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A indústria da floresta existe. Este vídeo mostra como ela funciona

Coluna Follow-Up

Poucas narrativas se repetiram tanto no debate econômico brasileiro quanto a ideia de que o Polo Industrial de Manaus seria apenas uma grande linha de montagem instalada no meio da floresta. A frase ganhou força pela simplicidade e acabou transformada em explicação fácil para um modelo que muitos nunca visitaram e raramente observaram de perto.

Mas slogans não substituem realidade.

O que realmente acontece dentro de uma indústria na floresta

O vídeo que acompanha este editorial mostra o processo produtivo de uma bicicleta fabricada no Polo de Duas Rodas de Manaus. Ao longo de dezoito minutos, o espectador acompanha a transformação de tubos metálicos em quadros estruturais, processos de soldagem, pintura industrial, montagem técnica, ajustes de precisão e testes de qualidade.

O que aparece ali é um processo industrial completo, que envolve engenharia, tecnologia, controle técnico e trabalhadores qualificados.

Cada bicicleta que deixa a linha de produção é resultado de uma cadeia produtiva que articula fornecedores, logística, conhecimento técnico e organização industrial.

Uma potência industrial pouco conhecida no país

O Polo de Duas Rodas de Manaus tornou-se um dos maiores centros industriais desse setor fora da Ásia. A produção abastece o mercado nacional e sustenta milhares de empregos diretos e indiretos, além de uma ampla rede de serviços e fornecedores.

Apesar dessa relevância, grande parte do país ainda conhece pouco o que acontece dentro das fábricas instaladas na Amazônia.

É justamente essa distância que alimenta muitos equívocos.

A economia legal que ajuda a manter a floresta em pé

A presença da indústria na Amazônia não representa apenas atividade econômica. Ela cria uma alternativa concreta para o desenvolvimento regional.

Empregos formais, arrecadação pública, inovação tecnológica e oportunidades urbanas reduzem a pressão sobre atividades predatórias que historicamente ameaçam a floresta, como o garimpo ilegal, a extração clandestina de madeira e a ocupação desordenada do território.

A indústria não é inimiga da floresta. Em muitos casos, ela se torna uma das condições para que a floresta permaneça preservada.

Uma política pública que integrou a Amazônia ao Brasil

A Zona Franca de Manaus nasceu como uma estratégia nacional de desenvolvimento. Seu objetivo foi integrar a Amazônia à economia brasileira, criando oportunidades econômicas capazes de sustentar a região sem transformar a floresta em fronteira permanente de devastação.

Décadas depois, esse modelo ajudou a consolidar Manaus como um dos maiores centros urbanos da Amazônia e um importante polo industrial do país.

Ver antes de julgar

O vídeo apresentado aqui permite observar algo simples e ao mesmo tempo revelador: o funcionamento cotidiano de uma fábrica no coração da Amazônia.

Máquinas em operação, trabalhadores especializados, processos industriais organizados e produtos que chegam ao mercado brasileiro todos os dias.

Antes de formar opiniões sobre a Zona Franca de Manaus, talvez o passo mais sensato seja simplesmente olhar para o que ela produz.

Ver como funciona.

Compreender quem trabalha ali.

Porque a Amazônia contemporânea não é feita apenas de floresta. Ela também abriga uma economia que busca conciliar produção, emprego e preservação. Veja o vídeo

Não perca!!! 

A floresta em pé precisa de uma economia que também fique de pé.

Há algo de muito podre sob o céu da brasilidade

4 de março de 2026 amanheceu como tantos outros dias na história brasileira. O sol nasceu, os mercados abriram, o Congresso seguiu em sessão, os tribunais continuaram julgando. A aparência da normalidade persiste. Mas basta folhear o noticiário para perceber que há algo inquietante na atmosfera nacional.

No centro da tempestade está mais um escândalo financeiro de grandes proporções. A prisão do banqueiro ligado ao Banco Master trouxe à superfície suspeitas de lavagem de dinheiro, espionagem digital e manipulação de informações sensíveis. Investigações apontam invasões de sistemas policiais, monitoramento clandestino e um esquema de intimidação que teria alcançado jornalistas, investigadores e adversários. Não é apenas a história de um banqueiro. É o temor de que, ao abrir a boca, ele exponha conexões que atravessam a elite econômica e o sistema político.

A política, aliás, continua a produzir seus próprios sintomas. Em Brasília, disputas sobre investigações, blindagens e privilégios ocupam o centro da agenda. Parlamentares discutem benefícios corporativos enquanto a confiança pública nas instituições se esvai lentamente. O Judiciário intervém, o Congresso reage, o Executivo calcula seus movimentos. As engrenagens do Estado giram, mas o ruído entre elas é constante.

No pano de fundo, a economia avança sem entusiasmo. O crescimento modesto, acompanhado por uma dívida pública crescente, mantém o país numa espécie de equilíbrio frágil. O Brasil não colapsa, mas também não encontra o impulso necessário para sair de seu labirinto estrutural.

céu da brasilidade

Esse cenário revela algo mais profundo que um conjunto de crises simultâneas. Ele expõe um padrão que atravessa décadas. O país convive com ciclos repetidos de escândalo, investigação, indignação pública e acomodação política. A cada episódio, surge a esperança de que finalmente se romperá o pacto informal que mistura poder econômico, influência política e privilégios institucionais. Mas a engrenagem sempre encontra meios de se recompor.

O resultado é uma sensação difusa, quase física, de desgaste moral. Não se trata de afirmar que tudo está perdido. O Brasil possui instituições capazes de investigar, imprensa que revela, e uma sociedade que reage. Porém, a persistência dessas crises indica que os problemas não são episódicos. São estruturais.

O país que abriga a maior floresta tropical do planeta, uma economia continental e uma democracia vibrante convive também com a impressão recorrente de que suas estruturas de poder operam sob um véu de interesses cruzados.

