Mapa do caminho da transição energética em tempos de guerra

Coluna Follow-Up

O tabuleiro geopolítico voltou a puxar o fio mais sensível da economia mundial, o petróleo. A escalada militar envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã, com risco real (ainda que disputado) de interrupções no Estreito de Ormuz, reacendeu o velho fantasma de choque de oferta, frete disparando, seguro sumindo, volatilidade tomando conta dos mercados e a energia virando, de novo, instrumento de poder.

E é nesse cenário que o Brasil coloca na mesa um movimento que, por aqui, tem cara de marco.

O Ministério de Minas e Energia abriu consulta pública e formalizou diretrizes para o primeiro leilão federal de armazenamento por baterias, dentro do Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCAP 2026 – Armazenamento), com realização prevista para abril de 2026 e início de suprimento contratado a partir de agosto de 2028.

O que está em jogo no leilão de baterias

A ideia é simples e poderosa: contratar potência disponível (capacidade) para que sistemas de armazenamento (BESS/SAE) entreguem energia quando o sistema precisa, principalmente nos horários de pico, e absorvam excedentes quando sobra sol e vento. Isso ataca dois problemas de uma vez: o curtailment (corte/desperdício de renováveis) e a confiabilidade do SIN, que fica mais exigente à medida que a matriz ganha variáveis intermitentes.

As diretrizes publicadas pelo MME deixam claro que não é “piloto de vitrine”. É contratação com lógica de operação: o ONS programa recarga e descarga e os empreendimentos precisam atender integralmente aos despachos, com regras técnicas que incluem eficiência mínima de ciclo (round-trip) e recarga completa em prazo máximo.

Baterias estacionárias da UCB Power, com tecnologia LFP, utilizadas em sistemas de energia limpa para regiões remotas.
Foto: UCB Power.

O desenho que já aparece nas diretrizes

Pontos que valem ser grifados porque ajudam a entender por que esse leilão muda o jogo no Brasil:

Contrato por capacidade, não por energia. O produto é potência firme para o sistema, o que cria receita previsível e financiável para baterias em escala. 

Horizonte longo. A modelagem prevê contratos de 10 anos a partir de agosto de 2028, justamente para “casar” com o ciclo de investimento e amortização de projetos. 

Barra técnica mais alta. Há exigências de desempenho e integração ao sistema (incluindo requisitos apontados pelo ONS, como parâmetros para conexão e funcionalidades de rede). Isso reduz aventura tecnológica e sinaliza seriedade regulatória. 

A leitura política por trás do movimento

Em tempos de tensão global, baterias deixam de ser só “tema da hora” e viram infraestrutura estratégica. Enquanto o mundo discute choque de petróleo e gargalos logísticos no Golfo, o Brasil tenta blindar o seu próprio sistema contra desperdício de renováveis e contra o custo de acionamentos mais caros em momentos críticos. É uma resposta doméstica, mas conectada ao mundo real.

O mapa do caminho, daqui até 2028

Agora, a transição não se ganha no anúncio. Ela se ganha no detalhe. O bom senso sugere algumas premissas no desenho deste “mapa do caminho” para que o leilão cumpra o que promete:

Edital e regras finais sem ruído. A consulta pública precisa resultar num edital que reduza judicialização e dê clareza sobre garantias, medição, penalidades e parâmetros de operação. 

Cadeia de suprimento e conteúdo local inteligente. O Brasil pode atrair players globais, inclusive asiáticos, mas tem de acoplar isso a uma estratégia de industrialização, serviços, integração elétrica, software e manutenção. Sem isso, vira só importação de hardware.

Integração ONS-distribuidoras-transmissão. Bateria em escala não é “plug and play”. Precisa de planejamento de conexão, critérios de localização e sinal econômico para instalar onde a rede realmente precisa. As diretrizes já falam em critérios sistêmicos, o que é um bom sinal. 

Financiabilidade. Se o contrato for bom, o financiamento vem. Se houver ambiguidade no risco regulatório ou na operação, o custo de capital sobe e o leilão perde eficiência.

Operação em 2028 como teste de maturidade. O primeiro ciclo vai definir a credibilidade do produto “armazenamento” no Brasil, e isso abre ou fecha a porteira para volumes maiores na década seguinte.

Em síntese

O mundo está lembrando, do jeito mais duro, que energia é soberania e segurança. No meio dessa turbulência, o Brasil finalmente sinaliza que quer entrar no clube dos países que tratam armazenamento como peça central do sistema, não como acessório. Se o edital for tecnicamente sólido e politicamente estável, abril de 2026 pode virar uma data de referência, não por discurso, mas por infraestrutura. 

Ronaldo Gerdes
Ronaldo Gerdes
Ronaldo Gerdes é CEO da UCB Power e Conselheiro do Centro da Indústria do Estado do Amazonas

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