir a demanda por abertura de novas áreas, diminuir os impactos ecológicos do agronegócio e gerar empregos nas regiões produtoras. 

Minerais críticos: a negociação que separa país de colônia

Coluna Follow-Up

Há temas que parecem econômicos, mas são desafio civilizacional.

Minerais críticos — terras-raras, lítio, grafite, níquel, cobalto — deixaram de ser um capítulo técnico da mineração para se tornarem eixo de soberania. O debate não é mais sobre a rocha que se extrai. É agora sobre o que se constrói depois dela: refino, processamento, ligas especiais, ímãs permanentes, baterias, semicondutores, defesa, inteligência artificial.

A primazia das disputas por matérias primas no século XXI está ficando cada vez mais em segundo plano. A disputa por cadeias produtivas é o que dá o tom no mundo de hoje. E cadeias produtivas são aquilo que transforma os territórios trazendo desenvolvimento, ou em plataforma de extração dependente e subdesenvolvida.

O Brasil está diante de uma dessas encruzilhadas históricas.

Controle e manufatura das commodities é real poder

A corrida global por minerais críticos não é retórica ambiental nem modismo industrial. Ela responde a três vetores estruturais que não retrocedem: a transição energética, a digitalização da economia e a reorganização estratégica da indústria de defesa.

Tudo isso exige insumos específicos, concentrados e tecnologicamente sensíveis. A pergunta decisiva, portanto, não é quem tem reservas geológicas, mas quem domina o refino, o processamento e a engenharia aplicada.

Reservas sem cadeia produtiva são promessa incompleta. Cadeia produtiva sem soberania é dependência sofisticada.

Imagem de perto do cobalto, uma pedra de cor azul esverdeada. O cobalto é um dos minerais críticos visados pelos Estados Unidos.
O cobalto é um dos minerais críticos, ele é crucial para a produção de baterias, especialmente as utilizadas em veículos elétricos e dispositivos eletrônicos. Foto: Getty Images.

Negociação adulta começa em casa

A maturidade não começa na mesa de negociação internacional. Na verdade ela demanda uma definição interna de projeto nacional. Para que o Brasil precisa desses minerais nos próximos vinte anos?

Sem essa resposta clara, corremos o risco de repetir o velho padrão histórico: exportar barato, importar caro, e chamar isso de inserção no mercado global de bens de maior valor agregado.

Mineral crítico é insumo estratégico. Antes de pensar no mercado externo, o país precisa assegurar sua capacidade de abastecer demandas internas vinculadas à tecnologia, à energia, à defesa industrial e à modernização produtiva.

Exporta-se o excedente. Não se exporta a base do próprio futuro.

Beneficiamento não é triturar. É industrializar

Há uma diferença decisiva entre moer e dominar tecnologia.

Beneficiamento real significa controle das etapas industriais de separação, refino químico, metalização e transformação em componentes de alto valor agregado. É nesse elo que surgem empregos qualificados, engenharia nacional, pesquisa aplicada, arrecadação consistente e encadeamento produtivo duradouro.

Sem esse salto, o Brasil não vende apenas minério. Vende o direito de outro país ser tecnológico.

Negociação consequente exige transferência efetiva de conhecimento, instalação de capacidade industrial no território nacional e integração com a base produtiva existente. O contrário é retórica diplomática com resultado colonial.

Exclusividade é tutela disfarçada

Parcerias são bem-vindas. Mas subordinação geopolítica é a receita para a perpetuação do atraso.

Qualquer tentativa de impor exclusividade comercial ou alinhamento automático a um único bloco geopolítico compromete a autonomia brasileira. O país precisa negociar com múltiplos mercados, preservar liberdade diplomática e evitar tornar-se peça de disputa entre potências.

Área de mineração de terras raras a céu aberto, atividade estratégica para a transição energética e para a produção de tecnologias como baterias, turbinas eólicas e veículos elétricos.
Mineração em terras raras. Foto: Bloomberg.

Território como variável econômica

Há ainda um equívoco recorrente de tratar salvaguardas ambientais e sociais como entraves.

Toda corrida por recurso tende a pressionar licenciamento, comunidades, água, rejeitos e rastreabilidade. Quando esses pilares são fragilizados, o custo aparece sob forma de judicialização prolongada, conflito social, perda de credibilidade internacional, encarecimento do crédito e exclusão de mercados exigentes.

Devastar para desenvolver é equação que gera lucro imediato e passivo estrutural. O território preservado não é obstáculo ao investimento. É garantia de estabilidade econômica de longo prazo.

Entre extrair e projetar um país

A negociação que se impõe ao Brasil não é meramente ideológica. Se conduzida com inteligência, pode se converter em motor de reindustrialização, redução de dependência tecnológica, geração de empregos qualificados e fortalecimento territorial.

Se conduzida com pressa ou ingenuidade, apenas atualizará o velho modelo extrativista com nova embalagem tecnológica.

Entre extrair e projetar um país há um abismo. A diferença está nas cláusulas que o Brasil escolher escrever. 

Não é uma oportunidade qualquer. É um teste histórico

O Brasil pode transformar minerais críticos em base de reindustrialização, autonomia tecnológica e fortalecimento territorial. 

Ou pode repetir o gesto automático de extrair, embarcar e assistir ao valor agregado florescer em outro lugar. 

