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32 milhões de motocicletas: a engenharia Honda que brota da floresta

Na indústria da Amazônia existem números que são eloquentes estatísticas. Outros são indicadores de civilização.

Trinta e dois milhões de motocicletas produzidas em Manaus não representam apenas escala industrial. Representam a consolidação de um pacto silencioso entre tecnologia, território e desenvolvimento regional.

No ano em que a Moto Honda da Amazônia celebra cinco décadas de operação, o marco não é apenas comemorativo. Ele é estrutural. São 50 anos provando que a Amazônia pode ser plataforma de manufatura sofisticada, competitiva e integrada ao mundo.

Quando a Honda decidiu instalar sua fábrica no Polo Industrial de Manaus em 1976, não estava apenas ampliando mercado. Estava testando um modelo. Hoje, esse modelo responde por 100% da produção nacional da marca, com cerca de 6.500 motocicletas por dia, 20 modelos distintos e exportações para mais de 15 países.


engenharia honda
Honda/Divulgação

A unidade de Manaus tornou-se uma das operações mais verticalizadas do grupo Honda no mundo. Produz componentes, desenvolve engenharia local, domina processos e abriga um Centro de Desenvolvimento e Tecnologia que trabalha com equipes multidisciplinares em projetos e inovação.

Não se trata apenas de montar motocicletas. Trata-se de gerar conhecimento industrial na Amazônia, formar mão de obra qualificada, criar inteligência produtiva e consolidar cadeias de suprimento com aproximadamente 120 fornecedores diretos.

São mais de 9 mil empregos diretos. Milhares de indiretos. Uma rede de 1.100 pontos de venda espalhada pelo país. Uma engrenagem que conecta Manaus ao Brasil profundo.

Enquanto parte do debate nacional ainda insiste em enxergar a Zona Franca sob a lente estreita do incentivo fiscal, a realidade industrial mostra outra coisa: sofisticação produtiva com lastro ambiental.


A fábrica opera com 100% de energia elétrica proveniente de fontes limpas. Investe em preservação e tratamento de água. Mantém ações de conservação da biodiversidade. Moderniza processos para reduzir impacto ambiental. Atualiza continuamente seus produtos.

Esse volume de capital não é simbólico. Ele sinaliza confiança no modelo, no mercado brasileiro e na estabilidade do Polo Industrial como plataforma de longo prazo. A meta de 1,6 milhão de unidades produzidas em 2029 projeta continuidade, expansão e atualização tecnológica.


Motocicleta no Brasil não é luxo. É instrumento de trabalho. É mobilidade para quem vive fora dos grandes eixos urbanos. É logística individual para entregadores, técnicos, pequenos empreendedores.

Ao afirmar que o marco de 32 milhões representa “resiliência e superação”, como destacou Lourival Barros, a empresa traduz algo maior. São milhares de colaboradores, concessionárias e fornecedores sustentando uma cadeia que atravessa gerações.

A motocicleta produzida em Manaus circula nas periferias de São Paulo, nas cidades médias do interior, nas comunidades ribeirinhas, nos polos agrícolas, nos serviços urbanos. É produto industrial que se transforma em renda distribuída.


Em um momento em que a Amazônia volta ao centro das disputas globais, a fábrica de Manaus oferece um argumento concreto. Desenvolvimento industrial pode ser aliado da preservação quando estruturado com governança, tecnologia e escala formal.

Trinta e dois milhões de motocicletas depois, o que se vê é a consolidação de uma tese. A floresta não precisa ser substituída para que o progresso exista. Ela pode ser protegida quando a economia formal é forte, competitiva e enraizada no território.

A Honda, ao longo de cinco décadas, tornou-se parte dessa equação. E 32 milhões não são apenas motos.

São 32 milhões de provas de que a Amazônia pode produzir, inovar, exportar e liderar.

Saúde mental de adolescentes e a regulação das big techs:  os danos, as consequências e os interesses

Estudos científicos e levantamentos recentes mostram associação crescente entre uso intensivo de redes sociais e problemas de saúde mental entre jovens. O uso excessivo tem sido ligado a maiores taxas de ansiedade, depressão, distúrbios do sono e baixa autoestima, especialmente entre 12 e 17 anos, fase em que o cérebro ainda está em desenvolvimento. A comparação constante e a busca por validação on-line são citadas como fatores de estresse emocional.  

Revisões acadêmicas apontam também que a natureza do impacto pode variar conforme características individuais, tipo de uso e plataforma, indicando que não há efeito uniforme para todos os adolescentes.  

SAUDE MENTAL DE ADOLESCENTES
Crédito: freepik

No Brasil, pesquisa de opinião indica que 90% dos adultos acreditam que adolescentes não recebem apoio emocional e social adequado para lidar com ambientes digitais, evidenciando lacunas no suporte familiar e educacional.  

Organizações de saúde pública, como a OMS, destacam a necessidade de políticas direcionadas à proteção de jovens em ambientes digitais, com ações que incluam educação digital e mitigação de riscos relacionados à exposição on-line.  

Nos Estados Unidos, uma série de ações judiciais a partir de 2024–2025 acusa empresas como Meta, YouTube, TikTok e Snap de projetar plataformas aditivas que prejudicam a saúde mental de crianças e adolescentes. Processos em tribunais da Califórnia e Novo México têm servido de teste para responsabilizar as empresas pelo design dos produtos, com analogias à litigação histórica contra indústrias como tabaco e opioides.  

Uma pesquisa de opinião recente indica que 86% dos americanos querem que Meta e Google sejam responsabilizadas pelo que classificam como crise de “vício predatório” em redes sociais, sinalizando forte demanda pública por regulação de algoritmos e interfaces projetadas para maximizar engajamento.  

Além de processos judiciais, há movimentos de autoavaliação: Meta, TikTok e Snap concordaram em se submeter a avaliações independentes de segurança para adolescentes, com métricas sobre pausa obrigatória no uso e limites ao “scroll infinito”.  