Por isso, ao olhar o noticiário deste início de março, a sensação que emerge não é apenas de indignação. É de inquietação histórica. Como se o país estivesse, mais uma vez, diante de um espelho que revela suas contradições mais profundas. E ao observar esse reflexo, torna-se difícil evitar a velha frase que atravessa séculos de literatura política. Há algo de muito podre sob o céu do Brasil.

Secas na Amazônia desafiam logística e cadeia produtiva na região

O avanço das secas na Amazônia desafia o transporte fluvial, impacta a Zona Franca de Manaus e impulsiona projetos de infraestrutura que devem conciliar logística regional e preservação ambiental.

A intensificação das secas na Amazônia tem colocado em evidência a fragilidade da infraestrutura logística da região e impulsionado o debate sobre obras de adaptação climática. Nos últimos anos, rios fundamentais para o transporte regional, como o Negro e Tapajós, registraram níveis historicamente baixos, afetando tanto comunidades isoladas quanto o funcionamento da economia regional.

A navegação fluvial é a principal via de transporte na Amazônia, especialmente no estado do Amazonas, onde a logística do Polo Industrial de Manaus depende quase totalmente dos rios. Quando o nível das águas cai de forma acentuada, as embarcações ficam impedidas de navegar em determinados trechos, as rotas comerciais são interrompidas e o abastecimento de mercadorias se torna mais caro e demorado. 

Vista aérea do Porto de Manaus, infraestrutura estratégica afetada pelas secas na Amazônia.
Imagem aérea do Porto de Manaus, ponto central da logística fluvial regional, que enfrenta desafios crescentes com a intensificação das secas na Amazônia. Foto: Portal da Copa.

O professor e pesquisador Augusto Rocha aponta que episódios recentes de estiagem extrema têm gerado custos adicionais elevados para empresas e operadores logísticos. As secas registradas em 2023 e 2024 estão entre as mais intensas já documentadas na região e revelam os efeitos crescentes das secas na Amazônia sobre a economia e o cotidiano das populações locais. 

O fenômeno provocou encalhe de embarcações, isolamento de comunidades ribeirinhas e impactos diretos na cadeia produtiva da Zona Franca de Manaus. Pesquisa do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM), baseada em dados do Banco Central e em levantamentos com empresas, indica que apenas em 2024 a indústria precisou gastar mais de R$ 846 milhões em estoques adicionais e custos financeiros para enfrentar a estiagem. Nesse cenário, empresas de transporte e armadores passaram a aplicar “taxas de seca”, cobradas para compensar o aumento do risco logístico e a redução da capacidade de navegação durante a vazante dos rios.

Diante desse quadro, governos e setor privado passaram a discutir medidas estruturais para manter a navegabilidade mesmo em períodos de estiagem severa. Entre as ações já em curso está a dragagem de desassoreamento em trechos estratégicos dos rios Negro e Solimões, incluindo áreas críticas como a região do Tabocal. A iniciativa do governo federal busca garantir a passagem de navios com insumos industriais durante os períodos de vazante.

Mas essas intervenções geram controvérsias. A dragagem do rio Tapajós, por exemplo, tornou-se alvo de intenso debate ambiental. Em fevereiro de 2026, o governo suspendeu o processo de contratação após mobilização de povos indígenas e recomendações do IBAMA, que apontaram riscos sociais e ambientais graves. O caso ilustra a necessidade de se encontrar soluções que reforcem a infraestrutura logística sem comprometer os ecossistemas e povos amazônicos.

Dragagem no Rio Madeira para manter a navegabilidade durante as secas na Amazônia.
Operação de dragagem. Foto: Governo Federal.

Além das obras físicas, iniciativas institucionais de adaptação climática também começam a surgir. No Amazonas, foi criado o Comitê da Estiagem, que reúne órgãos públicos e instituições para coordenar ações de prevenção, monitoramento e resposta logística durante os períodos de seca. 

Já em dezembro de 2025, Rondônia inaugurou o primeiro Centro de Clima e Saúde da região, unidade do país focada em inovação, formação e pesquisas sobre as relações entre saúde, emergência climática e as dinâmicas socioambientais na Amazônia, incluindo em seu escopo o tema da secas na Amazônia. 

O suicídio hídrico do agronegócio brasileiro

Reduzir a reserva legal pode custar mais de R$ 100 bilhões em chuva por ano

Coluna Follow-Up

Voltou ao centro do debate ambiental no Congresso Nacional uma proposta que parece simplesmente administrativa, mas pode ter consequências climáticas profundas para o Brasil.

O Projeto de Lei 551/2019, de autoria do senador Mecias de Jesus, propõe permitir a redução da reserva legal na Amazônia de 80% para 50% em propriedades rurais localizadas em estados onde mais de 65% do território já esteja protegido por unidades de conservação, terras indígenas ou áreas federais.

Entrevista com senador Mecias de Jesus no estudio do portal Metropoles 6 scaled 1 1

Se aprovado, o projeto flexibilizaria uma das principais salvaguardas do Código Florestal para o bioma amazônico.

A justificativa apresentada pelos defensores da proposta parte de um argumento recorrente. Estados altamente preservados deveriam ter maior liberdade para desenvolver suas atividades produtivas. A medida seria uma forma de corrigir desequilíbrios regionais e estimular o crescimento econômico.

À primeira vista, a lógica parece razoável. O problema é que ela ignora um elemento central da economia brasileira.

A floresta amazônica não é apenas um patrimônio ambiental. Ela funciona como infraestrutura climática da produção agrícola do país.

Floresta amazônica com névoa, ilustrando o papel limitado da fertilização por CO₂ diante da baixa disponibilidade de nutrientes.
Foto: Federico Rios.

A fábrica de chuva da América do Sul

A Amazônia abriga a maior máquina natural de geração de umidade do planeta.