Entre ser fornecedor e ser protagonista há uma escolha silenciosa. Ela não será feita em discursos. Será feita em cláusulas.

Minerais críticos são infraestrutura de poder

O mundo disputa refino e tecnologia, não apenas extração. Exportar bruto é importar dependência. Negociação madura começa com definição de projeto nacional. Mercado interno estratégico vem antes do excedente externo.

Beneficiamento real significa industrialização e domínio tecnológico.

Transferência de conhecimento deve ser exigência contratual. Exclusividade compromete soberania. Território protegido é ativo econômico.A brasilidade estratégica se escreve em contratos inteligentes.

É possível produzir mais sem ampliar o desmatamento no Cerrado?

Pesquisas indicam que recuperar áreas degradadas pode reduzir o desmatamento no Cerrado e manter a produção agrícola, desde que crédito e mercado ajustem os incentivos. 

O Cerrado é um dos principais pilares ecológicos do Brasil. Além de abrigar biodiversidade única, o bioma abastece grandes bacias hidrográficas e armazena volumes significativos de carbono. Ainda assim, quase 30% de sua vegetação nativa já foi perdida, tornando o desmatamento no Cerrado um dos principais desafios ambientais do país.

Dados recentes mostram que o Cerrado permanece como a principal fronteira produtiva do país, com crescimento contínuo da área cultivada, especialmente na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). A soja lidera a expansão agrícola no bioma. Se o ritmo atual for mantido, projeções indicam a conversão de milhões de hectares até o fim da década, aumentando a pressão sobre áreas nativas e intensificando o debate sobre o avanço do desmatamento no Cerrado. 

Close de plantação de soja no Cerrado, com vagens maduras em destaque e lavoura ao fundo, em área agrícola consolidada.
A expansão da soja no bioma reacende o debate sobre alternativas ao desmatamento no Cerrado e o uso de áreas já abertas. Foto: Getty Images.

Além do impacto ambiental, há também o econômico. Estudos indicam que a remoção da vegetação nativa altera o microclima, eleva as temperaturas locais e pode reduzir a produtividade da própria agricultura. O resultado é um paradoxo: ao avançar sobre áreas naturais, o agronegócio compromete as condições ambientais que garantem sua própria produção.

Especialistas afirmam que o obstáculo não é técnico, mas econômico. Existem cerca de 18 milhões de hectares de pastagens aptas ao cultivo agrícola, área suficiente para atender à demanda projetada até 2030 sem novos desmatamentos. No entanto, converter vegetação nativa já pertencente ao produtor costuma gerar retorno financeiro maior do que comprar e recuperar pastagens degradadas. Além disso, grandes propriedades concentram a maior parte da área que ainda pode ser legalmente convertida e a valorização da terra após o desmate reforça essa lógica.

Para romper essa lógica, estudos apontam alternativas concretas. A recuperação de pastagens degradadas pode ampliar a produção agrícola sem avançar sobre novas áreas naturais. Além disso, instrumentos como o crédito para agricultura de baixo carbono, o financiamento de longo prazo e o pagamento por serviços ambientais ajudam a reduzir a vantagem econômica da conversão de vegetação nativa e conter o desmatamento no Cerrado.

No Piauí, a combinação de fiscalização mais rigorosa, monitoramento remoto e planejamento territorial contribuiu para a recente redução das taxas de supressão vegetal, indicando que produção e conservação podem coexistir quando há coordenação entre poder público e setor produtivo.

O Brasil dispõe de áreas abertas suficientes para expandir a produção de soja e carne sem desmatar o Cerrado. O ponto central está em ajustar políticas públicas, crédito e mecanismos de mercado para reduzir a pressão por novas conversões. Nesse contexto, a preservação do bioma tende a depender menos da disponibilidade de terra e mais da forma como se orienta a sua ocupação. 

12 espécies impressionantes da biodiversidade do Cerrado

Espécies emblemáticas revelam como a biodiversidade do Cerrado sustenta cadeias ecológicas, atividades da bioeconomia e pesquisas científicas que ampliam o conhecimento biomédico.

O Cerrado é a savana mais biodiversa do planeta e ocupa cerca de 24% do território brasileiro. Entre campos abertos, veredas e matas de galeria, a biodiversidade do Cerrado surpreende pelo número de espécies de plantas e animais, muitas delas endêmicas. Além da riqueza biológica, o bioma é estratégico para a água, o clima e a produção de alimentos. Conheça 12 espécies da biodiversidade do Cerrado. 

Anta (Tapirus terrestris)

Maior mamífero terrestre do Brasil, pode ultrapassar 300 kg. A anta tem hábitos noturnos e é excelente nadadora, vivendo próxima a rios e veredas. É uma das principais dispersoras de sementes do bioma, ajudando a moldar a paisagem vegetal. O seu focinho flexível funciona como uma pequena “tromba”, usada para colher folhas e frutos.

Anta caminhando em área de água no Cerrado brasileiro, símbolo da biodiversidade do Cerrado.
Maior mamífero terrestre do Brasil, a anta ajuda a dispersar sementes e moldar a paisagem da biodiversidade do Cerrado. Foto: Gustavo Figueiroa

Baru (Dipteryx alata)

Árvore imponente do Cerrado, produz uma amêndoa rica em proteínas, muito usada em paçocas, farinhas e doces regionais. O baru integra cadeias da sociobiodiversidade e tem alto valor nutricional, sendo estudado por suas propriedades funcionais e potencial na alimentação saudável.