Nos Estados Unidos tramita o Kids Off Social Media Act, que propõe proibir menores de 13 anos em plataformas sociais e vetar recomendações algorítmicas para menores de 17 anos — embora sua tramitação ainda enfrente desafios parlamentares.  

Nos níveis subnacionais, estados como Colorado implementaram normas obrigatórias em 2026 para exibir alertas de uso excessivo a usuários com menos de 18 anos, com avisos periódicos quando a presença on-line ultrapassa determinado tempo.  

Na União Europeia, o cumprimento do Digital Services Act tem levado autoridades a advertir redes como TikTok por práticas de design potencialmente prejudiciais à saúde mental de crianças, com possibilidade de multas significativas e exigência de mitigação de riscos sistêmicos.  

Relatórios técnicos em países como França recomendam restrições de acesso para menores de idade e reformulação do design das plataformas para priorizar segurança e bem-estar dos usuários jovens. 

Psicodélicos voltam à ciência e abrem novas fronteiras na saúde mental

Estudos clínicos investigam como os psicodélicos atuam no cérebro, influenciam a neuroplasticidade e podem transformar abordagens terapêuticas para depressão e sofrimento psicológico.

Após décadas marcadas por restrições legais e interrupção das pesquisas, substâncias psicodélicas voltaram a ser investigadas por universidades e centros médicos em diferentes países. O interesse cresce em meio a uma crise global de saúde mental: estimativas internacionais indicam que mais de 1 bilhão de pessoas convivem com algum tipo de sofrimento psíquico. Um estudo feito na América Latina também apontou que 30% das pessoas com depressão não respondem aos tratamentos convencionais.

Entre os compostos psicodélicos analisados estão a psilocibina, encontrada em determinados cogumelos, o MDMA, a cetamina e substâncias presentes na ayahuasca, como o DMT e os alcaloides harmínicos. Ensaios clínicos recentes avaliam o potencial terapêutico desses compostos principalmente em casos de depressão resistente, transtorno de estresse pós-traumático e sofrimento psicológico associado a doenças graves.

No Brasil, estudos conduzidos com ayahuasca em ambiente clínico controlado observaram redução relevante de sintomas depressivos em parte dos participantes diagnosticados com depressão resistente. Pesquisadores, porém, ressaltam que os resultados ainda são preliminares e dependem de estudos maiores, com metodologias padronizadas, para confirmação da eficácia e segurança a longo prazo.

Uma das áreas que mais concentram investigações atualmente é a dos cuidados paliativos. Pesquisas internacionais com psilocibina e estudos nacionais envolvendo ayahuasca analisam efeitos sobre ansiedade, depressão e angústia existencial em pacientes com doenças graves. Os dados indicam possível diminuição do medo da morte e maior aceitação do quadro clínico quando as sessões ocorrem com acompanhamento profissional e preparação psicológica adequada.

Médica segura a mão de paciente em ambiente hospitalar, simbolizando cuidados paliativos e pesquisas com psicodélicos no apoio à saúde mental.
Um dos principais campos de estudos com psicodélicos é o de cuidados paliativos. Foto: LPETTET/Getty Images

Na neurociência, exames de imagem mostram que essas substâncias provocam alterações temporárias na chamada Rede de Modo Padrão, sistema cerebral associado à autorreflexão e à ruminação mental. Cientistas também investigam a hipótese de que os psicodélicos estimulem mecanismos de neuroplasticidade, favorecendo novas conexões neurais.

Apesar do avanço das pesquisas, especialistas alertam para contraindicações importantes, especialmente em pessoas com histórico de transtornos psicóticos ou predisposição genética a certas condições psiquiátricas. O consenso científico atual aponta que o contexto terapêutico; incluindo triagem, ambiente seguro e supervisão clínica, é decisivo para reduzir riscos colaterais.

Ainda longe de representar uma solução imediata para a crise da saúde mental, a retomada desses estudos sinaliza uma mudança de paradigma, com a reavaliação científica rigorosa de substâncias historicamente excluídas da medicina.

Inovação, o mapa do caminho: UEA é credenciada pelo MCTI para atuar em TICs

A Universidade do Estado do Amazonas (UEA), por meio da sua Escola Superior de Tecnologia, alcançou um marco estratégico para a ciência, tecnologia e inovação na região Norte. A instituição recebeu Resolução de Credenciamento junto ao Comitê da Área de Tecnologia da Informação (CATI), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), tornando-se oficialmente apta a exercer atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) em tecnologias da informação e comunicação (TICs) .

O deferimento foi formalizado por meio do Ofício nº 1276/2026/MCTI, de 12 de fevereiro de 2026, que comunica a aprovação do pleito da UEA para os fins previstos no §1º do art. 11 da Lei nº 8.248/1991 – a Lei de Informática.

A Resolução CATI nº 13, de 10 de fevereiro de 2026, foi publicada no Diário Oficial da União em 12 de fevereiro de 2026 , conferindo reconhecimento nacional ao novo status institucional da universidade.

O Brasil Amazônia Agora procurou o professor Antônio de Lima Mesquita, diretor executivo da Agência de Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual (AGIN/UEA), à época responsável pela articulação técnica e institucional que resultou no credenciamento.

Segundo Mesquita, o processo exigiu rigor técnico, organização institucional e demonstração de capacidade científica:

O professor ressaltou ainda que o reconhecimento projeta a universidade para uma nova etapa:

Para o reitor da Universidade do Estado do Amazonas, Prof. Dr. André Zogahib, o credenciamento representa uma virada estratégica para a instituição e para o Amazonas.

O reitor também destacou o impacto direto no desenvolvimento regional:

Com o credenciamento, empresas beneficiárias da Lei de Informática passam a contar com uma instituição amazônica habilitada para executar projetos de PD&I, o que:


   •   Amplia a retenção de talentos no Amazonas;
   •   Reduz a dependência de centros de pesquisa de outras regiões;
   •   Estimula cadeias produtivas de maior valor agregado;
   •   Potencializa a competitividade do Polo Industrial de Manaus.