Por meio da evapotranspiração, bilhões de árvores retiram água do solo e liberam vapor na atmosfera. Esse vapor forma correntes atmosféricas conhecidas como rios voadores, responsáveis por transportar umidade por milhares de quilômetros sobre o continente.

Pesquisas indicam que a floresta libera cerca de 20 bilhões de toneladas de vapor d’água por dia, volume comparável ao fluxo diário do próprio rio Amazonas.

Essa massa de umidade atravessa o território brasileiro e alimenta as chuvas do Centro-Oeste, do Sudeste e do Sul. É justamente nessas regiões que se concentra o coração da agricultura nacional.

O agronegócio que depende da floresta

Grande parte da produção agrícola brasileira é realizada em regime de sequeiro, ou seja, depende diretamente da regularidade das chuvas.

Soja, milho, café, algodão, cana-de-açúcar e pecuária vivem sob o guarda-chuva climático alimentado pela Amazônia. Estudos indicam que os rios voadores contribuem para a formação de chuvas em até 80% das áreas agrícolas do Brasil.

Em termos econômicos, isso significa que uma parcela significativa da riqueza gerada pelo agronegócio nasce de um sistema natural localizado a milhares de quilômetros das lavouras.

Quanto vale a chuva da Amazônia

Pesquisas recentes tentaram medir o valor econômico desse serviço ambiental. Os resultados são expressivos. A precipitação gerada pela floresta amazônica pode representar mais de R$ 100 bilhões por ano em benefícios para a economia regional e para a agricultura sul-americana.

Esse valor inclui ganhos de produtividade, estabilidade climática e redução de perdas agrícolas.

Em outras palavras, a floresta amazônica funciona como uma espécie de infraestrutura hídrica natural da economia brasileira.

O paradoxo brasileiro

É nesse ponto que surge um paradoxo raramente discutido. A expansão da fronteira agrícola dentro da Amazônia pode comprometer justamente o regime de chuvas que sustenta a agricultura brasileira.

Menos floresta significa menos evapotranspiração. Menos evapotranspiração significa menos formação de nuvens. Menos nuvens significam chuvas mais escassas e irregulares.

O resultado pode aparecer na forma de secas mais intensas, ondas de calor e maior instabilidade nas safras. É como desmontar a caixa d’água para ampliar a plantação.

Área desmatada com árvores derrubadas à direita e floresta preservada à esquerda. Cenário pode se agravar com a sanção do PL da Devastação.
Desmatamento em área de transição entre vegetação preservada e solo exposto. A fragmentação da floresta compromete a biodiversidade e afeta o equilíbrio climático da região. Medidas como o PL da Devastação podem agravar esse cenário ao flexibilizar licenciamento ambiental. Foto: Iguiecologia.

A pergunta que o Brasil precisa responder

O país abriga duas potências convivendo no mesmo território. A maior floresta tropical do planeta. Uma das agriculturas mais competitivas do mundo. A primeira produz a chuva. A segunda depende dela.

Reduzir a proteção da floresta sem considerar essa relação pode não ser apenas um erro ambiental. Pode ser uma das decisões econômicas mais caras da história agrícola brasileira. Porque destruir a fábrica de chuva da Amazônia para expandir a fronteira agrícola pode não ser estratégia de crescimento.

Pode ser apenas o mais caro suicídio hídrico já cogitado pelo agronegócio brasileiro. 


Coluna follow-up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas às quartas quintas e sextas-feiras sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal Brasil Amazônia agora

Adaptação climática no Brasil: como os estados reagiram aos desastres naturais recentes

Eventos extremos pressionam governos estaduais e evidenciam desafios da adaptação climática no Brasil, entre investimentos em prevenção, resposta emergencial e desigualdades regionais.

Na última década, eventos climáticos extremos passaram a testar, de forma recorrente, a capacidade de resposta dos governos estaduais no Brasil. Em dez anos, os prejuízos causados por enchentes, deslizamentos, secas e incêndios saltaram de R$ 8,5 bilhões para R$ 732 bilhões.

O período revela que os estados estão em diferentes estágios de preparo para lidar com a crise climática e com os desafios da adaptação climática no Brasil, com desigualdades que refletem tanto a disponibilidade fiscal quanto a escolha entre políticas preventivas ou reativas.

Rio Grande do Sul

No Rio Grande do Sul, as enchentes de 2024, que atingiram cerca de 96% dos municípios, levaram o governo estadual a lançar medidas emergenciais como o programa Volta por Cima, voltado ao auxílio financeiro a famílias afetadas. A tragédia também acelerou investimentos em monitoramento meteorológico, com a implantação de novos sistemas de previsão e radares. Ainda assim, a maior parte das ações ocorreu após a crise, mesmo com alertas tendo sido feitos em 2023.

Moradores caminham em rua alagada pela enchente em Eldorado do Sul (RS), exemplo dos desafios da adaptação climática no Brasil diante de eventos extremos.
Moradores atravessam rua inundada pela enchente no município de Eldorado do Sul, na região metropolitana de Porto Alegre (RS), em 20 de junho de 2024. Episódios como este evidenciam os desafios da adaptação climática no Brasil frente ao aumento de eventos extremos. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil.

São Paulo

Em São Paulo, a tragédia no litoral norte, em 2023, impulsionou uma estratégia voltada à prevenção. O estado investiu R$ 86,5 milhões em obras de contenção de encostas, drenagem e reconstrução de pontes, além de reforçar a Defesa Civil com novos veículos e equipamentos.

Em 2025, diante também de secas históricas que afetaram reservatórios e produção agrícola, o governo lançou o Plano Estadual de Adaptação e Resiliência Climática (PEARC), com ações voltadas à segurança hídrica e alimentar e à proteção da zona costeira, um dos exemplos recentes de políticas voltadas à adaptação climática no Brasil.