Fruto de baru aberto mostrando a amêndoa, espécie típica da biodiversidade do Cerrado.
Foto: Divulgação/ Embrapa

Buriti (Mauritia flexuosa)

Palmeira típica das veredas, pode atingir 30 metros de altura. Os seus frutos alaranjados são ricos em vitamina C e carotenoides. Da polpa se produzem doces, sorvetes e óleos culinários; já as fibras e as folhas são usadas em artesanato. É uma das espécies mais importantes para comunidades tradicionais do Cerrado.

buriti
Foto: Feito Brasil

Cajuzinho-do-Cerrado (Anacardium humile)

Pequeno e suculento, de coloração que varia entre amarelo e vermelho, ele possui sabor ácido e refrescante. A sua castanha contém óleo com propriedades medicinais. Animais como a raposa-do-campo ajudam a dispersar suas sementes.

Cajuzinho-do-Cerrado maduro, fruto nativo da biodiversidade do Cerrado.
Foto: Irany Vieira

Jaguatirica (Leopardus pardalis)

Felino de porte médio, solitário e de hábitos noturnos. Apresenta manchas em rosetas que formam bandas laterais características. Alimenta-se de pequenos e médios vertebrados e é essencial para o equilíbrio ecológico.

Jaguatirica com pelagem de rosetas em área de mata do Cerrado, parte da biodiversidade do Cerrado.
Foto: Proteção Animal Mundial.

Jatobá (Hymenaea courbaril)

Árvore que pode atingir até 40 metros de altura. Os seus frutos produzem uma farinha nutritiva consumida tradicionalmente em comunidades rurais. A madeira é altamente valorizada e a espécie tem forte significado cultural por fazer parte de rituais sagrados dos povos originários. 

Árvore de jatobá de grande porte em área de Cerrado, representando a biodiversidade do Cerrado.
Foto: Clayton A.A.

Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus)

Símbolo do Cerrado, é o maior canídeo da América do Sul, podendo chegar a 36 kg. Alimenta-se de pequenos animais e frutos como a lobeira (Solanum lycocarpum), a qual recebeu este nome justamente pela preferência do lobo-guará. De hábitos solitários, também integra o imaginário cultural da região, fazendo parte de lendas e histórias populares.

Lobo-guará de pelagem alaranjada em campo de Cerrado, ícone da biodiversidade do Cerrado.
Foto: Martin Harvey / WWF-Canon

Onça-pintada (Panthera onca)

Maior felino das Américas e predador de topo da cadeia alimentar, a onça-pintada possui uma das mordidas mais potentes entre os felinos. Por isso, o animal controla populações de presas e é fundamental para o equilíbrio dos ecossistemas.

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Onça-pintada no Pantanal. Foto: Steve Winter/Panthera

Pequi (Caryocar brasiliense)

Fruto emblemático da culinária do Cerrado, o pequi é presença marcante em pratos tradicionais como arroz com pequi, galinhada e preparos com frango ou carne de sol. De aroma intenso e sabor característico, também é usado em conservas, licores, sorvetes e óleos culinários.

Rico em vitaminas A, C e E e em compostos antioxidantes, integra cadeias da sociobiodiversidade e movimenta economias locais, especialmente em Goiás e no norte de Minas Gerais. O seu caroço é envolto por espinhos finos, o que exige cuidado ao consumir a polpa.

Imagem de pequi do Cerrado, fruto típico de casca verde e polpa amarela intensa.
O pequi (Caryocar brasiliense) é uma das espécies mais emblemáticas do Cerrado, base de cadeias da bioeconomia que geram renda e valorizam saberes tradicionais. Foto: Fábio Salles/ Adobe Stock

Perereca-das-nascentes (Phyllomedusa oreades)

Anfíbio endêmico do Cerrado, ocorre em riachos de altitude acima de 750 metros, especialmente em áreas de matas de galeria. De coloração verde com desenhos reticulados na parte inferior do corpo, é bastante sensível a alterações ambientais e indicadora da qualidade da água.

Pithecopus oreades Serra de Caldas Goias. Foto Reuber Brandao
Foto: Reuber Brandão.

Seriema (Cariama cristata)

Ave símbolo do Cerrado, pode atingir até 90 cm de comprimento. Possui plumagem cinza-amarelada, patas e bico avermelhados. Ela apresenta cílios, característica rara entre aves. Vive em áreas abertas e é conhecida por seu canto marcante.

Seriema em campo aberto do Cerrado com plumagem cinza e bico avermelhado.
Foto: Olaf Oliviero Riemer

Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla)

Maior espécie de tamanduá, pode pesar até 45 kg. Não possui dentes e captura formigas e cupins com sua longa língua pegajosa. A sua cauda volumosa costuma balançar quando o tamanduá corre, assemelhando-se a uma bandeira, o que deu origem ao nome popular.

Tamanduá-bandeira caminhando em área aberta do Cerrado, integrante da biodiversidade do Cerrado.
Foto: Kamchatka/Canva.

Por que, na Amazônia, CNPJ e Nota Fiscal são instrumentos de resistência?

