“Enquanto o capital e o investimento seguirem sendo feitos como moeda de trocas desiguais e não como interesse de ganho mútuo, seguiremos sob a ameaça da “fuga de investimentos” — é preciso ouvir a Amazônia”
Há uma incapacidade nacional para ouvir a Amazônia. Poucos dias atrás, indígenas protestaram até a queda do Decreto 12.600/2025, que permitiria a concessão de hidrovias na região. Os atos foram após diálogos ou ausências de diálogos, em que as falas e desejos deles eram simplesmente ignorados. Aliás, não só entre eles.
Tudo o que falamos por aqui sobre a mesma pauta tem sido sistematicamente ignorado. Seja das falas das pessoas do meio econômico regional, sejam as representações empresariais, sejam as universidades ou a sociedade organizada em outros campos. Ou seja, a explosão indígena de protestos não era um ato isolado, mas uma representação de anseios mais amplos, mesmo que não fossem unânimes ou alinhados entre si, em especial no que foi o método adotado.

Além da queda do Decreto, sigo, antes e depois, sem perceber a vontade de sermos, como habitantes da região, ouvidos e considerados. Há na prática uma incapacidade institucionalizada de considerar o que se quer na Amazônia a partir da perspectiva de quem mora na região. Há conversas, mas o que falamos daqui é repetidamente ignorado, salvo em raros momentos.
Não existe um construir em conjunto. Por exemplo, após a queda do Decreto, na Folha de São Paulo, saiu um texto do Professor Rudinei Santos criticando a concessão, apoiando a decisão da revogação. Uma rara voz da Amazônia na grande mídia do Sudeste. No mesmo jornal, o Elio Gaspari fez duro texto criticando a decisão, apontando a “fuga de capital” que viria como uma punição indireta pelo ato.
Os portos no Arco Norte continuarão a operar. O caminho do Norte para o escoamento da soja tem sido competitivo, eficaz e rentável. A discussão não é esta. A questão é outra: a incapacidade de ouvir. A guerra é uma escalada de um debate. Quando as forças são desiguais, há vários tipos de combate.
Mas, a pressuposição do diálogo e da busca de consensos construídos entre as partes e o respeito ou desrespeito por linhas sagradas da contraparte são relevantes em qualquer negociação. As linhas sagradas da Amazônia são frequentemente ignoradas. As aspirações da região são quase sempre ignoradas. Só vale o que interessa ao grande capital ou para o “império”, inclusive nos métodos de crescimento. As vocações e caminhos da região são recorrentemente ignorados.
Neste contexto, só haverá esperança quando surgirem vários Planos de Desenvolvimento da própria região. Quando eles forem considerados. Enquanto os anseios regionais não forem os norteadores da construção do futuro na Amazônia, estaremos fadados aos confrontos.
Enquanto o capital e o investimento seguir sendo feito como moeda de trocas desiguais e não como um interesse para ganho mútuo, seguiremos sendo ameaçados de “fuga de investimentos”, enquanto a discussão deveria ser outra. Olharemos para a insegurança jurídica, mas não para a insegurança das pessoas.
Olharemos com atenção para a “insegurança do capital estrangeiro”, mas não para a insegurança dos brasileiros que moram na Amazônia. Prestaremos continência para os mandatários de Brasília, mas não para os povos originários ou moradores. Atentaremos para o interesse do capital, mas não para os interesses dos capitalistas da Amazônia.