Vista aérea do Sistema Cantareira com níveis de água drasticamente baixos, evidenciando as marcas da seca e a exposição do solo rachado ao redor do reservatório.

Rio de Janeiro

No Rio de Janeiro, os deslizamentos em Petrópolis, em 2022, estimularam novas políticas de adaptação urbana. O estado implementou o projeto ECOS Comunidade, em parceria com a ONU-Habitat, voltado à resiliência urbana e ao uso de soluções baseadas na natureza para reduzir riscos em áreas de encosta.

Em 2025, também aprovou a Política Estadual dos Deslocados Ambientais e Climáticos (Pedac), que reconhece pessoas obrigadas a deixar suas casas após desastres e garante prioridade em programas de moradia e assistência social.

Área destruída por deslizamento de terra em Petrópolis (RJ), evidenciando riscos associados a eventos extremos e os desafios da adaptação climática no Brasil.
Cenário de destruição após deslizamento de terra em Petrópolis (RJ), uma das tragédias climáticas mais marcantes da última década no país. Foto: Lucas Ninno.

Minas Gerais

Já Minas Gerais tornou-se um caso emblemático no debate sobre prevenção e orçamento. Após temporais que causaram dezenas de mortes em 2026, o governo de Romeu Zema recebeu críticas por cortes em programas de prevenção. Dados do Portal da Transparência indicam que os investimentos no programa “Suporte às ações de combate e resposta aos danos causados pelas chuvas” caíram 96% entre 2023 e 2025, de R$ 134,8 milhões para R$ 5,8 milhões.

Em 2026, até o fim de fevereiro, apenas R$ 36 mil haviam sido executados. O governo afirma ter aplicado R$ 1,9 bilhão em ações relacionadas à prevenção em 2025, mas especialistas apontam que grande parte desses recursos foi destinada a obras emergenciais e não preventivas.

Bombeiro observa destroços após temporais em Minas Gerais, cenário que ilustra os desafios da adaptação climática no Brasil diante de desastres.
Bombeiro atua em área atingida por temporais e deslizamentos em Minas Gerais, entre destroços deixados pelas chuvas intensas. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.

Amazonas

A Amazônia registrou secas históricas em 2023 e 2024, listadas entre as mais severas em décadas. A redução drástica do nível de rios estratégicos afetou diretamente o transporte fluvial, o abastecimento de água e o escoamento de alimentos e combustíveis em centenas de comunidades ribeirinhas.

Em alguns trechos, rios como o Solimões e o Negro atingiram níveis mínimos históricos, interrompendo rotas logísticas e isolando cidades. No Amazonas, o governo estadual precisou intensificar operações de assistência humanitária e logística, enquanto o governo federal liberou mais de R$ 500 milhões em créditos extraordinários para enfrentar a crise.

Parte dos recursos foi destinada à dragagem de trechos críticos de rios, para garantir a navegabilidade e manter o abastecimento de comunidades que dependem quase exclusivamente das vias fluviais.

seca na amazonia

Mato Grosso do Sul


Em 2025, o Pantanal viveu a seca mais severa dos últimos 40 anos. Por isso, especialmente em Mato Grosso do Sul, a estratégia tem se concentrado no monitoramento e na prevenção do fogo. O estado investiu em brigadas especializadas, drones com sensores térmicos para detectar focos de incêndio e planos de Manejo Integrado do Fogo, que combinam prevenção, educação ambiental e restauração de áreas queimadas. O combate às queimadas recebeu cerca de R$ 137,6 milhões em recursos federais.

Jacarés mortos expostos em área ressecada, consequência da seca no Pantanal.
Jacarés mortos durante período crítico da seca no Pantanal, que ameaça a fauna aquática e desequilibra o ecossistema local. Foto: José Medeiros

Um pilar fundamental do sistema de adaptação climática no Brasil é o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), que monitora riscos em centenas de municípios e emite alertas para enchentes, deslizamentos e secas.

O desafio, apontam especialistas, é transformar previsão científica em ação rápida no território, da evacuação de áreas vulneráveis à construção de infraestrutura preventiva. Nesse cenário, fortalecer políticas de adaptação climática no Brasil tornou-se uma das principais tarefas para reduzir riscos e proteger populações cada vez mais expostas aos extremos climáticos.

Desastres naturais estão causando prejuízos bilionários para seguradoras

Com perdas bilionárias e aumento de desastres naturais, eventos climáticos extremos começam a redefinir a lógica de risco do setor de seguros e a expor os impactos econômicos da crise climática.

O aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos já começa a alterar profundamente o funcionamento do mercado global de seguros. Em apenas um semestre de 2025, incêndios florestais, tempestades severas e outros desastres naturais geraram cerca de US$ 84 bilhões em perdas seguradas, segundo relatório da corretora de resseguros Gallagher Re.

Desse total, aproximadamente US$ 81 bilhões estão associados diretamente a fenômenos climáticos e meteorológicos, tornando o período o mais caro já registrado para esse tipo de evento no primeiro semestre de um ano. A projeção da consultoria é que as perdas globais consolidem o que o relatório descreve como uma “nova realidade” para o setor.

Entre os episódios mais impactantes estão os incêndios florestais que atingiram o sul da Califórnia em janeiro, considerados alguns dos mais destrutivos já registrados no Condado de Los Angeles. O desastre levou milhares de moradores a reconsiderar permanecer em áreas cada vez mais expostas a riscos crescentes e recorrentes de eventos climáticos extremos.

A seguradora State Farm General, maior do estado, informou ter recebido mais de 8.700 solicitações de indenização relacionadas aos incêndios e pago mais de US$ 1 bilhão em compensações. Diante da pressão financeira, a empresa solicitou às autoridades um aumento emergencial médio de 22% nas apólices residenciais.