O movimento fortalece a descentralização da inovação no país e posiciona a Amazônia como parte ativa da agenda tecnológica nacional.

Em um momento em que o Brasil discute soberania digital, inteligência artificial, semicondutores e reindustrialização verde, o credenciamento da UEA pelo MCTI simboliza mais do que um avanço administrativo: representa a consolidação de uma visão estratégica de desenvolvimento.

A Amazônia deixa de ser vista apenas como fronteira de recursos naturais e afirma-se, cada vez mais, como território de inteligência, tecnologia e inovação aplicada.

Os interesses da Amazônia seguem ignorados

Os indígenas seguem a protestar no Estado Pará, defendendo o Rio Tapajós, pois ele representa a “força dos rituais”. O protesto contundente de 20 de fevereiro segue fora das pautas principais sobre a infraestrutura da Amazônia. As discussões com respeito às obras no Rio Tapajós não são para o interesse das pessoas da região. Os interesses são claramente voltados para outras regiões, outros povos e outros países. O interesse da Amazônia segue longe das discussões.

Mesmo que a discussão mude de patamar e passe para as cidades ou indústrias da Amazônia, as pautas seguem ignoradas dos debates. Quando se fala sobre a BR-319, o argumento se inverte – o meio-ambiente é o fator para nada fazer. O discurso ambiental ele se move, contrário para a Amazônia, quando é do interesse dos povos locais ou favorável pela construção e obra quando é para outras regiões. A hipocrisia reina na discussão sobre obras para o setor de transporte da Amazônia.

interesses da amazonia
BR-319 (Composição: Paulo Dutra/CENARIUM

As hidrovias deveriam ser as linhas de comunicação, mas não existem portos ou obras de portos. Quando inverteremos a discussão sobre transporte na Amazônia? Hoje ignora-se o meio ambiente, ao mesmo tempo em que se ignoram as pessoas, sejam indígenas, sejam capitais, sejam indústrias, sejam as universidades ou qualquer outro cidadão da região. Os órgãos que debatem a infraestrutura do Brasil seguem a fazer obras para ricos.

Como exemplo, conforme amplamente noticiado, apenas no “Contorno Viário da Grande Florianópolis”, para beneficiar a BR-101, foram investidos R$ 3,9 bilhões. É uma obra certamente necessária e que passou bastante tempo para ser feita. A minha questão é que seguimos a aumentar as diferenças de infraestrutura nas áreas mais prósperas do país em relação às áreas mais periféricas. Sequer são feitos estudos com base nos interesses regionais da Amazônia. Ainda não temos planos para os principais corredores de rios, salvo quando há interesse para o escoamento de produtos do agronegócio para o exterior.

contorno viario florianopolis
 Foto: Arteris SA/Divulgação/ND

Enquanto não existir um Plano Amazônico de Logística e Transporte seguiremos a tratar apenas as prioridades dos recantos ricos do Brasil. E a afirmar que queremos proteger o meio-ambiente. A pauta pública é cuidadosamente conduzida para nada fazer. É preciso chegar a hora de reduzir as desigualdades regionais. É por isso que fica muito difícil para as regiões mais remotas romperem a condição de subdesenvolvimento, em um mundo cada vez mais conectado e integrado. A ausência de condições básicas de infraestrutura impede qualquer tipo de atividade econômica competitiva. 

Os indígenas seguem a ocupar espaços públicos e privados. A opinião pública e a imprensa nacional seguem a lidar com o assunto de maneira periférica. Sabemos e publicamos mais sobre assuntos de outros países do que conhecemos os problemas e protestos de nosso país. É melhor distrair a opinião pública do que enfrentar os problemas reais. Enquanto isso não mudar, seguiremos um país desigual e que favorece apenas os mais ricos, com discurso de um país para todos.

O Homem que desafiou o destino da floresta – Gilberto Mestrinho e a terceira onda da Amazônia

Há homens que governam território e há outros que governam épocas e deixam legados para a História. Gilberto Mestrinho nasceu na Amazônia — e a Amazônia nasceu nele.

De origem indígena, moldado pela aspereza da vida ribeirinha e pela desigualdade que sempre pesou sobre os ombros do Norte, ele aprendeu cedo que governar não é exercer poder: é assumir responsabilidade pelos invisíveis. Pelos esquecidos. Pelos que vivem nas bordas do mapa e da história.

Três vezes governador do Amazonas, Mestrinho foi além do que se pode chamar um notável administrador. Ele foi intérprete da dignidade amazônica. Um homem que conhecia os igarapés não por fotografia aérea, mas por travessia; que compreendia o sofrimento social não por relatório estatístico, mas por convivência.

E, no entanto, sua maior batalha não foi apenas regional. Foi planetária.

Os anos 1990 chegaram como uma encruzilhada da humanidade. A ciência consolidava evidências inquietantes: a Terra aquecia. Os gases de efeito estufa acumulavam-se na atmosfera. O modelo industrial erguido desde o século XIX cobrava sua fatura climática.

As estatísticas eram duras: os Estados Unidos lideravam as emissões históricas. As grandes economias industrializadas haviam construído sua prosperidade à custa de carbono abundante e barato. Mas a geopolítica raramente se curva à matemática.

Em uma jogada sofisticada — diplomática na forma, estratégica no conteúdo — a narrativa internacional deslocou o foco. As queimadas da Amazônia passaram a ocupar o centro simbólico do debate climático. A floresta tropical converteu-se em suspeita global.

Sob o argumento da emergência ambiental, insinuava-se que o Brasil — e seus vizinhos amazônicos — não possuíam competência para gerir aquele imenso território. Surgiam ideias de “gestão internacional”, de tutela consensual, de governança compartilhada sobre o maior bioma tropical do planeta.

Era uma nova forma de ocupação. Sem exércitos. Com relatórios. Gilberto Mestrinho percebeu o movimento.

Enquanto alguns defendiam retraimento defensivo, Mestrinho fez o gesto oposto: convidou chefes de Estado, primeiros-ministros e líderes globais a conhecerem a Amazônia.