Coluna Follow-Up

Há duas maneiras de contar a história econômica da Amazônia.

A mais superficial descreve a região como natureza e ausência, floresta e carência.

A mais responsável começa por Manaus como fato: um polo industrial que, para além de produzir bens, produz institucionalidade.

No meio do ruído ideológico e das simplificações apressadas, dois símbolos discretos sintetizam essa construção: o CNPJ e a Nota Fiscal Eletrônica. Não são apenas códigos burocráticos. São linguagem. São registro. São pacto. São a gramática mínima da legalidade em um território onde, quando o Estado falha, o vazio costuma ser ocupado por outras forças, ou facções.

A Zona Franca de Manaus, aos 59 anos, não é peça de museu. É uma estrutura de resistência. Resistência ao determinismo que empurra a Amazônia para o extrativismo bruto. Resistência à ideia de que floresta só pode ser cenário ou saque. Resistência à tentação de reduzir uma política territorial complexa a uma linha de planilha.

Quando o Brasil fala em renúncia, Manaus responde com engenharia produtiva.

Quando se fala em custo, a Amazônia responde com trabalho formal, arrecadação e presença institucional.

Quando a floresta é tratada como paisagem, o Polo Industrial insiste em transformá-la em futuro.

Ato 1 — Manaus, a indústria da floresta

A economia do Amazonas tem uma espinha dorsal concreta. O Polo Industrial de Manaus movimenta cerca de 85% da economia do estado e responde por aproximadamente 30% da formação de riqueza da Região Norte, segundo dados amplamente referenciados por Suframa, IBGE e estudos acadêmicos. Em 2025, o estado ultrapassou a marca de 550 mil empregos formais, sendo mais de 130 mil diretamente ligados à indústria de transformação.

Uma economia formal, com nota fiscal, contrato e padrão tecnológico, reduz a pressão para que a floresta seja convertida em “alternativa de renda” pela via mais rápida: derrubada, grilagem, garimpo predatório, informalidade crônica e sombria.

Setores como eletroeletrônicos, duas rodas e químico sustentam emprego, arrecadação e cadeia logística. O segmento de duas rodas, por exemplo, alcança números expressivos de faturamento e formalização. O que isso significa na prática? Que há salário com carteira assinada, imposto recolhido, rastreabilidade, contabilidade.

O CNPJ, aqui, não é formalidade fria. É declaração de pertencimento ao pacto legal. A Nota Fiscal não é apenas documento fiscal. É prova de existência institucional.

Ato 2 — O que essa riqueza precisa sustentar

Riqueza urbana, se não se converte em estrutura para o interior, vira ilha.

Interiorizar desenvolvimento na Amazônia custa caro. Energia, logística, conectividade, formação técnica, presença contínua do Estado. Não se trata apenas de abrir estrada — trata-se de manter serviços, universidades, pesquisa, extensão. Por isso não faz sentido inserir o Amazonas – entre os mais pobres do Brasil – no rol dos 8 estados que mais contribuem com a receita federal. 

Universidade, na Amazônia, é infraestrutura.

O fundo de manutenção da UEA, alimentado por contribuições das empresas do Polo Industrial desde 2004, é um exemplo concreto de como a economia formal sustenta a presença acadêmica no território. São centenas de empresas contribuindo regularmente para manter campi espalhados por municípios onde o mercado, sozinho, não pisaria.

Sem romantizar a indústria, é preciso reconhecer sua função estratégica: ela não é perfeita, mas é ferramenta de estabilização institucional. É o que impede que a Amazônia seja empurrada novamente para ciclos de improviso e informalidade estrutural sombria.

Nesse desenho, a universidade não é custo administrativo. É mecanismo de permanência. É a diferença entre um interior dependente de ciclos predatórios e um interior com formação técnica, pesquisa aplicada e perspectiva de futuro.

A Zona Franca, quando compreendida em sua maturidade institucional,  é muito mais do que um polo produtivo. É uma matriz de sustentação territorial.

Ato 3 — Programas Prioritários: P&D como método

Não existe bioeconomia sem método. Não existe floresta em pé sem engenharia econômica.

Os Programas Prioritários da Suframa, especialmente no âmbito da Lei de Informática, criaram um circuito obrigatório de investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação. O PPBio, coordenado pelo Idesam desde 2019, é exemplo de como recursos de P&D podem estruturar cadeias produtivas da sociobiodiversidade, apoiar bionegócios e organizar iniciativas que deixam de ser promessa e passam a ser contrato.

Sem P&D, “bioeconomia” vira slogan. Com P&D, vira cadeia produtiva.

E cadeia produtiva significa algo muito concreto: renda formal, contrato registrado, escala produtiva, qualidade certificada, rastreabilidade. É a floresta em pé saindo do discurso e entrando na contabilidade.

Ato 4 — A tensão do pacto federativo

Toda política territorial complexa vive sob tensão. A Zona Franca também. 

Parte do debate nacional ainda insiste em analisar a ZFM exclusivamente como renúncia fiscal, sem incorporar a equação completa: geração de emprego formal, arrecadação indireta, financiamento da interiorização, investimentos obrigatórios em inovação, manutenção de instituições estratégicas.

A discussão é legítima. O que não é legítimo é simplificar.