As tempestades severas que atingiram o Meio-Oeste e o Sul dos Estados Unidos em março também contribuíram para o aumento das perdas. Tornados, ventos intensos e granizo provocaram cerca de US$ 33 bilhões em prejuízos segurados, incluindo um surto de tempestades entre os dias 13 e 16 de março que sozinho gerou quase US$ 8 bilhões em danos, o quarto evento mais caro desse tipo já registrado para o setor.

Fora dos Estados Unidos, os prejuízos segurados permaneceram abaixo de US$ 10 bilhões no primeiro semestre. O episódio mais significativo foi o terremoto que atingiu Myanmar e a Tailândia em abril, cujas perdas podem ultrapassar US$ 1 bilhão quando todas as indenizações forem processadas.

O aumento das temperaturas globais tem ampliado a intensidade de eventos climáticos extremos, elevando o risco sobre imóveis, infraestrutura e cadeias produtivas. Esse cenário começa a gerar uma crise de “segurabilidade” em regiões altamente vulneráveis.

Nos Estados Unidos, estados costeiros como a Flórida já enfrentam esse desafio. Diversas seguradoras privadas têm reduzido ou abandonado a oferta de seguros residenciais em áreas expostas a furacões e tempestades severas, obrigando consumidores a migrar para programas públicos ou seguradoras de última instância.

A tendência indica que, à medida que os desastres climáticos se tornam mais frequentes e caros, o setor segurador pode ser um dos primeiros a sentir os impactos econômicos diretos da crise climática.

Imagem aérea de equipes de emergência resgatando moradores em área inundada na Flórida após eventos climáticos extremos retrata danos de inundações na região.
Equipes de emergência resgatam moradores em áreas inundadas no sudoeste da Flórida, onde casas ficaram submersas após chuvas intensas. Foto: Joe Raedle/Getty Images/AFP

Bemol reúne mil parceiros em Manaus e anuncia expansão com foco em inteligência artificial

O encontro anual, realizado na quinta-feira (27/02), contou com a presença de mais de mil participantes e serviu como plataforma para compartilhar os planos de expansão da varejista, além de destacar o avanço do uso de inteligência artificial na operação da empresa.

Para 2026, a Bemol projeta ampliar sua presença física com a inauguração de até três novas lojas. A empresa também planeja abrir cinco unidades da rede Bemol Farma e uma nova unidade do Bemol Mercado. A estratégia inclui investimentos adicionais em centros de distribuição, ampliação da frota logística e desenvolvimento de novos negócios.

A empresa também confirmou a continuidade de ações que se tornaram parte de sua identidade institucional. A Bemol seguirá como patrocinadora oficial do Festival de Parintins e manterá a estratégia de “marketing útil”, distribuindo mais de 100 mil kits para os brincantes dos bois-bumbás Caprichoso e Garantido, com itens pensados para uso cotidiano.

Outro destaque do calendário é a Bemol Run. Em 2026, a corrida será realizada em quatro cidades e contará com uma novidade em Manaus, a Corrida Kids. A expectativa é reunir cerca de 13 mil participantes.

A inteligência artificial foi apresentada como um dos principais vetores de transformação da companhia. A Bemol investiu em capacitação de colaboradores e na adoção de ferramentas digitais, incluindo licenças do ChatGPT para diferentes áreas da empresa. Também lançou sua própria plataforma de acesso a modelos de IA generativa, o Japiim.

Esses investimentos já resultam em ganhos operacionais. No e-commerce, por exemplo, agentes de IA reduziram em cerca de 50% o tempo de aprovação de pedidos durante a triagem. No atendimento ao cliente via WhatsApp, aproximadamente 17% das interações já são totalmente conduzidas por sistemas automatizados.

Segundo o diretor-presidente da Bemol, Denis Minev, o foco da companhia está em transformar a aprendizagem contínua em um diferencial competitivo.

“A digitalização e a inteligência artificial permitiram transformar nossos colaboradores em equipes muito mais produtivas. O aprendizado voltou a ser nossa iniciativa do ano, porque o que mais muda no mundo hoje é a velocidade com que as empresas precisam aprender para continuar competitivas”, afirmou.

bemol

Durante o evento, os participantes também conheceram a Acer Veriton GN100, considerada a miniestação de inteligência artificial mais potente do mercado e comercializada exclusivamente pela Bemol no Brasil. O equipamento utiliza o superchip NVIDIA Grace Blackwell GB10, tecnologia derivada da plataforma DGX Spark, o supercomputador da NVIDIA voltado para aplicações avançadas de IA.

O gestor de planejamento comercial da Bemol, Daniel Souza, explicou que a proposta do equipamento é permitir que empresas desenvolvam e treinem modelos de inteligência artificial dentro de suas próprias infraestruturas, mantendo maior controle sobre dados sensíveis.

Segundo ele, o uso local de IA reduz dependência de serviços em nuvem e pode gerar economia significativa para empresas com projetos intensivos em dados.

“Além da segurança dos dados, existe uma vantagem financeira. Em empresas que utilizam muitos projetos com inteligência artificial, o equipamento pode se pagar em poucos meses, reduzindo gastos com serviços de IA generativa em nuvem”, explicou.

A própria Bemol já utiliza a solução. A adoção da miniestação contribuiu para reduzir em até 90% os custos de nuvem associados a uma das principais plataformas de dados da empresa, o Databricks.

A Acer Veriton GN100 AI Mini Workstation é comercializada pela Bemol por R$ 44.999 para clientes de outras regiões do país. Empresas elegíveis localizadas na Zona Franca de Manaus ou em Boa Vista (RR) podem adquirir o equipamento por R$ 30.999.

A programação da BemolCon também incluiu a premiação de fornecedores e parceiros que se destacaram em diferentes áreas comerciais ao longo de 2025. O evento contou ainda com palestras de representantes da Google e da Nielsen, que apresentaram análises e tendências do mercado.