Era um ato de coragem política.

Ele sabia que a melhor defesa da floresta não era o isolamento, mas a exposição honesta. Mostrar a realidade complexa de um território vivo. Demonstrar que a Amazônia não era um vazio demográfico nem um santuário intocado, mas um espaço humano, produtivo, pulsante.

Mas ele foi além. Compreendeu que a resposta à acusação não poderia ser apenas diplomática. Precisava ser civilizatória. Se o mundo questionava a compatibilidade entre desenvolvimento e meio ambiente, a Amazônia deveria oferecer a síntese.

Foi nesse contexto que Mestrinho aproximou-se do futurista Alvin Toffler.

Toffler falava da “Terceira Onda” — a transição da sociedade industrial pesada para uma era baseada em conhecimento, informação e tecnologia limpa. A industrialização que havia erguido pontes e fábricas também havia erguido chaminés e concentração de carbono. A nova etapa deveria ser menos material e mais inteligente.

Para um homem governando o território de maior biodiversidade do planeta, aquilo não era abstração acadêmica. Era destino. Se a segunda onda industrial devastara florestas para alimentar máquinas, a terceira poderia fazer da própria floresta uma plataforma de ciência. Biotecnologia. Conhecimento genético. Fármacos, enzimas, biomateriais. A floresta em pé como laboratório do futuro.

A viagem de Gilberto Mestrinho a Massachusetts não foi turismo institucional. Foi um gesto de antecipação histórica.

No MIT, em Boston — epicentro da inovação mundial — ele levou uma ideia audaciosa: transformar a biodiversidade amazônica em polo de pesquisa de alta complexidade, gerar propriedade intelectual brasileira, inserir o Amazonas na economia do conhecimento.

Era uma inversão radical da lógica colonial. Durante séculos, a Amazônia exportara matérias-primas brutas. Borracha, madeira, minérios. Agora, a proposta era exportar ciência.

Os pesquisadores vislumbraram possibilidades reais. A ideia de um centro avançado de biotecnologia na Amazônia ganhou forma. O que mais tarde desembocaria no Centro de Biotecnologia da Amazônia germinava ali, na interlocução entre o rio Negro e o Charles River. Mas a história, às vezes, hesita.

GILBERTO MESTRINHO

O Brasil soube, em outros momentos, apostar em projetos estratégicos. A Embraer nasceu de uma visão de Estado, de investimento persistente, de continuidade institucional. O Proalcool e a EMBRAPA são outros abraços que trouxeram resultados robustos.

Se o mesmo abraço tivesse sido estendido à biotecnologia amazônica, o país poderia hoje liderar patentes farmacêuticas baseadas em sua biodiversidade, dominar tecnologias de bioinsumos, oferecer soluções biomiméticas para a transição energética.

A Amazônia poderia ser referência global não como problema ambiental, mas como solução tecnológica. Faltou escala. Faltou continuidade. Faltou a coragem de transformar visão em política permanente. Mas não faltou a visão.

Celebrar os 98 anos de nascimento de Gilberto Mestrinho é reconhecer que, antes que “bioeconomia” se tornasse palavra de moda, ele já falava de biotecnologia como alternativa estratégica.

Ele entendeu que defender a Amazônia não é erguer muros retóricos. É instalar competência científica. Ele compreendeu que soberania não é grito. É capacidade. E que cidadania não é discurso. É inclusão produtiva. E desenvolvimento não é devastação. É inteligência aplicada.

Mestrinho não romantizou a floresta. Ele quis modernizá-la sem destruí-la. Quis integrá-la ao século XXI com dignidade e ciência.

GOV. GILBERTO MESTRI 994
Gilberto Mestrinho, acompanhado do economista Raimar Aguiar, Marcos Barros(UFAM)  e Nazaré Pereira da Silva (UTAM) – além de Luís Costa, seu fiel escudeiro, em 1993, buscou formalizar uma parceria com o MIT – Massachusetts Institute of Technolology. 

Hoje, quando o mundo retorna à bioeconomia como esperança diante da crise climática, o gesto de Massachusetts ressurge como farol.

A terceira onda chegou. O planeta busca soluções baseadas na natureza. A transição energética exige biomateriais, novas moléculas, inovação verde. O conhecimento genético tornou-se ativo estratégico.

O futuro que Gilberto Mestrinho enxergou não envelheceu. Ele apenas aguarda decisão.

Neste 23 de fevereiro de 2026, ao celebrar seus 98 anos de nascimento, não recordamos apenas um governador. Recordamos um homem que ousou propor que a Amazônia deixasse de ser periferia da industrialização para se tornar centro da inovação.

Há homens que administram crises. E há aqueles que apontam caminhos. Gilberto Mestrinho pertence à segunda linhagem. E talvez o maior tributo que possamos prestar à sua memória não seja a saudade — mas a coragem de concluir o projeto que ele iniciou.

Regulamentação de psicodélicos entra na agenda global de saúde

Estudos científicos impulsionam a regulamentação de psicodélicos no Brasil e no mundo, colocando em pauta proteção ambiental, inovação terapêutica e direitos tradicionais.

O crescimento das pesquisas científicas com substâncias psicodélicas tem impulsionado governos a reavaliar políticas públicas construídas durante o período mais restritivo da guerra às drogas. Com evidências clínicas emergentes sobre o potencial terapêutico desses compostos, a regulamentação de psicodélicos passou a integrar a agenda internacional de saúde, ao mesmo tempo em que levanta desafios jurídicos, ambientais e culturais.

No Brasil, a legislação apresenta características singulares. O uso religioso da ayahuasca é reconhecido oficialmente desde os anos 1980 como prática cultural e espiritual legítima. Entretanto, o DMT (dimetiltriptamina), principal substância psicoativa presente na bebida, permanece proibido quando isolado quimicamente.

Outras substâncias psicodélicas, como psilocibina e MDMA, seguem classificadas como entorpecentes, sendo autorizadas apenas em pesquisas científicas mediante rigorosa aprovação ética e regulatória, um dos pontos centrais do debate sobre a regulamentação de psicodélicos no país.