A Amazônia não pode ser medida ignorando suas distâncias logísticas, seus custos estruturais e o papel estratégico de manter presença econômica formal numa região que concentra 60% do território nacional.

Quando se desconsidera essa complexidade, o risco não é apenas contábil. É territorial. Fragiliza-se a principal âncora de formalização econômica da região. E onde a formalidade recua, o ilícito avança.

Ato 5 — O cotidiano como campo de resistência

A disputa amazônica não se decide em slogans. Ela se decide no cotidiano. Quando uma empresa escolhe cumprir regras mesmo sob custo elevado. Quando um pesquisador insiste em manter laboratório no interior. Quando uma cooperativa tenta formalizar sua produção. Quando uma cadeia da sociobiodiversidade busca padrão, certificação, mercado.

É nesse cotidiano que o CNPJ vira ato político. Que a Nota Fiscal vira instrumento de previsibilidade.

Previsibilidade é o primeiro antídoto contra a economia da depredação.

Sem romantizar a indústria, é preciso reconhecer sua função estratégica: ela não é perfeita, mas é ferramenta de estabilização institucional. É o que impede que a Amazônia seja empurrada novamente para ciclos de improviso e informalidade estrutural sombria.

Epílogo — Um país que começa a entender

Durante décadas, parte do Brasil olhou para a Zona Franca como exceção inconveniente. Hoje, ainda que timidamente, algo começa a mudar.

O país começa a perceber que o CNPJ na Amazônia ao contrário dos que apontam um privilégio, significa presença do Estado nessa região. Que a Nota Fiscal Eletrônica não é uma burocracia excessiva, é na verdade um exercício de cidadania econômica. Que a economia formal da floresta é condição para que a floresta permaneça em pé.

Ainda são sinais discretos.

Ainda há ruído, desinformação e resistência. Mas há também uma compreensão nascente de que o combate à ilegalidade ambiental passa pela expansão da legalidade econômica.

Amazonia desmatamento reserva extrativista guarivba roosevelt foto Caio Mota
foto: Caio Mota

Acolher a economia da floresta não significa blindá-la de críticas. Significa compreendê-la como instrumento de soberania, estabilidade e inclusão.

O Brasil começa a entender que desenvolvimento amazônico não é sinônimo de devastação — pode ser sinônimo de formalização, inovação e ciência.

E talvez a maturidade esteja justamente aí: menos caricatura, mais compreensão; menos simplificação, mais pacto. Se a floresta precisa permanecer em pé, ela precisará também de CNPJ, de nota fiscal, de universidade, de pesquisa, de empresa responsável.

E o Brasil, pouco a pouco, parece começar a aceitar essa ideia.

O capital, o território e a fraude do “progresso” Até quando?

“Entre o território e a fraude do progresso, o Tapajós expõe o conflito entre soberania viva e logística de exportação”

O embate entre a Cargill e os povos indígenas no Tapajós é muito mais que uma disputa sobre dragagem ou logística fluvial. Ele simboliza algo mais profundo: a tensão entre um modelo de desenvolvimento que transforma o rio em corredor privado de exportação e a visão indígena que reconhece o Tapajós como território vivo, bem comum e sujeito de direitos. 

Quando a infraestrutura que viabiliza cadeias globais de commodities reorganiza o espaço segundo a lógica do mercado, o que está em jogo não é só eficiência econômica — é a própria soberania territorial e a definição de quem decide o destino do rio. É nesse ponto que a palavra “privatização” deixa de ser jurídica e passa a ser política: quem controla o fluxo controla o território.

Algumas perguntas não pedem resposta: pedem pudor.

E há pudores que, quando repetidamente violados, viram método.Até quando o capital vai ignorar o território e seus direitos?Até quando o rio será tratado como corredor e o povo como detalhe?

Até quando a Amazônia será empurrada para a condição de “meio” — meio de transporte, meio de produção, meio de exportação — como se não fosse, antes de tudo, casa, vida, memória e lei?

O que está em disputa no Tapajós — como tantas vezes na história amazônica — não é apenas um cronograma de obra. É o sentido da palavra desenvolvimento. Para quem? 

O capital não ignora o território por distração. Ignora por competência. Ele aprendeu a transformar o mundo real em planilha — e a planilha, em destino.

Onde há um rio vivo, ele enxerga “hidrovia”. Onde há uma floresta de relações, ele enxerga “ativo”. Onde há povos com direitos, ele enxerga “stakeholders”. Onde há soberania territorial, ele enxerga “condicionantes”.

É assim que nasce a fraude: chamar de técnica aquilo que é poder.Chamar de eficiência aquilo que é assimetria. Chamar de interesse nacional aquilo que é, muitas vezes, interesse setorial com carimbo público.

Até quando?

O conflito amazônico quase sempre começa pelo relógio. O capital opera em trimestres, safras, contratos, metas. O território opera em ciclos: o ciclo do rio, do peixe, da chuva, da regeneração, da transmissão cultural.

Quando uma obra avança “porque é urgente”, quase sempre é urgente para quem está longe. Para quem vive ali, urgência sem consulta é apenas outro nome para imposição.

E aqui mora a perversidade: o capital acusa o território de atrasado, mas é ele quem chega apressado, exigindo que a vida se ajoelhe diante do cronograma.

Há um ponto em que o Estado moderno tenta resolver tudo com liturgia: audiência, ata, reunião, nota, relatório.