Entre os patrocinadores desta edição estiveram empresas como Motorola, Electrolux, Britânia, Midea, Whirlpool, Marjom, Kappesberg, Pelmex, JBL e LG.

Fundada em 13 de agosto de 1942 pelos irmãos Samuel, Israel e Saul Benchimol, a empresa amazonense atende 69 cidades na Amazônia Ocidental, localizadas no Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima. 

Atualmente, a varejista tem 37 lojas, incluindo loja online, televendas e lojas físicas, 45 farmácias, incluindo loja online, televendas e lojas físicas, 22 loterias, 4 mercados e 6 Centros de Distribuição.

Infraestrutura do clima: tragédias expõem falhas na adaptação climática do Brasil

Alertas científicos mostram que fortalecer a infraestrutura do clima é essencial para reduzir mortes, proteger a biodiversidade e garantir segurança hídrica e econômica no Brasil.

O planeta vive um novo momento climático. O que especialistas chamam de “novo normal” não se resume ao aumento das temperaturas médias, mas a uma mudança estrutural no funcionamento da atmosfera. O sistema tornou-se mais instável, com ciclo hidrológico intensificado e eventos extremos mais frequentes, intensos e concentrados.

Diante desse cenário, discutir a infraestrutura do clima passou a ser uma questão central de planejamento nacional.

O termo “novo normal do clima” ganhou força no início dos anos 2000, quando cientistas constataram que o planeta não retornaria aos padrões de clima anteriores. Fenômenos antes considerados raros; como secas prolongadas, enchentes fora de época e ondas de calor intensas, deixaram de ser exceção e passaram a ocorrer com regularidade. Alguns pesquisadores preferem falar em “novo anormal”, diante de um cenário marcado pela instabilidade permanente.

Imagem de seca na Amazônia mostra impactos da crise climática e necessidade de fortalecer a infraestrutura do clima.
Seca severa na Amazônia, em 2024, revelou desafios da infraestrutura do clima diante da instabilidade hídrica. Foto: FAS.

No Brasil, essa transformação é visível na sucessão recente de extremos. Em 2024, a Amazônia enfrentou a pior seca já registrada, com rios em níveis mínimos históricos e impactos severos sobre transporte, economia e populações ribeirinhas. No mesmo ano, o Sul foi atingido por enchentes devastadoras. O verão de 2025 terminou como o segundo mais quente da história do país.

O ano de 2026 começou sob o mesmo padrão de instabilidade. Na Zona da Mata mineira, chuvas intensas deixaram mais de 70 mortos. Em Juiz de Fora, 229,9 mm foram acumulados em apenas três dias, mais do que o esperado para todo o mês. Embora o episódio tenha sido classificado como tragédia natural, os riscos eram conhecidos. Alertas já indicavam a vulnerabilidade da região a deslizamentos e enxurradas.

Rua com destroços na Zona da Mata de Minas Gerais após enchentes destaca falhas na infraestrutura do clima.
Destroços na Zona da Mata mineira após chuvas intensas reforçam debate sobre infraestrutura do clima no Brasil. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil.

A narrativa da fatalidade mascara um problema estrutural. Os desastres não resultam apenas da instabilidade climática, mas da vulnerabilidade construída ao longo de décadas. Em 2025, o Brasil registrou 1.493 eventos hidrológicos, que afetaram mais de 336 mil pessoas e geraram prejuízos superiores a R$ 3,9 bilhões. Oito estados tiveram seca em 100% de seus territórios no mesmo ano.

A infraestrutura urbana foi projetada com base em séries históricas estáveis. O novo regime climático exige outro paradigma: cidades com uma infraestrutura do clima atual, capazes de absorver, infiltrar e escoar grandes volumes de água, além de planejar reservatórios, reuso hídrico, proteção de mananciais e mitigação de ilhas de calor.

Falar em infraestrutura do clima significa integrar drenagem, planejamento territorial, políticas habitacionais e gestão de recursos hídricos em uma estratégia preventiva. Uma vez que hoje ondas de calor e secas prolongadas já pressionam sistemas elétricos, hospitais, agricultura e abastecimento.

Leia também a edição última da Coluna Follow-Up com o artigo de Ronaldo Gerdes em:

O debate entre reconstruir ou prevenir no investimento público do Brasil

Apesar da crescente exposição aos riscos, as políticas de adaptação no Brasil ainda operam majoritariamente na lógica reativa, agindo apenas após desastres para reparar os danos. Na tentativa de avançar na infraestrutura do clima, o país lançou, em 2025, o Plano Clima de Adaptação, primeira estratégia nacional estruturada para reduzir as vulnerabilidades às mudanças climáticas. 

O documento prevê incorporar risco climático aos investimentos federais em infraestrutura e ampliar a segurança hídrica e alimentar. No entanto, especialistas apontam lacunas de financiamento e desafios de implementação nos estados e municípios. No mesmo ano de anúncio do plano, houve corte de R$ 380 milhões no programa federal de gestão de riscos urbanos, reduzindo o orçamento da adaptação climática justamente quando a necessidade de prevenção aumenta.

A falta de investimentos preventivos amplia mortes e perdas materiais, eleva custos de reconstrução e aprofunda desigualdades sociais. Populações vulneráveis, que vivem em encostas, várzeas ou áreas precárias, são as mais atingidas por desastres naturais. 

Marina Silva participa de reunião sobre Plano Clima para adaptação e fortalecimento da infraestrutura do clima.
Ministra Marina Silva durante encontro sobre o Plano Clima, estratégia que busca fortalecer a infraestrutura do clima no país. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil (15/08/2024).

Radiografia brasileira: desigualdade e reincidência

Os dados do AdaptaBrasil indicam que cerca de 2,6 mil municípios estão em risco alto ou muito alto para desastres naturais, número que ainda exclui incêndios e ondas de calor. A reincidência confirma o perigo. O Rio Grande do Sul, ainda em reconstrução após o desastre de 2024, enfrentou novos eventos climáticos extremos em 2025.