O tema ganhou novo capítulo em setembro de 2025, quando o Acre aprovou a Lei nº 4.645, que estabelece regras para a extração e o transporte do cipó mariri e da folha chacrona, insumos tradicionais da ayahuasca. A norma cria um sistema simplificado de licenciamento ambiental e busca diferenciar práticas ritualísticas — consideradas patrimônio imaterial — de atividades comerciais em larga escala que possam estimular exploração predatória ou comércio ilegal. A medida não altera o uso indígena tradicional, mas amplia mecanismos de fiscalização sobre a circulação dos insumos.

O avanço do interesse científico e farmacêutico reacende discussões sobre a proteção de conhecimentos tradicionais. Pesquisadores e lideranças indígenas alertam para o risco de patenteamento de compostos e terapias derivados desses saberes sem repartição justa de benefícios. Embora o país seja signatário da Convenção sobre Diversidade Biológica e do Protocolo de Nagoia, especialistas apontam dificuldades práticas para rastrear a origem dos conhecimentos e garantir compensações às comunidades.

Lideranças indígenas amazônicas durante encontro cultural, contexto relacionado ao debate sobre regulamentação de psicodélicos e proteção de saberes tradicionais.
A proteção dos saberes indígenas e a garantia de repartição justa de benefícios estão entre os principais pontos do debate sobre regulamentação de psicodélicos, diante do crescente interesse científico e econômico nesses conhecimentos tradicionais. Foto: Carta Capital/Outras Mídias.

No cenário internacional, as estratégias regulatórias variam. A Austrália autorizou o uso controlado de psilocibina e MDMA sob prescrição psiquiátrica para casos específicos, enquanto estados norte-americanos como Oregon e Colorado adotaram modelos de descriminalização supervisionada. Já países europeus, como Portugal e República Tcheca, priorizam abordagens de redução de danos, tratando o consumo como questão de saúde pública e não criminal.

À medida que novas evidências científicas surgem, a regulamentação de psicodélicos se consolida como um dos principais desafios contemporâneos, exigindo equilíbrio entre inovação terapêutica, segurança sanitária, respeito às tradições culturais e conservação da biodiversidade associada a esses conhecimentos.

Quando o crime atravessa as portas do Estado e não pede licença

Há momentos surpreendentes em que o noticiário deixa de ser episódico e se transforma em sintoma. O que veio à tona nesta semana não é uma lenda moral amazônica mas a descrição de um esquema criminoso sofisticado. É a revelação de uma patologia institucional que exige reflexão profunda. Os boatos, há tempos, revelavam algo de muito podre na estrutura do poder. 

Um esquema estruturado pelo Comando Vermelho (CV), que tinha  a colaboração de agentes públicos, atuava de forma organizada para trazer drogas da Colômbia e distribuir a partir do Amazonas. A rede montada pela facção contava ainda com empresas de fachada e acesso à informações sigilosas e sobre investigações da polícia.

O problema não é apenas a droga apreendida, o dinheiro movimentado ou as prisões realizadas. Atores públicos do aparato legislativo, executivo e judiciário. O que inquieta é a tentativa sistemática de infiltração do crime organizado nas estruturas que deveriam combatê-lo. Quando organizações ilícitas passam a operar com colaboração interna em diferentes esferas do poder, estamos diante de algo que transcende a esfera penal e alcança o núcleo da própria República.

O crime, nesse estágio, não age apenas à margem. Ele tenta atravessar as portas do Estado. Com tenebrosa ousadia. 

quando o crime atravessa
Mapa do Comando Vermelho no Brasil — Foto: Reprodução/Fantástico

O crime organizado contemporâneo compreendeu algo que a história ensina reiteradamente: a violência pura é ruidosa e limitada; a infiltração silenciosa é estratégica e duradoura.

Facções não dependem apenas de armas ou rotas clandestinas. Dependem de informação. Dependem de previsibilidade. Dependem de acesso privilegiado a dados que deveriam estar protegidos pelo sigilo institucional. Dependem de mecanismos que reduzam risco e aumentem margem de lucro.

Quando empresas de fachada são criadas para dar aparência de legalidade à movimentação financeira ilícita, não se está apenas diante de fraude contábil. Está-se diante de uma tentativa deliberada de mimetizar a economia formal. O crime passa a vestir a roupa da legalidade para circular sem levantar suspeitas.

Esse é o estágio mais perigoso: quando o ilícito aprende a se parecer com o lícito.

E quando agentes públicos — em qualquer esfera — passam a integrar essa engrenagem, o crime deixa de ser externo ao Estado e passa a parasitá-lo por dentro.


A maior vítima da promiscuidade entre crime organizado e agentes públicos não é apenas a segurança pública. É a confiança social.

Confiança é o ativo invisível que sustenta economias estáveis e democracias maduras. Investimentos são realizados com base em previsibilidade. Empregos são gerados com base em segurança jurídica. Empreendedores assumem riscos quando acreditam que o jogo é limpo.

Quando a sociedade passa a suspeitar que informações sigilosas podem ser manipuladas, que investigações podem ser sabotadas ou que estruturas públicas podem ser instrumentalizadas por interesses ilícitos, instala-se uma corrosão silenciosa.

O investidor recua. O empresário hesita. O cidadão desacredita. O servidor íntegro se sente desvalorizado. A instituição perde autoridade moral. O dano reputacional ultrapassa os limites do caso concreto. Ele contamina o ambiente.


Há uma diferença estrutural entre a riqueza produzida sob o regime da legalidade e a riqueza acumulada sob a lógica da clandestinidade.

A economia formal opera sob regras claras. Ela emite nota fiscal, recolhe tributos, cumpre obrigações trabalhistas, presta contas. Está sujeita a fiscalização. Pode ser auditada. Pode ser responsabilizada. Seu lucro convive com deveres.