Mas consulta prévia, livre e informada não é decoração democrática. É o reconhecimento mínimo de que há povos que não são “afetados” — são sujeitos de direito, guardiões de um lugar, depositários de memória.

Quando a consulta vira rito, ela deixa de ser consulta e vira teatro. E quando vira teatro, o território responde com o único idioma que interrompe a encenação: a paralisação do fluxo.

A cadeia logística entende bloqueio. O mercado entende interrupção. A planilha entende prejuízo.

TERRITORIO E A FRAUDE
oto: Comunicação/Conselho Indígena Tapajós-Arapiuns (Cita)

Quando um terminal se torna o coração físico de um corredor exportador, ele passa a representar mais do que uma empresa: representa uma arquitetura inteira (porto + corredor + expansão territorial). Por isso, no Tapajós, “Cargill” vira palavra-símbolo: não apenas uma marca, mas um modelo.

E é aqui que cabe encarar, sem histeria e sem ingenuidade, um histórico público de controvérsias e danos associados ao nome que costuma emergir no centro dessas disputas.

Até quando?


1) Santarém / Tapajós (PA) — licenciamento e EIA/RIMA exigido judicialmente

Há histórico judicial no TRF1 envolvendo o terminal graneleiro em Santarém, com decisão registrando ser “imprescindível” a apresentação de EIA/RIMA, mesmo com manutenção de atividades.  

Relatórios e estudos da sociedade civil descrevem impactos urbanos e territoriais relacionados à instalação/expansão do terminal e à reorganização do entorno.  

2) Cadeia da soja no Brasil — queixa por falhas de “devida diligência” (direitos humanos e desmatamento)

A ClientEarth apresentou queixa/ação sob diretrizes de conduta empresarial responsável, alegando falhas de devida diligência ambiental e de direitos humanos na cadeia de soja no Brasil.  

3) Segurança alimentar (EUA, 2011) — recall massivo ligado a Salmonella

Em 2011, a Cargill Meat Solutions realizou recall voluntário de cerca de 36 milhões de libras de produtos de peru moído, associados a Salmonella Heidelberg (incluindo cepa multirresistente), conforme registros do CDC.  

4) Cadeia do cacau e trabalho infantil — litígio na Suprema Corte (EUA, 2021)

A Suprema Corte dos EUA julgou o caso Nestlé USA, Inc. v. Doe (consolidado com Cargill, Inc. v. Doe), envolvendo alegações de tráfico e trabalho infantil na cadeia do cacau; a decisão tratou dos limites de aplicação do Alien Tort Statute e do grau de conduta doméstica necessário para sustentar a ação.  

5) Antitruste e mercado de trabalho (EUA) — compartilhamento de dados salariais no setor de aves

O Departamento de Justiça dos EUA anunciou ação e proposta de consent decrees para encerrar condutas de compartilhamento de informações sensíveis sobre remuneração/benefícios de trabalhadores em empresas do setor, incluindo a Cargill.  

6) Antitruste (EUA, 2025) — acordo em ação coletiva sobre preços de carne bovina

Reportagens registram acordo envolvendo a Cargill e a Tyson para encerrar ação coletiva que alegava fixação de preços/restrição de oferta no mercado de carne bovina, com valores reportados de US$ 32,5 milhões (Cargill) e US$ 55 milhões (Tyson), com negativa de irregularidade pelas empresas.  

O que é a savanização da Amazônia e por que ela preocupa cientistas

Entenda como a savanização avança sobre a Amazônia, altera o clima, reduz a biodiversidade e pode comprometer a capacidade de regeneração da floresta nas próximas décadas.

A savanização é a transformação de áreas de floresta densa em formações abertas, semelhantes às savanas, o fenômeno ocorre quando a vegetação perde sua estrutura original e se torna mais baixa e fragmentada. O processo é resultado de degradação contínua e compromete a integridade do ecossistema.

Na Amazônia, a savanização está ligada principalmente ao desmatamento, às queimadas e à expansão da fronteira agrícola. O pesquisador Bernardo Monteiro Flores aponta dois vetores centrais: o “arco do desmatamento”, que avança pelas bordas do bioma, e um processo interno, impulsionado sobretudo por incêndios florestais distantes das áreas agrícolas.

As mudanças climáticas intensificam o fenômeno. O aumento da temperatura e a alteração no regime de chuvas reduzem a resiliência da floresta amazônica, tornando-a mais vulnerável à degradação. Assim, a savanização não resulta apenas da ação direta sobre a vegetação, mas de um conjunto de pressões ambientais que comprometem a estabilidade do ecossistema.

Área de floresta amazônica atingida por queimada, com solo exposto e fumaça, evidenciando processo de savanização.
Queimadas recorrentes aceleram a savanização na Amazônia, fragilizando a floresta, reduzindo biodiversidade e comprometendo o equilíbrio climático. Foto: Márcio Pimenta.

O alerta sobre a possível conversão de partes da Amazônia em áreas semelhantes ao Cerrado foi feito por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), entre eles Carlos Nobre. Estudos posteriores indicam que os impactos vão além da paisagem. A bióloga Lílian Sales descreveu a chamada “savanização faunística”, caracterizada pela substituição de espécies típicas de florestas densas por espécies adaptadas a ambientes abertos.