Em São Paulo, o paradoxo entre a seca e as enchentes urbanas segue como tendência. Em janeiro de 2025, a capital registrou 125,4 mm de chuva em apenas um dia, o terceiro maior acumulado diário desde 1961. Já no Rio de Janeiro, temporais recentes provocaram alagamentos, deslizamentos e decretos de calamidade em municípios da Costa Verde e Região dos Lagos.

Na Amazônia, os impactos assumem outra escala. O Rio Negro, monitorado há 123 anos, registrou sete das dez maiores cheias nas últimas duas décadas, incluindo a histórica marca de 30,2 metros em 2021. Ao mesmo tempo, 2023 e 2024 trouxeram níveis mínimos recordes no período de seca. Esse contraste compromete transporte fluvial, pesca, abastecimento e comércio, além de provocar perdas na biodiversidade e alterar ciclos ecológicos fundamentais para o equilíbrio do bioma.

A ocupação urbana agrava o problema. Mais de 2,2 milhões de imóveis estão em áreas vulneráveis a inundações no país. A especulação imobiliária encarece regiões infraestruturadas e empurra populações de baixa renda para encostas e várzeas. Ao mesmo tempo, áreas mais altas e consideradas seguras começam a ser valorizadas diante das mudanças climáticas, fenômeno associado à chamada gentrificação climática.

Presidente Lula durante sobrevoo em Canoas (RS) após enchentes, destacando desafios da infraestrutura do clima.
Imagem de sobrevoo em Canoas (RS) após enchentes em 2024. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Exemplos globais de adaptação climática: o que se pode aprender? 

Experiências internacionais mostram que modernizar a infraestrutura do clima é possível. Na Holanda, o projeto “Room for the River” recuou diques e ampliou planícies de inundação, reduzindo picos de cheia e integrando áreas verdes ao planejamento urbano.

Em Singapura, o Green Plan 2030 combina infraestrutura verde, arborização em larga escala e proteção costeira para enfrentar calor extremo e elevação do nível do mar. Um outro exemplo são as cidades-esponja na China e Tailândia, conceito criado pelo arquiteto Kongjian Yu.

A proposta defende que áreas urbanas sejam planejadas para agir como uma “esponja”, capazes de absorver, infiltrar e armazenar a água da chuva por meio de soluções baseadas na natureza, como parques alagáveis, telhados verdes, pavimentos permeáveis e recuperação de áreas úmidas.

No entanto, iniciativas voltadas à infraestrutura do clima não são regra, os subsídios globais aos combustíveis fósseis somaram cerca de US$ 916 bilhões em 2024. A contradição é evidente: os aportes em atividades que agravam a crise climática continuam sendo feitos por governos e empresas, enquanto recursos para adaptação permanecem limitados. Nessa conta, o contribuinte é quem arca com os custos de reparações após desastres e as populações vulneráveis sofrem as consequências mais graves.

A tragédia não está apenas nos desastres climáticos, mas no sistema que permite que milhões vivam em áreas de risco, enquanto a prevenção segue subfinanciada. Investir em infraestrutura do clima é condição para estabilidade econômica, justiça social e sobrevivência urbana. O novo regime climático já está em curso, resta saber se o Brasil irá acompanhar essa agenda de adaptação de forma sistêmica e preventiva ou apenas reagir a cada nova calamidade.

Vista do parque Jinhua Yanweizhou na China, exemplo de cidades-esponja que fortalecem a infraestrutura do clima.
Parque Jinhua Yanweizhou, na China, integra projeto de cidades-esponja que moderniza a infraestrutura do clima com soluções baseadas na natureza. Foto: Divulgação Turenscape.

A incapacidade de ouvir a Amazônia

Há uma incapacidade nacional para ouvir a Amazônia. Poucos dias atrás, indígenas protestaram até a queda do Decreto 12.600/2025, que permitiria a concessão de hidrovias na região. Os atos foram após diálogos ou ausências de diálogos, em que as falas e desejos deles eram simplesmente ignorados. Aliás, não só entre eles.

Tudo o que falamos por aqui sobre a mesma pauta tem sido sistematicamente ignorado. Seja das falas das pessoas do meio econômico regional, sejam as representações empresariais, sejam as universidades ou a sociedade organizada em outros campos. Ou seja, a explosão indígena de protestos não era um ato isolado, mas uma representação de anseios mais amplos, mesmo que não fossem unânimes ou alinhados entre si, em especial no que foi o método adotado.

ouvir a amazonia
(Foto: Movimento Tapajós Vivo)

Além da queda do Decreto, sigo, antes e depois, sem perceber a vontade de sermos, como habitantes da região, ouvidos e considerados. Há na prática uma incapacidade institucionalizada de considerar o que se quer na Amazônia a partir da perspectiva de quem mora na região. Há conversas, mas o que falamos daqui é repetidamente ignorado, salvo em raros momentos.

Não existe um construir em conjunto. Por exemplo, após a queda do Decreto, na Folha de São Paulo, saiu um texto do Professor Rudinei Santos criticando a concessão, apoiando a decisão da revogação. Uma rara voz da Amazônia na grande mídia do Sudeste. No mesmo jornal, o Elio Gaspari fez duro texto criticando a decisão, apontando a “fuga de capital” que viria como uma punição indireta pelo ato. 

Os portos no Arco Norte continuarão a operar. O caminho do Norte para o escoamento da soja tem sido competitivo, eficaz e rentável. A discussão não é esta. A questão é outra: a incapacidade de ouvir. A guerra é uma escalada de um debate. Quando as forças são desiguais, há vários tipos de combate.