Essa engrenagem sustenta políticas públicas, financia universidades, hospitais, infraestrutura, programas sociais, ciência e tecnologia. É imperfeita, mas é verificável.

Já a economia criminosa não presta contas. Não financia o bem comum. Sua lógica não é distribuir riqueza, mas concentrar poder. Sua expansão depende da fragilidade institucional e da cooptação de estruturas estatais.

Quando cifras milionárias circulam fora do circuito formal, não se trata apenas de evasão de tributos. Trata-se da criação de um sistema paralelo que compete de maneira desleal com quem opera sob a legalidade. A disputa, portanto, não é apenas econômica. É moral e estrutural.


Organizações criminosas de grande porte não pensam apenas em lucro imediato. Pensam em governança paralela. Pensam em controle territorial, previsibilidade de rotas, blindagem contra investigações e acesso a informações estratégicas.

A infiltração em estruturas públicas representa uma forma de captura parcial do Estado. Não se trata de substituí-lo formalmente, mas de influenciá-lo, condicioná-lo e, quando possível, antecipar seus movimentos.

Quando isso ocorre, cria-se uma assimetria perversa. Quem atua dentro da lei passa a enfrentar não apenas a concorrência de agentes ilícitos, mas a vantagem competitiva de quem dispõe de informações privilegiadas e proteção informal.

Essa distorção corrói a base do ambiente de negócios, desestimula a formalização e enfraquece a cultura da legalidade. Nenhuma agenda de desenvolvimento sustentável prospera sob suspeita institucional.


Integridade pública como infraestrutura invisível do desenvolvimento

Fala-se muito em infraestrutura física — estradas, portos, energia, conectividade. Mas há uma infraestrutura menos visível e igualmente decisiva: a integridade institucional. Sem ela, políticas públicas não ganham credibilidade. Investimentos não se consolidam. Projetos de longo prazo perdem estabilidade.

Integridade não é discurso. É sistema. Envolve mecanismos robustos de controle interno, proteção efetiva de dados sensíveis, auditorias independentes, transparência ativa e responsabilização célere. Envolve também cultura organizacional, formação ética e compromisso permanente com o interesse público.

A grande maioria dos servidores públicos atua com dedicação e honestidade. Casos de desvio não podem obscurecer esse fato. Mas também não podem ser minimizados. A tolerância à infiltração é convite à expansão do problema.


A escolha estrutural que se impõe

Toda sociedade enfrenta o crime. A diferença entre nações que avançam e aquelas que permanecem reféns da instabilidade está na capacidade de blindar suas instituições.

O desenvolvimento da Amazônia — ou de qualquer território estratégico — exige mais que investimentos e discursos. Exige um ambiente onde a legalidade seja a regra inequívoca e onde a economia formal não seja penalizada por cumprir obrigações.

A escolha estrutural é clara: fortalecer o pacto da formalidade ou permitir que a sombra se confunda com a luz.

Quando o crime precisa se esconder, a República respira. Quando o crime circula com aparência de normalidade institucional, o sinal de alerta é máximo. A defesa da legalidade não é apenas uma agenda jurídica. É uma decisão civilizatória. E decisões civilizatórias definem o futuro.

Psicodélicos na Amazônia: o saber ancestral que atravessa séculos

Entre rituais ancestrais e ensaios clínicos, os psicodélicos na Amazônia mostram a importância da biodiversidade e das culturas da floresta. Assim como os desafios para proteger território e conhecimentos tradicionais.

O estudo de substâncias hoje classificadas como “psicodélicas” é um campo promissor da ciência interdisciplinar. Mas muito antes de se tornarem objeto de ensaios clínicos e debates regulatórios, esses compostos já integravam sistemas sofisticados de conhecimento desenvolvidos por povos da Amazônia e dos Andes. Para essas culturas, não se trata de drogas recreativas, mas de plantas de poder inseridas em cosmologias, rituais e práticas de cura transmitidas ao longo de gerações.

Na bacia amazônica, o uso de enteógenos está ligado a uma concepção relacional de saúde. O adoecimento não é entendido apenas como disfunção biológica, mas como desequilíbrio entre pessoa, comunidade e ambiente espiritual. Nesse contexto, xamãs e curadores atuam como mediadores, utilizando determinadas plantas para acessar dimensões consideradas invisíveis, identificar causas simbólicas de sofrimento e restabelecer harmonia.

A floresta, nesse sentido, não é apenas cenário, mas protagonista. A Amazônia é um dos maiores centros globais de biodiversidade química. Em ambientes marcados por alta competição ecológica, inúmeras espécies vegetais desenvolveram compostos que, além de funções defensivas, possuem efeitos fisiológicos e psíquicos em seres humanos. Ao longo de milênios, populações indígenas aprenderam a reconhecer, manejar e combinar essas plantas, transformando o território em uma verdadeira farmacopeia viva.

Muito além da ayahuasca

Psicodélicos são substâncias que alteram temporariamente a percepção, a cognição e a experiência sensorial, podendo intensificar emoções, modificar a noção de tempo e provocar estados ampliados de consciência. O termo deriva do grego e significa “manifestar a mente”. Estão incluídos nessa denominação compostos naturais, como a psilocibina e o DMT, presentes em cogumelos e na ayahuasca, respectivamente. O uso dessas substâncias psicodélicas pode ocorrer em contextos tradicionais, religiosos, terapêuticos ou científicos, e seus efeitos dependem fortemente do ambiente e do contexto em que são administrados.

A ayahuasca tornou-se o exemplo mais conhecido do repertório de psicodélicos na Amazônia. A bebida resulta da combinação do cipó Banisteriopsis caapi com folhas como as de Psychotria viridis. A interação entre os alcaloides do cipó e o DMT presente nas folhas produz efeitos que, no contexto tradicional, são interpretados como ferramentas de aprendizado e cura. O preparo, porém, é apenas uma parte de um sistema maior que envolve dieta, cantos rituais, regras morais e condução por especialistas.

