Eventos extremos pressionam governos estaduais e evidenciam desafios da adaptação climática no Brasil, entre investimentos em prevenção, resposta emergencial e desigualdades regionais.
Na última década, eventos climáticos extremos passaram a testar, de forma recorrente, a capacidade de resposta dos governos estaduais no Brasil. Em dez anos, os prejuízos causados por enchentes, deslizamentos, secas e incêndios saltaram de R$ 8,5 bilhões para R$ 732 bilhões.
O período revela que os estados estão em diferentes estágios de preparo para lidar com a crise climática e com os desafios da adaptação climática no Brasil, com desigualdades que refletem tanto a disponibilidade fiscal quanto a escolha entre políticas preventivas ou reativas.
Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, as enchentes de 2024, que atingiram cerca de 96% dos municípios, levaram o governo estadual a lançar medidas emergenciais como o programa Volta por Cima, voltado ao auxílio financeiro a famílias afetadas. A tragédia também acelerou investimentos em monitoramento meteorológico, com a implantação de novos sistemas de previsão e radares. Ainda assim, a maior parte das ações ocorreu após a crise, mesmo com alertas tendo sido feitos em 2023.

São Paulo
Em São Paulo, a tragédia no litoral norte, em 2023, impulsionou uma estratégia voltada à prevenção. O estado investiu R$ 86,5 milhões em obras de contenção de encostas, drenagem e reconstrução de pontes, além de reforçar a Defesa Civil com novos veículos e equipamentos.
Em 2025, diante também de secas históricas que afetaram reservatórios e produção agrícola, o governo lançou o Plano Estadual de Adaptação e Resiliência Climática (PEARC), com ações voltadas à segurança hídrica e alimentar e à proteção da zona costeira, um dos exemplos recentes de políticas voltadas à adaptação climática no Brasil.

Rio de Janeiro
No Rio de Janeiro, os deslizamentos em Petrópolis, em 2022, estimularam novas políticas de adaptação urbana. O estado implementou o projeto ECOS Comunidade, em parceria com a ONU-Habitat, voltado à resiliência urbana e ao uso de soluções baseadas na natureza para reduzir riscos em áreas de encosta.
Em 2025, também aprovou a Política Estadual dos Deslocados Ambientais e Climáticos (Pedac), que reconhece pessoas obrigadas a deixar suas casas após desastres e garante prioridade em programas de moradia e assistência social.

Minas Gerais
Já Minas Gerais tornou-se um caso emblemático no debate sobre prevenção e orçamento. Após temporais que causaram dezenas de mortes em 2026, o governo de Romeu Zema recebeu críticas por cortes em programas de prevenção. Dados do Portal da Transparência indicam que os investimentos no programa “Suporte às ações de combate e resposta aos danos causados pelas chuvas” caíram 96% entre 2023 e 2025, de R$ 134,8 milhões para R$ 5,8 milhões.
Em 2026, até o fim de fevereiro, apenas R$ 36 mil haviam sido executados. O governo afirma ter aplicado R$ 1,9 bilhão em ações relacionadas à prevenção em 2025, mas especialistas apontam que grande parte desses recursos foi destinada a obras emergenciais e não preventivas.

Amazonas
A Amazônia registrou secas históricas em 2023 e 2024, listadas entre as mais severas em décadas. A redução drástica do nível de rios estratégicos afetou diretamente o transporte fluvial, o abastecimento de água e o escoamento de alimentos e combustíveis em centenas de comunidades ribeirinhas.
Em alguns trechos, rios como o Solimões e o Negro atingiram níveis mínimos históricos, interrompendo rotas logísticas e isolando cidades. No Amazonas, o governo estadual precisou intensificar operações de assistência humanitária e logística, enquanto o governo federal liberou mais de R$ 500 milhões em créditos extraordinários para enfrentar a crise.
Parte dos recursos foi destinada à dragagem de trechos críticos de rios, para garantir a navegabilidade e manter o abastecimento de comunidades que dependem quase exclusivamente das vias fluviais.

Mato Grosso do Sul
Em 2025, o Pantanal viveu a seca mais severa dos últimos 40 anos. Por isso, especialmente em Mato Grosso do Sul, a estratégia tem se concentrado no monitoramento e na prevenção do fogo. O estado investiu em brigadas especializadas, drones com sensores térmicos para detectar focos de incêndio e planos de Manejo Integrado do Fogo, que combinam prevenção, educação ambiental e restauração de áreas queimadas. O combate às queimadas recebeu cerca de R$ 137,6 milhões em recursos federais.

Um pilar fundamental do sistema de adaptação climática no Brasil é o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), que monitora riscos em centenas de municípios e emite alertas para enchentes, deslizamentos e secas.
O desafio, apontam especialistas, é transformar previsão científica em ação rápida no território, da evacuação de áreas vulneráveis à construção de infraestrutura preventiva. Nesse cenário, fortalecer políticas de adaptação climática no Brasil tornou-se uma das principais tarefas para reduzir riscos e proteger populações cada vez mais expostas aos extremos climáticos.