A mudança compromete a biodiversidade, reduz a capacidade de armazenamento de carbono e enfraquece o papel da Amazônia na regulação do clima regional e global. Além de afetar o ciclo das chuvas, a manutenção dos rios e a estabilidade do solo. Para cientistas, o avanço desse processo ameaça serviços ecossistêmicos essenciais, com reflexos na segurança hídrica, na produção de alimentos e na saúde humana.

Há ainda a preocupação com o chamado “ponto de não retorno”, limite a partir do qual os danos acumulados impediriam a regeneração natural da floresta. Um estudo recente publicado na revista Nature indica que esse ponto de inflexão pode ser alcançado até 2050, caso as pressões atuais persistam.

Aliados de Donald Trump podem revogar base legal do combate ao aquecimento global

Enquanto a esmagadora maioria da comunidade científica sustenta que as emissões de carbono intensificam secas, tempestades e elevação do nível do mar, o novo movimento aposta em redefinir os parâmetros legais da política ambiental americana.

Aliados de Donald Trump afirmam estar próximos de uma “vitória total” na desmontagem da base jurídica que sustenta a política climática dos Estados Unidos. A expectativa é que a Agência de Proteção Ambiental revogue nos próximos dias a chamada endangerment finding, decisão científica de 2009 que reconheceu que gases de efeito estufa ameaçam a saúde pública.

Base legal

Essa determinação, emitida durante o governo Barack Obama, obrigou o governo federal a regular emissões de veículos, usinas e indústrias. Sua revogação não representaria apenas uma mudança administrativa, mas um abalo estrutural: sem essa base, futuros governos teriam mais dificuldade para restabelecer limites obrigatórios à poluição climática.

Estratégia

A articulação começou ainda em 2022, quando aliados conservadores redigiram decretos e construíram argumentos jurídicos para desmontar a legislação climática assim que os republicanos retomassem o poder. Documentos revelam tentativas de produzir relatórios técnicos paralelos e financiar estudos que contestassem o consenso científico, estratégia vista como essencial para sustentar a reversão regulatória.

Consequências

A decisão ocorre em um contexto de forte polarização. Enquanto a esmagadora maioria da comunidade científica sustenta que as emissões de carbono intensificam secas, tempestades e elevação do nível do mar, o novo movimento aposta em redefinir os parâmetros legais da política ambiental americana. Caso a revogação avance, o impacto pode ultrapassar o ciclo eleitoral e redesenhar o papel dos EUA no enfrentamento global da crise climática.

As veias ainda abertas: Bad Bunny, Galeano e a insubordinação estética da América Latina

Enquanto houver produção cultural nascida da fratura histórica latino-americana, haverá escuta — ainda que parcial, ainda que atravessada por ruídos. A diferença é que, neste momento, a América Latina deixou de esperar autorização para ocupar o centro do palco global.

Durante décadas, o olhar predominante do chamado “mundo desenvolvido” enquadrou a região como espaço funcional: fornecedora de commodities, de força de trabalho barata e de exotismos controláveis. Nesse contexto, o fato de um artista porto-riquenho lotar estádios internacionais cantando majoritariamente em espanhol, sem adaptar sotaque ou repertório para consumo externo, adquire densidade política.

O êxito de Bad Bunny ultrapassa a lógica da indústria fonográfica. Ele expressa uma inflexão histórica na circulação de poder simbólico.

Em As Veias Abertas da América Latina, Eduardo Galeano descreveu um continente organizado para exportar riqueza e importar dependência. A estrutura econômica mudou de forma, mas não de essência: hoje exportam-se dados, atenção e capital cultural com a mesma assimetria de outrora. O que se altera, entretanto, é a capacidade de enunciação. Parte da produção cultural latino-americana já não se apresenta como tradução subordinada ao centro; ela se afirma como linguagem autônoma.

Eduardo Galeano

Não se trata apenas de música. Trata-se de disputa narrativa.

Bad Bunny emerge de Porto Rico, território cuja condição política permanece ambígua no sistema internacional — colônia tardia, plataforma militar estratégica, vitrine turística. Nesse espaço tensionado entre dependência formal e identidade própria, a cultura converte-se em arena de soberania simbólica. A recusa em neutralizar o espanhol, em suavizar referências locais ou em adaptar códigos estéticos ao gosto hegemônico não é mero estilo artístico; é um gesto político. Afirma-se o direito de existir sem mediação cultural.

Esse movimento reconfigura a lógica tradicional da globalização cultural. Durante décadas, a internacionalização exigia diluição identitária. Agora, a opacidade torna-se força: a obra circula preservando sua densidade local. Isso desloca a assimetria histórica segundo a qual a periferia traduz e o centro define.

O incômodo que parte da crítica manifesta diante desse fenômeno revela algo mais profundo: a erosão do monopólio anglo-saxão sobre os códigos da modernidade. A centralidade cultural sempre foi instrumento de poder. Quando artistas latino-americanos ocupam rankings globais sem se submeter às gramáticas dominantes, tensionam a própria arquitetura simbólica do sistema.

Convém evitar romantizações. A indústria cultural é capaz de absorver dissensos e convertê-los em mercadoria. O capitalismo contemporâneo metaboliza identidades com a mesma eficiência com que explora recursos naturais. A diferença, neste caso, reside na capacidade de reverter o fluxo de validação. O público global passa a consumir conteúdos que não foram previamente moldados para ele.