Cipó Banisteriopsis caapi, utilizado no preparo da ayahuasca, uma das principais expressões dos psicodélicos na Amazônia. Foto: Antônio Gaudério/Folhapress.
Cipó Banisteriopsis caapi, utilizado no preparo da ayahuasca. Foto: Antônio Gaudério/Folhapress.

Mas o universo amazônico plantas psicodélicas não se resume à ayahuasca. Outra substância historicamente documentada na Amazônia é o paricá, preparado a partir de sementes de espécies do gênero Anadenanthera. Povos como os Yanomami e outros grupos da região setentrional da Amazônia utilizam pós inaláveis em contextos rituais específicos. Registros etnográficos e achados arqueológicos indicam que o uso dessas substâncias antecede o período colonial, compondo uma tradição ampla de práticas xamânicas nas terras baixas sul-americanas.

O rapé, por exemplo, é amplamente utilizado por povos como os Huni Kuin, Yawanawá e Katukina. Apesar de não ser um psicodélico, ele é um psicoativo. O pó é feito a partir de espécies de tabaco amazônico, especialmente a Nicotiana rustica, que são misturadas às cinzas de árvores medicinais, o resultado final é soprado pelas narinas com instrumentos tradicionais. Diferente de uma substância voltada à expansão da percepção, o rapé é descrito como instrumento de foco, alinhamento e preparação espiritual. O seu uso está associado à disciplina, à concentração e ao fortalecimento comunitário.

Aplicação de rapé na narina durante ritual tradicional na Amazônia, prática associada aos psicodélicos na Amazônia e a contextos espirituais indígenas. Foto: Agência de Notícias AC.
O rapé, preparado com tabaco amazônico e cinzas medicinais, é utilizado em rituais por alguns povos indígenas, como os Huni Kuin, Yawanawá e Katukina, para foco e preparação espiritual. Foto: Agência de Notícias AC.

Em todos esses casos, a substância isolada não explica o fenômeno. O que define o sentido da experiência dos psicodélicos na Amazônia é o contexto: o canto, a liderança ritual, a preparação alimentar, a intenção e o acompanhamento coletivo. Isso mostra que a tríade frequentemente destacada por pesquisadores — mentalidade, ambiente e suporte social — já estava presente nos sistemas tradicionais muito antes de ser incorporada ao vocabulário científico contemporâneo.

Por que a Amazônia concentrou esse conhecimento?

A concentração de saber botânico sobre psicodélicos na Amazônia resulta da convergência de fatores ecológicos e culturais. Ecologicamente, a floresta tropical abriga uma diversidade química incomparável. Em ambientes altamente competitivos, plantas desenvolveram compostos bioativos como mecanismos de defesa e interação com polinizadores e dispersores. Esses compostos, quando observados e testados ao longo do tempo por comunidades humanas, tornaram-se parte de um repertório medicinal e ritual.

Culturalmente, os povos amazônicos estruturaram sistemas de aprendizagem que valorizam a experiência direta com a floresta. Jovens aprendizes passam por períodos de reclusão e dieta, aprendem narrativas míticas e observam a prática dos mais velhos. Trata-se de um conhecimento vivido e corporificado.

Além disso, a própria organização social da Amazônia favoreceu a manutenção desses saberes. Diferente de sociedades ocidentais com especialização fragmentada, muitos povos indígenas mantêm sistemas integrados em que medicina, espiritualidade, política e ecologia não são compartimentos separados. 

Folha de chacrona (Psychotria viridis), planta utilizada na ayahuasca e associada aos psicodélicos na Amazônia. Crédito: Caroline Apple / Brasil de Fato.
Conhecida como chacrona, a Psychotria viridis é uma das plantas que compõem a ayahuasca. É nela que se concentra o DMT, molécula associada aos psicodélicos na Amazônia e aos estados ampliados de consciência. Foto: Caroline Apple / Brasil de Fato.

Ritual versus consumo recreativo

Um dos pontos centrais para compreender essas práticas é distinguir o uso ritual do consumo recreativo. Nos sistemas tradicionais originários, o uso de psicodélicos na Amazônia está inserido em estruturas rígidas de significado e responsabilidade. Há lideranças  reconhecidas — xamãs, pajés ou mestres — que conduzem o processo. Além de regras claras sobre quem pode participar, em que momento e com qual propósito.

O uso recreativo, por outro lado, tende a ocorrer de forma individualizada, descontextualizada e sem acompanhamento especializado. Enquanto o ritual busca cura, diagnóstico espiritual ou fortalecimento comunitário, o consumo recreativo costuma priorizar o estímulo sensorial ou o entretenimento. Assim, a diferença não reside apenas na substância, mas no recipiente social. 

Comunidade, canto, dieta e preparação

Quatro elementos estruturam grande parte das práticas indígenas ligadas aos psicodélicos na Amazônia e nos Andes: comunidade, canto, dieta e preparação. A comunidade funciona como rede de apoio e contenção. A experiência não é vivida de forma isolada, mas compartilhada em ambiente coletivo. Isso permite interpretação conjunta, integração e suporte emocional.

O canto ritual, conhecido em algumas tradições como ícaro, é considerado ferramenta ativa no processo. Ele organiza a experiência, orienta o participante e estabelece ritmo e intenção. Para os praticantes, o canto não é estético, mas instrumento de trabalho.

A dieta antecede o ritual. Ela envolve restrições alimentares — redução de sal, açúcar, gorduras e certos tipos de carne — e, em muitos casos, abstinência sexual. Essa preparação é entendida como forma de purificação corporal e ajuste sensorial. Mais do que regra moral, é vista como condição para que a planta e a natureza possam ensinar.

A preparação psicológica também é central. A definição de intenção, o respeito às orientações do condutor e o conhecimento prévio das regras criam um ambiente estruturado. Sem essa moldura, a experiência perde seu eixo simbólico.

Esses elementos compõem uma dispositivos culturais refinados, desenvolvidos ao longo de gerações, um sistema organizado de práticas que compõem algumas das tradições xamânicas dos povos da Amazônia. 