Mas, a pressuposição do diálogo e da busca de consensos construídos entre as partes e o respeito ou desrespeito por linhas sagradas da contraparte são relevantes em qualquer negociação. As linhas sagradas da Amazônia são frequentemente ignoradas. As aspirações da região são quase sempre ignoradas. Só vale o que interessa ao grande capital ou para o “império”, inclusive nos métodos de crescimento. As vocações e caminhos da região são recorrentemente ignorados.

Neste contexto, só haverá esperança quando surgirem vários Planos de Desenvolvimento da própria região. Quando eles forem considerados. Enquanto os anseios regionais não forem os norteadores da construção do futuro na Amazônia, estaremos fadados aos confrontos.

Enquanto o capital e o investimento seguir sendo feito como moeda de trocas desiguais e não como um interesse para ganho mútuo, seguiremos sendo ameaçados de “fuga de investimentos”, enquanto a discussão deveria ser outra. Olharemos para a insegurança jurídica, mas não para a insegurança das pessoas.

Olharemos com atenção para a “insegurança do capital estrangeiro”, mas não para a insegurança dos brasileiros que moram na Amazônia. Prestaremos continência para os mandatários de Brasília, mas não para os povos originários ou moradores. Atentaremos para o interesse do capital, mas não para os interesses dos capitalistas da Amazônia.

Mapa do caminho da transição energética em tempos de guerra

Coluna Follow-Up

O tabuleiro geopolítico voltou a puxar o fio mais sensível da economia mundial, o petróleo. A escalada militar envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã, com risco real (ainda que disputado) de interrupções no Estreito de Ormuz, reacendeu o velho fantasma de choque de oferta, frete disparando, seguro sumindo, volatilidade tomando conta dos mercados e a energia virando, de novo, instrumento de poder.

E é nesse cenário que o Brasil coloca na mesa um movimento que, por aqui, tem cara de marco.

O Ministério de Minas e Energia abriu consulta pública e formalizou diretrizes para o primeiro leilão federal de armazenamento por baterias, dentro do Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCAP 2026 – Armazenamento), com realização prevista para abril de 2026 e início de suprimento contratado a partir de agosto de 2028.

O que está em jogo no leilão de baterias

A ideia é simples e poderosa: contratar potência disponível (capacidade) para que sistemas de armazenamento (BESS/SAE) entreguem energia quando o sistema precisa, principalmente nos horários de pico, e absorvam excedentes quando sobra sol e vento. Isso ataca dois problemas de uma vez: o curtailment (corte/desperdício de renováveis) e a confiabilidade do SIN, que fica mais exigente à medida que a matriz ganha variáveis intermitentes.

As diretrizes publicadas pelo MME deixam claro que não é “piloto de vitrine”. É contratação com lógica de operação: o ONS programa recarga e descarga e os empreendimentos precisam atender integralmente aos despachos, com regras técnicas que incluem eficiência mínima de ciclo (round-trip) e recarga completa em prazo máximo.

Baterias estacionárias da UCB Power, com tecnologia LFP, utilizadas em sistemas de energia limpa para regiões remotas.
Foto: UCB Power.

O desenho que já aparece nas diretrizes

Pontos que valem ser grifados porque ajudam a entender por que esse leilão muda o jogo no Brasil:

Contrato por capacidade, não por energia. O produto é potência firme para o sistema, o que cria receita previsível e financiável para baterias em escala. 

Horizonte longo. A modelagem prevê contratos de 10 anos a partir de agosto de 2028, justamente para “casar” com o ciclo de investimento e amortização de projetos. 

Barra técnica mais alta. Há exigências de desempenho e integração ao sistema (incluindo requisitos apontados pelo ONS, como parâmetros para conexão e funcionalidades de rede). Isso reduz aventura tecnológica e sinaliza seriedade regulatória. 

A leitura política por trás do movimento

Em tempos de tensão global, baterias deixam de ser só “tema da hora” e viram infraestrutura estratégica. Enquanto o mundo discute choque de petróleo e gargalos logísticos no Golfo, o Brasil tenta blindar o seu próprio sistema contra desperdício de renováveis e contra o custo de acionamentos mais caros em momentos críticos. É uma resposta doméstica, mas conectada ao mundo real.

O mapa do caminho, daqui até 2028

Agora, a transição não se ganha no anúncio. Ela se ganha no detalhe. O bom senso sugere algumas premissas no desenho deste “mapa do caminho” para que o leilão cumpra o que promete:

Edital e regras finais sem ruído. A consulta pública precisa resultar num edital que reduza judicialização e dê clareza sobre garantias, medição, penalidades e parâmetros de operação. 

Cadeia de suprimento e conteúdo local inteligente. O Brasil pode atrair players globais, inclusive asiáticos, mas tem de acoplar isso a uma estratégia de industrialização, serviços, integração elétrica, software e manutenção. Sem isso, vira só importação de hardware.

Integração ONS-distribuidoras-transmissão. Bateria em escala não é “plug and play”. Precisa de planejamento de conexão, critérios de localização e sinal econômico para instalar onde a rede realmente precisa. As diretrizes já falam em critérios sistêmicos, o que é um bom sinal. 

Financiabilidade. Se o contrato for bom, o financiamento vem. Se houver ambiguidade no risco regulatório ou na operação, o custo de capital sobe e o leilão perde eficiência.

Operação em 2028 como teste de maturidade. O primeiro ciclo vai definir a credibilidade do produto “armazenamento” no Brasil, e isso abre ou fecha a porteira para volumes maiores na década seguinte.

Em síntese

O mundo está lembrando, do jeito mais duro, que energia é soberania e segurança. No meio dessa turbulência, o Brasil finalmente sinaliza que quer entrar no clube dos países que tratam armazenamento como peça central do sistema, não como acessório. Se o edital for tecnicamente sólido e politicamente estável, abril de 2026 pode virar uma data de referência, não por discurso, mas por infraestrutura.