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Leon Overweel/Unsplash

A América Latina sempre produziu pensamento crítico, inovação estética e experimentação social. O obstáculo recorrente não foi escassez criativa, mas restrição de poder estrutural. Quando a cultura amplia sua capacidade de circulação autônoma, abre-se uma brecha na hierarquia simbólica internacional.

Bad Bunny não encarna redenções coletivas. Sua trajetória evidencia, contudo, uma mutação no eixo de legitimidade cultural. A arte antecede rearranjos políticos porque atua no plano da imaginação social. Ao modificar o que é audível, visível e desejável, prepara terreno para transformações mais profundas.

A região continua inserida em disputas econômicas, ambientais e geopolíticas intensas. Ainda assim, há um dado novo: sua produção cultural deixou de pedir tradução como condição de existência. Canta-se a partir da própria gramática. E o mundo, por cálculo ou por fascínio, escuta.

Entre a denúncia literária de Galeano e a afirmação estética contemporânea, persiste a mesma América Latina: marcada por conflitos estruturais, dotada de inventividade resiliente e cada vez menos disposta a ocupar o lugar que lhe foi historicamente atribuído.


Acompanhe a apresentação do artista no intervalo do Super Bowl:

Honda, 50 anos na Amazônia: uma maratona civilizacional entre o Japão e a floresta

Coluna Follow-Up

Manaus, 10 de fevereiro de 2026 – Há histórias industriais que não se escrevem apenas com máquinas, linhas de montagem e números de produção. Algumas se constroem como laços de confiança entre culturas, territórios e futuros possíveis. A trajetória da Honda na Amazônia é uma delas.

Festejamos meio século de convivência produtiva com a floresta

Em 2026, ao completar 50 anos de produção de motocicletas em Manaus, a Moto Honda da Amazônia celebra muito mais do que um marco industrial. Festejamos meio século de convivência produtiva com a floresta, com a cidade e com as pessoas que ajudaram a transformar o Polo Industrial de Manaus em referência mundial. Para simbolizar esse encontro entre permanência, disciplina e superação, a empresa anuncia seu patrocínio inédito à Maratona Internacional de Manaus, em uma edição que passa a carregar seu nome: Maratona de Manaus Moto Honda.

É mais uma etapa da saga japonesa entre nós

A escolha não é casual. A maratona, como a própria história da Honda na Amazônia, é feita de constância, preparo, respeito aos limites e compromisso com o longo prazo. É mais uma etapa da saga japonesa entre nós — uma jornada silenciosa, persistente e profundamente transformadora.

Desenvolvimento e floresta em pé não são ideias opostas

Desde que decidiu fincar raízes na Zona Franca de Manaus, em 1976, a Honda ajudou a reescrever o destino econômico da região. Ao optar pela indústria como alternativa ao extrativismo predatório, a empresa contribuiu para a geração de empregos qualificados, formação técnica, renda estável e preservação ambiental, demonstrando que desenvolvimento e floresta em pé não são ideias opostas, mas complementares.

Cinco décadas depois, essa presença se traduz em protagonismo absoluto. A fábrica da Moto Honda em Manaus é hoje a mais verticalizada do grupo no mundo, reunindo em um único complexo produtivo o desenvolvimento de componentes estratégicos — como motores, chassis, rodas e bancos — e consolidando uma cadeia de fornecedores que irradia conhecimento, tecnologia e eficiência para todo o país.

Desde que decidiu fincar raízes na Zona Franca de Manaus, em 1976, a Honda ajudou a reescrever o destino econômico da região. Ao optar pela indústria como alternativa ao extrativismo predatório, a empresa contribuiu para a geração de empregos qualificados, formação técnica, renda estável e preservação ambiental, demonstrando que desenvolvimento e floresta em pé não são ideias opostas, mas complementares.

The Power of Dreams, o mote e a senha da Honda

Uma jornada de superação e identificação com o território em nome da mobilidade e da qualidade fabril. Uma presença vitoriosa e uma corrida para o futuro. Para celebrar esse percurso, os vencedores da prova principal da maratona, nos 42 quilômetros (masculino e feminino), receberão uma Honda CG Titan – Edição Especial 50 Anos, enquanto os campeões dos 21 quilômetros serão premiados com uma Honda Biz, símbolos de uma mobilidade que acompanha gerações de brasileiros. 

Mais do que patrocinar

Colaboradores da empresa também estarão na linha de largada, integrando a prova ao programa interno de saúde e bem-estar, reafirmando a ideia de que cuidar das pessoas é parte inseparável da cultura corporativa construída ao longo desses 50 anos.

História, tecnologia e inovação 

Nos dias que antecedem a prova, a presença da marca se estenderá à Expo da Maratona, nos dias 3 e 4 de abril. Em um estande imersivo, o público poderá percorrer a trajetória da Honda no Brasil, conhecendo a história, a tecnologia, a inovação e, sobretudo, a relação construída com a Amazônia ao longo de meio século.

A maratona passa. A floresta permanece. E algumas histórias, como a da Honda na Amazônia, seguem correndo — não contra o tempo, mas a favor do futuro.


Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal https://brasilamazoniaagora.com.br