Isidro Lucitante, curador do povo Cofán, pinta o rosto com urucum antes de cerimônia de yagé (ayahuasca) na Amazônia equatoriana, prática ligada aos psicodélicos na Amazônia. Crédito: Pedro Pardo / AFP.
O curador indígena Isidro Lucitante, do povo Cofán, prepara-se para uma cerimônia de yagé na região amazônica do Equador. A prática integra tradições relacionadas aos psicodélicos na Amazônia e ao uso ritual da ayahuasca. Foto: Pedro Pardo / AFP

Interação com a ciência contemporânea

Nas últimas décadas, pesquisadores passaram a investigar alguns dos psicodélicos na Amazônia em protocolos clínicos controlados. Estudos sobre depressão resistente, estresse pós-traumático e cuidados paliativos têm explorado os potenciais efeitos terapêuticos de compostos presentes em plantas amazônicas e em outras espécies psicodélicas. Paralelamente ao avanço científico, também se intensificou o debate sobre a regulamentação dessas substâncias e a sustentabilidade.

O que está em jogo é um sistema de conhecimento enraizado em território, cultura e convivência. A história dos psicodélicos na Amazônia revela que a floresta não é apenas reserva de biodiversidade, mas também um arquivo vivo de experiências humanas, um espaço onde ecologia e cultura se entrelaçam de forma indissociável.

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Foto: Alma Viva/PsiQs

Indústria sobre duas rodas: entre a retração e a reinvenção


A indústria brasileira de bicicletas iniciou 2026 sob o signo da cautela. Em janeiro, a produção registrou retração expressiva, refletindo recomposição de estoques, ajuste de demanda e o cenário macroeconômico ainda desafiador.

Mas a fotografia do mês não revela o filme completo.

O setor vive uma transformação estrutural. As bicicletas elétricas cresceram mais de 100% nos últimos anos e já representam parcela relevante do faturamento das associadas da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (ABRACICLO). A transição não é apenas comercial, é tecnológica, ambiental e cultural.

INDUSTRIA SOBRE DUAS RODAS
(Foto: Divulgação/Abraciclo)

A bicicleta vem se consolidando como instrumento de descarbonização das cidades. Em um contexto de metas climáticas cada vez mais rigorosas, ela se posiciona como alternativa concreta para reduzir emissões, congestionamentos e poluição sonora.

Pedalar significa menos sedentarismo, menos doenças crônicas e menor pressão sobre o sistema público de saúde. Em cidades amazônicas, onde mobilidade e infraestrutura ainda são gargalos, a bicicleta também se torna solução de inclusão social.

Grande parte da produção nacional está concentrada no Polo Industrial de Manaus (PIM), integrando cadeias produtivas que geram empregos diretos e indiretos e contribuem para a diversificação da economia regional.

A indústria de bicicletas dialoga com inovação tecnológica, design, engenharia de materiais e integração com sistemas digitais, especialmente no segmento elétrico.

Apesar das perspectivas promissoras, o setor enfrenta desafios relevantes:

Cidades brasileiras ainda carecem de ciclovias integradas, estacionamentos seguros e políticas públicas consistentes de incentivo ao uso da bicicleta.

A pressão de produtos importados de baixo custo desafia a competitividade da indústria nacional, exigindo políticas industriais equilibradas e fiscalização adequada.

Oscilações cambiais, custos logísticos elevados e dependência de componentes importados impactam margens e planejamento.

O financiamento ainda é limitado para ampliar o acesso às bicicletas elétricas, cujo valor agregado é mais elevado.

Se há um vetor claro de crescimento, ele é o das e-bikes.

Elas ocupam o espaço entre o transporte individual motorizado e a bicicleta convencional, ampliando alcance, reduzindo esforço físico e democratizando o uso para públicos mais amplos – inclusive trabalhadores que percorrem distâncias maiores.

Além disso: Integram sistemas inteligentes de mobilidade. Possuem maior valor agregado. Impulsionam inovação tecnológica nacional. Dialogam com metas de ESG e descarbonização corporativa. A tendência para 2026 aponta para consolidação do segmento, com expansão de modelos urbanos e de lazer.

A Gestão Institucional da ABRACICLO

No centro dessa transformação está a atuação institucional da ABRACICLO. A entidade tem desempenhado papel estratégico em três frentes principais:

A ABRACICLO atua na interlocução com o governo federal, estados e Congresso Nacional para garantir segurança jurídica, previsibilidade tributária e condições competitivas adequadas.

A produção de dados mensais, análises de mercado e acompanhamento estatístico fortalecem a transparência e permitem planejamento estratégico das associadas.

A entidade tem ampliado o diálogo sobre: Transição energética. Economia circular. Logística reversa. Cadeias produtivas sustentáveis. Inserção das bicicletas no debate climático.

A gestão institucional atual tem buscado posicionar o setor não apenas como indústria de bens de consumo, mas como agente da transformação urbana e ambiental do Brasil.

Apesar da retração inicial, o cenário projetado para o ano combina prudência com otimismo moderado.

Os vetores positivos incluem Recomposição gradual da demanda.Consolidação das bicicletas elétricas. Possível ampliação de políticas públicas de mobilidade sustentável. Maior integração com agendas climáticas e ESG. Expansão do uso corporativo e compartilhado.

No Amazonas, a indústria de bicicletas reforça o argumento de que o Polo Industrial de Manaus é mais que um enclave produtivo, é uma plataforma de soluções sustentáveis para o Brasil.

Em um país que precisa reduzir desigualdades, melhorar mobilidade e cumprir compromissos climáticos, a bicicleta deixou de ser acessório de lazer para se tornar instrumento de política pública e desenvolvimento industrial.

Entre oscilações conjunturais e transformações estruturais, o setor segue pedalando. Ainda mais agora impulsionado por eletrificação, inovação e articulação institucional orientada.

Se 2026 será o ano da retomada plena, ainda é cedo para afirmar. Mas é seguro dizer: a bicicleta já conquistou lugar central no debate sobre o futuro das cidades brasileiras.

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